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28 março 2019



"Apesar de conhecer a simbologia que o termo "sexo frágil" carrega ao longo da história, nunca pensei que ele poderia portar outra conotação para além daquela que inferiorizou as mulheres por tanto tempo. Essa é uma das novidades dos tempos nefastos de agora, a capacidade inventiva de atribuir conceitos piores ao que já era ruim. Isto porque, em plena comemoração do dia Internacional da Mulher, o sexo continua sendo frágil, não apenas o delas, mas o de todos. Nunca se fragilizou tanto este assunto quanto no modelo inquisitorial que governa o Brasil de hoje.
Saímos da seara do tabu e estamos rapidamente adentrando às cercanias da proibição. A presidência censura qualquer tentativa salutar de discutir questões ligadas a sexo, sexualidade, gênero e identidade, demonizando estes temas nos lares brasileiros onde pouco se problematiza tais pautas. Setores ultraconservadores religiosos aproveitam a deixa presidencial para coagir a sociedade leiga a tratar com mais recato àqueles pontos, ignorando eixos transversais de cunho científico comprovadamente estudados. Na fogueira de vaidades em torno disso, quem está sendo levado às chamas são os jovens.
Já nas escolas, temáticas ligadas a feminismo e machismo são vistas como ideologias, não como problemáticas emergenciais para minar as inúmeras violências sexistas que assolam o país. O "Kit gay" é inventado para causar mais polêmica entre os ignorantes, alavancando a escalada do conservadorismo na política. Além disso, tratar de DSTs e gravidezes indesejadas também é um risco, já que os jovens não podem ter acesso a conteúdos didáticos que mostrem como por uma camisinha e quais são as partes que compõem uma vagina; na recente remoção da Caderneta Saúde do Adolescente.
Enquanto de um lado o governo tenta inutilmente enfraquecer o debate sexual, na outra margem do rio a cultura mainstream segue sexualizando a juventude por meio da mídia, da moda e da música. Meninas são retalhadas em bundas e peitos para atender aos anseios machistas da sociedade que corporifica seus corpos, mas não as ensina devidamente sobre prevenção e a autonomia do prazer sexual. Assim como elas, os meninos também são incitados a iniciar precocemente na vida do sexo sem quaisquer responsabilidades com o próprio corpo e o do outrem. Ou seja, impedir que a juventude tenha contato com o sexo é praticamente impossível.
Nossa sociedade cheira a sexo. O erotismo é a mercadoria mais barata do mercado. Logo, não seria mais lógico atribuir valor a esse produto para que os mais jovens entendessem a importância que há por trás do ato sexual? Ao contrário da censura, que é inútil na era da internet, por que não tratar com mais naturalidade a questão, esvaindo do discurso a visão pecaminosa que resiste em torno do sexo? Será mesmo que evitar mostrar pênis e vaginas na adolescência, bem como suas funcionalidades, é o caminho mais acertado para construir uma vida sexual plena? Quais são os reais temores governamentais por trás dessa perseguição ao orgasmo?
Antes, é preciso lembrar que sexo é conhecimento de si mesmo e do outro. Decerto, as pessoas que têm uma vida sexual bem resolvida tratam com mais naturalidade as variações em torno deste campo. Porém, quando fragilizado sexualmente, o indivíduo entra na paranóia hipócrita que resume o coito a dois à procriação, numa visão medieval sobre o prazer humano. Aí vem preconceito, céu, inferno, pode, não pode, etc, etc, etc. É raso, é tosco, é ineficaz. Logo, neste dia Internacional da Mulher, para além das merecidas homenagens, vamos fortalecer nosso sexo, exaltar todas as sexualidades, legitimar as identidades sexuais, extirpando mais essa visão pejorativa sobre o "sexo frágil." Se for para fragilizar, que façamos isso com a política. Lá está a parte denotativamente mal resolvida do país. O sexo frágil está na presidência."


