19 janeiro 2015

É burrice medir a inteligência


O que mede o grau de inteligência de uma pessoa é, sem dúvidas, o dinamismo. Alguém que é dinâmico consegue não só fazer e ser muitas coisas ao mesmo tempo, mas também tem o dom de se adequar as várias realidades da vida e as pessoas a sua volta. É um ser que não menospreza o outro, mesmo sabendo que esse outro seja de um nível intelectual “inferior”. Afinal, infelizmente, aprendemos que ser inteligente é está dotado de um currículo que comprove isso, quando na verdade a inteligência vai muito além de uma folha de papel. Inteligência é sensibilidade. Quem é sensível é capaz de se perceber no mundo e, por essa razão, capaz de perceber o mundo em si. Essa autorreflexão é determinante para a mudança de tomada de consciência pessoal e coletiva. É quando dizemos assim: “Ele/ela é um exemplo a ser seguido/seguida”. Entretanto, em meio a pseudointelectualidades, não enxergamos que há mais pessoas inteligentes do que imaginávamos.

Se ser inteligente é ser dinâmico, então temos uma penca de intelectuais não valorizados perto de nós. Conheço diversas mães, que mesmo com pouca escolaridade, conseguem ser mães, profissionais e mulheres, numa rotina de vida que poucos acadêmicos suportariam. Elas, sem currículo ou diplomas, vão além da criação e encarnam o papel de analistas, assistentes sociais, psicólogas, terapeutas, mesmo sem nenhum conhecimento dessas profissões. São seres de uma inteligência indescritível, mas que não são valorizadas, porque não fazem parte dos parâmetros academicistas. O que é uma pena, pois muitas mulheres, e homens também, exercem tarefas dignas de grandes estudiosos, como lidar com adolescentes com os hormônios a flor da pele; o chefe que acorda mal humorado e escolhe justamente você para descontar a raiva; e o parceiro insatisfeito com a relação. São questões que exigem um jogo de cintura incrível, que vai da retórica aristotélica aos conceitos psicanalíticos de Freud.

No entanto, não vemos isso como elemento que compõe a inteligência, simplesmente porque nos ensinaram desde cedo que ser inteligente é trabalhar com o cérebro e não com o corpo. Todo o trabalho braçal está desqualificado de ser algo producente neste sentido. Essa herança histórica, e na minha visão errônea, nos faz perder a chance de ver e conhecer tantas pessoas intelectuais presentes em nosso cotidiano. Basta uma breve conversa com aqueles que ocupam profissões de menor valor social para constatar a complexidade de suas obras. Ser pedreiro, padeiro, cozinheiro, marceneiro, encanador, eletricista, dona ou dono de casa, entre outras carreiras de menor prestígio social, tem igual ou semelhante importância para o funcionamento da vida em sociedade. E todos aqueles que as exercem são grandes pensadores, pois conseguem exercer suas profissões com esmero e talento, mesmo não sendo reconhecidos social e financeiramente por isso.

É fácil para muitos de nós tachar de irrelevante profissão X ou Y  de alguém, sobretudo numa época onde as pessoas não buscam mais se profissionalizar apenas pela vocação em determinada área, mas sim pelo bônus que ela trará. Mais fácil é ainda classificar como burro aquele atendente que passou o troco errado por engano no supermercado; o operador de telemarketing que gaguejou no meio da ligação; o frentista que colocou mais gasolina do que você tinha pedido; o garçom que cobrou os dez porcento pelo bom atendimento feito, mas que você não quer pagar. Dessas e outras situações, difícil mesmo é enxergar que naquele ser há muito mais do que um mero serviçal. Talvez seja alguém tão ou mais inteligente do que você e, por diversas questões, está ocupando um cargo de menor prestígio social. Porém, estar numa posição desprivilegiada socialmente não quer dizer que o indivíduo se encontre afundado na ignorância. Pobreza e inteligência, podem ser parentes próximos, mas não são sinônimos, e isso tem que ser entendido pelos “intelectuais”.

