31 julho 2010



Autor: Victor Ricardo (VITRINE URBANA)



Ao assistirmos os primeiros 60 segundos do vídeo acima, é possível perceber o lirismo teatral que é empregado vocalmente por Lady Gaga em performance na cidade de Stolckholm. Definitivamente, fenômenos como estes não são percebidos pela mídia e até mesmo pelo público, que, como já mencionei em nota, está despido de certos “pares de óculos” acerca de determinadas manifestações artísticas. A faixa dois do álbum the fame monster foi lançada como single nos meados de junho e logo ganhou video clipe. Proponho aqui expor algumas decodificações do clipe feitas por mim, ao passo que disserto sobre Trovadorismo, machismo, poesia francesa, erotismo e arte pictórica em Alejandro.

A letra de Alejandro é, sem dúvida, entendida de forma geral como um relato de um melodrama amoroso latino mal-sucedido... Prefiro ir mais além. Por trás do refrão repetitivo e dos looks “exóticos” lançados, respectivamente, na música e no clipe, existe um eu-lírico feminino que canta a ausência da figura masculina e a remete a um passado dramático e inalcançável. Ops, estamos falando do medievalismo trovadoresco! Para ser mais preciso das cantigas de amigo do século XII e XIII.... E as atribuições literárias não param por aí, pois considero também na música uma espécie de romantismo da segunda geração... sobretudo quando se trata da hermeticidade em que o eu-lírico feminino é colocado em relação ao personagem Alejandro. (ela tem ambas as mãos nos bolsos e não olhará para você/ ela escondeu o verdadeiro amor no bolso [...] /Não chame meu nome, Alejandro/ não sou sua amada, Fernando). Encontramos assim uma mulher inalcançável e elevada.

No entanto, essa visão não está tão restrita às convenções sociais que limitavam o espaço da mulher romântica do século XIX. Percebo aqui uma feminilidade mais impositiva, superior e independente, que marca a atual posição social da mulher no cenário mundial, isto é, ascendente. Já na esfera do sexismo, mais especificamente, consigo recortar para aqui tratar uma das últimas cenas do clipe em que Gaga usa um espécie de sutiã encrementado com longos canos de fuzil. Na verdade, entendo essa representação como uma forma mimética da luta feminista contra o Machismo e outras opressões, usando os seios, símbolo máximo de feminilidade, como armas para tal.

Outras cenas que chamam atenção referem-se ao erotismo presente a partir do 3º minuto do clipe. No vídeo, Gaga encena posições sexuais afetivas com um ator e em alguns flashes percebe-se a inversão dos papéis sexuais no ato da cópula. Na verdade, a relação sexual ali é vista como um fenômeno transcendente às disposições humanas de homem e mulher....a partir daí é possível enxergar uma mulher penetrando o outro simbolicamente como uma abordagem geral da prática afetiva e do encontro carnal como um todo, independente da convenção social vigente.

Tecerei o fecho refletindo sobre o valor atemporal da arte. Como exemplo, trago o francês Baudelaire que na época em que lançou as flores do mal foi criticado e acusado de satanismo por conta de suas alegorias putreficadas . Isso, se colocado em contraste ao valor indubtável que o poeta adquiriu hoje na academia, torna-se ridículo e incocebível; ou seja, o mundo não estava pronto para quão ofuscante é a arte de Baudelaire. De forma geral, isso acontece diariamente com dezenas de pintores, escritores, diretores de cinema e cantores. Depois de todos os argumentos citados ao longo do texto acerca da complexidade semiótica contida em um aparente videoclipe modal, só me resta um único viés de conclusão: Talvez o senso comum não esteja pronto para receber tanta informação, o que soa como extravagância, superficialismo e até loucura. Que sejam então Loucos Baudelaire, Pessoa, Machado, Joana D’arc, Galileu, Gaga.

29 julho 2010




Existem certos dogmas que, na minha concepção, só retardam a solução de alguns problemas sociais. Nesse sentido, eu poderia citar vários exemplos, mas, dentre os tantos, acredito que existe um que já se tornou clichê nos principais meios de comunicação: o celibato. Isto por que, a opção desta prática tem causado inúmeros casos de abuso sexual e pedofilia, por aqueles que usam a palavra de Deus e a igreja para praticar atos libidinosos. É claro que, em se tratando de religiosos, nem todos são pervertidos, porém, o crescente número de reportagens falando sobre a vida dupla desse grupo tem deixado no ar diversas inquietações. Afinal de contas, o que vem a ser o celibato? Qual a sua influência na sociedade pós-moderna? E o que a Igreja Católica, principal instituição religiosa do Brasil, diz a respeito das atrocidades cometidas por religiosos, privados do prazer da carne? Tentarei responder, de forma clara, essas indagações ao longo do texto.

Antes de qualquer coisa, confesso que não tinha muito conhecimento sobre a temática em pauta. Ainda acho que não tenho, mesmo assim, resolvi me aventurar nas areias movediças que sustentam esse tema. Para isso, fiz uma pesquisa e descobri coisas bem interessantes que compartilharei no decorrer deste texto. A primeira descoberta responde a pergunta inicial do parágrafo introdutório. O celibato, na sua definição literal, significa “aquele que se mantém solteiro (a)”. No entanto, popularmente ouvimos a conceitualização de que essa palavra significa a abstenção de indivíduos das atividades sexuais. A escolha por esse modelo de vida acontece por diversas motivações, sejam elas culturais, sociais, biológicas ou religiosas. Esta ultima é o foco central deste texto e sofre grande influência das tradições antigas, arraigadas ao modelo de vida pautado na fé em Cristo, ou seja, entregue a espiritualidade.

No entanto, os conceitos ortodoxos pregados pela Igreja Católica ignoram ou não acompanham o desenvolvimento dos valores da sociedade moderna. Para ela, o celibato é o elo mais próximo entre o homem e Jesus, que, durante toda a sua vida foi solteiro. Esse argumento é muito louvável e até aceitável, se estivéssemos na mesma época em que Cristo viveu. Hoje, pelo contrário, a realidade é outra, sobretudo quando o assunto é sexualidade. Ainda sobre o celibato, não se sabe ao certo em que momento histórico ele foi introduzido pela Igreja, já que existem muitas teorias entre historiadores e pesquisadores que divergem nesse sentido. Entre tantas divergências uma coisa é certa: a prática do celibato tem causado cenas vexaminosas para o núcleo católico em todo o mundo.

