Ser Feliz é Ser Livre

07 junho 2018



Em tempos de autoafirmação de identidades, muitas pessoas são encorajadas a sair as ruas exaltando seus corpos, estilos, gostos pessoais, preferências sexuais, posturas estas que por si só são importantíssimas, não apenas por incentivar outros indivíduos invisibilizados a olharem para si mesmos, mas também como forma de militância, indo de encontro a todas as imposições que nos cercam. Porém, nem sempre é possível chegar ao grande público como se é, ou melhor, como se tem vontade de ser. Na contramão dos nossos desejos, há uma silenciosa ditadura gritando um NÃO bem audível para nos coibir de realizar qualquer mudança em nossa personalidade que ameace aquilo visto como aceito pela maioria dominante. Então, entre o ser ou não ser, muitos ainda se negam o direito de existir plenamente contribuindo para uma baixa autoestima, a qual, quando não trabalhada a tempo, pode desembocar em outras patologias emocionais.

De fato, não é fácil se rebelar contra o sistema. Aqueles que conseguiram se sobressair nesse sentido sentem na pele, muitas vezes literalmente, o peso dessa transgressão. Os exemplos são muitíssimos. Variam do manequim que usamos, a textura do cabelo, passando pela tonalidade de nossa pele, as roupas que vestimos, aos gestos que usamos, e vão até questões mais intimistas como quem preferimos nos relacionar, sobretudo sexualmente falando. Assim, encaixotados em moldes pré-definidos, não vemos escapatória, a não ser se enquadrar ao que já é determinado ou recriar nossas próprias embalagens de apresentação. Para isso, é preciso ter criatividade e isto, por ser algo nato, se desenvolve mais efetivamente em uns indivíduos e outros não. Por essa razão, muitos se frustram em suas representações de si, pois não encontram mecanismos de se sobressair ao ponto de criar uma persona digna de visibilidade para os demais a sua volta.

Ilhados entre a norma e a inovação, aquelas pessoas sentem bem mais o peso da exclusão, pois não pertencem ao que é visto como aceito, tão pouco conseguem se encaixar entre os inaceitos. Isso se dá também pela própria construção da personalidade de cada pessoa. Isto porque, o que nos tornaremos é reflexo daquilo que nos foi impregnado ao longo da vida. Nesse acúmulo, as interferências sociais/midiáticas/familiares/religiosas/culturais, esculpem nossas formas, geralmente em réplicas, nos aprisionando ao que foi, e ainda é, pré-estabelecido. Assim, por mais feitos realizados, conquistas adquiridas, metas concretizadas, sentimo-nos insuficientes para essa sociedade predatória da qual nos cobra a oferecer mais do que podemos e o pior, a inferiorizar o muito que já demos a/ou somos.

Não é de se surpreender que haja tantas pessoas insatisfeitas consigo mesmo, pois a cobrança social alimenta à pessoal e nos faz parecer desencaixados do mundo. Logo, desesperados por uma migalha de pertencimento que não é nos ofertado, ficamos cabisbaixos, isolados em nossas incertezas, retroalimentando negatividades capazes de se transformarem em depressões ou até práticas suicidas. Tamanhas ações depreciativas refletem justamente o desejo desse coletivo normatizado: o de querer nos fechar em uma bolha, encapsulando nossas particularidades, desejos e anseios, ao invés de oferecer recursos diversos para que nossos perfis sejam legitimados como são. Por isso, os cabelos cacheados, o turbante, a cor de nossa pele (principalmente a negra), as mulheres plus size, as feminilidades e masculinidades, dentre tantas outras pautas caras a nossa identidade social, precisam ser problematizadas, não só para direcionar as pessoas perdidas em suas representações, como ampliar as opções de existir nessa sociedade indiscutivelmente limitada.

Aliás, penso que é justamente na resistência onde mora o grande lance de buscarmos uma moldura capaz de nos representar publicamente. O barato de ser o que somos reside nisso, em nos autorretratar genuinamente respeitando, antes de tudo, aquilo que somos, com as nossas referências, vontades, limitações biológicas, carências e inquietações. Resistir também significa validar a coragem de que saiu minimamente do casulo da opressão para escancarar sua personalidade através daquilo do qual acha que mais lhe define, por mais fora do convencional que pareça para o restante da sociedade. Então, quando encontrar alguém na rua com um visual/postura/trejeitos/identidade diferentes da sua, legitime a ousadia dela em ser quem é e se sirva dessa coragem para romper o lacre do qual te fecharam. Às vezes, precisamos ser tocados pelo outro para passar a nos sentir em nós mesmos. Permita-se!

Não podemos, porém, buscar em vão uma autossuficiência voltada a agradar aos demais. Se essa for a intenção, passaremos o resto da vida frustrados e com os níveis mais baixos de autoestima. A priori, é preciso redesenhar nossa própria identidade, traçar os riscos capazes de materializar quem somos sem a petulância de levar a público uma perfeição inexistente. Esse rascunho de si leva tempo para se ajustar e geralmente é finalizado quando a maturidade entra em cena. Porém, isso não significa que não é possível criar um perfil imediato de si agora, neste momento, mesmo que falte um retoque aqui ou acolá. O grande lance de ser suficiente para si é que nunca estaremos plenamente concluídos. Haverá sempre uma parte de nós inacabada precisando de uma cor aqui, uma ajustada ali, até que estejamos temporariamente satisfeitos com o todo que criamos. Quando menos imaginarmos, estaremos exalando autoestima a atraindo aqueles, que em outrora, torceram o nariz para nós, por não nos verem como somos ou porque temíamos nos mostrar para estes como éramos por medo de sermos mais excluídos.

Então, voltaremos a nos retocar ao longo da vida, porque passaremos a entender que somos incompletos e não há nada de errado nisso. Faltar algo em nós é o que permite ao outro ser a soma em nossas vidas, da mesma forma que o que nos transborda pode preencher as lacunas de quem nos cerca. Trata-se indiscutivelmente de uma constante troca. O problema é que o maldito sistema nos faz crer que o que possuímos é pouco, insignificante, quando na verdade há muitas pessoas por aí precisando desse ínfimo para retocar suas existências. Filosoficamente, somos suficientes nas nossas insuficiências. Talvez o que falte em cada um de nós seja apenas essa percepção do quão frágil, incompletos e despreparados somos, mesmo que alguns prefiram se enganar acreditando estar acima dos outros por meras convenções sociais. Enquanto isso, vamos contornando as imposições e moldando um perfil pessoal que, se não agrada a todos, pelo menos nos represente e nos faça acreditar que, por mais insuficientes que sejamos aos olhos alheios, não somos, nem permitiremos, sermos para nossos.

