08 julho 2014

E ai, valeu a pena?

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Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. O célebre verso de Fernando Pessoa caiu como uma luva, depois de ver a derrocada histórica do Brasil diante dessa copa milionária, que dividiu opiniões desde o início. A alma, nesse contexto, serviria como expoente para essa análise se o povo tivesse se conscientizado desde o começo que o campeonato mundial não era nosso, ou pelo menos não deveria ser. 

Mesmo assim, desalmados torcedores do país inflaram seus peitos de esperança, na crença de que a taça poderia ser desse Brasil, onde a bola é mais importante que a educação; o salário dos jogadores são mais altos do que os dos médicos e a copa é mais importante do que salvar a vida de milhares de pessoas que são esquecidas em prol dessa alienação.

Felizmente, como em muitos jogos, ganhar ou perder é algo previsível. E o Brasil perdeu nesse. Entretanto, entre tantas perdas, a da Copa é a mínima. A nação perdeu antes por se expor mundialmente sob dois enfoques: em sediar um evento dessa proporção num país sem estrutura, cultural ou física, para isso. E, acreditar que ganhando a Copa, todos os males sofridos seriam esquecidos ou apaziguados. 

Ledo engano, pois com a derrota do Brasil todos os seus problemas voltaram à tona pelos mesmos brasileiros que viveram na contradição de ir as ruas protestar contra esse evento, ao passo que estão neste instante lamentando a desclassificação do país e buscam culpados para minimizar a real culpa dessa nação cega pelo futebol.

O mesmo povo que ficou sem casa, devido às inúmeras desapropriações feitas para comportar os megaestádios, que agora não passaram de elefantes brancos. Essa mesma população conta agora com a sensação de dever não cumprido, visto que o que deveria acalantar os corações dos brasileiros, agora ganha às ruas em forma de violência, de torcedores inconformados com a retirada do Brasil e que mostram a sua verdadeira face com arrastões, assaltos, brigas, discussões dentro e fora das redes sociais, e mortes. 

Nada de novo, já que tais violências tinham sido deferidas muito antes contra esse mesmo povo, no momento que a política e mídia brasileira reuniram forças e discursos para apoiar essa Copa, mesmo que para isso milhares de pessoas tiveram que sofrer a duras penas para que tudo saísse “nos trinques”. Então, a revolta do povo reverbera a incongruência desse Evento, que viola os direitos humanos desde o seu princípio.

A começar pelas frases criadas pela mídia para uniformizar a nossa torcida. O que dizer daquela, que talvez, tenha sido a mais popularizada entre tantas: “somos todos um”. Dizer que somos um, apenas quando estamos diante de um evento futebolístico, é uma saraivada contra os direitos humanos, bem como contra as lutas existentes em torno dele. 

Isto porque, num país onde o negro sofre discriminação dentro e fora do campo; onde a mulher foi objetivada como símbolo nacional para esse evento; onde os gays morrem diante do machismo futebolístico e a população vive à mercê de tudo o que é essencial para sua sobrevivência, é evidente que não somos todos um. Na verdade, a única unidade dessa copa é a do dinheiro. Inicialmente, as cifras das classes mais abastadas do Brasil, exibindo suas cervejas extremamente caras nos campos. E a da expoente classe C, a qual gastou o que não tinha para fazer bonito nessa Copa.

Diante de tudo isso, não é hora de lamentarmos porque o Brasil perdeu a Copa, mas sim porque o nosso país se vendeu para fazer bonito para os estrangeiros, enquanto sua nação era e é esquecida. Isso sim é motivo de vergonha. Também é hora de reavaliar nosso posicionamento político nesse sentido, pois os dirigentes dos país contribuíram significativamente para a hipnose dessa cultura de pão-e-circo orquestrada também pelos meios midiátcos.