Isto por que, constantemente sai nos noticiários alguma matéria que fala de um novo evento polêmico envolvendo religiosos. Acredito que este ano tenha sido um dos piores para Igreja, visto que a cada nova reportagem publicada ela tinha que encontrar argumentos palpáveis para justificar a ação pecaminosa dos seus membros. Padres que assediam/transam com coroinhas; praticam sexo dentro e fora das igrejas, até mesmo com os fiéis; homossexualismo; sodomia; pedofilia; perversão; isso só para mencionar o que os meios midiáticos expuseram durante este ano. Tudo isso vem sendo aos poucos desmascarado e trazido a tona, para que a sociedade e, sobretudo a Igreja, tome uma posição transformadora sobre a questão do celibato. Só para se ter uma dimensão, enquanto eu escrevia este texto, mais um escândalo era divulgado. Desta vez a renomada revista italiana, panorama, cuidou de expor a vida dúbia da alguns religiosos. Na reportagem, publicada no site mundomais (CLIQUE AQUI PARA VER), contava que alguns padres frequentavam boates e bares gls e durante o dia voltavam a comandar as missas matinais normalmente.

O resultado desse paradoxo responde a segunda pergunta feita na introdução, pois é praticamente impossível sustentar certos dogmas, quando o assunto é sexo. Temos que lembrar que os religiosos são homens de carne e osso, ou seja, suscetíveis a erros. Até porque, vivemos numa época na qual a liberdade sexual, em todo o seu âmbito, é cada vez maior e por isso é complicado manter distância das atrativas e sedutoras tentações. Nesse meio, os religiosos (padres, bispos, arcebispos e etc.), não resistem e acabam cedendo a luxúria. Eu acredito que eles sejam as maiores vítimas de toda essa situação, pois, se o celibato fosse destituído definitivamente, com certeza os crimes sexuais envolvendo esse grupo teriam uma significativa diminuição. Ainda respondendo a segunda pergunta, o celibato na atual sociedade é visto como imposição, como regra, e tudo que é impositivo, acaba resvalando para a vala da fraude, da imprudência. Claro que a intenção primária do celibato é a mais positiva possível, visto que a sua ideia é santificar a rotina das pessoas que aceitam viver isolado das atividades sexuais, apenas orando e alimentando o seu espírito para estarem mais próximas a Cristo. Acho linda essa filosofia de vida, mas penso que a obrigatoriedade desse modelo de vida deve ser revisto o quanto antes.

O que é intrigante nesse assunto são os argumentos literários usados para justificar o celibato. Há várias passagens bíblicas que, aparentemente defendem o celibato como algo que mantém uma ligação entre o homem e Cristo. Entretanto, a passagem clássica que diz "crescei e multiplicai-vos", vai de encontro a esse dogma. Para muitas religiões, o celibato não é algo tão impositivo, como por exemplo, os mulçumanos e o Islamismo que não condenam se a pessoa preferi casar e constituir família, ou, se preferi arcar com uma vida de castidade em nome da fé.

Contradições a parte, a posição da Igreja sobre os atos sexuais cometidos pelos seus integrantes é de autodefesa. O que já era de se esperar, pois, em se tratando grandiosidade dessa instituição, o mais correto seria se defender para manter de pé certos paradigmas que sobreviveram até os dias de hoje. Isso responderia o questionamento feito no parágrafo introdutório. A Igreja não quer aceitar, ou preferi classificar como atos isolados de pessoas que tentam denegrir a Santa Fé Cristã, do que assumir que determinados códigos devem ser revistos e/ou modificados. A sociedade, por outro lado, deveria cobrar da Igreja um posicionamento mais firme com relação aos casos citados anteriormente.

Tratar desse tema é mexer com a nossa base sócio-histórico-cultural, da qual somos tão ligados. Eu, como muitos brasileiros, sou contra ao celibato obrigatório, pois penso que este priva o indivíduo de conhecer o intimo do outro. Não falo de maneira carnalizada, mas sim a essência que cada ser humano carrega dentro de si. o contato no ato sexual é algo divino e não pode ser manipulado por dogmas de outrora. Os religiosos têm o direito sim de constituir e de ter uma vida sexual ativa, se assim escolherem, sem serem taxados de pervertidos ou infratores da moral, tão sustentada pelo catolicismo. Em contrapartida, para que isso ocorra, acredito que é necessário reformular o celibato, para que ele se torne algo facultativo. É bem mais coerente deixar a pessoa optar por viver longe dos prazeres da carne, mesmo tendo uma vida religiosa, ou viver inteiramente entregue as causas da fé, consequêntemente distante de tudo que esteja relacionado ao sexo. Têm problemas dos quais a solução é tão simples, mas parece que é da natureza humana complicar as coisas.



28 julho 2010




A evolução humana já ratifica a importância que a escrita exercia na formação do indivíduo, enquanto ser social. Mesmo de forma rudimentar, o homem, numa determinada época, buscou alternativas de registrar os seus acontecimentos cotidianos. Graças a isso, hoje, elaboramos um complexo conjunto comunicativo que facilitou as relações interacionais, dando inicio a palavra, o alfabeto, uma das maiores descobertas de que se tem noticia. Em meio a isso, surgi a leitura, pois não bastava apenas registrar o que acontecia, era preciso propagar os acontecimentos e, nesse sentido, a leitura se une a escrita para formar um todo comunicacional. Ambas então são a expressão máxima que o individuo pode utilizar para perpetuar posicionamentos, conceitos e concepções acerca do mundo.

A crucialidade que esses dois elementos representam são indiscutíveis, haja vista que eles constituem a base para a socialização. Devido a isso, eu não consigo imaginar, nem tão pouco classificar qual dos dois seria o mais importante, todavia, posso conceitualizá-los separadamente e, em seguida, justificar o porquê que ambos são indissociáveis para a construção intelectual humana.

O primeiro, a leitura, na minha concepção seria a base, o alicerce que sustenta e alimenta a nossa mente. Ao lermos um livro, jornal, revista, seja lá qual for o gênero textual, estamos absorvendo conhecimento e enriquecendo o nosso intelecto. Isso acontece por que o contato que a leitura proporciona faz com que a pessoa tenha contato com diversas culturas, tradições e opiniões, contribuindo para a construção do senso crítico, este tão importante na atual sociedade. A leitura também tem uma função mágica, de entreter e levar o leitor a outra dimensão. Nos textos literários isso ocorre com maior frequência, já que a função poética imbricada neles transporta o leitor para um mundo imaginário, onde o prazer, o devaneio, o desejo, o conhecimento, o amor, entre outros sentimentos, misturam-se num elo transformacional, mudando para sempre a realidade do interlocutor.

