28 agosto 2018




"Mas também, às vezes, a Noite é outra: sozinho, em postura de meditação (será talvez um papel que me atribuo?), penso calmamente no outro, como ele é: suspendo toda interpretação; o desejo continua a vibrar (a obscuridade é transluminosa), mas nada quero possuir; é a noite do sem-proveito, do gasto sutil, invisível: estoy a oscuras: eu estou lá, sentado simples e calmamente no negro interior do amor. "
Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoroso 


- Como esta música - disse, aumentando o volume do som enquanto caminhava pela sala abrindo os grandes vidros da janela para deixar o gemido do sax contaminar ainda mais o ar sujo das ruas, da noite, da cidade.
- Exatamente como esta música.
O vento de julho despenteou um pouco os cabelos dele. De costas para o outro, rosto voltado para o escuro, braços abertos. Como se dançasse. E foi dizendo, a cara erguida para o céu coberto de fuligem molhada pelas gotas da garoa fria:
- Percebe como ela se contrai? Feito uma pessoa que tivesse levado um soco inesperado. Bem na boca do estômago, assim. Voltou de repente e deu um salto para dentro da sala, a cara violenta, o punho fechado, estendido em direção à barriga do outro. Que se desequilibrou um pouco sobre o sofá, descruzando as pernas, os pés bem plantados no chão, o cálice de vinho numa das mãos, a outra parada tensa no ar, pronto para defender-se. Mas ele recuou sem tocá-lo, sorriu de lado e foi andando, novamente de costas, em direção à janela.
- Depois se estende outra vez. Lentissimamente, está Ouvindo? É agora, daqui a pouco, quando entra o acordeom. Acordeom não. Bandoneón, é assim que eles dizem lá. Presta atenção. Você percebeu. O sax é o soco.
Dobrou o próprio punho e fez um movimento brusco no ar, como se esmurrasse a si mesmo. Com força, no ventre. Curvou o corpo inteiro, a cara torcida num simulacro de dor sem fôlego. Depois começou a distender devagar a coluna. De onde estava, no canto oposto da sala, o outro tinha a impressão de que ele alongava uma por uma as vértebras, até atingir a altura do pescoço que se erguia, ao abrir os braços feito uma criança com sono espreguiçando-se, pela manhã. Então voltou o rosto e continuou:
Quando entra o bandoneón tudo se abre. - Estendeu o braço à frente, parecia querer segurar algo no ar. - Percebeu? Por alguns momentos, apenas alguns momentos, é como se houvesse assim uma espécie de esperança, de possibilidade de esperança. Seja o que for, você está quase alcançando. O teu braço está tão estendido que essa parte que junta com o corpo parece que vai rasgar. E as pontas dos dedos podem sentir assim quase como. Um formigamento, uma dormência. A vibração dessa coisa que está lá, por enquanto ainda longe deles, prestes a ser tocada.
Ele alongou ainda mais o braço. O tronco acompanhava, num esforço tão grande e lento que precisou tirar uma das pernas do chão. Estendeu-a no ar, equilibrando-se a princípio precário sobre a outra, depois mais e mais seguro, enquanto o braço estendido, o tronco alongado e a perna suspensa formavam uma linha quase perfeitamente horizontal. O rosto agora tinha uma expressão de prazer. Ou de expectativa de prazer. À beira da alegria, o rosto. O que quer que estivesse no limite dos dedos, pensou o outro, estava para ser tocado no próximo segundo. E não conseguiu evitar certa tensão ao olhar fixo, meio hipnotizado, os cinco dedos excessivamente entreabertos. Tanto que - de onde estava, podia ver - os ossos nas costas da mão dele se faziam mais salientes.Nascendo do pulso, um feixe de cinco ossos finos, nervosos. Sem querer desejou que, fosse o que fosse, ali, guardado no ar, à espera do toque, entre as paredes brancas, os dedos encontrassem logo o objeto. Que se fechassem definitivos sobre ele numa espécie de posse, para alívio dos dois.
Sentia como um calor, mas quando levou a mão ao rosto não havia suor. Pensou então que, naquele décimo nono andar, de algum outro edifício, outra janela, e eram tantas, devia ser esquisito ver aquela silhueta de homem longo e musculoso estendida assim no ar. Mas a música continuava, sax e bandoneón, uma cópula dolorida, interminável, entrelaçada como a dos cães nos becos, insuportável. Tivesse um lenço enxugaria a testa. Mas não havia suor.
