31 agosto 2014

De tanto ouvir colegas encanados com o tamanho e amigas fugindo dos bem dotados (é, tem uma ala que defende a preferência do tamanho M que as satisfaz), imaginei que um apanhado de mulheres desmistificando a tese do “tamanho é documento” poderia aliviar os menos bem dotados.
Bruce Lee já mostrou que, mesmo bem menor, sabia fazer melhor
Claro, este levantamento não é científico ou rigorosamente embasado em estatísticas com massa crítica considerável. Mas já tive professor que dizia que as porcentagens são a forma mais fácil de se manipular dados: elegemos os % que mais favorecem nosso ponto de vista e “está feito”.
Mas nada impede que histórias divertidas de mulheres com alguma experiência aliviem os grilos dos mais preocupados.
Estudei com J.S., que uma vez saiu com um bombeiro (sei, é praticamente uma piada pronta, mas de lá para cá ouvi outras adeptas da mesma atitude) cujo membro era tão generoso pela própria natureza que ela inventou que estava passando mal, com medo de se machucar e deixou o moçoilo a ver navios.
Houve quem julgou um desperdício e quis estar no lugar dela, é claro, somos um bicho contraditório por natureza. Mas F.M. testou e não viu lá muita vantagem na centimetragem caprichada:
“Passei o tempo em que estávamos juntos com infecção de urina. Sei lá, acho que não dilatamos tanto assim na hora do ‘vamo ver’”.
Será?
Com ímpeto de repórter curiosa em matéria comportamental, saí a campo para checar os detalhes sórdidos.

Pinto grande pode não ser uma vantagem

Nem todo mundo se anima a falar quando a polêmica sai dos banheiros femininos. Mas a assessoraM.C. uma vez saiu com um afro descendente que fazia jus à fama: “só que ele não compareceu”. Você desconfia que ela se aborreceu por ficar chupando o dedo? Engano.
“Foi a primeira vez que o cara brochou e dei ‘graças a Deus’”
“Pois é, Kareem, não é sempre que elas preferem”
Tudo indica que ela também temeu estragos posteriores. A professora G.C. saiu uma época com um traumatizado por fofoqueiras anteriores: “uma ex tinha dito que o dele era pequeno e levou um ano para que tivesse coragem de tentar novamente. Não tinha do que reclamar, achei que não procedia a queixa”.
A atriz Ana, que protagoniza a websérie Histórias da Ana, já gravou um episódio em que alertava que o importante nem é o tamanho, mas como usa o dito cujo. E a tradutora F.F. não tem boas lembranças de seu “ficante” bem dotado:
“O dia seguinte era de cura. Inchava e até bolha chegou a fazer. Tinha medo que se ele se empolgasse, ‘desvirginaria meu estômago’. Fora isso era perfeito, bonito, tinha suingue, mas biologicamente não deu para forçar a barra”.

Pinto médio e pequeno, orgulhem-se!

Quem sabe os homens relaxem mais e invistam no começo e fim dos encontros com a mulherada?
A bibliotecária B.M. destaca que são a “cereja do bolo”: “o antes e depois são o que mais contam. Muito afoito não dá né”? A atriz F.B. também não se importa tanto com o tamanho: “ah, teve cara que no dia seguinte me fez cismar que estava com problema físico por me sentir ralada, dolorida. Não dá para ser avantajado e relevar a preliminar, concorda?”
É, parece que a questão de até onde chega é mais forma de contar vantagem no vestiário do que um ponto imprescindível para o sexo feminino.

Tem gosto pra cada pinto

Claro que esse discurso não é unânime. Há anos ouvi da publicitária G.G. que achava a penetração “violenta”. Sem entender a percepção dela, perguntei para a atriz T.M. que foi na contramão da opinião da maior parte de minhas conhecidas: “é mesmo, mas a graça é esta”.
“Aê! Chupa!!!”
Eu? Bem, depois de umas experimentações amorosas com amigas, cuja amizade se dilatou, mas já voltou ao tamanho normal sem me dar frio na barriga no dia seguinte, só há dois anos entendi esta impressão da violência no “rala e rola” com os homens que minha amiga tem.
Foram quase 24 meses com infecção de urina e comprovando que estou no time das colegas que preferem “o tamanho M que satisfaz”. E pela primeira vez, mesmo sentindo que a interação com o mesmo sexo não é minha praia, senti saudades das mulheres, que sabem “ir devagar com o andor”, diferente de alguns que acham que tamanho é documento.
Este fim de semana, engraçado, prestei atenção no meu cachorro enlouquecido com a fêmea da vizinha e ela se esquivando.
Conclui que “nem no reino animal ser afoito é muito bem recebido”.

Visto no: Papo de Homem

  O advir da prostituição moderna foram às mulheres de fios finos do Rei Herodes, que dançavam e no fim da festa, com a permissão do soberano, satisfaziam os convidados. Elas sempre foram postas à margem da sociedade, mesmo prestando serviços ao rei, diretamente. Atualmente, não é diferente, pois as que de alguma forma lucram em cima do próprio corpo são aquelas que sofrem todos os dramas e felicidades de uma mulher comum.

   Existe uma razão introspectiva para o porquê de muitas pessoas acabam indo ser portadora da satisfação plena alheia, quem explica essa teoria é Freud, médico inglês que viveu no século XIX. Anos depois seria a maior tese de estudos de Anthony Guedes, que sempre viveu em busca da ciência por trás do sexo.

  Transpondo todo discurso machista e conservador há sempre usuários ativos da cultura em massa mais humana e fincada ao real contato entre as pessoas, a prostituição. A má estruturação da educação reflete, até mesmo, na polarização de submundos no meio das prostitutas, pois existem aquelas que trabalham para instituições que funcionavam como casas de moça, como no século XVIII.

  A análise da sexologia para a banalização desta profissão é que sempre houve a necessidade destes serviços, mas tudo extrapõe qualquer amostra antropológica que detenhamos. É algo macrossocial, que a principio foi instaurado pela Igreja católica, na época da inquisição no século XIV.