"Dizer que uma escola de samba sambou na cara da sociedade é um trocadilho que merece ter seu pleonasmo perdoado. A transgressão na linguagem aqui está a serviço de algo maior. A Estação Primeira de Mangueira trouxe para a avenida um enredo certeiro: "A História que a História não Conta", do carnavalesco Leandro Vieira. Numa época de apagamento e deturpação dos registros históricos - como ocorreu com o "incêndio" ao Museu Nacional e os ecos ignorantes em torno da volta à Ditadura Militar - é magnífico exaltar através do carnaval a verdadeira história do Brasil.
Dessa vez, a perspectiva era dar voz aos historicamente emudecidos: índios, negros e pobres. As maiores minorias do país ganharam a merecida representatividade frente a esse governo escatológico (o twitter está aí de testemunha), que tenta minar a arte, cultura e a educação do seu fazer crítico e reflexivo. Inclusive, antes do sambódromo sambar na face do preconceito, as ruas já traziam sua insatisfação ao atual governo branco, elitista e agrário, por meio dos blocos que bradavam: "Bolsonaro é o CARALHO!". Na avenida do samba, tão eficiente quanto às ruas, a Mangueira trouxe fundamentação à crítica dos poucos pensantes que ainda restam na nação.
O carnavalesco consultou escassas fontes históricas para trazer ao sambódromo o Brasil que muitos de nós desconhece e que a direita ultraconservadora luta para que seja esquecido. Para além do "Agro é tec, Agro é pop, Agro é tudo", a mangueira começa seu desfile dizendo que a nação é dos índios, e que a intervenção europeia deturpou a imagem desses brasileiros ao ponto de acharmos natural o seu massacre de outrora e de agora. Para contar a história negra, ícones emblemáticos como O Navio Negreiro, Dandara e o quilombo de Zumbi dos Palmares foram enaltecidos. A pobreza desfila decorrente de todo o legado deixado pela exclusão dos indígenas e da negritude, renegando-os aos guetos e a morte iminente.
Mulheres incríveis também foram citadas como Zuzu Angel e Marielle Franco. Aliás, na comissão de frente, a Mangueira já trazia o tom do lacre que estava por vir, ao retratar a pequenez dos pseudos heróis nacionais frente a agigantada história indígena e negra no Brasil, tão pouco difundidas. A faixa escrito "PRESENTE" em letras garrafais não se tratava apenas de uma menção a Marielle. Era um aviso aos ditadores de plantão que subliminarmente devia ser lida como: "ESTAMOS AQUI!". E estamos mesmo! Nossa posição na corda não está mais no lado mais fraco, e a Estação Primeira confirma isso ao desconstruir as mentiras sobre o povo que construiu o Brasil.
De salto quinze, a Mangueira recria a bandeira nacional trazendo as palavras de ordem mais emergenciais do momento: Índios, Negros e Pobres nas cores verde e rosa, já que o verde, amarelo, azul e branco não representam nossa pátria como um todo. Foram tantos pisões na avenida do samba que o espectador mais atento ficou facilmente sem fôlego. Foi um desfile, antes de tudo, corajoso nesta era de covardia e dissonância nos discursos. Uma prova de que a arte pode, e deve, ser um instrumento contra a tirania do preconceito, bem como o avanço da irreflexão na sociedade.
Porém, mais que isso, um recado as sandices políticas que tentam apagar a história de uma nação marcada pela intolerância. A Mangueira pisoteou a cara de muitos destes canalhas que se apossaram do poder e querem reescrever a história através do medo. Que outras escolas de samba, mídias televisivas, artistas em geral, aproveitem esse embalo e façam artes engajadas em denunciar as mentiras que nos ensinaram como verdades. Sambar na cara da sociedade apenas no carnaval é insuficiente. Precisamos sambar também o ano todo. A Mangueira fez a sua parte, falta você."

10 abril 2018


Texto de Juliana Romão para as Blogueiras Feministas.
O título não é uma brincadeira tipo trava-língua ou inventa-palavras, são flexões de profissões e cargos no feminino. O ouvido estranha como uma incorreção gramatical, erro de quem não ‘sabe falar direito’, quiçá uma piada. O descrédito aos nomes das profissões das mulheres reflete e legitima práticas de desigualdade e opressão, que transferem para a linguagem corrente a naturalização da dominação de gênero nos espaços profissionais (e sociais, legais, políticos, familiares, escolares, midiáticos).
As relações são assimétricas. O homem é o trabalhador externo, remunerado, racional e ‘provedor’, o avesso do papel prendado tatuado nas mulheres, aprisionadas ao perfil de ‘dona de casa’ ou ‘doméstica” — a depender do recorte de classe e raça – um trabalho necessariamente desqualificado, interminável e, principalmente, invisível. A palavra-imagem masculinizada oculta o feminino e perpetua a hierarquia tradicional.
Na vida cotidiana, como bem compara a pesquisadora franco-brasileira Marie-France Dépêche, nossa ‘língua materna’ está mais para ‘língua paterna’. Todo o entorno extralinguístico – o poder de quem fala, o contexto, a formação ideológica – ultrapassa a camada gramatical e orienta a construção do discurso, fazendo do descaso às flexões uma negação à identidade das mulheres. “Talvez seja a maior violência quando a linguagem dos homens apaga a presença do feminino na sociedade. Eles costumam se dirigir somente uns aos outros, ‘curto-circuitando’ as mulheres da confraria masculina” (1), resume Marie-France.
O ambiente profissional é apenas um entre os espaços de opressão pela palavra, mas que merece um olhar atento por ser, para as mulheres, um campo desafiador de luta por igualdade, reconhecimento e quebra de estereótipos. Quando a situação, função ou profissão da mulher deixa de ser falada no feminino, ela é expulsa da existência, tem negada a sua identidade. O cargo no crachá é masculino, quem o ocupa é um detalhe.
Por não reconhecer palavras como oficiala, muitas pessoas acham que essa profissão exercida por uma mulher não existe. E quando a encontram, ou com uma pilota, quem sabe uma bacharela, ou uma regenta, o arquivo mental leva centésimos de segundos para ‘chamá-la’ no masculino (a oficial) e recompor a imagem dentro da ‘normalidade’. Essa mesma que não se opõe à profissão de professorA, compatível com a marca dócil, organizada e cuidadora etiquetada ao ‘sexo frágil’. O mapa de valores não decepciona o estereótipo.
O ‘padrão’ linguístico supervaloriza o masculino como gênero e como falacioso genérico (o homem é o homem e é também todo o mundo), apagando da vida real as mulheres e quem destoa do perfil. São representações aprendidas e confirmadas na escola, em casa, nos grupos sociais, livros, leis, mídias — uma negação absoluta (porque imperceptível) à presença feminina na expressão do mundo. “Se a cultura é sexista, a linguagem tem esse tom”, confirma a linguista, educadora e escritora costarriquenha Yadira Calvo.
É necessário o rompimento com esse lugar social, a partir do uso adequado das flexões de gênero e de diversas alternativas gramaticais que coletivizam e incluem. A transformação deve começar agora, na escolha das palavras — falar é um exercício de poder, é posicionamento.
A primeira presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, fez girar a roda da linguagem. Quando eleita, pediu para ser chamada de presidenta — nem precisaria, pois a desconhecida lei 2.749/1956, assinada por Juscelino Kubitschek, lá em 1956, determina que se use a forma feminina para designar cargos públicos ocupados por mulheres. Pedido negado, lei desprezada. O recado dos meios de comunicação, poderosos agentes de socialização de valores, foi claro: “a presidente”.
Precisamos contrariar esse ‘corretor ortográfico’ que desfaz as palavras não reconhecidas e chama-lá de presidenta sim, como ato político, intervenção linguística, palavra-ação. A importância de nomear devidamente a presença e reconhecer o espaço embasam também a representativa lei 12.605/2012, assinada por Dilma, que exige que os diplomas tragam a flexão de gênero da profissão ou grau. Novos óculos para velhos olhos.
Quanto mais a língua representar a realidade e as pessoas que nela vivem, menos sexista será a nossa sociedade. Teremos um mundo mais igualitário, sem espanto ante palavras femininas, ou às mulheres no mundo profissional. Elas serão vistas em nome e pessoa. E, quem sabe, quando as crianças pensarem no seu futuro, digam e desenhem também físicas, práticas, alfaiatas, carteiras, soldadas, fiscalas, bacharelas e presidentas. Muitas delas.
Referência
DÉPÊCHE, Marie-France. Reações hiperbólicas da violência da linguagem patriarcal e o corpo feminino. In: STEVENS, Cristina Maria Teixeira. A construção dos corpos: perspectivas feministas. Florianópolis: Ed. Mulheres, 2008, p. 207-218.
Autora
Juliana Romão é jornalista, mestra em comunicação pela Universidade de Brasília (UnB), professora de Jornalismo na Uninassau (PE) e repórter da revista de educação Pátio. Pesquisa a perspectiva de gênero presente no discurso jornalístico.

