30 janeiro 2012

Nos tempos gloriosos da Grécia antiga, época de batalhas ferozes e grandes lutas pelo poder, o homem, entre tantas filosofias, buscava eternalizar os seus feitos através do próprio nome. Nesse período, as vitórias estavam respaldadas no legado, no que cada um deixaria para posteridade. Por isso que até hoje muitas ideias, pensamentos e comportamentos desse povo são copiados, difundidos e vistos como modelo de inteligência, honradez e sabedoria. Esta gama de qualidades que, na atualidade, infelizmente tem se perdido. O homem de hoje, individualista e vitima do dragão do consumismo, não desfruta dessa mesma ideologia. Presos aos padrões ditados pela sociedade moderna, ele pouco tem se preocupado com o futuro das próximas gerações, destruindo paulatinamente sua própria espécie, seu habitat, e lamentavelmente o seu caráter.

A sociedade atual está semeando um futuro sem consciência ambiental, do qual a natureza não é vista como protagonista. O meu ambiente é a maior prova desse desrespeito à vida, no sentido amplo da palavra. Mesmo com as declarações feitas por especialistas da área, a humanidade não se conscientizou de que o equilíbrio entre homem e natureza é essencial para a manutenção da vida na terra. Enquanto essa conscientização não é despertada, a poluição cresce a cada dia, as florestas continuam sendo devastadas, a lista dos animais em extinção, ou perto dela, cresce no mesmo ritmo e a mãe natureza, impiedosamente devolve todo esse descaso em forma de chuvas, vendavais, tsunamis, enchentes, calor ou frio excessivo. O discurso de sustentabilidade, sozinho, não vai resolver essa problemática, se antes disso a humanidade não encarar, com maturidade, a culpa pelos danos causados e tentar solucioná-los enquanto ainda há tempo.

A educação também passa por esse processo destrutivo. A sociedade vai deixar por muitas gerações pessoas alienadas, que leem pouco e por isso pensam na mesma medida, e quando pensam. Muitos jovens vão se tornar adultos semialfabetizados, incapazes de raciocinar criticamente sobre a realidade circundante, consequentemente sem a mínima chance de mudar o quadro de desigualdade que fomenta tantos problemas sociais, dentre eles a violência, sua parceira inseparável. Em muitos países, como o Brasil, esse quadro toma dimensões catastróficas. Muitas melhorias foram evidentemente realizadas, como ampliação de escolas, contratação de novos profissionais e muitas crianças, que antes não tinham acesso ao processo educacional, podem contar hoje com a difusão das instituições e de projetos nesse sentido, mesmo em partes bem longínquas do país. No entanto, falta qualidade nesse ensino. Os professores não são bem remunerados, os alunos, por sua vez, não recebem um ensino que privilegie a autonomia e a reflexão do mundo. Na verdade, não se educa para ser, se educa para ter, ter dinheiro, casa, carro, um corpo sarado, já que a escola se tornou difusora das exigências sociais.

O homem de hoje deixará para a posteridade uma sociedade de velhos. Sinônimo de experiência e sabedoria, os idosos se proliferam em todo o mundo, principalmente em países “desenvolvidos” como o Brasil, onde a qualidade de vida deles tem melhorado consideravelmente. “Vive-se mais e melhor”, é a frase dita por muitos especialistas ultimamente. No entanto, mesmo com ampla perspectiva de vida, muitos idosos não são respeitados como deveriam. Eles enfrentam o estigma da beleza, dos corpos sarados e da velhice cirúrgica, a qual retarda marcas e cria verdadeiros fantoches, “Peters Pans” nessa terra do nunca. Também sofrem com o rótulo da incompetência, da inutilidade, como se fossem máquinas que devem ser descartadas quando ficam envelhecidas. Quando são pobres ainda é pior, pois além de tudo isso eles tentam enfrentar a vida recebendo a esmola do governo, em forma de aposentadoria.

Também deixaremos como legado relações destruídas. Pais que não dialogam com filhos sobre amores, drogas, sexo, orientando-os para uma vida saudável e de respeito. Casais com casamentos não duráveis, ora por imaturidade de alguma das partes, ora pela violência, pelo desrespeito e pela falta de cumplicidade. Muita permissividade e pouco controle de pais sobre filhos, já que impor limites na modernidade é sinônimo de caretice. Resultado disso são jovens rebeldes, infantis, mimados, despreparados para sobreviverem sozinhos nesse mundo tão individual como nosso. Nesse ciclo, vão sendo criadas pessoas que não vão respeitar as diferenças e que possivelmente vão alimentar a fome voraz da violência, a qual nem sempre nasce em berços miseráveis economicamente, mas sim na barriga da ignorância, da falta de rédeas, e da ausência de autoridade, estas ferramentas fundamentais para a formação do caráter humano.

Ficará para as futuras gerações uma sociedade de vícios. Hoje nós bebemos compulsivamente e, às vezes, saímos em alta velocidade, num misto de suicídio e assassinato. Como se não bastasse, usamos drogas cada vez mais potentes, na tentativa de fugir da realidade da qual nós mesmos criamos. O homem atual trabalha mais e dorme menos, já que “tempo é dinheiro”, ele não pode perdê-lo com aquela cesta da tarde, tão saudável para o funcionamento do corpo e da mente. Ele também não contempla as belezas que estão a sua volta, o ar, o sol, a lua, o céu, a dádiva de estar vivo, de ver a família unida e com saúde. Essas singelezas são imperceptíveis para ele, uma vez que o imediatismo, a pressa, o consumo, o ter são as palavras que impulsionam a sua rotina, tirando dele a mínima possibilidade, e sensibilidade, de parar e contemplar o mundo e as pessoas ao redor.

A geração do amanhã estará em contato com um mundo cada vez mais tecnológico. De fato, o advento da internet trouxe mudanças definitivas na vida de todos, sejam elas positivas ou negativas. Proporcionando o prolongamento do pensar, em muitos casos, o mundo virtual é usado erroneamente por pessoas que preferem encontrar modelos prontos para tudo, estagnando a própria criatividade e a capacidade de elaboração. Não mais é preciso parar para pensar, mas sim parar para teclar. Com apenas alguns cliques o mundo todo está ao alcance de todos e muitas vezes esse domínio, em mãos erradas, pode trazer prejuízos incontáveis e infindáveis. Mais “Ipads”, “Ipods” e “Tablets”, alimentando a fome do consumismo, e menos controle na navegação, sobretudo com os jovens, grupo este vulnerável aos ataques de pessoas maledicentes e oportunistas. Assim, crescem as manifestações de intolerância, a dependência às redes sociais e o mundo virtual torna-se uma rota de fuga para o individuo contemporâneo, onde seus anseios, desejos e frustrações podem ser resolvidos com a ilimitada capacidade de navegação desse veículo.