Foi então que num dos acordes bruscos o homem de longo corpo estendido musculoso voltou-se subitamente para ele, cinco dedos abertos em sua direção. Quase sorriu, julgando entender. Sem premeditar, num impulso esboçou um movimento de levantar-se do sofá. Antes de fazer o gesto já se via também erguendo-se, um filme em câmara lenta. Talvez três vezes, repetindo os mesmos fotogramas - gesto incompleto, gesto incompleto e gesto incompleto - até completá-lo: a própria mão aberta estendida em direção à mão aberta estendida do outro. Mas a mão do outro voltou a encolher-se. Tão fortemente fechada que ele viu as juntas das falanges esbranquiçadas pelo esforço, e enveredou rápida cortando o ar, navalha em direção ao próprio estômago, fazendo o corpo contrair-se de dor e o rosto, o rosto devagar abaixado deixando desaparecer aos poucos uma imagem que se sobre- põe à outra, por um segundo ainda misturada à anterior, aquela expressão de gozo próximo, para permitir que aflorasse outra, traço a traço, sobrancelhas unidas em vértice, comissuras amargas da boca, voltadas para baixo, uma outra face mais escura que além da dor seca, injusta, espantada, tinha agora um novo elemento. Qualquer coisa como uma quebra? Qualquer coisa como a decepção da alegria entrevista nítida, pouco antes, bem ali, guardada no ar, a milímetros da extremidade dos dedos, ele vira. E isso doía ainda mais que a outra dor, assim humano, carente, incompleto. Então ele, que agora era o outro, interrompeu por um momento aquela dança torcida para dizer:
- E volta o sax. Quando volta o sax, volta o soco. Mas não um soco duro, você me entende? Um soco manso. Como se a tua barriga fosse uma almofada macia. Como se o próprio punho que bate estivesse meio acolchoado. Tudo macio. Não há ruído. Só uma coisa fofa. Uma dor lenta, vaga. Uma dor que começa a ser dor só aos poucos, não de repente, porque é aos poucos que você começa a perceber que ela existe, a dor.
Antes de a música terminar, ele desligou o som e sentou no tapete em frente do outro.
- Você sabe que de alguma maneira a coisa esteve ali, bem próxima. Que você podia tê-la tocado. Você podia tê-la apanhado. No ar, que nem uma fruta. Aí volta o soco. E sem entender, você então pára e pergunta alguma coisa assim: mas de quem foi o erro?
O outro fez um movimento como se fosse falar, mas ele o deteve.
- Sei, sei. Você vai perguntar: mas houve um erro? Bem, não sei se a palavra exata é essa, erro. Mas estava ali, tão completamente ali, você me entende?
No segundo seguinte, você ia tocá-la, você ia tê-la. Era tão. Tão imediata. Tão agora. Tão já. E não era. Meu Deus, não era. Foi você que errou? Foi você que não soube fazer o movimento correto? O movimento perfeito, tinha que ser um movimento perfeito. Talvez tenha demonstrado demasiada ansiedade, eu penso. E a coisa se assustou, então. Como se fosse uma fruta madura, à espera de ser colhida. É assim que vejo ela, às vezes. Como uma coisa parada, à espera de ser colhida por alguém que é exatamente você. Não aconteceria com outro. Depois, quando ela foge, penso que não, que não era uma fruta. Que era um bicho, um bichinho desses ariscos. Coelho, borboleta. Um rato. É preciso cuidado com o arisco, senão ele foge. É preciso aprender a se movimentar dentro do silêncio e do tempo. Cada movimento em direção a ele é tão absolutamente lento que o tempo fica meio abolido. Não há tempo. Um bicho arisco vive dentro de uma espécie de eternidade. Duma ilusão de eternidade. Onde ele pode ficar parado para sempre, mastigando o eterno. Para não assustá-lo, para tê-lo dentro dos seus dedos quando eles finalmente se fecharem, você também precisa estar dentro dessa ilusão do eterno.