Não sei andar de bicicleta. Depois de várias quedas na infância, percebi que não sou hábil a andar em duas rodas. Também não sei assobiar. Meus lábios, por alguma razão, não conseguem emitir esse silvo. Nadar está fora de cogitação. Na praia, arrisco-me a ficar com água acima da cintura, desde que esteja acompanhado de amigos. Se for em piscinas, procuro a parte mais rasa para não pagar mico. Na lista de incapacidades ainda estão todas e quaisquer atividades que exijam cálculos matemáticos. Os números nunca foram parceiros legais comigo e vice-versa. Diante disso, havia uma frustração da minha parte quando lembrava que não sabia fazer isso ou aquilo outro. Pior ficava quando via amigos e colegas próximos realizando tarefas das quais eu desejava, mas nem sonhava em realizar. Quando a maturidade bateu à porta, finalmente percebi que não era burro por não saber fazer o que os outros faziam. Tinha outras habilidades e precisava me orgulhar delas.

Mais importante do que isso foi quando brotou em mim a admiração por aquelas profissões desprestigiadas socialmente. Percebi que não sou capaz de cozinhar em largar escala; construir uma casa ou um prédio; consertar um problema na fiação elétrica da minha casa; nem tão pouco trabalhar com dinheiro na mão, desde contador a atendente de supermercado.  Porém, hoje consigo admirar quem possui essas habilidades e digo que quem as realiza possuem uma imensa inteligência. Mais do que isso, sei qual é o meu lugar e até onde posso ir. Evidentemente que qualquer pessoa pode aprender a fazer qualquer coisa, desde que tenha interesse para isso. Mas, não se pode negar que há uma propensão maior de alguns indivíduos para uma área e outras não. Seja como for, menosprezar quem resolveu seguir um caminho distante dos conceitos acadêmicos é burrice, pois força, talento e criatividade não estão limitados à academia.

Na verdade, muitos não se veem como inteligentes, porque não têm a dimensão de como são importantes para a sociedade. Nesse momento, o papel da academia é determinante para desconstruir tal pensamento, já que é nela que as mentes “pensantes” moldam a vida social. Cada membro de colégios e universidades espalhados pelo país devem contribuir para isso. Só a educação libertária fará com que valorizemos todos independente do grau de instrução que possuam. A questão aqui não é valorizar aqueles que não estão estudando, mas encontrar neles o potencial criativo que possuem e trazê-lo à luz. É burrice medir a inteligência apenas pela capacidade de livros lidos e cálculos feitos. Isso é importante sim, mas não se pode ignorar quem não possui essas habilidades, caso isso aconteça ai sim há ignorância. E ninguém é burro em totalidade que não seja capaz de exercer algum papel nessa sociedade. Como dizia Albert Einstein “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”. Alargue a sua mente.


A boa música é um abraço de agradecimento...

Agradecer e Abraçar

Maria Bethânia


Abraçei o mar na lua cheia
Abraçei o mar
Abraçei o mar na lua cheia
Abraçei o mar
Escolhi melhor os pensamentos, pensei
Abraçei o mar
É festa no céu é lua cheia, sonhei
Abraçei o mar
E na hora marcada
Dona alvorada chegou para se banhar
E nada pediu, cantou pra o mar (e nada pediu)
Conversou com mar (e nada pediu)
E o dia sorriu...
Uma dúzia de rosas, cheiro de alfazema
Presente eu fui levar
E nada pedi, entreguei ao mar (e nada pedi)
Me molhei no mar (e nada pedi) só agradeci