  Portanto, só não mais ocorrerá o desrespeito com os profissionais do sexo quando existir, por meio das politicas públicas, campanhas de conscientização que provam que são cidadãos que ganham dinheiro com o próprio corpo. E, quando a família fornecer informações básicas as crianças de que se deve respeitar todo e qualquer foram de trabalho.

Aluno: Philipe paulino
Professor: Diogo Didier


Não Me Deixe Só

Vanessa da Mata

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Não me deixe só
Tenho desejos maiores
Eu quero beijos intermináveis
Até que os olhos mudem de cor

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Não me deixe só
Que o meu destino é raro
Eu não preciso que seja caro
Quero gosto sincero de amor

Fique mais, que eu gostei de ter você
Não vou mais querer ninguém
Agora que sei quem me faz bem

Não me deixe só
Que eu saio na capoeira
Sou perigosa, sou macumbeira
Eu sou de paz, eu sou de bem, mas

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Eu tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Ah ah.ah ah ah ah ah aah
Ah ah.ah ah ah ah ah aah
Ah ah.ah ah ah ah ah aah

Fique mais, que eu gostei de ter você
Não vou mais querer ninguém
Agora que sei quem me faz bem

Não me deixe só
Que eu saio na capoeira
Sou perigosa, sou macumbeira
Eu sou de paz, eu sou de bem, mas

Não me deixe só
Eu tenho medo do escuro
Tenho medo do inseguro
Dos fantasmas da minha voz

Ah ah.ah ah ah ah ah aah
Ah ah.ah ah ah ah ah aah
Ah ah.ah ah ah ah ah aah

O outro lado da prostituição

      A troca de favores sexuais por dinheiro é uma atividade que foi praticada por mulheres quando as primeiras civilizações se formavam. Embora antiga,a prostituição também está presente nos dias de hoje e tem crescido exponencialmente,visto que a sociedade sexista e movida pelo capital contribui ainda mais para o comércio do sexo. Comércio este que quando não é feito de forma clandestina é realizado por necessidade e ambos proporcionam a exploração sexual.

      Desde séculos passados até hoje a mulher é vista como objeto de desejo,feita para satisfazer o apetite sexual do homem, e por isso é ela que ocupa os bordeis e principais avenidas. A partir dai a prostituição não mais se torna marginalizada, mas está presente em filmes e livros visto como fruto de prazer.

      Em contrapartida, a prostituição também apresenta seu lado oculto baseado na necessidade e busca por melhorias de vida. Uma pesquisa feita pelo Instituto de Proteção à Mulher apontou que 68% das mulheres,que estão no comércio do sexo,afirmam ser impulsionadas pela má condição econômica e falta de oportunidade. Sendo assim,elas encontram no mundo da prostituição uma válvula de escape.

      Nesse contexto,há também o tráfico humano que tem crescido principalmente na America Latina jovens,na maioria meninas, são vítimas da exploração sexual. Inocentemente acabam caindo na lábia de malfeitores que dizem levá-las para um emprego remunerado mas quando chegam ao destino são mantidas na miséria e sujeitas a violência física e emocional.

     Portanto,percebe-se que a prostituição não se refere apenas a troca de prazer, mas sim a ausência de escolhas. Desse modo,é preciso que haja mais oportunidades no mercado de trabalho.E é necessário,também,um maior vistoriamento por parte dos órgãos públicos,para erradicar a exploração sexual em crianças e adolescentes.
                                                                                                                                         
