Ser Feliz é Ser Livre

12 julho 2018



A complexidade de certos conceitos reside em sua simplicidade. A pansexualidade faz jus a esta máxima. No geral, quem se entende pansexual não se atrai apenas pelo gênero, orientação ou identidade do outro, mas por tudo isso e muito mais. É como se as categorias, que mais complicam a nossa vida do que facilitam, ruíssem, inúteis em suas próprias concepções, perdendo sua relevância sexual. É a pessoa revisitando sua humanidade através do desejo pelo outro que é apenas humano. Esse reencontro, porém, esbarra no tradicionalismo operante do qual nos impõe apenas o modelo heterossexual como sendo aprovável. Esse entrave veta outras experimentações sexuais ao colocar nossa sexualidade dentro de blocos rígidos. É por causa desse amontoamento de ideias castradoras que passamos a demonizar quem prefere trazer a público uma visão mais ampla acerca de suas práticas sexuais. Entretanto, ao não problematizar a pansexualidade, estamos impedindo uma maior compreensão daquilo que atribuímos como critérios atrativos para estar com alguém, para além dos impulsos sexuais.

Acima da questão hormonal envolta na química entre duas pessoas, há, sobretudo, uma pressão social latente, vigilante, exigindo de todos os encaixes voltados à procriação da espécie. Nenhum problema até aí, quando levamos em conta a nossa condição animalesca na natureza. Mas, estar sob este julgo natural não significa reduzir nossos estímulos sexuais às exigências reprodutivas. Ao se difundir isso, além de improdutivo, leva-nos ao fracasso de experimentações, que poderiam engrandecer nossas vidas sexuais, como também ampliar nossa sensibilidade para com aqueles que se permitem aventurar por outras águas, vistas por muitos de nós como intranquilas. A pansexualidade navega por esses mares revoltos do possível, permitindo aos seus adeptos não se tolher o direito de se aproximar, mais do que qualquer outro, de provar o que há de mais humano em nós, a diversidade. Por isso, ficamos assustados com essa prática, por medo de encontrar em nós uma brecha do tamanho o suficiente para saciar nossa curiosidade pelo outro.

Sem sombra de dúvidas, tememos também questionar as certezas destinadas aos nossos sentimentos quando encontramos a nossa “cara metade”. A regra social dita que ela tem a face oposta da nossa, mas nem sempre essa norma é seguida à risca. Há pessoas que são apaixonantes, atraentes, desejáveis, sensíveis ao nosso modo, compreensíveis, moldadas com as características das quais mais valorizamos. São quesitos interiores que ganham forma de gente e nos fazem ignorar aquele corpo a nossa frente, mero receptáculo de carne e osso. Repensando, chegamos à conclusão de que, ademais da representação visual, é o interior que nos conquista. É ele que se revela num olhar, num toque, numa conversa, numa breve respiração. Imperceptivelmente, somos seduzidos pela essência daquele outro, porém, muitas vezes não levamos a cabo a intensidade desse encontro, porque há toda uma pressão social observando nossas escolhas e punindo aquelas que desagradam a maioria. Ora, se é o âmago que sustenta as relações, porque ele precisa ser desse ou daquele gênero para ser legítimo?

Muito provavelmente porque sem essa anulação do sentimento alheio não haveria justificativa para legitimar o nosso, o qual, como já vimos, é regido mais pela regra do que pela emoção. Então, a pansexualidade desmorona esse conceito e diz ser possível gostar de alguém apenas porque é alguém, e não uma genitália ou um gênero determinado. Não somos porções de carnes disponíveis ao consumo. Somos gostos, emoções, desejos, marcas que podem, ou deveriam, estar sintonizadas a qualquer outro indivíduo, desde que os olhares moralizantes não nos impedissem de fazer outros arranjos sexuais. Limitados nesse âmbito, criamos a falsa ideia de que os pansexuais são promíscuos, muitas vezes para desviar o olhar leigo da massa para a real falha em voga: a de que estamos personificando os sentimentos dos nossos parceiros (as) a partir das categorias em que eles (as) foram colocados (as), e não por serem quem são, humanos. É o preconceito invalidando qualquer avanço discursivo capaz de proporcionar a nós a mais ínfima chance de evolução.

Outra tentativa comum é aproximar a pansexualidade da bissexualidade. Esta última, lamentavelmente, configura na lista entre as práticas transgressoras na visão dos mais conservadores, pois ainda é repercutido a ideia de que é impossível alguém se atrair por ambos os gêneros. Entretanto, não só é possível como já acontece na prática, mesmo que não assumidamente por muitos. Na fragilidade perfeita criada em torno da heterossexualidade, muitos indivíduos, inseridos neste grupo de privilegiados sociais, aventuram-se em transas, regulares ou ocasionais, com pessoas do mesmo sexo às escondidas, seja através da prostituição ou da manutenção de relacionamentos extraconjugais. São pessoas que se apresentam socialmente dentro da norma, mas se permitem ao risco tentador de provar o “fruto proibido”. A pansexualidade, além de distinta da bissexualidade, poderia ser a aliada ideal para tais indivíduos, imersos na clandestinidade das próprias pulsões sexuais, encontrassem as vias de fato dos seus desejos, sem percorrerem caminhos tão tortuosos para viverem as suas humanidades.

O que quero dizer é que não nos atraímos pelo o outro apenas porque suas características biológicas destoam das nossas. É bem mais que isso. Em muitos momentos, o íntimo alheio reflete em nosso interior, revelando sensações aprisionadas pelos preconceitos incutidos metodicamente pela sociedade por eras em nós. Então, perdidos nesse labirinto da sexualidade, só nos é apresentado um caminho, quando na verdade, no quesito sexual, há encruzilhadas de possibilidades. Ser pansexual é isso. Significa enveredar por essas trilhas onde no final qualquer forma de prazer será válida. Não se trata de banalizar o outro, o sexo, ou coisa assim. Mas de oportunizar a todos os envolvidos a chance de romper o casulo que nos impede de voar livremente pela sexualidade. Trata-se do necessário encontro com nossa humanidade, tão higienizada de mentiras consentidas e inverdades hipócritas, que de nada contribuem para o nosso crescimento sexual, apenas difundem mais intolerância. É a pansexualidade que sobreviverá quando todas as demais categorias perderem o sentido.

Até lá, em um modelo heteronormativo de relacionamento amoroso, qualquer enlace que fuja do tradicional homem + mulher será visto como algo desviante à norma. De cara, a homossexualidade será rapidamente lembrada por ser, talvez, a prática mais transgressora nesse sentido. Acontece que nem sempre os arranjos sexuais se encerram por aí. Há, por exemplo, indivíduos movidos por desejos claros tanto por homens quanto por mulheres, evidentemente sendo tão ou mais incompreendidos do que os homoafetivos. O nó ficará mais arrochado quando encontrarmos mais comumente pessoas afirmando que ser desse ou daquele gênero não é critério preponderante para alguém se tornar desejável aos seus olhos, mas sim o fato de ser uma pessoa. De fato, de tão simples, a pansexualidade perturbará todos aqueles presos àquele panorama fechado de relacionamento, mas, ao mesmo tempo, suscitará profundas questões sobre como nos envolvemos com o outro para além de suas genitálias.