Se os protestos de 2013 foram intensos, talvez agora uma nova onde de incoerentes mobilizações sociais tomem conta das ruas, motivadas pela indignação da derrota nessa copa. É uma pena, pois nem sempre perder é algo negativo. Muitas vezes a perda lava a nossa honra e nos torna pessoas, e nesse caso sociedade, melhor. Porém, conhecendo bem o nosso país, bem como o nosso histórico de incivilidade, fica difícil acreditar que a derrota seja aceita com naturalidade. Agora sim o Brasil mostrará a sua real face: a de um povo carente, mal educado e alienado, características estas que perduraram por muitas Copas. 
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29 junho 2014

Ir tomar no cu é ruim pra quem?

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Sempre que escuto a expressão “vai tomar no cu” me pergunto o porquê de tamanha afetação. A rigor, a intenção de quem direciona essa frase a alguém consiste em reduzir o alvo a nada. Ou melhor, a merda, visto que este último representa a extensão do ânus, codinome cu, por onde sai tal excremento. Mesmo sendo usado como palavrão, nem sempre quem recebe essa ofensa se sente incomodado. Certa vez ouvi que o problema não é a palavra, mas sim o tom que ela é proferida e a quem se destina. Nesse sentido, sinto que ao mandar alguém tomar no cu, de forma agressiva e por vezes deliberada, estamos perdendo tempo, pois em muitos casos não é uma ação negativista. Se caso fosse tão ruim tomar nessa região do corpo, o Brasil e o mundo não estariam repleto de homens e mulheres dispostos a se entregar ao deleite desse orifício.
Símbolo democrático mundial, o cu é uníssono. Está em toda a humanidade e é vital para a sua existência. Como o homem sempre buscou meios de satisfazer seus prazeres sexuais, muitas vezes transgredindo regras morais, sociais e religiosas, e até reconfigurando a funcionalidade do seu corpo, o cu ganhou outras dimensões e usos. Como é sabido, ele serve, a priori, como veiculo de eliminação dos nossos alimentos, por meio do nosso aparelho digestório. Entretanto, a humanidade atribuiu a ele o status sexual, do qual boa parte dos nossos desejos é concretizada. E por mais que se tenha criado uma cultura de nojo ou repulsa em torno dele, não podemos negar que há muitas vezes nesses discursos um quê de hipocrisia, visto que na cama, tal região é cobiçada como se fosse um manjar dos deuses.
No Brasil, por exemplo, mandar alguém tomar no cu é de uma indecência sem medida. Eu diria até que de uma burrice imensurável. Num país onde as mulheres são glorificadas e tem suas bundas esquartejadas do resto do corpo, parece que aquele palavrão é dito em vão. Principalmente porque por aqui o corpo é corporificado, e por isso reduzido a bunda. Ela é, na realidade, o eufemismo do cu. Não dizemos que ele, o cu, é o símbolo cultural brasileiro (assim como a cerveja, o samba, o carnaval, etc.), porque fomos educados a sermos eufêmicos nesse sentido, e por esta razão, mentirosos. Trocando o cu pela bunda, mantemos essa mentirinha perversa que enaltece o todo e vulgariza a parte. Essa metonímia soa incongruente visto que, no seu íntimo, o brasileiro quer o cu, deseja ele, anseia por descobri-lo, prova-lo, rompe-lo, portanto, num ato de “desfuncionalizar” sua atividade primaria.
Você deve estar se perguntando por que nesse texto eu não fui mais eufêmico utilizando a palavra ânus no lugar de cu. Simples, para naturalizar o que já é natural. Às vezes os eufemismos são interessantes porque suavizam coisas que precisam ser levemente ditas para não macular a integridade do outro. Entretanto, quando se trata do cu em questão, os eufemismos são desnecessários, pois não há agressão em dizer algo que já está inserido na nossa rotina e nosso corpo há tanto tempo. Talvez o problema não esteja na palavra, nem no seu bom ou mau uso, mas na entonação dada a ela. É por isso que outros palavrões, derivados do cu como “vai se fuder”, soam mal, porque são ditos bruscamente em situações onde imperam a violência. Em outros contextos, ditos de outras formas, ele soa tão delicado como receber uma rosa. Também não há problema em se pronunciar cu. O perigo reside quando não cuidamos do nosso e queremos dar pitado no dos outros, como se o nosso fosse imune a algo ou tivesse alguma diferença especial.
E não há pecado ou ojeriza que pormenorize tal ato. Quando o homem ainda era primitivo, ao acasalar-se com outros de sua espécie, não verificava se era homem ou mulher, se havia ânus ou vagina. Ele simplesmente se lançava em cima do outro para saciar suas vontades, independente do orifício que iria ser adentrado. É por isso, também, que a aversão aos homossexuais denota incoerência. Muito antes da ideia da homoafetividade, antes mesmo do racionalismo humano criar forma, nossos antepassados cruzavam-se sem o ostracismo em torno dos papeis de gênero masculinos e femininos. Ou seja, se a sociedade atual, repleta de preconceito contra os gays, tivesse mais um pouquinho de conhecimento, saberia que a prática anal não se limita só aos gays.