Esse é o legado do homem atual para as futuras gerações. Uma sociedade consumista, individualista, com relações fugidias, paixões efêmeras, frivolidades, apelo ao supérfluo e desrespeito ao semelhante. Pessoas que nascem vazias e vão sendo esvaziadas pela falta de autoconhecimento, pela ignorância e pela carência de oportunidades. Numa passagem tão rápida pela terra, o homem moderno se preocupa mais com a construção de grandes prédios, pontes e cidades megalomaníacas, do que com a elaboração de projetos que dizimem a fome do planeta, a violência contra as minorias, à desigualdade da qual cria diferenças subumanas e em manter a salvo a natureza, termômetro vivo da existência humana.

Ao invés de criar armas destrutivas, incitar guerras, propagar a intolerância, alimentar preconceitos vãos e insistir em discriminar os nossos semelhantes, devemos nos preocupar com a construção de um mundo mais acolhedor e pacífico, onde todos terão os mesmos direitos e deveres. Portanto, querer a paz total é algo infelizmente inalcançável, mas desejar um mundo com menos sofrimento, desigualdades e desrespeito deve ser o legado de todos. As mesmas mãos que são capazes de destruir, ferir, julgar e matar, também são hábeis em reconstruir, para melhor, todo esse mar de sangue do qual mergulhamos o nosso caráter com falsas ideologias e comportamentos animalescos. Transformar o presente, com pequenos gestos, mas repletos de grandes atitudes e sentimentos, é legar para as futuras gerações uma filosofia menos egoísta e mais centrada na união.



Lya Luft

Eu já estava de malas prontas: ia pra Pasárgada — para quem não recorda, ou nunca soube ,é o reino feliz inventado por Manuel, o Bandeira, onde ele iria dormir com a mulher escolhida, na cama do rei.
Bandeira, o nosso, foi um poeta maravilhoso. (Gosto dessa palavra embora ande tão banalizada. Se a gente olhar ou escutar direito, ela ainda diz alguma coisa —e é boa, e forte.)
Lá não tem noticia ruim, desgraça, acidentes, politicagem nem deslealdade. Lá crianças não comem lixo. Lá não existe homofobia, nem declarada nem sutil, lá não se precisa ser competente nem brilhante, ou atleta sexual, ter os melhores cartões de credito, o carro mais potente, o apartamento em Londres ou Paris.

Lá também não há instituições, e se houvesse, funcionariam.
Lá basta ser gente.
Para lá eu quis escapar deste reino das frases infelizes e atitudes grotescas, dos reis feios e nus, das explicações cabotinas, da falta de providências e de autoridade, da euforia apoteótica de um lado, e da realidade tão diferente de outro. Do que nos ronda insuspeitado ou faz caretas na nossa janela, e a gente não acredita, nem se mexe, se ficarmos quietos o fantasma desaparece e o diabinho recolhe o rabão.

Eu ia embora porque enjoei da repetição obsessiva de fatos que provocam insônia no noticioso da noite e náusea no café da manhã. Ia partir sem endereço, sem telefone, sem e-mail. Levaria comigo pássaros, crianças, e esta paisagem diante da minha janela (com nevoeiro, porque aí é de uma beleza pungente).
Levaria família, amigos, livros, música e o homem amado.
Na minha nova e mágica terra eu tentaria não escrever mais sobre o que por estas bandas tem me angustiado ou ameaça transformar-se num tédio: sempre os mesmos assuntos? Só mencionaria o que faz a vida valer a pena: as coisas humanas, bons relacionamentos, escolhas positivas, alegria, vida e morte, e o mistério de tudo.

Talvez escrevesse sobre a dor (mas uma dor decente).
Sobre grandes ou pequenas vitórias, como quem deixou de beber ou de se drogar, quem teve coragem de ter um filho, quem sentiu a glória de se apaixonar com mais de sessenta anos, quem conseguiu abraçar um pai, um filho, a mãe que estava afastada.
Nem problema de transporte eu teria: para Pasárgada se viaja com o pensamento. Ainda bem, pois de avião estava sendo loucura e risco —- ainda outro dia vi num aeroporto um simples pai de família com uma criança nos braços e outra dormindo no banco a seu lado, que, estava lá há quase 24 horas, e, entrevistado sobre aquele desconforto, respondeu: “A casa já caiu, temos de nos conformar “.

Pois eu acho que nem precisamos nos mudar de estado ou país, nem devemos nos conformar. Resignar se é ajudar a implantar o caos e a negligencia generalizada; a passividade é uma dessas alegrias falsas, que a gente devia questionar. Roubaram meu carro, não minha vida; mataram meu amigo, não a família toda: por trás desses comentários, que não inventei, espreita uma resignação maligna, que colabora com o mal que nos fazem.
É para rir ou para chorar? Ora rimos, ora choramos, esse é o novo jeito de ser.
Não em Pasárgada.

Para onde eu também levaria as minhas velhas crenças de que não somos totalmente omissos ou sem caráter, portanto este mundo tem jeito—embora às vezes eu não tenha muita fé nisso.
Uma dessas crenças é que a gente pode, sim, ser feliz. A gente pode até se vingar de toda a chatice, a grossura, a crueldade e angustia, - sendo feliz.
Lembro a história da filha adolescente de um amigo, que, rejeitada pelo namorado, passou uns dias em profunda tristeza, mas de repente apareceu na sala, perfumada, olhos brilhantes, pronta para sair. O pai interroga: Ué, filha, voltou com seu namorado? Resposta de inesquecível sabedoria: Não, pai, eu vou me vingar sendo feliz.
“Feliz?” dirão os céticos, os cínicos ou os simplesmente realistas. Pessoas mais graves e sensatas do que eu.

Quero explicar: é às vezes só um relance, uma sensação de estar em razoável harmonia consigo, os outros, o mundo. Pode ser aquela música escutada sem saber de onde veio, a chuva que cai depois do trovão. Pode ser o trovão. Pode ser a pele incrivelmente doce de uma criança, uma voz amada nos chamando, o filho que nos telefona sem maior motivo do que saber como a gente vai, alguém conhecido na rua que nos abre um sorriso.
Poder dar o pão e o leite para os meninos, botar flores na mesa, trazer um perfume novo para a mulher, preparar um prato especial para o marido.
Curtir a natureza e saborear a arte, atender aos necessitados, preparar crianças e jovens para a vida, cultivar gentileza e carinho na família, olhar para dentro de si mesmo e escutar seus desejos e sonhos, e respeitar seus limites, tudo isso é um bom começo.

Talvez seja uma saída. Não podemos mudar o mundo, mas podemos mudar nossa postura nele.
É trabalho de formiguinha, eu sei: abrir-se para o que existe de positivo. Pois a gente pode descobrir ou inventar as coisas positivas, ainda que em alguns lugares, com algumas pessoas, ou escondidas em nós, para usar algumas vezes. Uma pequena Pasárgada em cada um.
Nossa liberdade, aqui onde não é Pasárgada, é obrigação de escolher: abro os olhos, não abro? Como essa comida, não como? Saio de casa, não saio? Vou no meu carro, ou, por causa da segurança, chamo um taxi? Telefono, fico calada, mando um e-mail ou risco da lista de meus endereços? (O coração sempre foi meu pior conselheiro).