28 março 2018


Circle lenses, já ouviu falar? É uma lente de contato que faz a sua íris parecer maior, dando a impressão de olhos grandes e mais atraentes. Uma amiga ia sair com um cara do Tinder e resolveu usar um par pra deixar o olhar mais instigante. Me mandou foto dos olhos dela, com e sem a lente, pra eu ver a diferença.
Daí eu pensei, bicho, as minas vão longe demais pelos caras. E às vezes nem é por um cara que é o amor da vida dela, é só uma trepada casual. Essa amiga, além de embelezar a íris, tinha se munido de todo um arsenal de maquiagem importada, uma boa lingerie, unhas recentemente pintadas, um vestido novo e ia ficar montada a noite toda em cima de saltos de nove centímetros, onde ela equilibraria um metro e sessenta e nove de corpo totalmente depilado à pinça e cera quente.
Diante dessa perspectiva de todo um estica-e-puxa pra ficar bonita pro coito, eu fiquei curiosa a respeito do que os caras faziam quando iam encontrar mulheres em quem eles tinham interesse sexual (ou quando já sabiam que a jiripoca iria piar na noite vindoura), porque do lado de cá do gênero, uma bimbadinha casual parecia uma epopeia. Perguntei pra uns 15 amigos meus a respeito. A resposta deles foi bastante consistente e o ritual de todos era quase idêntico:
·         Tomar um banho
·         Fazer a barba (não vale para os barbudos, que por sua vez davam aquela ajeitadinha)
·         Passar desodorante e perfume
·         Usar uma cueca em bom estado
Os mais dedicados acrescentavam uma aparada na região pubiana, corte das unhas e arrumavam o cabelo. Um disse que tirava a monocelha.
Pois bem. Há algum tempo atrás, eu decidi que esse seria todo o esforço que eu faria pra transar com um cara: o mesmo esforço que um cara comum faz pra transar com uma mulher. Pouca ou nenhuma maquiagem (desapeguei do delinador babadeiro), sem salto, sem depilar o corpo, sem pintar as unhas. Olha, você até pode adorar fazer a Lupita Nyong’o no Oscar de 2014 pra todos os caras com quem você sai, não tem problema nenhum. A questão aqui é: você não é obrigada. Isso nem devia ser esperado de você. Porque o que é esperado dos homens é seu estado natural, mas uma mulher em seu estado natural é considerada uma imitação ruim de homem. Feminilidade é sinônimo de artifício.
Veja, isso tem a ver com o mundo inteiro te dizendo que, a princípio, você está feia. Que seu corpo está errado. Que você não está sendo suficientemente alguma-coisa. A gente fura a orelha pra pendurar brinco antes de saber andar. E daí pra frente isso destrambelha de um jeito tal que quando chegamos aos 20 estamos pagando por serviços estapafúrdios, como permanente de cílios. Em 2014as brasileiras lideraram o ranking mundial de cirurgias pra diminuir os lábios vaginais (quem falar que a gente faz isso porque quer, volta dez casas e passa duas rodadas lendo um livro-texto de sociologia).
Enfim, voltando ao meu novo mantra, ele causou um efeito surpreendente nos meus relacionamentos com homens: nada mudou. Eu continuei saindo com homens. Continuei namorando homens e transando com homens. A única diferença relevante é que, como num passe de mágica, me livrei dos caras que transavam mal.
O sexo era mais gostoso. Mais carinhoso, mais safado, mais bambeador de perna. Não tinha frescura. Esses caras, inclusive, eram muito mais seguros sobre aquilo que gostavam e não tinham medo de pedir. Dava pra ver que eles sentiam tesão no meu prazer. Eles também tinham três importantíssimas vantagens sobre os outros: nunca tinham frescura com uso de camisinha (ela sempre estava lá e sempre era usada); sempre faziam sexo oral; e não fizeram perguntas ou comentários desnecessários a respeito do tamanho do pau deles.
Outra vantagem enorme de abandonar esses rituais feitos pra entreter homens que provavelmente não saberão te chupar é que você economiza tempo, dinheiro e sofrimento (uma depilação a cera de axilas+virilha+pernas não sai por menos de R$70, sangue, suor e lágrimas). Então, proponho esse exercício: pare de se importar tanto com o que o mundo espera da sua aparência. Você não gosta do cara do jeito que ele é? Com a barba que cresce irregularmente, umas 3 espinhas na cara e o tênis velho de guerra todo arregaçado? Então por que ele, do alto de sua naturalidade, só conseguiria gostar de uma boneca toda trabalhada em primer redutor de poros e micropigmentação na sobrancelha?
No fim das contas, isso não é  sobre sexo ou homens, isso é sobre quebrar essa ideia tóxica de que você não está aceitável como mulher enquanto não alterar a sua aparência. Lembre-se que existem poderosos executivos comprando carros e iates caríssimos com a grana que a gente gasta em tubos de creme para celulite (que não fazem nenhum efeito, sabemos). Faça-se um favor e dê à esses caras um sincero "foda-se". Eles provavelmente fodem mal também.