Abraçar e agradecer


ABRAÇAR E AGRADECER
Chegar para agradecer e louvar.
Louvar o ventre que me gerou
O orixá que me tomou,
E a mão da doçura de Oxum que consagrou.
Louvar a água de minha terra
O chão que me sustenta, o palco, o massapê,
A beira do abismo,
O punhal do susto de cada dia.
Agradecer as nuvens que logo são chuva,
Sereniza os sentidos
E ensina a vida a reviver.
Agradecer os amigos que fiz
E que mantém a coragem de gostar de mim, apesar de mim...
Agradecer a alegria das crianças,
As borboletas que brincam em meus quintais, reais ou não.
Agradecer a cada folha, a toda raiz, as pedras majestosas
E as pequeninas como eu, em Aruanda.
Agradecer o sol que raia o dia,
A lua que como o menino Deus espraia luz
E vira os meus sonhos de pernas pro ar.
Agradecer as marés altas
E também aquelas que levam para outros costados todos os males.
Agradecer a tudo que canta no ar,
Dentro do mato sobre o mar,
As vozes que soam de cordas tênues e partem cristais.
Agradecer os senhores que acolhem e aplaudem esse milagre.
Agradecer,
Ter o que agradecer.
Louvar e abraçar!


O dilema do negro no Brasil


         Violência, pobreza e exclusão fazem parte do contexto em que vive a maioria dos negros no Brasil. Este fato vem ocorrendo ao longo da história do país em decorrência dos tempos de escravidão, quando os afrodescendentes eram considerados seres inferiores comparados ao homem branco. Lamentavelmente, é um dilema que parece não ter fim, já que está entranhado na memória da nação.
         À medida que o Brasil foi se firmando enquanto país, muitos eventos ocorreram e alguns progressos foram conquistados em meio à sociedade. Na atualidade, por exemplo, um dos fatos que mais geram uma ideia de vantagem no que diz respeito à convivência social é o alto índice de miscigenação que o lugar apresenta. Nem sempre foi assim, mas este cenário é um dos itens que mais atraem a atenção de outros países do mundo para a mistura do povo brasileiro.
        Entretanto, mesmo sendo uma nação altamente miscigenada, questões como o racismo insistem em permanecer na sociedade. A tendência, por parte dos cidadãos, é associar os negros a criminosos, bandidos ou pobres, isto é, a pessoas de níveis sociais baixos ou negativos. Em contrapartida, aqueles que apresentam pele clara são geralmente associados a indivíduos inseridos em camadas sociais mais altas. E o pior é que esta relação, para a grande maioria dos habitantes, faz sentido.
        Várias pesquisas comprovam que o brasileiro é um ser racista, mas, na verdade, não é necessário tê-las para constatar a existência dessa problemática. Grande parte da população reconhece que o racismo realmente existe, porém, poucos assumem cometer atitudes de discriminação racial. Mas, é comum na mente dos brasileiros, simplesmente pela cor da pele, identificar a posição social, o contexto familiar ou a profissão de alguém, como se esta associação tivesse algum fundamento.
       Durante muitos anos, o negro foi tratado como um ser inferior no Brasil, e este é um fato que está enraizado na história da nação, o qual perdura de forma direta ou indireta até a atualidade. Por esta razão, é preciso um mudança no contexto social do país, e para isso, se faz necessária a aplicação de leis que repudiem qualquer demonstração racista. Aliado a isso, deve haver também uma transformação de pensamento individual, o que não acontecerá de ontem para hoje.

Aluna: Larissa Ferreira 
Professor: Diogo Didier

Meu Deus, me dê coragem - Clarice Lispector



PRECE - Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar.


Clarice Lispector

Numa sociedade que cultua a magreza, como explicar a crescente obesidade?



        Um dos problemas mais enfrentados, relacionando a saúde pública brasileira, é a obesidade. Mas, mesmo com um grande índice de pessoas nessa situação, as medidas adotadas pela população e pelo Governo Federal aparentam não ser suficientes.

          A educação alimentar na infância é uma prática muito importante para a construção de responsabilidade  no hábito de nutrição adequada, e além disso, para uma boa saúde. Todavia, algumas famílias acham, que pelo fato de ser criança, podem comer doces, por exemplo, sem ter um limite, podendo causar futuramente, a obesidade.