Sou boa sou má, sou verdadeira sou desonesta, sou lúcida sou louca, cresço ou permaneço, amo ou abandono, ajudo ou torturo—–e assim, com o leque das possibilidades, me foi dado o tormento das opções. Digo sim ou digo não, ou simplesmente fujo — quem sabe para essa terra perfeita que Bandeira inventou?
Mas na última hora decidi ficar.

Pois, fugindo, eu me sentiria como quem deserta um grupo com o qual tem laços muito fortes: meus leitores. Os que me acompanham e os que pensam diferente, até os indignados— às vezes por terem lido algo que nem estava ali, ou porque eu de verdade escrevi bobagem, falei no que não sabia direito. Todos são importantes para mim. Afinal somos irmãos, filhos desta realidade que pode ser quase igual a uma Pasárgada inventada.
Vou me vingar da chatice, da violência, das traições, da burocracia e da corrupção instalada, sendo feliz aqui.

E quando tudo me aborrecer de verdade, quando eu ficar cansada de minhas neuroses e manias, quando as pessoas estiverem demais distraídas, a paisagem perder a graça, a mediocridade instalar seu reinado e anunciarem o coroamento da burrice, — vou espiar o letreiro que fala de uma riqueza disponível para qualquer um, e que botei como descanso de tela no meu eternamente ligado computador:
Escute a canção da vida.

Lya Luft


Paulo Ghiraldelli Jr*

A pedofilia é um problema no Brasil - um problema de uso de nossos vocabulários. Alguns diriam: um problema conceitual. Estamos em conflito porque não sabemos discernir entre o que queremos dizer com a expressão “um namoro comum” e o que desejamos apontar com “abuso de menores”. Esse problema no uso do vocabulário cria situações desagradáveis que atingem casais heterossexuais e, mais ainda, os não heterossexuais.

A situação torna-se dramática porque, quando usamos a segunda expressão, “abuso de menores”, podemos estar querendo dizer “pedofilia”. Ora, “pedofilia” é um termo maldito em nossa sociedade. Alguns a utilizam para dizer que um adulto machucou física e sentimentalmente crianças e outros para apontar uma relação entre jovens. A linha entre o vocabulário que fala de crime e o vocabulário que fala de costumes não aprovados por alguns é tênue, principalmente em um país cuja escola e o ensino da leitura vai de mal a pior. Todo tipo de injustiça, que não raro leva a chacinas, estão enterradas por conta desses deslizes da linguagem.

Começamos, de uns tempos para cá, a criar dois ou três ou mais tipos de vocabulários para expressar nossos anseios morais. Uma parte da população pode levantar as mãos para o céu e festejar a decisão do Supremo Tribunal Federal que, mesmo tendo um parâmetro contrário na Constituição do país, aprovou o que temos chamado de “união homoafetiva”. Outra parte, meio que embasbacada pelos vocabulários que vão sendo criados pelas minorias para defenderem seus direitos, abre-se para um discurso que perigosamente incentiva a condescendência com a discriminação. Essa segunda parte pode abrigar as almas que Bolsonaro quer conquistar.

Bolsonaro imagina, sinceramente, que as pessoas que gostam de outras do mesmo sexo não gostam para namorar e, sim, para agarrá-las na rua e estuprar, principalmente se tais vítimas do ataque forem crianças pequenas. Ou crianças um pouco maiores, conforme o caso fique interessante para ele ou não. Afinal, ele próprio não sabe bem o que é criança ou o que não é, uma vez que, não raro, aparece também querendo diminuir a lei da menoridade no país. O que ele sabe, ou melhor, o que ele acredita, é que há uma quantidade enorme de adultos - talvez a maioria da população - que não trabalham e, enfim, não fazem outra coisa senão ficar o dia todo tentando estuprar crianças.

Duvido que, na cabeça deles, esses estupradores não sejam negros e pobres. Ele acredita, inclusive, que se o governo está tentando criar mecanismos verbais no sentido de diminuir a discriminação contra os não heterossexuais, é porque a esquerda está no poder, e “essa gente” está desejosa de ver todas as nossas crianças se tornando gays e, então, chamando adultos para transar. Assim, as próprias crianças abririam as portas para a raposa tomar conta do galinheiro.

Bolsonaro acredita nisso do mesmo modo que ele acredita que pode, então, também ele, abordar as crianças na escola para criar a “contra ideologia gay”. Se “os gays do governo”, como ele pensa, querem ganhar as crianças para o pecado e, depois, para o estupro, então ele também pode ganhar essas crianças para a autoproteção e, no limite, a manutenção do vocabulário que hoje ajuda na discriminação dos não heterossexuais. Um vocabulário que se dissemina e faz a violência contra os não heterossexuais se tornar coisa comum. No limite, Bolsano deseja que cada criança use o seguinte vocabulário: “ah, morreu um travesti na esquina, esfaqueado; ah, mas era só um traveco mesmo”.

Quando as crianças voltarem a conversar assim, Bolsonaro estará contente. Elas estarão precavidas contra o “mundo gay” que, no fundo, segundo a cartilha dele, é o “mundo dos pedófilos”.

Da minha parte, creio que está na hora do estado parar Bolsonaro. Com as cartilhas que ele está distribuindo em escolas, ele ultrapassou o uso do vocabulário do preconceito. Ele está usando o vocabulário do fomento ao ódio.

* Filósofo, escritor e professor da UFRRJ

Mais Feliz

Adriana
Calcanhott
o

O nosso amor não vai parar de rolar
De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide um rio
Me diga coisas bonitas

O nosso amor não vai olhar para trás
Desencantar, nem ser tema de livro
A vida inteira eu quis um verso simples
Pra transformar o que eu digo.

Rimas fáceis, calafrios
Fure o dedo, faz um pacto comigo
Num segundo teu no meu
Por um segundo mais feliz.

"Filhos, vocês terão sempre me dado muito mais do que esperei
ou mereci ou imaginei ter”.

Que nossa vida, meus filhos, tecida de encontros e desencontros, como a de todo mundo, tenha por baixo um rio de águas generosas, um entendimento acima das palavras e um afeto além dos gestos – algo que só pode nascer entre nós. Que quando eu me aproxime, meu filho, você não se encolha nem um milímetro com medo de voltar a ser menino, você que já é um homem. Que quando eu a olhe, minha filha, você não se sinta criticada ou avaliada, mas simplesmente adorada, como desde o primeiro instante.

Que, quando se lembrarem de sua infância, não recordem os dias difíceis (vocês nem sabiam), o trabalho cansativo, a saúde não tão boa, o casamento numa pequena ou grande crise, os nervos à flor da pele – aqueles dias em que, até hoje arrependida, dei um tapa que ainda agora dói em mim, ou disse uma palavra injusta. Lembrem-se dos deliciosos momentos em família, das risadas, das histórias na hora de dormir, do bolo que embatumou, mas que vocês, pequenos, comeram dizendo que estava maravilhoso. Que pensando em sua adolescência não recordem minhas distrações, minhas imperfeições e impropriedades, mas as caminhadas pela praia, o sorvete na esquina, a lição de casa na mesa de jantar, a sensação de aconchego, sentados na sala cada um com sua ocupação.