Ainda sobre essa questão, o ânus é inferiorizado, por vezes demonizado, por compor as práticas sexuais dos homossexuais masculinos. Em meados de 1980, por exemplo, com a eclosão do vírus da AIDS, os gays foram crucificados pela propagação dessa doença, já que se acreditava que ela era transmissível apenas entre eles. Felizmente, esse pensamento foi sendo modificado com os avanços científicos e culturais da sociedade, uma vez que não é só pelo ânus que se contrai tal enfermidade, mas através de qualquer ato sexual desprotegido e promiscuo. Ou seja, mesmo sendo um dos maiores focos de contagio dessa doença, o cu não é o vilão das doenças sexualmente transmissíveis como se imaginava. O problema residia mais num tabu em torno do uso dessa parte do corpo do que na homossexualidade, pois há quem acredite que ser gay necessariamente tem que dar o cu, quando na verdade, as relações homoafetivas não se resumem a isso.
Toda essa discussão ainda acontece porque existe todo um histórico em torno do cu, entre positivismos e mais negativismos, geralmente relacionados a uma indústria pornográfica, a qual lucra horrores com as nossas limitações. Quando falo de indústria, não e refiro apenas à clássica pornô, responsáveis pelos folhetins e filmes do gênero. Me refiro, sobretudo, a mídia televisiva com suas  mulheres turbinadas do pé a cabeça, especialmente na bunda. Nesse sentido, vale pontuar a cultura musical, a qual tem a bunda (leia-se cu) como epicentro de suas rimas, geralmente pobres, impulsionando a sociedade, que se diz “enojada” com o cu, a rebolar até o chão em coreografias que vão da boquinha da garrafa até o quadradinho de oito. Seja como for, nas baladas, esse povo que se diz careta já segurou o “tcham”, talvez dance de cabeça pra baixo nas noitadas ou, em quadro paredes, faz coisas com a bunda que prefiro nem comentar.
Outra, da tantas incoerências vividas pelo cu, ocorreu há pouco tempo por aqui. Diante de uma multidão que assistia ao jogo de abertura da copa do mundo de 2014, a nossa Excelentíssima presidente Dilma foi alvo do berrante verso: “Ei, Dilma, vai tomar no cu!” dito em alto e bom som para o Brasil e o mundo ouvirem. Ora, os torcedores que se acharam espertos ao manda-la tomar no cu, não imaginavam que tal frase saiu pela CUlatra, visto que nessa copa milionária, quem está e vai tomar no cu somos nós, e o pior, sem prazer. Entretanto, guardada as devidas proporções, é importante lembrar que o cu geralmente é utilizado em ambientes esportivos como forma de ferir seu oponente ou porque culturalizou-se que nos campos é palco de pessoas selvagens movidas apenas pela paixão pelo seu time, a qual permite esse tipo de vocabulário. Pode até ser, mas não deixa de ser pejorativo, não por ser um palavrão, mas por guardar em seu íntimo a ignorância de um povo que repudia o cu, mesmo utilizando dele de diversas formas.
Nesse âmbito, ir tomar no cu é ruim pra quem? Isso vai depender de quem está mandando e de quem está recebendo. Há uma relatividade que merece ser pontuada. Baseado nisso, deveria existir um respeito maior para o cu, pois ele representa o único elo que nos une diante de tantas diferenças naturais e impostas que insistem em nos separar. No filme brasileiro Tatuagem, há uma cena que corrobora com a máxima anterior dita, quando em certa parte dos atores cantarolam o seguinte trecho “a única coisa do nos salva, a única coisa que nos une, a única utopia possível é a utopia do cu” e continuatem cu, tem cu, tem cu...”. Nesses versos satíricos há muito mais do que vulgaridade, para os olhos moralistas dos sórdidos puritanos. Há inúmeras verdades a serem reveladas a partir dessa pequena fenda tão estigmatizada e, ao mesmo tempo, tão desejada.
O cu é utópico porque subverte a normalidade e estagna a procriação da espécie. E nisso ele é altamente positivo, pois contem a inchaço social de um país onde a multidão vive na miséria. O cu é também libertário, visto que mesmo vivendo na clandestinidade, é livre nas transações mais comuns da nossa vida levando prazer aos mais necessitados. É constantemente ofertado como relíquia por muitos e recusado por poucos. Ele é, ainda, a deflagração do um prazer, por muitos pecaminoso, mas que é santificado no gozo reverberado entre os casais. Ele é puro, humano, natural e, por isso, necessário. Vive entre o bem e o mal. Na luz ou no apagar delas nos quartos de motel em nas suítes residenciais. Isso na hora do sexo se decide. O cu é controverso, pois mesmo sujo, é cobiçado. Então, antes de ofender alguém, antes de sentenciar quem quer que seja, é bom se lembrar do dito que diz: “pimenta no cu dos outros é refresco!”, pois só assim lembraremos que antes de tudo, temos algo que nos iguala, o cu. E tanto o seu, quanto o da Dilma, o meu e de quem quer que seja, merecem respeito.
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Ato abortivo no Brasil: O tabu em torno da vida