Visto no: MEDIUM


Na Antiguidade, a imagem se inseria, ainda mais profundamente que a escrita, na vida cotidiana, recontando narrativas míticas e familiarizando seus integrantes uns com os outros através de representações de situações idealizadas e vivenciadas. A visão da nudez, mesmo em imagem, por estar sempre pronta a despertar emoção erótica, parece dificilmente compatível com a suposta pureza da contemplação estética. Mas, sem dúvida, sem o poder de Eros, não haveria nem escultura, nem pintura. O interesse tão especial dispensado na arte à nudez do corpo humano é complexo, logo, impuro: para aqui convergem todos os instintos elementares, todas as pulsões obscuras, assim como todos os subterfúgios e todo o sucesso da sublimação. É por isso que o Nu é o tema artístico por excelência: motivo de fervor, oportunidade de entusiasmo e, às vezes, em certos casos cruamente realistas, sujeito à compaixão, objeto de repulsa fascinada, símbolo de obscenidade.
Durante a Idade Média europeia, dizem, apenas nos banhos públicos era permitido se mostrar sem roupa. Em qualquer outro lugar, nada de nudez. Não podia ser vista em lugar nenhum, nem mesmo na pintura. Quase que nada na escultura. A responsabilidade por esta privação costuma ser atribuída ao cristianismo. Ao contrário do paganismo helênico e romano que a precederam, esta religião, rigorosa e obstinada, pregou por mais de mil anos a depreciação do corpo, o desprezo pela carne e a proscrição da nudez. Tal é a reputação que lhe foi atribuída, e há, certamente, alguma verdade nesta ideia geral. Quando o homem e a mulher aparecem nus em certas representações medievais, pois isso acontece, percebemos que se sentem extremamente constrangidos. A nudez, nessa época, é antes de tudo a dos nossos primeiros antepassados, disformes, dignos de pena, depois do pecado. Em seguida, vem aquela dos condenados, que vemos cair no Inferno por ocasião do Juízo final. O corpo sem vestes é patético: corpo vergonhoso de Adão e Eva, corpo atormentado dos malditos; ou, então, o corpo supliciado do Cristo, e os corpos torturados, de vários modos, dos mártires. Não simplifiquemos: existe também, podia existir, nesses tempos austeros, uma nudez feliz, sinal de inocência, a gozar, com toda a candura, dos benefícios inauditos do paraíso terrestre. Mas a desgraça é sempre iminente. Como a Europa olhava para alhures de forma completamente exótica – para não dizer “estranha” – franceses e holandeses que retratavam nossa terra e seus primeiros habitantes, pintavam-lhes sempre na presença de frutas, cestos, tartarugas e tatus. Coisas que o europeu não conhecia. Mas isso não era fator de burrice por parte dos homens brancos. Ao contrário: o retrato da miséria da terra brasilis estava agora ligado ao nu.
Nos tempos da Idade Moderna, podemos ressaltar as duas visões completamente opostas sobre esse assunto: a pureza\inocência – já que foi citada - e a pobreza\selvageria. Para falar do primeiro ponto, é necessário que se faça um levantamento das características do Renascimento Cultural. Sabe-se que o controle da produção cultural e o poder ideológico eram detidos pela Igreja Católica desde o medievo e norteavam a vida dos europeus. Por isso, os valores teocêntricos que exaltavam o poder de Deus, bem como os preceitos do catolicismo romano, sempre preponderaram as produções artísticas até então. Porém, a reformulação do pensamento artístico e científico trazida pela Renascença Italiana mudaram completamente os modelos de fazer arte. Ao retomarem os apegos artísticos greco-romanos, os renascentistas como Michelangelo, Da Vinci e Rafael Sanzio, decidiram pintar homens e mulheres de uma forma que pudesse representar a pureza e o caráter divino dos seres humanos. Por isso, em obras como Davi, o homem sempre era representado com um pênis pequeno, pois, se, baseados no antropocentrismo e no humanismo, o macho se aproxima ou até mesmo é sua própria divindade, por que dar um caráter bestial a algo tão sacro¿ Não era vergonha na época do Renascimento mandar um “nude” se você era “bisquí”. Era divino.
A Renascença também trouxe avanços científicos e, não se pode deixar de destacar, o consequente desenvolvimento das artes náuticas. Em 1415, Portugal se lança no tão temido “Além-Mediterrâneo” para descobrir novas terras e angariar novas fontes de riqueza para a Coroa. 22 de abril de 1500, a tão “desconhecida” Terra de Vera Cruz passa a ser explorada e antes mesmo que se chegasse à beira da praia, “seis ou sete homens nus, sem qualquer vergonha andavam por ali”, como escreveu Pero Vaz de Caminha em sua carta. Retomando pensamentos tidos como “neoplatônicos”, o bom e o belo se interligavam pela pureza dos corpos de uma comunidade que não conhecia a fonte dos pecados sexuais, exatamente por não terem cognição daquilo que educava o europeu. O “índio” por não conhecer os preceitos do povo cabralino e, mais tarde, anchietano, andavam nus o tempo inteiro porque eram inocentes. Puros...não, não. Aí já é demais. Manuel da Nóbrega, em tempos de catequese, pedia a seus superiores em cartas “panos para cobrir as vergonhas dos selvagens desta terra”. O erotismo e a sexualidade não eram colocados aí. Apenas a inocência e, consequentemente, pela ausência da tardia educação cristã-europeia, uma visão transformada do nu: receptáculos muito fáceis de forças diabólicas.
Pulemos para a ponte da contemporaneidade e das pós-modernidade. A mulher, paulatinamente, cresce dentro da sociedade e com isso vem seu empoderamento: o grito mais audível referente a tal assertiva é o quadro “A liberdade guiando o povo”, obra que retrata a Revolução Francesa. O sentimento de ser livre é associado a uma mulher mostrando os seios. Eu vejo isso como um “nude”, afinal o que é um nude senão algo que choca, excita, anima, traz risada ou, até mesmo, vergonha? Ver a liberdade representada por uma mulher que expunha os seios é tudo, menos, conservador para a virada do século XVIII-XIX. Era o maior exemplo de como se viver sem ninguém – Igreja, Estado ou qualquer outra instituição – dizer que roupa você deve vestir ou SE deve vestir. Mulheres...tão estigmatizadas desde Eva e, por isso, maquiadas por uma falsa máscara de subversão, quando na realidade, são revolucionárias. O século XX esteve aí para nos mostrar que, mesmo num mundo dividido pelas incertezas do capital e do social, lá estavam as mulheres queimando seus sutiãs, andando nuas e dizendo “we can do it!”. Embora, em alguns casos, não terem ateado fogo nas suas peças íntimas, que nude inflamável, hein? O corpo e o nu, mais uma vez, representavam assim o novo, o poder e a vontade mais que possível de serem livres de qualquer opressão.
E Bauman já nos fala dessa sociedade líquida da pós-modernidade, na qual as coisas são fluidas como água e que, para o bem ou para mal, são aproveitadas. Com esse mundo, vem os smartphones, as redes sociais e, em especial, o Snapchat. Dois, três, cinco ou até 10 segundos de provocação podem ser liberados com um nude. Muitos se escondem atrás da tela do celular, já outros, sequer precisam disso. O nu, para muitos, ainda é motivo de vergonha. Para outros, mandar um nude é algo natural, excitante, engraçado...e, porque não, libertador para um passo além das câmeras. Os modelos que pintam o corpo estão aí também para provar que a nudez pode ter suas diversas faces em ganhar o pão de cada dia, afinal, é necessário materializar os discursos e “meu corpo, minhas regras”. Meu nude, então, oras. “Não se tem muito o que falar da nudez nos tempos atuais, afinal é algo tão banal”, dizem. Sorte seria se essa nudez fosse ligada à inocência e não fosse fonte de suplantar, abusar e desvalorizar o próximo. E a sociedade brasileira acha que está acostumada com o corpo nu por causa dos avanços cibernéticos e o por conta do próprio nude em si. Coitados dos brasileiros. Não falamos nem em sair sem blusa por aí, mas no dia em que – e o problema é seu se você não aceita e tenta mascarar a realidade rasteira do seu país – meninas andarem mostrando apenas a barriga ou usarem um short não forem alvos de violação...o nude, então, será fichinha e algo completamente normal. Sem medos, sem vergonha, sem abuso, sem nada...ops! Nude.
Os nudes são estupendos, sob vários pontos de vista. De um modo geral, para cada flash acionado, uma parte da obra foi escolhida. Foi isolada, ampliada e os filtros são usados. Essa focalização inabitual faz surgir vários detalhes nunca vistos, vários aspectos nunca percebidos dessa maneira. Ele, o nude, cria, de certa forma, seu objeto. E mais, em certos casos, o fato de o olho ter se aproximado produz algo de perturbador. O olhar está muito próximo de uma carne doce e firme. Não se poderia estar mais próximo de uma carnação milagrosa. Prestes a tocar a pele nua. E o que vemos? Depende.
E aí...manda nudes?


Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: “parabéns”.
Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”
Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.
Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a. Afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a ideia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.
A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas.  Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com esses homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger.  Mas, bem,  segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro. Esse tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” — o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores desses crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.
Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”.  A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.
Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?
Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades.  Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 100º lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas.  Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…).  Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é essa a mensagem.
Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte.  Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.
Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a ideia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio, isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores dessas peças não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.
Então, dá licença, mas eu dispenso essa rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.


*Marjorie Rodrigues é jornalista pela USP e mestre em estudos de gênero pela Universidade Centro-Europeia (Budapeste) e Universidade de Utrecht (Holanda), onde mora. Já trabalhou na Reuters, Editora Globo, Transparência Brasil e revista Pais e Filhos, entre outros. Nas horas vagas, participa de um grupo de improvisação teatral com outros imigrantes vivendo em Utrecht, se vira nos 30 tentando aprender a língua holandesa e escreve blogs pessoais e no Brasil Post. Quando tudo isso cansa demais, ela vai afofar o Hugo, o namorado que a inspirou a ficar na terra das tulipas e é a prova de que mães feministas criam parceiros bacanas.

Visto no: AZMINA

Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora aposentada de jornalismo na UFF, pesquisadora do ObjETHOS
É um vídeo forte, poderoso, cortante: sobre a imagem noturna e estática do temporal na cidade, as vozes se sobrepõem para falar que o Rio de Janeiro CHORAVA com a notícia de “mais uma mulher ASSASSINADA”; porém, “não apenas uma MULHER”, “mas uma mulher NEGRA”, “uma MILITANTE”, que movia estruturas e foi “EXECUTADA a sangue frio”, e apela: “GENTE, PAREM DE MATAR A GENTE, esse assunto é URGENTE. MARIELLE, PRESENTE”.
O vídeo original termina assim. Mas, ao final do Jornal Nacional do dia seguinte à execução da vereadora Marielle Franco, do PSOL, numa ação que vitimou também seu motorista, Anderson Pedro Gomes, esse vídeo foi exibido com o acréscimo deste texto: “Esta homenagem a Marielle Franco foi feita por Ana de Cesaro e circulou na internet. Agora está sendo mostrada para todo o Brasil. Para que seja uma homenagem e também um alerta. Tudo começa pelo respeito. À vida”.
Estudiosos de linguística e comunicação teriam aqui um prato cheio para discorrer sobre essa manobra discursiva muito óbvia: um vídeo que circula “na internet” – ou seja, potencialmente, no mundo inteiro – finalmente é apresentado a um país. Pela Globo, que é – com trocadilho – a voz do Brasil.
Mas isso é o de menos. O principal é o que essa manobra revela como apropriação do discurso de protesto contra a execução de uma vereadora jovem, negra, “cria da favela” (da Maré), que estreava na Câmara um mandato promissor, com votação surpreendente – foi a quinta mais votada em 2016, com mais de 46 mil votos – e se dedicava à denúncia da violência contra os marginalizados de modo geral, com uma atuação que expressava múltiplas causas identitárias associadas à questão fundamental do pertencimento de classe.
Certamente tudo começa pelo respeito à vida, mas estas serão apenas belas palavras se desprovidas de seu conteúdo concreto. O que significa, exatamente, respeitar a vida, quando se negam as condições objetivas de existência?
“Reforma trabalhista, PEC dos Gastos, reforma da Previdência”, essas medidas que jogam “um contingente de cidadãos e cidadãs para uma espiral de pobreza”, estão na base do tal “respeito à vida” por onde tudo começa, e por onde começou o artigo que Marielle enviou aoJornal do Brasil – esse jornal recentemente ressuscitado em papel, numa iniciativa cheia de críticas, incertezas e suspeitas que não cabe aqui discutir, mas que se diferenciou dos demais no dia seguinte às manifestações de protesto que se espalharam pelo país. A edição, para quem tem memória, lembrou a do dia 12 de setembro de 1973, quando a censura da ditadura impediu manchetes ou fotos sobre o golpe no Chile de Allende, e o JB driblou brilhantemente a proibição com uma primeira página sem título, apenas com um texto em corpo maior, relatando o ocorrido, e com isso se destacou de todos os outros jornais.
