31 agosto 2014

Não me desafie!

Deixe um comentário

A onda de solidariedade virtual, que tem levado centenas de pessoas Brasil e mundo afora a tomar um banho de água gelada, originou-se de um singelo desafio. De fato, não deve ser fácil tomar um banho com uma água em temperatura fora do convencional, principalmente em algumas regiões que não contam com o clima ensolarado do nosso país. Entretanto, diante desse ato se esconde um outro mais perigoso, o desafio. Esta palavra traz em si alguns sinônimos que estão distantes do ser solidário. Desafiar é provocar, acirrar, agredir, com direito até a um antônimo de problema. Por essa razão, vimos e ainda vemos pessoas gravando vídeos na internet ou se expondo na televisão nesse sentido, mas não percebemos que, entre muitos deles, o ajudar o próximo inexiste. O que existe é a autopromoção da dor alheia a partir de um modismo.

Como toda corrente, que circula pelas atuais mídias eletrônicas, a campanha do balde de água fria nasceu para ajudar um ex-atleta americano que sofre de uma doença rara, conhecida como ELA (esclerose lateral amiotrófica). Comovidos com esse caso, várias pessoas ao redor do mundo aderiram se banhando e fazendo doações para encontrar um tratamento, quiçá cura, daquela doença. Ao chegar no Brasil, porém, essa ação ganhou outras dimensões. Por aqui, em meio a um mar de hipócritas exposições midiáticas, pessoas anônimas e famosas também resolveram fazer parte dessa campanha, mas apenas parcialmente. Isto porque, se comparado a outros países do mundo, o nosso foi o que menos doou, porém o que mais se expôs nesse sentido.

Antes de tudo, é preciso entender que tal atitude de alguns brasileiros tem lá suas justificativas. A primeira delas está ligada ao poder que a internet, e as mídias em geral, tem exercido sobre os brasileiros. Numa nação onde as clínicas de tratamento para viciados virtuais abrem novas sedes a cada semana, não é de se surpreender que muitos adentrem em campanhas solidárias apenas por entrar. É, na verdade, a necessidade de pertencimento, de estar num determinado mundo, fazendo coisas aparentemente úteis e, exibindo-as para que amigos, conhecidos ou não, possam ver, curtir e compartilhar. Nessa questão ainda cabe o fator desinformação, que está diretamente ligado a facilidade do povo daqui de se alienar, ao invés de ajudar.

Sem conhecimento de causa nem de mundo, muitos acham, que ao se banhar com água, areia ou barro, vão contribuir de alguma forma com a resolução dos dilemas alheios, quando na verdade a situação exige coisas bem mais amplas. Entretanto, um segundo ponto pode ser utilizado para reforçar esse tema, a falta de solidariedade dos brasileiros para com os brasileiros. É bacana ajudar o ser humano em si, seja ele daqui ou da Índia, por exemplo. No entanto, parece que ser solidário com alguém de fora do nosso território humaniza aqueles que se esquecem de tantos outros seres humanos que, no Brasil, sofrem de coisas tão complexas como a que iniciou essa inocente campanha. Mesmo assim, a solidariedade nacional não enxerga a violência diária da fome, da miséria, do preconceito, da discriminação, e de tantas outras problemáticas que vitimizam centenas de milhares de pessoas.

Não se pode esquecer que tudo isso ganha mais visibilidade quando pessoas visíveis socialmente aderem de alguma forma. As celebridades são as principais entre elas. Por exercerem uma influência enorme sobre a grande massa, artistas diversos também contribuíram para que o balde de água fria fosse popularizado nas redes sociais e na mídia televisiva. Fazendo parte dessa corrente, muitos deles, com muita ou pouca roupa, também se encharcaram por uma boa causa. Evidentemente que nem todos quiseram entrar nessa brincadeira e foram execrados por isso. Não basta doar, tem que participar. Ou seja, não adianta dar uma quantia para essa ou aquela campanha, é preciso ser desafiado, enfrentando o obstáculo das baixas temperaturas.

Quando fazemos uma análise mais aprofundada disso tudo, percebemos que o ato de ser solidário virou uma competição, a qual não traz implícita a mensagem “vamos ver quem faz mais o bem”, mas sim “vamos ver quem ganha mais visibilidade fazendo o bem”. Ou seja, muitos dos indivíduos, anônimos ou notáveis, que pagaram o mico do banho forçado, não estavam preocupados com o rapaz imobilizado do outro lado do continente, mas sim com a dimensão que o vídeo feito daria. Também se deve lembrar do tom de brincadeira disso tudo. Claro que ser solidário é uma ação bacana, divertida, pois visa, antes de tudo, sanar minimamente a dor do outro. Entretanto, a gaiatice de alguns reconfigura a proposta original daquela e de qualquer outra campanha.

É o modismo que faz com que o doar seja apenas um trampolim para a fama instantânea. As pessoas até para ajudar o próximo precisam ser glorificadas midiaticamente por isso, quando na verdade a maior glória é se solidarizar com a dor do outro, com ou sem reconhecimento social. Tamanha verdade disso que se as milhares de ONGs espalhadas pelo Brasil quisessem colher os louros das suas ações com holofotes, não haveria mais nenhuma funcionando. Da mesma forma as pessoas que, sozinhas, fazem de tudo para dar esperança a enfermos, drogados, moradores de rua, e tantos outros desprovidos da dignidade necessária para serem verdadeiros humanos. Se todos esses tivessem essa vaidade atual das correntes virtuais, muitas pessoas não teriam de fato com quem contar.