Apesar de muito popular nos discursos de autoajuda, o amor próprio não é uma ação fácil de ser realizada. Por mais que saibamos da importância de nos amar, aceitar quem somos, acreditar em nossas potencialidades, sobretudo para nos blindar dos inevitáveis desafios emocionais da vida, nem sempre nos amamos o suficiente para estarmos plenamente protegidos. Na verdade, isso acontece porque, assim como o mar, o amor tem momentos revoltos e de calmaria, ambos necessários e de extrema beleza. O problema é que nas tempestades da vida, somos arrastados até a arrebentação desse sentimento. Então, atordoados pela correnteza, deixamos que o ódio passe a submergir nossa existência ao ponto de não sermos capazes de respirar, sufocando-nos em amarguras, carências e tristezas. Assim, ao invés de nos amar, permitimos que o odiar guie o leme de nossas vidas, mesmo que haja uma bússola interna repleta de amor, apenas precisando de ajustes para redirecionar tanto sentimento bom acumulado.

Deve ser uma barra encarar o espelho e odiar o reflexo do outro lado. Trata-se de negar aquilo que nos tornamos, por acreditarmos ser insuficiente para aqueles que nos rodeia. É uma terrível cobrança pessoal muitas vezes ligada ao que deveríamos ser, ou ter sido, para sermos melhores, mais aceitos e perfeitos. Analisando estas três instâncias, é fácil encontrar nelas as incoerências pelas quais o ódio poderia ser facilmente dissipado. A primeira diz respeito ao modelo competitivo em que estamos inseridos. É exigido cada vez mais de nós o melhor na vida pessoal, profissional, virtual, social, amorosa, que, perdidos em tantas exigências, muitos de nós não consegue corresponder aos anseios da família, do chefe, do companheiro (a), dos internautas, vizinhos, contribuindo para nos fazer surtar, sobretudo os jovens. Então, incapazes de atender todas essas demandas, vamos desapontando cada uma dessas instâncias. É quando o ódio passa a ganhar espaço à medida em que sufoca seu grande opositor, o amor.

Somado a isso, os agrupamentos sociais tendem a abraçar os indivíduos que comungam dos mesmos discursos, gostos pessoais, características físicas, opiniões, visões de mundo, partículas essas muitas vezes ditadas pela sociedade dominante. Logo, quem não se adequa é invariavelmente excluído de fazer parte dos seletos grupos que se criam. Sem esse pertencimento, alguns indivíduos se perdem dentro de si, isolados em seus sofrimentos, incapazes de interagir com seus pares, sem acesso a diálogo em casa, na escola e na rua. Assim, todo o amor represado dentro de si se transforma paulatinamente em ódio pessoal, pois tais pessoas se culpam por terem sido eliminadas do convívio entre os demais. Todavia, nem sempre ser excluído de determinadas relações é fruto de alguma falha nossa. Significa, na maioria das vezes, que o critério de adesão alheio não corresponde ao muito que temos a oferecer.

Dos três, a obrigação pela perfeição é a mais insana, porém, a que retroalimenta todas as outras ditas até agora. É uma palavra pequena mas de imensa reivindicação. Ser perfeito requer de nós uma escravidão ilimitada que vai da aparência ao êxito profissional e percorre as complexas águas da individualidade humana. Mesmo cientes da impossibilidade da excelência, buscamos a maestria mesmo que o fracasso seja inevitável. Em muitos lares, a comparação com aqueles que nos rodeia só agrava o problema: “você não é tão bom/boa quanto ele (a)”. É uma afirmação dura de ouvir, mais ainda de digerir. Muitas vezes, quando dita por quem amamos, ou nutrimos certos afetos, fica revirando em nossa mente, enfraquecendo as poucas defesas que criamos ao longo da vida. O perigo de frases daquela natureza reside em nos fazer naufragar dentro de nós mesmos invalidando nosso amor próprio, ao passo que o ódio assume o controle.

Geralmente é essa a premissa do ódio próprio: nos fazer crer que no não há terra firme a nossa volta, apenas um mar de incertezas e solidão, e no meio dele há você confrontando-se consigo mesmo. Então, sem ter com que direcionar tanta fúria, acontece o autoataque ao pouco de dignidade que nos restava. Uns se isolam do mundo, por se acharem indignos de pertencer a outros grupos. Outros apresentam rompantes de humor em casa, na escola, apresentando comportamentos ora chamativos ora agressivos. Há os que sucumbem às drogas, à criminalidade, recorrendo aos perigos da ilicitude para encontrar algum significado para suas existências. E, por fim, os fragilizados demais para continuar, entregando-se aos braços sempre abertos da depressão. Os mais desesperados ainda se mutilam, cogitam o suicídio e até chegam a realizá-lo em último caso, pois não conseguem encontrar um sentido naquilo em que veem no espelho. É a morte dando sentido as nossas inexistências.

Entretanto, em todo esse desamor, por mais desesperança que haja, de perto é possível enxergar a profundidade do amor no interior dessas pessoas corroídas por uma ideia deturpada de ódio pessoal. São indivíduos extremamente sensíveis, ávidos para amar intensamente todos a sua volta, mas ignorados pela cada vez mais fluída vida moderna. Pessoas que ouviram repetidas vezes que eram incapazes, imperfeitas, incompletas e inferiores, da boca de entes queridos, amigos, parceiros (as), num momento em que suas resistências já não suportavam mais ignorar tantos insultos. Porque, os elogios que recebemos demoram a vir, mas quando chegam são como águas límpidas refletindo as nossas expectativas. Já as ofensas são ondas revoltas, como tsunamis, destruindo os limites que nos mantinham seguros e deixando um rastro longo de destruição a longo prazo.

Nesse sentido, tão complexo quanto amar é odiar. Apesar de opostos, estes sentimentos costumam nos confrontar nos momentos em que estamos mais fragilizados, quando a vida resolve semear a semente da dúvida naquele terreno pessoal até então infértil. O amor demora a dar frutos, porque precisa de tempo para ser regado. Exige cuidados excessivos, vigilância redobrada e dedicação permanente. Já o ódio facilmente germina em nós, pois a dor serve de fertilizante para que ele cresça, muitas vezes ramificando-se como uma praga em nossa essência. Por essa razão, nos odiamos tão facilmente do que nos amamos, porque direcionamos energias distintas para cada uma dessas sensações. Então, seja negligenciando o amor próprio, seja esperando que este afeto nos seja dado por aqueles que nos rodeiam, passamos a nos depreciar deliberadamente, a ponto de nos ferir, às vezes de forma irreversível.