JB valoriza – e valoriza-se com – as “últimas palavras” de Marielle, destacando a sua condenação à intervenção militar na segurança do Rio, que é, na prática, uma intervenção no estado. Entretanto, publica no rodapé uma ressalva que conduz ao editorial, onde defende a intervenção até mesmo como “forma de honrar a memória da vereadora”, que estaria equivocada: os beneficiários da medida seriam justamente “os que ela supunha vítimas”.
Os demais jornais cariocas incorporaram o discurso de protesto: O Globo manchetou “MARIELLE PRESENTE” em maiúsculas, os outros repetiram a indignação da vereadora ao denunciar mais uma morte atribuída à polícia: “Quantos mais terão de morrer para que essa guerra acabe?”
Em tese, a imprensa abraça uma causa que é de “todos”. No entanto, nos editoriais e nos espaços de colunistas, usa esse episódio para inverter a lógica do argumento da vereadora/militante executada e esvaziar sua causa, reforçando a atuação do governo federal: a morte de Marielle e seu motorista seria, para O Globo, “um símbolo contundente do descontrole a que chegou a segurança do Rio, situação de anomia que levou à intervenção federal”. Considerando que o Rio é um “laboratório” – como declarou recentemente o general responsável pela intervenção –, não custa imaginar o que pode acontecer às cobaias. Diante da “insana escalada de violência”, por que não a decretação do estado de sítio?
É a mesma operação discursiva que, em 2013, transformou uma reivindicação contra o reajuste das passagens de ônibus – uma pauta claramente de esquerda, que tinha o alcance mais amplo da luta pela melhoria do transporte público e, no fim das contas, pelo direito à cidade – num protesto contra a corrupção na política, rapidamente identificada ao governo federal, e resultou nas primeiras manifestações de massa de direita desde o golpe de 64, que explodiriam em 2015 e dariam sustentação popular à derrubada de Dilma Rousseff.
A história se repete
Protestos genéricos contra a “violência” têm esse poder alienante. Em 2001, na esteira do episódio do ônibus 174 – um cerco policial a uma suposta tentativa de assalto que resultou no sequestro dos passageiros, transmitido ao vivo por mais de quatro horas, e que acabou com a morte de uma refém e do próprio pretenso assaltante –, criou-se o movimento “Basta! Eu quero paz!”, que convocava para um ato público encampado por toda a mídia. Rara voz dissonante acolhida nos jornais, o historiador Joel Rufino dos Santos escreveu no Jornal do Brasil de 11/7/2001 um artigo no qual rejeitava participar daquela manifestação porque a considerava uma forma de preparar o espírito da população para “indultar os produtores da violência” e dizia que não participaria daquele ato justamente porque os violentos dissimulados, porém mais importantes, também estariam lá.
“Há os que sofrem a violência e os que a produzem. Estes têm interesse em esvaziar a violência do seu conteúdo concreto. Num golpe inconsciente, mas de mestre, mobilizam as vítimas para ato cívico, altamente emotivo, contra a violência. Gritam e fazem a população gritar “Basta!”. Com isso, dão à violência, de que são os produtores, um caráter abstrato. Eximem-se de qualquer responsabilidade. Os violentos são os outros. Na verdade, não são ninguém. Podem, portanto, ser demonizados – livrando a cara deles, os reais produtores de violência. Põem, no lugar da sua cara, a cara do pobre-coitado do ônibus 174”.
Hoje, a história se repete. No Jornal Nacional – que abriu sua edição de 15 de março com um editorial que reverberava a indignação dos “cidadãos de bem” –, o senador Jorge Vianna, do PT, aparecia para dizer que “nós não podemos estar nos dividindo, [discutindo] se a intervenção é boa ou não na área de segurança no Rio de Janeiro, eu queria uma intervenção no Brasil inteiro”. E o presidente Temer, como tantos outros políticos aliados, como tantos editorialistas e colunistas, diluía o assassinato de Marielle no caldeirão genérico da insegurança pública: “É inaceitável, inadmissível, como todos demais assassinatos que ocorreram no Rio de Janeiro, é um verdadeiro atentado ao Estado de direito e um atentado à democracia, por isso aliás nós decretamos a intervenção, para acabar com esse banditismo desenfreado que se instalou naquela cidade por força das organizações criminosas”.
A “afronta à democracia”, não por acaso, foi o título do editorial do Globo no dia seguinte.
Por isso é tão importante definir bem as coisas, nesse momento em que as emoções afloram e podem ser tão facilmente manipuladas. Ricardo Queiroz, mestre em Ciência da Informação que trabalha na Biblioteca Monteiro Lobato, em São Bernardo do Campo, resumiu exemplarmente a questão num post no Facebook:
“Marielle Franco acreditou na via política. Morreu porque se posicionou claramente na luta de classes, demarcou sua posição e sabia quais eram seus inimigos. Impossível despolitizar a sua morte.
Portanto, não é com niilismo, desqualificação da política e discurso difuso, que vamos fazer o combate àqueles que mataram Marielle.
Se até Temer se diz indignado pela morte da jovem, é fundamental o discernimento dessas indignações todas. Para que os responsáveis não se passem por indignados”.
Visto no: OBJETHOS