“Não me desafie!” Essa deveria ser a frase de ordem. Nós não precisamos ser tentados com um desafio para fazer o bem. Para realizar uma ação de reciprocidade é preciso apenas do companheirismo necessário em qualquer ato humanitário. Ser companheiro, nesse sentido, é ver o outrem semelhante com igualdade, ou seja, como humano, e buscar atenuar o sofrimento dele. Mas, não se deve fazer tal coisa esperando reconhecimento, fama ou sucesso. Tem um dito que diz mais ou menos assim: “vamos fazer o bem, sem vem a quem”. Em outras palavras, qualquer pessoa pode ter a iniciativa de ser solidário, mas sem a necessidade de ganhar visibilidade por isso. O bem não deseja ser glorificado, apenas ser perpetuado, para que cada vez mais pessoas façam o mesmo e o mundo se torne um local onde cada vez menos pessoas sofram.
Mais informações »

As pessoas com deficiências também se relacionam, com e sem amor - por Manu Candido

1 Comentário
Frequentemente vejo textos que se propõem a falar sobre a vida de pessoas com deficiência cujo título é: “deficientes também amam”. Até aí nada de mais, como seres humanos capazes de ter sentimento, naturalmente que amam.

O problema é que ao ler noto quase todos os textos não tratando de amor, mas sim de sexualidade e outros tipos de relacionamentos que podem ou não envolver amor. Na maioria das vezes é só sobre sexualidade mesmo.

É muito importante que o fato de pessoas com deficiência fazerem sexo seja tratado de forma desmistificada. Se já me incomoda que amor e sexo se confundam de modo geral, como pessoa com deficiência, pra se referirem a nós acho pior ainda.

Pra começar, esse não é um grupo homogêneo. Existem os vários tipos de deficiência e existem as pessoas, com suas personalidades, suas complexidades e vivências. Dizer “os deficientes também amam” é nos igualar, desconsiderando nossas escolhas, nossas particularidades e formas de lidar com cada relacionamento. Não acho possível considerar que haja amor envolvido nem em todos os relacionamentos específicos de um indivíduo com deficiência, quanto mais de modo geral. Acredito que as pessoas que escrevem tais textos têm boas intenções, mas pelo menos pra mim passa uma mensagem de padronização.

Além disso, todo mundo acha normal, parte da vida, que outros grupos flertem, fiquem, façam sexo casual, sexo sem um relacionamento estável, sem necessariamente um envolvimento “romântico”. O sexo nesses grupos não é relacionado diretamente com amor. Quando se fala em deficientes e essa ligação é automática, me parece que fica insinuado: “Claro, esses carentes encontraram alguém que os queira, como não ficarem perdidos de amor?”.

Acontece que na realidade sem estereótipos deficientes nem sempre transam porque estão perdidos de amor ou carentes. Não que estejamos imunes à carência, apenas nossa carência não está diretamente ligada à deficiência. Podemos ficar carente por vários motivos, feito todo mundo.

Como qualquer outra pessoa, deficientes também fazem sexo pelo sexo. Às vezes também só queremos trepar e vazar. Rola de nos relacionarmos sem sequer estar apaixonados, quanto mais amando. É muito possível que ao ficar com alguém seja só pelo tesão. Estabelecer um vínculo emocional, antes ou depois disso não é regra.

Enquanto ficam com alguém, deficientes também não estão obrigatoriamente idealizando casamento, dois filhos e um cachorro. Ao afirmar isso não condeno quem por acaso deseje, se relacione com essa intenção. Até porque a possibilidade, embora totalmente real, de casarmos e termos filhos nos é sistematicamente negada. O que repudio são as entrelinhas do espanto quando dizem: “está com uma pessoa, mas não quer casar?” Que traduzindo significa: “vai deixar escapar alguém que te quis?” (Nem vou entrar no mérito de como é equivocado achar que casamento, pra qualquer pessoa, é não deixar que o outro “escape”).

Quando o relacionamento de uma pessoa com deficiência é com uma pessoa sem deficiência, amor também aparece como obrigatório. Só que é um tipo diferente de amor. Um amor devotado, abnegado, caridoso. O parceiro de uma pessoa com deficiência é tratado como um ser de luz, evoluído, que entre tantas pessoas no mundo escolheu ficar com “alguém assim”. Uma parenta minha chegou a verbalizar que meu ex era um anjo na minha vida e ela não se referia ao contexto romântico (que já seria meio enjoado).

O senso comum de fato vê nossos parceiros como anjos. E diz a mística que anjos não têm sexo. Então de um lado a escolha é fruto de generosidade extrema, praticamente uma missão. De outro é dependência (seja física, ou emocional. Com essa suposta dependência também se confunde o tal amor) e gratidão total. Se chegarem a se separar só há duas possibilidades: Ou quem faz a “caridade” cansou, ou quem recebe não soube agradecer.

Sério, não aguento tanta superficialidade. Apesar de preconceitos baterem na minha cara todo dia, tenho dificuldade em entender gente achar possível e normal ficar/namorar/casar motivado por caridade. E ainda achar que sim, essa é a única explicação.

No aspecto sexual, apesar de opinião rasas e preconceituosas me causarem ímpetos que vão de revirar os olhos, até distribuir muletadas, pelo menos entendo onde surgem. A sociedade estabeleceu um padrão do que é atraente. Se estamos fora desse padrão, como alguém pode sentir tesão por nós? E mesmo que a pessoa sinta, temos limitações. Como transar seria, não só viável, mas prazeroso?
Simples, como é pra qualquer um.

Acredito que o que faz um indivíduo gostar de outro são coisas variáveis e subjetivas. Pode ser sorriso, olhar, covinhas (eu tenho covinhas que encantam muita gente. Desculpa a falta de modéstia. *beijinho no ombro*), personalidade. Sobretudo, é o desejo de estar, que pra cada um é composto de um conjunto de coisas (caridade não está entre elas pra ninguém).

