10 agosto 2014

O mundo agora é dos aplicativos.

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Eles chegaram para ficar. Com a democratização das novas tecnologias, sobretudo aquelas que estão acopladas aos celulares, ter um ou vários aplicativos instalados significa estar antenado com as mudanças do mundo tecnológico. Rapidez, praticidade e pouco espaço para instalação, são critérios preliminares que levam muitos usuários a experimentar essa novidade. Além disso, fatores como curiosidade e modismo também atraem pessoas para esse universo. Desde coisas triviais a outras de cunho pessoal, os APPs modificaram a relação das pessoas com o mundo a sua volta. Entretanto, o contato demasiado com esse tipo de tecnologia tem trazido diversos problemas para aqueles que não tem limites na rede. Sem uma dosagem, nesse sentido, cresce em várias partes do mundo locais especializados em tratar quem ultrapassa a linha da moderação e se entrega ao vício virtual.

Não é difícil de encontrar alguém conectado à internet com um celular. Em casa, no trabalho ou na rua, a naturalização desse ato tem se tornado comum que poucos são aqueles que conseguem enxergar um problema nisso. No entanto, a banalização dessa visão é o primeiro dos muitos problemas que surgiram com a popularização dos aplicativos nos celulares. Sem dar uma devida importância a esse assunto, indivíduos de faixas etárias diversas foram fisgados pelo mundo virtual e, paulatinamente, foram se desconectando do mundo real. Pessoas diversas que, muitas vezes, não interagem mais com amigos e familiares frente à frente, preferindo o contato cibernético, como se houvesse uma barreira que impossibilitasse a interação tradicional.

Dentre tantos, os jovens são, sem dúvida, os mais hipnotizados pelas novidades tecnológicas. Nascidos numa era onde as brincadeiras são substituídas pelo computador, muitos já trazem os sinais dessa problemática. Entre as características mais frequentes estão o isolamento, já que é quase impossível ficar sem um computador ou celular. Eles se tornam mais arredios e propensos a depressões quando algo possa ameaçar seu novo modelo de vida. Fora de casa, geralmente no colégio, muitos são desconcentrados, perdidos, o que dificulta p aprendizado e a formação intelectual. Para completar esse quadro, ainda tem as redes sociais que agora também estão em formas de aplicativos para prender mais ainda a juventude nesse universo. Sem esquecer, é claro, dos jogos virtuais, que agora estão mais convidativos do que nunca.

No entanto, mesmo os adolescentes sendo os principais alvos dessas novidades, isso não quer dizer que adultos estejam imunes a elas. Pelo contrário, basta uma pequena busca nos inúmeros aplicativos de paquera existentes para comprovar que muita gente bem grandinha também usufrui desses novos recursos. A prova é tanta que na última copa do mundo, que aconteceu aqui no Brasil, APPs de pegação, hétero ou gay, tiveram picos de acessos no período futebolístico. A intenção desses recursos se assemelha às redes sociais existentes, onde a exposição de perfis, muitas vezes falsos, e a busca por reconhecimento de outras pessoas seja concretizada. O que muda, um pouquinho, é o teor sexual que alguns aplicativos possuem. Neles, pessoas descartam e são descartadas num simples deslizar de dedo pela tela do celular. É como se o ser humano se tornasse um Menu e quem está do outro lada escolhe se quer ou não comer aquele prato.

Além disso, há os fadados perigos da exposição virtual. Semelhante às tradicionais redes sociais nesse sentido, muitos aplicativos expõem duplamente quem tem conta em suas páginas e quem acessa tais páginas. Segredos são revelados, pessoas que no cotidiano tem uma conduta X, na net exibem outra Y, sem contar aqueles que aproveitam para cometer crimes virtuais contra quem se deixa amostra de mais na rede. Para quem exerce esse tipo de conduta, basta uma breve pesquisada para comprovar outros males do uso excessivo dos meios tecnológicos. Entre tantos, a mecanização humana é a principal. De tanto estar conectados, muitos começam a fazer parte da máquina, ou, se tornam semelhantes a ela.

Evidentemente que tudo isso não coloca os aplicativos e suas funcionalidades na berlinda. Muitos deles são extremamente úteis na sociedade caótica atual. Desde mecanismo para escapar do trânsito, passando por dicas diversas, curiosidades, entre outros. Sem esquecer que tais mecanismos foram criados para facilitar a vida das pessoas, com uma linguagem fácil e de fácil manuseio. Diante de tudo isso, talvez o erro não esteja na tecnologia, nem tão pouco nas novidades que ela proporciona, mas na falta de educação em torno do seu uso. Sem uma consciência sobre como se deve utilizar os recentes meios tecnológicos, os indivíduos ao invés de dominarem passam a ser dominados pela própria criação, o que resulta numa sociedade doente em vários sentidos.

Após diagnosticado isso, em alguns casos, quando a compulsão alcançou o limite máximo, resta apenas a internação em espaços especializados no tratamento de quem sofre de compulsões virtuais. Mas, o que fazer quando esse problema não é identificado no tempo certo? Por ser uma problemática tão moderna quanto as inovações em torno dela, fica difícil precisar o momento exato do qual uma pessoa está “doente” virtualmente falando. Embora o empirismo da questão possibilite que certos diagnósticos sejam realizados, é necessária maior atenção para os sinais mais comuns como isolamento, depressão, temperamento arredio, necessidade extrema de adquirir novas tecnologias, horas e horas conectado na internet, entre outros. Tarefa que parece simples, mas não é, pois muitos apresentam um ou mais caraterísticas das citadas há pouco.