Em contrapartida, se você está entre aqueles que não se suportam, revisite seu eu e não dê vazão a esse ódio. Ele não te pertence, é apenas um produto destrutivo implantado em sua mente querendo derrotar suas reservas de amor guardadas a setes chaves. Não permita que o ódio as encontre. Isso seria doloroso demais para si e a todos que te rodeiam. Entenda de uma vez por todas que este sentimento conflituoso encontrou morada em você, porque o comando dos seus sentimentos foi usurpado por piratas emocionais acostumados a roubar de nós aquilo que mais falta a eles: amor próprio. Então, assuma o leme da sua vida, acredite nesse tesouro precioso escondido no seu peito e reative a bússola suprema que guia nosso amor, o coração. Se ele bate, há esperança de dias melhores, com águas calmas e cristalinas. Se for o caso, recorra a espiritualidade como válvula de transcendência, busque ajuda psicológica, converse com estranhos, mas não desista de si, não se boicote, não abandone o navio antes de chegar a terra firme.

Há muitos mares para navegar, experiências para viver e amores para compartilhar. Ame-se!

Ela era fã de romances. Lia livros e via filmes que falavam de amor e ficava imaginando como seria se ela fosse a personagem principal. Imaginava o homem dos seus sonhos, como ele seria e como seria sua aproximação. Lily era daquelas mocinhas de filme, gostava de histórias com final feliz e possuía uma imaginação tão louca quanto fértil. Freqüentadora assídua de um bar próximo de onde morava, Lily era conhecida lá por ser discreta e sempre tomar a mesma bebida, na mesma mesa toda a semana. O bar era uma danceteria discreta, música ambiente, bar man e sempre frequentado pelas mesmas pessoas. Ela nunca se interessara pelos caras que ali bebiam e conversavam. Achava que eles nunca lhe dariam o romance que ela tanto almejava. Queria algo arrebatador, diferente. Algo que lhe tirasse da mesmice e lhe levasse para dentro de seus livros e filmes de romance, mas desta vez de verdade, não só na imaginação.
Uma certa noite chovia muito e Lily entrou no Dancing e pediu o de sempre ao garçom. Ele lhe trouxe o martini com três azeitonas. Lily gostava do gosto que as azeitonas deixavam no final da sua bebida. E depois ela as comia devagar, saboreando o martini ali impregnado. Naquela noite, ela pouco se interessou em observar as pessoas que estavam no Dancing. Estava concentrada no novo livro de romance que comprara antes de entrar ali. Quando enfim terminou o primeiro capítulo do livro, viu que o martini tb tinha se acabado e com ele as azeitonas. Chegou a pensar que o livro estava tão interessante, que nem percebeu quando as tinha comido. Lily precisava ir pra casa, estava a muito tempo ali sentada sem perceber. Ainda bem que morava bem próximo ao Dancing. Alguns passos e estaria em casa.
Quando fechou o livro e levantou a cabeça para pedir a conta ao garçom, seus olhos lhe levaram para a porta por onde está entrando, naquele instante, um homem bem apressado. Parece estar querendo se proteger da chuva. “Coitado!” Ela pensou. Mas seu pensamento não passou disso. Afinal, era apenas mais um freqüentador novo no Dancing. E neste momento ele a avistou. E foi como se os olhos dele tivesse lhe dado um close. Assim como acontecem nos cinemas. Ele ficou parado por um tempo contemplando Lily. Parecia comê-la com os olhos. O que a deixou muito sem jeito e talvez com um pouco de medo. Mas ela sorriu timidamente a ele. E logo se imaginou fazendo poses para os olhos daquele homem desconhecido que a olhava como se a tivesse fotografando para não esquecer do seu rosto. Pensou que talvez fosse bom retribuir a ele os olhares, afinal ele era muito bonito, pelo menos assim de longe. E foi então, quando pensou nisso, que ela lhe sorriu dessa vez com tamanha felicidade. Pois tinha algo dizendo a Lily que era para ela agir dessa forma. Parecia que os olhos daquele homem a tinham hipnotizado.
Ele veio em sua direção, para Lily não havia mais ninguém no Dancing, apenas ela e aquele homem misterioso. Quando ele se aproximou, ela conseguiu ver direito o seu rosto. Tinha as sobrancelhas grossas e bem desenhadas, um rosto quadrado e lábios médios. O queixo era bem pronunciado. Não possuía barba e nem bigode e os cabelos eram negros e ainda tinha um pouco de costeleta. Parecia aquele personagem do filme que ela tinha visto semana passada. Pensou ser imaginação. Talvez devesse parar de ler e de ver tantos romances. Mas a sua imaginação acabara de lhe oferecer um drinque. Ela disse que sim apenas com a cabeça. Ele puxou a cadeira ainda olhando em seus olhos, quando o garçom se aproximou. E sem tirar os olhos dela ele pediu: “Traga para essa moça o mesmo que estava bebendo e um scotch para mim!” Lily se sentiu confusa. Pensou em ir embora, mas antes mesmo que ela juntasse suas coisas ele falou novamente: “O que um anjo azul faz aqui neste lugar?!” Anjo azul?! Que brega! Mas assim era Lily, brega como seus romances. E nesse instante sua visão ficou flou. Depois deste dia, vários martinis com três azeitonas Lily tomou com aquele homem que deveria ter vindo do romance mais meloso que ela já tinha lido ou visto. Ás vezes era presenteada com uma rosa azul e um poema feito especialmente para ela. Lily estava aproveitando cada momento daqueles encontros no Dancing, que passaram a ser rotineiros e vivia como as personagens mais amadas da face da ficção. Mas o seu romance, de fictício não tinha nada.. Todos os dias quando chegava em casa, e escutava o blues que estava tocando no Dancing quando se conheceram, ficava pensando no olhar, nas palavras em tudo o mais que aquele homem lhe proporcionava, ela se comparava a uma gema sem clara, completamente desmilinguida. Era assim que ela pensava estar. Numa certa noite ele abusou um pouco do tal scotch e entre tantas palavras de amor ele lhe disse que o corpo dela seria só dele aquela noite. “Oh…por favor!” Ela disse. O achou atrevido e ela não seria dessas. Afinal ela era a mocinha e não a moça malvada que quer separar o casal, pensava ela. Mas não era isso o que Lily queria dizer. Queria mesmo ter seu corpo envolto ao dele. Mesmo assim, ela colocou seu xale em volta do busto para esconder o decote da chuva ou de quem quer que seja e se foi. Cheia de vergonha, com o rosto vermelho e quente.
Lily continuou freqüentando o Dancing, mas já não queria encontrar aquele homem. Achava que ele tivesse desistido dela por ela se negar a ir pra cama com ele. Chegou a se arrepender de dizer não, mas Lily era muito tímida e contida em seus sentimentos carnais. Ela queria sim se entregar ao homem da sua vida. Mas achava que ele tinha sido muito canalha ao lhe proferir aquelas palavras. “Meu corpo só dele?! Não sou uma mercadoria!” chegou a pensar cheia de raiva sentada na mesma mesa, tomando seu Martini. Mesmo não querendo encontrá-lo, Lily não parava de olhar para a porta do Dancing. Queria que estivesse chovendo como da primeira vez. E achou que ele nunca mais voltaria ali. Lily tentou se ater ao seu novo romance e quando percebeu que folheava as páginas do livro sem prestar atenção no que estava escrito ali, decidiu ir embora. Juntou seu casaco e bolsa e caminhou até a porta. Quando a abriu, eis que surge em sua frente aquele homem. Tinha ele em suas mãos um buquê de rosas azuis e dez poemas feitos especialmente para ela. Tinha juntado por todos esses dias que não haviam se encontrado. Mas Lily ficou irredutível, apesar de querer abraçar seu grande amor, não pegou as flores ou os poemas, Lhe disse adeus e saiu caminhando. Ele foi atrás dela e gritava seu nome lhe pedindo para esperar. Lily parou e ele em sua frente disse que lhe amava e que a queria como esposa e não como mercadoria. O coração de Lily disparou, era tudo o que ela queria ouvir desde que se conhecia por gente. Ela mal conseguia acreditar quando ele a beijou no altar da Igreja da cidade onde nascera.
Com o passar do tempo, Lily nunca mais leu ou viu um romance. Pensava que, o que ela estava vivendo era suficiente. Nunca mais tomaram drinque no Dancing. Afinal, lá era cheio de homens, não ficaria bem para uma mulher casada freqüentar aquele lugar de solteiros. E tb nunca mais recebera suas rosas azuis ou seus poemas. Sentia falta de tudo aquilo. Talvez Lily seria mais feliz anteriormente e não sabia disso. Achava que sua felicidade estivesse nas mãos de um romance, mas estava enganada. Sua privação da vida que tinha antes lhe respondera que não. O romance da vida real lhe dissera que não.