No sexo idem. O que torna uma pessoa atraente pra outra é pessoal. Quando uma companhia é desejada, limitações ficam em segundo plano. Se não ficassem não haveria nenhum tipo de relação entre ninguém, já que alguma limitação todo mundo tem. Com vontade de ficar junto, você troca o foco no que não rola pelo que rola numa boa e não sente falta de nada.

Seja no sexo com amor, no sexo sem amor, no amor sem sexo. Seja pra pessoas com ou sem deficiência, acredito que o lance é não determinar que haja um comportamento padrão. Muito menos exotificar. O lance é permitir e naturalizar.


Visto no: Lugar de Mulher
Mais informações »

"Um sentido para a eterna briga dos homossexuais com a velhice" - Por Pedro Paulo Sammarco Antunes

Deixe um comentário

Visto no MixBrasil

Na sociedade greco-romana, a produção do sujeito também estava relacionada ao processo de envelhecimento. Era preciso viver para ser velho, pois só então o sujeito se completaria. Atingir a velhice constituía o objetivo da vida. Portanto, não fazia sentido atribuir um modo específico de vida para cada fase. A vida é processo e não uma fase seguida da outra. Logo, ser velho tornava-se um privilégio: o de ter desfrutado uma longa existência. Não havia o que descobrir. Era preciso se tornar, construir-se a cada instante. Ficar com os próprios desejos e não com os desejos dos outros. Na atualidade, o culto ao eu e aos excessos do prazer são estimulados gerando um estado de carência permanente.

Já na antiguidade greco-romana, não se atingiria a sabedoria de si sem o combate das paixões e apetites exagerados. O cuidado de si tem o objetivo de se produzir e atingir o próprio modo de ser. A velhice era caracterizada pela plenitude de uma relação acabada consigo. No sistema capitalista o ser humano passa a valer o quanto produz. O velho não é visto nem como produtor, muito menos como reprodutor e sim como um parasita inútil. Para organizar melhor as relações sociais, os diversos ramos da ciência organizaram as idades nas chamadas: cronológica, biológica, social e psicológica.

O que é valorizado na atualidade é a juventude. Esta simboliza força, adaptabilidade, criatividade, produtividade, consumo, esperteza, agilidade, versatilidade e rapidez. As chamadas adolescência e idade adulta se confundem. Todos buscam permanecer nos vinte e cinco anos de idade para sempre. O horror à velhice nasce da sociedade narcisista e do culto ao eu jovem, magro e sarado. A velhice é vista como uma ameaça aos atributos admirados e valorizados.

Infelizmente os homossexuais não fogem a esse contexto, pois os atributos físicos são muito valorizados em seu meio. O poder não vem apenas do cultural e do capital, ele vem também do culto ao corpo e do enorme consumo que isso gera, alimentando diversos ramos dos mercados ligados à saúde, economia e política. As marcas do corpo interpretadas como marcas de velhice são associadas a marcas de velhice que também surgem na mente. É como se o corpo fosse o reflexo direto de algo que também está acontecendo na mente, ou seja, corpo em decadência será igual a uma mente em decadência. A velhice, em geral, é culturalmente associada com morte iminente e a decadência física.

Porém, vem adquirindo importância devido ao aumento do número de idosos. Esta faixa da sociedade está sendo normatizada através do consumo e de padrões de comportamento que lhe são impostos. De maneira geral, o idoso será pressionado a tentar se adequar aquele que é considerado o modelo ideal pela sociedade de controle: o jovem sarado, bonito, ágil, produtivo, flexível, independente e consumista. Mais uma vez os homossexuais masculinos por estarem inseridos nessa mesma sociedade, não são poupados dessa pressão.

Os modelos de velhice valorizados são representados por idosos que enfrentam desafios, fazem projetos para o futuro, mantêm uma agenda completa de atividades, mostram-se criativos, joviais e relutam em se aposentar. Parece que o modelo tradicional de velhice que pressupunha o idoso em casa, aposentado, doente, decadente, isolado e aguardando a morte chegar, está mudando rapidamente. A sociedade de controle impõe que os modelos tradicionais se alterem para se adequar a produção e ao consumo sem limites.

O idoso geralmente costuma sofrer o estigma daquele que é lento, rígido, sistemático, metódico, dependente e inflexível. Conforme as rápidas mudanças ocorridas no mundo nos últimos tempos, a indústria da moda vem diminuindo cada vez mais o tamanho dos vestuários, desde o início do século XX. Gradativamente surgem peças menores tanto para homens como principalmente para as mulheres. Os corpos vão sendo cada vez mais expostos conforme as décadas desse século avançam. A partir da década de 1980, os corpos já estavam bem amostra, e a famosa “geração saúde” crescia expressivamente em todas as classes sociais. Desde então, o culto ao corpo tem tido o objetivo de corporificar “identidades” pautadas em modelos inalcançáveis, onde cada um se torna individualmente responsável pelo corpo que tem.

Viver o infinito da vida, no finito de cada instante. É justamente o desafio que Friedrich Nietzsche (1844-1900) propõe a todos (homossexuais ou não) a teoria do eterno retorno. Ela consistia em fazer com que os homens pensassem que ao morrerem, retornariam ao exato momento de seu nascimento e tudo o que passou seria exatamente repetido infinitas vezes. Ele acreditava que se pensássemos na vida tendo como referência esse “eterno retorno”, seríamos muito mais responsáveis nas escolhas de nossos atos, porque saberíamos que cada ato, cada palavra, cada ação, assim como a ausência delas, seria repetida pela eternidade. Seu intuito era que o homem enxergasse assim a vida para que a vivesse da forma mais plena possível. Assim, Nietzsche coloca a seguinte pergunta: essa vida, assim como você a vive hoje, seria digna de ser repetida por toda eternidade?

