22 junho 2014


“Sou homem, gosto de mulheres, transo com elas, mas às vezes fico com alguns rapazes. Beijo na boca, troco carícias íntimas e até faço sexo oral neles, porém não me considero gay. Sou g0y.” Essa é a versão dos adeptos do mais novo modismo dentro do segmento homossexual da atualidade. Mesmo não se autointitulando gays, fica evidente uma homossexualidade entre estes indivíduos que resolveram criar uma nova definição para os seus desejos. Essa repaginada no comportamento sexual acontece por diversas razões, sobretudo aquelas ligadas à ojeriza social que é nutrida contra o público gay na história da humanidade.  Porém, quando se fragmenta a sexualidade, amplia-se o preconceito vigente dentro dessa questão e desarmoniza todo o trabalho sócio-histórico-cultural para incluir os homossexuais no seio da sociedade.

O preconceito em torno da sexualidade tem seu epicentro marcado com a nominalização das práticas sexuais humanas. Se antes o contato sexual entre pessoas do mesmo sexo era naturalizado, com o surgimento das palavras heterossexualidade e homossexualismo (sic) houve a polarização dos desejos e, consequentemente a diferenciação entre eles. Agora, ser hétero está fincado no que é correto e aceitável pelos pilares sociais e religiosos, ao passo que ocorre o inverso com a homossexualidade. É por isso também que os g0ys não querem ser tachados de homossexuais, uma vez que a sua ideologia nasce da heteronormatividade dominante, então não é adequado ir de encontro às regras. O que eles desejam é se realizar sexualmente, mas sem perder a realeza e o conforto proporcionado pela heterossexualidade.

A palavra g0y chama atenção inicialmente pelo destaque dado ao seu segundo vocábulo “0”. Talvez ninguém tenha percebido, mas este destaque guarda uma perigosa mensagem. Por serem avessos às práticas anais, já que isso faz parte do campo da homossexualidade, os g0ys destacam o vocábulo mencionado como uma verdadeira barreira. Na verdade, aquela letra representa a diferenciação entre eles e os gays, pois estes últimos praticam sexo anal. Ora, em quaisquer espaços dicionarizados compostos por livros e estudos acadêmicos, sabe-se que a homossexualidade não se limita às práticas anais. Sentir atração por outra pessoa do mesmo sexo já caracteriza que o indivíduo nutre um perfil homossexual/homoafetivo. Ou seja, o que os participantes desse movimento pseudo-heterossexual estão vivenciando é uma prática homossexual não declarada.

Outro ponto importante dessa discussão reside no que eles afirmam ser uma “amizade sem preconceito”. É interessante falar em preconceito nesse grupo que se relaciona com pessoas do mesmo sexo, porém não admitem a palavra gay como definição para seus atos. Com isso, aumentam consideravelmente a discriminação em torno da homossexualidade, visto que os g0ys representam uma versão “melhorada” dos gays, a qual pode tudo menos fazer sexo anal. Por estarem com os pés simbolicamente fincados na heterossexualidade, eles acreditam serem superiores aos homossexuais, uma vez que podem ser héteros e, quando quiser, se envolver com rapazes. Esta liberdade de transitar pelos sexos criou nesse grupo a falsa ideia de que não são gays, mas indivíduos modernos se permitindo conhecer faces da sexualidade dantes não permitidas.

Acontece que com essa atitude os g0ys problematizam os reais papeis da sexualidade humana e até que ponto a fragmentação desta é periculosa/positiva para a sociedade. Infelizmente, numa cultura onde assumir os reais desejos sexuais ainda é considerado um tabu, não é coerente desmembrar o que já está há muito tempo esfacelado. Prova disso ocorre dentro da própria comunidade LGBT, onde gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, lutam entre si para se afirmarem nessa sociedade, ao invés de unirem forças em prol de suas causas; que são distintas em suas particularidades, mas comuns no geral. Diante disso, os embates por aceitação desembocam no seio social onde a carência de informação faz com que o preconceito dificulte a compreensão da pluralidade sexual humana.

Aqui no Brasil, muito antes da designação g0y, já havia práticas semelhantes. Inúmeros são os casos de rapazes ditos heterossexuais que tem relações íntimas com outros homens, héteros ou gays, e que não se consideram homossexuais. Casos até de relacionamentos vindouros, dos quais homens vivem vidas duplas, casados, com filhos, e seus respectivos amantes, mas não se assumem gays. A partir disso, percebe-se que o surgimento do g0y veio talvez validar algo que já acontece na prática em várias partes do mundo: o envolvimento de pessoas com outras do mesmo sexo. Entretanto, o estrangeirismo dessa palavra carrega mais uma moda do que uma cultura real, o que faz com que esse movimento se torne dúbio aos olhos dos reais homossexuais.

Por possivelmente ser um modismo, os g0ys contribuem para a incredibilidade das causas gays nos últimos anos. Enquanto, ano após ano estudiosos se dedicaram a explicar a natural manifestação da sexualidade, surgem indivíduos dispostos a brincar com ela, como se esta fizesse parte de um jogo. Do outro lado da moeda está a sociedade assistindo a tudo isso e fazendo seus julgamentos. Dentro dela, poucos serão aqueles que farão uma análise aprofundada dessa questão. A maioria irá classificar isso como mais uma perversão humana, inclusa no campo da homossexualidade, retardando mais uma vez as mínimas conquistas angariadas pela comunidade homossexual. Sem contar que fundamentalistas, sobretudo os religiosos, aproveitarão o ensejo para crucificar os gays perante a sociedade, ao dizer que ser homossexual não passa de um “modismo”.

Tudo isso acontece porque os g0ys fazem parte da cultura heteronormativa, a qual tem a homossexualidade como perversão humana. Mais que isso, o que esses adeptos pensam ser apenas uma brincadeira entre amigos, é mais uma prática homossexual disfarçada e recheada de preconceito, ao passo que é controlada pela hipocrisia, já que eles afirmam uma coisa, mas realizam outra. Com esse engano, o que os g0ys fazem é perpetuar a periculosa superioridade criada pela humanidade, a priori entre os sexos homem e mulher, e, agora entre gays e “não gays”. Esse engano só irá prejudicar os homossexuais, que lutam por aceitação e respeito social. Além é claro de criar uma imensa confusão na sociedade que já não compreende a relação entre as pessoas do mesmo sexo, imagine agora que alguns decidiram se relacionar com iguais, mas se mantêm “héteros”.


Ninguém escolhe ser branco ou negro, pobre ou rico, homem ou mulher. Apenas nasce-se como tal, de acordo com as circunstâncias sociais e históricas envolvidas na existência de cada indivíduo. Por essa razão, também ninguém escolhe ser hétero ou homossexual. Por mais que haja muitas discussões em torno da construção da sexualidade humana, estas prerrogativas ainda se encontram em total anonimato. A religião e a ciência até tentaram, mas não acharam respostas concretas capazes de explicar os diferentes desejos humanos. Porém, criou-se uma cultura da qual ser homossexual vai de encontro às leis da natureza sacralizadas por diversos segmentos religiosos. Por essas razões, ser g0y soa menos agressivo, já que o g0y pode constituir família e, por essa razão, perpetuar a espécie. Pena que, por mais que se esforcem, nada vai mudar o que eles realmente são: pessoas inseguras que buscaram numa palavra o engano necessário para fingirem algo que não são, héteros.

      No passado, quando era preciso falar com alguém que estivesse distante, a única forma de se fazer era através de cartas ou telegramas. Hoje, porém, os avanços tecnológicos e o maior acesso desses produtos na sociedade fez com que muita gente se conectasse ao mundo virtual. Dessa forma, grande parte da sociedade abandonou de uma vez a escrita e passou a digitar. Com isso, a internet tomou proporções gigantescas de modo que, no Brasil, fosse preciso criar uma lei que trata de casos ocorridos na rede mundial de computadores. 

