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28 março 2018



Na Antiguidade, a imagem se inseria, ainda mais profundamente que a escrita, na vida cotidiana, recontando narrativas míticas e familiarizando seus integrantes uns com os outros através de representações de situações idealizadas e vivenciadas. A visão da nudez, mesmo em imagem, por estar sempre pronta a despertar emoção erótica, parece dificilmente compatível com a suposta pureza da contemplação estética. Mas, sem dúvida, sem o poder de Eros, não haveria nem escultura, nem pintura. O interesse tão especial dispensado na arte à nudez do corpo humano é complexo, logo, impuro: para aqui convergem todos os instintos elementares, todas as pulsões obscuras, assim como todos os subterfúgios e todo o sucesso da sublimação. É por isso que o Nu é o tema artístico por excelência: motivo de fervor, oportunidade de entusiasmo e, às vezes, em certos casos cruamente realistas, sujeito à compaixão, objeto de repulsa fascinada, símbolo de obscenidade.
Durante a Idade Média europeia, dizem, apenas nos banhos públicos era permitido se mostrar sem roupa. Em qualquer outro lugar, nada de nudez. Não podia ser vista em lugar nenhum, nem mesmo na pintura. Quase que nada na escultura. A responsabilidade por esta privação costuma ser atribuída ao cristianismo. Ao contrário do paganismo helênico e romano que a precederam, esta religião, rigorosa e obstinada, pregou por mais de mil anos a depreciação do corpo, o desprezo pela carne e a proscrição da nudez. Tal é a reputação que lhe foi atribuída, e há, certamente, alguma verdade nesta ideia geral. Quando o homem e a mulher aparecem nus em certas representações medievais, pois isso acontece, percebemos que se sentem extremamente constrangidos. A nudez, nessa época, é antes de tudo a dos nossos primeiros antepassados, disformes, dignos de pena, depois do pecado. Em seguida, vem aquela dos condenados, que vemos cair no Inferno por ocasião do Juízo final. O corpo sem vestes é patético: corpo vergonhoso de Adão e Eva, corpo atormentado dos malditos; ou, então, o corpo supliciado do Cristo, e os corpos torturados, de vários modos, dos mártires. Não simplifiquemos: existe também, podia existir, nesses tempos austeros, uma nudez feliz, sinal de inocência, a gozar, com toda a candura, dos benefícios inauditos do paraíso terrestre. Mas a desgraça é sempre iminente. Como a Europa olhava para alhures de forma completamente exótica – para não dizer “estranha” – franceses e holandeses que retratavam nossa terra e seus primeiros habitantes, pintavam-lhes sempre na presença de frutas, cestos, tartarugas e tatus. Coisas que o europeu não conhecia. Mas isso não era fator de burrice por parte dos homens brancos. Ao contrário: o retrato da miséria da terra brasilis estava agora ligado ao nu.
Nos tempos da Idade Moderna, podemos ressaltar as duas visões completamente opostas sobre esse assunto: a pureza\inocência – já que foi citada - e a pobreza\selvageria. Para falar do primeiro ponto, é necessário que se faça um levantamento das características do Renascimento Cultural. Sabe-se que o controle da produção cultural e o poder ideológico eram detidos pela Igreja Católica desde o medievo e norteavam a vida dos europeus. Por isso, os valores teocêntricos que exaltavam o poder de Deus, bem como os preceitos do catolicismo romano, sempre preponderaram as produções artísticas até então. Porém, a reformulação do pensamento artístico e científico trazida pela Renascença Italiana mudaram completamente os modelos de fazer arte. Ao retomarem os apegos artísticos greco-romanos, os renascentistas como Michelangelo, Da Vinci e Rafael Sanzio, decidiram pintar homens e mulheres de uma forma que pudesse representar a pureza e o caráter divino dos seres humanos. Por isso, em obras como Davi, o homem sempre era representado com um pênis pequeno, pois, se, baseados no antropocentrismo e no humanismo, o macho se aproxima ou até mesmo é sua própria divindade, por que dar um caráter bestial a algo tão sacro¿ Não era vergonha na época do Renascimento mandar um “nude” se você era “bisquí”. Era divino.