A pansexualidade, que já é a vanguarda, se tornará nosso apelo ao humano.

11 julho 2018



Cada vez mais sabemos menos sobre masculinidades e feminilidades. O que nos chega ainda é muito raso, sentenças superficiais demais, incapazes de se aprofundar nessa questão. Porém, ainda se vende protótipos masculinos e femininos como regra. São modelos estanques de condutas, comportamentos, atributos físicos, que precisam ser reproduzidos para serem aceitos e, por fim, naturalizados pela sociedade. Caso alguém fuja à norma, as penalidades não tardarão a chegar. O interessante é que cada vez mais pessoas estão questionando essa cartilha de ser homem e mulher, trazendo à tona novas configurações de si, que de tão possíveis, já fazem parte da realidade social. É que a nossa existência não precisa ser igual a de todo mundo para ser ideal. Pelo visto, estamos aprendendo a idealizar nossa forma de existir através daquilo que mais nos representa, a nossa imagem.

Limitado pelo campo biológico, cuja categoria homem e mulher não assegura a permanência de um indivíduo dentro deste polo ao longo da vida, crescemos acreditando na ideia de que nossos órgãos sexuais irão determinar a forma como nos manifestaremos na sociedade. Essa cobrança, evidentemente, se dá através de uma educação indiscutivelmente sexista, responsável por enquadrar meninos e meninas em agrupamentos distintos para fazer valer aquilo que lhes foi dado pela natureza. Entretanto, mais fortes que a herança biológica são as interações sociais. Nelas, percebemos que existem diversas formas de ser homem e mulher sem necessariamente desonrar nossas genitálias. É só entendermos que nossas áreas sexuais cumprem funções especificamente biológicas, mas são incapazes de nos definir por completo.

Do ponto de vista dos relacionamentos, entender isso é um ganho gigantesco. Por exemplo, a ideia de virilidade destinada aos homens está intimamente relacionada ao pênis, sobretudo se levarmos em conta que vivemos numa sociedade falocêntrica. Em contrapartida, há homens que não são tão viris, mas são homens, muitas vezes héteros sexuais, e que sofrem por não se enquadrar no perfil masculinizado esperado pela sociedade. Com mulheres ocorre o mesmo. Desde o nascimento, ao diferenciá-la do sexo oposto com um brinco, estamos impondo um modelo de feminilidade que pode não ser aquele desejado por ela ao longo da vida. Porém, encaixotamos precocemente nossas crianças em práticas, cores, regras e ações tipicamente sexistas, as quais podem, e vão, resvalar em perfis sexuais adultos estratificados.

O quesito empatia é o mais penalizado nesse sentido. Isto porque, quando não se apresenta à sociedade masculinidades e feminilidades, mas o singular dessas instâncias, isso interfere no entendimento daquelas pessoas que têm suas ramificações de gênero distintas da “normalidade”. É o que acontece, por exemplo, com as travestis, transexuais, Drag Queen’s, Transformistas, Queer’s, dentre outras expressões de gênero e/ou artísticas ainda desconhecidas do grande público. Nem precisa tanto, basta mudanças sutis nos comportamentos vistos como de homem e de mulher para que o desrespeito se faça presente. Sem uma educação conscientizadora, continuamos a oprimir todo aquele que ousar transgredir as masculinidades e feminilidades definidas como corretas. Se não há uma discussão em torno dessa pluralidade, não haverá avanço. Pelo contrário, é justamente os preconceitos que progridem frente a esta realidade.

Diante disso, não há um único ideal de masculino e feminino. Somos plurais. Nossas masculinidades e feminilidades precisam estar alinhadas à diversidade humana. Ignorar isso é uma afronta a nossa natureza, um desrespeito aos nossos corpos e mentes e um erro, sobretudo quando impomos nossas vontades sobre aqueles que corajosamente enfrentam a sociedade como são. Tão pouco é pecaminoso, abominação, fraqueza, ou qualquer outro enunciado preconceituoso, ser diferente dos demais. Apenas é uma prova do quão frágil é essa ideia de que homens e mulheres precisam ser diferentes porque Deus quis assim, ou a genética determinou cromossomicamente. Somos, antes de tudo, seres sociais, sujeitos a mudanças profundas, experimentações, possibilidades, fases das quais precisamos passar até chegar a ilusória ideia de completude. Uns se contentam em seguir a maioria, outros precisam de algo a mais, e não há nada de errado em ambos. São alternativas válidas, que podem ou não estar relacionadas com os nossos desejos, mas, antes de tudo, fazem parte dos nossos anseios, daquilo que enxergamos ser.

Há tempos os perfis masculinos e femininos são insuficientes para definir o que somos. Por mais persistentes que sejam os mais conservadores em nos limitar às genitálias, a verdade é que estamos rapidamente burlando aquela norma imutável de que nossas representações sexuais precisam estar correlacionadas com pênis ou uma vagina. Não necessariamente. É bem possível ultrapassar esses limites e experienciar outras expressões de gênero, e de sexualidade, possíveis. Até lá qualquer configuração pessoal é permitida. Ninguém é em totalidade masculino e feminino mesmo. Somos empurrados ao longo da vida para um desses lados como forma de conceituação, mas isso não significa que precisamos estar lá para sempre. É possível e é preciso rebelar-se, deixar-se escapar, desconstruir a tacanha visão em torno dos gêneros e lançar um olhar mais profundo para essa questão. Não se trata de abandonar o que se entende por masculino e feminino, mas ampliá-lo, ressignificá-lo. Além da tolerância, o que vale é ter imaginação. Feito isso, quem sabe até as masculinidades e feminilidades passem a ser insuficientes, e passemos a nos ver como masculinos e femininos dentro de um só ser.

O futuro é andrógino.

10 julho 2018



Podem dizer o que quiser do novo clipe do Nego do Borel. Todas as críticas negativas são bem vindas, sobretudo levando em conta o histórico do cantor e o oportunismo do momento em que o vídeo foi lançado. Porém, o título do hit nunca foi tão apropriado. É digno, inclusive, de se tornar tema das próximas paradas LGBT’s pelo Brasil, (fica a dica). Mas, por hora, é de grande serventia para discutir questões delicadas para muitos de nós na sociedade, como representatividade, conquistas das minorias, expressão de gênero e o cinismo por trás de algumas ações ditas inclusivas.

Eu sou um dos que apoiam a necessidade de se representar mais fidedignamente na TV, e nas mídias digitais, a realidade LGBT nas periferias brasileiras, longe desse padrão novelesco cuja apresentação gay se dá em dois polos bem dispares. De um lado, o gay branco, rico, ou de família classe média, masculinizado e de perfil estético aceitável. Enquanto do outro, a caricatura afeminada em torno da homossexualidade. De fato, os dois perfis existem e são válidos, mas não são os únicos. Faltam, sobretudo, outras representações gays que ainda não chegaram às pautas problematizadoras do grande público como se deveria.