      Em julho de 2013 o Centro de Estudo sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação(CETIC) divulgou uma pesquisa que mostra que, no Brasil, existem mais de 80,9 milhões de usuários de internet. Números que são alarmantes, visto que grande parte desse número, de tão acostumados a linguagem da internet com gírias e abreviações, acabam cometendo erros gravíssimos na hora de redigir. Além disso, ocorre uma desvalorização da língua nacional, pois através da internet, surgem cada vez mais palavras estrangeiras sendo incorporadas ao nosso idioma.

       O que também colabora bastante para a morte da escrita no Brasil é o fato de que as escolas procuram inúmeras formas de desenvolver aulas mais dinâmicas para despertar o interesse dos alunos pelos estudos, mas não elaboram nada para estimular o aluno a escrever. O que deveria ser diferente, pois quase todos os vestibulares e concursos, incluindo o maior exame do país, cobram do aluno uma redação porém nem todos encontram-se preparados para faze-la.

        Então, cabe às escolas procurar formas, mesmo que sejam através de meios eletrônicos, de despertar o interesse do seu aluno pela escrita. Além disso, o aluno deve entender que será cobrado dele que ele escreva. Começando dessa forma, aos poucos a sociedade voltará a escrever.


Aluno: José Roberto Ferreira de Souza
Professor: Diogo Didier
Estelita-recife-ocupa
Ocupação cultural do cais Estelita, no Recife
De Recife
“Não se governa uma nação sem ouvir as pessoas. A boa política é feita sempre com muito diálogo, e transparência em todos os sentidos”, escreveu o ex-governador de Pernambuco e candidato do PSB ao Palácio do Planalto, Eduardo Campos, no Twitter, na noite de segunda-feira 16. Enquanto a mensagem era postada na rede social, policiais militares do estado que Campos governava até dois meses atrás se preparavam para cumprir uma ordem de reintegração de posse no Cais José Estelita, uma área abandonada no centro do Recife que é alvo de disputa judicial e estava ocupada por aproximadamente 60 ativistas.
Sob as ordens de atual governador de Pernambuco, João Lyra (PSB), sucessor de Campos, a Tropa de Choque e a Cavalaria da PM descumpriram o acordo de esperar o fim das negociações com o poder público para desocupar o local. A corporação não avisou nem mesmo o Ministério Público Federal sobre a reintegração de posse, como ficou combinado. Cerca de 150 PMs chegaram de surpresa à ocupação às 5 horas da manhã e não deram tempo para que as pessoas deixassem o local. Advogados do movimento foram impedidos de entrar para negociar uma saída pacífica e os PMs não pouparam bombas de gás lacrimogêneo, bala de borracha e spray de pimenta. O saldo foi de pelo menos três feridos e quatro detidos.
O MPF classificou a operação de "arbitrária" e afirmou que a PM usou "medidas típicas de cumprimento de ordens contra criminosos". A Universidade Federal de Pernambuco emitiu nota dizendo que a desocupação "desrespeita frontalmente o acordo envolvendo diversas instituições, a Prefeitura do Recife e os empreendedores" e manifestando "preocupação quanto ao futuro das negociações iniciadas, que tinham como objetivo a defesa de uma cidade melhor, mais humana e mais inclusiva.” A Anistia Internacional também repudiou a ação e afirmou que "condena o uso excessivo da força".
O acordo quebrado foi firmado com os integrantes do movimento Ocupe Estelita, no último dia 23 de maio, na presença de promotores do Ministério Público de Pernambuco, do MPF, da Secretaria de Defesa Social e Direitos Humanos, além de integrantes da Prefeitura de Recife. A presença de promotores, no entanto, não fez com que a PM honrasse sua palavra. Coincidência ou não, a escolha foi organizar a ação para o mesmo dia de um jogo do Brasil na Copa do Mundo (o segundo, contra o México), quando o caso poderia ter menos exposição na imprensa.  A desocupação é o mais recente episódio polêmico de uma briga iniciada em 2008 e que diz respeito a um problema não só do Recife, mas de várias capitais brasileiras: a falta de diálogo e consulta popular sobre o desenvolvimento da cidade, uma situação que beneficia as empreiteiras, as grandes financiadoras de campanha política no País.
O início
Há seis anos, a União decidiu leiloar o terreno do Cais José Estelita. O local tem uma área de aproximadamente 101,7 mil metros quadrados, abriga um pátio ferroviário e uma série de armazéns de açúcar abandonados pelo poder público. Apesar do cenário apocalíptico que domina o terreno, a propriedade está em um ponto estratégico da cidade. A área fica entre Boa Viagem, bairro de classe média alta com uma avenida beira-mar dominada por edifícios de luxo, e o Recife Antigo, como é conhecido o centro histórico da capital pernambucana. Cartão postal do município por ficar de frente para a Bacia do Pina, o local chamou a atenção de um grupo de construtoras. Essas empresas criaram o Consórcio Novo Recife e desenvolveram um projeto com o mesmo nome para a região.

O grupo imobiliário, formado pelas construtoras Moura Dubeux, Queiroz Galvão, Ara Empreendimentos e GL Empreendimentos, comprou a área da antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA) por 55 milhões de reais. A ideia é construir pelo menos 12 torres, sendo sete residenciais, duas comerciais, dois flats e um hotel. Tudo com até 40 andares, além de estacionamentos para aproximadamente 5.000 veículos. No total, o projeto foi orçado em 800 milhões de reais, com custo do metro quadrado estimado em pelo menos 4 mil reais. O preço inicial dos apartamentos vai variar entre 400 mil e 1 milhão de reais cada. O plano causou indignação em professores, arquitetos, movimentos sociais e moradores da região. Mobilizados, eles começaram a acompanhar reuniões do Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU) da Prefeitura, que avaliou a proposta imobiliária do Novo Recife.

O que começou como uma reivindicação natural da população por mais diálogo e participação levou à criação do grupo Direitos Urbanos, que hoje representa a maioria dos integrantes do Ocupe Estelita.
“A Direitos Urbanos canalizou todo mundo que estava insatisfeito. O projeto Novo Recife, por ser de frente para o rio [Bacia do Pina]; corredor natural de ventilação da cidade; área de patrimônio histórico; ligada a várias comunidades e bairros que sofrem pelo abandono dessa área, agrediu as pessoas, agrediu o senso estético das pessoas, e o que as pessoas pensam do que é sustentável”, diz a advogada Liana Cirne Lins, integrante do grupo. “É um projeto que destrói uma paisagem muito bonita, uma das mais bonitas de quem vem de Boa viagem. Não queremos esse desenvolvimento porque isso não é desenvolvimento. Isso  é retrocesso,  é um modelo de urbanismo da década de 70 da década de 80 que está superado”, afirma Lins.
À medida que o Direitos Urbanos se fortalecia, começaram a vir à tona as irregularidades do projeto Novo Recife. Por conta das denúncias, o plano imobiliário é alvo de cinco ações judiciais diferentes, sendo uma do Ministério Público Federal, uma do Ministério Público de Pernambuco e mais três ações populares.
Na área do Cais José Estelita também há um trecho ativo da Transnordestina. O local abriga ainda vagões antigos