         Segundo o IBGE, o índice de obesidade do país  aumenta cerca de 5% a cada ano, com isso, o número de problemas de saúde como infartos, diabetes e tromboses  tendem a ficar mais frequente. O problema do baixo IDH brasileiro, em relação a saúde e educação, está diretamente ligado ao alto número de obesos. Isso é visto quando comparamos o Brasil com a China, quem este tem o IDH muito alto e apresenta um baixo número de pessoas obesas.

         Por outro lado, o Governo de alguns Estados brasileiros tenta, através de projetos públicos, diminuir o máximo número de pessoas gordas. Exemplo disso são bicicletas e academias gratuitas a disposição da população para a prática de exercícios, independente da renda mensal.


          Portanto, para que diminua o número de obesidade no Brasil é preciso que as famílias ensinem desde criança a educação alimentar para criar responsabilidade nutricional. Além disso, o Governo Federal precisa investir mais em campanhas e projetos que estimulem a prática de exercícios físicos da população.

Aluno: Pedro André
Professor: Diogo Didier

Escrever bem é para poucos - Luce Pereira





       Uma matéria na edição de novembro de 2010 da revista Superinteressante fazia uma controversa pergunta (e esta não quer calar mesmo): “Por que o Brasil lê pouco?”. As causas seriam pelo menos três - falta desta tradição, no país; pessoas que não trazem o hábito de casa; e a não formação de novos leitores, item que vai diretamente para a conta das escolas. E o alto preço da falta de intimidade com os livros apareceu nos desastrosos números da última prova de redação do Enem, realizada nesta semana: dos pouco mais de 6 milhões de estudantes inscritos, 529 mil tiraram nota zero e somente 250 conseguiram a nota máxima, entre esses, duas pernambucanas - Andréia Lira (18 anos) e Marianne Rodrigues (17).

       Evidentemente, a performance das duas não traduz a qualidade da educação no estado, mas pode ser justificada por pelo menos um dos três motivos citados pela revista na tentativa de explicar o reduzido universo de leitores do país: elas leem muito e desde cedo, o que nem serve para justificar aquela (falsa) crença de que a facilidade de escrever é privilégio apenas de quem tem perfil para a área de ciências humanas - Andréia Lira (18 anos) está de olho em uma vaga no curso de engenharia e Marianne Rodrigues (17), no de medicina. Ou seja, mostraram que sem a força do hábito salvador e a virtude do esforço individual, poderiam, na melhor das hipóteses, ficar entre os quase 5,5 milhões que escaparam de fazer parte da vexatória lista.

        Aliás, a coleção de vexames encontrados nas provas de redação do Enem podem não levar o candidato a uma vaga na universidade, mas ajudam a alimentar o humor nacional como nenhum outro assunto. Isso porque, além de o português estropiado arrancar gargalhadas, ainda existem as pérolas que nascem de raciocínios deformados pela falta de informação e conhecimento, o que parece dar sentido à frase “muitos brasileiros foram do analfabetismo à TV sem passar na biblioteca”. São estas pessoas que, na tentativa de preencher o espaço do texto, escrevem absurdos como “nos dias de hoje a educação está muito precoce” ou “está muito difícil de achar os pandas da Amazônia”. E ainda em torno de temas ligados à natureza, alguns do tipo “os desmatamentos de animais precisam acabar” e “os lagos são formados pelas bacias esferográficas”.

        Se por um lado o desempenho de Andréia e Marianne atrai holofotes para Pernambuco, por outro evidencia que feitos semelhantes são uma raridade por aqui quando deveriam aparecer mais amiúde, como resultado de uma educação comprometida com o futuro. E, é claro, não existe educação de bom nível sem que o estímulo à leitura nasça em casa e encontre na escola e no espaço público ambientes propícios para se fortalecer.

       Não custa lembrar que, em Pernambuco, a política de manutenção e criação de novas bibliotecas simplesmente não existe, as que conseguiram sobreviver até hoje são poucas e servem apenas para abrigar acervos ultrapassados. Daí se conclui o óbvio: também não há políticas de governo para estimular o gosto pela leitura, que é essencial não apenas na hora da redação do Enem, mas em todas. “Quem não lê, não pensa, e quem não pensa será para sempre um servo”, escreveu certa vez o jornalista Paulo Francis, apoiado por um dos slogans mais verdadeiros da publicidade brasileira: “Quem não lê não fala, não ouve, não vê”. 