Logo, quando um artista se predispõe a quebrar esse tabu é, no mínimo, auspicioso. Denota uma clara mudança de paradigma, ainda mais se partir de alguém que reconheça suas vantagens perante uma sociedade claramente machista. Porém, no caso do Nego do Borel, a patética caracterização de um gay periférico nada mais é do que uma atitude fake oriunda da sordidez da qual passamos a ser vítimas. Não basta ignorar os nossos direitos, é preciso agora se aproveitar deles para ganhar visualizações e ampliar a agenda de shows. Pelo visto, caímos nas graças do capitalismo, mas continuamos a ser motivo de chacota.

Presos a esse modelo de sociedade que nos ridiculariza, buscamos a todo custo maior visibilidade. E conseguimos. Temos hoje grandes artistas assumidamente LGBT’s ganhando cada vez mais espaço, embora ainda haja muita resistência e desinformação do público em lidar com essas novas faces artísticas. Evidentemente que esse ganho não passaria despercebido pelos usurpadores, aqueles que se aproveitam do período para fazer a linha bom samaritano frente ao resto da população. Nego do Borel pelo visto faz parte desse grupo. Seu clipe, confuso e espalhafatoso, mostra a picaretice brasileira em se aproveitar de pautas desconhecidas para engrandecimento pessoal.

Provavelmente, o apoio dado por ele ao presidenciável Jair Bolsonaro esteja por trás da infeliz produção daquele clipe. Não há nada mais político do que se apropriar de plataformas atuais para angariar votos, haja vista que há muitos gays dispostos a votar naquele candidato, mesmo ele tendo demonstrado uma postura claramente homofóbica. Com base nisso, trazer um cantor machão, travestido exageradamente e beijando um cara bonitão em um clipe de funk na periferia, é um artifício infalível para ludibriar a massa. Um belo pretexto para se conseguir mais eleitores para aquele senhor. Felizmente, as nossas dores diárias não nos deixam cair nessas deprimentes tentativas de representação, incapazes de conceituar os dilemas dos quais estamos inseridos.

Na verdade, o clipe apenas mostra o quanto não levamos a sério as expressões de gênero das pessoas. É um desrespeito as travestis, aos transexuais, transformistas, Drag Queen’s, e todos aqueles que, identitário ou artisticamente, incorporam outras facetas possíveis de existir sem necessariamente estar preso as masculinidades e feminilidades previstas pela nossa sociedade conservadora. Mostra também a falta de sensibilidade para com esses indivíduos, que não se encaixam nos moldes pré-definidos, e são muitas vezes punidos severamente por externar para o mundo suas representações pessoais fora do “comum.”

Todavia, de todas essas falhas, o cinismo é, para mim, o mais imperdoável. Veste-se o manto do politicamente correto para sair bem na fita, neste caso, no vídeo. Inescrupulosamente, subestima nossa inteligência uma produção toda construída para criar uma frágil ideia de inclusão, quando na verdade está é dificultando a necessária discussão em torno da realidade LGBT no Brasil. Além, é claro, de incentivar outros artistas, tão sórdidos quanto, a se aproveitar da boa fase de aceitação dos gays para fazer clipes, novelas, séries, filmes, propagandas publicitárias, discursos, toda uma sorte de programação voltada ao mero capricho do consumo e despreocupada com a reeducação social.

Sei que é difícil largar certos costumes impregnados em nossa cultura conservadora. Por essa razão, há tantas práticas preconceituosas ainda naturalizadas pela sociedade, porque aprendemos desde sempre a tratar com desdém determinadas pessoas apenas por elas não se encaixarem no que é visto como padrão. Então, seguimos a levada de preconceituosos que, vez ou outra, se escondem atrás da máscara do politicamente correto para encobrir suas reais faces. Entretanto, uma vez descobertos, precisamos escancarar suas verdadeiras feições, e intenções, para todos, evitando que outros sigam seus exemplos e tentem banalizar os problemas vividos por aqueles que ainda vivem à margem da sociedade.

Por essas razões, é você que tem que nos soltar, Nego do Borel. Você e toda essa sociedade machista/conservadora/homofóbica, que nos aprisiona. Tire suas mãos de nós. Não lhe demos o direito de nos representar dessa maneira tão leviana, tão pouco de nos expor mais do que já estamos expostos. Você não sabe o que é ser hostilizado na rua por fugir do padrão macho alfa e fêmea gama. Desconhece nossas identidades e a dificuldade que temos de construí-las nessa sociedade sexista. Não tem nenhuma autonomia para entoar nosso lugar de fala, quando é muitos vezes a sua classe que nos emudece. Aliás, é justamente o seu favoritismo o responsável por nos tolher o direito de mostrar nossas verdadeiras caras em público.

Essa tolice criada pelo patriarcado de modelar homens e mulheres não nos abandona. Mas, sua imagem pública deveria ser a chave para libertar muitos fãs seus acorrentados pelo machismo do qual você e muitos ainda se beneficiam. No entanto, fazer um clipe travestido de mulher e beijando um boy magia não é o bastante. Era preciso, antes de tudo, ter usado o seu privilégio de ser heterossexual para lutar em prol daqueles que têm suas demonstrações sexuais punidas pela sociedade. Existem boas iniciativas que você poderia ter feito, sem ter que apelar para o ridículo e questionar a nossa sagacidade. Porém, além de você, muitos outros artistas não querem correr o risco de se aliar verdadeiramente às pautas LGBT’s.

É uma pena. Lembraremos de todos eles. E, quando precisarem de nós, diremos categoricamente: Nos soltem! 

Quero ver quem vai sair perdendo.

23 junho 2018



Não precisa ser fã de futebol para ser bombardeado pela cobertura massiva dada pelos veículos de comunicação nacional. Quando não são estes, uma breve olhadela nas ruas mostra a mudança clara na rotina dos brasileiros na tão esperada Copa do Mundo de Futebol. Para fins de entretenimento, é plausível tamanha mudança comportamental, visto que o Brasil tem longo histórico de vitórias nessa competição, além de ser aclamado mundo a fora por seus feitos nessa área. Em 2018, porém, possivelmente o país do futebol, dos craques multibilionários, dos torcedores apaixonados, ficaremos conhecidos também como o país que exporta preconceitos já conhecidos pela nação. Entoados com o mesmo orgulho quanto os versos que embalam o hino nacional, tais violências não se restringem ao campo da fala, mas representam toda uma cultura, que pode até perder a taça de campeã mundial, porém já está consolidada no pódio entre as nações mais intolerantes do mundo.

O episódio com a repórter russa deu o ponta pé inicial para a vexatória realidade vivida por muitas mulheres no território brasileiro: a banalização do assédio. Esta que surge do preconceito que se tem em torno da liberdade sexual feminina, ainda aprisionada por conservadorismos do sexo dominante, o masculino, o qual dita regras imutáveis sobre os comportamentos sexuais das mulheres. Fora de campo, elas são privadas de sentir prazer, de falar acerca de, tão pouco militar abertamente sobre essas lacunas sem serem hostilizadas por isso. Cientes dessas limitações, o Brasil objetifica o seu corpo a belprazer, seja exportando o modelo apelativo negra-seminua-globeleza como “símbolo nacional”, seja invadindo o espaço de mulheres estrangeiras para reafirmar a ignorância tolerada aqui. Por essa razão, homens brancos, cisgêneros e elitistas não viram problema em gravar um vídeo assediando aquela jornalista em um país estrangeiro, já que em seu território, os perfis sociais ocupados por eles lhes garantem plena liberdade de abusar de mulheres, muitas vezes fora do âmbito da linguagem.