Enquanto nada é feito, novos aplicativos surgem e aprisionam as pessoas. Sua facilidade e praticidade são inquestionáveis, embora sua funcionalidade nem sempre seja necessária. Entretanto, não há motivo para alarmes. A sociedade pode reverter essa cultura conectada e tentar equilibrar o tempo na rede com o da vida real. Também não é sensato afirmar que tais mecanismos devem ser banidos do dia a dia, apenas porque muitos não aprenderam a utilizá-los corretamente. Feliz ou infelizmente, a tecnologia veio para ficar e junto dela os benefícios e malefícios, porém o que falta é maior discernimento das pessoas para utilizar as benesses da tecnológicas sem abusos. Ai é que reside o problema, pois numa era onde o consumo dita regras, parece que o mundo é dos aplicativos e ao homem restou se curvar diante disso, comprando o novo smartphone do momento, para não ser de vez excluído da terra. 
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Geração celular: de que maneira o uso intenso desse aparelho pode mudar a vida das pessoas?

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      A febre que vivemos hoje foi iniciada nos Estados unidos em 1956 com o lançamento do primeiro celular e em 1960 com a criação da internet. Em pleno século XXI, estamos no auge da tecnologia, a cada dia que se passa algo novo é lançado, superando outros até então de última geração. Apesar de essencial ao nosso cotidiano o celular está se tornando um objeto viciante, causador de uma dependência semelhante ao de uma droga, ou de doenças físicas ou psíquicas.

    Segundo informações divulgadas da consultoria Teleco e da Anatel, o número de celulares superam em 20% ao de habitantes. Nas principais cidades do país é visível encontrar as pessoas nas ruas falando ao celular ou trocando mensagens, estando sempre conectado com o mundo. A tecnologia “android” chegou e com ela veio inúmeros aplicativos, o que deixa o usuário ainda mais fixo ao aparelho.

      As atratividades de novos aplicativos, novos celulares e ainda maiores deixam o consumidor mais alienado para comprar. Nomofobia foi o nome dado pelos ingleses para aqueles que descrevem o medo de ficarem sem o celular, em alguns casos as pessoas são submetidas à internação e uso de medicamentos. Os jovens são os principais usuários, estando eles sempre conectados à internet, o que causa além da dependência, uma má interação social, substituindo o presencial pelo virtual.

    O vício no uso de celulares já é algo bastante sério e o uso inadequado ainda causa outros inúmeros problemas. Dores no pulso, dedos, cotovelos, ombros e pescoço são algumas das consequências atribuídas para aqueles que não têm o autocontrole, utilizando de maneira exagerada e incorreta. Numa matéria do jornal “The New York Times” a cada 5 norte americanos 3 procuram ajuda médica por causa das dores e a causa principal sempre está ligada ao uso exacerbado das tecnologias.

     Logo, percebemos o quanto a nossa população é fraca e se torna dependente e submissa a uma tecnologia. Seja para comunicação entre amigos ou uso profissional entendemos que é uma ferramenta de extrema importância, mas devemos usá-la de maneira adequada e em períodos curtos, não permitir que o vício nos domine. Apesar de todas as possibilidades que estas ferramentas nos apresentam, elas jamais serão tão eficientes como nós, e que a comunicação presencial seja mais evidente que a virtual.
Aluno: Vauder Duarte
Professor: Diogo Didier


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"Além do escândalo: o mundo do sexo sem camisinha" Por Bruno Machado

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Por *Bruno Machado para o Lado Bi

Um pouco de tudo que a grande imprensa não conta (ou prefere não contar) sobre a prática do bareback
 
“Teve uma vez que me masturbei pensando que estavam me passando HIV”. Até hoje, a frase ressoa em meus ouvidos. Me perturba. Ela me foi dita por Peter, um contabilista nos seus 35 anos, depois de uma hora de conversa hesitante e reticente. Era final de 2012. A entrevista, a primeira de uma série, realizada para o meu trabalho de conclusão de curso em jornalismo, defendido recentemente na Escola de Comunicações e Artes da USP.
 
Levar para a academia um tema considerado complexo e delicado como o bareback – o sexo sem camisinha entre homossexuais – não foi nada fácil. O primeiro candidato a orientador rejeitou meu trabalho com veemência. Sugerir o assunto para um grande veículo de comunicação, nem pensar. Ainda que a pauta seja capaz de mobilizar a opinião pública a respeito de temas como saúde, responsabilidade, ética e sexualidade, sobre o sexo desprotegido entre gays parece pairar um conveniente e sepulcral silêncio. Em dois anos de apuração, procurei mais de cem pessoas, entre médicos, psicólogos, sociólogos e outros especialistas, além de anônimos que pudessem, sem pudores, dar detalhes sobre seus hábitos na cama. Conto nos dedos aqueles que aceitaram falar sobre o assunto.
 
Ainda que muito relutante, Peter foi um deles. Dias antes da entrevista, ele se descobriu soropositivo. A notícia, no entanto, não foi recebida com pânico ou medo.
 
“Primeiro, tive uma sensação de anestesia e paralisia. As enfermeiras que fizeram meu exame  pareciam histéricas. ‘Você precisa saber quem te infectou! Você pode processá-lo, sabia disso?’, elas gritavam.  Me pareciam muito despreparadas. Depois, senti alívio. Sabia que não precisaria passar por mais nada daquilo. Havia acabado. Eu me sentia predestinado a contrair o HIV, e agora, estava de fato infectado”.
 
Num artigo recentemente publicado no New York Times, Tim Dean, professor da Universidade do Estado de Nova York, afirma que para algumas pessoas, o HIV não é repelido, mas celebrado. “Alguns homens estão usando o vírus para criar relações. Eles evitam a camisinha e procuram compartilhar a infecção para criar conexões”, escreve. De fato, para muitos, na virada dos anos 1980, com o pânico gerado pelo fulminante morticínio causado pela Aids, o sexo seguro acabou por se tornar uma espécie de ditadura moral e biológica, com agressivas campanhas pelo uso do preservativo e a manutenção da monogamia. Como espécie de reação, para muito além de uma rebeldia adolescente, alguns gays passaram a descartar o preservativo em seus encontros como forma de intensificar o prazer e a intimidade, ou mesmo pela pura e simples contravenção. Criava-se, assim, uma espécie de subcultura gay conhecida como bareback – termo originalmente usado no hipismo para designar o cavalgar sem sela e, posteriormente, relacionado ao sexo entre homens sem o uso do preservativo.
 