Irregularidades
Não são poucos os problemas do projeto Novo Recife. De acordo com o MPF, o primeiro deles é que o leilão da área nunca poderia ter sido feito. Isso porque toda vez que  a União vai vender uma propriedade pública é necessário consultar outros órgãos públicos que eventualmente tenham interesse na área. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) de Pernambuco havia manifestado vontade de se responsabilizar pela área, mas mesmo assim o leilão ocorreu e só o Consórcio Novo Recife se mostrou interessado no Cais José Estelita. Nenhuma outra empresa apareceu para disputar a compra da área. Com isso, o grupo imobiliário pagou o valor mínimo estipulado pelo governo federal para a propriedade. Como desembolsou 55 milhões de reais por pouco mais de 100 mil metros quadrados, o Consórcio Novo Recife pagou pouco menos de 500 reais pelo metro quadrado. Isso em uma das capitais brasileiras mais caras para se morar no País. De acordo com índice Fipe/Zap (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas/Zap Imóveis), que acompanha os preços dos imóveis à venda anunciados na internet, o preço médio do metro quadrado na capital pernambucana é de 5.673 reais.
Ainda que tenha pago um valor irrisório para a área, o Consórcio Novo Recife também deixou de cumprir procedimentos básicos em projetos imobiliários dessa magnitude. O grupo não fez um estudo de impacto de vizinhança, estudo de impacto ambiental nem submeteu o projeto aos órgãos necessários, como o próprio Iphan, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e a Agência Nacional de Transportes Terrestres. Apesar de tudo isso, o projeto imobiliário foi aprovado pelo Conselho de Desenvolvimento Urbano (CDU)  da Prefeitura de Recife  em 28 de dezembro de 2012, a poucos dias do fim da gestão do ex-prefeito João da Costa (PT-PE).  A sessão foi realizada  a portas fechadas e a advogada Liana Lins, do grupo Direitos Urbanos, foi proibida de participar do encontro.
O maior sinal de que o poder econômico  exerce influência desproporcional na disputa entre  construtoras e sociedade civil ocorreu alguns meses depois da aprovação do projeto no CDU. No início de 2013, a então promotora de Defesa do Meio Ambiente do Ministério Público de Pernambuco (MPPE), Belize Câmara , participou de debates  sobre o projeto Novo Recife em audiências públicas e entrou com uma ação civil pública em que solicitou a suspensão do plano imobiliário. Entre outras coisas, Câmara argumentava que o projeto não obedecera critérios básicos, como o parcelamento do terreno [divisão em lotes] antes da aprovação do plano.
Alguns dias depois de a Justiça acolher o pedido e decretar a suspensão do licenciamento da obra, Belize Câmara foi afastada do cargo sob a justificativa de acumular funções. Isso porque ela também era titular na Promotoria da Infância de Jaboatão dos Guararapes, na Região Metropolitana do Recife. “Não posso falar [se foi pressão política que a fez ser afastada], mas isso [acumular funções] é comum entre os promotores. A sociedade não engoliu. O que eu posso dizer é que, em geral, são as maiores construtoras que fazem doações de campanha. E essas construtoras querem contrapartida. Isso gera uma espécie de promiscuidade entre a iniciativa privada e o poder público”, criticou a promotora.
Ocupe Estelita
Além do afastamento de uma adversária, chamou a atenção a facilidade do Consórcio Novo Recife para conseguir autorizações, documentos e alvarás mesmo sem seguir todos os procedimentos necessários.  No último 21 de maio, o grupo imobiliário conseguiu autorização da Prefeitura de Recife para demolir os armazéns de açúcar, mesmo após a Justiça ter proibido qualquer etapa da obra em função da ausência de estudos obrigatórios.
A demolição só não ocorreu por acaso. A derrubada, que seria realizada na calada da noite,  chamou a atenção de um dos ativistas da Direitos Urbanos. O publicitário Sergio Urt passava pela região do Cais José Estelita quando viu a movimentação e resolveu filmar. Ele deu a volta no terreno e conseguiu fotografar e registrar a derrubada da estrutura, mas acabou sendo visto pelos funcionários do grupo imobiliário. Só deu tempo de mandar as imagens para as primeiras pessoas de sua lista de contatos. Logo Urt foi cercado pelos seguranças e espancado. Ele teve o celular quebrado e os documentos roubados. Só após muita insistência conseguiu sua carteira de volta.
A informação circulou rapidamente no Facebook e uma multidão de pessoas foi ao terreno para protestar e pressionar pela interrupção da demolição. Para vigiar os funcionários e impedir que as máquinas voltassem a derrubar os armazéns, surgiu a ideia dos ativistas de ocupar o Cais José Estelita. Inspirados no "Ocupe Wall Street", movimento de protesto contra a desigualdade econômica e social que surgiu nos Estados Unidos, eles buscaram barracas, mantimentos e resolveram passar a primeira noite na propriedade.
A partir daí, apesar do silêncio da imprensa pernambucana em relação ao caso, o movimento ganhou adesão e o número de ocupantes aumentou. Com a repercussão, o prefeito de Recife, Geraldo Júlio (PSB), aceitou intermediar uma negociação entre o grupo imobiliário e o movimento. Ainda assim, a Justiça concedeu reintegração de posse aos novos proprietários, mas a liminar foi contornada depois que a PM concordou em esperar o término das negociações. O alvará de demolição também foi suspenso pelo poder municipal.
Nos 28 dias em que durou a ocupação, o Ocupe Estelita ganhou também apoio da classe artística de Recife. Músicos, escritores e cineastas ajudaram a romper com o silencia da mídia tradicional ao fazerem campanha pela causa na internet. Os músicos Ney Matogrosso e Zélia Duncan, o cineasta Kléber Mendonça e a banda Nação Zumbi foram alguns dos nomes que entoaram o coro. E, com o apoio estrutural do Som na Rural, projeto de música itinerante da capital pernambucana, o movimento conseguiu levar nomes da cena musical de Recife, como Karina Buhr e Otto, para fazer show na ocupação, de graça.
Em domingos diferentes, os dois levaram aproximadamente 10 mil pessoas ao Ocupa Estelita. A exposição gerou tensão até mesmo para Otto, uma figura pública conhecida. O cantor recebeu ligações com recomendações de  não tocar no Cais José Estelita. Otto atribuiu os avisos “apenas amigos desinformados”. “Acho que a gente tem que mapear esses lugares que, às vezes, não é nem histórico. Mas tem que mapear para ver onde é que tem lugares como esse. Isso tem que ser uma ferramenta de mobilidade. “A gente nunca deixou de sofrer em Recife, mas só agora  temos um avanço tecnológico, com as mídias sociais, para segurar essa onda”, diz. “Em qualquer lugar do mundo, a construção de 12 torres é um impacto muito grande. O cimento tem muita força. Recife já é uma cidade muito afundada. Já destruíram muita coisa aqui”, defende Otto.
O cantor Otto fez um show de graça no Cais José Estelita em apoio à ocupação. Aproximadamente 10 mil pessoas foram ao local