Antes de iniciar a Copa, porém, é preciso lembrar que os campos futebolísticos são os cenários preferidos pela sociedade para escancarar seus preconceitos ancestrais. Embalados pela ânsia da vitória, torcedores não se intimidam em discriminar outros torcedores, atletas e pessoas importantes no cenário nacional. Os casos de racismo são um exemplo disso. De bananas jogadas no campo a piadas grosseiras destinadas a jogadores negros, muitos foram os casos em que a cor de pele foi usada como recurso discriminatório. Também entram na lista condutas homofóbicas, como a vivida pelo jogador Richarlyson, talvez o único atleta desse esporte de “machos alpha” a assumir publicamente sua homossexualidade. De quebra, não poderia ficar de fora as ofensas de cunho machista voltadas a nossa ex-presidenta Dilma Rousseff, ao longo do famigerado golpe do qual todos hoje somos vítimas. Nos diversos jogos da seleção, brasileiros abastados, brancos e autodenominados heterossexuais, faziam da arquibancada sua tribuna onde esses e outros preconceitos eram repetidas vezes proferidos sem receberem as devidas punições.

Em comum, essas ações violentas destoam da atmosfera integradora que compõe a Copa do Mundo. O que se espera de um mundial assim é respeito, aceitação, tolerância, palavras não assimiladas por muitos brasileiros porque não foram, e ainda não são, devidamente ensinadas. O que é repassado aqui é oposto disso, encorajando muitos indivíduos a levar em suas bagagens os sentimentos mais odiosos para além mar. Da mesma forma, é vergonhoso ver o nosso país, um dos mais prestigiados no quesito futebol, ser o protagonista de episódios como aquele da repórter russa e também de outros, como o vídeo viral do qual um outro brasileiro pede para crianças russas falarem palavrões e frases de cunho sexual direcionadas a Neymar. Percebemos, portanto, que os xingamentos até aqui tem a finalidade de validar toda uma construção histórico-social voltada a inferiorizar as minorias, uma conduta por si só incoerente, pois muitos dos ídolos futebolísticos emergiram das realidades malogradas por esses torcedores.

Felizmente, a internet não tem deixado impune as ações de muitos preconceituosos. Caso escapem das punições legais, o povo trata rapidamente de sentenciá-los à condenação em meio a atmosfera politicamente correta em que vivemos. Isso já é muita coisa, mostra o quão inconiventes somos com posturas discriminatórias, pelo menos em tese. Entretanto, a prática precisa ser reavaliada. O que vemos dentro ou fora dos campos de futebol, dos terrenos de brejo aos estádios colossais da Copa do Mundo, precisa ser revisto. Um país totalmente voltado a uma supervalorização futebolística desalinhada dos ideais educacionais, tão caros à formação do torcedor consciente, perde pontos preciosos na corrida rumo ao tão sonhado hexa. Na verdade, somar taças de campeão mundial em meio as vergonhosas demonstrações de desrespeito vividas nessa copa não deveriam ser motivo de orgulho para nação, mas um ponto de inflexão a respeito daquilo que estamos exportando para o mundo, além de ostentar títulos quando o país vive em um verdadeiro atraso humanitário.

Perdemos também quando não assumimos o quão preconceituosos somos. Independente da Copa do Mundo, o Brasil foi construído a partir do alicerce da segregação e ainda hoje vive sustentado por essa base. Então, quando o Ministro dos Esportes diz que os rapazes que assediaram a russa “não nos representam” está incorrendo pela dissimulação dos fatos. Somos sim preconceituosos, intolerantes, desrespeitosos, para com os grupos minoritários e eventos mundiais esportivos como a Copa, voltados a legitimar os grupos dominantes, só reforça essa ideia. Assim, o torcedor, o qual deveria ir a campo munido de humanidade suficiente para torcer pelo seu time sem recorrer aos preconceitos sociais como válvula de escape, faz justamente o contrário porque essa foi a forma do qual ele foi moldado. Dessa maneira, mal resolvido no campo das sexualidades e no respeito às diferenças, a sociedade bate um bolão de idolatria verde-amarela nesse período e mostra a inesgotável fonte distorcida de seu patriotismo à brasileira eivado de ódio.

Para uma cultura claramente elitista/machista/racista/homofóbica como a nossa, usar da linguagem para depreciar o outro representa o tamanho do fosso criado por um processo histórico-político-educacional voltado a legitimar condutas preconceituosas ao invés de problematizá-las e, por fim, extirpá-las da sociedade. Abismo este que se aprofunda no interior de cada brasileiro educacionalmente despreparado para lidar com a diversidade. Então, o que deveria ser banido, passa a ser corriqueiro, levando ao mundo uma face deplorável de um país visto como pacífico, quando, em seu íntimo, é profundamente violento. Por isso, aqueles brasileiros lamentavelmente nos representam, pois todos nós temos nossa parcela de culpa nesses casos, por naturalizar aquele tipo de violência dentro ou fora de campo; por não problematizar de fato as questões caras aos grupos minoritários; por torcer a cara para suas lutas, reivindicações e dilemas; e, sobretudo, por não somar forças em suas pautas políticas-sociais e legais. Então, conscientes ou não, estamos exportando preconceitos, mas não tem importância. 

O que vale é ser hexa!

OS GRITOS DE “buceta rosa” – dados por seis brasileiros que assediavamuma mulher na Rússia – ainda ressoavam por aqui quando 14 conterrâneos cercaram uma jornalista para cantar: “chupar xoxota é uma coisa linda”. Para eles, não havia vergonha alguma em abordar publicamente e filmar mulheres que não os entendiam para falar de suas bucetas.
No entanto, a mesma palavra, proferida com orgulho viril nos assédios, não soou tão natural aos ouvidos masculinos quando deu nome a um oficina sobre saúde sexual feminina, um mês antes, intitulada Empoderamento de Buceta.
Em maio, a ginecologista Andrea Rufino mediou o evento, realizado na Universidade Federal do Piauí. Andrea foi atacada com insultos como “médica vagabunda” e “doente”. Usada por mulheres que desejavam aprender sobre sua sexualidade, e não mais por homens que sexualizavam forçosamente suas interlocutoras, buceta não era uma palavra. Era um afronte.
O correto seria usar palavras “mais amenas”, opinou um dos descontentes. Aceitável apenas quando objeto de desejo e domínio masculino, buceta deveria se transfigurar em vagina, termo desprovido de luxúria, neutro, científico. Monopólio dos homens, buceta não pode pertencer às mulheres. Os números revelam o desconforto delas com seus corpos e a pressão que sentem para satisfazer aos homens. Em 2015, uma pesquisa da revista americana Cosmopolitan mostrou que quase sete de cada dez mulheres já fingiram um orgasmo, em sua maioria para agradar o parceiro ou terminar logo a transa. Ao mesmo tempo, no Brasil, um estudo do Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo mostrou que 40% das mulheres não se masturbam.
Fora dos consultórios e eventos médicos, nem a gêmea casta da buceta foge à estranheza. Há menos de três meses, a versão em quadrinhos do Diário de Anne Frank foi censurada em uma escola do Espírito Santo por conter a palavra “vagina”. O termo deixou alguns pais transtornados, ainda que a leitura fosse dirigida a alunos do 7º ano – apenas uma série anterior àquela em que, em geral, os adolescentes aprendem sobre a anatomia humana.
Constrangida pela profanidade da buceta, a imprensa se desdobrou para contornar o termo ao noticiar os casos de assédio na Copa do Mundo. Na Folha de São Paulo, lia-se: “a cor de seu sexo”. O Globo, assim como o Ig, preferiu escrever “o órgão sexual”. O portal R7, relatando outro caso, recorreu ao uso de asteriscos para citar a frase que brasileiros instruíram uma russa a repetir: “Eu quero dar a b****a para vocês”. Enquanto isso, bastava um clique para ouvir os agressores repetirem, aos berros, a palavra que ninguém ousava repetir.
Buceta, pelo visto, só tem vez na boca dos homens – figurativamente, é claro. Segundo pesquisa da empresa Sex Wipes, 43% dos homens não gostam de fazer sexo oral nas parceiras.