*Pedro Paulo Sammarco Antunes é psicólogo. Atualmente está cursando doutorado emPsicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Em 2010 defendeu o título de mestre em Gerontologia pela mesma instituição. Concluiu sua pós-graduação lato-sensu em Sexualidade Humana pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 2008. Tem experiência na área de psicologia clínica com ênfase em sexualidade humana. Em 2013 lançou seu mestrado em livro: “Travestis envelhecem?”, publicado pela editora Annablume.
Mais informações »

A Velha Amiga

Deixe um comentário

Conversávamos sobre saudade. E de repente me apercebi de que não tenho saudade de nada. Isso independente de qualquer recordação de felicidade ou de tristeza, de tempo mais feliz, menos feliz. Saudade de nada. Nem da infância querida, nem sequer das borboletas azuis, Casimiro.

Nem mesmo de quem morreu. De quem morreu sinto é falta, o prejuízo da perda, a ausência. A vontade da presença, mas não no passado, e sim presença atual.

Saudade será isso? Queria tê-los aqui, agora. Voltar atrás? Acho que não, nem com eles.

A vida é uma coisa que tem de passar, uma obrigação de que é preciso dar conta. Uma dívida que se vai pagando todos os meses, todos os dias. Parece loucura lamentar o tempo em que se devia muito mais.

Queria ter palavras boas, eficientes, para explicar como é isso de não ter saudades; fazer sentir que estou expirimindo um sentimento real, a humilde, a nua verdade. Você insinua a suspeita de que talvez seja isso uma atitude.

Meu Deus, acha-me capaz de atitudes, pensa que eu me rebaixaria a isso? Pois então eu lhe digo que essa capacidade de morrer de saudades, creio que ela só afeta a quem não cresceu direito; feito uma cobra que se sentisse melhor na pele antiga, não se acomodasse nunca à pele nova. Mas nós, como é que vamos ter saudades de um trapo velho que não nos cabe mais?

Fala que saudade é sensação de perda. Pois é. E eu lhe digo que, pessoalmente, não sinto que perdi nada. Gastei, gastei tempo, emoções, corpo e alma. E gastar não é perder, é usar até consumir.

E não pense que estou a lhe sugerir tragédias. Tirando a média, não tive quinhão por demais pior que o dos outros. Houve muito pedaço duro, mas a vida é assim mesmo, a uns traz os seus golpes mais cedo e a outros mais tarde; no fim, iguala a todos.

Infância sem lágrimas, amada, protegida. Mocidade - mas a mocidade já é de si uma etapa infeliz. Coração inquieto que não sabe o que quer, ou quer demais.

Qual será, nesta vida, o jovem satisfeito? Um jovem pode nos fazer confidências de exaltação, de embriaguez; de felicidade, nunca. Mocidade é a quadra dramática por excelência, o período dos conflitos, dos ajustamentos penosos, dos desajustamentos trágicos. A idade dos suicídios, dos desenganos e, por isso mesmo, dos grandes heroísmos. É o tempo em que a gente quer ser dono do mundo - e ao mesmo tempo sente que sobra nesse mesmo mundo. A idade em que se descobre a solidão irremediável de todos os viventes. Em que se pesam os valores do mundo por uma balança emocional, com medidas baralhadas; um quilo às vezes vale menos do que um grama; e por essas medida, pode-se descobrir a diferença metafísica que há entre uma arroba de chumbo e uma arroba de plumas.

Não sei mesmo como, entre as inúmeras mentiras do mundo, se consegue manter essa mentira maior de todas: a suposta felicidade dos moços. Por mim, sempre tive pena deles, da sua angústia e do seu desamparo. Enquanto esta idade a que chegamos, você e eu, é o tempo da estabilidade e das batalhas ganhas. Já pouco se exige, já pouco se espera. E mesmo quando se exige muito, só se espera o possível. Se as surpresas são poucas, poucos também os desenganos.

A gente vai se aferrando a hábitos, a pessoas e objetos. Ai, um um dos piores tormentos dos jovens é justamente o desapego das coisas, essa instabilidade do querer, a sede do que é novo, o tédio do possuído.

E depois há o capítulo da morte, sempre presente em todas as idades. Com a diferença de que a morte é a amante dos moços e a companheira dos velhos.

Para os jovens ela é abismo e paixão. Para nós, foi se tornando pouco a pouco uma velha amiga, a se anunciar devagarinho: o cabelo branco, a preguiça, a ruga no rosto, a vista fraca, os achaques. Velha amiga que vem de viagem e de cada porto nos manda um postal, para indicar que já embarcou.

(Crônica publicada no jornal "O Estado de São Paulo" - 13/01/2001)

Mais informações »

Ele só quer te comer – porque esse discurso não deveria incomodar? - por Nathalie Macedo

1 Comentário

Você conheceu um cara incrível ontem. Ele é amigo do namorado da amiga da sua amiga. Não importa, ele gostou de você. Gostou do seu batom vermelho, do seu riso debochado e do cheiro que sentiu quando você chegou perto pra dar um ‘oi’. A malícia nos olhos dele deixou claro que ele sabia o que o seu oi significava: você queria fumar um cigarro, nua, na janela do apartamento dele, enquanto ele adormecia, exaustivamente satisfeito, com os seus gemidos ainda ecoando no quarto desarrumado.

E você – cujos olhos têm malícia também – soube ler no sorriso dele que ele queria mesmo arrancar seu sutiã no final da noite. Sem ter que pedir seu e-mail, nem conhecer sua mãe, nem saber qual é o seu prato preferido e nem te chamar pra jantar no japa.