Não demorou para que a imprensa norte-americana descobrisse esses encontros e explorasse sua faceta mais sensacionalista: as chamadas festas de soroconversão, nas quais um dos participantes é soropositivo e sua identidade, mantida em segredo. Num jogo em que perigo, prazer, risco e morte trocam de posição no tabuleiro, o vírus – o gift, presente em português – é dado e recebido livremente. Tal como a Aids no início da década de 80, o bareback chegou ao Brasil importado como uma “moda de gay americano”. Entre 2006 e 2009, publicações como IstoÉ, Veja e Jornal do Brasil alardearam o fenômeno como uma ameaça à saúde pública, reflexo de uma política permissiva de combate à Aids e da criação de medicamentos cada vez mais eficazes contra o HIV.
 
Em dois anos de apuração, ainda que eu tenha ouvido falar de festas em saunas, sex clubs, e apartamentos, nenhuma delas era organizada para que seus participantes partilhassem o vírus deliberadamente, ou mesmo transassem sem camisinha. Esses eventos de fato existem, mas são tão fechados e tratados com tamanho sigilo que muitas vezes parecem lendas urbanas. De fato, a realidade da maioria dos homossexuais que opta por levar uma vida sexual sem preservativo é muito menos sensacional do que aquela pintada pelas manchetes dos jornais. Muitos deles usam redes sociais específicas (como o www.bareback.com e owww.barebackrt.com) para procurar parceiros com o mesmo status de HIV. Soropositivos dão preferência, normalmente, a parceiros indetectáveis – aqueles cuja carga viral no organismo é tão baixa que a chance de se contaminar é quase nula.
 
 
Luiz, um empresário com seus 50 e poucos anos que me recebeu na sua casa, é um exemplo. Há tempos deixou de frequentar surubas (“o sexo grupal é uma coisa masturbatória individual coletiva”), não usa preservativo, e hoje só transa com amigos, com quem tem uma relação para além da física. Todos são soropositivos. Inclusive ele, que contraiu o vírus aos 35 e, devido à agressividade do tratamento, perdeu toda a gordura do rosto, depois reconstruído com cirurgias plásticas.
 
“Eu e meus amigos nos resguardamos no controle. Isso faz a diferença para a experiência ser mais agradável. Não tem coisa pior do que acordar com dor de cabeça no dia seguinte. Você não quer isso para você, não vai querer para o outro”.
 
Em contrapartida, há aqueles que representam a face considerada mais irresponsável do sexo sem camisinha. O vendedor que prefere ser chamado de HIV Sem Limites é um deles. Além de já ter participado de uma festa na qual foi passivo com mais de vinte homens – “fui parar no hospital com o reto estourado”, conta com um sorriso no rosto –, ele afirma que, nas saunas ou cinemas pornográficos, costuma pegar camisinhas do chão para engolir seu conteúdo.
 
“Eu procurei o HIV. Fiz o teste em março [de 2013], deu positivo. A psicóloga veio dar uma palavra de conforto e eu me mostrei muito tranquilo. Ela ficou chocada. Quando recebi o exame, senti um alívio. Agora eu tinha certeza. A dúvida é que me mata. A pior coisa do mundo é a inocência”.
 
Durante a entrevista, em uma cafeteria na avenida Paulista, quando lhe perguntei qual era sua memória mais nítida das orgias, regadas a cerveja e cocaína, ele me respondeu que estava sempre tão atordoado que nunca se lembrava de nada, e por isso filmava e fotografava tudo. Então sacou o celular e me mostrou fotos e vídeos que, não fossem pelo seu rosto, perdido na confusão de corpos, paus e bundas, eu juraria serem retirados do XTube. Pedi para que ele guardasse o telefone temendo a reação das pessoas ao meu redor.
 
Quem transa sem camisinha normalmente usa o prazer como argumento. Há quem diga que o contato “pele com pele”, assim como sentir o corpo e o sêmen do parceiro, seja fundamental para gozar. Numa espécie de acordo tácito, que exclui qualquer tipo de culpa ou conflito moral, aceitar transar sem preservativo significa se submeter, por sua própria conta e risco, ao perigo de se contaminar com o HIV. Esse é o caso do mais jovem dos meus entrevistados, Santos, de 25 anos, que contraiu o vírus enquanto namorava.
 
“Não me arrependo e não sinto culpa. Eu não fui atrás disso, aconteceu. Foi uma fatalidade. Muitas mulheres casadas contraíram o HIV porque foram traídas. Não fico pensando: ‘ah, meu Deus, se eu estivesse usando camisinha…’. Poderia ter estourado. Eu poderia ir ao hospital doar sangue e me contaminar”.
 
No primeiro momento, conta, quando ele e o namorado se descobriram soropositivos, houve ataques e acusações mútuas. “Depois dessa fase a gente passou a se amar muito, a gente se uniu, um passou a precisar mais do outro”. Os dois permanecem juntos até hoje.
 
Segundo o advogado Dimitri Sales, especialista em populações LGBT e presidente do Instituto Latino-Americano de Direitos Humanos, casos como o de Santos podem ir parar no tribunal. Ainda que as leis brasileiras não tenham criminalizado o bareback, Sales afirma que os artigos 130, 131 e 132 do Código Penal brasileiro são utilizados para punir pessoas que transmitem o HIV, deliberadamente ou não. “É uma forma que o Estado encontrou para punir a liberdade ou o liberalismo sexual do soropositivo. Esses artigos se tornaram uma ferramenta de vigilância moral”, afirma. Ele aponta decisões do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo em que o consentimento entre as partes sequer foi questionado. E caso isso ocorresse, é improvável que se refletisse na decisão judicial. “O indivíduo contaminado é sempre uma vítima perante o Código Penal, e o fato de ter concordado em manter relações sexuais com alguém soropositivo poderia, pelo contrário, complicar ainda mais a situação jurídica de quem o contaminou”, explica.