Nunca se problematizou tanto as questões sociais quanto na atual realidade brasileira. Sem dúvidas, essa mudança está intimamente ligada ao acesso praticamente irrestrito à internet, bem como às redes sociais, aos aplicativos e as discussões fecundas originadas dentro desses espaços que moldam a vida moderna. Assim, debates relevantes são levantados na rede, pautas são construídas, inquietações são compartilhadas, levando ao grande público pendências antes restritas às mesas acadêmicas. Confundindo-se muitas vezes com o politicamente correto, as novas e antigas militâncias sociais não buscam apenas ressiginificar certas visões estereotipadas dos grupos desfavorecidos, mas também e, sobretudo, emancipa-los através de suas identidades; assegurando-lhes a autonomia para coexistir em meio a uma sociedade historicamente excludente. O problema, porém, reside na recepção dada aos militantes, que em conjunto ou individualmente, lutam para validar suas demandas frente a uma atmosfera social desestimulada a reivindicar.

A importância de se militar sobre algo parece óbvia quando se trata do Brasil, visto que as disparidades existentes por aqui criam a ambientação propícia às diversas reivindicações. Basta analisar a disparidade entre sexos, sobretudo na questão salarial, na aquisição de cargos de poder e na violência de gênero; verificar a intolerância frente às facetas da sexualidade humana, sobretudo quando foge do padrão “família tradicional brasileira”; além da hipócrita perseguição vindoura ao povo negro, suas raízes, ancestralidades e legado. Para uma minoria privilegiada, talvez seja difícil compreender tal processo de empoderamento nestes e noutros grupos. Isto se dá, porque é justamente a ideia de harmonia social que é vendida e facilmente comprada pela maioria, ignorando recortes de sexo, gênero, raça, identidade, classe e posição social, categorias que por si só já são excludentes. Então, a militância surge para problematizar estas questões, ao passo que aprofunda o debate em torno da premissa falaciosa cuja intenção é fazer a sociedade crer numa equiparidade de direitos, que na prática só é acessível aos grupos dominantes.

Militar é, nesse sentido, dar visibilidade aos invisibilizados e fazê-los enxergar a sociedade a partir de uma óptica, que apesar de cruel, é passível de ser transformada. Por essa razão, não é possível militar no singular. Esta palavra carrega uma ânsia por inclusão. Logo, seria egoísmo e insuficiente agrupar todas as lutas dentro de um único vocábulo. Assim, as militâncias se pluralizam porque representam as carências especificas de grupos com pouca ou nenhuma representatividade. Marcha das vadias, Parada LGBT, Movimento negro, são alguns dos exemplos. Dentro de cada um deles, todavia, há diversas outras ramificações focadas em atender aos anseios urgentes de indivíduos necessitados de recortes mais detalhados para as suas lutas. É aí onde o politicamente correto se (con)funde com a militância. Por acreditar ser o bastante existir agrupamentos reivindicatórios específicos, a sociedade trata com desdém a aparição de subgrupos, pois entende ser desnecessário e, às vezes, até contraprodutivo fatiar tanto as pautas existentes.

De fato, falta unicidade em muitas militâncias, o que prejudica a disseminação de suas queixas, bem como a credibilidade de suas lutas. Entretanto, a falta de empatia social nesse sentido se baseia na quase total ausência de incentivo educacional à defesa de causas urgentes para a sociedade. O que há é uma educação cada vez mais tecnicista, voltada a realização de tarefas das quais o automatismo se sobressai do pensamento crítico da realidade. Imersos nessa pedagogia servil, muitos não encontram tempo, nem razão, para participar de levantes sociais, tão pouco legitimar suas existências, pois não foram orientados a se enxergar naquele panorama, logo, ignoram suas pautas. Dessa forma, muitos indivíduos preferem se aliar aos discursos dominantes do que se arriscar a colaborar com pactos dos quais não foram devidamente inteirados a firmar.

A relação com a política é outro ponto responsável por afugentar muitas pessoas de aderirem certas militâncias. Entendida como um ato político mas nem sempre associado à politicagem, militar é, sobretudo, uma forma de empoderamento a partir do instante em que a pessoa se percebe excluída do seio social e usa sua realidade como plataforma de inclusão pessoal e incentivo aos demais a sua volta a insurgirem-se contra o sistema. Ou seja, por mais que haja intervenção partidária em alguns segmentos militantes, o que é passível de discussão, isso não limita o campo de cobrança, fazendo com que cada um busque se empoderar como protagonista de dilemas geralmente caros a outras pessoas. Trata-se de ecoar o lugar de fala o qual costuma ser silenciado pela retórica predominante no país. Militar é garantir que as vozes dos emudecidos passem a ser ouvidas e, uma vez audíveis, reverberem junto aqueles que negligenciaram ferozmente suas lutas.

As maneiras de se fazer isso são inúmeras. Vão da estética, assumindo cabeleiras, perfis corporais, vestimentas e posturas identitárias particulares, até ações comportamentais vistas como complexas, como beijo, andar de braços dados, gestos simples mas hostilizados por quem faz parte do padrão de relacionamento “aceitável”. Como também ao encontro da valorização de direitos negados pela perseguição da cor e tudo aquilo oriundo dessa lacuna no percurso histórico que construiu no Brasil a ideia de que há seres superiores e inferiores de acordo com o seu tom de pele, mesmo que isso não seja admitido pela maioria. Diante disso, militar permite a muitos indivíduos a chance de se emancipar ideologicamente frente ao modelo reinante cuja característica principal é normatizar certos rótulos vistos como destoantes daquilo que se atribuiu como tolerável. É uma afronta necessária. Além disso, quando se legitima a existência de uma dada pessoa, por mais subversiva que ela pareça, encoraja-se outras a se afirmarem formando, assim, novos coletivos.