Ler favorece a nossa construção critica sobre os temas que circundam a sociedade. Por exemplo, na leitura de um jornal, ou revista, ou qualquer texto de teor crítico, estamos construindo novos posicionamentos e ratificando os já existentes. A nossa opinião é, nesse sentido, reformulada através da leitura desses textos que, devido ao seu grau persuasivo, modelam a nossa visão acerca dos temas que assolam a sociedade. Por causa desse poder de transformação, a leitura proporciona uma vasta possibilidade de ascensão social, visto que o seu poder se materializa quando colocamos no papel, de forma escrita, o nosso juízo de valor acerca da vida.

Nesse âmbito, a escrita reina absoluta. Como falado anteriormente, ela é a materialização das inquietações humanas sobre a realidade circundante. Isso se justifica por que, desde os primórdios o homem buscou meios de perpetuar os seus pensamentos, ora em gravuras animalescas, ora em protótipos de palavras. O mundo evoluiu, mas a vontade de eternalizar as palavras se mantém viva. Hoje a sociedade tem a necessidade cada vez maior de registrar o que acha, pensa ou senti sobre o mundo e as peripécias que o constitui. Nesse aspecto, diferentemente dos nossos antepassados, o homem moderno dispõe de uma infinidade de meios pelos quais a escrita pode se manifestar. Dentre estes a internet se tornou um dos mais populares. Com os avanços tecnológicos essa ferramenta vem sendo muito usada para enviar e receber textos escritos, além de ser uma ótima opção de leitura, para quem busca conhecimento.

Particularmente, eu sou um amante da escrita. Costumo dizer para meus amigos mais próximos que sou bem melhor escrevendo do que falando. Não é exibicionismo da minha parte, apenas acho que a intimidade que a escrita proporciona me dá a liberdade necessária para expressar o que eu estou sentindo sobre a vida, o mundo e as pessoas que o compõe. Consigo velejar facilmente pelos mares caudalosos onde as palavras regem o destino das nossas opiniões. Ela, a palavra, é a minha bússola na complexa rota da vida e isso me alegra muito, pois, graças a sua polissemia, eu consigo compartilhar conhecimento, experiências e opiniões positivas com os meus leitores.

Escrever é uma arte como qualquer outra. Arte por que antes de colocar as palavras no papel nós nos preocupamos com a seleção vocabular, com a estética do texto, com o sentido que ele irá transmitir, de como o leitor receberá esse texto, tudo isso para conquistar, persuadir, chocar, ou causar qualquer outra reação em quem está do outro lado, ou seja, o interlocutor. Entretanto, para instigar essas reações é preciso ter um domínio sobre as palavras e saber que elas são elementos vivos, capazes de transformar radicalmente uma vida, uma sociedade. Quando usadas de formas inescrupulosas elas podem ter o efeito inverso, ao invés de construir e semear conhecimento podem destruir alienar e segregar pessoas. Por isso, toda cautela é pouca, já que estamos falando de algo que é vivo e constantemente mutável.

A leitura e a escrita são, portanto, faces de uma mesma moeda. Ambas desenvolvem a capacidade cognitiva do individuo, colocando-o numa posição de agente transformador da realidade circundante. Dessa forma, acredito que elas são indispensáveis para o nosso crescimento como pessoa, como cidadão, como individuo que a todo o momento altera e é alterado pelo sistema. A ausência dessas duas instâncias favorece a não formação da nossa identidade, enquanto ser social que constrói e reconstrói os pilares fundamentais para a sobrevivência. Por isso, penso que quanto mais cedo estimular o contado com a leitura e a escrita mais estaremos contribuindo para diminuir as crateras históricas que dividem a sociedade que não tem contato com esses dois pilares, tão importantes para a sedimentação do ser humano na sociedade.

27 julho 2010



Depois de muita luta e discussão foi aprovada na Argentina a lei do código civil que permite o casamento entre as pessoas do mesmo sexo. Essa conquista aconteceu no dia 15 de julho deste ano, numa votação acirrada (33 a favor, 27 contra e 3 abstenções). Com isso a Argentina se consagra como o primeiro país da América do Sul a aceitar, legalmente a união homo afetiva. Entretanto, para que a lei seja aplicada, precisa passar pela aprovação final da presidente Cristina Kirchner. Depois de sancionada, essa lei beneficiará centenas de casais gays argentinos que lutam pelo direito de legalizar a sua relação.

A aprovação da lei, obviamente, foi comemorada por toda a comunidade LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transsex) no mundo todo. Muitos países começaram a rediscutir os assuntos que envolvem os homossexuais, graças à iniciativa dos nossos hermanos argentinos. Dentre os países que estão focalizando mudanças para a massa gay está o Peru que, no dia 26/07 deste ano, na figura do deputado José Vargas, anunciou a aplicação de um projeto de lei que regulamenta a união civil entre os homossexuais. Segundo ele a aprovação dessa medida reduzirá os índices de desigualdade social que assolam o Peru. Nas palavras dele "desta forma, seriam reconhecidos aos casais do mesmo sexo os mesmos direitos que já têm os casais de uniões heterossexuais, ou seja, direitos de caráter patrimoniais como de conformar uma sociedade de bens". Ele salienta ainda que “eles [os homossexuais] também têm os mesmos direitos de qualquer pessoa, como à igualdade e a não discriminação, cláusula incluída em nossa Constituição e nos tratados internacionais dos direitos humanos".

Mesmo com toda a comemoração da comunidade LGBTT, nós não podemos deixar de mencionar que a aprovação da união civil não agradou a todos. Na Argentina, no momento da votação, centenas de manifestantes, fundamentalistas religiosos, fizeram-se presente para protestar contra a aprovação dessa medida. Armados de bandeiras e faixas, eles ecoaram o grito de sodomia e de perversão em direção aos homossexuais, no intuito de reverter à aprovação da lei. Infelizmente, para estes protestantes, a noite terminou com um gosto amargo, pois a os gays venceram mais uma vez a intolerância e a falta de compreensão de uma sociedade que prefere estigmatizar essa minoria baseado em argumentos ortodoxos e muitas vezes infundados.

No Brasil o reflexo dessa nova medida soou positivamente entre a comunidade LGBTT. Isto por que, a iniciativa argentina deu mais fôlego aos nossos grupos gays nacionais, no que se refere a impulsionar cobranças mais claras aos direitos da comunidade homossexual brasileira. Ainda estamos aguardando que o nosso congresso copie o bom exemplo dos nossos vizinhos argentinos e aprovem o projeto de lei, PL/122, que regulamenta a união entre os casais gays. Enquanto isso não acontece em rede nacional, muitos estados já se adiantaram nesse sentido e já admitem que casais do mesmo sexo registrem sua relação em cartório.