A pressão do capital
Apesar de Otto explicar que recebeu apenas ligações de amigos preocupados e não intimidações, esta não seria a primeira vez que as construtoras pernambucanas recorrem à rede de influências para tirar oponentes do caminho e conseguir levar seus projetos imobiliários à frente.  Autora de uma das ações do MPF contra o projeto Novo Recife, a procuradora da República Mona Lisa Ismail admite que o poder econômico das empresas costuma influenciar, sim, as decisões judiciais.
“O nosso país passa por uma crise de legitimidade institucional. Isso ficou claro com a onda de protestos e decorre da falta de credibilidade da população nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Na grande maioria das ações [no Judiciário] envolvendo interesses econômicos e empreendimentos de destaque, no final do processo, as decisões sempre tendem a beneficiar o interesse privado”, lamentou Mona Lisa em tom pessimista, quando questionada sobre a possibilidade da reintegração de posse ser cumprida no Cais José Estelita, um dia antes da PM aparecer de surpresa na ocupação.
Para Liana, a ação só deixa evidente a falência do Estado Democrático de Direito, já que ação foi "uma clara repressão política". "O objetivo da ação da polícia do estado de Pernambuco claramente não era a desocupação do imóvel. Tratava-se de notório objetivo de usar da máxima violência contra os ativistas, ainda que, e especialmente porque, sem nenhuma necessidade que justificasse a ação agressiva. O direito está de luto e desempoderado. Em seu lugar comanda o dinheiro, com as instituições estatais a serviço do poder econômico", afirma.
Apesar do desfecho, as lideranças do movimento Ocupe Estelita acreditam que a repercussão em torno da violência policial na reintegração de posse vai fortalecer ainda mais o movimento. Politicamente, o caso já criou uma saia justa. Vice na chapa de Eduardo Campos, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva condenou a ação da PM. “O pedido de reintegração de posse expedido pela Justiça e executado nesta terça-feira poderia ter seguido o mesmo princípio do diálogo, em vez de terminar com uma desocupação arbitrária”, escreveu ela no Facebook. Eduardo Campos continua calado.
Outro lado
A reportagem de CartaCapital questionou a gestão de Geraldo Júlio sobre como, entre outras coisas, a Prefeitura de Recife concedeu alvará de demolição dos armazéns do Cais José Estelita mesmo após a Justiça ter dado liminar que suspendeu parte do projeto. A assessoria de imprensa respondeu apenas que este ato "não envolve a atual gestão". Além disso, o comunicado enfatiza o papel do prefeito no que diz respeito as ações mitigatórias, como são chamadas medidas que tentam reduzir impacto negativa de alguma obra.
"Esta atuação garantiu os seguintes benefícios para a cidade: Parque Linear com 90 mil metros quadrados ao longo da Bacia do Pina (maior que o Parque da Jaqueira); seis quadras poliesportivas e áreas de lazer sob o Viaduto Capitão Temudo; Biblioteca Pública no giradouro do Cabanga; intervenção na esplanada do Forte das Cinco Pontas, com a demolição do viaduto, urbanização e paisagismo; implantação de ciclovia conectando a zona sul com o Bairro do Recife; dentre 16 medidas acordadas, quase duplicando o valor sob responsabilidade do empreendedor, de 32 para 62 milhões de reais", diz o texto. Estas ações, no entanto, são bastante questionadas pelos integrantes do movimento Ocupe Estelita já que o Parque Linear ficaria localizado entre duas vias de alta velocidade. Além disso, a principal reivindicação é rever a construção das torres de luxo.
O Consórcio Novo Recife, por sua vez, nega que o leilão tenha sido realizado de forma irregular. De acordo com a assessoria de imprensa do grupo imobiliário, o Iphan não manifestou interesse na área a tempo. Essas afirmações não batem com os fatos apresentados pela procuradora Mona Lisa Ismail, que diz ter ouvido técnicos do Iphan tanto de Pernambuco como de Brasília.
"O que o MPF não diz é que tanto o pleno do TRF/5ª Região, quanto a sua 4ª Turma, foram unânimes em cassar a decisão liminar do 1º Grau (21ª Vara Federal/PE), que acolhia a sua pretensão de obstaculizar o projeto Novo Recife, por equivocadamente considerar que o Pátio Ferroviário das Cinco Pontas [localizado dentro do Cais José Estelita] deveria ser preservado como um todo, o que, aliás, como informado discorda o Iphan, que não se opõe a construção do empreendimento", rebate o texto.
Sobre as acusações de não ter parcelado o terreno ou elaborado estudos, como o Estudo de Impacto de Vizinhança, entre outros, a assessoria de imprensa do Consórcio Novo Recife resume que "todos os procedimentos legais foram cumpridos". "O projeto atende rigorosamente as Leis municipal, estadual e federal, e todos os estudos necessários para sua aprovação foram anexados, inclusive com a apresentação do Memorial de Impacto", afirma o comunicado.
Sobre as ausências de laudos elaborados por órgãos como o Dnit, o Consórcio Novo Recife esclarece que irá submeter o projeto quando for necessário emitir "Alvarás de Construção". "O projeto tem a liberação e concordância por parte do Iphan. As consultas ao Dnit e ANTT, como recomendado na aprovação pelo CDU (Conselho de Desenvolvimento Urbano), e solicitadas pela Superintendência Regional do Iphan, serão necessárias na ocasião da emissão dos Alvarás de Construção, procedimentos, ainda, em curso", conclui.
Visto na: Carta Capital

      “Tudo é composto por água”, a frase do filósofo Tales de Mileto associa-se com a importância da água para a sobrevivência humana. Tanto no presente, como no passado, o homem utilizou os recursos naturais como inesgotáveis mecanismos de sobrevivência. No entanto, já se percebe no Brasil regiões que sofrem com o esgotamento de água, causado pelo desperdício de alguns e pela má distribuição desta.

     Segundo o IBGE, cerca de 70% da água tem sido desperdiçada no Brasil. Isto acontece porque a maioria da população nunca teve um refreamento do consumo desta, nem foi educada para reutiliza-la nem mesmo para as problemáticas vindouras da escassez de água no país.

     Um protótipo da escassez de água acontece no sertão nordestino do país. A principal fonte de renda da população do local é a agricultura e a pecuária, mas com o esgotamento das reservas hídricas, centenas de sertanejos vieram a falência e milhares de pessoas, sem fonte de renda e sem oportunidade, passam fome e sede, muitas até morrendo.

     Faz-se fundamental perceber, ainda, que a maior parte da energia que abastece o país vem das usinas hidroelétricas. Elas transformam teoricamente a força da água em energia elétrica, abastecendo a população. No entanto, percebe-se que a quantidade de água nestas represas não está sendo mais suficiente para a produção. Isto corrobora para que aconteçam apagões frequentes e aumentos na conta de energia.

    Em linhas gerais, é evidente a importância da água para a população. É necessário que as políticas públicas da nação passem a investir na educação da população em relação ao tema, como também na distribuição de água onde ocorre a escassez. Só assim, ocorrerá uma dizimação do desperdício de água e uma distribuição igualitária deste recurso essencial para a vida. 


Aluna: Gisele Pessôa
professor: Diogo Didier 

Copa do Mundo sediada no Brasil significa, mais que os jogos e a torcida pela conquista de um troféu, a vinda de turistas de todos os lugares do mundo. Estrangeiros que, antes mesmo de pisar em solo brasileiro, muitas vezes já têm uma ideia do que vão encontrar: futebol, samba, festa, gente cordial, caipirinha e mulheres.

A “beleza” e “sensualidade" da mulher brasileira são vendidas como um atrativo, quase como um patrimônio nacional, tirando o fato de que estamos falando de pessoas, e não de cachoeiras ou conjuntos arquitetônicos. Enquanto isso pode ser visto por muitos com orgulho, mais um quesito para sermos “melhores” do que os outros, acho preocupante e até perigoso que sejamos retratadas para o resto do mundo desta forma.

Uma amiga foi assediada na rua por estrangeiros que vieram para a Copa. Outro estrangeiro achou por bem agarrar e beijar uma repórter, enquanto ela trabalhava, de forma que ela não teve sequer escolha se queria ou não aquele contato físico. No clipe oficial da Copa, o foco da câmera na bunda de passistas que rodeiam o cantor estrangeiro dão uma pista de onde vem a ideia de que o corpo da mulher brasileira, especialmente da mulher negra, existe para ser admirado. Está ali à disposição.

Veja bem: o problema não é a vinda de estrangeiros. Os turistas que assediaram minha amiga não fizeram nada muito diferente do que os homens brasileiros já fazem todo dia, com Copa ou sem Copa. A nossa existência ser resumida às nossas bundas, coxas e seios também não foi invenção de seja lá quem dirigiu o clipe da Copa.

Os estrangeiros que compram essa imagem da mulher brasileira e vêm para o nosso País acreditando que estamos aqui para servi-los (inclusive vários deles vindo alimentar uma rede de exploração sexual que muitas vezes vitima crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social) certamente são parte do problema; tanto quanto os brasileiros, que consciente ou inconscientemente, reforçam esse machismo que nos despe não só de roupas, mas de humanidade.

Basta olhar com atenção para o jornalismo e para as propagandas “made in Brazil” nesta época de Copa. Em um comercial da TAM, por exemplo, que dá as boas-vindas a todo o tipo de torcedor, torcedoras só são mostradas quando o narrador dá as boas-vindas às “princesas”.

Porque é claro que se mulheres marcam presença nos estádios é para agradar o olhar masculino. Isso fica ainda mais evidente no jornalismo punheteiro que elege as “musas” da torcida, reforçando que a existência da mulher só serve ao propósito de embelezar o ambiente que ela frequenta, no caso, a arquibancada.

