A verdadeira causa da morte de Lacraia

21:04


Foi hoje mesmo que soube que a dançarina Lacraia veio a falecer. Ouvi a notícia por volta das 13 horas, enquanto pegava carona com meu pai para trabalhar. Como é de praxe, ele ouve há anos um programa de péssimo gosto chamado "Patrulha da Cidade", da Super Rádio Tupi, que é transmitido nessa faixa de horário.

Até então os radialistas faziam suas explanações fictícias e já consagradas por explorar em demasia o sensacionalismo. E assim fizeram quando noticiaram que Jair Bolsonaro, o deputado homofóbico, estava distribuindo panfletos contra gays. Ora, é verdade que o tal deputado, indignado com a decisão do Supremo Tribunal Federal na semana passada, resolveu manifestar-se contra a diversidade. O problema foi a abordagem! O radialista debochava: "Cada um dá o que é seu...", como se ser LGBT implicasse necessariamente no ato de ser penetrado. Mas enfim, que se limitassem à ignorância. Pois não se limitaram, e ousaram ser inescrupulosos. Após noticiarem que um "traveco" matou uma mulher por ciúmes do namorado, e outras notícias tão fantasiosas quanto essa, resolveram colocar na pauta a morte da dançarina Lacraia, e foi daí que eu soube que ela havia falecido.

O erro começou por enfatizar o nome de batismo da dançarina. Ora, se ela quisesse ser chamada pelo nome de batismo, usaria o nome de batismo. Custa entender que ela é Lacraia e ponto!? Ou alguém fica por aí publicando os shows de José e Durval de Lima, ao invés de Chitãozinho e Xororó, ou Mirosmar e Welson David, ao invés de Zezé de Camargo e Luciano? Ou ainda, tecendo notícias de fofoca com o nome de Maria da Graça, ao invés de Xuxa, ou exibindo filmes com Arlette Torres, ao invés de Fernanda Montenegro? No caso da Lacraia, a intenção é realmente vilipendiar a honra, humilhar, ferir a história da dançarina.

Mas o que me deixou mais indignado, até mesmo assustado, foi quando um dos radialistas perguntou:

- Morreu de quê, de Aids?

E, ao receber uma suposta resposta afirmativa, completou:

- Viu só? Fica dando o que é seu por aí que você vai ver!, em referência à máxima proferida sobre a notícia da panfletagem do deputado Bolsonaro.

É sabido que o programa "Patrulha da Cidade" nunca teve muito escrúpulos nem muita ética ao abordar temas caros à sociedade e, por isso mesmo, polêmicos (ou melhor, polemizados) por ela, como o são os direitos humanos e a diversidade sexual. Liberdade de imprensa tem limite, minha gente. E é um limite ético! Liberdade de imprensa requer o mínimo de responsabilidade. Vincular a AIDS à prática sexual entre gays, especificamente atribuindo ao penetrado a culpa pela doença, é de um preconceito sem precedentes! Trata-se de uma irresponsabilidade inimaginável, além de refletir ignorância, retrocesso, má-fé. A atitude se assemelha àquela proferida por Marcelo Dourado, quando, ainda no reality show Big Brother Brasil 10, disse que heterossexuais não pegavam AIDS. Que história é essa de que "dar o que é seu" é condição per se de transmissão e recepção do vírus HIV? Como se não existisse prevenção entre LGBT's, como se ser LGBT fosse o bastante para ser soropositivo, como se heterossexuais usassem camisinha em todas as suas relações. E ainda, como se Lacraia fosse soropositiva.

Não é da conta de nenhum jornalista a sorologia da dançarina. A causa da morte não foi divulgada, e se não foi divulgada é porque não interessa. Há que se respeitar! Tantos e tantos artistas homossexuais e heterossexuais morrem em função das complicações do HIV e não há imprensa que tenha culhão de peitar o luto dos familiares desses artistas e de explorar sua dor em nome de um furo de reportagem que desvende que a causa da morte foi o vírus da AIDS. Por que com a Lacraia tem que ser diferente? Por dois motivos: 1) LGBT quando morre, sobretudo se, sendo biologicamente homem, trouxer consigo elementos do feminino, morre em função da AIDS. Não se pode ficar doente, emagrecer, mudar de vida, morrer, porque se é gay, tem AIDS!; e 2) Lacraia é uma aberração para nossa sociedade! Ela não se enquadra no masculino, no feminino, porque ela ousou ser mais que isso. Ela não se encaixou, não coube nas normas sociais. O que matou Lacraia não foi AIDS ou qualquer doença crônica que conste na Organização Mundial da Saúde. O que matou Lacraia, e continuará matando, infelizmente, todos os dias, é outra doença crônica que, por ser produto da sociedade, é considerada uma doença social: o preconceito.