Bethânia, minha mãe - por Arnaldo Bloch


Sempre adoro como nossos baianos, novos, velhos, eternos, cantam e encaram Deus, ou deus, ou deuses, forças

Passei a noite do 31 com minha mãe Iná, em sua casa no Flamengo. A primeira virada sem meu pai. Jantamos no quarto, onde havia ar-condicionado. Esquecemos os fogos e a chuva lá fora. Brindamos com espumante rosé e sorvete de passas ao rum. Ela lembrou do primeiro flerte com Leonardo, o ruivo rechonchudo que furou uma onda em Copacabana, o areal, e, como um golfinho, emergiu diante dela. Num gesto ousado, Iná espirrou água no seu rosto. Ele a ameaçou: “Da próxima vez que fizer isso...” Ela reagiu: “O que você vai fazer? Hem?”. E ele: “Da próxima vez, te dou um beijo”. O beijo veio meses depois. O resto da história durou 50 anos e se encerrou em novembro.
Ela quis dormir na sala, e eu fiquei no quarto, deixando o lugar de papai vazio, e o cão Yossi quis ficar por ali. Juntos, sentimos a falta do golfinho de barbas e de tempos solares. Mas foi uma noite doce. Cedinho mamãe apanhou Yossi para um passeio e continuei a roncar. No início da tarde lá estava de novo o cão, aninhado. Acordei. Minha irmã havia voltado da festa da Narcisa e contava os babados. Que conversara muito com Elke. Que mulher inteligente! Sabia que ela nasceu na Rússia, Leningrado?
Despedi-me das duas e vim para casa pela Lagoa. No iPhone, que estava em aleatório, surgiu Maria Bethânia cantando “Alguma voz”, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro. Quando eu ouço alguma voz/ Na janela do horizonte/ De alguém cantando por nós/ É Deus cantando defronte. Sempre adoro como nossos baianos, novos, velhos, eternos, cantam e encaram Deus, ou deus, ou deuses, forças. Nem sempre creem nele(s). Mas sempre creem na sua expressão, na fé do povo, na relação do símbolo divino com os homens e as mulheres através da palavra, dos sons, das vozes da natureza. Caetano, crítico sensível daquilo que, de Deus, os homens fazem, estudioso dos vínculos secretos que o tempo reserva em mil níveis; Gil, panteísta, quântico, oriental. Uma vez em Montreux, anos 1990, quando perguntei se voltaria à política, respondeu: “Estou mais para líder religioso”. Na verdade, está mais para entidade cosmológica.
Bethânia, ela, sim, é mais devota: um tanto de orixás, um pouco dos santos, a cruz, altiva, luas e estrelas. Orações, atos, práticas. Longe, porém, das pulsões proselitistas, dos constrangimentos, do masoquismo. E, para complementar, aquela cara-sorriso de “judia e moura”, como na canção de Caetano, o iemenita.
A voz de Bethânia, tão bonita e particular, não se quer a maior das vozes ou das técnicas (ela vive como se fora obstinada aprendiz, tecendo loas às outras vozes, não a si). Mas é uma voz que carrega tanto do teatro (presente nos modos espectrais e físicos das festas do candomblé) quanto desse canto indizível que Dori enxerga no horizonte, talvez o tal do sentimento oceânico de que Freud fala, incapaz, ele mesmo, de senti-lo, e que, desconfiado, só consegue explicar como o sentimento do útero saudoso e até da projeção da morte em paz.
Foi bonito sair assim da casa de minha mãe e cair no colo de Bethânia, filha de Canô, de Menininha e de tantas mães, ela mesma um tipo de mãe para mim e um mundão, cada vez mais bela e jovem, transitando pelo palco com seus pés descalços, coberta de folhas cadentes e luzes de cidadezinha de interior.
Foi bonito e útil: eu estava pensando no que escrever na primeira crônica do ano, e o advento da canção de Dori, sobre as vozes, na voz dela, me fez lembrar de seus 50 anos de carreira que coroam a cabeça de 2015 (amanhã, no Segundo Caderno, edição especial sobre este meio século tão importante).
Aí cheguei em casa e mandei bala no teclado. E aqui estou lembrando dos vários encontros que tive com Bethânia. Nunca nos tornamos amigos naquele sentido de convivência periódica, do confessionário de compadres, mas, através de alguns textos, nos aproximamos, um recado de cá, um recado de lá, admirações e homenagens. Uma vez eu a ajudei a achar um gravadorzinho portátil MP3 que ela avistara na mão de outro jornalista e ficara obcecada pelo microfone pequenino, bojudo e acolchoado que havia no vértice do aparelho. Queria que queria um igual. Saí à procura e acabei achando na Avenida Rio Branco.
Dias depois, fui entregar-lhe como se fosse uma dessas oferendas a uma mãe de santo. Tem gente que diz que Bethânia é uma, e que é até mais. Quem já foi ao camarim de Bethânia após um de seus shows saiu sempre com a impressão de que ela dava passes a cada um de seus admiradores e amigos, pois o que sai de gente chorando (eu já molhei os olhos) depois de abraçá-la não está no gibi.
Ela gosta desse assédio, mas não no sentido da vulgar celebridade. Pois aquilo cansa, e essas romarias duram horas, e ela se dedica com amor. Bethânia gosta é de abraçar a gente mesmo. De ouvir e dizer palavrinhas no ouvido. De ser devota do outro, carne, mente, sangue, perfume. O que há para além disso ninguém sabe. Muita gente sente. Intui. Vê e até ouve vozes. Não sei tampouco no que Bethânia crê, pois ela crê em tanta coisa que não importa muito o que vem deste ou de outro mundo, da intuição, da síntese a priori ou de catarse a posteriori, sabe lá...
Eu creio em Bethânia. Ela existe e multiplica o divino no espelho de sua voz grave, de seus gestos que iluminam o palco, de sua raiva desabafada nos ápices das canções de amor, a ponto de apertar-se toda, incrédula, diante de certas estrofes; de seus passeios aplicados pela poesia, de seu respeito doce e fofamente professoral pela cultura brasileira. Que bom que Bethânia está entre nós. “Como uma deusa”, diria o hit brega. Chique e humana. Maria, minha mãe, parabéns.