Que quando precisarem de mim, meus filhos, vocês nunca hesitem em chamar: mãe! Seja para prender um botão de camisa, ficar com uma criança, segurar a mão, tentar fazer baixar a febre, socorrer com qualquer tipo de recurso, ou apenas escutar alguma queixa ou preocupação. Não é preciso constrangerem-se de ser filhos querendo mãe, só porque vocês também já estão grisalhos, ou com filhos crescidos, com suas alegrias e dores, como eu tenho e tive as minhas. Que, independendo da hora e do lugar, a gente se sinta bem pensando no outro. Que essa consciência faça expandir-se a vida e o coração, na certeza de que aquela pessoa, seja onde for, vai saber entender; o que não entender vai absorver; e o que não absorver vai enfeitar e tornar bom.

Que quando nos afastarmos isso seja sem dilaceramento, ainda que com passageira tristeza, porque todos devem seguir seu caminho, mesmo que isso signifique alguma distância: e que todo reencontro seja de grandes abraços e boas risadas. Esse é um tipo de amor que independe de presença e tempo. Que quando estivermos juntos vocês encarem com algum bom humor e muita naturalidade se houver raízes grisalhas no meu cabelo, se eu começar a repetir histórias, e se tantas vezes só de olhar para vocês meus olhos se encherem de lágrimas: serão apenas de alegria porque vocês estão aí.

Que quando pareço mais cansada vocês não tenham receio de que eu precise de mais ajuda do que vocês podem me dar: provavelmente não precisarei de mais apoio do que do seu carinho, da sua atenção natural e jamais forçada. E, se precisar de mais que isso, não se culpem se por vezes for difícil, ou trabalhoso ou tedioso, se lhes causar susto ou dor: as coisas são assim. Que, se um dia eu começar a me confundir, esse eventual efeito de um longo tempo de vida não os assuste: tentem entrar no meu novo mundo, sem drama nem culpa, mesmo quando se impacientarem. Toda a transformação do nascimento à morte é um dom da natureza, e uma forma de crescimento.

Que em qualquer momento, meus filhos, sendo eu qualquer mãe, de qualquer raça, credo, idade ou instrução, vocês possam perceber em mim, ainda que numa cintilação breve, a inapagável sensação de quando vocês foram colocados pela primeira vez nos meus braços: misto de susto, plenitude e ternura, maior e mais importante do que todas as glórias da arte e da ciência, mais sério do que as tentativas dos filósofos de explicar os enigmas da existência. A sensação que vinha do seu cheiro, da sua pele, de seu rostinho, e da consciência de que ali havia, a partir de mim e desse amor, uma nova pessoa, com seu destino e sua vida, nesta bela e complicada terra. E assim sendo, meus filhos, vocês terão sempre me dado muito mais do que esperei ou mereci ou imaginei ter.

A história da Comunidade Noiva do Cordeiro remete aos anos de 1890, quando Maria Senhorinha de Lima toma uma decisão que, para a época, era vista como inaceitável. Moradora de Roças Novas, povoado do município de Belo Vale, ela casou-se com o francês Arthur Pierre e, após três meses de vida conjugal, resolveu abandonar o marido e viver com Francisco Augusto Fernandes de Araújo, conhecido como Chico Fernandes. Da união nasceram os filhos: Francisco, Maria Matozinhos, Vicente, Geralda, Genoveva, Beniga, Antônia e Ramiro.
A união de Maria Senhorinha e Chico Fernandes repercutiu negativamente para os moradores da região de Belo Vale, principalmente junto à Igreja Católica local, que os excomungaram, a eles, e aos membros da família até a quarta geração. De acordo com Maria Olímpia Alves de Melo, “a Igreja a excomungou e ela tornou-se pária. Prostituta.”
Um dos filhos do casal, Francisco Fernandes Filho, casou-se com Geralcina Maria de Jesus e tiveram doze filhos: Isaias, Delina, Elias, Jeremias, Azarias, Urias, Ari, Edes, Juraci, Jurandir e Valdete. Dentre esses, um dos membros mais expressivos na comunidade é Delina, hodiernamente a matriarca da Noiva do Cordeiro.
O preconceito que acompanhou Maria Senhorinha e seus filhos, também atingiu a geração seguinte e, conforme é descrito por Maria Olímpia, “como se atingido por um raio, o preconceito se alastrou e envolveu toda a sua descendência. Filha de prostituta é. E a coisa ficou feia por várias gerações, obrigando-os a viver de forma isolada, sem contato com outros povoados e cidades da região. Nem se tivessem doenças contagiosas, seriam tão segregados."
Para a historia da Comunidade Noiva do Cordeiro, essa é uma das fases cruciais. Segundo relatos de moradores, nos anos de 1940, um pastor evangélico, Anísio Pereira, começou um trabalho de evangelização na região e, em suas idas a essa comunidade isolada, expressou o interesse de casar-se com uma das moradoras, Delina Fernandes Pereira. Na época do casamento, Delina estava com 16 anos e Anísio com 43 anos. Da união nasceram doze filhos: Areli, Rosalee, Vasseni, Arodi, Vanderli, Noeli, Vasseli, Gideoni, Leoni, Elieny, Elaine e Keila.
Anísio Pereira fundou uma igreja dentro da comunidade, chamando-a Igreja Evangélica Noiva do Cordeiro, e esse passou a ser o nome da comunidade que ali vivia.
O isolamento vivido pelas gerações passadas manteve-se e tornou-se ainda mais agudo, seja pelo preconceito das comunidades vizinhas, seja pelas rígidas regras impostas pelo pastor Anísio: isolamento, preconceito, jejum e pobreza tornaram-se marca da Comunidade Noiva do Cordeiro.
As mudanças só viriam a ocorrer nos anos de 1990. Entre os membros da Igreja, alguns começaram a questionar sobre as regras impostas pela doutrina. Em depoimento ao documentário do cineasta Alfredo Alves, Maria Doraci de Almeida e Delina Fernandes Pereira se lembram do casamento de uma das filhas de Delina: “o seu desejo era que houvesse música na Igreja (...) muitos jovens nunca tinham dançado ou ouvido música, e dançou também, e gostou.”
Esse acontecimento, aliado aos vários questionamentos sobre as regras impostas, levaram alguns participantes a se distanciarem da Igreja. Algum tempo depois, a Comunidade decidiu por extinguir a Igreja daquele local de maneira definitiva: lá não existia mais uma religião institucionalizada, seja ela evangélica, católica, ou de outro credo. O pastor Anízio Pereira faleceu em 1995.
Alegam os membros da comunidade que o preconceito enfrentado era vivenciado pelas crianças nas escolas, no acesso à saúde e aos postos de trabalho, além do preconceito expresso nos olhares dos moradores da região: as mulheres de Noiva do Cordeiro ainda carregavam o estigma de prostitutas.
Mas o que, realmente, é Noiva do Cordeiro? Trata-se de uma localidade de Minas Gerais, na área rural de Belo Vale a cem quilômetros de Belo Horizonte, onde vivem aproximadamente 250 mulheres e suas famílias.