Seria uma grande sorte se fôssemos vistas e tratadas assim apenas durante a Copa. Daria até pra comemorar. O negócio é que não: esse tratamento nos é dispensado cotidianamente, para onde quer que a gente olhe, onde quer que a gente vá, não importa o que a gente faça.

O mais trágico é que, apesar da imagem hiperssexualizada da mulher brasileira, não somos apenas nós que sofremos com essa constante desumanização. Não é como se estrangeiros só assediassem mulheres quando viessem ao Brasil. Mulheres de todo o mundo também passam por isso, em maior ou menor grau, dependendo de onde são.

Mas, de volta ao Brasil: quando saímos na rua, alguns homens acreditam que estamos ocupando aquele espaço público para obter a aprovação de seu olhar. E não são poucos. No mapa da campanha Chega de Fiu Fiu, os depoimentos deixados por mulheres dão uma ideia de como é comum e perigoso esse pensamento de que se estamos andando sozinhas na rua é porque estamos à disposição. Pergunte a qualquer mulher: essa invasão dos nossos corpos e espaços são rotina para praticamente todas nós.

“Ah, cantada é inocente, elogio não tira pedaço”. Isso não poderia ser mais falso. Primeiro, porque é sim uma violência e é ainda mais cruel tentar esvaziar ou minimizar o constrangimento, o medo, a raiva e até a culpa que sentimos quando passamos por isso.

E é como se a vontade do homem de “elogiar” valesse mais do que a nossa tranquilidade, nossa autonomia e o nosso direito de usar o espaço público sem sermos intimidadas ou perturbadas. Ou seja, de novo, nossa existência sempre em segundo plano em relação aos desejos dos homens. Depois, porque esse tipo de assédio é uma manifestação da ideia de que somos corpos disponíveis – e isso é munição que valida violências ainda mais extremas contra nós.

Se existimos para satisfazê-los e estamos à disposição, então não veem problema em abusar de nossos corpos mesmo contra a nossa vontade. Então “tudo bem” nos violentar, agredir, até arrancar a vida se não correspondemos às suas vontades, especialmente quando fugimos do padrão de “mulher desejável”.

Lésbicas então só existem como adereço para as fantasias sexuais masculinas ou para serem “consertadas” por um homem que as satisfaça “de verdade”. Não veem que existimos para nós mesmas, que temos vontades e desejos próprios.

Essa ideia de que nossa existência gira ao redor da aprovação e da satisfação masculina está tão introjetada na sociedade que mesmo quando um ou dois filmes são protagonizadas por mulheres, com as histórias girando em torno delas e não de algum homem, gera indignação em uma parcela considerável do público masculino (veja, estou falando de uma simples representação em meio a um oceano de estereótipos machistas propagadas desde sempre, em todos os lugares). Como assim um filme em que as mulheres não servem de acessório a um protagonista homem ou para agradar o público masculino? Pois é.

É contra esse tsunami de estereótipos que constroem sobre nós e que propagam de todas as formas, em todos os meios, e contra as agressões decorrentes dessas ideias, que temos que lutar diariamente. Temos que afirmar e reafirmar nossa existência como seres humanos diversos, complexos e autônomos. E se escrevemos ou falamos sobre isso, também geramos indignação: afinal, como pode uma mulher existir para escrever algo que não agrade os homens, algo que os faz sentir desconfortáveis por pensarem ou agirem de determinada forma?

Só digo que é melhor se acostumarem a isso. Existimos, sim. E toda vez que tentarem nos negar nossa autonomia como seres humanos, nossas vontades próprias e nosso protagonismo em nossas histórias, vamos fazer mais barulho do que uma arquibancada inteira de torcedores.

Visto na: Carta Capital
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     Como alvo de grande discussão entre décadas, o aborto chega até hoje como um tema bastante polêmico na sociedade brasileira. Em que boa parte da população condena, julga e discrimina o ato abortivo realizado pelas mulheres, que muitas vezes se encontram em um muro encurralada, encarregada de julgar o seu futuro entre o melhor para si ou as diretrizes da sociedade. Prova cabal disto é o aumento no número de abortos realizados clandestinamente no país. 

      Perante a constituição brasileira o ato abortivo é considerado crime, exceto em caso de estupro, risco de vida para mãe e anencefalia. No entanto, as discussões referente a lei ganha proporções cada vez maiores. O fato de existirem apenas 3 exceção, favorece bastante para que haja autos números de abortos clandestinos no país, com isso forçando as mulheres a ir em busca das casas clandestinas de aborto.

      Segundo um estudo realizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), revelou que cerca de 45 milhões de abortos são realizados anualmente. Esse é um dado assustador e revela o quanto as mulheres ariscam as vidas, podendo ficar com sequelas ou ate chegar a morte. Diante disto o governo desenvolveu o projeto de bolsa estupro, visando reduzir o número de abortos, dando um salário mínimo durante 18 anos.

      Vale salientar que muitas vezes, o ato da mulher optar por abortar, a culpa só sobrecai nela. Tendo em vista que, a Igreja Católica condena o ato abortivo e que mais da metade da população seja cristã e machista, acaba favorecendo a condenação a mulher. Exercida muitas vezes pelos amigos, vizinhos e até mesmo familiares, que condenam e chegam até excluir a mulher do meio social. A ilegalidade do aborto compromete os direitos inerentes à democracia e, por isso, é preeminente o seu aperfeiçoamento articulado à laicidade do estado, garantindo às mulheres mais direitos e cidadania.
      Logo, faz-se necessário que o governo encare a legalidade do aborto pelo fato de se tratar de um reconhecimento do problema de saúde público, que tem sido amplamente demostradas e discutido em todo o país. Com a legalização do aborto, o país avançaria para promover, não apenas a laicidade e a democracia, mas, especialmente, os direitos, a autonomia, a cidadania e a saúde das mulheres.

Aluno: Thiago Barbosa
Professor: Diogo Didier

Um golpe na Internet reflete tanto o crime da sociedade contra as mulheres que envelhecem quanto a natureza complexa do amor


Primeiro, o golpe.

Um homem se apresenta no Facebook dela, psicanalista e escritora. Ele mora nos Estados Unidos, mas é irlandês com mãe brasileira. É viúvo, tem dois filhos, um adotado, já adulto, de 25 anos, e uma adolescente de 13. Trabalha com geologia e faz negócios com petróleo. Tem 60 anos, sente-se sozinho, faz seis anos que se tornou viúvo e busca um amor para dividir a vida. Por inspiração da mãe, começou a buscar perfis de brasileiras no Facebook. Chegou até ela, explica, pelo sorriso da foto. Eles conversam em inglês. O inglês dele é melhor do que o dela, ele a corrige com carinho, a ensina. O inglês dela melhora a cada dia. Tornam-se presentes um para o outro, apesar da distância. Pelo Facebook e, cada vez mais, pelo viber. Ele acompanha o dia dela, ela acompanha o dele. Ele quer saber o que tem para o jantar, como foi o dia de trabalho, como ela dormiu, qual é a crocância do pão no café da manhã, o que a deixa triste ou feliz, do que ela tem medo. Ela, viúva também, com mais de 60 anos, filhos adultos com suas próprias famílias, descobre que se sentia só antes dele. Que, apesar de gostar do seu trabalho, de conviver com vários bons amigos, de ter uma vida rica de sentidos, faltava algo da ordem do essencial. 