O caminho para a igualdade sexual é longo e as barreiras que o perpassam parecem ser intransponíveis. No entanto, volta e meia, uma conquista reacende a esperança de garantir os direitos privados a comunidade LGBTT. Espero que a atitude do governo da Argentina se transforme numa imensa onda, num tsunami, e arraste o que ainda resta de preconceito em alguns países que insistem em segregar as pessoas por causa da orientação sexual que escolhem. Ao mesmo tempo, espero que essa medida sirva para semear a tolerância e o respeito entre pessoas, pois é só isso que os homossexuais buscam.



26 julho 2010




Autor: Mário Jr.

Não é de se estranhar receber convites, esses que as pessoas enviam para algo ser feito. Recordo-me como se ainda vivesse aquele pesadelo, numa tarde de sexta-feira, quando, dormindo, vi um carteiro – de aparência jovem – usando uma vestimenta, dessas que as pessoas que trabalham nesse ramo usam, parecida com um terno. O terno era a princípio normal – sem vestígios que pudessem fazer-me crer que algo de estranho e inusitado ocorria ali; entretanto, no momento em que olhei para os sapatos, desse tal moço, vi que estavam com uma coloração verde-lodo. Ainda assim, não via nada digno de espanto.

O carteiro entregava-me um envelope de tamanho médio, com uma cor, muito peculiar, igual a das briófitas. Estávamos sob uma grande neblina, a qual nos indicava que aquele local era silente e soturno; a face daquele moço, então, começou a reluzir um brilho insólito, azul, extremamente intenso e fulgurante, que meus olhos não puderam suportar, começando a arder. Em seguida tomada por aquela luz, sua face começou a esfacelar-se, até que, não pude mais vê-la. A partir daquele momento, noticiei que seus braços começaram a tremeluzir – como suas pernas – e num instante, os vi desaparecer. O que antes era um homem em seu posto, exatamente naquela hora era apenas um uniforme com a ausência de um corpo, que noutro instante tinha sido carcomido pela luz, que antes me alegrava – pelo motivo do localizar-me num lugar lúgubre e um tanto inefável – naquele somniu incitava o nascimento de um sentimento medonho dentro de mim.

De repente, enquanto vivenciava os horrores daquele pesadelo, ouvi um som produzido por uma onomatopéia – desse quando alguém bate na porta. Era Madame Rosé, desse modo que ela nos permitia chamá-la, tirando-me daquele mundo virtual e trazendo-me ao real. Ela dizia ter em mãos, um envelope endereçado a mim e que acabava de ser entregue pelo carteiro setorial.

Antes de abrir a porta, deslizei-me pela cama em que estava e espiei pela janela um carteiro a pé, dirigindo-se à casa vizinha. Não consegui ver suas pernas, seu cabelo e muito menos sua face; as únicas coisas que consegui ver foram suas mãos e seus sapatos. Estes fisgaram completamente a minha atenção para as suas partes exteriores e inferiores. As partes continham resíduos sem muita descrição de uma cor que enxergamos nas calçadas lamacentas; meu coração foi a mil, naquele instante.

Com um berro da Madame, que de madame só tinha o nome, corri e abri, para pegar o envelope. Com um fôlego não muito estável, abri a porta, girando a maçaneta vagarosamente para a esquerda. A dona da pensão, que num golpe só, lançou o envelope em mim e depois se virou dizendo em voz alta coisas que nem pude compreender. O envelope bateu-se contra meu peito e caiu no chão; visualizei-o como momentos atrás naquele sonho que eu poderia ter esquecido, mas não consegui. A única coisa que consegui, foi fitá-lo por horas a fio e simplesmente deixar-me ser levado pelos meus próprios devaneios.

Após um período insano de observar aquilo que recebi, cuidadosamente coloquei-o em cima da escrivaninha e o contemplei mais uma vez, sem ao menos ter a coragem de ler seu remetente. Mais tarde, quando destituído de medo e cheio de coragem, espiei o remetente e surpreendi-me completamente: era a Família Buller.

A Família Buller tinha uma tradição hereditária de cultuar a tourada na Espanha, pois Lady Émille, mulher de um grande cientista chamado Lord Roger, era bisneta do grande toureiro espanhol Ramón Soares, que já não tinha uma presença viva na família, a não ser pela memória. Anny e Edward eram irmãos e filhos da Lady e do Lord; fato curioso, era que os dois irmãos eram gêmeos bivitelinos, nascidos em vinte e cinco de setembro de mil oitocentos e cinqüenta e três – Anny era a mais velha.

Com uma imensa satisfação que eu sentia, pude abrir o envio daquela família a qual eu conhecera na infância, tendo me tornado um grande amigo de seus membros, principalmente de Edward, já que ele e eu estudamos no mesmo colégio.

Dentro daquele envelope que dantes temível, ali abraçável, pude ler o seguinte:


“Caro amigo Roni, é com imensa saudade eternecida no seio dessa família que tanto lhe aprecia, que lhe enviamos este envelope, suplicando a sua vinda para o nosso humilde lar. Todos nós gostaríamos de revê-lo Roni, pois faz um lustro que não nos vemos, e isso é um tempo muito grande para bons amigos ficarem sem se comunicar tatilmente, não concordas? Enfim, gostaríamos que você passasse uma temporada conosco, pois não queremos nos desvencilhar de uma amizade tão magnânima e célebre para nós. O endereço está no exterior do envelope – no remetente. Aguardamos ansiosamente sua chegada.”

Abraços da Família Buller.


Infelizmente, o dia da escrita ou do envio devo omiti-los, porque minha memória não permite que eu os recorde. Contudo, ao término da leitura daquele escrito, caí sobre a cama com extrema alegria; ri por vários minutos e se alguém me visse naquele estado, logo pensaria que eu estivesse louco. Interrompendo meu riso desguiado, Madame Rosé chamou-me para o jantar. Desci a escada daquela antiga pensão. A cada degrau que eu pisava enquanto descia, ouvia-se um som diferente oriundo da madeira; os sons eram rangidos sofridos, como se aquela velha escada pudesse sofrer com o impacto dos meus pés sobre ela.

Ao redor da mesa estavam todos que ali moravam, principalmente Madame Rosé, que naquele momento, de alguma forma, me fizera perceber que seus olhos combinavam-se numa mistura de cores iguais e tonalidades quase imperceptíveis; seus olhos eram verdes banhados com extrema intensidade. Os brincos que ela possuía tilintavam cada qual com os seus adereços e por sua vez continham uma cor que parecia começar-se com azul terminar-se em verde; mas isso não posso afirmar com plena exatidão.