A Renascença também trouxe avanços científicos e, não se pode deixar de destacar, o consequente desenvolvimento das artes náuticas. Em 1415, Portugal se lança no tão temido “Além-Mediterrâneo” para descobrir novas terras e angariar novas fontes de riqueza para a Coroa. 22 de abril de 1500, a tão “desconhecida” Terra de Vera Cruz passa a ser explorada e antes mesmo que se chegasse à beira da praia, “seis ou sete homens nus, sem qualquer vergonha andavam por ali”, como escreveu Pero Vaz de Caminha em sua carta. Retomando pensamentos tidos como “neoplatônicos”, o bom e o belo se interligavam pela pureza dos corpos de uma comunidade que não conhecia a fonte dos pecados sexuais, exatamente por não terem cognição daquilo que educava o europeu. O “índio” por não conhecer os preceitos do povo cabralino e, mais tarde, anchietano, andavam nus o tempo inteiro porque eram inocentes. Puros...não, não. Aí já é demais. Manuel da Nóbrega, em tempos de catequese, pedia a seus superiores em cartas “panos para cobrir as vergonhas dos selvagens desta terra”. O erotismo e a sexualidade não eram colocados aí. Apenas a inocência e, consequentemente, pela ausência da tardia educação cristã-europeia, uma visão transformada do nu: receptáculos muito fáceis de forças diabólicas.
Pulemos para a ponte da contemporaneidade e das pós-modernidade. A mulher, paulatinamente, cresce dentro da sociedade e com isso vem seu empoderamento: o grito mais audível referente a tal assertiva é o quadro “A liberdade guiando o povo”, obra que retrata a Revolução Francesa. O sentimento de ser livre é associado a uma mulher mostrando os seios. Eu vejo isso como um “nude”, afinal o que é um nude senão algo que choca, excita, anima, traz risada ou, até mesmo, vergonha? Ver a liberdade representada por uma mulher que expunha os seios é tudo, menos, conservador para a virada do século XVIII-XIX. Era o maior exemplo de como se viver sem ninguém – Igreja, Estado ou qualquer outra instituição – dizer que roupa você deve vestir ou SE deve vestir. Mulheres...tão estigmatizadas desde Eva e, por isso, maquiadas por uma falsa máscara de subversão, quando na realidade, são revolucionárias. O século XX esteve aí para nos mostrar que, mesmo num mundo dividido pelas incertezas do capital e do social, lá estavam as mulheres queimando seus sutiãs, andando nuas e dizendo “we can do it!”. Embora, em alguns casos, não terem ateado fogo nas suas peças íntimas, que nude inflamável, hein? O corpo e o nu, mais uma vez, representavam assim o novo, o poder e a vontade mais que possível de serem livres de qualquer opressão.
E Bauman já nos fala dessa sociedade líquida da pós-modernidade, na qual as coisas são fluidas como água e que, para o bem ou para mal, são aproveitadas. Com esse mundo, vem os smartphones, as redes sociais e, em especial, o Snapchat. Dois, três, cinco ou até 10 segundos de provocação podem ser liberados com um nude. Muitos se escondem atrás da tela do celular, já outros, sequer precisam disso. O nu, para muitos, ainda é motivo de vergonha. Para outros, mandar um nude é algo natural, excitante, engraçado...e, porque não, libertador para um passo além das câmeras. Os modelos que pintam o corpo estão aí também para provar que a nudez pode ter suas diversas faces em ganhar o pão de cada dia, afinal, é necessário materializar os discursos e “meu corpo, minhas regras”. Meu nude, então, oras. “Não se tem muito o que falar da nudez nos tempos atuais, afinal é algo tão banal”, dizem. Sorte seria se essa nudez fosse ligada à inocência e não fosse fonte de suplantar, abusar e desvalorizar o próximo. E a sociedade brasileira acha que está acostumada com o corpo nu por causa dos avanços cibernéticos e o por conta do próprio nude em si. Coitados dos brasileiros. Não falamos nem em sair sem blusa por aí, mas no dia em que – e o problema é seu se você não aceita e tenta mascarar a realidade rasteira do seu país – meninas andarem mostrando apenas a barriga ou usarem um short não forem alvos de violação...o nude, então, será fichinha e algo completamente normal. Sem medos, sem vergonha, sem abuso, sem nada...ops! Nude.
Os nudes são estupendos, sob vários pontos de vista. De um modo geral, para cada flash acionado, uma parte da obra foi escolhida. Foi isolada, ampliada e os filtros são usados. Essa focalização inabitual faz surgir vários detalhes nunca vistos, vários aspectos nunca percebidos dessa maneira. Ele, o nude, cria, de certa forma, seu objeto. E mais, em certos casos, o fato de o olho ter se aproximado produz algo de perturbador. O olhar está muito próximo de uma carne doce e firme. Não se poderia estar mais próximo de uma carnação milagrosa. Prestes a tocar a pele nua. E o que vemos? Depende.
E aí...manda nudes?