Visto no: Blog da Rosinha


Precisamos falar de um problema seríssimo. A hiperpopulação. Sim, tem gente demais no mundo. Todo mundo que pegou o trem pra Japeri às seis da tarde sabe disso. Todo mundo que já foi pro aniversário do supermercado Guanabara também. Todo mundo que já passou um Carnaval em Salvador ou frequentou um natal do Mister Catra sabe: tem gente demais no planeta.

Não sou eu que tô dizendo. São os cientistas. Alguns dizem que o mundo devia ter a metade dos habitantes do que tem. Outros dizem que é um terço. Todos concordam que tá apertado demais pra gente e que tem gente que não deveria estar aqui.

Eu sei o que você tá pensando: será que ele tá falando de mim? Calma. Todo o mundo já se perguntou em algum momento: o mundo tem 3 bilhões de pessoas a mais do que deveria, será que eu sou uma delas? Provavelmente é. E eu também. Em cada ano nascem 80 milhões de pessoas, e já já o mundo vai ter 10 bilhões de pessoas, e se tudo continuar como está, o mar vai ter subido alguns metros.

Enquanto o mundo superlota, deputados alegam que a homossexualidade vai acabar com o mundo, porque homem com homem não pode ter filho, nem mulher com mulher, daí se todo homem gostar de homem e toda mulher, de mulher, ninguém mais vai ter filho. Ou seja, EUREKA.

Foi um deputado evangélico, por meio do seu discurso, que me fez ver a verdade: a única salvação pra espécie humana é a prática da homossexualidade. Ao contrário do que podem tentar te convencer, não existe sexo seguro entre heterossexuais. Se você quer estar 100% seguro/a de que ninguém vai engravidar, melhor transar com alguém do mesmo sexo. Nunca, na história do mundo, dois homossexuais conseguiram engravidar transando entre si. E olha que estão experimentando há milênios, e em toda sorte de posições e temperaturas. De todas as pesquisas da ciência, essa é a mais antiga -e, apesar dos resultados pouco entusiasmantes, a prática continua, por ser prazerosa.

Por isso, faça esse esforcinho e passe mais tempo no vestiário do clube.

"Ah, mas eu não tenho tesão em homem." dirá o leitor. "Ah, mas não curto mulher", dirá a leitora. Por favor, reconsidere. Lembre que antigamente você não curtia cerveja. É um sinal de maturidade, tipo gostar de rúcula. Por não ser fácil, mas no entanto necessário, acho que o governo tinha que tratar igual vacina e promover campanhas públicas de homossexualização. "Ainda não caiu a ficha? O jeito é ser bicha".

Não tem a ver com tesão. Tem a ver com pensar no planeta. Obrigado.


Para um desenvolvimento saudável, além do acesso a saúde, educação, segurança e alimentação, as crianças e os adolescentes precisam crescer em ambientes onde o alicerce psicológico lhes garanta uma construção emocional tranquila. Sem priorizar esta questão, muitas lacunas podem ser abertas na vida desses futuros adultos, sobretudo no que se refere a sua autonomia para tomar decisões cruciais para sua sobrevivência em sociedade. Entretanto, em muitos lares, não é dado o devido enfoque a essa pauta. Assim, cercado de violências físicas, ideológicas, simbólicas e emocionais, a psique de muitos jovens cresce abalada, sedimentando em suas personalidades perfis pessoais enfraquecidos pelos traumas adquiridos com aqueles que deveriam garantir o fortalecimento de suas crias. Com base nisso, que lares são esses onde as opressões se tornam protagonistas na vida de tantos indivíduos em construção, sufocando suas personas com ares de agressividade cuja inalação insere em suas entranhas os odores da hostilidade, que serão expelidos ainda mais tóxicos no futuro?

De todos esses vapores, o da violência continua sendo o mais nocivo. Por se apresentar de diversas formas, os lares violentos constroem o pano de fundo para emoldurar no outro, sobretudo nos mais juvenis, a banalização da violência em detrimento da total exclusão do diálogo. Ao crescer em atmosferas onde o grito é o canal primitivo utilizado como comunicação entre os pertencentes daquele local, possivelmente muitas crianças reproduzirão esta forma interacional quando adultas. As mais sensíveis, absorverão aqueles berros como práticas animalescas de se chegar ao outro, elaborando uma entonação pessoal mais contida, algo beirando a timidez ou total incomunicação com o mundo lá fora. Além de mexer com o caráter emotivo dos envolvidos. Há casos em que pessoas, mesmo após adultas, chorem quando são repreendidas por algum erro, principalmente se o interlocutor elevar o tom de voz. São sequelas advindas da falta de conversação, insensatez e imaturidade de muitos adultos em lidar com seus problemas.

