Carta ao vento

15:29


Eu nunca fora antes à boca de cena. Era o segundo bis. Fomos para lhe estender as mãos como quem pega de Ariadne o fio. Fomos para sentir o perfume do vento.

Eu começo do fim para adiantar que o instrumento da voz nos alcançou. “Canções e Momentos”, mais que prólogo e epílogo, é presságio. “Sangrando” também o é (quando eu soltar a minha voz, por favor entenda: é apenas o meu jeito de viver o que é amar). As metacanções não falam só de arte, mas principalmente da vida de quem se lança nesta aventura aqui – ai de quem não te canta, oh vida. E temos a chave para a decifração de mais um espetáculo emblemático de Maria Bethânia. Neste, a força está nas palavras tão bem amarradas no roteiro assinado em parceria com Fauzi Arap.

“Salmo”, essa quase oração que a intérprete já trouxera à memória do Brasil no disco Oásis..., retorna. É uma canção que quase não está no espetáculo, mas como está! Seus dois excertos, mencionados ao começo e ao final, são pontas do fio narrativo do show e, mais, amarram arte e vida, ou, se preferirmos, a realidade da intérprete à ficção de suas personagens. Afinal, dizer “Não quero ter calmaria / Eu quero ser tempestade / Eu quero ser ventania” é anunciar o jorro das cartas ao vento que serão lançadas na sequência e reiterar a essência eólica da Iansã que se confessa inteira no palco: “o meu olhar tem a força do raio / que vem de dentro do meu coração”. É Maria Bethânia, mas não é.

Começa o delicioso jogo das personas que a cantoratriz exibe em cada show. É ela (e não é) quem traz de volta um dos textos mais intensos de sua carreira. Como é forte vê-la materializar os olhos de ironias e cansaços que nunca vão por caminhos já traçados. A ayabá redemoinha aos ventos, levanta a sua loucura como um facho que arde. Grita “não enche”. E vai incendiar a fogueira da personagem que sofre pelo amor perdido. Não é fortuito dramaturgicamente que ela (já falo da personagem) confesse a quem lhe feriu: “mais breve que o tempo passa, vem num galope o meu perdão”. Mas a ventania não cessa, faz barulhos para acordar orgulhos (geme, como geme o arvoredo). Transforma-se em leve brisa descendo os penhascos das colinas.

A interpretação não mente. Maria Bethânia transforma-se em outras, ocupa porções diversas do palco, marcações diametralmente opostas na arena, como quem envia com mãos expressivas cartas de amor, dela para si mesma, cindida entre o parceiro que se lanha no sofrimento e o outro que se deleita com o sofrer. Tudo está minuciosamente organizado.

O espetáculo é pancada: altos e baixos sem perdão. E essa estrutura justifica um roteiro que se faz como um gráfico sinuoso: ora percussões efusivas, ora pianos chorosos; ora o grito, ora o sussurro; ora a vingança, ora a confissão apaixonada. Um roteiro que escancara o ser camaleônico de uma artista que pode ser todas que quiser: a metamorfose é instantânea, como ocorre às grandes damas do teatro. Trata-se de um diálogo epistolar. São cartas, meus caros. De amor. Todas ridículas, tal qual as criaturas que nunca escreveram cartas de amor.  As missivas cruzam o palco, levam mensagens. Nunca trazem o recado esperado.

As personagens que as enviam são identificáveis por sutis signos cênicos ou pelo próprio texto cancional. São dois que sentem de forma diversa o amor. Um vacilante, que repousa e não ousa viver, entre o medo e a ansiedade. O outro, o que se atira na loucura, no fogo da fantasia. É ele que canta a “Fera Ferida” irônica, leve como sua essência de vendaval constante que despetala flores que existiram, mas que não resistiram. É este que sai incólume e é conduzido para o segundo ato à medida em que seus fantasmas são levados para longe.  De que serve voltar, se a casa está vazia?

E o primeiro ato, todo introspectivo, ganha o mundo na segunda parte do show. Se antes as lâmpadas de Bia Lessa guardam interiores, transformam-se agora na amplitude do céu. Começa uma viagem – para o Nordeste da pisada do maracatu, para as raízes dos fevereiros de Santo Amaro e (por que não?) para um passado romântico de encantos e luas brancas. A personagem amadurece nostálgica, relembra o seu pedacinho de terra. A vida, chega um tempo, é só lembranças. E o coração amansa em busca de outros corações crescidos. Hora de encontrar alguém para viver em estado de poesia. A canção de Chico César é toda metáfora. Reconcilia a dimensão geográfica do viajante que parte rumo ao sertão profundo com a dimensão sentimental do indivíduo que deixa a vida de ciganias para embrenhar-se nos sertões de um amor (nunca esquecer que o sertão é dentro da gente).

Ela faz do seu próprio itinerário um lar. Na maturidade, outras moradas são possíveis e passamos a entender que nossa casa é onde a gente está. Seja na Marambaia, seja no Recôncavo, seja em Fès. O teto estrelado também tem luar e estrelas cadentes.

Após todos os périplos, Bethânia chega à terra-natal. Ela aconchega-se no próprio peito (pulsante como o samba de roda). A reverência com a mão direita sobre o coração na menção a Dona Canô não é uma homenagem isolada. Todos os versos deste trecho parecem ser uma celebração saudosa do amor, da festa e da devoção da Eterna Matriarca. A costura de sambas é das maiores pérolas de seus últimos roteiros. A intérprete usa de matéria-prima popular para fazer alta poesia, alta dramaturgia – não por ser “elevada”, mas por falar alto aos sentimentos mais simples e verdadeiros.

Em tudo a voz de sua mãe: a apoteose guarda o legado dela. Para fazer um samba com beleza é preciso um bocado de tristeza, disso sabem os mais sábios. A menina foi embora, a menina foi embora, foi embora e nos deixou. Mas os pássaros precisam continuar o seu canto e me fazem lembrar uma frase de Cioran na epígrafe de um lindo livro de Lucia Castello Branco: “Em um mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a arrotar”.

O espetáculo segue para o fim falando de solidão. Cruzam-se as fronteiras da ficção e, num jogo teatral, somos reconduzidos aos momentos iniciais, às antigas histórias de amor de uma personagem que já arranhou toda a garganta atrás de alguma paz. No roteiro, o “Velho Francisco” é central. Faz pensar em tudo que a vida vem e nos leva – de bangalôs a palácios. Mas Bethânia também nos faz lembrar tudo o que a vida nos deixa – o respeito, a reverência, a fortaleza, a fé imensa. Aí a mensagem brota de seu engenho de escritora: ser como a haste fina, que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta. A “Carta de Amor” (o texto-canção) é uma ode à integridade do homem e ao mistério do sagrado, um acinte à debilidade moral, pelas mãos de uma mulher madura e sábia.

Uma mulher que é redemoinho. Que liga a ancestralidade da poesia ao futuro da ópera. Que canta a vida - e faz da vida e do canto profissão. O epílogo liga-se ao prólogo como a chamar a atenção para essa matéria sublime e essencial que se mantém intacta ao longo da travessia. Eis o sentimento inexplicável (o mesmo na plateia e na voz) que levamos para o labirinto de existir quando saímos do teatro agarrados ao fio de Ariadne.

 Renato Forin Jr.
Visto no blog: Maria Bethânia Re(verso)

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