21 fevereiro 2018



Deve ser difícil, no mínimo, ser a Anitta.
Todos opinam sobre seu cabelo — dread é “apropriação cultural”, bleh! –, sobre seu discurso, sobre sua bunda. Talvez ela nem se incomode tanto, porque está ocupada produzindo clipes sensacionais.
 
O último, da música “Vai Malandra”, foi, por si, a resposta afiada que a cantora costuma direcionar aos haters: trancinhas no cabelo, com apropriação cultural e tudo, uma bunda brasileiríssima sem correção nas celulites e um Brasil muito brasileiro escancarado numa superprodução pro mundo inteiro.
Anitta, que prometia, com os rumos estéticos de sua carreira, uma abordagem artística cada vez menos brasileira, surpreendeu, de novo. Só a linguagem do clipe é meio gringa (e faz mal?): o resto é Brasil, nu e cru.
Lulu Santos, que aparentemente não entende nem de Brasil nem de música, criticou nas redes o clipe, a cantora e a bunda.
 
Pfff.
 
Aqui cabe um parêntese: nem a bossa nova, careta por tradição, comungaria da chatice da persona Lulu Santos, que compete com a chatice de suas músicas. Talvez fosse mais facilmente aceito no rock, que se tornou um velho careta e conservador, mas até pra isso lhe falta musicalidade.
 
Não, Lulu, não é só uma bunda: O funk de Anitta tem gerado discussões sociais contemporâneas e importantíssimas, e não é de hoje. Assim caminha a humanidade, graças a gente como você, a passo de formiga e sem vontade.
Aliás, não foram só a bunda e as tranças que incomodaram: a esquerda progressista (risos) não brinca em serviço quando o assunto é cagação de regra.
 
Reclamaram — e muito — do olhar masculino do produtor do clipe, acusado de assédio, como se isso tirasse o mérito empoderador do clipe e da música.
 
Spoiler: se o olhar fosse verdadeiramente masculino, as tais celulites teriam sido apagadas na edição.
 
Não foram, porque a última palavra é dela, e eu não sei vocês, mas eu tenho um orgasmo mental só de imaginar uma mulher impondo as próprias celulites diante de um produtor assediador metido a importante.
Vai, malandra. Os cães ladram e a caravana passa.
Visto no: DCM