Antes dele, ela tinha aceitado com demasiada facilidade que o amor e o sexo estavam encerrados para ela. Antes dele, tinha sido obediente demais ao sujeitar-se ao padrão social que impõe o envelhecimento da mulher como o fim do desejo – ou como a impossibilidade de despertar paixão. Percebe que lhe faz falta compartilhar o que chama de “o comum da vida”. E agora, a cada noite, ela diz: “Me acolhe nos seus braços”. E ele a acolhe. Ela dorme entre braços imaginários, mas tão reais. E a cada manhã, ele divide com ela o pão com manteiga, o croissant, a geleia de pêssego. Divide também as dúvidas, os sonhos dele de se aposentar em breve para viver outro tipo de vida, o passeio ao zoológico que ele faz com a filha, as demandas da bela casa em que ele vive e que ela já conhece por fotos. Conversas comezinhas, conversas tão importantes. Em determinado momento, ele faz um comentário picante. Gostaria de vê-la preparando o jantar de calcinha. Ela dá uma resposta seca. Ele recua, nunca mais faz nenhuma alusão. É um homem sensível, às vezes é possessivo, ela gosta. É como se ele a conhecesse por dentro, como se a tivesse conhecido desde sempre, porque a compreende. Mas não é um galã. As fotos que ele envia para ela, muitas, são fotos de gente comum, nem tão bem enquadradas, nem tão bem focadas, sempre posadas, como são as fotos de gente comum. Ele é um homem da sua idade, sem barriga tanquinho, sem músculos jovens, com as marcas do tempo, os cabelos brancos, entradas que anunciam a calvície. Como ela, que é bela, mas carrega todas as suas marcas. Ela surpreende-se consigo mesma. 

Não imaginava apaixonar-se por alguém tão “real” assim. Alguém que envelhece como um homem comum, sem nenhuma excepcionalidade, exceto a de estar presente, de compreendê-la tão bem, de querer estar com ela. E ele quer. Pergunta se ela estaria disposta a mudar-se para os Estados Unidos para tentar uma vida com ele, se seria capaz de ajudá-lo a terminar de criar a filha adolescente. Como ele poderia adivinhar que ela sempre quisera uma filha, mãe de meninos que era? Ela busca algo físico nele, encontra as mãos. Acha as mãos dele lindas, fortes. Mãos de homem. Quer as mãos dele sobre o corpo dela. Agora é mais sério. Ele virá ao Brasil só para vê-la, para descobrirem se o romance virtual realiza-se no concreto dos dias, se a pele responde ao toque, se é possível sonhar com uma vida juntos sem a mediação da tecnologia. Ela conversa com a filha dele pelo telefone. A menina diz: “Eu amo você porque você ama o meu pai”. Ela vai para Paris visitar um dos próprios filhos, e ele já conversa com a sua nora pelo celular. O filho dela está preocupado, questiona, duvida, aponta as incongruências da história. Ela não quer escutar. Cobre os buracos do roteiro com seu desejo de continuar vivendo um romance. Pesquisa hotéis no Brasil, peregrina com as amigas por lojas de lingerie. Ela sabe que a pele já não tem a elasticidade da juventude, que os músculos são flácidos, mas sente-se linda. Abre o provador mal coberta por rendas, sem pudor – onde foi parar o pudor? Pergunta: “Como eu estou?”. Ela sabe como está. Linda. 

Emagrece quase 10 quilos, já não sai na rua de qualquer jeito, sente-se desejada quando passa. As pessoas já não acreditam que ela esteja na fila certa quando se posta junto aos idosos no banco. Ela está ansiosa. Muito. Antes de vir ao Brasil, porém, ele fará uma viagem rápida à Nigéria, junto com o filho. Vão tratar de negócios de petróleo. Em seguida, virá vê-la. Ela prepara-se para a chegada dele. Imagina várias vezes por dia o momento em que ele emergirá da sala de desembarque do aeroporto. Se ele vai dar um sorriso quando a enxergar. Se arrancará sua calcinha, acertará o fecho do sutiã. Imagina o sexo. Não lembra quando foi tão feliz, tão inteira. No dia da viagem para a Nigéria, ele manda fotos dele de terno, roupas de viagem, uma pasta elegante de trabalho. Envia fotos de vários momentos, ela o acompanha quase em tempo real.
De repente, ele passa horas em silêncio. Ela preocupa-se, pede notícias. Quando ele finalmente responde, está arrasado. Foram assaltados no país africano. Os ladrões levaram cartões de crédito, dinheiro, documentos, tudo. O filho reagiu e está em coma num hospital. Ao final da mensagem, ele pergunta se ela poderia lhe emprestar dinheiro. Só 775 dólares para pagar o hospital e o transporte até o aeroporto. Ela então desconfia. Por que ele não procura a embaixada americana, por que não conversa com seus parceiros de negócios? Ela começa a achar a história mirabolante demais. Ele já tem o nome e uma conta de alguém que o ajuda, explica como ela pode fazer uma remessa de dinheiro do Brasil. Ela percebe que o tom dele mudou. Titubeia. Ele a pressiona, ela não gosta. Quanto mais ele pressiona, mais ela recua. A filha dele manda uma mensagem pedindo notícias do pai, preocupada com a falta de informações. Ela fica ainda mais desconfiada. Não dará o dinheiro, mesmo que isso signifique perdê-lo. O romance acaba. Ao voltar aos Estados Unidos, ele ainda diz para ela. Sua primeira crueldade explícita: “Você não respondeu para a minha filha. Você não tem condições de ser mãe”. Logo depois, o perfil dele desaparece do Facebook.

Ela faz o que poderia ter feito muito antes. Se quisesse. Se realmente quisesse. Pesquisa as fraudes do gênero na Internet. Descobre os blogs e sites brasileiros e internacionais sobre as quadrilhas que atuam no golpe cada vez mais comum. Vê supostas fotos dos criminosos. Vários homens amontoados num cubículo com seus lap tops no colo conversando com mulheres como ela. Mulheres como ela significando mulheres mais velhas e sozinhas, mulheres carentes e por isso mais frágeis, mais dispostas a acreditar no inacreditável. Mulheres já desacostumadas a serem desejadas. Enviando a elas fotos de outros homens, que possivelmente não saibam que são usados para seduzir. Imagens capturadas nas redes sociais, podem ser de qualquer um. Um golpe bem planejado, a vítima em potencial é contatada só depois de uma pesquisa na Internet. Inclusive de suas condições para manter um romance em inglês, o que no Brasil é um indício de pertencer pelo menos à classe média e, portanto, ter algum dinheiro guardado ou acesso à crédito. Para cada uma delas um perfil de homem, em imagens e história de vida, uma proposta que já sabem esperada por aquela mulher tão meticulosamente analisada. Para cada mulher uma abordagem, uma forma de se comportar, um rosto e uma personalidade correspondentes às fantasias dela, um enredo adequado àquela que expõe – pode ser mais ou menos, mas expõe – um pouco de si a cada dia nas redes sociais.

Ao seu redor, amigos e familiares não acreditam como ela, uma mulher tão inteligente, tão vivida, tão bem sucedida, tão conectada ao mundo, pode ter caído num golpe. Um golpe assim era para outras, não para alguém com seu perfil. Ela lê depoimentos de mulheres como ela que foram muito além dela, mulheres que perderam milhares de dólares que haviam economizado ou mulheres que se endividaram para manter o roteiro amoroso vivo. Lê entrevistas com supostos criminosos que contam como o esquema funciona. Naquela noite vê fotos dos quadrilheiros, que assume como reais – podem não ser, como as do amante não eram, mas ela acredita que sejam. Se antes acreditou no romance, agora acredita na fraude. Fica mal. Bem mal.

É a sua noite de vítima. “Eu os identifiquei com ratos. Parecia que ratos andavam sobre o meu corpo. Eu expus tanto a minha intimidade, e era para aqueles homens das fotos na Internet ou outros como eles. Um ao lado do outro, sentados no chão, falando com mulheres como eu. Me expus não com fotos da minha nudez, porque não faria isso, mas de forma muito mais profunda do que isso. Passei a noite encolhida, com os ratos sobre o meu corpo.”