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Antes do preconceito é preciso haver humanidade

           A mulher que aborta é um monstro sem coração. Essa frase é comumente utilizada por religiosos e pessoas que descordam do aborto. Todavia, é preciso averiguar o que leva tantas mulheres a cometerem tal ato. A violência sexual e situação econômica precária, são fatores muitas vezes ignorados pelos que sentem-se no direito de julgar.
          Casos de abusos sexuais fazem parte das principais causas de aborto. Entretanto, diferente do que se pensa, nem todas as mulheres são violentadas por desconhecidos. Existe um ditado que diz: "Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher." Em contrapartida, segundo dados de meios midiáticos, a cada 12 segundos uma mulher é estuprada no Brasil; mais de 70% desses crimes acontecem dentro de suas casas por parte de seus companheiros. Diante disso, torna-se desumano privar essas vítimas de um aborto digno e com garantia de segurança.
          Lamentavelmente, o que se observa é a valorização dos que possuem boa situação financeira e a negligência para com os carentes. Mulheres que têm dinheiro buscam clínicas particulares para fazer o procedimento abortivo. Porém, as mulheres pobres procuram aborteiras ou tentam encerrar a gravidez se utilizando de chás, tesouras e até espetos como únicas alternativas.                                                 
           Prova disso, é o fato da maior parcela dos leitos voltados para o setor ginecológico dos hospitais públicos, ser ocupada por mulheres vítimas de um aborto mal sucedido. Vale salientar que pessoas não recorrem a esse procedimento por pura crueldade. O fazem por conta de traumas de uma violência sexual, ou mesmo por perceberem que a criança não poderá ser educada, nem alimentada devidamente, graças à situação financeira da família.
           Dessa forma, é preciso rever nosso preconceito para com as mulheres que abortam. O Estado, através do Sistema Único de Saúde(SUS), deve garantir o atendimento digno a essas mães, e ofertar procedimento abortivo de forma humanizada. Fazendo isso, a taxa de mortalidade consequente de abortos clandestinos será reduzida, e a ilegalidade dizimada.
 