O outro tinha se debruçado no sofá até ficar quase deitado. E ouvia, atenção dividida entre as palavras dele e algum gole de vinho. Ele sorriu. Tinha um jeito de sorrir de lado, como se quisesse esconder alguma falha nos dentes, embora não tivesse nenhuma, via-se quando ria inteiro, o que era raro. Ele sorriu, então um dos cantos da boca ergueu-se fazendo subir também uma das sobrancelhas, enquanto o olho quase fechava, embora brilhasse mais intenso assim, por entre as pálpebras meio inchadas, quase invisível. Tinha um pouco de criança quando sorria desse jeito. E de demônio. Demônio astuto, pensou.
- O erro? Eu dizia, pois é, o erro. Eu penso, se o erro não foi de dentro, mas de fora? Se o erro não foi seu, mas da coisa? Se foi ela quem não soube estar pronta? Que não captou, que não conseguiu captar essa hora exata, perfeita, de estar pronta. Porque assim como o movimento de apanhar deve ser perfeito, deve ser perfeita também a falta de movimento, a aparente falta de movimento do que se deixa apanhar. Você me entende? Eu penso também, e se houve alguma interferência no. No em-volta-dos-dois, no ar. No astral, eu penso também. Uma coisa de Deus, do invisível, do mistério, que embora pareça errada ao não te deixar apanhar o prometido, no entanto está absolutamente certa. Porque é assim que é. Naturalmente. As coisas sempre prestes a serem apanhadas. E você eternamente prestes a apanhá-las. Como uma sina. Sempre prestes.
Ele acendeu um cigarro. Acompanhou distraído com os olhos a fumaça fluindo em direção à janela aberta. Como se fosse parar de falar. Depois sorriu outra vez. De lado, de novo. E prosseguiu:
- Como se algo que estivesse perfeito. Eu insisto no perfeito, era assim: pouco antes da perfeição se cumprir. Perfeito, preparado para acontecer e, de repente, não acontecesse. Não acontece. E logo depois, quando você ainda nem entendeu direito o que aconteceu, ou o que não aconteceu, ou por que deveria ter ou não ter acontecido, vem alguém de repente e te dá um soco no estômago. E a mão que daqui a pouco você tinha certeza que ia estar cheia, pronto!, está vazia de novo.
Ele estendeu a própria mão no ar. Olhou os dedos, o cigarro pela metade. Repetiu, dramático:
- Entendeu? É bem simples. E medonho, porque não pára nunca de acontecer. A mão que daqui a pouco ia estar cheia, pronto!, está vazia de novo.
Levantou-se de um salto. Curvou o tronco numa reverência exagerada, enquanto olhava para a frente, para os lados, para cima, para as galerias repletas, agradecendo aplausos estrepitosos, bravôs! incendiados, sozinho no palco vazio, cheio apenas da presença dele mesmo, além da cenografia e das rosas, talvez dezenas de corbeilles de rosas, provavelmente vermelhas. Ao mesmo tempo em que o outro dizia devagar, como se tateasse as palavras, sentindo-se meio idiota:
- Você podia ter sido bailarino.
A resposta veio seca:
- Agora é muito tarde.
- Ou ator, também podia. Você tem uma incrível capacidade de.
- Sei, ator. Mas sempre posso falar do trabalho dos outros. O que é sempre um consolo. Ou não.
Certa melancolia, quem sabe, no fundo da voz rouca pelo excesso de cigarros, o outro localizou. Mas limitou-se a balançar em silêncio a cabeça - cristal, o momento, na transição para outro -, enquanto ele caminhava até a estante de livros em passos tão milimetricamente marcados que era como se tivesse ensaiado tudo aquilo antes. O que viria depois também.
- Escuta disse, apoiado na estante -, eu tive uma idéia. Já faz dias, desde que a gente se encontrou. Agora que você falou nisso. O outro fez uma cara de nisso-o-quê, mas ele não parou: - Nisso de ser bailarino, ou ator. Ou sei lá, qualquer coisa. Não gosto quando a gente fica falando assim no que não foi, no que poderia ter sido. God! Não aos sábados, principalmente à noite. Não hoje, por favor, hoje não dá, eu tenho. Eu tenho uma sensação meio de amargura, de fracasso. Você me entende? Como se tivesse a obrigação de ter sido, ou tentado ser, outra pessoa.
Mas-se-você-é-um-cara-tão-bem-sucedido, quase disse o outro. Mas continuava sentindo-se meio idiota, sentado ali feito um touro pastando no charco, e preferiu continuar calado. Um pouco como se estivessem ensaiando um texto que ainda não tinha decorado: esquecia as deixas certas e, bobamente, olhava um cálice cheio de vinho até a metade. Mas ele voltava da estante, improvisava rapidamente sobre a falha do outro, três livros na mão. Sentou-se no braço da poltrona, mostrou as capas:
- Conhece estes livros?