É o segundo capítulo da vítima. A enorme vergonha de ter caído numa história como essa, que agora para todos aparece claramente como uma fraude desde sempre. E o discurso que corre por baixo, o discurso social. Nem sempre pronunciado, mas presente: “Então você achou que, aos 50, aos 60, um homem iria se apaixonar perdidamente por você?”. Agora é oficial, você não só é uma vítima, mais pobre e mais endividada depois do golpe, mas “uma mulher velha e burra”. E como espernear contra esse encaixotamento imposto às mulheres, depois de ter se entregado a um homem que jamais existiu? Depois de estar se sentindo uma “mulher velha e burra”? De intuir que se sentirá uma “mulher velha e burra” para sempre? É a aniquilação final.

Não necessariamente, porém. Pode ser. Ou não.

Essa é a parte mais interessante. Quando nos encontramos, ela queria denunciar o golpe sem se identificar. O desejo que me anuncia é o de que outras mulheres sejam alertadas para a fraude. É um desejo comum, eu o escutei muitas vezes. Há as vítimas que se calam por vergonha (ou por medo, no caso das que são violadas e espancadas). Essas ficam presas no lugar de vítima, precisam de ajuda para romper com o silêncio de algum modo e sair do lugar que as condena à imobilidade. Ou permanecem para sempre como estátuas aprisionadas num gesto que estanca a vida. Mesmo quando o ato que as vitima cessa, elas continuam vítimas, porque não conseguem dar sentido ao vivido e se inventar de outro jeito. Acreditam que só sabem ser vítimas, que vítima é tudo o que são. Agarram-se a essa identidade como se fosse a própria pele porque, por mais incômoda que seja, estão lidando com o conhecido.

E há aquelas que rompem com o lugar da vítima denunciando, seja à polícia, seja a outras mulheres, à imprensa, ao mundo inteiro. Criam um blog ou uma ONG, algumas passam a perseguidoras de seus algozes, outras ajudam mulheres que passam por experiências semelhantes a sair da paralisia. Essas deslocam sua posição no jogo. De certo modo, continuam identificadas com o vivido, que determina suas escolhas dali em diante, mas pelo avesso e de forma ativa. A pele de vítima já não as veste.

Conversamos por duas horas e meia. Conheço o seu nome e o seu trabalho, mas é nosso primeiro encontro ao vivo. Ao escutá-la, percebo que ela teve o seu momento de vítima, a noite dos ratos. Era necessário que assim se reconhecesse, porque foi efetivamente enganada. Era um fato. E não se nega os fatos. Mas, em seguida, é necessário dar sentido a eles. Sem isso, o lugar de vítima se cristaliza. Em vez de uma mulher complexa, com suas perdas e seus anseios, haverá apenas um arremedo dessa mulher, o da vítima que jamais supera sua condição. Sem criar sentidos que permitam seguir adiante, seria preciso acreditar na versão de quem tentou extorqui-la, a de que é uma “mulher velha e burra” que acredita em qualquer coisa, inclusive que pode ser amada e sexualmente desejada, apesar de não ser jovem nem ter um corpo de passarela.

Aceitar essa versão como a única verdadeira tem roubado algo muito mais importante do que dinheiro das mulheres que caem nessa fraude. Aceitar essa versão é cimentar o olhar social que permite que fraudes como essa aconteçam. É deixar-se enquadrar numa cultura que oprime as mulheres com o mito contemporâneo da eterna juventude. É acatar a ideia de que marcas e beleza não são compatíveis, de que desejo, paixão e sexo são prerrogativas limitadas pela idade.

Ela, não. Ela desfere um contragolpe.

Já não estou diante de uma vítima. Pergunto a ela: “Se você soubesse o que sabe agora, que esse romance é uma fraude, preferia não tê-lo vivido?”. Ela não hesita: “Preferia ter vivido tudo o que vivi. E ter parado exatamente onde parei. Ele me deu muito”.

Não é uma ilusão. Por paradoxal que pareça, ela ganhou muito. Enquanto viveu o romance, ele era real. O homem, que hoje sabemos que não existe, era real. Essa realidade a resgatou, dia a dia, de uma vida menos viva. “Eu precisava do olhar do outro. De um homem que não corresse quando eu dissesse a minha idade, que me lembrasse de que sou desejável, que me lembrasse principalmente de que quero compartilhar não o extraordinário, mas o comum da vida. Quero ter alguém comigo dividindo o café da manhã, compartilhando as experiências do cotidiano e também arrancando a minha calcinha. Estou aberta para isso e antes não estava. Ele me devolveu algo que estava anestesiado em mim. Às vezes era tão forte essa percepção que sentia como se tivesse voltado a ovular. De certo modo voltei, não biologicamente, mas de uma maneira mais profunda. Antes eu me sentia só um corpo mais flácido do que na juventude, um rosto marcado pela idade. O olhar dele foi o espelho onde eu pude me enxergar muito além disso, pude me enxergar como uma mulher, na inteireza do que é ser uma mulher. Ele não existe? Talvez seja um coletivo de pessoas conversando comigo para me extorquir depois? Mais um golpe sórdido? Não importa. Porque esse olhar sobre mim mesma ninguém pode me tirar, esse olhar agora é meu. Seja lá quem for, me despertou, me ajudou a resgatar a minha integridade como mulher, como pessoa, o muito mais que eu sou para além de um corpo que envelhece. Nesse sentido, sou muito grata.”

Para ela, talvez o conselho a outras mulheres seja: “Caia no golpe, acredite, mas não pague”. Mesmo os 700 dólares, que seria só o início da extorsão, seria um preço baixo a pagar pelo que recebeu, caso tudo se resumisse a uma troca de mercado. É uma brincadeira, claro. Para que ela possa manter a realidade do que viveu, mesmo depois de saber que se tratava de uma fraude, era preciso que fosse real em algum momento. O amor que viveu, mesmo depois de comprovado o golpe, é real no que nela produziu de realidade. Sob esse olhar, o maior lesado foi o golpista, que não viveu nem o amor, nem recebeu o dinheiro.

Se o golpe só funciona porque a sociedade ocidental determinou que mulheres deixam de ser desejáveis ao envelhecer, a maior perda seria não financeira, mas acreditar nessa construção social como uma verdade totalizante. Talvez essa seja a fraude maior, aquela que arranca dessas mulheres, dia após dia, algo muito mais caro do que dinheiro. Arranca-lhes uma dimensão da vida. Para esse crime não há polícia, não há quadrilha, não há materialidade. Para esse crime só existe a resistência, a não capitulação de cada uma.

Para esse crime há o que ela fez: o contragolpe. Ela mostra as fotos do homem que para ela agora é um ex-namorado, de uma história de amor que deu certo por algum tempo e acabou por razões bastante heterodoxas. Ela ainda está se despedindo dele, por isso as fotos continuam no celular. “Olha essas mãos, olha esse peito”, comenta. Eu não vejo nada que despertaria meu desejo, aquele homem não diz nada para mim. De certo modo, não é assim o amor? Uma verdade apenas para aquele que o vive, que vê no objeto do amor o que ninguém mais vê? O outro não é, em certa medida, uma construção, uma realidade particular daquele que ama, como mostra Ela, o brilhante filme de Spike Jonze?

Ela me parece bem. E uma mulher tão bonita.

Entre as mudanças que o romance produziu nela, está a de se descobrir capaz de se apaixonar por um homem possível. Não um padrão de beleza, não um cara mais jovem, um homem da sua idade, com sua bagagem particular de derrotas, perdas, desejos e sonhos. Passado, mas também presente. De novo o paradoxo: o homem que era uma fantasia a ensinou a acolher o homem real.

A cada vez que ela sai de casa, agora, arruma-se pensando que pode encontrar esse companheiro possível. Sem esquecer, jamais, que amar é um risco. Não só o da fraude, que ela acabou de viver, mas um risco ainda maior, que é o de não ser uma fraude. O de se arriscar ao outro, a ser alcançada por um outro. Um risco fascinante, que agora ela voltou a achar que vale a pena.