21 fevereiro 2018

 
Seja qual for à fase da vida, ser deixado por alguém que amamos é doloroso. Toleramos com muita reserva quando essa ausência se dá por razões alheias a nossa vontade, como é o caso da morte. Mesmo nessas horas, é difícil consentir ao outro o pleno direito de seguir adiante. Em vida, porém, apartar-se daquele do qual nutrimos certo sentimento é bem mais complexo, sobretudo quando a relação é entre casal, constituída de um lar e com crianças envolvidas. Então, quando tudo parecia estar em plena normalidade, eis que uma das partes se manifesta dizendo que não dá mais para continuar, que tudo está acabado, que não é possível manter tal relacionamento, enquanto do outro lado o ouvinte, chocado e perplexo, questiona-se o porquê de repentina decisão unilateral. Casos assim são rotineiramente comuns nos relacionamentos a dois, abalando aquilo que se mostrava teoricamente consolidado.  Ficam, então, os questionamentos: por que agora? Por qual razão? Se não havia intenção de perdurar, porque chegou até onde chegou?
Dias de Abandono, de Elena Ferrante, não se propõe, a priori, a responder tais questões, mas em analisar a ruptura inesperada que há numa relação estável de 15 anos e as implicações que isso resvala para uma das partes, neste caso a protagonista Olga. Casada, com dois filhos e um cachorro, ela é surpreendida pelo marido Mário, quando este, numa tarde de abril, como bem pontua a autora, afirma que vai deixá-la sem razão aparente. Olga, atônita com a notícia, chega a duvidar do que foi dito pelo seu esposo, revirando o passado do casal em busca de outras ocasiões das quais ele pensou em desistir da relação, e voltou atrás. Entretanto, com o passar dos dias, a frieza com que ele passa a tratá-la faz com que as dúvidas de Olga rapidamente desapareçam. Diante dessa inesperada fase em sua relação, ela tenta, em vão, interpelar Mário sobre as razões de sua decisão, mas ele continua evasivo e distante, como se algo de cumulativo tivesse feito com que sua tomada de decisão fosse irrevogável.

Diante da certeza do abandono, seus dias passam a ser um misto de frustração, medo, dúvida e cólera. Ela, que até então era uma mulher extremamente educada, de fala e gestos taciturnos, se vê irreconhecivelmente ensandecida, sem controle sobre aquilo que diz e das ações que realiza. Esgueirando-se para o fundo do poço, utiliza de todas as artimanhas possíveis para reaver a relação perdida, mas, a cada tentativa, se vê ainda mais humilhada pela rejeição do marido. Fracassada, visivelmente perturbada e desorientada, as primeiras vítimas de seu desequilíbrio são os filhos. Por serem ainda crianças, absorvem fatalmente o clima de violência criado em casa por aquela separação imprevisível. Além delas, amigos do antigo casal, vizinhos e até o cachorro da casa, não escapam das inevitáveis retaliações de Olga, inconformada com o injustificável término do seu casamento, que para ela, àquela altura do campeonato, seria até o fim da vida.
Até então, não parece nada de novo. A temática vivida pela personagem foi repetidas vezes utilizada em diversos outros romances ao longo da história. O que diferencia Dias de Abandono são sua narrativa e a construção psicológica da protagonista. Para quem leu este livro, depois da primeira frase, é praticamente impossível fechá-lo. É como se estivéssemos abandonando a própria Olga pela segunda vez, potencializando seu sofrimento, renunciando a chance dela de se reequilibrar, ao mesmo tempo, torcendo para que ela dê uma reviravolta mirabolante em sua vida. Ficamos presos ao penoso mundo que ela passou a criar. Além disso, as constantes crises que ela vivencia nos fazem incorporar a sua dor, extraindo de nós uma identificação quase como um furto, que só percebemos quando nos damos conta que nos subtraíram algo de importante. Dias de Abandono apresenta, sem percebermos, a empatia que desconhecíamos daquela personagem, ao ponto de lamentar junto com ela, sofrer com ela, reconfortá-la e torcer para que ela supere todos os dissabores da separação.