Como uma espécie de esporte de risco, o sexo sem preservativo envolve, naturalmente, o medo. Porém, nesse tipo de situação, a dinâmica se inverte: a incerteza sobre o parceiro não paralisa ou assusta; faz a tensão e o tesão do momento se tornarem mais intensos. O psiquiatra do Hospital das Clínicas, Alexandre Saadeh, explica que as regiões cerebrais responsáveis pela excitação sexual e o perigo são muito próximas. “As duas precisam ser estimuladas para que ocorra o ato sexual. No momento em que o indivíduo se coloca em prontidão para o sexo, está implicada, portanto, uma certa impulsividade que dá a ele forças para vencer o medo em nome do gozo”. Ainda que o preço pela coragem depois se revele muito alto, é difícil haver qualquer arrependimento. Para quem pratica o sexo sem camisinha, cada momento deve ser aproveitado como o último. Viver é um grande comportamento de risco.

Conversar com pessoas que fazem do sexo sem preservativo um estilo de vida ou uma identidade significa colocar em xeque algumas verdades inabaláveis. Em face do HIV, a intimidade, o sexo e a própria vida parecem passar por uma delicada revisão. “Quando me disseram que eu era positivo e poderia morrer, foi a melhor notícia que tive na minha vida. O passado é perfeito, o futuro é agora. E esse futuro imaginado vai ser sempre incerto. Eu aprendi a viver o bem-estar de um dia de cada vez, e o que importa é o hoje, o agora”, afirma Luiz, que após se descobrir portador do vírus, criou uma rotina de esportes e hábitos saudáveis, se tornou menos consumista e mais criterioso na escolha de parceiros. “Aprendi que os bonitinhos podem ser os malvados da história”, reflete.
 
De fato, quase todos meus entrevistados afirmaram que o HIV teve um efeito transformador em suas vidas. Dentre todos os depoimentos, que narram mudanças drásticas na maneira de encarar o sexo e a rotina, o mais eloquente e contundente é o de Peter.
 
“Minha vida agora é outra. Antes eu tinha vontade de me matar. Eu não conseguia parar de beber. Procurei tratamento, tentei parar, mas não conseguia de jeito algum. Depois que me descobri soropositivo e sei que o álcool faz mal, especialmente para um organismo debilitado como o meu, eu parei. Não coloquei mais uma gota na boca. O HIV curou o meu alcoolismo”.
 
No caso de Peter, a busca pela infecção se revestiu de um caráter de vingança. “Ninguém ligava pra mim. Meus pais não queriam saber o que eu fazia da porta de casa para fora. Hoje se preocupam. Querem saber como eu estou de saúde.”
 
Para a maioria dos especialistas e autores que li, a mudança de percepção sobre o HIV e a própria soropositividade ocorreram também devido aos tratamentos, cada vez mais eficazes. Antes uma ameaça de morte, o vírus se tornou uma doença crônica, muito distante daquela caricatura do “aidético” – Cazuza careca, com rosto fundo e ossos salientes na capa da Veja. “Tinha muito medo antes, quando as pessoas morriam e o tratamento era agressivo”, conta HIV Sem Limites. “Quando surgiu o coquetel, eu fiquei mais tranquilo. Passei mais de dois anos sem ter o prazer de ser penetrado. Só fazia sexo oral. Aí, com o novo tratamento, desencanei”.
 
A mesma explicação pode ser usada para entender os números de 2010 do Ministério da Saúde que apontaram para crescentes contaminações pelo HIV, especialmente entre os gays mais jovens. As cada vez mais agressivas campanhas que associavam a doença e a morte ao sexo desprotegido e à promiscuidade  – que para a Organização Mundial da Saúde significa ter mais de dois parceiros num prazo menor a um ano, é sempre bom lembrar – precisaram ser repensadas para atingir seu público-alvo. Mas como falar com alguém que não mais teme a Aids? Com alguém que criou uma relação erótica com o HIV? Que chama o sêmen contaminado de “vitamina”?
 
Para gays, bareback, para heteros, sexo sem proteção
 
Essas perguntas trazem outras, talvez mais importantes, com as quais me confrontei durante minhas entrevistas. Por que o sexo sem preservativo entre gays causa tanta comoção a ponto de virar matéria de jornal? Por que entre heterossexuais não ocorre o mesmo? Por que se fala em bareback para se referir ao sexo sem preservativo, exclusivamente entre homossexuais, sendo que quase todas as pessoas, independente do gênero e da orientação sexual, já transaram sem camisinha?
 
Para responder a essas perguntas, senti a necessidade de fazer um retrospecto da epidemia do HIV no Brasil. Não foi nenhuma surpresa perceber que a Aids, para além de qualquer evidência biológica, foi recebida pela classe médica como doença de homossexual, “a peste gay”, como se dizia na época, ainda que desde o começo da epidemia, as mulheres fossem as mais afetadas depois de gays e usuários de drogas injetáveis. Mas isso a grande imprensa preferia esconder. Foi só no começo da década de 90, quando a proporção de soropositivos era de uma mulher para cada sete homens que os jornais e revistas passaram a afirmar que o HIV estava mudando de feições. Na verdade, desde que a pandemia eclodiu, primeiro no continente africano, não se sabe exatamente quando ou quantos mortos fez: o vírus nunca teve um único rosto. Se o teve, certamente foi uma face minimamente planejada e fabricada. Com um forte teor moralista, a expressão “grupo de risco” foi cunhada não para denunciar que uma parcela da sociedade sofria com uma doença fatal, mas para criar uma marca, um estigma que diferenciasse a escória dos demais indivíduos decentes e normais. A Aids foi uma espécie de novo triângulo rosa, não pregado à roupa do homossexual, mas impresso no seu sangue.
 