Passado o jantar, subi aqueles degraus e direcionei-me ao quarto. A luz formava uma sombra enorme naquela parede verde com rachaduras espessas, as quais me indicavam a idade daquele ambiente. Já deitado sobre a cama e prestes a dormir, noticiei que o teto continha uma estranha combinação muito minuciosa de imagens, que só aqueles indivíduos especializados poderiam vê-las. As imagens formavam um olho enorme aberto e outro fechado – um cheio de vida e o outro cheio de dor. A cor deles quase indecifrável: iniciava-se em azul e se acabava em um negro muito intenso. Contudo, o fato mais estranho que pude ver foi o olho dilatar sua pupila como se quisesse enxergar alo além de seu alcance – algo muito minúsculo ou distante. A única coisa que pude fazer naquele momento foi deitar-me de perfil ao teto e de fronte para a parede cerrei meus olhos, uma que vez que ousavam me mostrar coisas que não almejava ver.

No outro dia, acordei com um canto de um pássaro agradável. Entretanto, quando pude aguçar minha audição para ouvi-lo melhor, apareceu-me do nada, um pássaro de porte pequeno usando uma plumagem negra com bicos finos e interrompeu o som que eu ouvia atacando o pássaro com um golpe na cabeça. Pôs-se a entoar um canto horripilante, mórbido e com som pausado, enquanto o outro caia jorrando sangue pela cabeça, no local



Autor: Mário Jr.


em que antes recebera o golpe letal. Quando dei por mim, não era canto. Era um cacarejo; e o pássaro não era um simples pássaro, era um corvo negro.


Avistei o teto com uma visão perpendicular e não pude ver mais nada, nem um só daqueles traços que determinaram e deslindaram os olhos na noite passada.


Deitado pela cama, avistei o que tinha recebido. O envio jazia em cima da escrivaninha de cor tabaco. Foi então que me pus de pé e comecei a fazer a malas. Retirei todas as camisas do armário e todas as outras peças de que necessitava para ficar uma temporada nada casa da família Buller. Eu estava decidido a tirar alguns dias para descanso – necessitava de um repouso num lugar afastado da cidade, tranqüilo e muito animador.


Após os preparativos para a saída estarem prontos, coloquei as malas para fora do quarto e voltei para pegar o endereço. Coloquei o envelope em meu bolso e caminhei em direção à escadaria da pensão, que de certa forma me aguardava descê-la. À medida que dava um passo nos degraus, ressoavam, a meu ver, um som mórbido diferente; sinceramente, eu não sabia se aquilo era aviso ou premonição. Deixei aqueles sons agonizantes ecoarem por todos os lados da pensão e prossegui levado pelo entusiasmo da partida.


À porta central da pensão, devolvi a chave do meu quarto à Madame Rosé, dizendo a ela que voltaria, mas não poderia afirmar quando. Parti sem muitas despedidas, satisfações, beijos ou outras coisas assim.


Avistei meus cavalos nos fundos da pensão. Arrei-os. Coloquei as malas no lobo dum e prossegui sobre o lombo do outro para o meu conforto. À medida que as cenas iam se passando, distanciávamo-nos cada vez mais da civilização: isolávamo-nos.Entramos numa estrada repleta de cascalhos com muitas árvores gigantescas ao nosso redor – que faziam a minha vista arder só de olhar para seus topos. Naquela hora em que a nossa passagem foi obstruída por um tronco crasso de uma árvore que parecia ser dona de duzentos anos ou mais, pude avistar a casa dos Bullers. O andar sereno e meio esquivo do cavalo que eu montava nos aproximou um pouco mais do tronco que havia ali; percebi que o lar dos Bullers não era uma casa simples, não as conheço, mas sim, uma enorme e estranha mansão, que de simples, como tinham escrito, ela não tinha nada. Evidentemente com uma visão externa daquele lugar.


Após conseguir ultrapassar aquele obstáculo que deixava nosso caminho ínvio, fui levado pelo cavalo aos pés da mansão. Estranhas sensações me vieram à minha mente; a única coisa que fiz foi deixá-las fluírem tal como o vento uivante que se iniciava naquele momento.A casa como dito, não era apenas uma mera casa, mas sim uma mansão com olhos e boca. Seus olhos lacrados instigavam o meu medo e sua boca parecia ansiar me comer. Os olhos gigantes se figuravam como as janelas e sua boca como aquela porta. Mesmo ainda, antes de entrar, fitei minuciosamente o que envolvia aquele lugar, aquela mansão. A escuridão já tinha chegado e dominava completamente o aspecto frio, sombrio e soturno daquilo que seria meu abrigo: a atmosfera era terrível.



Exatamente, de fronte à mansão, àquele lar, habitava um lago pantanoso que, com a luz da lamparina, a qual lutava com os sopros do vento, mostrava-me que sua água era literalmente composta por uma camada lodosa. Repugnei-me ao ver aquilo. Estava, eu, ainda a observar detalhadamente, som por som, coisa por coisa, quando fui tocado por uma senhora de cabelos grisalhos que pediu-me as rédeas com um único gesto que fez com sua mão esquerda; depois indicou-me a porta e não me disse absolutamente nada; deu-me as costas e saiu com os cavalos.



Observando ainda as gárgulas decepadas no topo do telhado – era o que me apresentava segundo a escuridão que dominava toda a cena – entrei naquela mansão que antes só me amedrontava, entretanto, naquela hora havia implantado o terror em mim.


No silente momento em que entrei, topei o olhar com o de Anny e Edward, sendo que cada um, em posto de anfitrião, aguardava-me com uma minúscula vela, pelas quais liberava uma luz insuficiente para iluminar suas faces, aparentemente lívidas. Abraçamo-nos fortemente; por um momento tive a impressão de sentir meu corpo com uma quentura superior aos deles; eles me pareciam estar lânguidos ou outra coisa assim. Contudo, naquela noite, isso tudo ficou apenas sob minha impressão; fui levado pela emoção que sentíamos.


Imediatamente, com sorrisos largos e falas estridentes, levaram-me para o jantar – Lady Émille aguardava-me sentada à mesa. O momento destruidor de nostalgia, não deixou que eu desse falta do dono daquela casa. Simplesmente sentei-me e esperei alguns minutos enquanto aquela senhora que me abordara lá fora, colocava sobre a mesa redonda o jantar: “Esta Roni é a nossa empregada”. Disse-me Lady Émille usando seu dedo indicador canhoto para mostrar-me a senhora que usava cabelos grisalhos e dona de uma aparência enrugada. “Seu nome é Jane. Ela não fala com ninguém. Um dia dormiu falando e acordou com afonia. Completamente muda... muda de tudo. Essa senhora ouve perfeitamente o que todos dizem e trabalha com perfeita eficiência.” Completou a Lady.