.Visto no: O GLOBO

“Made in” saúde: de onde vem os melhores médicos?



       No ano de 2013 foi implantado no Brasil o sistema Mais Médicos, com a principal intenção de importar profissionais da saúde de diversos países.  Desde então, este programa já gerou inúmeras polêmicas, e com isso chegou-se às seguintes questões: qual o maior fator que levou o Brasil a tomar tal medida emergencial? E o projeto está sendo realizado com sucesso?  

A Unesco apontou que, o estado brasileiro apareceu como a 8º nação com maior número de analfabetos adultos. Esse fato só faz ressaltar o quanto a educação no Brasil é escassa, além de ser nitidamente desestruturada. Com isso torna-se complicado elevar o número de profissionais médicos brasileiros.

Segundo o blogueiro Josias de Souza, após 7 meses de implantação do projeto, já foram registradas aproximadamente 192 desistências. Esse elevado nível de abandono além de preocupante, também levanta a questão de que os médicos não estão recebendo à estrutura necessária para desempenhar bem suas funções.

Também durante a implantação do sistema, o Conselho Federal de Medicina (CFM) informou, que encaminhou à Procuradoria Geral e à Policia Federal um pedido para apuração de folhas no processo de inscrição. No qual fica evidente a má organização do programa, onde se é visto erros desde seu princípio.

Portanto, fica claro o quanto a saúde precisa melhorar começando primeiramente a se organizar e investir devidamente nela. Como também seja criada campanhas publicitárias,de incentivação à educação, e que haja mais investimentos significativos, para assim obter uma boa base educacional. Pois só assim, o Brasil será capaz de conseguir construir uma boa estrutura médica.