Tamanha sintonia não se dá à toa. A escolha de uma protagonista, com filhos, deixada subitamente pelo marido, diz muito do momento feminino em várias partes do mundo. Antes, a naturalidade que tais abandonos ocorriam não deixava espaço para problematização. Porém, com as merecidas conquistas das mulheres em diversos âmbitos, passou-se a se questionar o papel delas dentro das relações conjugais, desde as relações abusivas, excessos de obrigações, renúncias, desejos e a falta de entendimento que ainda persiste para com as questões femininas, sobretudo quando há crianças, carreira e feminilidade envolvidas. O pseudônimo de Elena Ferrante não foi o bastante para maquiar sua clara intenção de fazer de sua obra uma ode aos dilemas das mulheres modernas, ferozmente discutido pelos inúmeros movimentos feministas. A mulher que é abandonada com filhos para criar, sem emprego, vivendo às custas do ex-marido, perdendo aos poucos a vaidade por estar imersa nas tarefas domésticas, que agora são exclusivamente dela.
Esta tomada de reflexão é evidente na obra de Ferrante, mas não tira sob hipótese alguma o peso de sua narrativa. O brilhantismo de Dias de Abandono consiste em tocar na ferida, remoê-la ao ponto de nos sentirmos machucados como a protagonista, ao passo que vemos a nossa parcela de culpa, enquanto sociedade, por permitir de alguma forma que casos desse tipo se naturalizem. Neste ínterim, o livro vê no abandono um problema, a partir do momento que não entendemos que as relações conjugais são frágeis e podem ruir a qualquer instante. Ao invés disso, porém, acreditamos piamente na versão eterna das relações, torcendo num final feliz que raramente ocorre. Estar com alguém é também estar disposto a ser deixado por esse alguém. Logo, é preciso ter discernimento antes de se aventurar num relacionamento a dois e não deixar escapar a hipótese de uma ruptura inesperada. É sempre bom lembrar que estar com alguém não significa nos anular.
 
Entretanto, quando nos boicotamos, perdemos o controle da relação e não distribuímos igualitariamente os encargos que surgem quando estamos juntos. No geral, ainda é a mulher é carregar os maiores fardos. Foi dessa carga que Elena Ferrante veio esvaziar desde o início: o machismo vigente em nossa sociedade é tão desmedido, que precisa ser constantemente desentranhado das profundas raízes em que foi semeado para que significativas mudanças ocorram de fato. Por isso, quando a literatura moderna se destina a elaborar verossimilhanças dessa natureza, o que se espera é uma mudança radical no pensamento do leitor, sobretudo aqueles avessos aos pensamentos mais humanísticos. Caso isso não aconteça, a simples leitura de Dias de Abandono suscitará um bom debate sobre os reais papeis que homens e mulheres assumem dentro de um relacionamento, e como cada um deles precisa encarar a responsabilidade de estar com o outro ou de deixá-lo partir, sem que se deixe um rastro interminável de incertezas.


Deve ser difícil, no mínimo, ser a Anitta.
Todos opinam sobre seu cabelo — dread é “apropriação cultural”, bleh! –, sobre seu discurso, sobre sua bunda. Talvez ela nem se incomode tanto, porque está ocupada produzindo clipes sensacionais.
 
O último, da música “Vai Malandra”, foi, por si, a resposta afiada que a cantora costuma direcionar aos haters: trancinhas no cabelo, com apropriação cultural e tudo, uma bunda brasileiríssima sem correção nas celulites e um Brasil muito brasileiro escancarado numa superprodução pro mundo inteiro.
Anitta, que prometia, com os rumos estéticos de sua carreira, uma abordagem artística cada vez menos brasileira, surpreendeu, de novo. Só a linguagem do clipe é meio gringa (e faz mal?): o resto é Brasil, nu e cru.
Lulu Santos, que aparentemente não entende nem de Brasil nem de música, criticou nas redes o clipe, a cantora e a bunda.
 
Pfff.
 
Aqui cabe um parêntese: nem a bossa nova, careta por tradição, comungaria da chatice da persona Lulu Santos, que compete com a chatice de suas músicas. Talvez fosse mais facilmente aceito no rock, que se tornou um velho careta e conservador, mas até pra isso lhe falta musicalidade.
 
Não, Lulu, não é só uma bunda: O funk de Anitta tem gerado discussões sociais contemporâneas e importantíssimas, e não é de hoje. Assim caminha a humanidade, graças a gente como você, a passo de formiga e sem vontade.
Aliás, não foram só a bunda e as tranças que incomodaram: a esquerda progressista (risos) não brinca em serviço quando o assunto é cagação de regra.
 
Reclamaram — e muito — do olhar masculino do produtor do clipe, acusado de assédio, como se isso tirasse o mérito empoderador do clipe e da música.
 
Spoiler: se o olhar fosse verdadeiramente masculino, as tais celulites teriam sido apagadas na edição.
 
Não foram, porque a última palavra é dela, e eu não sei vocês, mas eu tenho um orgasmo mental só de imaginar uma mulher impondo as próprias celulites diante de um produtor assediador metido a importante.
Vai, malandra. Os cães ladram e a caravana passa.
Visto no: DCM