No fundo, no fundo – e do alto da sua safadeza genuína – pouco te interessa se ele vai ligar no dia seguinte; não te interessa se ele ronca, porque você vai sair de fininho quão logo estiver saciada. Vai fechar a porta devagar e pegar o primeiro táxi. Sem deixar nem um bilhete na geladeira – porque, pra você, foi o suficiente. O agora valeu a pena e não precisa ter depois.

E quando você está quase absolutamente convencida do seu direito – pensando bem, não é um direito, é uma vontade mesmo – de querer só sexo casual, a sua amiga politicamente correta e entediante até a alma, fala alto no seu ouvido (por causa da música contagiante, que seria capaz de te salvar de ouvir aquela asneira): “Cai fora, ele só quer te comer!”

Ele só quer te comer. Como se você tivesse saído pra a noite, com a sua micro calcinha recém comprada e suas boas doses de tequila pra procurar um casamento. Um cara que tivesse um bom emprego e uma mãe menos chata que as sogras que você já teve. Que bebesse pouco e quisesse ter filhos, que não roncasse e também quisesse uma lua de mel em Veneza – porque qual mulher não quer uma lua de mel em Veneza? – ah, é, você não quer. Você só quer transar – e qual é o problema nisso?

Então, junto com essa nossa tão sonhada e, pouco a pouco conquistada liberdade sexual, deveria vir um manual de instruções sobre como se livrar da hipocrisia (e como ensinar isso às nossas amigas certinhas). Pra que toda mulher que quer sexo casual compreenda que não há nenhum desvio de caráter em um homem que quer só sexo casual. E isso quer dizer que não há nada de errado no fato de ele só querer te comer, desde que isso fique claro pra você – é como um ‘li e aceito os termos de uso’ – ninguém engana ninguém e os interesses coincidem.

Então você aprendeu que não há nada de errado em querer sexo casual. E não há nada de errado em um homem só querer sexo casual com você – isso não te faz uma biscate. Isso não significa que você não é digna de alguém que te dê mais que sexo: Pode significar – e significa, muitas vezes – que você simplesmente não quer alguém que te dê mais que sexo. E então, depois de jogar toda a hipocrisia na primeira lixeira pública, encha o peito pra responder à sua amiga politicamente careta: – Ele só quer me comer?! – ótimo. Eu só quero comê-lo também.

Mais informações »

Geração celular: Como o uso constante desse aparelho mudou a vida das pessoas?

Deixe um comentário

Um Benefício Perigoso

Criado em 1940, o celular é um dos objetos que a maioria dos Brasileiros não esquece a o sair de casa. Além de facilitar na hora da comunicação móvel, o uso constante do aparelho pode ser nocivo á saúde ocasionando problemas que na maioria das vezes são desconhecidos pela sociedade consumista.

Cada vez mais, a busca por celulares com grandes tecnologias aumenta gradativamente a economia do país. Um levantamento feito pela a agência nacional de telecomunicações (ANATEL), aproximadamente 194 milhões de aparelhos no Brasil chegando a quatro por habitantes. Mudando a comunicação e o comportamento das pessoas.

 O aparelho não só facilita na comunicação,como se tornou agenda pessoal,GPS, multifunções oferecidas por aplicativos. Por outro lado, o uso excessivo pode ser nocivo á saúde, o urologista Sandro Esteves, membro da sociedade Brasileira de urologia, afirmou que os homens que passam mais de quatro horas ao celular estão expostos á ondas eletromagnéticas que podem afetar na forma e no tamanho dos espermatozóides ocasionando problemas na fertilidade.

Além de interferir na produção de radicais livres do corpo. Sem falarmos dos descartes indevidos nos lixões, que afetam o meio ambiente por ser de origem eletrônico, modificando o comportamento social que contribui para a desmotivação do contato pessoal que atinge a sociedade.

Portanto, não podemos deixar de lado os benefícios que essa tecnologia nos trás, porém, a sociedade precisa ser alertada de seus malefícios. As políticas públicas devem investir em comerciais, panfletos e cartilhas que deixe a sociedade ciente dos riscos corridos a o constante uso dos celulares.

Aluna: Izadora Oliveira
Professor: Diogo Didier


Mais informações »

"Além do escândalo: o mundo do sexo sem camisinha" Por Bruno Machado

Deixe um comentário

Por *Bruno Machado para o Lado Bi
 
Um pouco de tudo que a grande imprensa não conta (ou prefere não contar) sobre a prática do bareback
 
“Teve uma vez que me masturbei pensando que estavam me passando HIV”. Até hoje, a frase ressoa em meus ouvidos. Me perturba. Ela me foi dita por Peter, um contabilista nos seus 35 anos, depois de uma hora de conversa hesitante e reticente. Era final de 2012. A entrevista, a primeira de uma série, realizada para o meu trabalho de conclusão de curso em jornalismo, defendido recentemente na Escola de Comunicações e Artes da USP.
 
Levar para a academia um tema considerado complexo e delicado como o bareback – o sexo sem camisinha entre homossexuais – não foi nada fácil. O primeiro candidato a orientador rejeitou meu trabalho com veemência. Sugerir o assunto para um grande veículo de comunicação, nem pensar. Ainda que a pauta seja capaz de mobilizar a opinião pública a respeito de temas como saúde, responsabilidade, ética e sexualidade, sobre o sexo desprotegido entre gays parece pairar um conveniente e sepulcral silêncio. Em dois anos de apuração, procurei mais de cem pessoas, entre médicos, psicólogos, sociólogos e outros especialistas, além de anônimos que pudessem, sem pudores, dar detalhes sobre seus hábitos na cama. Conto nos dedos aqueles que aceitaram falar sobre o assunto.
 