                                                                                                                        Aluna: Nathalia Emmanuella
Professor: Diogo Didier



A expressão mais perfeita que conheço para explicar a brutalidade do acaso em nossas vidas é ainda a de Joan Didion. Ela disse, em simplicidade exata: “A vida muda num instante. Você se senta para jantar e a vida que você conhecia acaba de repente”. Joan, jornalista e escritora americana, escreveu essa frase em seu livro O ano do pensamento mágico, no qual narra a morte repentina do marido e a sua busca para compreender o incompreensível. Nos últimos dias, Renata, a mulher de Eduardo Campos, repetiria aos amigos: “Não estava no script”.
Não poderia estar no script. Poucos homens planejaram a sua carreira política de forma tão meticulosa quanto Eduardo Campos. E então, ele toma café com a família, embarca num avião para dar sequência à sua primeira campanha presidencial, aquela que poderia levá-lo à presidência do Brasil não agora, mas em 2018, e morre. O gesto largo de uma vida interrompido num instante. Antes do final da manhã ele já não está. E os brasileiros de qualquer ideologia, ou sem nenhuma, são atravessados pela tragédia. A do homem perdido, em seu momento de máxima potência, mas também a de ser atingido pela força do incontrolável. Penso que cada um de nós, ou pelo menos a maioria, sentiu a lufada de vento entre as costelas, aquela que está sempre ali, mas fingimos que não existe.
De fato, a morte – repentina ou penosa, como nas doenças prolongadas, precoce ou tardia – é, como sabemos, a única certeza do nosso script. Um dia, simplesmente, já não se está. Como na cena do documentário de João Moreira Salles em que Santiago, o mordomo que dá título ao filme, cita o cineasta Ingmar Bergman: “Somos mortos insepultos, apodrecendo debaixo de um céu cruento e vazio”.
Se fizéssemos um retrato agora, de todos os vivos, teríamos também um obituário: daqui a 100 anos estaremos todos mortos. Olhamos pela janela e todos os que vimos em seu esforço cotidiano, carregando-se para o ponto de ônibus, sintonizando a rádio preferida ao sentar-se no carro, puxando assunto na padaria ou desferindo seu ódio e seu medo em pequenas brutalidades serão finados (palavra de tanto simbolismo), em menor ou maior prazo. Assim como finado será aquele que espia a única paisagem que não muda numa vida humana, a de que, para o indivíduo, o futuro está morto.
A verdade, que talvez nem todos percebam, é que se morre aos poucos. Não apenas pela frase clássica de que começamos a morrer ao nascer. De que cada dia seguinte arrasta o cadáver do dia anterior. De que cada amanhã é um dia a mais – mas porque é um dia a menos. Ao entrevistar os que envelheceram, descubro-os surpreendidos pelo drama menos nítido, aquele se infiltra lentamente nos interstícios dos dias: o de que o mundo da gente morre antes da gente.
Esse é o susto de quem alcançou a promessa da nossa época, a de uma vida longa. A de morrer só, mesmo quando cercado por filhos e netos. Só, porque aqueles que sabiam dele, aqueles que compartilharam o mesmo tempo, morreram antes. Aqueles que conheceram o menino, o levaram embora ao partir. Os que o viram jovem carregaram a sua juventude em lembranças que desapareceram porque já não há quem delas possa lembrar. Só, porque um certo modo de estar no mundo acabou antes. A solidão de estar vivo numa vida que já morreu.
Pouco antes de lançar O ano do pensamento mágico, Joan Didion perdeu a única filha. Depois do marido, a filha. Era a dor não nomeável da inversão da lógica, a de sepultar aquela que deveria sepultá-la. Mas era algo ainda além, o de se tornar a mulher que restou. Seu livro seguinte, Noites Azuis, fala dessa condição, a de ter sobrado viva ao envelhecer. A de se descobrir só e frágil, atenta aos degraus para não cair. Para mim, é um livro melhor do que o primeiro, mas diz de algo ainda mais duro do que a perda do companheiro de uma vida. Talvez tenha feito menos sucesso por falar dessa dor insuportável, em que viver mais do que os seus afetos é ter de viver a morte que ultrapassa a morte.
Pensava que essa era uma condição restrita à velhice. A surpresa final de que o melhor cenário, o de viver mais, era também o de perder mais. Mas descobri que esse morrer começa muito antes. E de forma ainda mais insidiosa. Esses meses de 2014 têm nos mostrado isso com uma força talvez maior. É uma coincidência, claro, não uma confluência escrita nas estrelas ou em qualquer profecia. O mundo da gente, em especial das gentes com mais de 40 anos, porque é nessa altura que sentimos que já temos um passado e o futuro é uma segunda metade incerta, tem morrido muito. E rápido, às vezes um sobressalto por dia, às vezes dois.
Cada um tem seu susto. Acho que o meu foi com Nico Nicolaiewsky, que levava junto com ele momentos em que fui completamente feliz – e são tão raras as vezes em que somos completamente felizes – assistindo aTangos &Tragédias no Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Morreu cinco dias depois de Eduardo Coutinho e Philip Seymour Hoffman, dois gigantes. Cada um com sua tragédia, abriram um buraco na paisagem do mundo. Depois, José Wilker um dia não acordou. E não haveria Vadinho para me assombrar.
Não parou mais. De repente o mundo já não tinha mais Gabriel García Márquez, Jair Rodrigues, Alan Resnais, Paco de Lucia, Shirley Temple, Luciano do Valle, Nadine Gordimer, Paulo Goulart, Bellini, James Garner, Rose Marie Muraro, Max Nunes, Plinio de Arruda Sampaio, Lauren Bacall. No espaço de seis dias de julho, Rubem Alves, João Ubaldo Ribeiro e Ariano Suassuna desapareceram. Rubem Alves, que desfazia anos nos aniversários e dizia que “a hora para comer morangos é sempre agora”. De repente o mundo já não tinha Vange Leonel. Como é possível? Eu a tinha lido no Twitter um instante atrás. E Nicolau Sevcenko se foi horas depois de Eduardo Campos.
Nenhuma dessas pessoas convivia comigo, eu não frequentava a casa de nenhuma. A maioria delas nunca sequer vi. De fato, o que delas vive em mim independe de sua existência física. Algumas são apenas flashes de um cotidiano em que por décadas elas apareceram, seja em novelas, na narrativa de um jogo de futebol, num debate político. Outras, me constituem. Seus livros e músicas não têm idade, nos filmes ainda são jovens e belas. Concretamente, deveria fazer tão pouca diferença estarem ou não aqui, na miudeza dos dias, numa rotina que de qualquer modo não faria parte da minha, quanto Sófocles, que morreu mais de dois mil e quatrocentos anos atrás, ou Shakespeare ou Beethoven ou Picasso. Ou Machado de Assis. Ou mesmo Garrincha. Estes, que conseguiram transcender sua vida ao proporcionar transcendência pela grandeza de sua obra, para as sucessivas gerações, ao infinito, são imortais. É um fato, todo mundo sabe, mas descubro que não é bem assim.
Qual é a diferença de Gabriel García Márquez estar vivo ou morto, se a chance de eu tomar um café com ele era remota e sempre vou ter meuO amor nos tempos do cólera na estante, para que ele possa reviver em mim? O que percebo é que há uma diferença. Há algo de melancólico, desestabilizador, em testemunhar o momento exato em que um imortal morre.
Suspeito que, naquele momento-limite em que a vida se extingue, a permanência da obra faça pouca diferença. Talvez o imortal que morre trocasse toda a sua imortalidade por dividir uma última vez uma garrafa de vinho com o melhor amigo ou por mais uma noite de amor lambuzado com a mulher que ama ou apenas para ler o jornal na mesa da cozinha no café da manhã. Talvez o imortal fique mortal demais nessa hora, fique parecido demais com todos os outros. Como disse Woody Allen: “Não quero atingir a imortalidade através de minha obra. Quero atingi-la não morrendo”. E desde então temo me confrontar com seu obituário numa manchete na internet.
De certo modo, é assim que o mundo da gente começa a morrer antes da gente. Não apenas pela perda dos nossos afetos de perto, mas também pelo filme que Philip Seymour Hoffman não fará ou pelo livro que Ariano Suassuna não escreverá enquanto dividimos com ele o mesmo tempo histórico. Ou simplesmente por nenhum deles poder dizer mais nada de comezinho ou mesmo fazer alguma besteira, qualquer coisa de humano. Deles ficaremos só com o que foi grande, mesmo a bobagem terá de ser relevante para merecer permanecer na biografia. Ao mesmo tempo em que a morte os devolve de imediato à condição humana, os tira para sempre dela. E logo o boteco de João Ubaldo já não terá cheiro.
A primeira vez que senti a infiltração de algo irreversível no meu mundo foi a morte de Marlon Brando, dez anos atrás. A morte ainda não me bafejava como hoje, mas passei alguns dias prostrada por alguém que para mim já tinha nascido imortal. Percebi então que fazia diferença lembrar dele berrando “Steeeeeeeela” em Um bonde chamado desejo e, ao mesmo tempo, poder mencionar qualquer coisa boba como: “Nossa, como ele está gordo agora”. De repente, ele não podia mais engordar nem nos espantar com sua existência descuidada. Só restaria grandioso. E, portanto, fora da vida. (Da nossa vida.)
Marlon Brando, como García Márquez, como Ariano Suassuna, como tantos agora, não se sabiam meus, mas eram. Ao me deixarem, morro um pouco. Uma versão de nós morre sempre que morre alguém que amamos e que nos ama, porque essa pessoa leva com ela o seu olhar sobre nós, que é único. Uma parte de nós também morre quando não podemos mais compartilhar a mesma época com quem fez do nosso mundo o que ele é. E agora, fico esperando a cada momento uma nova notícia, porque sei que elas não mais deixarão de chegar.
Tive uma reação estranha ao saber da morte de Robin Williams. Quantos anos ele tinha?, perguntei primeiro. Sessenta e três. E me senti apunhalada com a resposta. Muito cedo, muito cedo. De que morreu? Parece que foi suicídio. E me senti de imediato aliviada. Pode parecer surpreendente, mas meu alívio se deu porque de que alguma maneira era uma escolha. Não era coração, não era câncer, não era AVC, não era avião. Por mais terrível que seja o ato de interromper a vida, ele pressupõe, em alguma medida, uma potência e um controle.
Pode-se argumentar que uma depressão ou um desespero impede a escolha, mas acho que essa não é toda a verdade. Nossas escolhas nunca são consumadas em condições ideais nem nosso arbítrio é totalmente livre. Só conseguimos fazer escolhas determinadas pelas circunstâncias do que vivemos e do que somos naquele momento. Por mais que nos surpreenda a escuridão do homem que nos deu tanta alegria, de algum modo ele elegeu a hora de morrer. O que para muitos foi razão para aumentar a dor pela sua morte, porque ela poderia ter sido evitada, para mim foi alívio por ele não ter sua vida interrompida à revelia. De algum modo, me soaria mais insuportável se Robin Williams tivesse morrido tão cedo por um infarto ou um acidente.
Acredito mais na interpretação do jornalista americano Lee Siegel, quando ele diz que “talvez tenha sido a empatia que o matou – e não seu desespero com o diagnóstico recente de Parkinson”. A capacidade de Robin Williams para vestir a pele do outro, de todos os outros, levada por ele a patamares quase insuperáveis. “Sua necessidade passional de se transformar em todos que ele encontrava, qualquer que fosse sua origem étnica ou social – como se com isso pudesse vencer sua solitária e irreversível finitude humana.” Há algum tempo o lento morrer do seu mundo o assombrava, segundo os mais próximos Robin parecia incapaz de superar o desaparecimento do amigo e do homem que o inspirou, o comediante Jonathan Winters, que se foi em abril.
Seus fãs, as pessoas cuja vida a sua vida tornou melhor, deixaram flores nos lugares em que viveram seus personagens. Um banco de praça em que gravou cenas de O Gênio Indomável, com Matt Damon. A casa em que foi Ms. Doubtfire, a babá. Era ali que ele morria para nunca morrer. Era ali que ele jamais deixaria de estar. Não há lugar para a morte. Como haveria lugar para a morte? Mas é preciso dar um lugar à morte para que a vida possa continuar. É para isso que criamos nossos cemitérios dentro ou fora de nós. Em geral, mais dentro do que fora. A vida é também carregar os mortos no último lugar em que podem viver, em nossas memórias. E aos poucos nos tornamos um cemitério cada vez mais habitado por aqueles que só vivem em nós.
A morte de Robin Williams, Gabriel García Márquez, Ariano Suassuna e de tantos levou um pouco de mim. Minha morte levará um pouco deles e de tantos, como a lembrança das lágrimas que chorei ao ver Sociedade dos poetas mortos ou a imagem de Aureliano Buendía que só eu tinha ou a minha pedra do reino. Morro um pouco com cada um deles porque vivi um pouco com cada um deles.
É essa a morte silenciosa que vai se alastrando pelos dias. Conto meus imortais ainda vivos, os de longe e os de perto. Digo seus nomes, como se os invocando. Peço que não se apressem, que não me deixem só, que não me deixem sem saber de mim. O acaso, a vida que muda num instante, me assusta tanto quanto esse meu mundo que morre devagar. É essa a brisa quase imperceptível que adivinho soprando nos meus ossos. Muitas vezes finjo que não a escuto. Mas ela continua ali, intermitente, sussurrando para eu não esquecer de viver.
Visto no: El país