Depois que me apresentou aquela senhora, entrou na sala de jantar o Lord Roger, usando um colete de cor indecifrável, que de certa forma atraía a minha visão para junto dele. Reluzia uma luz azulada em algumas partes, como outrora tinha visto naquela tarde, naquela pensão sob aquele pesadelo.


O jantar foi fabuloso, tudo ocorrera em perfeita sintonia com os padrões normais de uma noite, de um jantar. Riamos, lembrávamos de fatos memoráveis e ao mesmo tempo, nos deliciávamos com o cadáver de leitão assado à brasa.


Após aquele jantar, Edward e eu conversávamos sobre as engenhocas que seu pai ainda ousava criar. Em meio a essa conversa, assustei-me totalmente quando vi um crânio enorme dessecado com chifres esparsos e pontudos, pendurado em cima da lareira apagada. Não deixei transparecer nada para Edward, continuei a ouvi-lo.


Percebi então, que aquele crânio era de um touro, pelo seu tamanho, muito forte. Após o término do susto, fui levado por Edward ao meu quarto; nada de estranho ou insólito me ocorrera naquela noite; apaguei a chama viva da lamparina que resplandecia parte do quarto escuro e consegui dar conta de mim só no outro dia, na outra manhã.


Quinze dias foram embora. Numa tarde resolvi andar pelos blocos da mansão à procura de Roger, que se infiltrava em sua sala de estudos praticamente todo tempo do dia, e ninguém, a não ser ele, entrava nela.


Os degraus que davam ao primeiro piso esperavam que eu os descesse. Ao tocá-los com os meus passos ouvia-se um barulho incomum. Tão incomum que os meus tímpanos chamavam-me a atenção. O ruído parecia esforçar-se a me dizer algo que possivelmente estava prestes a ocorrer. Porém, a única coisa que eu fazia era apenas decodificar mais um som onomatopéico que obviamente não me fazia compreender absolutamente nada além de alguns estranhos rangidos.


Quando pisei no solo de madeira lá embaixo, Anny gritou de maneira tão estridente que o som poderia ser ouvido a quilômetros de distância daquele local. “Acabou; se foi!” Berrou Anny com resfôlego. Imediatamente sai à procura dela pelos cômodos da mansão. Foi quando vi o Lord descer a escada rapidamente com um pavor estampado em seu rosto;


Autor: Mário Jr.

também procura por sua filha. A donzela encontrava-se abraçada com sua mãe aos prantos no quarto da criada muda. vi perplexo, a dona daquele quarto simples estendida pela cama, sobre um lençol já carcomido por traças, sem traços de vida e ser cuidadosamente examinada por Edward. “Esta oca por dentro...” Afirmou isso com profundo lamento o examinador. Naquela cena mórbida, lutuosa e digna de lugubridade, não pude entender o contexto; no entanto, não quis me arriscar a fazer qualquer tipo de pergunta. Emudeci-me e senti aquele momento fúnebre exalar-se pelas paredes do quarto e depois de toda mansão como se fosse algum tipo de odor.

Colocaram o corpo cadavérico da criada, que desde alguns dias já nos apresentava sinais de atonia, dentro dum esquife de madeira seca e sepultaram-no estranhamente dentro do porão, num buraco improvisado, sem lápide e muito menos com a inscrição de algum epitáfio.

Naquele dia, quando a noite veio, trouxe consigo uma tempestade que não se isentava de trovões e relâmpagos. Os relâmpagos faziam o meu quarto se iluminar avidamente. Foi quando tudo começou. Assisti deitado na cama, e com o olhar para o teto escuro o nascimento de um olho. Depois abrir-se e esforçar-se o máximo para poder capturar um objeto. Naquela noite percebi meu Deus, que o objeto era eu. De repente, tomado pela ausência de luminosidade no lugar, vi-me só no outro dia. Quando acordei, tudo parecia normal, se não fosse o fato de eu abrir a janela e ver que toda mansão estava tomada por uma densa neblina que a tempestade da noite passada tinha deixado como estranha recordação. Minha visão fora bloqueada por ela; não consegui enxergar nada fora da mansão. Decidi que já estava na hora de ir; ir embora daquele lugar que me amedrontava, mas por causa da neblina, minha partida era impossível naquele momento.

Ainda durante a manhã, após o café, andei pelos cômodos da casa, mas não pude farejar nada a respeito do Lord; a única coisa que pude farejar estava no porão, após descer uma outra escada agonizante acompanhado por três ou quatro ratos esqueléticos que entraram num buraco.

Analisando o local cuidadosamente, encontrei caixas de ossos. Ossos que pertencia a ratos, cães e gatos. Pouco depois observei que em meio ao concreto da parede, que já não era de madeira, existiam outros ossos: - ossos humanos! Então, estremeci-me completamente de medo.

A noite veio e nevoeiro que envolvia aquele lar não se dissipara nem um pouco; continuava ali, estacionado ao seu redor. O jantar mal dava para engolir, devido ao temor que estava impregnado em mim. As mandíbulas que me pertenciam se estremeciam. As mãos tremiam e eu parecia estar com afonia. Em meio àquele jantar, em que eu logo anunciaria minha partida, Anny começou a apresentar reações muito estranhas, e me exibia uma face totalmente pálida. A mãe, com olhos engrandecidos, e o irmão com um olhar totalmente voltado para a aquela donzela, parecia não crer no que viam; muito menos eu, que estava totalmente aflito e temido ali, perto dos três.

Anny levantou-se olhando estaticamente para mim, com seu lindo par de olhos azuis, e repentinamente começou a me dizer coisas em outra língua que era incognoscível para mim; parei de comer; o temor crescera dentro de mim exponencialmente e conseguia bloquear fortemente os movimentos dos meus maxilares tremulantes.

Na senhorita, em meio aos risos estridentes, começou a escorrer incessantemente uma saliva viscosa pelos seus frágeis lábios e que de algum modo, seja pela insanidade em que vivia ou pela extrema dor que sentia, corria repetidas vezes ao redor daquela mesa de jantar sem retirar um segundo sequer seu forte e tenebroso olhar de mim. Eu assistia aquilo tudo sem saber o que fazer ou dizer. Eu só respirava.