Ainda que muito relutante, Peter foi um deles. Dias antes da entrevista, ele se descobriu soropositivo. A notícia, no entanto, não foi recebida com pânico ou medo.
 
“Primeiro, tive uma sensação de anestesia e paralisia. As enfermeiras que fizeram meu exame  pareciam histéricas. ‘Você precisa saber quem te infectou! Você pode processá-lo, sabia disso?’, elas gritavam.  Me pareciam muito despreparadas. Depois, senti alívio. Sabia que não precisaria passar por mais nada daquilo. Havia acabado. Eu me sentia predestinado a contrair o HIV, e agora, estava de fato infectado”.
 
Num artigo recentemente publicado no New York Times, Tim Dean, professor da Universidade do Estado de Nova York, afirma que para algumas pessoas, o HIV não é repelido, mas celebrado. “Alguns homens estão usando o vírus para criar relações. Eles evitam a camisinha e procuram compartilhar a infecção para criar conexões”, escreve. De fato, para muitos, na virada dos anos 1980, com o pânico gerado pelo fulminante morticínio causado pela Aids, o sexo seguro acabou por se tornar uma espécie de ditadura moral e biológica, com agressivas campanhas pelo uso do preservativo e a manutenção da monogamia. Como espécie de reação, para muito além de uma rebeldia adolescente, alguns gays passaram a descartar o preservativo em seus encontros como forma de intensificar o prazer e a intimidade, ou mesmo pela pura e simples contravenção. Criava-se, assim, uma espécie de subcultura gay conhecida como bareback – termo originalmente usado no hipismo para designar o cavalgar sem sela e, posteriormente, relacionado ao sexo entre homens sem o uso do preservativo.
 
Não demorou para que a imprensa norte-americana descobrisse esses encontros e explorasse sua faceta mais sensacionalista: as chamadas festas de soroconversão, nas quais um dos participantes é soropositivo e sua identidade, mantida em segredo. Num jogo em que perigo, prazer, risco e morte trocam de posição no tabuleiro, o vírus – o gift, presente em português – é dado e recebido livremente. Tal como a Aids no início da década de 80, o bareback chegou ao Brasil importado como uma “moda de gay americano”. Entre 2006 e 2009, publicações como IstoÉ, Veja e Jornal do Brasil alardearam o fenômeno como uma ameaça à saúde pública, reflexo de uma política permissiva de combate à Aids e da criação de medicamentos cada vez mais eficazes contra o HIV.
 
Em dois anos de apuração, ainda que eu tenha ouvido falar de festas em saunas, sex clubs, e apartamentos, nenhuma delas era organizada para que seus participantes partilhassem o vírus deliberadamente, ou mesmo transassem sem camisinha. Esses eventos de fato existem, mas são tão fechados e tratados com tamanho sigilo que muitas vezes parecem lendas urbanas. De fato, a realidade da maioria dos homossexuais que opta por levar uma vida sexual sem preservativo é muito menos sensacional do que aquela pintada pelas manchetes dos jornais. Muitos deles usam redes sociais específicas (como o www.bareback.com e owww.barebackrt.com) para procurar parceiros com o mesmo status de HIV. Soropositivos dão preferência, normalmente, a parceiros indetectáveis – aqueles cuja carga viral no organismo é tão baixa que a chance de se contaminar é quase nula.
 
 
Luiz, um empresário com seus 50 e poucos anos que me recebeu na sua casa, é um exemplo. Há tempos deixou de frequentar surubas (“o sexo grupal é uma coisa masturbatória individual coletiva”), não usa preservativo, e hoje só transa com amigos, com quem tem uma relação para além da física. Todos são soropositivos. Inclusive ele, que contraiu o vírus aos 35 e, devido à agressividade do tratamento, perdeu toda a gordura do rosto, depois reconstruído com cirurgias plásticas.
 
“Eu e meus amigos nos resguardamos no controle. Isso faz a diferença para a experiência ser mais agradável. Não tem coisa pior do que acordar com dor de cabeça no dia seguinte. Você não quer isso para você, não vai querer para o outro”.
 
Em contrapartida, há aqueles que representam a face considerada mais irresponsável do sexo sem camisinha. O vendedor que prefere ser chamado de HIV Sem Limites é um deles. Além de já ter participado de uma festa na qual foi passivo com mais de vinte homens – “fui parar no hospital com o reto estourado”, conta com um sorriso no rosto –, ele afirma que, nas saunas ou cinemas pornográficos, costuma pegar camisinhas do chão para engolir seu conteúdo.
 
“Eu procurei o HIV. Fiz o teste em março [de 2013], deu positivo. A psicóloga veio dar uma palavra de conforto e eu me mostrei muito tranquilo. Ela ficou chocada. Quando recebi o exame, senti um alívio. Agora eu tinha certeza. A dúvida é que me mata. A pior coisa do mundo é a inocência”.
 
Durante a entrevista, em uma cafeteria na avenida Paulista, quando lhe perguntei qual era sua memória mais nítida das orgias, regadas a cerveja e cocaína, ele me respondeu que estava sempre tão atordoado que nunca se lembrava de nada, e por isso filmava e fotografava tudo. Então sacou o celular e me mostrou fotos e vídeos que, não fossem pelo seu rosto, perdido na confusão de corpos, paus e bundas, eu juraria serem retirados do XTube. Pedi para que ele guardasse o telefone temendo a reação das pessoas ao meu redor.
 
Quem transa sem camisinha normalmente usa o prazer como argumento. Há quem diga que o contato “pele com pele”, assim como sentir o corpo e o sêmen do parceiro, seja fundamental para gozar. Numa espécie de acordo tácito, que exclui qualquer tipo de culpa ou conflito moral, aceitar transar sem preservativo significa se submeter, por sua própria conta e risco, ao perigo de se contaminar com o HIV. Esse é o caso do mais jovem dos meus entrevistados, Santos, de 25 anos, que contraiu o vírus enquanto namorava.
 