Aluno: Nailson Monteiro
professor: Diogo Didier 
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Oi, vamos transar? - Luis Henrique Nascimento

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Ou como comunicar, dialogar e mobilizar a partir dos interesses atuais do público.
 
A cena é a seguinte. Uma pessoa chega a uma festa, dá uma olhada e se interessa por outra. Interessa-se muito – “Nossa, que pessoa interessante. Eu preciso ficar com ela!”. Esta pessoa então se aproxima daquela que é seu “objeto de desejo” e, sem meias palavras, dispara: “Oi, vamos transar?”.
 
Certamente a pessoa desejada foge, lhe dá um tapa, a ignora ou chama o segurança. Óbvio, certo? Nem tanto. Muitas vezes, é assim que a comunicação de interesse público, altermundista e popular lida com seus públicos. Temos assuntos, causas e informações tão importantes, esclarecedoras e empoderadoras que nos parece muito simples dispará-las, com pouca ou nenhuma mediação com os hábitos de mídia, ou os conhecimentos, atitudes e práticas do nosso “público-alvo” – sim, é como alvos que ainda os tratamos.
 
Uma coisa é comunicarmos para militantes e politizados – compartilhar informações, encaminhamentos, ativar engajamento e, sobretudo, manter a galera motivada. Outra coisa é sensibilizar aqueles que estão fora desse circuito, os que não te conhecem ou que discordam das suas ideias – a grande maioria das pessoas, claro. E outra coisa ainda é confundir o segundo público com o primeiro.
 
A comunicação transformadora e mobilizadora deveria ser, antes de tudo, dialógica, criativa e persistente – mas não ansiosa. Comunicar para os “não-convertidos” (quase todo mundo) é perceber que o juízo de valor que eles dão para sua mensagem é a mesma que dão para a novela ou para o jornal sensacionalista. Sim, o público não está nem aí pra você. Ele sempre fará escolhas baseadas nos valores que constrói durante a vida, ou, no máximo, influenciado por quem ele confia. Se sua mensagem não se enquadra nisso, o público nem saberá que você existe. Simples assim, mas pode ser pior, se sua mensagem não souber travar a guerra de memes que vivemos nas redes sociais. Aí, ele já “conhece” sua mensagem e não quer ouvir falar dela.
 
Cupidos e fermentos
 
Existem coisas que o marketing inventou (e são suas ferramentas), e outras que ele descobriu (pertencem a todos, embora por vezes desprezadas por nós e capturadas por eles). Uma dessas descobertas é que a “guerra pelos corações e mentes” se dá na cabeça do público – a tal teoria do posicionamento. Ou seja, não se conquista o público sem conectar-se com seus seus valores, com o que ele acredita que vale a pena (ainda que para transformar essas visões). Não, informação “racional” não costuma convencer as pessoas – a gente não pára de fumar, de dirigir ao telefone e proliferar dengue mesmo sabendo dos perigos dessas práticas, certo?
 
Dessa forma, nossa comunicação precisa ser CUPIDO e FERMENTO. Cupido, porque cabe ao comunicador (profissional ou não) modelar nosso discurso para os ouvidos de quem queremos tocar. Assim começa a conversa que pode virar namoro. Nossas narrativas precisam ser capazes de fazer pontes entre nossos objetivos e os valores e aspirações das pessoas comuns que queremos engajar. “Ah, mas aí estaremos alternando nossa mensagem, perdendo nossa autenticidade”. Bom se você pensa assim, vai lá e diz pro seu público que você quer transar com ele!
 