Gritos, gritos e mais gritos eram lançados por aquela boca. Subiam as escadas e iam trombando e ecoando-se pelos tantos corredores daquela mansão. Parecia-me que mil ou mais pessoas gritavam.

“O próximo? O próximo... Quem será? Pode ser você!?” Afirmou ferozmente a senhorita, apontando o seu débil dedo para mim e depois caiu totalmente desfalecida no chão de madeira; ainda babava, ainda sofria.

Após o seu último suspiro paulatino, eu e aquela mansão ouvimos um berro e um choro: lamentos iniciados sincronicamente – um pelo irmão, o outro pela mãe. Com passos pesados e morosos, o irmão chegou até Anny com estampando-se um profundo lamento, e retirando algo que jamais pude sonhar mesmo no mais intenso ou mais profundo devaneio que eu já tivera.

Edward retirou uma coisa tipo máscara que revestia totalmente o rosto daquela jovem, que não possuía pele, nariz e os contornos da boca, só os traços da carne viva. Sem trégua começou a chover novamente e a tempestade era muito pior do que aquela que tinha me ocorrido no dia anterior. À luz das velas, vi o rosto de Anny Buller incandescer uma luz que não o comia, o devorava. Talvez, o mais insólito momento daquela hora, que de uma forma sincrônica mãe e filho começaram a sofrer do mesmo efeito que assolara momentos antes a senhorita. Primeiro, os cabelos se despregaram do couro, depois suas faces deformaram-se até ficarem ensangüentadas e na carne viva latejante. Edward gritava, enquanto seus pés perdiam a pele que os envolviam e só pude ver novamente a carne. Lady Émille sofria tudo em silêncio. Num pequeno instante depois, vi ambos se abraçarem e caírem sem pelo e cabelo, mostrando as pontas ósseas do corpo e totalmente dominados pela aquela luz.

Instantaneamente, sai apavorado pelos quartos e blocos da mansão gritando. Encontrei a sala do cientista no andar de cima. A tempestade lá fora não cessara; aumentavam-se os trovões. O lugar em que o Lord Roger estava continha dezenas de ratos engaiolados, os quais só pude ver com auxílio de uma luz que saía dos limites de uma caixa de chumbo. Lord, concentradamente – como se nada ocorresse ao seu redor – implantava a luz nos ratos, que liberavam gritos agonizantes. Foi então que o chamei com um forte toque em seu ombro esquerdo.

“Tem algo a me dizer?” Ele me perguntava repetidas vezes com um tom insólito e seu olhar vidrado em mim. Naquela estranheza, minhas pernas ficaram frouxas, e então, caí no chão empoeirado daquela sala mórbida, consciente do que me ocorria. A perturbação que me cercava foi tamanha que, com uma voz trêmula disse com dor: - Estão mortos e desfigurados pela luz! Depois, vi com esses olhos que ainda me pertencem um horror mais aterrorizante do que tinha noticiado nos minutos que precediam aquele; o corpo do dona da casa começou a se desfigurar pela luz que ele mesmo detinha em suas mãos. E, como se não bastasse, ela derretia seus dedos, retirava sua pela da estrutura carnosa e escamava-o como se o próprio fosse peixe ou outra coisa assim. Os olhos verdes desprenderam-se do crânio, sem um triz de pele, e caíram em meu colo. Depois disso, presenciei seu corpo ser comido pela luz fulgurante azul, que perspassava seus ossos e fazia aquele homem esvair-se em sangue, o qual brotava de todos os orifícios que sua massa corporal continha. O que antes era um homem, naquela hora tempestuosa, não possuía mais braços, pernas, tronco e muito menos cabelo; só um amontoado de ossos que em meio aos trapos, era pouco a pouco carcomido por aquela estranha luz.

Fiz um movimento lépido, me levantado daquele chão fétido onde estavam os ossos em putrefação. Pus-me para fora da sala de estudos, almejando sair pela boca da mansão. Entretanto, fui tolhido pela escada agonizante que lá existia. Escapei-me dela e fui novamente surpreendido pela exatidão em que um trovão explodira no céu negro com a caída do crânio dissecado do boi no chão; seus chifres comprometeram a estrutura do lugar e o chão de madeira mostrou-me sinais de fissura, as rachaduras.

Sai da mansão. Pisei na grama lodosa e me virei de frente para o luxuoso lar dos Bulllers e ali o fitava ser comido pela enorme luz ofuscante azul que havia dominado-o completamente. O lago que era verde, já possuía outra coloração pelo fulgor da luz que o alcançava. Ainda no temporal, vi uma mansão requintada desmoronar-se com um único movimento. Corri sob a tempestade mais depressa que as minhas pernas podiam, ouvindo os sons agonizantes dos meus cavalos que haviam ficado no estábulo e simplesmente o farfalhar da floresta negra.

25 julho 2010




Autor: Mário Jr.

Eu posso morrer!
Meus pés vão parar,
E minhas mãos não mais escrever

Os meus olhos amigos,
Em luto a mim mesmo, vão se encerrar
E nunca mais vão querer observar
O nada e o mais nada

Perderei os movimentos dos dedos
Tanto das mãos calejadas
Quanto do pés enginhados
Pelo choque térmico da vida:
Ora quente ora fria.

Minhas dobradiças não terão mais vigor
Permanecerão inúteis, frágeis e mudas
Meu pêlo sem brilho, sem tônus, sem lustre
Jazerá sem a inveja que dele tinham

Perco isso,
Perco aquilo,
Mas não perco tudo!

Não perco a força do meu lábio
Da união entre os dentes e a língua
Para gerarem o meu som
A minha voz nunca morre
Nada conseguirá morrê-la

Ecoa por todos os lados
É reiterada,
Ressignificada e
Reinscrita
Nas paredes rochosas
Que são arranhadas pela força bruta
Da vida

Meu brado jamais esvanecerá
Minha voz nunca poderá morrer
É infinita e constante;
Ousada,
desdiz o a indecência da física
E a petulância da biologia.
A minha voz se recria

É passada como um bastão
Não pela mão,
Mas pela astúcia da boca

Boca fina
Boca seca
Boca miúda
Boca preta e cinza
Boca!

Eu posso até morrer,
Mas o meu grito não!
O meu brado possui escudo e possui brasão
Atravessa os céus e se arrasta pelo chão

Posso morrer
Pois minha carne é frágil e podre
Posso morrer,
Mas minha voz nunca conseguirá deixar de viver




A minha morte


Autor: Mário Jr.

It doesn’t matter if It is from a man to a guy
From a black man to a woman of color
From a woman to that pretty lady passing by

No matter if It is from a straight to a curved
No matter if It’s a woman or a man
No matter It is from a hot woman to a cold man.