Os homens, quando chegam a idade adulta, saem para trabalhar; ficam fora de segunda a sexta-feira e retornam nos fins de semana. A comunidade é mantida pelas mulheres, sendo que o isolamento fez com que elas criassem um mundo de regras próprias.

No loca de 16 hectares, além de um casarão centenário, há outras residências. Em um delas, com quase vinte cômodos, vive a matriarca da Comunidade Noiva do Cordeiro, Delina Fernandes Pereira, e outras quase cinquenta pessoas.
Os trabalhos das mulheres são divididos: há as que cozinham, costuram e as que lavram a terra. Em Noiva do Cordeiro, ao invés de cada família plantar separadamente, os moradores optaram por plantar em uma só área, onde todos ajudam a preparar a terra, capinar, cultivar e colher. Tudo o que é produzido, é para consumo próprio, nada é comercializado. O plantio é, principalmente, de milho, arroz, feijão e abóboras. No final da colheita, o que foi produzido é armazenado, garantindo alimentos até a próxima safra. Além da produção dos alimentos, a comunidade cria porcos, galinhas, peixe e gado, também destinados para o sustento próprio.
O preconceito, o isolamento social e a discriminação precisavam ser combatidos. O alimento não era a única necessidade de Noiva do Coerdeiro: outros bens materiais e não-materiais fazem parte de uma vida com qualidade.
Visando conseguir melhorias para a comunidade, foi criada uma associação, a ACNC – Associação Comunitária Noiva do Cordeiro, que lutaria por recursos financeiros e contra a discriminação sofrida desde o inicio do século.
Em 25 de abril de 1999 foi realizada a reunião de fundação e posse da primeira diretoria da ACNC, que teve como convidado o ex-presidente da FETAMG de Montes Claros, Sr. Gil Leite. A diretoria alega ter encontrado obstáculos na seara institucional. Apesar das dificuldades encontradas, a ACNC foi registrada e, hoje, em parceria com ONG’s, órgãos governamentais e grupo de voluntários, realiza atividades sociais em várias comunidades de Belo Vale.
Uma das iniciativas da ACNC que mais repercutiu na vida da Comunidade Noiva do Cordeiro foi a implantação do CIDEC – Centro de Informática e Desenvolvimento da Educação Comunitária.
Em 2006, a parceria entre a ACNC (Associação Comunitária Noiva do Cordeiro), o CDI (Comitê para a Democratização da Informática) e a Fundação Vale, trouxe para a Noiva do Cordeiro o projeto de informatização nas comunidades rurais: lá que foi instalada a primeira escola de informática da zuna rural do Estado de Minas Gerais.
A repercussão desse acontecimento foi divulgada na mídia, e várias reportagens foram publicadas sobre a comunidade, como a matéria “Herança de Família”, no Jornal Estado de Minas. O contato com a mídia possibilitou à comunidade divulgar a sua história de discriminação, isolamento e lutas pela sobrevivência.
Atualmente a Noiva do Cordeiro mantém contato com outras comunidades: o interesse pela informática fez com que a ACNC ampliasse o programa CIDEC para o CIDEC Itinerante, levando o acesso aos computadores para as comunidades vizinhas de Palmital e Lages.
Outra conquista da comunidade foi a possibilidade de venderem os produtos produzidos pelas artesãs de Noiva do Cordeiro: tapetes, colchas, bolsas e artigos de fuxico, além de roupas intimas, que também são comercializadas para todo Brasil através do site BH Moda (www.bhmoda.com.br). Além da fábrica de lingeries e costuras, há uma pequena fábrica de produtos de limpeza, além da cultura de subsistência.
“As lavouras comunitárias são de subsistência, nada é para venda”. Plantamos milho, arroz, feijão e aboboras, no final da colheita o que foi produzido é armazenado garantindo que haverá alimentos ate a próxima safra. Nas lavouras praticamente todo o trabalho é manual, contamos apenas com um velho trator para arar a terra, já o plantio, a capina, a colheita e o armazenamento são feitos manualmente. Nós ainda seguimos o ritmo dos nossos antepassados, plantando na época das águas que começa por volta do mês de novembro.
As mulheres são maioria nos mutirões porque durante a semana quase todos os homens trabalham fora da comunidade devido em Noiva do Cordeiro não haver um meio de renda para a compra do que não é produzido. As mulheres que vão para a roça também se preocupam com a beleza e por isso usam protetor solar, luvas, botas, blusas de manga comprida, calça comprida e chapéu. “Temos a expectativa de conseguirmos implementos agrícolas para facilitar o nosso trabalho e também conseguir uma área maior para possibilitar o aumento da produção.” (Documentos da Comunidade).
Em toda zona rural do Estado de Minas Gerais, a população tem grande dificuldade de sobrevivência, o que sempre leva os cidadãos à pratica do êxodo rural, superlotando as periferias das metrópoles. Pensando nisso, em novembro de 1999, as trabalhadoras rurais de Noiva do Cordeiro, Rosalee e Sônia, convidam as donas de casa para reunirem suas máquinas de costura domésticas, começando a confeccionar lingeries. Lucileia se responsabilizou pela parte das Vendas. Então combinaram entre si pagar os gastos, reservar uma parte para compra de máquinas e dividir a sobra entre todas as envolvidas. Em 2000 o Presidente da ACNC Iran Leite, Rosalee e Lucileia lutaram e conseguiram, através do Pro-renda Rural MG realizar um curso de corte e costura para 19 (dezenove) mulheres.
Foi um grande avanço para a comunidade, pois as mulheres sentiram-se motivadas e resolveram diversificar a produção e começaram também a fazer tapetes, roupas, colchas de retalho, etc. Durante esses anos o Presidente Iran Leite continuou buscando doação de retalhos nas empresas da capital de Minas o que ajudou na continuidade do projeto, pois além de ampliar a produção reduz os custos das peças.
Realizavam-se desfiles quando criavam um novo modelo e as próprias costureiras e donas de casa desfilavam, visando divulgar o produto no município. Após varias tentativas sem efeito, os desfiles foram cancelados, mas as mulheres continuaram investindo em sua criatividade. Combinaram ente si que Lucileia precisava de ajuda no serviço de vendas. Claudia, Flavia, Vilma e Lucilene, começaram a ir para Belo Horizonte trabalhar como vendedoras.