É disso que as militâncias tratam, de transfigurar o corpo humano em um registro único, mas que pode ser percebido através de outros com necessidades semelhantes. Militar é documentar essas matérias humanitárias vilipendiadas pelas réplicas tidas como perfeitas pelo seio social. Por isso que, para muitos, essa exigência se torna abstrata, pois, além do total desconhecimento sobre a pluralidade do outro, o que resvala em antipatia, há também a caracterização do outrem a partir daquilo que é esperado pela maioria. Logo, quando alguém transgrede essa linha de montagem deslegitima-se suas existências. São essas barricadas fincadas profundamente na sociedade que impedem o avanço de discussões tão pertinentes a tantos grupos minoritários, que vão às ruas, às redes, militar por suas realidades negligenciadas. É preciso ocupar os espaços dantes privados aos majoritários para bradar todos os inconformismos presos na garganta. Isso significa resgatar os lugares de fala privados desses grupos, muito embora vejam nisso uma atitude politicamente correta em demasia. Porém, trata-se de uma vitória por vez, paulatina, mas significativa daqueles que sozinhos ou agrupados militam em prol de tantas individualidades esquecidas.   

Pelo menos três vídeos de brasileiros assediando mulheres durante a Copa do Mundo Masculina da FIFA de 2018 viralizaram na última semana. Fosse um evento isolado, seria possível pensar em tolerar o argumento de que foi apenas uma “brincadeira em má hora” ou uma graça “que saiu dos limites”. A similaridade entre as condutas de agentes independentes, porém, coloca a lógica a favor das feministas: existe uma forte questão estrutural que une e explica esses eventos.
Para começo de conversa, é preciso reconhecer que a Copa do Mundo e os eventos esportivos em geral seguem marcados por uma desequilibrada masculinidade. Não são poucas as denúncias do machismo nas mais diversas modalidades: desde os casos de assédio sexual na ginástica e na natação, nos Estados Unidos e no Brasil, passando pelo caso das interrupções compulsórias de carreira por conta da maternidade no vôlei brasileiro, chegando no presente da ainda imensa desvalorização da Copa do Mundo de Futebol Feminino – que existe, pasmem, desde 1991 e já teve 7 edições!
É claro que o Mundial de Futebol Masculino é um evento importante para a população brasileira, e não podemos fazer críticas descoladas que invalidem por completo sua potencialidade de fortalecer laços e criar orgulho popular. Entretanto, e isso não pode deixar de ser dito, a Copa do Mundo Masculina é um evento organizado por homens para homens, no qual reina soberano o ideal hegemônico de masculinidade: pautado pela competição, pela exaltação da superioridade, necessidade constante de afirmação, humilhação, agressividade e silenciamento entre os homens e dos homens contra as mulheres.
Assim como um evento não é essencialmente bom ou mau, também não advogamos pela ideia de que os homens sejam natural e biologicamente violentos. Nada é natural. O que acontece é que uma masculinidade passa a ser tóxica ao reproduzir uma construção histórica do masculino superior e dono do mundo, especialmente na figura dos homens heterossexuais, brancos e economicamente dominantes – exatamente o perfil dos homens que estão assediando as mulheres russas, o que não nos surpreende.
Um dos traços da masculinidade dominante – a do Self-MadeMen – é a necessidade de se provar constantemente na esfera pública. Entretanto, após uma prova é necessário realizar outra e mais outra e infinitas mais para que constantemente esteja assegurado àquele homem o reconhecimento de sua virilidade pelos demais. Uma forma de viver baseada, portanto, em ansiedade e competição. Apesar de se tratar de uma construção social, esses homens são responsáveis por seus atos pois escolhem ser e permanecer ignorantes quanto a sua posição de privilégios desiguais nas relações de gênero.
Compreender algumas das estruturas desse modelo de ser homem nos ajuda a situar o comportamento dos assediadores brasileiros na Rússia. Parece não haver um ambiente mais propício que um evento esportivo faraônico – e, por óbvio, competitivo – para que sejam praticados os exercícios de comprovação da masculinidade dominante. Esses homens não sentiram nenhum tipo de constrangimento, culpa ou mesmo senso de responsabilidade ao humilhar as cidadãs russas; pelo contrário, se sentiram completamente confortáveis e socialmente amparados pelo aparato que os sustenta e o qual eles alimentam. 
Esse tipo de masculinidade se cria e sustenta no antagonismo às mulheres, aos negros, e às pessoas LGBT+, que são constantemente diminuídas, desvalorizadas e coisificadas. Se um grupo social (homens dominantes) não se reconhece em um outro grupo (mulheres), as relações do primeiro com o segundo são norteadas por valores utilitaristas de consumo, aproveitamento, uso e abuso, os quais são projetados nos corpos femininos atacados pelo racismo e pela cultura do estupro.
A cultura do estupro é a forma como tratamos nossas mulheres frente à pressão do poder do patriarcado – as mulheres são vistas, por um lado, como vítimas indefesas de seus corpos e, por outro, como culpadas por seus desejos. Um dos vídeos deixa isso bastante óbvio: a mulher tem sua autonomia sexual violada, sendo induzida ao erro de falar algo que, se tivesse plena ciência do que se trata, talvez não o fizesse, ainda mais sem controle quanto à exposição do material gravado. Os homens, por sua vez, atingem a completude de seu destino manifesto de macho alfa dominante quando conseguem, se valendo de uma coisa tão banal como a diferença de idioma, assaltar à mulher a autonomia sobre seu corpo e sua imagem.
O patriarcado e as opressões não se sustentam apenas na misoginia, mas também num profundo racismo. É esse ranço que explica o fato de, em um dos vídeos, alguns homens gritarem “buceta rosa” ao lado de uma mulher loira. Para além da coisificação da mulher, reduzida ao seu órgão sexual, numa banalidade sem fim, estamos lidando aqui com um óbvio racismo que trata de hierarquizar as mulheres por raça, fomentando a exclusão social, a violência e a competição feminina e a partir da desvalorização de um imenso grupo social, como nos explicou Ana Paula Lisboa.
As reivindicações têm amparo legal e têm repercutido em respostas pelas autoridades competentes contra os assediadores de um dos vídeos. Eduardo Nunes, Tenente da Polícia Militar de Santa Catarina, está enfrentando um processo administrativo aberto pela Corporação; Diego Valença Jatobá, advogado e ex-Secretário de Turismo em Ipojuca – PE enfrentou nota de repúdio da OAB de Pernambuco; Felipe Wilson foi demitido do seu emprego da companhia área Latam Airlines. Já Luciano Gil Mendes Coelho assiste à divulgação pública de seu envolvimento, como investigado, na operação ‘Paradise’ da Polícia Federal e do Inquérito Administrativo que está respondendo perante a Prefeitura de Araripina devido ao não comparecimento para exercer as funções de engenheiro civil como servidor público efetivo lotado na Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura. O inquérito pede a exoneração do servidor dos quadros do funcionalismo público municipal.
Além disso, os quatro assediadores poderão ser processados na Rússia a partir da atuação da jurista russa Alyona Popova, que criou uma petição online contra os atos machistas por violência e humilhação pública à honra e à dignidade de outra pessoa. Por fim, mas não menos importante, o Ministério Público Federal no Distrito Federal abriu procedimento investigatório criminal pelo cometimento do crime de injúria.
Parece tempestade em copo d’água, eles afirmam. Mas só se tratarmos disso como uma questão individual. Apesar de ser importantíssima a materialização da responsabilização dos agressores, sabemos que a punição isolada não basta.
O grande problema, e o motivo pelo qual as ativistas têm total razão em se levantar e debater o caso à exaustão, é que não se trata de uma situação isolada, mas sim da reprodução de toda uma pesada estrutura social que coloca todas as mulheres em uma condição vulnerável. Denunciar os casos da vez é apenas uma forma de forçar o mundo dos homens a pensar sobre suas questões.
Se o agressor insiste em permanecer refratário a pensar e mudar, insiste o ativismo feminista em dizer: isso não é sobre você, é um ato de amor pela emancipação da sociedade das amarras do patriarcado.
Isabela Guimarães Del Monde, advogada sócia do Tini e Guimarães Advogados e Cofundadora da Rede Feminista de Juristas – deFEMde.
Tainã Góis, advogada e pesquisadora, mestranda em Direito Coletivo do Trabalho, pesquisadora do Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital e Co-fundadora da Rede Feminista de Juristas – deFEMde.
Visto no: Justificando