Publicado no Facebook de Elika Takimoto
Estou procurando entender que tanto empoderamento feminino estão encontrando por aparecer na tela uma puta raba sem Photoshop.
Exibir o corpo das mulheres é uma afirmação da sexualidade ou apenas uma outra forma de exploração? Eu, sinceramente, estou com muitas dúvidas.
Vejo Anitta “lacrando” e fico me perguntando em que medida o último clipe derruba padrões de beleza. Em que medida um clipe que exibe corpos femininos e começa com uma bunda, ainda que com celulite, mas uma puta raba daquelas tomando conta de toda a tela, ajuda na causa feminista? Em outras palavras: o que o cu tem a ver com a causa?
Não sejamos ingênuos. Anitta trabalha em um sistema que requer que as mulheres tenham uma determinada aparência porque se não forem lindas do jeito que são e rebolarem como fazem não serão expostas na televisão.
Entendo perfeitamente que tudo aquilo possa ser uma reivindicação da sexualidade. O que não percebo é uma ferramenta de mudança real na estrutura do patriarcado que muitas pessoas estão vendo com esse clipe. Mudança veria se me dissessem que o Brasil passou a ler mais e que havia parado de babar vendo bunda que ocupa a tela toda.
Olhando por um lado, vejo uma heroína, uma mulher forte, lucrando de forma inteligente com o que tem. Olhando por outro, percebo mais uma marionete. Constato que muitas manas são estrategistas bem perspicazes que sabem usar essa sexualidade e obter muito lucro. Palmas para elas.
Não percebo, porém, um clipe desse ajudar na desconstrução de um mundo machista de entretenimento que coloca a sexualidade feminina em uma caixa de forma que ela seja a mais chamativa possível.
Vi apenas mais um clipe não diferente de outros pornoficados exacerbando a cultura da hipersexualização da mulher. Cadê a ideia de que ser sexy pode ser algo diferente disso que estou assistindo? Cadê o ensinamento maior para as manas que o modo como elas percebem seus corpos é mais importante que a forma como os homens as vêem? Anitta seria rainha da porra toda se tivesse outro corpo?
“Ah mais antigamente mostrava a bunda para agradar macho, hoje não. Hoje temos Anitta com celulite.” Ah, gente.
Vi bunda de chacrete, bunda da Gretchen, bunda da Xuxa, bunda de Carla Perez, bunda bunda bunda. Curti a música, me distraí com o clipe Vai, malandra. Daí a afirmar que as mulheres estão lacrando, o Brasil evoluindo, mentes se abrindo e o machismo sendo desconstruido por causa da bunda da Anitta com celulite na tela toda vai um abismo.
Nada contra Anitta como não tive nada contra Carla Perez. São duas lindas e excelentes dançarinas. Estou me posicionando contra pessoas que estão vendo traços de evolução em uma humanidade cujo foco ainda é a bunda.
Foi divertido e só. O Brasil continua um cu.
Visto no: DCM

20 fevereiro 2018


Dentre as muitas violências simbólicas das quais convivemos, o assédio talvez seja o mais comum entre nós e, infelizmente, naturalizado pela nossa cultura ainda machista. Por essa razão, não vemos com maus olhos práticas tidas ofensivas para alguns, como soltar uma cantada na rua para uma pessoa desconhecida, secá-la com olhos desejosos de prazer, julgar sua roupa e/ou comportamento como convidativos, passar a mão em seu corpo sem o consentimento ou qualquer intimidade com a pessoa e, muitas vezes, usar do poder para conseguir privilégios sexuais. São ações que não seguem uma obrigatoriedade cronológica, mas se materializam em contextos bem claros em que há um assediador e uma vítima. Essas premissas foram fixadas ao longo da nossa história sutilmente, quando se atribuiu à educação entre homens e mulheres valores de caçador a eles, e a elas de presas resignadas a serem consumidas sem espernear. Quando elas se rebelam, todavia, seus algozes transformam-se em animais brincalhões que não queriam realmente comer aquela presa.

Foi o que talvez tenha ocorrido com o ator global José Mayer, acusado de ter posto a mão na vagina da figurinista Susllen Tonani na emissora. Após o relato da moça, outras atrizes, celebridades e anônimos saíram em defesa da vítima. Muito justo, diante da realidade vivida por muitas mulheres famosas ou não em território nacional. Depois de ter dado um tiro pela culatra, o ator se desculpou publicamente, acredito que por pressão da Globo devido a tamanha repercussão do caso. Porém, é na grandiosidade do incidente que a reflexão se faz necessária. Quem é o predador em questão? Galã de inúmeras novelas, já contracenou com atrizes de diversas idades, mas sempre na posição de macho alfa, aquele que domina o pedaço e se torna disputado pelas fêmeas ao redor. A própria emissora contribuiu para essa imagem no ator. Então, se a vida imita a arte ou a mimese se faz ao revés disso, Mayer incorreu pelo erro de impor seus personagens fora das câmeras, desta vez com uma “coadjuvante” que não se calou.