Não é de se estranhar que muitas crianças e adolescentes se tornem mais introspectivos ao longo da vida, privando-se de se posicionarem publicamente. Vítimas de uma ditadura familiar, da qual o mais forte, geralmente aquele que mantém o sustento da casa, é o que dita o que pode ou não ser falado e quem tem ou não o direito de fala, muitos infantes limitam-se a se expor o menos possível. Esse controle na fala interfere nos estudos, na interação entre os jovens, nas conquistas amorosas, em entrevistas de emprego e em tantas outras áreas determinantes para nossa vivência em sociedade. Há aqueles, que proibidos de se colocar em casa, encontram em outras esferas sociais a chance de expor o que sentem, geralmente em demasia. Falam incontrolavelmente como se estivessem há anos amordaçados dentro de suas realidades. E estavam! Então, quando há uma chance de se mostrarem como são, seus problemas ganham voz exibindo a face desse tipo de violência.

Somado a isso, vêm as agressões físicas das quais, quando presenciadas pelos menores, geram nestes sentimentos que variam de autodepreciação à revolta, ou pior, da naturalização à banalização. Não é de se surpreender, por exemplo, quando rapazes frutos desses recintos se transformem em homens violentos com seus cônjuges, pois aprenderam a usar dentro de casa a força física como forma de impor o respeito esperado. É a violência usada para intimidar, criando uma ideia distorcida de subserviência entre aqueles que habitam o espaço chamado de lar. Se a herança familiar trouxer no seu bojo assédios, estupros, privações do direito de ir e vir, humilhações, ameaças a integridade física do outro, a juventude inserida nesse coquetel molotov difundirá essas e outras violências dentro dos seus contextos de vida.

Esses pais, mães, conhecidos ironicamente como “responsáveis” pela criação infanto-juvenil dos muitos cidadãos brasileiros, são os mesmos culpados por intoxicar o ar da juventude com suas brigas mesquinhas, reflexo de relações doentias, fragilizadas pela traição, falta de companheirismo e desamor. A alienação parental é uma prova disso. Quando o fim de um relacionamento amoroso se dá, muitas vezes de forma egoísta, quem paga o ônus de ver os progenitores se separando são aqueles que não têm nada a ver com isso, os filhos. Entretanto, para barganhar uma faísca de esperança, ou simplesmente usar os rebentos como moeda de troca para ferir o ego do outro, pais e mães usam sua prole de cabo de guerra na tentativa fracassada de macular uma das partes da questão, quando, na verdade, ambos estão equivocados por recorrer a esse artifício. Deslocados no meio do fogo cruzado, muitas crianças e adolescentes são influenciados a se posicionar para um dos lados do embate, ou elaboram uma ojeriza parental agravando ainda mais esse dilema.

A superproteção familiar é outra artimanha comum em lares irrespiráveis. Sob alegações questionáveis, pais e mães superproterores proíbem a autonomia juvenil de conhecer coisas, experienciar realidades, descobrir suas preferências, se aventurar, arriscar, alimentar a natural curiosidade da juventude pelo novo. Então, na sua neura em criar um casulo impenetrável para seus filhos, muitos desses pais colaboram negativamente para a formação daqueles indivíduos. Por essa razão, muitos jovens, cada mais tardiamente desmamados, sentem-se inseguros a tomar decisões quando a vida adulta lhes bate à porta. Não sabem qual carreira seguir. Por não terem tido liberdade de experimentar o mundo, desconhecem os rumos que tomarão em suas vidas. Indecisos, são mais propensos a patologias modernas como a depressão. Outros encontram nas drogas, lícitas ou não, o refúgio para suas incertezas, mesmo que para isso insiram-se no labiríntico caminho da criminalidade.

Esses lares não foram os desejados por muitos jovens. Eles não escolheram presenciar seus entes amados digladiando-se ferozmente para conquistar meros instantes de destaque. Tão pouco são culpados por reproduzir muitas dessas violências, adquiridas em anos de opressão, em suas vidas adultas. Assim como esponjas, a juventude, sobretudo na tenra infância, é mais susceptível a absorver exemplos nocivos de comportamento, naturalizando-os e, na pior das hipóteses, reproduzindo-os dentro dos seus contextos. É preciso reavaliar isso. Enquanto adultos, muitos pais, mães e responsáveis, precisam assumir os encargos da criação emocional de seus filhos, construindo seres fortes, autônomos e independentes. Se possível, pacíficos, respeitosos, abertos ao diálogo e avessos à violência. É isso que a sociedade espera, já que o lar é a instância principal na formação educacional do indivíduo, onde os valores mais humanos deveriam ser repassados e problematizados. Esse é o exemplo de um habitat sadio. Porém, qualquer coisa que vá de encontro a isso não merece receber o nome de lar.


Quase toda cidade pequena – principalmente as de Minas – tem seu louco de estimação. Aquele que toda a cidade conhece, cuida e por quem zela como uma espécie de patrimônio. Ibiá, onde nasci, tinha o Zé Tem Dó; e foi com ele que aprendi sobre o valor simbólico de certos objetos. Eu devia ter uns quatro ou cinco anos. Minha mãe era costureira, e o Zé colecionava carretéis de linha. Portanto, suas visitas à minha casa eram constantes, porque minha mãe guardava todos os carretéis para ele e sempre oferecia algo mais, como um refresco, uma roupa, um prato de comida.

Pensando que o Zé estava distraído, certa vez tentei pegar em um destes carretéis. Ele se levantou com um pulo e, com mais dois, estava parado na minha frente, protegendo os valiosos bens que, para minha mãe, eram apenas sobras de trabalho. Saí eu correndo para o outro lado, assustada, com medo. Zé pegou suas coisas e foi embora, conversando com um dos carretéis que ele amarrava na ponta de uma linha e saia puxando. Era seu animal de estimação ou seu carrinho, algo que ia muito além do que eu conseguia ou conseguirei ver, a menos que um dia me torne um Zé e vá eu mesma virar folclore em uma cidade do interior. Mas ali, naquele episódio, aprendi uma coisa da qual pretendo falar aqui: o Zé não estava brincando com um carretel e nem nós estamos brincando com um turbante.