Dentre as tantas magníficas lições legadas por Warat, uma das que mais me encanta por sua capacidade de tirar o véu discursivo que encobre o que há de pior nas ações racistas, machistas e/ou lgbtfóbicas, é aquela que se resume na frase “Não existem palavras inocentes”.[1]  Digo isso porque, algumas vezes, para além das ofensas diretas, provocam ainda maior asco os discursos que tentam justificá-las com o uso  de expressões chave demonstrativas das relações simbólicas de poder que vigem nesta nossa dita sociedade de “pessoas de bem”.
Recentemente, como todos e todas tivemos o desprazer de tomar conhecimento,  um grupo de brasileiros – diga-se, homens, brancos e supostamente héteros (!) –,  apareceram em vídeos divulgados internacionalmente em uma demonstração exemplificativa dos diferentes tipos de violência das quais as mulheres no Brasil e no mundo são vítimas no Brasil e no mundo. A covardia das ações praticadas falam por si só. Uma mulher, em meio à gritaria de baixo calão masculina, ignorante quanto ao que a ela, e sobre ela, diziam.
A imagem da jovem ofendida como mulher, por ser mulher, por trogloditas fardados com camisetas verde e amarelo é, como sói acontecer, grotesca. Ela traz à mente uma coletânea de atos de violência conhecidos por todas nós mulheres em nosso dia a dia. Mas, especialmente, também me fez lembrar de, dentre outros tantos atos misóginos que marcaram o golpe de 2016, aquele consistente na utilização da figura da ex-Presidenta Dilma como um adesivo de conotação sexualmente violenta que era colado nos tanques de combustíveis por muitos que naquela época também vestiam a camiseta “canarinho”.
Quem sabe esses mesmos autores da ação na Rússia não teriam um decalque desses em seus carros? Não lhes concedo o privilégio da dúvida.
Enfim… indo ao ponto que me move escrever este texto, ante tudo o que as imagens mostram, é motivo de ainda mais repugnância o discurso de autodefesa dos agressores centrado, 1. na minimização do ato violento, por eles entendido como se uma mera brincadeira fosse; 2. na justificativa de que, com a Copa, vive-se um “ambiente carnavalesco” na Rússia; e, 3. na afirmação de serem “pais de família trabalhadores”, ou seja, “cidadãos de bem”[2].
Ah, sempre o cidadão de bem…  Esse ilibado senhor, de regra defensor da lei e da ordem, autoproclamado como detentor de uma a moral “acima de qualquer suspeita” e que se distingue do “outro”, do “marginal”, do “delinquente” que ele estigmatiza e encarcera. Para esses “cidadãos de bem” de camiseta verde e amarela: “Quem está brincando no carnaval exagera um pouquinho na bebida e às vezes passa do ponto”.
Confesso que é brilhante a comparação com o carnaval.
Ou será que poderíamos encontrar melhor metáfora do que a do carnaval para compreender o que se esconde por trás das palavras destes senhores? Afinal, acaso não seria o carnaval um momento máximo do machismo da sociedade brasileira que durante quatro dias considera tudo possível, muito especialmente pela coisificação e sexualização dos corpos femininos? Para vocês, na copa ou no carnaval, róseas ou pretas, o que vale é a festa de sua superioridade como “homens”, que “dizem” ser.
Não, não existem palavras ingênuas.
Como diz Ana Gabriela Ferreira o poderio do discurso vai além de sua simples capacidade de enunciação, ele não somente se projeta através do que é falado ou escrito, “mas através da soma de compreensões por ela formuladas, traduzidas e reiteradas, as figuras arquetípicas são criadas e prospectadas ao longo do tempo, formando as sociedades e amalgamando suas complexidades.”[3]
Concordo com ela. Portanto, se, de um lado os atos praticados na Rússia estão expostos a quem quiser ver, por outro, seus discursos, segundo os quais, aqueles e aquelas que contra estes atos se revoltam não passam da transformação de “um copo d’água em uma tempestade”, revelam o que de pior existe nesse nosso país racista, lgbtfóbico e machista.
Não “meus senhores”,  não basta pedir desculpas “às mulheres que possam ter se sentido ofendidas”. Não é de hoje que suas ofensas são, de uma Presidenta a uma jovem russa, dirigidas a todas nós mulheres.
Desejo-lhes alguma sorte, pois espero muito que logo se avistem judicialmente com as mulheres da terra de Kollontai.
*Soraia Mendes é pós-doutora em Teorias Jurídicas Contemporâneas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, doutora em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília – UnB e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É professora, advogada e coordenadora nacional do Comitê Latino-americano e do Caribe de Defesa dos Direitos da Mulher – CLADEM/Brasil.
Visto no: Justificando

Distantes da torcida, jogadores partem para a Copa desconectados da realidade brasileira em meio à greve dos caminhoneiros

Neste atípico domingo, a seleção brasileira encerrou a primeira etapa de preparação para a Copa do Mundo e embarcou rumo a Londres, onde prosseguirá com os treinamentos antes de chegar à Rússia. Enquanto o país vive um colapso de serviços em consequência da greve dos caminhoneiros, jogadores, comissão técnica e dirigentes circulavam de helicóptero entre Teresópolis e Rio de Janeiro. Seguiram para o Galeão sob forte escolta policial e tiveram cada passo no aeroporto transmitido como um estrondoso acontecimento em rede nacional. Despedida digna de uma seleção que despreza sua gente. O processo de elitização dos estádios e a frieza dos cartolas ampliaram o abismo que separa os craques dos meros mortais.

Na Granja Comary, a equipe de Tite fez apenas um treino aberto ao público. A confusão logo se estabeleceu, já que o centro de treinamentos em Teresópolis não possui estrutura para abrigar tantos torcedores. Muitos, incluindo crianças com camisas amarelas, foram barrados do lado de fora mesmo depois de passar horas na fila à espera de uma senha de acesso ao local. Sim, é preciso pegar senha para acompanhar um treino protocolar da seleção. Um treino. Quem conseguiu entrar, se acotovelava por uma selfie ou um autógrafo durante os minutos em que jogadores se dispuseram a atender os fãs. Amontoadas em uma grade que controlava a entrada para as arquibancadas improvisadas, algumas pessoas demonstraram a revolta contra o tratamento de gado dispensado pela CBF com gritos de “uh, uh é 7 a 1”, em alusão ao maior vexame da história do futebol brasileiro.