Elas estão em todo o lugar. Facilmente identificadas, tem a voz feminina, estão levemente ou muito maquiadas (muitas vezes durante o dia). Usam calças extremamente coladas, coloridas e de cintura baixíssima (a calça santropê das mulheres perde feio). Às vezes se permitem até usar uma peça ou outra feminina, que vai da calça jeans até as coisas mais íntimas. Abusam de joias e adereços em geral. A ideia é ser o mais caricato possível. Sem esquecer, é claro, dos cabelos: escovados, lisos ou encaracolados, pintados ou com generosas mechas. Os cortes são os da hora, porque nada, do pé a cabeça, pode estar desconectado da atualidade.

Essa definição inicial diz respeito a muitas bichas pintosas espelhadas pelo país. Execradas até por boa parte do próprio segmento gay, elas provam, entre outras coisas, a supremacia do homem que se dá o direito de ser delicado, possuindo, assim, uma identidade própria, original. Claro que essa atitude custou a elas um preço alto: o da inferiorização frente as outras Bees, que volta e meia alardeiam que as pintosas são “bichinhas” de categoria menor. Com essa postura, há a fragmentação do movimento homossexual entre as “aceitáveis” (machudas, bonitas, malhadas e discretas) e as “inaceitáveis” (pintosas, drag queens, travestis e transexuais).