O esforço de todos valeu à pena, pois hoje a confecção possui nove máquinas, quatro industriais, três semi e duas domesticas. O lucro é dividido entre todos, gerando renda direta para dez famílias, sendo que 30% dos lucros são investidos nos trabalhos sociais desenvolvidos por coordenação da ACNC dentro e fora do município de Belo Vale.
Politicamente, a comunidade foi fortalecida nas eleições de 2004, quando Rosalee Fernandes Pereira, foi eleita vereadora com 279 votos, passando a ocupar uma vaga na Câmara Municipal de Belo Vale. Desde então, a comunidade ganhou representação politica. Rosalee também foi Secretária Municipal de Cultura e Turismo de Belo Vale. Atualmente, o cargo é ocupado por Nelma Fernandes, também da comunidade.
Chamada para o documentário NoivaS do Cordeiro exibido no canal GNT
A história da Noiva do Cordeiro ganhou repercussão com a apresentação do documentário “NoivaS do Cordeiro”, produzido pela BemVinda Filmes, de Regina Santiago, com roteiro e direção de Alfredo Alves, narração de Lya Luft e exibido em junho de 2008 pelo canal GNT. A incrível história da comunidade rural da cidade de Belo Vale foi atração do documentário, no qual o cineasta Alfredo Alves recuperou parte da trajetória de superação das cerca de 200 mulheres do lugar, por meio de depoimentos, registros históricos e imagens da paisagem das montanhas.
O olhar sensível e o clima de emoção são fios condutores da narrativa, repleta de reviravoltas e revelações, numa história que se tornou pública após a série de reportagens do Jornal Estado de Minas.
Quando Alfredo Alves tomou conhecimento da situação pensou em um belo documentário. Pela delicadeza da história, preferiu enviar ao lugar a amiga Regina Santiago, da produtora BemVinda Filmes, responsável pelo projeto. “Quando cheguei, num domingo, estavam todos diante da TV. Fui apresentada à porta-voz, Rosalee. Falei sobre como o documentário poderia contribuir para a queda do estigma. Até então, ela só olhava para o tapete artesanal que confeccionava. Foram os 10 segundos mais tensos da minha vida. Depois do silêncio, levantou-se e disse que me mostraria à comunidade.”
A história dessa comunidade com características tão próprias repercutiu nos meios de comunicação, principalmente internet, sob vários pontos de vista: há os que admiram, os que a vêm com críticas severas e os que negam a história relatada por elas. Sem dúvida, a comunidade Noiva do Cordeiro é um espaço em que o real e o imaginário popular travam um embate, mas ela ainda resiste às duvidas que a sociedade proponha, e esta aberta a visitas aos que desejam conhecer esse local, no mínimo, intrigante.
Noiva do Cordeiro:

Untitled from Alam Kenji Minowa on Vimeo.

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Fonte: Yahoo Grupos

Por Neto Lucon do portal Yahoo


Estigmatizadas e alvo de preconceito, as travestis e transexuais do Brasil ganharam há nove anos um dia especial. O “Dia da Visibilidade Trans” visa mostrar que elas estão inseridas na sociedade, acabar com o estigma da chacota e dizer que, sim, merecem respeito. 

Na mídia, muitas trans estiveram presentes na arte, também conquistaram pela beleza e movimentaram os debates nos lares brasileiros. Na década de 60, uma dançarina transexual, vinda da França, foi o primeiro “frisson trans” no Brasil.

Chamada Coccinelle (1931-2006), a artista que possuía um quê de Marylin Monroe desembarcou no Rio de Janeiro em 1962. Muito sensual, provocou a curiosidade de muitos brasileiros, que não entendiam muito bem o que ela representava. 

Tanto que foi preciso chamar o corpo de bombeiros para tirá-la de uma loja onde fazia compras. Preconceito? Que nada, todos queriam admirá-la de perto e desvendar seus segredos. Foi estrela de vários filmes, peças de teatro e foi a primeira – e única – transexual a ter o casamento reconhecido pela igreja católica. 



AS ARTISTAS

Arte. Ah, se existe um ramo em que as travestis e transexuais se deram bem foi na artes. Seja nos palcos, na música, cinema e televisão. Que diga a travesti Rogéria, 68 anos, uma verdadeira vedete dos anos 70, que até hoje faz história na televisão, teatro e musicais.



Coccinelle, Rogeria, Claudia e Marcinha


Admirada pela família brasileira, desde Ninete de Tieta (1989), Rogéria foi pioneira no Brasil e referência para grandes artistas, como a travesti multimídia Claudia Wonder (1955-2010). 

“Vê-la na revista ‘Cruzeiro’ com peruca e sem peruca foi determinante para mim: ‘é isso que quero ser: artista como a Rogéria”, disse Wonder, que se tornou cantora de rock na década de 80, ganhou um texto do escritor Caio Fernando Abreu, e até substituiu Sônia Braga em uma peça de teatro.

Isso sem falar da cubana Phedra de Córdoba, que se apresenta no grupo brasileiro “Satyros”, Weluma Brow, a única chacrete travesti, Nana Voguel, a “eterna miss”, Lívia Mendonça, a travesti cantora do “Ídolos”, Paula Sabatine, Divina Aloma, Marcinha do Corintho... Entre tantas outras. 



AS BELAS

Quanto o assunto é beleza, o leque de beldades também desperta a atenção dos homens e, inevitavelmente, a ira das mulheres. A modelo transexual Roberta Close, ícone da década de 80, é o nome mais forte dentre todas. 

Thelma, Roberta e Patricia/Divulgação


O sucesso foi tão grande que as revistas “Playboy” e “Sexy” decidiram, pela primeira vez, fazer ensaios com uma musa trans. Ganhou uma música de Erasmo Carlos, se arriscou como cantora e, depois, se casou com um suíço, abandonando os flashes no Brasil. 

Como resposta ao fenômeno Close, São Paulo se viu obrigado a ter também a sua representante. Surgiu, então, a travesti Thelma Lipp (1962-2004), tão bela quanto a primeira, que se tornou jurada do quadro “Eles & Elas”, no “Programa do Bolinha” (Bandeirantes), e inspiração para um filme, Thelma, de Pierre-Alain Méier. 

Nos últimos anos, foi a travesti Patricia Araújo que roubou a cena. Desfilou no “Fashion Rio”, em 2009, estampou a revista “Marie Claire”, e protagonizou o primeiro ensaio sensual de uma trans no “Virgula Girl”, destinado a ex-bbbs, panicats e assistentes de palco. Tamanho sucesso tem o seu preço: “Sou alvo de inveja”, desabafa. 



REALITY SHOWS

Na era dos reality shows, que se iniciou em 2000, a travesti Bianca Soares, participante da quarta edição da “Casa dos Artistas (SBT), em 2004, foi a pioneira do grupo. 

Ariadna, Nany e Bianca/Divulgação


O programa visava escolher o protagonista da próxima novela da emissora, mas demonstrou preconceito do telespectador logo na primeira semana: Bianca, a grande novidade, foi a primeira eliminada com 77% dos votos. 

Curiosamente, Ariadna Thalia Arantes, a primeira transexual do “BBB11” (Rede Globo), em 2011, também foi eliminada no primeiro paredão. Embora alguns participantes tenham desconfiado, ela só revelou que era transexual após ser eliminada.

Fora do confinamento, Bianca estrelou a série “Mandrake (HBO) ao lado de Marcos Palmeira, mas fez carreira, mesmo, em filmes eróticos – um deles com o ator Alexandre Frota. Já Ariadna teve a façanha de posar para a revista “Playboy”, vinte anos após o fenômeno Roberta.

Em “A Fazenda”, o reality show da Record, a artista Nany People esteve na lista de famosos de 2010. Brincou, brigou, chorou e foi a quinta eliminada da atração. “Fui muito bem recebida pela família brasileira. No meu caso, não houve preconceito”, refletiu. 