No rastro da doença, as medidas profiláticas se tornaram obsessivas. Começava a pregação religiosa, a teoria messiânica de que a Aids, como fogo, vertia dos céus e se abatia sobre os sodomitas. A profecia bíblica se concretizou em São Paulo, pelo menos duas vezes: em 1986, uma bomba explodiu num cinema pornográfico no centro. Os autores, fanáticos religiosos. Em 1999, uma outra, na sede da Anistia Internacional. O explosivo, recebido pelo correio, estava acompanhado de um bilhete coberto de símbolos nazistas. No texto, diversas ameaças àqueles que defendiam negros e gays. Começava assim uma verdadeira caça às bruxas que não se sabia até onde era justificada pela ciência, pela religião, ou mesmo pela ignorância do senso comum.
 
 
Para além de qualquer teoria conspiratória que afirme o HIV não existir, ou que tenha sido sintetizado por cientistas como arma biológica – acredite, essas teorias não são ficção científica –, é evidente que a epidemia é um problema social tão ou mais grave do que biológico. Ainda que o coquetel seja cada vez mais eficiente contra o vírus e que, na melhor das hipóteses, daqui algumas décadas, uma vacina finalmente chegue ao mercado, o estigma, este sim, uma doença incurável, continua fazendo suas vítimas.
 
Segundo o professor Esteban García, da Universidade de Buenos Aires, autor de um artigosobre a prática do bareback, o horror e o escândalo que a prática ainda suscitam apenas confirma o lugar que a homossexualidade ocupa na nossa sociedade: a da doença, do desvio e da imoralidade. De acordo com a obra do filósofo Michel Foucault, a figura do homossexual surgiu no começo do século XIX, exatamente quanto os saberes médicos se sofisticavam, e a psiquiatria dava seus primeiros passos. Naturalmente, o amor entre iguais foi considerado uma doença. Para deixar de ser apenas mental para se tornar física, foi necessário mais um século. A Aids só veio confirmar a homossexualidade como aberração da natureza.
 
De maneira incômoda, ou mesmo radical para alguns, o sexo sem camisinha, a subcultura do bareback vem mostrar que nem todos os indivíduos estão dispostos a acatar esse rótulo, tampouco adentrar na confortável zona da (hetero)normalidade, da monogamia, da união estável reconhecida em cartório. Sua luta, ainda que desprovida de qualquer militância política, é pela valorização do prazer acima de tudo, contra qualquer rótulo ou culpa. Para esses homens, como Peter, Santos, Luiz, ou HIV Sem Limites, o prazer total não tem preço. Se suas afirmações nos soam contundentes ou transgressoras é porque nelas vemos, sem qualquer censura, um reflexo dos nossos mais perturbadores e recônditos desejos.
 
(nomes fictícios; os pseudônimos foram escolhidos pelos próprios personagens)
Este texto é uma versão livre do trabalho de conclusão de curso intitulado “Na pele: prazeres sem preservativo – um ensaio sobre a prática do bareback” apresentado à Escola de Comunicações e Artes em dezembro de 2013 pelo jornalista Bruno Machado. A versão completa pode ser lida em: http://bit.ly/19i7iFe
 
*BRUNO MACHADO, 25 anos, é jornalista formado pela ECA-USP. Já escreveu sobre música, internet, e sobretudo, cinema e teatro. Já publicou textos no Diário de São Paulo, na Veja São Paulo e na revista Brasileiros, entre outros veículos. Como muita gente nas redes sociais pedia que ele publicasse o resultado de seu trabalho em algum veículo, e como tanto nós quanto ele sabíamos da improbabilidade de algum veículo aceitar esse tipo de texto, oferecemos o espaço do nosso blog, até para que Bruno resumisse a história de forma menos acadêmica e mais, digamos, new journalism. Para se informar mais sobre esse assunto, ouça o Lado Bi nº 34 – Camisinha o Lado Bi nº 8 – HIV.
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Copa do Mundo no Brasil: O ápice da alienação nacional

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Paixão que cega

Nosso primeiro contato com o futebol é datado em 1894 através de Charles W. Miler, considerado o pai do futebol. A prática do esporte caiu no gosto popular e anos depois o Brasil passou a ser considerado o país do futebol. É evidente a inclusão social que esse esporte exerce, no entanto, sua idolatração e valorização exacerbada tornou-se o maior exemplo de alienação nacional.

Em junho, o Brasil será palco da Copa do Mundo 2014 e os gastos com cidades planejadas, construções e reformas de estádios apresentam cifras bilionárias. Tal constatação é contraditória: há dinheiro para investir em eventos futebolísticos, porém, as autoridades alegam falta de recursos para a educação, saúde e segurança. O futebol é tido como primordial enquanto a população segue em segundo plano, como declarou o ex-jogador e membro do Comitê Organizador Local (COL) Ronaldo: “(...) não se faz Copa com hospitais e escolas”.

Nossa cultura incorporou o futebol como identidade nacional, menosprezando e desmotivando a prática de qualquer outro esporte. Jogadores como no caso de Neymar são idolatrados, têm seus comportamentos e visuais copiados e a mídia, por sua vez, usa-o para incentivar o consumismo.

Nesse contexto, chegamos ao ápice da alienação nacional, fica evidente que a paixão pelo esporte é usada como agente mascarativo para os males da população. É necessário que as pessoas se conscientizem do quanto o país está perdendo economicamente e culturalmente. Futebol é entretenimento, distração, 90 minutos de bola rolando no gramado não colocará fim em nossos dilemas sociais, culturais e políticos.