Boa parte da população branca brasileira sabe de suas origens europeias e cultiva, com carinho e orgulho, o sobrenome italiano, o livro de receitas da bisavó portuguesa, a menorá que está há várias gerações na família. Quem tem condições vai, pelo menos uma vez na vida, visitar o lugar de onde saíram seus ancestrais e conhecer os parentes que ficaram por lá. E os descendentes dos africanos da diáspora? Quando chegaram por aqui, os traficantes de pessoas já tinham apagado os registros do lugar de onde haviam saído, redefinindo etnias com nomes genéricos como Mina (todos os embarcados na costa da Mina), feito-os dar voltas e voltas em torno da Árvore do Esquecimento (ritual que acreditavam zerar memórias e história) ou passarem pela Porta do Não Retorno, para que nunca mais sentissem vontade de voltar, separado-os em lotes que eram mais valiosos quanto mais diversificados, para que não se entendessem. Ainda em terras africanas tinham sido submetidos ao batismo católico para que deixassem de ser pagãos e adquirissem alma por meio de uma religião “civilizatória”, ganhando um nome “cristão” que se juntava, em terras brasileiras, ao sobrenome da família que os adquiria. No Brasil, não podiam falar suas próprias línguas, manifestar suas crenças, serem donos dos próprios corpos e destinos. Para que algo fosse preservado, foram séculos de lutas, de vidas perdidas, de surras, torturas, “jeitinhos”, humilhações e enfrentamentos em nome dos milhares dos que aqui chegaram e dos que ficaram pelo caminho.

Como resultado disto, somos o que somos: seres sem um pertencimento definido, sem raízes facilmente traçáveis, que não são mais de lá e nunca conseguiram se firmar completamente por aqui. Temos, como diz a poeta, romancista, ensaísta e documentarista canadense Dionne Brand, em seu maravilhoso A Map to the Door of No Return, “o próprio pertencimento alojado em uma metáfora”. Viver na Diáspora Negra, segundo ela, é “viver como um ser fictício – uma criação dos impérios, mas também uma autocriação. É ser alguém vivendo dentro e fora de si mesmo. É entender-se como signo estabelecido por alguém e ainda assim ser incapaz de escapar dele (…).”
Somos signos criados pelos brancos para que nossa negritude pudesse, e ainda possa, ser mercantilizada. E não conseguimos escapar disso porque, de antemão, sem ao menos nos ouvir, vocês já parecem saber o que somos, o que queremos, o que sabemos. Assim mesmo: a negritude, a militância, as mulheres negras, esse povo – nunca seres individuais, mas sempre em lotes. E vivemos nesta metáfora que, a partir de agora, vou passar a chamar de turbante, mas poderia ser outro símbolo qualquer.

Viver em um turbante é uma forma de pertencimento. É juntar-se a outro ser diaspórico que também vive em um turbante e, sem precisar dizer nada, saber que ele sabe que você sabe que aquele turbante sobre nossas cabeças custou e continua custando nossas vidas. Saber que a nossa precária habitação já foi considerada ilegal, imoral, abjeta. Para carregar este turbante sobre nossas cabeças, tivemos que escondê-lo, escamoteá-lo, disfarçá-lo, renegá-lo. Era abrigo, mas também símbolo de fé, de resistência, de união. O turbante coletivo que habitamos foi constantemente racializado, desrespeitado, invadido, dessacralizado, criminalizado. Onde estavam vocês quando tudo isto acontecia? Vocês que, agora, quando quase conseguimos restaurar a dignidade dos nossos turbantes, querem meter o pé na porta e ocupar o sofá da sala. Onde estão vocês quando a gente precisa de ajuda e de humanidade para preservar estes símbolos?

Lembro de ter visto um turbante usado por um homem sensível à causa das mulheres negras na Marcha das Mulheres, que aconteceu há pouco tempo em Los Angeles, que perguntava: “Verei todas vocês, mulheres brancas legais, na próxima marcha #VidasNegrasImportam, certo?”.

Vocês, mulheres brancas legais que querem se abrigar em nossos turbantes, vão estar conosco enquanto choramos as mortes dos nossos meninos negros e clamamos por justiça, certo? Vão usar turbante quando nossas mães e pais de santo são expulsos de comunidades ou entregues aos formigueiros, certo? Quando reclamamos da dor ao recebermos menos anestesia do que mulheres brancas durante os partos, certo? Quando denunciamos que sofremos mais violência, mais abuso e mais assédio do que vocês, certo? Quando reivindicamos equiparação salarial com vocês, certo? Vão reverberar nossas vozes quando reclamamos que somos preteridas pelos homens (brancos ou negros), certo? Vão entender e ter uma palavra de consolo quando sentimos culpa por deixarmos os próprios filhos em casa para cuidarmos dos seus, certo? Vão nos ouvir e nos defender quando tiver mais alguém querendo invadir nossos turbantes a força, na marra, no grito, certo? Porque aí, o turbante também já será de vocês. Vão ouvir, entender e falar junto quando tentamos explicar que nossas reivindicações, distorcidas, não têm nada a ver com pizza, calça jeans e feng shui, certo?

Quando vocês dizem “Vou usar e pronto, quero ver quem vai me impedir”, às vezes dá vontade de pegar vocês no colo, à moda das “mães pretas” que devem ter povoado as vidas de muitos de vocês ou de seus ancestrais, e dizer que isso não é comportamento de criança educada. E dizer que sim, algumas coisas são de vocês, porque foram da bisavó de vocês, da avó de vocês, da mãe de vocês e que, deste modo, a gente também poderia ter algumas coisas que são nossas, herança de família. Quer ver: Pizza! (“É comida italiana!”). Acarajé – do iorubá akara (bolo de feijão frito) + ijé (comida) – (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Hashu´al (É israelita!). Congado (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Quimono! (É japonês!). Ojá! (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Kung Fu (É chinesa!). Capoeira! – do tupi ko´pwera ou do umbundo kapwila – (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!). Abajur (Vem do francês!). Moleque, quiabo, berimbau, samba, cafuné, zumbi… (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!).

E depois somos nós os divisionistas, os egoístas, os que não têm cultura, enquanto vários outros povos podem manter, sem controvérsia e sem serem obrigados a colocar na roda (É MEU! É do Brasil! É de todo mundo!), as “contribuições” que trouxeram para o solo brasileiro. Já entendemos que vocês acham que é (sempre foi) tudo de vocês. Só que cansamos de ficar só nas cozinhas, nos quartinhos, nos corredores, nas bordas das piscinas, sem sermos incluídos nisso aí que vocês chamam de “povo brasileiro”. Cansamos de escutar que não sabemos, não vemos, não entendemos, não queremos, não podemos. De ter que pedir licença pra tudo, de ter que pedir desculpa mesmo quando somos os ofendidos. Cansamos de servir quem nem sabe os nossos nomes. Cansamos de sermos personagens de piadas das quais só vocês riem.