E fermento, porque, por um lado, o capital tem maior capacidade de frequência midiática (grana pra repetir “compre batom” até você comprar). Mas por outro, nossa mensagem é distintiva e transformadora. Assim, temos que nos concentrar na nossa capacidade criativa para, com poucos recursos, criar ações que “megafonizem” nossa mensagem – e aí vale humor, a guerrilha e a tecnologia. Vale emocionar.
 
Que tal se ao invés do “oi, vamos transar”, a gente não preparasse melhor nossa abordagem? Quem tal entendermos o que nosso público quer? Buscar o que nossa mensagem tem a ver com essas percepções de valores e começarmos apenas puxando o assunto? Às vezes, apenas conseguiremos deixar uma pulga atrás da orelha, enfraquecer a certeza contrária. Deixe ele ir – nada de puxar pelo braço ou pelo cabelo, pra roubar aquele beijo que seu público não quer te dar, ainda.
 
Superando o ativista romântico e o caridoso
 
Nosso pecado tem sido usar nossas oportunidades de comunicação com ansiedade, na base do “me deixa falar!”. De quê adianta falar, se você não vai ser ouvido por quem importa? Talvez a gente possa entender isso através das semelhanças entre o ativista romântico e o caridoso. Afinal, quem dá sopa para morador de rua não quer, de fato, resolver o problema do sujeito. Quer resolver seus problemas de consciência, quer dormir tranquilo porque “Deus viu que eu ajudei o próximo”. Da mesma forma, o militante romântico vive no seu mundo ideal e não quer negociar com o mundo real, limitado e sem garantia de vitória. Ele também quer contar pro seu travesseiro tudo que fez pela revolução hoje.
 
Ambos, conscientes ou não, querem usar o mundo para dele extrair o significado das suas vidas (bacana), e não empenhar sua existência para transformar, de fato, a realidade (melhor ainda!). E aí, tem que negociar com o mundo como ele é para transformá-lo no que de melhor ele pode ser.
 
Luis Henrique Nascimento é comunicador popular, assessorando sociedade civil e governos desde o século passado
 
Fonte:Ninja
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Ato abortivo no Brasil: O tabu em torno da vida

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O aborto vai além da questão moral

      Mesmo com o advento da Revolução Sexual,nos anos 60,e a chegada de novos métodos contraceptivos,o aborto ainda é comum nos dias atuais.O ato abortivo é praticado entre mulheres que desejam,por motivos diversos,interromper a gestação,negligenciando a vida da criança.Contudo,tal prática é feita de forma clandestina e coloca também em jogo a vida da mãe.Indo em contra uma sociedade machista e princípios religiosos,a mulher que realiza o ato é julgada de crimiminosa por querer ter autonomia sobre o corpo fazendo o que achar melhor para si.

     Apesar do Brasil apresentar um caráter democrático,o ato abortivo é proibido por lei,diferente de outros países como a China que legalizou essa prática visando o controle de natalidade.Muitos são os motivos que levam centenas de brasileiras a abortarem,desde uma gravidez indesejada até fatores econômicos que podem influências no desenvolvimento da criança pela falta de condições financeiras.

      O aborto é realizado também em casos de violência sexual,o qual a mulher sem nenhuma opção adere a prática abortiva.Ainda assim,com o intuito de amenizar a mortalidade infantil,o governo criou em 2010 o bolsa estupro, que oferece auxilio financeiro as vítimas.Mas o projeto desconsidera que o abuso sexual não é só uma questão física como também psicológica,que pode interferir no relacionamento afetivo da mãe para com o bebê.

      Além de abordar a esfera jurídica,o aborto é sobretudo uma questão de sáude púlblica.Conforme pesquisas realizadas pelo Concelho Federal de Medicina o ato abortivo é a quinta causa de morte materna.Entre a classe social alta o abortamento é feito em clínicas particulares oferecendo maior segurança,todavia o mesmo não acontece com mulheres de baixa renda.Elas se submetem as aborteiras que muitas vezes realizam o procedimento em más condições de saúde.