Aluna: Rafaela de Souza
Professor: Diogo Didier
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A boa música é dois eles, dois elas

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Dois Eles, Dois Elas

Como um céu de inverno abandona suas noites claras.
Como um trovão soa quando morre.
Como uma fonte clara que se abre para o mar e depois se funde com ele.
Como um pedaço de carne nos faz homens.
Assim que dois "eles" se tocam
Todos nossos sentidos se lembram
Que um beijo faz
Dois seres
Duas almas, ligadas até ao eterno...
Assim que dois "elas" se tocam
Tudo em nós se acorda...
Inclusive a evidência de que o amor
Fez dessa vez toda a diferença...
Como inseparáveis são as raízes de uma imensa árvore
Quando os ventos e as tempestades as atormentam e elas resistem.
A caravana passa apesar dos latidos dos cães de guerra
Entregando os segredos e retirando o ódio do lugar...
Assim que dois "eles" se tocam
Todos nossos sentidos se lembram
Que um beijo faz
Dois seres
Duas almas, ligadas até ao eterno...
Assim que dois "elas" se tocam
Tudo em nós se acorda...
Inclusive a evidência de que o amor fez
dessa vez toda a diferença...
Assim que dois "elas" se tocam
Tudo em nós se acorda...
Inclusive a evidência de que o amor fez
Dessa vez toda a diferença...
Almas gêmeas são imortais
Bem além "deles" ou "delas"
 
Deux Ils, Deux Elles

Comme un ciel d'hiver a ses nuits claires s'abandonne
Comme un grand tonnerre meurt dès qu'il résonne…
Comme une source claire s'ouvre à la mer et puis fusionne
Comme un bout de chair fait de nous des hommes….
Lorsque deux " ils" se touchent
Tous nos sens se souviennent
Qu'un baiser fait
De deux êtres
Deux âmes liées presque éternelles...
Lorsque deux "elles" se touchent
Tout en en nous se réveille…
À l évidence que l amour
Fait cette fois toute la différence…
Comme inséparables sont racines et immenses arbres
Quand vents et tempêtes persiflent et s'entêtent
Caravane passe , aboient les chiens de guerre lasse
Livrer les secrets, et la haine se déplace…
Lorsque deux " ils" se touchent
Tous nos sens se souviennent
Qu un baiser fait
De deux êtres
Deux âmes liées presque éternelles...
Lorsque deux "elles" se touchent
Tout en en nous se réveille…
À l évidence que l amour
Fait cette fois toute la différence…
Lorsque deux "elles" se touchent
Tout en en nous se réveille…
À l évidence que l amour
Fait cette fois toute la différence…
Ames jumelles sont immortelles
Bien au- delà d'ils ou eles.

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O uso da Maconha para fins medicinais

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Desde á Antiguidade, o uso de ervas alucinógenas era feito como ferramenta para alcançar a transcendência espiritual. Atualmente, o uso de ervas como a maconha além de ser utilizado como válvula de escapismo por muitos, apresenta benefícios medicinais já comprovados cientificamente. Porém, ainda não são acessíveis à população, porque a erva é considerada ilegal.
Segundo o Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas, o Brasil é um dos líderes em pesquisas sobre o uso terapêutico da maconha. Em países onde o uso para fins medicinais é legalizado, médicos recomendam o uso para aliviar os sintomas de diversos distúrbios e doenças crônicas. No Brasil, em 2014, alguns casos de convulsões agudas foram tratados com o uso do canabidiol, substância proveniente da maconha que atua diretamente no sistema nervoso central reduzindo radicalmente o número de espasmos, o que mobilizou inúmeras famílias em redes sociais em prol da legalização do composto e sua comercialização.
No país onde bebidas alcoólicas e tabaco são comercializados livremente e tidos como lícitos, o canabidiol que poderia estar salvando vidas e reduzindo sofrimentos físicos é vetado. Segundo o IBGE aproximadamente 31,6% da população brasileira sofre com algum tipo de doença crônica como, por exemplo, o câncer, a AIDS e a esclerose múltipla. Os que têm acesso à substância precisam dispor de uma condição financeira alta, visto que o medicamento é importado dos Estados Unidos, ficando assim boa parte da população sem acesso ao benefício.
Portanto, é necessário que o uso seja permitido e que também haja gerenciamento nos recursos destinados às pesquisas científicas. É preciso conceber a maconha além do uso alucinógeno, mas também como um meio de melhoria para a qualidade na saúde da população brasileira.


Aluna: Débora Raiane                    
Professor: Diogo Didier
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Vagão rosa, para não ser encoxada - por Eliane Brum