Lacraia não morreu em função da falência de seus órgãos ou em decorrência da desfunção de coração. Lacraia foi assassinada! Sim, assassinada cruel e brutamente por programas como o "Patrulha da Cidade". E ela mesma, defunta, continuará a ser assassinada, morte sobre a morte, dia após dia, enquanto programas dessa estirpe continuarem a desrespeitá-la, destituindo-a de um direito tão fundamental, que é o direito de morrer, privando-a da dignidade na hora da partida.

Por outro lado, é de suma importância lembrar que a morte da Lacraia não é destino manifesto. A esperança de fazê-la viver está nas nossas mãos. Sim, nós já fomos capazes de eternizar tanta gente bacana, representativa, gente que iluminou nossas vidas com tanta alegria e emoção. Ou alguém duvida que Cazuza ainda viva? Eu creio que Renato Russo também está entre nós, assim como Tom Jobim, Jorge Lafond, Noel Rosa, Cássia Eller, e tantos outros, tantas outras artistas.

Vai, Lacraia! Vai em paz, Libélula do Bem! Seja feliz e transmita a alegria de viver aí, do outro lado deste palco da vida, estando certa de que você, enquanto estrela, continuará a brilhar, seja aí, seja cá, nos nossos corações!

***

Se você também se sente indignado ou indignada com a abordagem sensacionalista do programa "Patrulha da Cidade", manifeste-se. Escreva para eles! Mostre sua rejeição a esta prática. Eu fiz isto e você pode fazer também. Hoje, Lacraia é cada um de nós. Clique AQUI para acessar o site deste programa e deixar a sua manifestação de repúdio.

Fonte: Sai na Urina

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8 FELICIDADES

  1. Até então eu não sabia do tamanho vômito de palavras que se tinha feito contra a Lacraia. Concordo plenamente ela ousou, foi hit, foi pop e de todos os seus sonhos, alguns sim! foram concluidos. Há quem critique, mas ela será lembrada, hoje e todas as vezes que alguém lembrar de tamanha ousadia...

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  2. Não sei mas cada dia vejo mais pessoas ignorantes e isso me assusta muito, por que acaba por aumentar esses tipos de preconceito, como se todo gay tivesse que morrer necessariamente de aids

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  3. Num momento como este as pessoas mostram que estão cada vez mais deixando de ser seres humanos!

    Este post venceu um prêmio lá no meu blog!
    Veja aqui amigo: http://justoedigno.blogspot.com/2011/05/os-melhores-da-semana-chupa-que-e-de.html

    Beijos

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  4. sinceramente não perco meu tempo com esse tipo de programa barato e sem ética. pessoas assim não são jornalistas e merecem um bonito "cala boca" para aprenderem a ser portar com decência na profissão e nas suas relações com o próximo.

    esse tipo de gente deveria ser banida da área jornalista. recuso-me a compactuar com pessoas assim na minha profissão.


    encontrei seu blog no JED do meu querido amigo serginho.


    amei!
    gde bj meu

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  5. Sim, também me senti indignado. Não conheço o programa e confesso que prefiro nada escrever porque os responsáveis não merecem a repercussão (negativa ou não) que esperam ter ao divulgar uma notícia da maneira como fizeram.
    Querido, outro dia percebi que você entrou no "Identidade G" como seguidor. Verifiquei a sua página e não localizei um blog seu. Apenas os que você segue. Agora, por acaso, encontrei você e o seu ótimo blog.
    Parabéns, gostei de tudo aqui.
    Bj.s
    Junnior.

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  6. Excelentes críticas, excelentes posicionamentos! Abraços!

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  7. Cada dia que passa a ingnorãncia impera nas pessoas.
    Beijos querido, ótimo domingo

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  8. Ridícula demais a posição deles...hoje mesmo estava comentando com minha colega de trabalho que é jornalista, dos absurdos que são ditos pelos radialistas no ar...eles não tem responsabilidade nenhuma com a notícia que propagam.

    ótimo esse texto amigo...muito bem escrito.
    Me emocionei com o final.

    abraços

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Comentários

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