      Portanto,é necessário pensar no aborto como uma questão que vai além do cunho moral,pois trata-se de vida,tanto a que está em formação como aquela que está em pleno desenvolvimento.É importante,também, que haja a qualificação na saúde púlblica para diminuir o número de abortos clandestinos ,espera-se ainda que o Estado repense no direito materno da mulher.
 
Aluna: Nathalia Emmanuella 
   Professor: Diogo Didier                                 
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Cada um faz o que quer.

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Nunca ouvi tanto essa frase como agora. Só que se todo mundo só fizer o que é de vontade própria, ninguém mais ajuda o outro, considera o outro, trabalha a preocupação de se tirar de cena para fazer algo em prol do sorriso alheio.
Quem só faz o que quer está preparado para receber alguém que possa lhe dedicar os mais nobres sentimentos? A vida não vai nos tratar bem em todas as ocasiões, nem com as princesas da Disney é assim, e note que no lúdico tudo é possível.
Não cuidar das coisas dos outros como se fossem nossas, não ter paciência para fazer tentativas, enaltecer os defeitos, esquecer de fazer elogios (ou pior – achar que isso não é preciso). Que capítulo da responsabilidade com os sentimentos alheios nós perdemos? Como vamos fazer para adquirir destreza com as adversidades da vida?
As pessoas não se amam mais, elas se consomem. Um erro e está decretado o afastamento. Ela usa estampa selvagem. Ele não come japonês. Ele não tem carro. Ela mora com os pais. Ela não gosta de Game of Thrones. Não quero mais. Volto para o Tinder, o catálogo digital das relações sexo-afetivas efêmeras.
Eu preciso do outro para alguns momentos, não para todos.
Não pedimos mais desculpas, não sentimos a necessidade de dar uma satisfação. Dormimos juntos. Acordamos separados. Nunca mais vamos nos encontrar. Postamos no Instagram a frase “mais amor por favor”, mas não exercemos essa condição.
O egoísmo condiciona nossas fraquezas. Os sentimentos negativos existem para nos treinar. Precisamos todos sair do centro do nosso bem-estar. Não tome uma pílula para diminuir a tristeza, experimente colocá-la pra fora. Não engula seu luto, não sofra a conta-gotas. Experimente viver com decência e coragem todas as sensações da falta de alegria. Nada é tão ruim quanto parece. Os desapontamentos têm função decretada em nossas vidas.
São múltiplas as exigências para atender o ego. Como seria se você dedicasse sua vaidade ao exercício da sua inteligência, da sua simpatia? Nosso orgulho não pode durar uma encarnação e meia, mas nossa capacidade de nos tornarmos pessoas melhores pode ser eterna. A barreira narcisista com passagem só de ida é um desrespeito com a felicidade. Com a dos outros e com a sua. Não se iluda!
As pessoas malham, ingerem orgânicos, vestem grifes, aplicam botox, viajam de primeira classe em 10 x no cartão, mas o sedentarismo intelectual é notável. Gritante. Desesperador.
Seu consumo cultural e emocional é você mesmo? Volte dez casas no tabuleiro e vamos começar tudo de novo, precisamos de gente de verdade.