Quase todas as nossas discussões e toda a produção intelectual acontecidas ali, sob nossos turbantes, são desligitimizadas pela palavra de ordem #VaiTerBrancaDeTurbanteSim!, gritada para nós com a mesma arrogância e espera de obediência que os donos dos nossos ancestrais gritavam #NãoVaiTerCoisaDePretoAquiNão!. Coisas mil acontecem dentro desses nossos turbantes, das quais vocês nem têm ideia: temos que formar redes de apoio, invisíveis para vocês e alheias à sua existência privilegiada, para socorrer, consolar, orientar e fortalecer vítimas de racismo cometido por pessoas que se ofendem quando apontamos suas faltas, e viram vítimas.

Debaixo deste turbante orientamos crianças negras a não levarem banana na lancheira porque os amiguinhos vão chamá-las de macacos. Orientamos nossos jovens a não usarem roupa com capuz, não correrem, não fazerem movimentos bruscos em público e não parecerem suspeitos, seja lá o que isso significa para vocês. Sob a proteção destes turbantes, trocamos informações, discutimos teorias, nos comunicamos com turbantes estrangeiros e até fazemos vaquinhas para pagar enterro de jovens assassinados pela polícia. Concordamos, discordamos, rimos, choramos, contamos segredos, gritamos, amamos, odiamos, estudamos, dizemos uns aos outros que temos que ter infinita paciência para voltar cinco, dez, vinte casinhas do ponto de entendimento em que estamos para responder a egocentrismos do tipo “EU li Monteiro Lobato e não me tornei racista”, “se EU usar turbante vou ser chamada de racista?”. Porque sabemos que não são comentários nem perguntas inocentes, mas são também metáforas. São os muros que protegem aqueles lugares que vocês habitam e nos quais não somos admitidos, porque na porta sempre teve uma placa dizendo “brancos somente”.

O turbante que habitamos não é o mesmo. O que para você pode ser simples vontade de ser descolado, de se projetar como um ser livre e sem preconceitos, para nós é um lugar de conexão. Entre nós mesmos e com algo que perdemos e que nem sempre sabemos o que é e por onde ficou. Habitar nossos turbantes tem para nós o mesmo significado de “ir conhecer a vila onde meus avós italianos nasceram”, ou “pude sentir na pele o que meus bisavós viveram naquele campo de concentração”. Sim, porque, entre muitos outros, ele tem estes dois significados: abrigo e dor.

Nós não tiramos sarro de vocês quando vocês defendem estes lugares que fazem parte da história do seu povo. Nós não fazemos piadas com os significados que estes lugares têm para vocês. Não não dizemos que são meras construções de pedras e tijolos empilhados uns sobre os outros. Nós não os chamamos de burros porque a nossa ignorância não nos permite entender o que vocês falam destes lugares que lhes são caros porque trazem as marcas de seus bisavós, avós, pais, e que continuarão a marcar as vidas de seus filhos, netos, bisnetos. E, no entanto, temos que observar calados, sob a pena de tentarem nos calar à força, como a bestas raivosas que vocês acham que nós somos – não é ação, é reação! –, vocês meterem os pés nas nossas portas, invadirem nossos turbantes com gritos de “VaiTerBrancaDeTurbanteSim!. Para vocês é morada provisória, das quais vocês entram e saem conforme dita a moda e a vontade, porque vocês têm sempre um lugar outro para onde ir, que é este da branquitude. Nós não temos, porque nossa existência está cravada na pele, nossa morada está acoplada às costas, à maneira dos caracóis. Nossa casa, para você, é fetiche, é exotismo, é acessório, é fantasia. A nossa casa.

Na nossa casa, a gente não fala de turbante quando fala de turbante. Dentre muitos dos seus nomes, o principal é racismo. É racismo quando vocês acham que não sabemos do que estão falando. É racismo quando vocês deduzem que precisam nos ensinar que pizza é italiana, que o algodão do pano do turbante é indiano, que num mundo globalizado… etc etc etc. A gente tem que voltar cinco, dez casinhas na discussão que vocês não estão acompanhando porque não querem – mas se acham habilitados a dar palpite –, para nos nivelarmos ao entendimento de vocês, só pra dizer: É o racismo, estúpido! E antes que tenhamos que voltar mais trinta casinhas para ouvir os “eu não sou racista!”: É o sistema, estúpido! E sendo ele estrutural e estruturante da sociedade brasileira, faz com que você trabalhe para mantê-lo, quer você queira, quer saiba, ou não.
Sobre apropriação cultural, a gente conversa depois de vocês lerem, por exemplo, o artigo da filósofa Djamila Ribeiro, publicado muito antes desta briga de vocês pelo turbante virar modinha. Ou o poema do mestre Nei Lopes, colocado aí abaixo. Neste caso, podem ter certeza de que quando vocês vêm com o fubá (do quimbundo “fuba” ou do quicongo “mfuba”), a gente já está comendo o angú (provavelmente do fon “àgun”).
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BRECHTIANA (para Abdias Nascimento)

Primeiro,
Eles usurparam a matemática
A medicina, a arquitetura
A filosofia, a religiosidade, a arte
Dizendo tê-los criado
À sua imagem e semelhança.
Depois,
Eles separaram faraós e pirâmides
Do contexto africano
Pois africanos não seriam capazes
De tanta inventiva e tanto avanço
Não satisfeitos, disseram
Que nossos ancestrais tinham vindo de longe
De uma Ásia estranha
Para invadir a África
Desalojar os autóctones
Bosquimanos e hotentotes.
E escreveram a História ao seu modo.
Chamando nações de “tribos”
Reis de “régulos”
Línguas de “dialetos”.
Aí,
Lançaram a culpa da escravidão
Na ambição das próprias vítimas
E debitaram o racismo
Na nossa pobre conta
Então,
Reservaram para nós
Os lugares mais sórdidos
As ocupações mais degradantes
Os papéis mais sujos
E nos disseram:
-Riam! Dancem! Toquem!
Cantem! Corram! Joguem!
E nós rimos, dançamos, tocamos
Cantamos, corremos, jogamos.
Agora, chega!

— Nei Lopes
Visto no: The Intercept Brasil




30 maio 2018



Todo preconceito se baseia na premissa de que há algo pré-estabelecido em nosso olhar sobre o outro e, desta análise errônea que fazemos, não há espaço para desconstrução. Por esta razão, nos tolhemos de conviver com certas pessoas, experimentar determinadas vivências e conhecer outras realidades, por causa dessa patética mania que temos de superestimar nossos conceitos a partir de nossos olhares distorcidos sobre a vida alheia. Por causa dessa nossa insensata postura, subestimamos tudo e todos a nossa volta que fuja da normalidade captada por nossas lentes desfocadas. Antes mesmo de sentenciar os “diferentes” a total exclusão de nossas vidas, duvidamos de suas capacidades, questionamos sua relevância e/ou desvalorizamos suas qualidades, mesmo que estas sejam inquestionáveis, porque já fomos hipnotizados pela sociedade a ver sem enxergar. Mais que discriminar, subestimar com base no que se vê de relance, nesse sentido, é a forma mais genuína pré-conceitual de delimitar o muito de alguém em pouco.  