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Alô, mulheres. Se pegarem trem ou metrô em São Paulo, prestem atenção às orientações do sistema de som: “Se você estiver com vontade de ser violentada, ou ao menos receber uns apertões na bunda e nos peitos, siga para o vagão comum. Se estiver cansada, introspectiva, teve um dia difícil, está com TPM, vá para o rosa e viaje tranquila”. Uma excelente semana a todas.
Poderia ser uma piada ou um filme de horror futurista. Mas é sério e não é ficção distópica. Na prática, essa é a mensagem do projeto de lei aprovado em 4 de julho pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. De autoria do deputado Jorge Caruso (PMDB), ele cria um vagão exclusivo para mulheres no metrô e nos trens. Algo similar já existe no Rio de Janeiro. A lei poderá ser vetada ou sancionada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), candidato à reeleição, nos próximos dias. Na sexta-feira (18), feministas reuniram-se no centro da capital paulista para um ato em protesto contra a criação do “vagão rosa”.
Não é muito, mas muito estranho mesmo?
Estamos em 2014, há uma mulher na presidência do Brasil. Mas acredita-se necessário criar um vagão só para mulheres nos trens de transporte público da cidade mais cosmopolita do país. Por quê? Porque, se ficarem misturadas aos homens, as mulheres serão encoxadas, apalpadas, abusadas e até estupradas. E é verdade, tudo isso acontece. Tanto que um grupo feminista fez recentemente uma campanha distribuindo alfinetes para as moças enfiarem nos abusadores do metrô.
É bizarro. Diante de uma mulher, num espaço apertado, atulhado de gente, alguns homens sentem-se autorizados a abusar dela. Isso diz de cada indivíduo e, claro, diz também dessa sociedade. Seria importante escutar esses homens para entender qual é a questão de cada um com seu próprio pênis. Talvez vivam um sentimento de impotência avassaladora, para muito além da ereção que conseguem ou não ter. Mas é só uma hipótese para tantas que só podem ser compreendidas na história de cada um.
Mais bizarro do que o ato individual, porém, é o ato público. Mais perigosa é a “solução” que o poder público, nesse caso o parlamento paulista, deu para a violência. Comete-se violência sexual contra as mulheres nos trens, segrega-se as vítimas. Seguindo essa lógica, em breve poderia se propor que, nas ruas e espaços coletivos, as mulheres passassem a usar burca. Assim, os homens não seriam “tentados” a cometer crimes sexuais.
Se o “vagão rosa” (o apelido já é duro de aguentar!) vingar, é um retrocesso muito maior do que pode parecer a um primeiro olhar distraído. É alarmante que os protestos não sejam mais numerosos e barulhentos, dada a seriedade do que está em jogo. Em nome das supostas boas intenções de “proteger as mulheres”, o que se faz, de fato, é reforçar duas ideias do senso comum, interligadas, que persistem há séculos e estão na base da violência sexual.
A primeira delas é que a culpada é a vítima. Seja porque usou “roupas sensuais”, seja porque “se expôs” a uma situação potencialmente perigosa. Nesse caso, apenas por existir. Por ser mulher, precisa ser colocada num “vagão especial”. Sua condição, em si, despertaria sentimentos incontroláveis em alguns homens. Então, nada de ficar perto desses espécimes ou eles não poderão resistir e cometerão a violência. Como se esses homens não fossem responsáveis pelos seus atos, como se fossem incapazes de se controlar, como se fossem animais, eliminando a cultura da equação e deixando restar uma ideia tacanha de natureza.
No conceito do “vagão rosa” as mulheres são colocadas na posição de objetos de desejo ou objetos de posse. E os homens são vistos como vítimas do próprio desejo, sem a necessidade de se responsabilizar por ele. Acho curioso que homens não façam protestos contra o “vagão rosa”: a ideia nele embutida sobre o que é ser um homem é ofensiva ao extremo.
Se o “vagão rosa” virar lei, o próximo passo será: se uma mulher não quis ocupar o vagão especial e foi sexualmente abusada no comum, conclui-se o de sempre: “Ela pediu. Se não quisesse ser encoxada, apalpada, estuprada teria entrado no vagão dela”.
A outra ideia fincada no imaginário de homens (e também de mulheres) é mais interessante. As mulheres é que são a ameaça. (E não aqueles que abusam de seus corpos e de suas almas.) Confina-se, cobre-se, esconde-se aquilo que nos envergonha e aquilo que nos coloca em perigo. Quando se propõe – e se aprova – um vagão especial para as mulheres, o que se está fazendo, de fato, é isolar o elemento desestabilizador. Colocar em ambiente controlado quem teria o poder de revelar, expor algo que deve continuar oculto. O segredo, nesse caso, está naquele que esconde – e não naquela que é escondida.
O “vagão rosa” é mais uma tentativa de sujeitar os corpos femininos, ao determinar que só podem ser “transportados” em sistema de segregação. Uma prova de que, ainda hoje, a imagem social das mulheres difere pouco da visão medieval em que eram compreendidas como “más e impuras”. Não custa lembrar do recente linchamento de uma mulher como “bruxa”, no mesmo estado de São Paulo. (Escrevi sobre isso aqui).
O que há de tão ameaçador nas mulheres?
A buceta, ainda ela. O desembargador Francisco Batista de Abreu, da 16ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais ajuda a explicar. Em acórdão publicado no final de junho, ele expõe uma linha de raciocínio fascinante ao justificar por que o valor de 100 mil reais de indenização, determinado pela justiça de primeira instância, deveria ser reduzido para 5 mil reais, como de fato aconteceu no julgamento em segundo grau. O caso refere-se ao que tem sido chamado de “vingança pornô”.
Um homem e uma mulher namoraram, em cidades diferentes, por cerca de um ano. Depois do término da relação, ainda conversavam e trocavam imagens íntimas pela internet. Na descrição do desembargador, as dela eram “ginecológicas”. O ex-namorado, seguindo o roteiro bocejante dos imbecis, quebrou a confiança estabelecida entre eles e tornou público o que era privado. As imagens, que eram consensuais, foram expostas de forma não consensual. Um ato sujeito à punição legal, portanto.
O desembargador Abreu concluiu, porém, que esta seria uma oportunidade para fazer um julgamento moral da vítima, expondo a profundidade do seu entendimento sobre como uma mulher deve lidar com sua vagina e com seu corpo. Depois da divulgação do caso, o processo foi colocado em “segredo de justiça”, limitando o acesso aos autos. Mas o segredo de quem, àquela altura, deveria ser protegido? Da mulher, do homem ou do desembargador?
A seguir, alguns trechos do voto do desembargador Francisco Batista de Abreu publicados na imprensa:
“Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal. Dela não cuida. Irrelevantes para avaliação moral as ofertas modernas, virtuais, de exibição do corpo nu. A exposição do nu em frente a uma webcam é o mesmo que estar em público.”
“As fotos em momento algum foram sensuais. As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam. Fotos sensuais são aquelas que provocam a imaginação de como são as formas femininas. Em avaliação menos amarga, mais branda podem ser eróticas. São poses que não se tiram fotos. (...) São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro. Não para um ex-namorado por um curto período de um ano. Não para ex-namorado de um namoro de ano. Não foram fotos tiradas em momento íntimo de um casal ainda que namorados. E não vale afirmar quebra de confiança. O namoro foi curto e a distância. Passageiro. Nada sério.”
É possível desenvolver uma tese de doutorado na área de psicanálise e direito a partir do voto do desembargador mineiro. Mas, atendo-se a apenas um ponto de seu raciocínio, percebe-se o que é assustador para o magistrado: “As fotos em posições ginecológicas que exibem a mais absoluta intimidade da mulher não são sensuais. Fotos sensuais são exibíveis, não agridem e não assustam (...) São poses para um quarto fechado, no escuro, ainda que para um namorado, mas verdadeiro”.
Para o desembargador, a vagina não é sensual. O que é sensual, segundo ele, não agride nem assusta. É coerente depreender dessa afirmação que a imagem da vagina não só agride o magistrado, como também o assusta. Assim, só pode ser exibida “no escuro”, de forma que não possa ser vista. E para um namorado “verdadeiro”.
Quando o voto se tornou público, lamentou-se em alguns espaços da internet a escuridão em que vive o desembargador Abreu. E até a suposta indigência de sua vida sexual. Mas não se trata de julgá-lo. Como indivíduo, seu Abreu pode até ter medo da vagina. Pode achá-la feia e assustadora. Pode preferir só vê-la no escuro ou não vê-la nunca. É possível ter compaixão por seu Abreu, mas ninguém tem o direito de julgar como seu Abreu se relaciona com a sexualidade do outro e com a sua própria. Isso diz respeito só a ele.
O problema é com o desembargador Abreu, servidor público, investido da Lei. Com a sua pretensão de determinar, como verdade única e universal, registrada nos autos, o que é sensual, o que é erótico, o que é amor “verdadeiro” e quando, como e onde uma vagina pode ser exibida. Assim como determinar que uma mulher que mostra a sua vagina não tem autoestima. O problema é que, ao assim manifestar-se, o desembargador Abreu está representando a Justiça. Seu ato tem efeito direto sobre a vida da vítima – e também sobre as vidas na sociedade brasileira.
A tal “vingança pornô”, em que imagens feitas em âmbito privado são divulgadas contra a vontade de quem é retratado, num ato de quebra de confiança, já levou ao suicídio adolescentes brasileiras que não suportaram o julgamento moral da família, amigos e sociedade. Ao manifestar-se nesses termos, o desembargador está reeditando, para um fenômeno contemporâneo, ligado às novas tecnologias, o velho “ela pediu”. E isso é inadmissível.
O relator do caso, desembargador José Marcos Rodrigues Vieira, defendeu reduzir o valor da indenização dos 100 mil reais determinados em primeira instância para 75 mil reais. Afirmou em seu voto: “Isentar o réu de responsabilidades pelo ato da autora significaria, neste contexto, punir a vítima”. Seu colega, o desembargador Abreu, porém, preferiu julgar a “moral” da vítima, acompanhado pelo terceiro desembargador, Otávio de Abreu Portes. Ao final, determinou-se que 5 mil reais seria um valor suficiente. É possível concluir que, simbolicamente, essa já não é mais uma indenização, mas um pagamento.
O “doutor” enxergaria a vítima como uma “puta”. No sentido de que a prostituta, na sociedade brasileira – e esta é outra enorme violência – é vista como aquela que não tem direito nem ao próprio corpo, nem à Lei. Isso ficou de novo muito claro em junho, quando o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo inocentou um fazendeiro preso em flagrante ao estuprar uma menina de 13 anos. A justificativa: ela seria prostituta, o que teria levado o criminoso a errar sobre a sua idade. Em resumo: com prostituta se pode tudo. O que as coloca fora do corpo e fora da Lei, de várias e complexas maneiras, com consequências sempre aterradoras.
Como afirmam organizações de prostitutas, infelizmente muito pouco escutadas, não existe prostituição envolvendo menores de idade. Com crianças e adolescentes só existe estupro e abuso sexual. Mas esse não foi o entendimento dos desembargadores paulistas. Assim como, ao reduzir em 95 mil reais a indenização devida à mulher que teve imagens do seu corpo divulgadas contra a sua vontade, o que o tribunal mineiro fez foi: não mais determinar ao réu uma indenização pelo dano causado, mas dar um valor à mulher.
É o que se compreende da justificativa contida no voto, em especial nesse ponto: “Mas, de qualquer forma, e apesar de tudo isso, essas fotos talvez não fossem para divulgação. A imagem da autora na sua forma grosseira demonstra não ter ela amor-próprio e autoestima”. À vítima, que foi quem passou a ser julgada e enquadrada como alguém que não se dá valor, é concedido um valor aviltantemente mais baixo do que aquele determinado em primeira instância como indenização pelo ato do réu.
Mas qual é o valor de uma mulher? Como diz Renata Corrêa, em um texto bonito no Biscate Social Club:
“Por essa e por outras que para uma vida livre todas as mocinhas, garotas, meninas, mulheres, cidadãs do mundo não deveriam valer nada. Eu particularmente não valho um centavinho furado. Ninguém pode me medir, me pesar, me trocar ou me comprar: não tenho preço, código de barras, cifrão ou vírgula. Quem tem o direito de dar preço para minha alma? E pro meu corpinho? Nobody, baby. Não valho nada. Não me atribuo valor algum. Não tô a venda: tô vivendo sem conta, sem mercantilismo amoroso, fraterno ou sexual. E também não tô comprando. Mas isso é outra história”.
De volta ao “vagão rosa”, que leva as mulheres a uma viagem sem movimento algum, na qual estão estacionadas no mesmo lugar, para que não exista deslocamento nem nada se altere. O “vagão rosa”, destinado ao transporte das mulheres para que não sejam encoxadas, bolinadas ou até estupradas, é o mesmo lugar simbólico destinado à vagina em visões como a do desembargador mineiro. O corpo feminino, a vagina como sua máxima potência, deve ser oculto. Se for exposto, está subentendido que as mulheres assumirão o risco – e a responsabilidade – de serem violadas, de terem seus corpos (e suas almas) destruídos.
Resta se perguntar que vagão é esse, o que exatamente ele transporta de um lado a outro e qual é o seu destino.
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