“Não me arrependo e não sinto culpa. Eu não fui atrás disso, aconteceu. Foi uma fatalidade. Muitas mulheres casadas contraíram o HIV porque foram traídas. Não fico pensando: ‘ah, meu Deus, se eu estivesse usando camisinha…’. Poderia ter estourado. Eu poderia ir ao hospital doar sangue e me contaminar”.
 
No primeiro momento, conta, quando ele e o namorado se descobriram soropositivos, houve ataques e acusações mútuas. “Depois dessa fase a gente passou a se amar muito, a gente se uniu, um passou a precisar mais do outro”. Os dois permanecem juntos até hoje.
 
Segundo o advogado Dimitri Sales, especialista em populações LGBT e presidente do Instituto Latino-Americano de Direitos Humanos, casos como o de Santos podem ir parar no tribunal. Ainda que as leis brasileiras não tenham criminalizado o bareback, Sales afirma que os artigos 130, 131 e 132 do Código Penal brasileiro são utilizados para punir pessoas que transmitem o HIV, deliberadamente ou não. “É uma forma que o Estado encontrou para punir a liberdade ou o liberalismo sexual do soropositivo. Esses artigos se tornaram uma ferramenta de vigilância moral”, afirma. Ele aponta decisões do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo em que o consentimento entre as partes sequer foi questionado. E caso isso ocorresse, é improvável que se refletisse na decisão judicial. “O indivíduo contaminado é sempre uma vítima perante o Código Penal, e o fato de ter concordado em manter relações sexuais com alguém soropositivo poderia, pelo contrário, complicar ainda mais a situação jurídica de quem o contaminou”, explica.

Como uma espécie de esporte de risco, o sexo sem preservativo envolve, naturalmente, o medo. Porém, nesse tipo de situação, a dinâmica se inverte: a incerteza sobre o parceiro não paralisa ou assusta; faz a tensão e o tesão do momento se tornarem mais intensos. O psiquiatra do Hospital das Clínicas, Alexandre Saadeh, explica que as regiões cerebrais responsáveis pela excitação sexual e o perigo são muito próximas. “As duas precisam ser estimuladas para que ocorra o ato sexual. No momento em que o indivíduo se coloca em prontidão para o sexo, está implicada, portanto, uma certa impulsividade que dá a ele forças para vencer o medo em nome do gozo”. Ainda que o preço pela coragem depois se revele muito alto, é difícil haver qualquer arrependimento. Para quem pratica o sexo sem camisinha, cada momento deve ser aproveitado como o último. Viver é um grande comportamento de risco.

Conversar com pessoas que fazem do sexo sem preservativo um estilo de vida ou uma identidade significa colocar em xeque algumas verdades inabaláveis. Em face do HIV, a intimidade, o sexo e a própria vida parecem passar por uma delicada revisão. “Quando me disseram que eu era positivo e poderia morrer, foi a melhor notícia que tive na minha vida. O passado é perfeito, o futuro é agora. E esse futuro imaginado vai ser sempre incerto. Eu aprendi a viver o bem-estar de um dia de cada vez, e o que importa é o hoje, o agora”, afirma Luiz, que após se descobrir portador do vírus, criou uma rotina de esportes e hábitos saudáveis, se tornou menos consumista e mais criterioso na escolha de parceiros. “Aprendi que os bonitinhos podem ser os malvados da história”, reflete.
 
De fato, quase todos meus entrevistados afirmaram que o HIV teve um efeito transformador em suas vidas. Dentre todos os depoimentos, que narram mudanças drásticas na maneira de encarar o sexo e a rotina, o mais eloquente e contundente é o de Peter.
 
“Minha vida agora é outra. Antes eu tinha vontade de me matar. Eu não conseguia parar de beber. Procurei tratamento, tentei parar, mas não conseguia de jeito algum. Depois que me descobri soropositivo e sei que o álcool faz mal, especialmente para um organismo debilitado como o meu, eu parei. Não coloquei mais uma gota na boca. O HIV curou o meu alcoolismo”.
 
No caso de Peter, a busca pela infecção se revestiu de um caráter de vingança. “Ninguém ligava pra mim. Meus pais não queriam saber o que eu fazia da porta de casa para fora. Hoje se preocupam. Querem saber como eu estou de saúde.”
 
Para a maioria dos especialistas e autores que li, a mudança de percepção sobre o HIV e a própria soropositividade ocorreram também devido aos tratamentos, cada vez mais eficazes. Antes uma ameaça de morte, o vírus se tornou uma doença crônica, muito distante daquela caricatura do “aidético” – Cazuza careca, com rosto fundo e ossos salientes na capa da Veja. “Tinha muito medo antes, quando as pessoas morriam e o tratamento era agressivo”, conta HIV Sem Limites. “Quando surgiu o coquetel, eu fiquei mais tranquilo. Passei mais de dois anos sem ter o prazer de ser penetrado. Só fazia sexo oral. Aí, com o novo tratamento, desencanei”.
 
A mesma explicação pode ser usada para entender os números de 2010 do Ministério da Saúde que apontaram para crescentes contaminações pelo HIV, especialmente entre os gays mais jovens. As cada vez mais agressivas campanhas que associavam a doença e a morte ao sexo desprotegido e à promiscuidade  – que para a Organização Mundial da Saúde significa ter mais de dois parceiros num prazo menor a um ano, é sempre bom lembrar – precisaram ser repensadas para atingir seu público-alvo. Mas como falar com alguém que não mais teme a Aids? Com alguém que criou uma relação erótica com o HIV? Que chama o sêmen contaminado de “vitamina”?
 