(Denise Molinaro, jornalista)
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Sexismo: a mídia ainda é controlada por eles

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       A partir do século XIX, com o desenvolvimento do industrialismo houve uma necessidade de controle de massa e deu-se início à cultura midiática. A fome por notícias difundiu uma forma urgente entre os meios de comunicação que de certa forma principiou, sua manobra de contenção e controle da sociedade. Ao mesmo tempo em que a mídia se expandia, a busca por ícones e fórmulas de sucessos publicitários crescia paralelamente. Na procura por solucionar essas questões apostou-se na divulgação e propagação da imagem feminina sendo ela utilizada em quaisquer meio e modo, sem qualquer crivo.  
      Mas para que discutir esse assunto que muitos dizem não ter uma grande importância? Justamente por não ser tratado com a atenção devida é que há uma suma necessidade em debatê-lo. O direito de criticar e avaliar o modo com que a mulher é exposta é válido. Ainda fazemos parte de uma massa sexista, em que uma noção machista está enraizada e tem seus reflexos difundidos em toda a sociedade.  As mulheres já demostraram de inúmeras formas o seu valor quanto cidadãs e quanto trabalhadoras, historicamente sendo exemplos de garra e luta por direitos trabalhistas igualitários. Essas são uma maioria oprimida, que vivem as margens de uma cultura dominada por homens, mas que, paulatinamente, vêm ganhando seu espaço.
       No âmbito do mercado de trabalho, de acordo com o relatório global a respeito do status das mulheres nas mídias de notícias, apenas 46% dos países no continente americano possuem políticas empresariais direcionadas a igualdade de gênero. As estatísticas também apontam para uma ausência de indivíduas encontradas nos quadros de funcionários das corporações, que ainda hoje mantêm uma tradição de uma suposta superioridade masculina. Muitas dessas empresas desconfiam do gênero feminino e seus atributos funcionais e lógicos, dogma este há muito tempo já ultimado e ultrapassado.
       A imagem que a mídia demonstra sobre o gênero é distorcida e distante da real. A partir do momento em que se alastrou o uso de sua imagem, surgiu a tão falada “ditadura da beleza”, onde, de acordo com os meios, as mulheres devem ser jovens, magras, suntuosas, comportadas e saberem o seu devido lugar. Formar uma opinião tornou-se algo difícil para o indivíduo moderno, que absorve e digere as ilusões comerciais que para ele são passadas. Os meios esfregam em nossa face o “jeito certo” de se alcançar o ápice do requinte, mostrando mulheres plastificadas e exuberantes, quando na verdade sabe-se que não há seres perfeitos.
       Os meios de comunicação social são emblemas de poder. Quando se é transmitido um conteúdo desrespeitoso e degradante, ele pode se passar despercebido, graças a uma população alienada, que segue regras e padrões de pensamentos retrógrados.  A sociedade brasileira acostumou-se a ter uma cultura onde há uma supervalorização do corpo feminino; Esse conceito desvaloriza a mulher de uma forma abrupta e revoltante.
  Visar lucros e audiência é o grande objetivo das mídias em geral, que por muitas vezes, se preocupam em encobrir a degradação feminina com piadas e desfechos cômicos. A moral é deixada para escanteio e os meios de comunicação tratam a mulher como objeto descartável, o que pode incentivar outro tipo de violência contra o gênero, a “cultura do estrupo”; que vai além do fato da agressão em si e passa a ser toda a deterioração abusiva da imagem, do psicológico e da pessoa física da vítima.
      Desconfiar do que lhe é imposto torna-se uma resposta aos meios midiáticos, que tanto insistem numa fórmula gasta e vulgar de sucesso fácil. Apostar na forma prática e pronta pode sair caro, já que nem toda a população é alienada, e pode perceber o quão paupérrimas de criatividade são as campanhas. Buscar seu espaço e seus direitos trabalhistas foi um grande passo para mulheres que eram oprimidas e designadas a cumprir o papel imposto para as mesmas, contudo, atualmente o livre-arbítrio já é uma realidade para o gênero. Não se deixar ser enganado e exigir mais respeito, transformou-se um ato de protesto contra os apoiadores da exclusão do gênero na área de trabalho e criadores de infelizes propagandas. Expressar descontentamento com essas imposições é de certo modo uma demonstração de insatisfação e de fuga de mentiras e conceitos maquiados atribuídos atualmente em nossa sociedade. 

Guta Cavalcanti
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