Aluna: Thais Farias
Professor: Diogo Didier

O plano cobre - por Silvia Pilz



ATENÇÃO:

Humor cáustico perde a graça quando precisa ser explicado. Falhei. Poucos se divertiram e muitos se ofenderam. A intenção não era essa. Leia o texto e deixe seu recado nos comentários.
Todo pobre tem problema de pressão. Seja real ou imaginário. É uma coisa impressionante. E todos têm fascinação por aferir [verificar] a pressão constantemente. Pobre desmaia em velório, tem queda ou pico de pressão. Em churrascos, não. Atualmente, com as facilidades que os planos de saúde oferecem, fazer exames tornou-se um programa sofisticado. Hemograma completo, chapa do pulmão, ressonância magnética, ultra de bexiga cheia. Acontece que o pobre - normalmente - alega que se não tomar café da manhã tem queda de pressão. 
Como o hemograma completo exige jejum de 8 ou 12 horas, o pobre, sempre bem arrumado, chega bem cedo no laboratório, pega sua senha, já suando de emoção [uma mistura de medo e prazer, como se estivesse entrando pela primeira vez em um avião] e fica obcecado pelo lanchinho que o laboratório oferece gratuitamente depois da coleta. Deve ser o ambiente. Piso brilhante de porcelanato, ar condicionado, TV ligada na Globo, pessoas uniformizadas. O pobre provavelmente se sente em um cenário de novela.
Normalmente, se arruma para ir a consultas médicas e aos laboratórios. É comum ver crianças e bebês com laçarotes enormes na cabeça e tênis da GAP sentados no colo de suas mães de cabelos lisos [porque atualmente, no Brasil, não existem mais pessoas de cabelos cacheados] e barriga marcada na camiseta agarrada.
O pobre quer ter uma doença. Problema na tireoide, por exemplo, está na moda. É quase chique. Outro dia assisti a um programa da Globo, chamado Bem-Estar. Interessantíssimo. Parece um programa infantil. A apresentadora cola coisas em um painel, separando o que faz bem e o que faz mal dependendo do caso que esteja sendo discutido. O caso normalmente é a dúvida de algum pobre. Coisas do tipo "tenho cisto no ovário e quero saber se posso engravidar". Porque a grande preocupação do pobre é procriar. O programa é educativo, chega a ser divertido.
Voltando ao exame de sangue, vale lembrar que todo pobre fica tonto depois de tirar o sangue. Evita trabalhar naquele dia. Faz drama, fica de cama.
Eu acho que o sonho de muitos pobres é ter nódulos. O avanço da medicina - que me amedronta a cada dia porque eu não quero viver 120 anos  - conquistou o coração dos financeiramente prejudicados. É uma espécie de glamourização da doença. Faz o exame, espera o resultado, reza para que o nódulo não seja cancerígeno. Conta para a família inteira, mostra a cicatriz da cirurgia.
Acho que não conheço nenhuma empregada doméstica que esteja sempre com atacada da ciática [nervo ciático inflamado]. Ah! Eles também têm colesterol [colesterol alto] e alegam "estar com o sistema nervoso" quando o médico se atreve a dizer que o problema pode ser emocional.
O que me fascina é que o interesse deles é o diagnóstico. 
O tratamento é secundário, apesar deles também apresentarem certo fascínio pelos genéricos.
Mesmo "com colesterol" continuam comendo pastel de camarão com catupiry [não existe um pobre na face da terra que não seja fascinado por camarão] e, no final de semana, todo mundo enche a cara no churrasco ao som de "deixar a vida me levar, vida leva eu" debaixo de um calor de 48 graus.
Pressão: 12 por 8
Como são felizes. Babo de inveja.
ATENÇÃO:
Humor cáustico perde a graça quando precisa ser explicado. Falhei. Poucos se divertiram e muitos se ofenderam. A intenção não era essa.
 Visto no: O GLOBO
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