Quando nos despedimos, ela se preparava para pegar um avião para passar o dia com um velho amigo, um com o qual sabe que não viverá uma história cotidiana, mas que poderia abraçá-la naquele momento. Enquanto aquele, que ela ainda não conhece, estava atrasado para o café da manhã, depois de tanta expectativa ela achava que poderia ser bom ter um homem que simplesmente lhe arrancasse a calcinha. Ele havia lhe dito: “Venha, os ipês floresceram”.

Há alguns dias, recebi uma mensagem dela: “Os ipês, exatamente, não vi… Mas voltei florescida”.

Fonte:El Pais

Nas avenidas, nos clubes, nas saunas, na vizinhança e também na internet, muitos são os locais onde se pode encontrar a prostituição. Seus encantos enfeitiçam homens e mulheres há gerações. Diante de tamanha hipnose, parece que poucos notaram que há uma incoerência nessa relação da qual o sexo é comercializado. A priori, a sociedade tem a vaga ideia de que o profissional do sexo é aquele que recebe para cumprir um determinado papel. Entretanto, numa análise mais centrada, percebe-se que na prostituição não há papeis principais ou secundários. Distantes dessa teatralização sexual, o que se vê são duas pessoas carentes em busca de prazeres diferentes. Seres desejosos de uma satisfação mútua, mas que infelizmente são tolhidos de realiza-las por diversas razões. Então, surgem os guetos sexuais, espaços onde a concretização do prazer ganha vida, exibindo a verdadeira face da prostituição: a de uma sociedade que não aprendeu a lidar com o próprio ato sexual de forma naturalizada. 

Sem registros precisos na história da humanidade, mas lendariamente conhecida como a profissão mais antiga do mundo, a prostituição sobrevive na atualidade entre a liberdade de sua prática e o moralismo da sociedade. Dela, homens e mulheres, insatisfeitos com as imposições sociais de cada época, buscam uma realização sexual fora dos moldes convencionados pelos dogmas religiosos ocidentais, dos quais têm a monogamia como padrão. No entanto, essa espécie de transgressão, que é vista ora como deleite por alguns ora como uma afronta aos valores conjugais por outros, não está apenas limitada aos famosos profissionais do sexo. Numa sociedade onde o corpo é cada vez mais coisificado e a sexualidade humana ainda é vista como tabu, o resultado é a prostituição de indivíduos, que muitas vezes, nem sequer tem a noção de que estão sendo sexualmente comercializados.

Para efeito conceitual, denominam-se prostitutas aquelas pessoas que recebem dinheiro para realizar fantasias sexuais. Semelhantes ao gênio da lâmpada, esses profissionais fazem dos impossíveis sonhos dos seus clientes, a mais doce realidade. Exercendo essa função com total esmero, estão às mulheres, principais protagonistas desse teatro a dois. Elas que povoam ruas e bordeis onde homens vão buscar a realização sexual há muito tempo perdida. De idades, etnias e classes sociais diversas, são elas as responsáveis pelo deleite de homens, casados ou solteiros, adultos ou jovens, que encontram em seus braços a chave para a porta que abre o paraíso. Putas, cocotes, rameiras, acompanhantes, entre eufemismos e xingamentos, elas concretizam os desejos de uma sociedade acostumada a encontrar nos guetos o que foi privada de ter em casa.

Há também muitos homens que se renderam a esse tipo de atividade. Conhecidos como michês ou garotos de programa, muitos são os rapazes que se aventuram nesse submundo em busca de dinheiro, fama e sucesso. Nessa atmosfera, vale citar as travestis, que entram nessa vida muitas vezes por uma imposição social, da qual relega a elas a venda do próprio corpo como meio de sobrevivência. Entretanto, sejam entre mulheres, homens ou travestis, a carência sexual é o principal pivô da incessante busca da sociedade por estes profissionais. Sem uma educação libertária no tocante ao sexo, muitos indivíduos rompem com a moral e os bons costumes e vão saciar suas necessidades nos braços daqueles mal vistos pela sociedade. Diante disso surge a questão: quem realmente se prostitui?

A verdade é que, direta ou indiretamente, todos são prostituídos, antes mesmo de terem ciência disso. Tal violência acontece nos primeiros ensinamentos ligados ao sexo, seja dentro de casa, seja na atmosfera escolar. Nesses ambientes, falar de sexo ainda é tocar em casamento, procriação, filhos, nunca está relacionado ao prazer, a gozar a vida literalmente. Por essa razão, os indivíduos são violentados por uma educação que não ensina as várias possibilidades que o sexo pode oferecer, mas apenas a limitação procriativa em torno dele. Censurados, duvidosos e com muita curiosidade, estes seres logo são angariados pela indústria do sexo, a qual comercializa o prazer, que deveria ter sido ensinado com naturalidade em determinada época da vida, mas que agora se tornou cifra para aquisição de pseudoalegrias. É nesse momento que surgem os bordeis, pois é somente neles que o real prazer é permitido e onde deverá ser consumado por aqueles que foram privados dele a vida toda.

Seguindo esse raciocínio, a indústria pornográfica lucra muito com tudo isso. Com filmes, clubes e profissionais dispostos a satisfazer qualquer fantasia, esse ramo é um dos mais lucrativos do mundo.  Isso acontece, porque ao saber da carência sexual vivida pela sociedade, a pornografia cria os mecanismos perfeitos, capazes de preencher as lacunas da falta de educação sexual. Na realidade, muitos procuram por estes serviços, porque se sentem incompletos sexualmente. Então, surgem esses atores/atrizes entretendo essa sociedade prostituída, que vive num eterno dilema: vender uma imagem de país liberal, onde o sexo é livre, com suas mulheres exuberantes, geralmente corporificadas pelo samba, pelos comerciais de cervejas e pelos jogos de futebol; ou manter os tabus ancestrais nutridos por diversos segmentos religiosos, os quais veem o sexo apenas como um ato divinal? Seja como for, muitos indivíduos não estão contentes com esse modelo e buscam a todo custo transgredi-lo através do sexo pago.

Por outro lado, a banalização do sexo também contribui para que a sociedade seja prostituída. Numa cultura onde tudo cheira a sexo, desde cedo, desorientados e altamente motivados, muitos jovens são prostituídos pela mídia e seus atraentes reclames. Ora através da televisão e seus comerciais e problemas apelativos, dos quais a sensualidade é despertada em propagandas dúbias, novelas com cenas picantes e filmes impróprios; ora pela conduta musical, a qual tem banalizado o ato sexual, tornando-o muitas vezes vulgarizado entre homens e mulheres, sobretudo entre estas últimas. Sem referências reais, muitos indivíduos se deixam levar por isso e acabam se entregando ao deleite do sexo descompromissado. Isso reverbera em gravidezes não planejadas, doenças sexualmente transmissíveis e até em morte. Tudo porque a sociedade não aprendeu a experienciar o sexo como este deve e merece ser experienciado: naturalmente.


Então, diante de tudo isso, a prostituição aparece como salvadora da pátria. Ela é importante por inúmeras razões. A primeira porque naturaliza a prática sexual, proporcionando aos seus clientes a experiência prazerosa que foi roubada deles por causa de uma educação limitada em torno do sexo. Segundo porque, ela dá uma tapa na cara dos conservadores e sensacionalistas, que costumam inferiorizar os profissionais do sexo. Na verdade, quem se prostitui não são as garotas de programa ou os michês, mas quem procura pelos seus serviços. Eles sim são os reais prostitutos, pois durante o dia vulgarizam essa profissão, mas ao cair da noite se entregam aos encantos de moças e rapazes e se deixam levar por eles. Último ponto disso tudo é que a prostituição, e sua longínqua existência na terra, evidencia que a sociedade vive uma doença chamada: ausência de sexo. Por causa disso é que muitos pacientes lotam puteiros e ruelas atrás da cura para esse terrível mal, que infelizmente acomete muito mais gente do que se imagina. Sorte que o antídoto tem preços variados e é encontrado em diversos locais, sempre proporcionando alívio e relaxamento imediato a quem o procura.