É preciso pontuar que o assédio dessa natureza não acontece ao acaso. Quem assedia é meticuloso ao abordar suas vítimas. Quem assedia nunca o faz apenas uma vez. Provavelmente, o próprio ator já tenha feito isso com outras figurinistas, camareiras, copeiras, diretoras, atrizes ou quem mais passasse a sua frente. Entretanto, seria leviano da minha parte restringir o Mayer ao único “garanhão” de plantão nesse sentido. Quantos e quantos atores, diretores e autores de novelas e minisséries impõem seu nome, prestígio e poder social para assediar muitas mulheres, e homens também, em troca de papéis de destaque na TV ou quaisquer outros favoritismos do gênero? Incontáveis. Não é possível mensurar aqui. Da mesma forma que a quantidade de mulheres que se submete a isso, mais por medo do que por interesse, se agiganta. A própria literatura moderna e, a posteriori, o cinema romantiza isso. Basta ver a popularização do livro/película Cinquenta Tons de Cinza para entender a naturalização dos chefes que assediam suas funcionárias, dando a elas céus e terras degrades.

Mais que isso, a atitude de Mayer encoraja e reforça outras ocorridas em tantos lares brasileiros, onde o assédio faz parte da rotina de muitas mulheres, bem como, e infelizmente, meninas. São pais, padrastos, amigos da família, primos, vizinhos, conhecidos, tocando nas intimidades de garotas, que por medo, se emudecem temendo serem mal compreendidas. São cantadas nas ruas cujos assobios não bastam, é preciso tocar no cabelo, alisar a cintura, puxar pelo braço, dizer palavras chulas para começar a caçada. Os mais ousados, como Mayer, vão direto à violação dos peitos, vaginas, bundas, para assegurar que a vítima esteja no ponto para o consumo. Numa sociedade onde elas são personificadas em arrobas de carne, ou frutas nas diversas mulheres que compõem essa cesta, resulta nesse comportamento de muitos homens em apalpar o produto para se saber se é de qualidade ou não. É a sexualização da mulher e a sua objetificação, conhecidas muito bem por pessoas inteligentes como José Mayer, mas conceitos ainda distantes do grande público. Enquanto isso, a cultura do passar a mão continua deixando suas marcas.

Sinais estes que insistem em macular a imagem das mulheres pondo-as como acusadas pelo assédio, quando na verdade, em muitos casos, é o contrário. Foi o que também ocorreu com a figurinista vitimada por Mayer. Apesar dos apoios virtuais, as hastags e tudo mais, houve quem postulasse na rede, inclusive “famosos”, o lugar onde ela estava, com que roupa, ou pior, se ela não havia se insinuado para o ator anteriormente para que ele tomasse essa atitude. É a culpabilização da mulher numa sociedade que vigia suas ações, tolhe seus comportamentos, regra suas roupas e controla suas escolhas e decisões. Logo, quando uma delas se rebelam são rapidamente rebaixadas, desqualificadas, à posição de ardilosas, colocando em cheque suas palavras, já que durante séculos o poder de fala feminino foi subjulgado por uma sociedade dita, controlada e cerceada pelos homens. Então, é bem mais fácil descreditar o relato dela do que criar mecanismos para reeducar homens e mulheres a se respeitarem mutualmente nessa cultura sexista em que estamos inseridos. É desta mesma lógica que surgem o vagão cor de rosa, no qual a vítima precisa ser isolada, enquanto os assediadores vagam livremente pela sociedade.

De volta ao incontrolável José Mayer, antes de se desculpar do indesculpável ato que cometeu, ele chegou a dizer que não era ele naquele momento, e sim o seu personagem, numa possível pesquisa de campo que não deve ter sido comunicada à figurinista assediada. Tal ficção machista não se limita à TV aberta. A indústria pornográfica por exemplo já faz isso há anos, em cenas nas quais homens em posição de poder assediam e fazem o que bem entenderem com mulheres. Isso a longo prazo, dentro de uma cultura indiscutivelmente falocêntrica, tem consequências graves, sobretudo na formação humanística de futuros homens e mulheres. Falo isso porque quando não há um entendimento acerca da importância do feminismo, e os perigos do machismo, continuaremos a retroalimentar tais e outras violências simbólicas do gênero, como aquela que ocorreu no RJ quando uma menina no ano passado foi estuprada por 30 homens e houve a fetichização do ato, ignorando a barbaridade em torno dele. Ou seja, é o pau sendo elevado ao patamar de arte, mesmo que ele adentre em espaços/corpos sem permissão. O que importa é que ele (o pau) te ama, como reforçado pelo hit do momento.