Para gays, bareback, para heteros, sexo sem proteção
 
Essas perguntas trazem outras, talvez mais importantes, com as quais me confrontei durante minhas entrevistas. Por que o sexo sem preservativo entre gays causa tanta comoção a ponto de virar matéria de jornal? Por que entre heterossexuais não ocorre o mesmo? Por que se fala em bareback para se referir ao sexo sem preservativo, exclusivamente entre homossexuais, sendo que quase todas as pessoas, independente do gênero e da orientação sexual, já transaram sem camisinha?
 
Para responder a essas perguntas, senti a necessidade de fazer um retrospecto da epidemia do HIV no Brasil. Não foi nenhuma surpresa perceber que a Aids, para além de qualquer evidência biológica, foi recebida pela classe médica como doença de homossexual, “a peste gay”, como se dizia na época, ainda que desde o começo da epidemia, as mulheres fossem as mais afetadas depois de gays e usuários de drogas injetáveis. Mas isso a grande imprensa preferia esconder. Foi só no começo da década de 90, quando a proporção de soropositivos era de uma mulher para cada sete homens que os jornais e revistas passaram a afirmar que o HIV estava mudando de feições. Na verdade, desde que a pandemia eclodiu, primeiro no continente africano, não se sabe exatamente quando ou quantos mortos fez: o vírus nunca teve um único rosto. Se o teve, certamente foi uma face minimamente planejada e fabricada. Com um forte teor moralista, a expressão “grupo de risco” foi cunhada não para denunciar que uma parcela da sociedade sofria com uma doença fatal, mas para criar uma marca, um estigma que diferenciasse a escória dos demais indivíduos decentes e normais. A Aids foi uma espécie de novo triângulo rosa, não pregado à roupa do homossexual, mas impresso no seu sangue.
 
No rastro da doença, as medidas profiláticas se tornaram obsessivas. Começava a pregação religiosa, a teoria messiânica de que a Aids, como fogo, vertia dos céus e se abatia sobre os sodomitas. A profecia bíblica se concretizou em São Paulo, pelo menos duas vezes: em 1986, uma bomba explodiu num cinema pornográfico no centro. Os autores, fanáticos religiosos. Em 1999, uma outra, na sede da Anistia Internacional. O explosivo, recebido pelo correio, estava acompanhado de um bilhete coberto de símbolos nazistas. No texto, diversas ameaças àqueles que defendiam negros e gays. Começava assim uma verdadeira caça às bruxas que não se sabia até onde era justificada pela ciência, pela religião, ou mesmo pela ignorância do senso comum.
 
 
Para além de qualquer teoria conspiratória que afirme o HIV não existir, ou que tenha sido sintetizado por cientistas como arma biológica – acredite, essas teorias não são ficção científica –, é evidente que a epidemia é um problema social tão ou mais grave do que biológico. Ainda que o coquetel seja cada vez mais eficiente contra o vírus e que, na melhor das hipóteses, daqui algumas décadas, uma vacina finalmente chegue ao mercado, o estigma, este sim, uma doença incurável, continua fazendo suas vítimas.
 
Segundo o professor Esteban García, da Universidade de Buenos Aires, autor de um artigosobre a prática do bareback, o horror e o escândalo que a prática ainda suscitam apenas confirma o lugar que a homossexualidade ocupa na nossa sociedade: a da doença, do desvio e da imoralidade. De acordo com a obra do filósofo Michel Foucault, a figura do homossexual surgiu no começo do século XIX, exatamente quanto os saberes médicos se sofisticavam, e a psiquiatria dava seus primeiros passos. Naturalmente, o amor entre iguais foi considerado uma doença. Para deixar de ser apenas mental para se tornar física, foi necessário mais um século. A Aids só veio confirmar a homossexualidade como aberração da natureza.
 
De maneira incômoda, ou mesmo radical para alguns, o sexo sem camisinha, a subcultura do bareback vem mostrar que nem todos os indivíduos estão dispostos a acatar esse rótulo, tampouco adentrar na confortável zona da (hetero)normalidade, da monogamia, da união estável reconhecida em cartório. Sua luta, ainda que desprovida de qualquer militância política, é pela valorização do prazer acima de tudo, contra qualquer rótulo ou culpa. Para esses homens, como Peter, Santos, Luiz, ou HIV Sem Limites, o prazer total não tem preço. Se suas afirmações nos soam contundentes ou transgressoras é porque nelas vemos, sem qualquer censura, um reflexo dos nossos mais perturbadores e recônditos desejos.
 
(nomes fictícios; os pseudônimos foram escolhidos pelos próprios personagens)
Este texto é uma versão livre do trabalho de conclusão de curso intitulado “Na pele: prazeres sem preservativo – um ensaio sobre a prática do bareback” apresentado à Escola de Comunicações e Artes em dezembro de 2013 pelo jornalista Bruno Machado. A versão completa pode ser lida em: http://bit.ly/19i7iFe
 
*BRUNO MACHADO, 25 anos, é jornalista formado pela ECA-USP. Já escreveu sobre música, internet, e sobretudo, cinema e teatro. Já publicou textos no Diário de São Paulo, na Veja São Paulo e na revista Brasileiros, entre outros veículos. Como muita gente nas redes sociais pedia que ele publicasse o resultado de seu trabalho em algum veículo, e como tanto nós quanto ele sabíamos da improbabilidade de algum veículo aceitar esse tipo de texto, oferecemos o espaço do nosso blog, até para que Bruno resumisse a história de forma menos acadêmica e mais, digamos, new journalism. Para se informar mais sobre esse assunto, ouça o Lado Bi nº 34 – Camisinha o Lado Bi nº 8 – HIV.
Mais informações »