Nessa divisão, percebe-se que o que separa o joio do trigo ainda é a figura feminina. Quanto mais próximo estiver do que é ser “mulher”, mais próximo o indivíduo estará do que é ser minoria. No Brasil isso se “justifica” pela a história de segregação vividas por mulheres e gays. Fazendo essa retomada, entende-se melhor a ojeriza que alguns, até gays, nutrem por aquelas mais caricatas. É a heteronormatividade, a qual transpassou as barreiras de gênero e identidade de gênero, adentrando no universo homossexual e, sorrateiramente ficando raízes entre aqueles que, ao invés de se unir, brigam silenciosamente em ter si.

Após saber disso, percebe-se porque a postura de algumas bichas incomoda tanta gente. Elas curtem divas internacionais, até discutem entre si pela Gaga ou a Madonna. Batem cabelo na boate e se entregam a um bom funk. São fã dos shows das Drags Queens. Acompanham a moda à risca e sabem tudo o que é dessa e da próxima estação. Não sentem vergonha de expressar o que sentem em seus Tumblr, Twitter ou no Instagram. Enquanto ou outros, mesmo assumidamente gays, escondem suas emoções e preferem uma vida mais “tímida” ao invés de soltar a franga, literalmente falando. Ou pior, criam superioridades para justificar o recalque que sentem por não serem como as pintosas.


No entanto, tudo isso só se encaixará com o perfil e bicha que, mesmo sendo machuda, durinha e musculosa, acha que tem o direito de menosprezar as outras Bees por isso. Mas, há muitos homossexuais que por razões diversas preferem uma vida mais discreta, no entanto não se utilizam disso para atacar que optou por uma vida mais glamorosa. Pelo contrário, quem tem uma maior aceitação por si mesmo entende bem o outro, pois sabe que a individualidade é fundamental para se harmonizar uma boa convivência. Entretanto, parece faltar a muitas bichas essa consciência, da qual machudas e pintosas pudessem viver sem maiores conflitos.

Por trás das cortinas, o teatro dramático da prostituição.
       
     Assim como em um espetáculo teatral, onde no final fecham-se as cortinas para esconder o elenco, a prostituição metaforiza isso. Escondidos por trás das cortinas do capitalismo, mulheres e crianças buscam vieses de como sobreviver, muitas vezes encurralados e sem opções sobre seu estado econômico e social.

       Como maioria, a área sexual é mais habitada por mulheres. Sobre isso, pesquisas mostram que os motivos pelos quais isto ocorre, em boa parte das vezes, estão ligados aos recursos financeiros, provenientes da falta de emprego, decorrente da escassez educacional.

       Anteriormente, iludidas por condições melhores de vida, encontram-se mulheres e crianças que acabam sendo traficadas e/ou exploradas sexualmente, preenchendo assim o mercado da prostituição. E as que estão nas ruas, patrocinadas por cafetões ou trabalhando para si, resta o apoio do governo.

       A mais recente tentativa é a Lei Gabriela Leite, baseada em países como África do Sul e Alemanha, que pretende assegurar mais direitos, mas se for analisado clinicamente, apoiam a exploração e a cafetinagem, visto que nesses países mostram cerca de 50% desde sua aprovação.

       Portanto, procurar soluções a curto prazo é inviável para a prostituição, visto que isso já ocorre a um longo espaço de tempo. Porém, não bloqueia o governo de procurar estratégias e formas de administração que beneficie ou suporte os profissionais do sexo, buscando caminhos alternativos, tais como investimentos na educação.



Aluna: Larissa Furtado
Professor: Diogo Didier

          Em meio às muitas características apresentadas pela Região Nordeste do Brasil, a que mais se destaca é a seca. Com a escassez de chuva e a baixa umidade, o que gera um clima seco, esse problema cíclico e natural só vem se abatendo cada vez mais forte no semiárido nordestino. E traz prejuízos não apenas ao âmbito social, mas também, drasticamente, à agricultura e pecuária do interior brasileiro.
   
            O sofrimento de quem fica e persiste em não abandonar a identidade está marcado na luta diária pela sobrevivência, situação ainda agravada pelo descaso público. Já dizia Ariano Suassuna: “Alguns avistam a seca, poucos enxergam a seca.” Euclides da cunha também levantou seu olhar para esse drama, reconhecendo a bravura do homem do sertão: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

          Diante de um problema tão antigo como este e ao mesmo tempo tão previsível, fica evidente a completa ausência de políticas públicas permanentes, sem contar com a inexistência de apoio a assistência técnica contínua que garanta a alternativa para a sobrevivência dos produtores rurais. A falta desses recursos, diante das intempéries  que a natureza produz de tempos em tempos no sertão, acentua ainda mais os prejuízos.

        Portanto, fica fácil perceber que uma situação lamentável como essa não parece ter sensibilizado de forma efetiva os governantes. O semiárido precisa de projetos e programas a longo prazo. Só após investimentos em programas estruturantes para o desenvolvimento de atividades em meio a esse ambiente hostil é que esse setor irá obter uma melhora.

Aluna: Mariana Machado
Professor: Diogo Didier
Relatos da Costa Rica. Por Juliana Bittencourt, da Caravana Climática

A fronteira da Nicarágua com a Costa Rica é um corte brusco na América Central. A partir do momento que a cruzamos nos damos conta de que, não só a paisagem, mas também os contextos político e econômico mudam.

O que mais se nota é a aparente conservação da natureza. O país se promove com o slogan “Costa Rica essencial”: um paraíso tropical atraente para os organismos financeiros internacionais, os especuladores e investidores do mercado de carbono, o turismo que arrasa a costa atlântica e a pacífica. É a apresentação da Costa Rica como um modelo para a América Central. Neste caso, a influência estadunidense se estrutura de outra forma: não através da militarização e das alianças entre empresários e políticos corruptos, mas pela afirmação de uma imagem, de um modo de vida a ser exportado e pela mercantilização da natureza. Propõe-se a conservação das florestas como uma paisagem verde inabitada. Em contraposição, os povos autóctones e campesinos enfrentam ameaças de expulsão de suas terras por latifundiários e por megaprojetos turísticos, a contaminação da água pelos agrotóxicos usados nas monoculturas e consequentes violações de direitos humanos.