TOP TRANS 

Tendência dos últimos anos, as transexuais se tornaram destaque no mundo da moda. A transexual italiana Caroline Cossey esteve em vários catálogos de moda nos anos 80, e a transexual novaiorquina Amanda Lepore ainda hoje é musa do fotógrafo David LaChapelle. 

Felipa, Carol e Lea T/Divulgação


No Brasil, Lea T é a maior referência. Conquistou primeiro a Europa, em 2010, para só depois se tornar frisson em seu país. Estrelou a campanha da grife francesa Givenchy e foi a primeira a posar na capa da revista Elle brasileira, em 2011. 

Em entrevista a Marília Gabriela, no SBT, Lea falou sobre seu sucesso, mas lamentou o preconceito: “somos o lixo da sociedade”. 

Após Lea, outras modelos transexuais surgiram e despontam como processas das passarelas. Entre elas estão Carol Marra e Felipa Tavares. “Quero mostrar que a transexual tem o seu valor, ver outras modelos transexuais arrasando no mundo da moda”, frisa Carol.



SE ISSO É ESTAR NA PIOR...

Na questão do preconceito, muita coisa ainda precisa ser feita. Muitas travestis e transexuais ainda estão inseridas na prostituição, são alvo de transfobia e não encontram oportunidades no mercado de trabalho.

Porém, para as que se arriscam na arte, e na visibilidade que a mídia dá atualmente ao tema, podemos dizer que as coisas estão melhorando. Passo a passo, lentamente, mas melhorando. Afinal, está mais que provado que “travesti não é bagunça”.



Visto no: Gay 1

19 janeiro 2012

Ler bons livros, escutar boa música, frequentar bons lugares, assistir grandes espetáculos teatrais, conviver com grupos socialmente aceitáveis, tudo isso, em menor ou maior grau, fazia parte da erudição necessária para que o indivíduo fosse inserido entre as elites privilegiadas. De fato, fazer parte dessa redoma cultural engrandece qualquer pessoa, ofertando possibilidade de ampliação de pensamentos e, consequentemente uma visão mais critica do mundo circundante. Por outro lado, quando se cria este limite, elabora-se instantaneamente uma bifurcação entre o culto e o inculto, de modo que o segundo acaba sendo menorizado por não conter as características necessárias para ser incluído no tão assediado mundo da erudição.

Na atualidade, nesta terra da aceleração tecnológica, dos pensamentos rápidos, das conexões fugidias, das inúmeras redes sociais que estreitam as relações interacionais, a sociedade de certa forma contribui para a inclusão do individuo a indeterminadas esferas sociais. Esta inserção, porém, ocorre de forma controversa, uma vez que as pessoas ainda confundem inclusão com presunção. Numa acepção mais clara, muitos indivíduos, para se sentirem partícipes de algum segmento social, extrapolam nas classificações do que é bom, belo, escutável e inteligível, numa frustrante tentativa de parecerem cultos, inteligentes e mecanicamente conectados com a realidade.

Ouve-se então que ler Paulo Coelho, Augusto Curi, Ágata Christi e outros autores, categorizados como populares é uma perda de tempo, visto que a leitura destes não oferece elementos enriquecedores, na opinião dos mais “eruditos”. Diferentemente de ler as obras clássicas de Machado de Assis, Guimarães Rosa e William Shakespeare, autores estes consagrados nacional e internacionalmente, e, assim, aclamados pelos mais conservadores e propagadores da cultura mais clássica. Ora, independente do legado histórico, poético e social, cada escritor exerce uma função primordial ao criar uma obra, seja ela ficcional ou não, a de reportar para o papel o seu entendimento do mundo interior, para um plano exterior, dentro das perspectivas sócio históricas, das quais eles fazem parte.

Nessa trilha de ignorância, aqui no Brasil, a música sofre com o mesmo estigma. Há uma áurea pernóstica que agrupa os sons aprazíveis aos ouvidos, em detrimento daqueles que causam ruídos, cacofônicos, e de pouco requinte musical. Ouvir Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, entre outros, é sinônimo de bom gosto, de refinamento, mesmo que o indivíduo nem saiba o nome das faixas que canta, nem tão pouco o contexto do qual o cantor e a obra foram criados. Apenas disse-se que gosta de fulano, sicrano e beltrano, porque isso perpassa a ideia de uma cultura aceitável. Em contrapartida, cantores mais populares, de gêneros diversos, sofrem para externar a sua musicalidade, muitas vezes tão rica em identidade e erudição do que qualquer outro cantor renomado.

E essa mentalidade não se limita apenas as artes literárias ou musicais. As plásticas, atribuídas nesse momento ao teatro e a televisão, também são criticamente analisadas pelos difusores do bom gosto artístico. Na televisão, por exemplo, determinados programas e canais recebem a alcunha de serem de qualidade, construtivos e de inigualável significância social, enquanto outros recebem adjetivos pormenorizados como incultos, pobres, insignificantes, etc. O Big Brother Brasil, famoso “Reality Show” da rede Globo, geralmente serve de exemplo para esse tipo de abordagem. De fato, é indubitável que este programa peca em inúmeros quesitos, mas, se olhado de um lado menos preconceituoso, percebe-se que os seus participantes representam a plastificação de uma realidade social externa: pessoas consumistas, em busca de fama e dinheiro fácil, praticando sexo com desconhecidos e fazendo parte de uma grande jogatina onde os valores como amizade, respeito e decência passam longe. Tal comportamento não pode ser depreciado, uma vez que há um valor artístico ai: a representação mimética da sociedade, nua, crua e cruel como ela é. Ou seja, fora das telonas os mesmos comportamentos são visíveis em várias pessoas em contextos também variados.

Na realidade, muitas pessoas necessitam sentirem-se membros de grupos eruditamente aceitáveis, já que no mundo atual ter informação é ter poder, mesmo que este conhecimento seja superficial, e às vezes nem exista. É o sentimento de pertencimento, de fazer parte entre os que leem bons livros, escutam boa música, frequentam bons lugares, assistem bons filmes e programas educativos, ou que se vestem classicamente bem. Toda essa maquiagem social acaba criando indivíduos cegos, ignorantes, pedantes e de ideologia duvidosa, uma vez que para eles não há beleza no que está fora, ou distante do considerado correto ou perfeitamente social. Esquecem-se, porém, que além desse território há outros mundos de inestimáveis riquezas, muitas até inexploradas, esperando para serem investigadas, entendidas e respeitosamente compartilhadas.

Essa fronteira entre o truculento e o erudito em parte é criada pelas elites sociais. Os grupos mais abastados costumam criar perfis, ou categorias a serem seguidas para que um determinado integrante faça parte do seu convívio. E essa máscara não se limitou às relações interpessoais. Na internet, por exemplo, os internautas com postagens mais refinadas, com frases profundas, imagens filosóficas, músicas introspectivas e desconhecidas das grandes massas, são automaticamente classificados como de grande inteligência, bom gosto e eruditos. Contudo, muitos destes são só máquinas reprodutivas do pedantismo social que obriga a prática desses comportamentos. Alguns nem sabem por que agem dessa maneira, apenas reproduzem os estamentos que inevitavelmente serão bem vistos pelo senso comum.