It must not matter how Shrek we are
Or how Fiona we’ve become
It must not matter how odd our bodies look
And how thin we’ve pushed them to become

‘Till should it not matter though unclean my love is
And how ungrammatical It mays speak
‘Till should it not matter how careless it is
And how untamed It has behaved
‘Till should it not matter how nasty my love is
And how naughty it has struggled to be

Who cares?

What matters…
That it is love
Kind of unsquare love

My wild love



Espatódea
Nando Reis
Composição: Nando Reis

Minha cor
Minha flor
Minha cara

Quarta estrela
Letras, três
Uma estrada

Não sei se o mundo é bom
Mas ele ficou melhor
Quando você chegou
E perguntou:
Tem lugar pra mim?

Espatódea
Gineceu
Cor de pólen

Sol do dia
Nuvem branca
Sem sardas

Não sei o quanto o mundo é bom
Mas ele está melhor
Desde que você chegou
E explicou
O mundo pra mim

Não sei se esse mundo está são
Mas pro mundo que eu vim já não era
Meu mundo não teria razão
Se não fosse a Zoé

Espatódea
Gineceu
Cor de pólen

Sol do dia
Nuvem branca
Sem sardas

Não sei o quanto o mundo é bom
Mas ele está melhor
Desde que você chegou
E explicou
O mundo pra mim

Não sei se esse mundo está são
Mas pro mundo que eu vim já não era
Meu mundo não teria razão
Se não fosse a Zoé



Autor: Dayvson Fabiano

Hoje ao acordar pensei: qual o sentido da vida?
O que nos espera?
Era uma dor de cabeça que me acordava numa ânsia de.
De viver?
Não sei...
Acordei olhando para o alto.
Os telhados impediam-me de ver além.
Levantei, fiz as coisas rotineiras da manhã e fui ao trabalho,
só que ainda continuava me questionando.
Não sei por que, mas às vezes sinto que meu coração irá parar de bater a qualquer momento. Acho que ele pára, pois em exatos segundos percebo que não sou mais eu que vivo, e sim, outro. Louco isso, não?
Logo depois, ainda caminhando ao trabalho, parei e fiquei a esperar o ônibus.
Comecei a ler um livro, sorteei uma página e justamente nessa página estava falando sobre
“o sentido da vida”.
Deu em mim um arrepio, porque parecia um aviso do além.
Digo do além porque era um texto do grande escritor Caio Fernando Abreu, do livro
“Morangos mofados”, é um texto pelo qual havia lido,
mas não com essa riqueza de detalhes que ora instaurou-se em mim e aqui...(pausa).
Precisei beber um pouco de.
De água também.
Fiquei sentindo a água percorrer por entre meu corpo, e o gosto era diferente.
Essa água tinha gosto, dizem que a água é insípida. ,
Aprendi isso nas aulas de ciências.
Pura mentira!
A minha além de gosto tinha cheiro.
Acho que era cheiro de vida ou era de morte?
Quando eu era criança pensava em ser médico para ajudar os outros,
aí percebi que para ajudar não precisava ser médico, e sim humano.
Os bichos também o são, até mais.
De repente lembrei outra coisa a respeito do coração:
acho que descobrir o que ele quer dizer sobre as paradas de vez em quando.
Nesse momento (re)nasço...
Vou ao céu numpiscardeolhos, que nem tempo tenho para separar as palavras.
É tudomuitorápido.
E logo em seguida vou ao inferno.
Parei...Ah!
Preciso parar agora.
Quem é você?
Isso mesmo, estou te percebendo...
Não estou mais só, aliás, nunca estive.
Compartilhamos algo em comum.
Que sentido nos aproxima?
Só agora percebo que 1+1 não é 2, é 1, 3, 4,...
exceto 2.
Preciso parar por aqui, por hoje já basta.
Ai!...
Meu coração parou novamente...
Qual o sentido da vida?
...
Ser Feliz é Ser Livre!




Autor: Dayvson Fabiano

Os pássaros sibilavam um som diferente.
Era algo majestoso.
As lembranças eram pontes do tempo.
De aromas e sabores.
Um céu de vida invadia-me.
Eu era subjuntivo passado/futuro.
A chuva caia sobre os musgos que bailavam em harmonia com o rio que margeava a minha alma, Era o sim da minha felicidade.
Meus sentidos todos comungavam daquele momento.
Docemente renasci de minha famigerada solidão em lágrimas sinestésicas dolentes.
Tempestades de imagens floresciam num freme de segundos.
O relógio...
tic tac tic tac...
anunciava uma nova estação.
O vermelho árido da terra seca agora
era vermelho sangue hemoglobinando em mim numa metástase diacrônica.
Eu voltei do passado...
sem os espinhos!!!


Autor: Eduardo Andrade - Mestrando em Linguística Semiótica

“Era um sonho dantesco o tombadilho”, assim inicia o poeta Castro Alves o seu célebre “Navio Negreiro”. Hoje, o sonho infernal descrito pelo vate baiano permanece; todavia, não é diante de um tombadilho que passam os “olhares condoreiros” do século XXI.

Às portas do fim da primeira década daquele que deveria ser o “século da igualdade”, ainda é possível ver, nas mais distintas áreas da sociedade contemporânea, as cenas castro-alvinas de um – aparentemente – distante século XXI: “legiões de homens (não apenas) negros” continuam a sofrer com a segregação étnica, racial, cultural e religiosa; multidões famintas permanecem cambaleando, alvos da desigualdade social; “o velho (ainda) arqueja e no chão resvala”, vítima da discriminação etária, e muitas mulheres permanecem “num turbilhão de espectros arrastadas em ânsia e mágoa vãs”, em virtude da disparidade entre os gêneros.

No apogeu da técnica, questões básicas permanecem sem solução e muitas sociedades – como a brasileira – ainda acumulam dívidas das inúmeras falhas de seus transcursos sócio-históricos. Enquanto isso, mulheres, judeus, homossexuais, idosos, índios, negros e pobres – seres humanos, enfim – permanecem alvos fáceis da estereotipação e da segregação, corruptoras do caráter e violentadoras da dignidade humana.

Parece faltar ao homem do século XXI a lição de outro poeta, o mineiro Carlos Drummond de Andrade. Falta a este homem “fazer a viagem de si a si mesmo” e “pôr o pé no chão do seu coração”, descobrindo, assim, o significado mais sublime da palavra “con-viver”. Talvez, agindo assim, o homem descubra que o navio em que viaja não é negro, nem branco, mas humano.