A Costa Rica é também um estado confessional, ou seja, católico, o que significa que se pagam tributos à Igreja e que sua moral católica abrange várias esferas da vida e da atuação do Estado. Se promove uma educação baseada em dogmas religiosos, na heteronormatividade e na família tradicional como modelos únicos a se seguir. Condenam-se a diversidade sexual, o aborto e até mesmo métodos contraceptivos de emergência.

Nesse contexto, surge uma série de coletivos que, através da intervenção urbana, da performance, de ações públicas e de publicações independentes, que visibilizam a luta antipatriarcal e reivindicam a autonomia das mulheres para decidir sobre seus corpos. De acordo com Z. M., do coletivo La Tule: “O aborto está proibido, mesmo que se realizem cerca de 27 mil abortos por ano. Inclusive proíbem abortos terapêuticos, como no caso de A. N.: a fizeram ter uma gravidez de 6 meses de um feto que não teria vida extrauterina. Ou como o caso da violação de uma menina (Rosita) de 9 anos, que ficou grávida e sua mãe teve que levá-la à Nicarágua para fazer um aborto, em 2013. Fizemos uma performance, nos enchemos de sangue e começamos a cantar uma reza de um pai-nosso modificado que pede a descriminalização do aborto na Costa Rica. Também colocamos pôsteres de vaginas gigantes, que pintamos com instruções de como se masturbar ou com frases como ‘A vagina é uma parte do corpo, não um palavrão’. Em geral, as pessoas os odeiam, os arrancam, os destroem, os cortam em pedaços e picham por cima deles. Não suportam ver uma vagina, mas se veem o desenho de um pênis não fazem nada.”

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Santa Clitoris

Daniela Martinez e Sarita Bonilla realizaram o documentário Santa Clitoris, que acompanha a ação de três coletivos: La Tule, Las Caracolas e La Uve. O documentário é também um importante registro porque apresenta as formas de ação e organização de jovens mulheres. Elas rompem com ofeminismo institucional ao criar espaços alternativos para discussão, e se apropriam de espaços públicos. Os coletivos são diferentes, mas coordenam ações conjuntas, como a que aparece no documentário: a participação no contrafluxo de uma marcha convocada pela Igreja Católica, na qual gritavam alusões ao aborto como “Eu abortei”. Sarita conta que elas se perguntaram se existiam formas alternativas de fazer feminismo e se poderia ser através da arte. Elas conheceram os três coletivos e decidiram fazer o documentário porque, além de mapear essas práticas feministas, ele apresenta o trabalho de coletivos que já têm trajetória e presença.

Santa Clitoris foi realizado com pouquíssimos recursos (cerca de US$ 10) e é parte de um conjunto de documentários de Sarita que aborda temas de gênero: “Tenho três documentários que acabei de terminar com Lucia Faron – trabalhamos juntas no Canal 15. São documentários que tratam da luta de mulheres indígenas e campesinas. Escolhemos quatro mulheres da Rede de Mulheres Rurais, cada uma delas defende um tema: a água, as sementes, a autonomia indígena e uma delas luta contra as empresas bananeiras. Outro documentário trata do tema do parto humanizado. São completamente distintos de Santa Clitoris”.


Eu aborto/ Tu abortas/ Todxs calamos

Tanto o coletivo La Tule quanto o La Uve surgiram a partir de reuniões organizadas por jovens mulheres para tratar de temas que as interessavam. No caso do La Uve, elas decidiram compilar as conversas e ideias em uma revista independente com a qual outras mulheres se identificassem e pudessem colaborar. Em seguida, começaram a fazer intervenções artísticas e a utilizar as paredes como forma de comunicação e expressão. M. F. conta que foram influenciadas pelo movimento Riot Grrl: “A maior influência que temos é o movimento Riot Grrrl, que surge nos Estados Unidos em torno da música punk e hardcore. Em uma cena só de homens, as meninas que queriam formar bandas e participar eram discriminadas. Surge este movimento contestador, no qual elas começaram a gritar, a fazer música e fanzines, publicações independentes que são fotocopiadas e distribuídas por contribuições voluntárias nos shows. Nos inspirou”.

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Z. M. conta que o que as motivou a organizar o coletivo foi que não existia uma organização de mulheres irreverentes que tomassem as paredes e as ruas para denunciar o patriarcado: “Gostamos desses espaços livres, autogeridos, criativos, trans, indecentes para a dupla moral, nos quais nenhuma feminista consagrada nos diz o que temos que fazer. Saímos para fazer uma ação contra a Marcha do Ódio, como chamamos uma convocatória do setor católico-religioso para que as pessoas votassem nos partidos que estivessem contra o aborto e o matrimônio gay na Costa Rica”.

As meninas da Tule trabalham com estêncil, grafite, pôsteres, adesivos, fanzines e com performance nas cidades de São José, capital do país, e Cartago. “Começamos destruindo a publicidade sexista. Adoramos jogar tinta nestes banners gigantes com corpos de mulheres de publicidade de roupa íntima. Nos indignamos com a vergonha que nos fizeram sentir da menstruação, da culpa de que se utilizam asempresas para vender absorventes que tantas infecções nos provocam. Desenhamos calcinhas manchadas de sangue, pichamos banheiros, nos manchamos de sangue menstrual e caminhamos na contramarcha de uma peregrinação de 2 milhões de pessoas até a Virgem de los Angeles [uma pequena estátua, também conhecida como La Negrita, de provável origem indígena, que representa a Virgem Maria. Em 1824, a Virgem foi declara padroeira da Costa Rica e, no dia 2 de agosto, data em que a estátua foi encontrada, peregrinos caminham 22 quilômetros de São José até a basílica onde La Negrita se encontra]”.