Resumo da ópera: teve tentativa de invasão, frustração e muita desorganização. Na Copa de 2014, a Granja Comary já havia reproduzido um retrato fiel da desigualdade social no Brasil. Boa parte dos treinos era aberta a torcedores, porém, somente àqueles que moram no condomínio fechado vizinho ao complexo e a seus convidados VIPs. Condôminos resolveram lucrar em cima do privilégio e passaram a cobrar por convites. Ter o nome na lista custava entre 50 e 100 reais. Os treinos “abertos” serviram só para reforçar benesses dos ricos e tornar a seleção ainda mais inacessível aos pobres.

A Copa “padrão FIFA” tinha ingressos proibitivos para quem depende de salário mínimo padrão Brasil. Houve casos de abastados que torraram até 5.000 reais pelo direito de assistir à humilhante eliminação diante da Alemanha na semifinal. O encarecimento virou regra pós-Copa. Estádios se converteram em espaços elitizados e os clubes, na esteira das novas arenas, inflacionaram a arquibancada, chancelados pela política de preços da CBF. Os jogos do Brasil em casa pelas Eliminatórias foram um acinte ao bom senso num cenário de crise econômica. Em Porto Alegre, contra o Equador, as entradas custaram, em média, 214 reais. Mais de 20.000 lugares na Arena do Grêmio ficaram vazios. Contra o Paraguai, na Arena Corinthians, que confirmou a classificação antecipada para o Mundial, o preço dos ingressos variou entre 100 e 1.000 reais. Também em São Paulo, a partida contra o Chile, realizada do Allianz Parque, alcançou renda superior a 15 milhões de reais, um recorde nacional. O bilhete mais barato, desconsiderando a meia-entrada, saía por 250 reais.

Quantos brasileiros podem se dar ao luxo de pagar 250 reais para ver um jogo de futebol? Talvez seja pouco para aquele 1% da população que concentra uma enorme fatia das riquezas, mas representa quase 1/3 do rendimento mensal de mais da metade dos trabalhadores do país. A CBF, que fatura caminhões de dólares por ano, não teve sensibilidade para compreender que um treino aberto em Teresópolis é muito pouco para um time que diz representar mais de 200 milhões de torcedores. Depois do fracasso na última Copa, a confederação sequer moveu esforços para reaproximar a seleção de seu povo. Preferiu seguir caminho inverso ao afastá-la de quem não tem dinheiro sobrando.

Um quadro ainda mais grave se levarmos em conta que, dos 23 jogadores convocados para a Copa, apenas três (Cássio, Fágner e Geromel) atuam no Brasil. Nos acostumamos a ver a seleção e nossos talentos pela TV. Interesses de patrocinadores e acordos comerciais sempre falam mais alto. Os dois únicos amistosos antes da Copa, contra Áustria e Croácia, serão promovidos no exterior por intermédio da Pitch International, empresa investigada pela Justiça americana no escândalo de corrupção da FIFA. Ao contrário dos torcedores comuns, representantes e convidados de patrocinadores da CBF tiveram livre acesso às atividades da seleção na Granja Comary.

A comissão técnica chegou a cogitar um jogo de despedida no Brasil, mas a cúpula da confederação não encontrou brecha na agenda para viabilizar o desejo de Tite. Aquele clima de oba-oba inflado em 2014, de fato, é totalmente dispensável. Mas o torcedor brasileiro, carente de ídolos e violentado pela elitização de sua própria seleção, merecia, no mínimo, uma despedida com ingressos a preços populares e estádio cheio – de preferência, o Maracanã, pelo simbolismo. Ou, pelo menos, um treino de verdade, portões abertos, como fez a Argentina ao receber 30.000 torcedores no estádio do Huracán antes de enfrentar o Haiti na mítica Bombonera. Dirigentes que mandam em nosso futebol parecem habitar outro planeta, incapazes de reconhecer o valor de quem se dispõe a enfrentar fila e pegar senha sonhando resgatar, em frações de um minuto, o vínculo perdido com estrelas tão distantes.

Visto no: El País

Há poucas semanas dez meninos morreram queimados em um presídio de Goiânia. Foram carbonizados dentro de um estabelecimento que sequer poderia existir, em face da vedação constitucional à imposição de sanções penais a menores de 18 anos. Daniel, que chegou a sobreviver ao incêndio, sofreu lentamente uma morte ainda mais dolorosa, depois da amputação de um braço e dias de internação.
Podemos imaginar a cena de horror: o incêndio, os gritos, o choro pela dor lancinante, corpos carbonizados, já sem vida, agarrados uns aos outros como quem busca o socorro que estava ali à porta, mas que não veio. 
Muitos goianos não se incomodaram, outros até comemoraram e alguns poucos se indignaram. As autoridades, esquivando-se de responsabilidades pela tragédia há tempos anunciada, jogam nas vítimas a culpa pela sua própria morte. Como as coisas não costumam mudar nesse campo, nada mudou; e o presídio, ilegal, continua funcionando.
Agora chegam as imagens dos meninos presos nos Estados Unidos. Arrancadas dos pais imigrantes, crianças estão sendo recolhidas em jaulas e expostas a toda sorte de violências físicas e psicológicas. As cenas são chocantes, assim como os áudios com os gritos e o choro desesperado.
Tal como aqui, também lá não se manifesta a indignação geral e muitos “cidadãos de bem” apoiam as medidas de segregação, indiferentes à crueldade praticada contra meninos e meninas e insensíveis ao sofrimento advindo da separação de suas famílias.

É sintomático que uma das primeiras respostas do governo americano tenha sido o anúncio da saída do Conselho de Direitos Humanos da ONU, não sem antes, é claro, responsabilizar os imigrantes pela situação vivenciada pelos seus filhos.
Existem diferenças entre Goiânia e o Texas, a começar da pouca visibilidade e a quase nenhuma repercussão do que houve por aqui. Mas também há semelhanças, pois, enquanto lá são crianças, filhos e filhas de imigrantes, que estão sendo mantidas em situação de cárcere, aqui dez meninos que estavam presos morreram!
A crueldade do aprisionamento é inaceitável em ambos os casos; a ilegalidade também. Se a segregação nas tendas texanas vem sendo comparada ao que aconteceu nos campos de concentração nazistas, o que houve no presídio juvenil de Goiânia também pode ser comparado ao que se via nos fornos crematórios de Auschwitz. Dez meninos foram queimados pelo fogo que nasce da omissão do Estado, da indiferença da sociedade goiana e da ilegalidade do encarceramento de quem jamais poderia estar preso.
O que acontece nos Estados Unidos mostra para o mundo o que o capitalismo reserva para os excluídos do sistema, os indesejáveis eleitos como inimigos a serem combatidos. Do lado de cá, são os corpos de dez meninos que escancaram a ilegalidade da prisão de adolescentes no Brasil, essa rotina naturalizada nas práticas do sistema de justiça. E é em Goiânia, esta cidade encravada no interior de um país periférico, onde assumimos a morte como uma possibilidade, como política pública não declarada e perversa, para os meninos que não estão sob a proteção do capital.
*Haroldo Caetano é Promotor de Justiça, Mestre em Ciências Penais (UFG), Doutorando em Psicologia (UFF).
Visto no: Justificando