Em contrapartida, José Mayer pediu desculpas. Tentou se retratar com a figurinista, além e todas as outras mulheres/pessoas ofendidas com o que ele fez. Para quem leu a carta do ator, percebeu que há mais orgulho do que arrependimento em suas palavras. Não se trata apenas de um homem sessentão, sem acesso a informação ou alheio às mudanças sociais. Trata-se de um indivíduo que, em sua zona de conforto, achou que isso nunca aconteceria com ele, que o seu papel de vilão machista passaria despercebido por ser famoso, sexy e talentoso ator global. É um homem dentre muitos outros, de diversos nichos e classes sociais que se aproveitam da posição, da arte, do dinheiro, da fama, do poder, dentre outras coisas que os formam, para manipular suas vítimas. É um predador, como muitos outros o são ainda criados para serem, os quais veem nas mulheres pedaços de carne para saborear. Iguais ao ator, há muitos outros protegidos pelo machismo, este responsável por silenciar suas vítimas dentro de relações abusivas em namoros, casamentos, trabalhos, na Igreja, na arte ou fora dela. Coitados desses homens, programados a atacar toda e qualquer presa que arrisque estar a seu alcance. Tristes indivíduos descontextualizados em tempo e espaço, obsoletos pelas lutas e conquistas femininas ao longo dos anos. Parabéns à Figurinista por conseguir escapar das garras daquele algoz e ainda alertar a sociedade que muitos iguais a ele ainda estão à solta por ai fazendo suas vítimas. Com ela, José Mayer errou o alvo, mas outas infelizmente não terão a mesma sorte.

Vivemos uma revolução musical no Brasil. Nunca na história nacional tantos artistas assumidamente LBGT’s encaram a cena artística do país. O momento para isso não poderia ser mais oportuno. Em meio às mídias sociais, os grupos de militância estão ganhando cada vez mais força, com discursos de empoderamento contrários aos preconceitos de gênero, orientação e identidade. Porém, tanta visibilidade tem um preço. É o que a Drag Pop brasileira Pabllo Vittar tem sentido na pele. Ícone das atuais transformações musicais, e culturais, do país, ela já foi ignorada em entrevista, atacada com discursos homofóbicos na rede e há pouco teve seu canal do YouTube Hackeado. Isso deixa claro o desconforto causado não apenas pela existência da cantora Pabllo, mas pelo sucesso que ela tem conquistado para além do público gay.

Apesar do que dita o preconceito, música não tem gênero, tão pouco sexualidade. Mesmo assim, durante anos, a sociedade foi construída a partir de versos cantados de hétero para hétero. A exceção se dava quando tinha como foco a comicidade. Atualmente, porém, há diversos cantores preenchendo esta lacuna. Liniker, Johnny Hooker, Rico Dalasam, são exemplos disso. Em suas canções são representados os dilemas vividos pelo segmento LGBT, os quais são ignorados pelo público em geral. A Pabllo não se destaca nesse sentido, pois suas músicas não trazem uma plataforma política como discurso principal. A ideia é dançar, se divertir, rebolar, bater cabelo, gritar, pular, coisa que independe da sexualidade da plateia. Por essa razão ela agradou tão rapidamente uns e desagradou a outros, por romper o padrão heteronormativo também existente no ideal de artista.

Evidentemente que entre os opositores da Pabllo nem todos são heterossexuais. Há muitos gays que afirmam não gostar da artista, seja por causa da voz, do estilo da música, pela falta de empoderamento em suas letras ou por ela ser afeminada (pasmem!). Os motivos são variados e, em alguns casos, compreensíveis. Deve ser difícil digerir uma drag cantora quando o país nem sequer sabe direito lidar com questões ligadas a sexualidade. Todavia, uma coisa é indiscutível, a Pabllo é um ícone, um fenômeno, pós marco iniciado lá atrás por artistas como Ney Matogrosso. Para os céticos, basta listar as conquistas recentes dela: parceira com Anitta e Major Lazer, convites para programas de auditório, clipes com milhares de visualizações no YouTube, shows lotados e uma legião de fãs nas redes sociais. Além dela está colocando o país na cena Pop Internacional como poucos cantores nacionais já o fizeram.