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Para M. F., a diferença entre o feminismo que elas defendem e o feminismo institucional é que o delas é um feminismo anticapitalista e antipatriarcal, vinculado a outros movimentos: “Existem muitas desigualdades, e não se pode falar de um só feminismo, no qual pensamos que todas as mulheres são iguais, porque nos atravessam questões de classe, de status migratório e de nacionalidade. É muito diferente, por exemplo, a situação de uma mulher costa-riquense que está na universidade da [situação]de uma mulher [imigrante] nicaraguense sem documentos, que tem que trabalhar para mandar dinheiro para sua família. Também reconhecemos a importância do movimento ecológico dentro do movimento feminista. Nos solidarizamos com outros movimentos, pela diversidade sexual, pela educação pública, contra a mineração e os transgênicos, em defesa da natureza e do direito dos povos aos seus territórios”.

A atuação desses coletivos é radicalmente diferente da do feminismo mais institucionalizado. Eles são independentes, autônomos e autogeridos. De acordo com M. F., durante muitos anos o feminismo praticado na Costa Rica esteva ligado às universidades, a certas instituições do Estado, como o Instituto da Mulher, e a ONGs que trabalhavam com mulheres com foco em reformas institucionais, legislativas e legais.

Os coletivos rompem com essa história porque não têm uma linha hierárquica para seguir, não dependem de financiamento e, consequentemente, não precisam prestar contas do que fazem: “Consideramos que pode até ser importante trabalhar no nível da Assembleia Legislativa, mas nós queremos trabalhar nas ruas com as pessoas, porque acreditamos que são urgentes as mudanças na cultura, mudanças estruturais na forma como as mulheres são tratadas. Na Costa Rica existem muitos machismos, feminicídios e violências contra as mulheres, situações que consideramos que temos que atacar desde a raiz. Muita gente acredita que, porque tivemos uma mulher na presidência e muitas mulheres estão alcançando postos de poder no governo ou nas empresas, [as mulheres] estão adquirindo poder dentro dessas mesmas estruturas patriarcais. Muita gente acredita que se respeitam os direitos das mulheres, mas não existe uma situação real de igualdade e equidade simplesmente porque as mulheres podem ter salários parecidos com os dos homens. Não passa de uma maquiagem, porque continuamos sendo discriminadas, maltratadas e não podemos decidir sobre nossos corpos”.

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Para Z. M., “o feminismo na Costa Rica se tornou muito institucional. Não quer dizer que antes não se fizessem ações diretas, mas ultimamente, se alguma menina questiona ou desafia alguma feminista consagrada, pode ser perseguida e excluída. Parece que todas as lutas pela defesa dos direitos das mulheres estão arquivadas em projetos de lei na Assembleia Legislativa ou em cursos inúteis nos quais alguns temas não são tocados. Parece que, para elas [as feministas consagradas], os triunfos das mulheres recaem na lei sobre cotas para mulheres em postos políticos. A respeito do aborto, da violação de meninas, do assédio nas ruas, do feminicídio, da publicidade sexista/homofóbica não se fala, não se faz nada”.

Os coletivos atuam principalmente na capital, São José. M. F. reconhece que faltaria vincular de outra forma esse movimento à ruralidade e às comunidades e organizações fora da cidade (já que a realidade das mulheres nessas regiões é ainda mais difícil) e, assim, trabalhar para além das cidades, do universo acadêmico e dos lugares mais próximos. Posição compartilhada por Z. M., que reforça a importância do trabalho da Rede de Mulheres Rurais com as pessoas afetadas pelas monoculturas do abacaxi e deslocadas dos territórios indígenas.

Nem todas compreendem ou entendem o feminismo da mesma maneira, mas se afirmam como feministas tratando de reconhecer suas vivências como mulheres e acreditam na reivindicação de feminismos “descoloniais”, feminismos comunitários, radicais, e os que precisam criar juntas. Feminismos que nos ajudam a pensar que existe inconformidade, radicalismo e nos dizem que a paisagem verde costa-riquense é habitada e precisa ser reinterpretada e reinventada criticamente.

Agradeço a M. F., do coletivo La Uve, a Z. M., do coletivo La Tule e a Sarita Bonilla, pelas entrevistas realizadas na cidade de São José. Também agradeço às/aos companheirxs da Caravana Climática, que gentilmente me ajudaram, e assim pude refazer o texto perdido por um tecla erroneamente pressionada.
Juliana Bittencourt é integrante da Caravana Climática.
A Caravana Climática é uma gira de ação pela América Latina. O objetivo é chegar a Lima, no Peru, para a COP20 – Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas. No caminho, realizaremos algumas visitas a comunidades em luta por justiça climática e um projeto de documentação audiovisual que será publicado na nossa página web. Para a Geni, escreveremos uma série de textos a partir do encontro com associações de mulheres, coletivos e individualidades feministas e outros temas afins que compartilharemos durante o trajeto.