Não se mede a inteligência pelos livros lidos, pelos lugares frequentados ou pelos contatos sociais realizados durante a vida. Ser inteligente é muito mais do que isso. É compartilhar o pouco que se sabe com o outrem, sem o ar de pedantismo que acaba inferiorizando os cognitivamente "menos inteligentes". A inteligência humana é também e, sobretudo, um mecanismo de análise do outro em todas as suas acepções. É compreender a essência da vida e tentar fazer com que o cenário dela seja o melhor possível para si e para os demais da nossa espécie. É entender que todo esse mar de pensamentos supérfluos é efêmero e pode ser substituído por outros, dos quais a valorização do humano esteja em primeiro lugar. Em outras palavras, ser inteligente não está diretamente relacionado com erudição ou classicismo, mas com a possibilidade de ampliar o olhar para a vida e guiar aqueles que, por razões diversas, ainda estão cegos ou limitados. Ser inteligente, portanto, é ser generoso, humilde e libertário.


Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...


"Carlos Drummond de Andrade"


“Pode me chamar de gay, não está me ofendendo. Pode me chamar de gay, é um elogio.

Ser gay me favorece, me amplia, me liberta dos condicionamentos. Não é julgamento, é uma referência.

Pode me chamar de gay, está dizendo que sou inteligente. Está dizendo que converso com ênfase. Está dizendo que sou sensível.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que me preocupo com os detalhes. Está dizendo que dou água para as samambaias. Está dizendo que me preocupo com a verdade.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que guardo segredo. Está dizendo que e importo com as palavras que não foram ditas. Está dizendo que tenho senso de humor. Está dizendo que sou carente pelo futuro. Está dizendo que sei escolher as roupas.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que cuido do corpo, afino as cordas dos traços. Está dizendo que falo sobre sexo sem vergonha. Está dizendo que danço levantando os braços.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que choro sem o consolo dos lenços. Está dizendo que meus pesadelos passaram na infância. Está dizendo que dobro a toalha de mesa como se fosse um pijama de seda.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou aberto e me livrei dos preconceitos. Está dizendo que posso andar de mãos dadas com os anéis. Está dizendo que assisto a um filme para me organizar no escuro.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que reinventei minha sexualidade, reinventei meus princípios, reinventei meu rosto de noite.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que não morri no ventre, na cor da íris, no castanho dos cílios.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou o melhor amigo da mulher, que aceno ao máximo no aeroporto, que chamo táxi com grito.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que me importo com o sofrimento do outro, com a rejeição, com o medo do isolamento. Está dizendo que não tolero a omissão, a inveja, o rancor.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que sei esperar sua primeira garfada antes de comer. Está dizendo que não palito os dentes. Está dizendo que desabafo os sentimentos diante de um copo de vinho.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou generoso com as perdas, que não economizo elogios, que coleciono sapatos.

Pode me chamar de gay. Está dizendo que sou educado, que sou espontâneo, que estou vivo para não me reprimir na hora de escrever.

Pode me chamar de gay. Que seja bem alto. A fragilidade do vidro nasce da força e do ímpeto do fogo”.



[Carpinejar. Canalha!: retrato poético e divertido do homem contemporâneo. Crônicas. Bertrand Brasil. 2008].


Canalha!
Retrato poético e divertido do homem contemporâneo

Formato: 14 x 21 cm Número de Páginas: 320
ISBN 9788528613421

O novo canalha em ação

Carpinejar destila irreverência e poesia
para retratar o homem contemporâneo

Canalha!, novo livro de crônicas do escritor gaúcho Fabrício Carpinejar, é uma provocação desde o título. Um ato corajoso e irreverente contra os rótulos masculinos. Uma leitura divertida do homem contemporâneo, perplexo e desorientado com as transformações de comportamento e a dissolução dos papéis fixos familiares. O autor mostra que o canalha mantém o charme sexual, mas não é mais o mesmo apregoado pelo Nelson Rodrigues e tantos escritores da metade do século XX.

“Aquele cafajeste de outrora mudou, não é mais o tipo machista e intolerante. Esqueça os personagens de Jece Valadão”, afirma Carpinejar. “Há outro canalha mais perigoso em ação, uma mutação cultural: um canalha caseiro, que não tolera preconceito (aceita ser confundido com gay e entende o chamado como um elogio), que vai fundo no sofrimento para não repeti-lo, gentil dentro das expressões, que ama demasiado os filhos, que se veste com estilo, mas não se importa com o que os outros vão pensar, que encontra a autocrítica no humor, que se aproxima de uma mulher para roubar sua alma (porque o corpo é muito influenciável.”

São crônicas que respeitam sua natureza original de conversa: amáveis e despretensiosas, com jeito de pintassilgo no muro. Para serem saboreadas tanto no café-da-manhã, ao lado de uma boa xícara com leite quente e farelos de pão, ou numa mesa romântica, com a toalha manchada de vinho. E por que não numa leitura a dois na cama, atuando como preliminares?

As verdades mais fortes acabam ditas com delicadeza. Textos leves, chamando o leitor para cada vez mais perto. Uma percepção toda nova do cotidiano, admitindo as imperfeições e as gafes, sem medo de viver para evitar sofrimentos.

“Não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito. Sejamos mais reais em nossas dores”, propõe na crônica “Insista”. Puro carisma de um autor, que mede o mundo com as palavras e os gestos, disposto a se abrir e emoldurar as lembranças com suas histórias.

Carpinejar cria uma espécie de contraponto viril de sua coletânea de sucesso, O Amor Esquece de Começar (2006). Defende a “alma masculina” como sinônimo de sensibilidade. Analisa as relações amorosas, homenageia a amizade dos detalhes e as preciosidades da rotina, desfaz tabus sociais. É capaz de provar a gravidez masculina, onde o homem não contará para a amada que aguarda seu filho no ventre, ou de destacar o cuidado dos velhos pais com seus filhos adultos, preservando o quarto deles exatamente como deixaram ao saírem de casa.

O texto de orelha é assinada por Xico Sá: “Entre uma canalhice explícita e um inocente ‘Ivo viu a uva’, Carpinejar, o cronista, o poeta, o fabulador, o mito, o homem, o álbum branco dos Beatles, nos enfeitiça, desgraçado bom de lábia, de escrita e de jabs. Parece golpe baixo, mas o cara é capaz de observar o origami da pressa que foi feito, pela mulher, com o papelão cortado do biquinho da caixa de leite, donde sugere um peito platônico ou quase, pelo menos para os tarados de plantão terá sido mais ou menos isso, por supuesto”.

Textos como “O fim é lindo”, “Sexo depois dos filhos”, “Emprestando roupas ao marido”, “Amor é coisa de boteco”, “É adorável uma mulher toda nua, ou quase, de meias brancas”, “O orgasmo feminino e o quindim” e “Procura-se um brinco”, entre muitos outros, fazem de Canalha! um livro para homens e mulheres – casados ou solteiros, lobos ou cordeiros.

Diferente dos dicionários e muito além do significado dos vocábulos, o escritor gaúcho apanha o sentimento da pronúncia.

Visto no site: Fabrício Carpinejar