28 junho 2015

Bom dia Maria Alice! - por Marcia La Cruz


Bom dia Maria Alice!
Menina, seu São João foi difícil heim?! Ainda que você estivesse lá, no campo, no meio da roça, você não teve as bandeirinhas, não viu os balões, tudo o que tiveste foi só a companhia da chuva, que insistia em te lavar das marcas de atrocidades que você sofreu. Minha querida, estou passando aqui para te dizer que a todo momento sua mãe, suas irmãs, seu tio, enfim, sua família esteve com você. Procuraram a polícia, fizeram o que era possível naquele momento. E tem mais, não eram apenas a chuva, sua mãe, sua família e a ṕolícia que estavam contigo. Também teus vizinhos, eu e um monte de gente que você nunca viu, mas que está cansado desse modelo machista de sociedade que contamina há séculos todas as formas de relações sociais de nosso estado. Esse modelo machista que faz acreditar que amor é posse! Faz acreditar que ciúme é proteção! Quem ama, Maria Alice, não mata, não agride, não controla. Quem ama respeita, dialoga, se posiciona, tem firmeza e se fortalece em parceria com o outro, não em detrimento do outro.
Maria Alice, você virou mais um dado estatístico da violência contra mulher no estado de Pernambuco. Justiça há e ela haverá de acontecer, mas infelizmente não existe a possibilidade de girar o mundo ao contrário e fazer aquilo tudo não acontecer. Você partiu querida, muito cedo e de forma tão abrupta, tão violenta que não dá para ignorar sua partida. Teve um outro jovem que também se foi por esses dias, mas foi um acidente. No seu caso não, essa tensão familiar em que você e sua família viviam era uma bolha que poderia explodir a qualquer momento, só que não me cabe julgar sua família, afinal, em qualquer situação, quem está envolvido, nunca tem a visão do todo.
Por isso Maria Alice querida, favor, não dê ouvidos a quem insiste em culpar sua mãe pelo acontecido. Essas pessoas estão agindo assim por puro machismo. Você, melhor do que eu, e do que qualquer outra pessoa sabe quem foi o único culpado por essa atrocidade, o seu padrasto, o Gildo Xavier. Sua mãe está sofrendo uma perda dupla: a de um companheiro - que de fato nunca foi seu companheiro - e a de uma filha, que sempre foi sua filha. Todos sofrem, todos, menos o Gildo. Ele chora porque sabe o que vai ter de arcar como consequência pelo crime cometido contra você. "Eita me lasquei, vocês encontraram" foi o que ele disse quando aos policiais quando eles encontraram o seu corpo, acredita? Pois é, ele não está nem ai para você, para sua família, só pensa em si e essa é a lógica do machismo, o outro não é senão um objeto, seja lá quem for esse outro.
Essa perseguição contra as mulheres não é de hoje. Esse tal Gildo Xavier pode até ter lhe tirado sua vida, cortado sua mão esquerda, mas não apagou a chama que move as mulheres que lutam pelos seus direitos, ainda que seja pelo mais básico deles, o direito de existir. Portanto querida, você não está só, eu e tantas outras pessoas estamos solidários com sua morte. Esse assassinato apagou sua vida, mas acendeu uma fogueira. A fogueira dos que não acreditam na naturalização da barbárie, da violência, a fogueira dos que acreditam que o amor passa pelo respeito, a fogueira daqueles que acreditam e lutam por justiça!
Boa passagem querida e força aos seus familiares.

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