Visto no: Revista Geni
Algumas militantes LGBTs nos últimos dias denunciaram em suas timelines um blog chamado Mais Discreto. Por alto, trata-se de um canal de entretenimento e informações pertinentes (na avaliação dos criadores do blog) para homens gays, tipo um yahoo perguntas pras bichas. Em especial, chamou a atenção das militantes um post cujo título é: Dicas de como não ser um gay afeminado.[1]
Sim, isso mesmo. A ideia era fazer um tutorial sobre como ser mais másculo, menos pintosa, mais enrustido. O blog trazia 5 conselhos:
1º Não fale gesticulando com as mãos, acaba denunciando alguma coisa já que é um pouco feminino
2º  Não ande rebolando, se observar quando estiver andando ajuda bastante a evitar esse hábito que muitos tem e não sabem como tirar, pedir a amigos (íntimos) que façam correções também ajuda
3º É fã de alguma Banda? Cantora? não demonstre isso , ou pelo menos não faça desse fanatismo uma coisa pública
4ª Postura ao andar e sentar também é importante, andar com a bunda empinada ou mesmo sentar de forma irregular pode acabar “denunciando” alguma coisa
5ª  Quando ver qualquer foto de homem, ou mesmo um homem bonito é importante olhar de forma discreta se isso for indispensável  nem mesmo as mulheres gostam de ser “secadas” por homens, imagine – se na situação oposta
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A advertência é a seguinte: cara, quer ser homossexual? Beleza, mas viadinho já é vandalismo! É um processo de construção do gay ideal, sobre o qual temos muito o que refletir. Misógino por excelência, ele formula pra gente que quanto mais distante do que se entende por feminino, mais aceitável a subjetividade. Se voltarmos e lermos essas dicas com outros olhos veremos, na verdade, um belo tutorial com tudo que um gay pode fazer para não parecer uma “mulher”.  Gay massa é gay Homem: quem nunca ouviu isso?
Naturalizando o binarismo de gênero que as feministas denunciam há muito tempo, o texto traz pra gente o que são coisas que homens devem fazer em oposição às coisas que as mulheres fazem. O gay ideal, por isso, tem que coçar o saco, cuspir no meio da rua, peidar na sala de TV, não lavar o prato, gostar de futebol, falar grosso e de preferência sem muita demonstração de afeto, ser pintudo, sarado e bundudo, porque ser gay ideal também é ser um projeto de homem ideal. Projeto porque o homem ideal é um símbolo heterossexual, mas o gay ideal herda outros atributos deste, sobretudo a cor da pele: de preferência branca!
Interessante observar que a masculinidade aqui cria nivelamentos e aparece como um termômetro que afere o quão gay você é – e numa sociedade homofóbica o mais legal é ser menos gay – como se isso existisse.  A violência nesse discurso se intensifica ainda mais porque consegue se travestir muito bem de segurança e proteção. Nos comentários no blog é possível ler pessoas que adoraram a iniciativa porque acreditam que ser afeminado dá muito trabalho, se sofre mais discriminação, mais preconceito, tudo é mais difícil. A mentalidade é: se o mundo é homofóbico, melhor que eu não dê pinta para não ser alvo.
Isso parece até fazer sentido: se você apanha quando anda de mãos dadas com sua namorada, melhor não fazer isso, certo? Errado! Com essa postura acabamos criando uma lógica esquisita, que não toca no cerne do problema – a realidade da homofobia -, mas apenas criminaliza a própria vítima. A resposta que nós damos ao patrão que demitiu o funcionário é que na verdade o problema foi o cara ter dado sinais da sua homossexualidade; o erro, no fundo, é ser gay na frente dos outros.
Chega-se, aqui, àquela velha problemática do público versus o privado. Essa dicotomia é uma presença constante nas sexualidades desviantes. Fazendo o recorte para gays, lésbicas e bissexuais, Sedgwick em A Epistemologia do Armário[2], sustenta que o armário é a grande opressão LGBT, justamente porque ele significa o não-dito, o proibido, porque ele joga uma vida pra dentro de quatro paredes.
Se analisarmos algumas expressões cotidianas veremos como essa necessidade de esconder algo é bem explícita. Por exemplo: quem nunca foi perguntado: “Sua mãe sabe de você…?” Ou então ouviu: “Nossa, não sabia que fulano era.” Vem sempre aquele pigarro na garganta e a gente logo se lembra que não se pode falar a palavra que todo mundo sabe qual, ainda mais se tiver uma criança por perto. Gay, viado, sapatão, travesti… são palavras que ofendem, é feio falar e isso tudo é processo do armário, que traz o privado para marginalizar uma identidade.
“Mesmo num nível individual, até entre as pessoas mais assumidamente gays há pouquíssimas que não estejam no armário com alguém que seja pessoal, econômica ou institucionalmente importante para elas. Além disso, a elasticidade mortífera da presunção heterossexista significa que, como Wendy em Peter Pan, as pessoas encontram novos muros que surgem à volta delas até quando cochilam. Cada encontro com uma nova turma de estudantes, para não falar de um novo chefe, assistente social, gerente de banco, senhorio, médico, constrói novos armários cujas leis características de ótica e física exigem, pelo menos da parte de pessoas gays, novos levantamentos, novos cálculos, novos esquemas e demandas de sigilo ou exposição. 
Mesmo uma pessoa gay assumida lida diariamente com interlocutores que ela não sabe se sabem ou não. É igualmente difícil adivinhar, no caso de cada interlocutor, se, sabendo, considerariam a informação importante. No nível mais básico, tampouco é inexplicável que alguém que queira um emprego, a guarda dos filhos ou direitos de visita, proteção contra violência, contra “terapia”, contra estereótipos distorcidos, contra o escrutínio insultuoso, contra a interpretação forçada de seu produto corporal, possa escolher deliberadamente entre ficar ou voltar para o armário em algum ou em todos os segmentos de sua vida.” 
Quando a gente diz que homofobia mata não necessariamente reivindicamos o sangue, mas também nos lembramos de posts como o desse blog, que empurra subjetividades pra debaixo do tapete, poda a irreverência em nome da construção de um personagem que vai sempre estar à margem, em nome do bom convívio com o homofóbico. Entende bem errado quem acha que o movimento LGBT busca tolerância, busca o direito de se enfurnar em quartos e becos escuros; se limita muito aquele que se contenta com o direito de participar de um aplicativo temático para pegação no celular, que é mais uma apropriação dessa guetificação por parte de algumas empresas do que uma inclusão de fato: é contra essa lógica que nos obriga a recuar que lutamos e reivindicamos as purpurinas.
Ser bafoneira é uma necessidade histórica, mas também o é a responsabilidade de não achar que a simples emancipação pessoal é suficiente para mudar o mundo, de fato. Temos o desafio de movimentar tudo isso, buscar outras respostas e precisamos, para tanto, não estar sozinhas/os. Se organizar coletivamente é se permitir enxergar a totalidade, buscar outras experiências e novos recortes que interseccionam uma luta específica. As opressões são uma experiência de carne e osso, são esses os corpos que precisam se levantar contra o que fere.
Se uma pintosa incomoda muita gente, todas elas juntas fazem a revolução!
Por Hugo Sousa da Fonseca      
Visto no:  PET Direito UNB