Tenho minhas reservas com a expressão: “a primeira impressão é a que fica.” Nem sempre ela dá conta de nos apresentar ao mundo como de fato somos. Como toda apresentação, na ânsia de nos mostrar o melhor que pudemos, há de nossa parte excessos, economia, exageros, cautelas, erros, acertos, sem brechas para ensaios. E desse improviso de querer agradar ao outro, deixamos escapar nossa naturalidade para assumir um perfil “Fake” de nós mesmos. Então, numa piscadela, quem está do outro lado já presume quem somos, ao ponto de nos incluir ou excluir definitivamente de suas vidas. É uma atitude digna de, no mínimo, reflexão. Todavia, em sua essência, aquele dito popular carrega em si a presunção usada por muitos para subestimar as pessoas a nossa volta. Seja pela aparência, entonação da voz, gesticulação corporal, há sempre algo usado para caracterizar o todo do outro, como se uma parte do que somos fosse capaz de nos definir por completo.

Assim, sem ao menos nos conhecer, temos a nossa personalidade questionável por pessoas ocupadas em nos sentenciar meramente por aquilo que veem ao nosso respeito. Pior ainda é quando essa análise visual interfere naquilo que de melhor temos a oferecer. Recentemente, passei por isso, quando uma vizinha, que sabe da minha rotina como professor, questionou a autenticidade dos textos que costumo escrever na rede/blog. Seu tom de voz e expressão ocular revelavam total descrença de que os artigos lidos por ela poderiam ter sido feitos por mim. Recebi aquela ofensa da melhor maneira que pude e retruquei perguntando por que não seria de minha autoria aquelas palavras. Ela, com a velocidade costumeira de nossos preconceitos, disparou que não imaginava alguém como eu ser capaz de produzir aqueles “textões”. A minha vontade era de lhe esbofetear com palavras, porém minha sanidade sabia que não valeria a pena me expor daquela maneira. Então, guardei na mente a frase dita por ela “alguém como eu” para uma acurada reflexão.

Revisitei vivências preconceituosas das quais já havia me esquecido. Ao subestimar as minhas produções textuais, a minha vizinha não se referia ao texto propriamente dito, mas, sobretudo, àquele que o produziu. Ou seja, um rapaz pobre, negro, morador da periferia, gay, professor, nordestino, e tantos outros estigmas captados pelo olhar daquela mulher. Por mais que me conhecesse há anos, ela não me via como alguém capaz de tal feito. Para ela, assim como boa parte da sociedade, é mais fácil subestimar os grupos minoritários do que dar a eles a chance de se mostrarem como são, com suas deficiências, mas também com suas surpresas e dotes pessoais. Por isso nos chocamos ao ver um médico negro, um nordestino governando o país, uma mulher na liderança de uma empresa, entre outros casos à revelia do sistema superestimado em que estamos inseridos, porque aprendemos com o preconceito a desdenhar do outro, inferiorizando sua capacidade através daquilo que se atribuiu a eles como menor, vil e sem valor.

Quando não é o preconceito que nos subestima, somos nós mesmos que fazemos isso, seja inconscientemente, seja para legitimar a discriminação social evitando um embate entre nós e eles. Dessa forma, poucas pessoas nos enxergam por completo. Em boa medida, isso se dá porque economizamos na amostra daquilo que somos. Geralmente, exibimos versões incompletas de nós mesmos, fatiando nosso ser em pedaços desordenados, os quais chegam ao outro como um quebra-cabeça confuso de se montar. Então, quando é chegado o momento de revelar nossas potencialidades, por mais claras que sejam, não somos percebidos ou devidamente valorizados por nossas reais qualidades. Dessa autodegradação, contribuímos para o desmerecimento de nossos poucos valores, em uma sociedade historicamente construída no menosprezo, vilipêndio e depreciação das conquistas dos grupos minoritários.

Subestimar o outro por meio do nosso limitado alcance ocular é um erro que pode ainda desembocar em um risco, o da vergonha alheia. Quantas vezes, precipitados em achismos rasos, definimos alguém com base naquilo que queremos ver e não no que enxergamos de fato? Inúmeras, pelo menos comigo. É que colocamos no mesmo bojo a ação de dois verbos, que apesar de sinônimos, possuem aplicabilidades distintas. Ver todos nós vemos, sobretudo aqueles que fisiologicamente foram agraciados com a dádiva desse sentido. Já enxergar vai além de ver. Requer detalhe, minúcia, atenção e, principalmente abertura. É preciso desnublar nossa visão daquilo que nos invisibiliza de enxergar além do que nossa biologia corporal nos permite. De fato, esse olhar quase biônico não se adquire facilmente. Passamos por longos momentos de cegueira coletiva até apurar nossas lentes para aquilo que sempre esteve a nossa frente clamando por atenção, mas ignorávamos porque havia tufos preconceituosas ocupando nossa visão.

Na verdade, elas continuarão lá embaçando nossas vistas, se não tomarmos uma atitude enérgica para adquirir o controle dos nossos sentidos. Quando as rédeas passarem a estar em nossas mãos, estaremos aptos a compreender melhor essa agigantada acepção que há por trás da palavra preconceito. A ideia aqui não é apenas enxergar o mundo de outra forma, mas deixar com que esse mundo se revele para nós como ele sempre foi e a partir disso refletir sobre suas incontáveis incoerências. Não obstante, isso não garante os inevitáveis momentos de cegueira ao longo da vida. Por estar em sociedade, nem sempre enxergamos o mundo a partir de nossos olhos. Todavia, certos embaraços na visão serão rapidamente sanados quando entendermos o quão nocivo é para todos subestimar os outros pela primeira olhadela. A quem, como eu, já foi vítima desse crivo equivocado, não poupe esforços para se mostrar para o mundo. Não podemos deixar que o outro defina nossa grandiosidade de forma mesquinha. Precisamos ajudá-los a nos ver de verdade. Feito isso, o cada vez mais velho preconceito terá seus dias contatos, pois qualquer tentativa de nos subestimar se mostrará inútil.

Até porque você não me conhece, tão pouco eu lhe conheço. Então, não me subestime. Sou mais do que você imagina e você também.