Claro que ninguém encara a fama de uma determinada celebridade da mesma forma. Enquanto uns aceitam e entendem o porquê da representatividade existente na Pabllo, há outros que simplesmente a ignoram. Sem problemas nisso. Até porque, a arte toca cada pessoa a sua maneira. Contudo, há um abismo entre não gostar e repudiar. Entre a mera rejeição e a declarada censura. Entre o ato de trocar de rádio ao de violar o canal da artista no YouTube. Percebam a ruína existente na completa aversão da artista quando se leva em conta que o real motivo para tudo isso está em sua performance no palco. Trata-se de um homem de peruca, vestido com roupas típicas do que se entende como “universo feminino”, cantando com uma voz fina e com a face exageradamente maquiada. Esse é o olhar grosseiro direcionado pelo preconceito, ignorando qualquer sutileza artística que há na apresentação daquela drag e o porquê dela está tão plena no palco.

É a inveja. Ela é responsável por menosprezar o triunfo alheio. Quando o outro é assumidamente LGBT esse pecado capital ganha novos contornos. Isto porque, temendo aquilo que não se conhece, e/ou não se permite conhecer, o invejoso cobiça para si o que ele considera que não pode ser do outro. No caso dos gays seria a liberdade de ser e de se expressar como se é. Para isso vale de tudo para anular tal êxito, desde xingamentos, espancamentos e mortes. Quantos LGBT’s são mortos porque somos uma sociedade que julga a homossexualidade de dia e se deleita dela à noite, através das estereotipadas travestis, pelos michês e tantos outros arranjos sexuais condenados pelos puritanos? Inúmeros. Nem saberíamos mensurar. Então, a Pabllo Vittar fomenta a inveja alheia por dar voz a tantos jovens da idade dela, que encaram a sociedade de frente, com suas identidades e construções sexuais diversas.

Em contrapartida, nem todos os famosos tiveram a mesma sorte dela. Vivemos num país onde há muitos artistas gays ainda nas coxias, temendo ir a público para não perder contratos e, o pior, o respeito adquirido às custas de uma farsa hétero. No Brasil, os poucos que se rebelaram sabem o quão penoso isso foi para suas carreiras. Os Cantores Netinho e Daniela Mercury são provas disso, que mesmo na grande mídia, não detém o prestígio social de antes. Acontece que a Pabllo já veio montada, de salto alto, blush e muito brilho. Ou seja, ela abriu caminho para que muitos outros artistas renegados aos guetos das boates, saunas e tantos outros espaços destinados ao público gay, ganhassem o grande público. Neles há transformistas, drags, cantores(as), comediantes, atores/atrizes, incríveis, mas que não têm oportunidade de mostrar nacionalmente seus talentos. Talvez a Pabllo tenha se tornado a fada madrinha dos próximos artistas que abrilhantarão a cena artística do país.

Enquanto uns jogam pedra na Pabllo, provavelmente a mesma lançada contra Geni na canção de Chico Buarque, estes deixam de observar o teor transgressivo que há na existência de uma grag cantora num país ditado pelo preconceito. A Pabllo Vittar subverteu o sistema através da forma artística mais acessível entre as massas, a música. A voz dela mostra que é possível sim ser gay, estar montada no palco e não necessariamente fazer um show voltado apenas ao público LGBT. As letras das canções dela, mesmo sem a pretensão de problematizar nada, já o fazem apenas por serem entoadas pela boca perfeitamente delineada de uma drag. Aliás, há muitos cantores(as) héteros com letras sem reflexão alguma e isso nem sequer é atribuído como argumento negativo para suas carreiras, porque com uma artista gay isso seria relevante? Possivelmente para sabotar seu trabalho. O que é uma pena, pois mostra que a inveja, o despeito e o preconceito continuam estampados na nossa cara, ops, na sua cara.