Os títulos em espanhol, leu devagar: Los premios, de Julio Cortázar, Cronica de una muerte anunciada, de García Márquez, e Conversación en la catedral, de Mario Vargas Llosa. Tocou de leve nas capas. Certo carinho distante, intenso como quem toca um álbum de fotografias quase antigas, as cores vivas já começando a ser invadidas pelo amarelo do tempo nos papéis. Sorriu, meio fatigado:
- Conheço, claro.
- Conhece e gosta? Ou conhece e não gosta? Ou conhece e não acha nada? Vamos lá, tipo múltipla escolha. Ou então assinale com um x o último quadrinho. Aquele que diz outros. Na linha pontilhada, especifique o que quer dizer com outros, certo?
Mas o que tem a ver, meu Deus, o que tem a ver, cruzou a cabeça. Umas invenções que ele não seguia. Do charco, afundado, Touro, precisou erguer um pouco a cabeça para ver melhor o rosto dele a seu lado, no braço do sofá, de baixo para cima, curvado sobre seu ombro. A barba crescida, dois dias. Alguns fios brancos no cabelo. Baixou os olhos, para ver o esgarçado no joelho dos jeans quase brancos.
- Primeiro quadrinho - disse. E desenhou no ar um grande x.
- Conhece e gosta?
- Gosto. Muito.
- E atenção, atenção, meus senhores: qual você gostou? - Deitou a cabeça no encosto do sofá. Além do rosto muito próximo, podia ver também o teto pintado de branco. Algumas rachaduras tênues entre aquelas pomposas e falsas decorações em gesso, típicas dos apartamentos antigos, grandes e baratos no centro da cidade. Os olhos dos dois se encontraram, inesperados. Desviou os seus para o teto, enquanto pensava, sem pensar propriamente que era tão raro, enquanto lembrava de um navio saindo do porto de Buenos Aires, e sem querer lembrou também do gemido do bandoneón no som agora desligado, tão raro e rápido, as águas do rio da Prata, cruzavam-se sempre, inevitável, na rua, ao acaso, com qualquer pessoa, logo se desviavam como se tivessem medo, e ainda de uma ruazinha qualquer num subúrbio de Lima, mas não conhecia o Peru, tão ariscos, feito os bichos que ele tinha falado, como era mesmo? Machupicchu, sempre teve vontade, devia ser lindo, insuportavelmente esotérico, você tem que estender a mão com cuidado dentro do silêncio, dentro do eterno, seria isso?, como se naquele breve encontro, raspão, fagulha, anzol, um farol que pisca daqui, outro que pisca de lá, fortes vibrações, respondendo ou não, houvesse um código indecifrável, ameaçador, e mais poderoso que tudo então, varrendo todo o resto, a imagem do rapaz vestido de branco, encurralado na tarde contra a porta antiga de madeira escura, talvez carvalho, mogno, as punhaladas, depois, muito fundas, seriam sete?, manchando o linho branco, feito as rosas de sangue espalhadas no palco vazio, então os aplausos, cortinas fechadas, camarins, bastidores. Piscou. E tornou a olhar para ele.
- A Morte - disse. - Gosto mais da Morte anunciada. Lembrei agora. Incrível, tão claro. Como se fosse uma fotografia, Santiago Nasar parado na porta. E todos, menos ele, sabendo que vai morrer.
Ele deu um salto tão brusco que o braço do outro tremeu um pouco fazendo o cálice de vinho respingar algumas gotas sobre o veludo branco da calça, na altura da coxa. Como Santiago, o sangue do Santiago Nasar manchando o linho, pensou à toa.
- Santiago, então?
- Santiago, claro.
Parado na sua frente, solene, engraçado, o outro estendeu o braço com o pequeno livro na mão. Feito uma espada, para tocá-lo litúrgico no ombro direito. Como se sagrasse rei a um cavaleiro.
Você vai se chamar Santiago. Tens que jurar fidelidade eterna a esse nome. Eu te batizo, Santiago, no meio da noite fria de julho. Em nome do Pai, do Filho, do Espírito Santo, amém.
- O quê?
Mas ele não ouviu. Colocou os livros sobre a capa do disco, que não conseguira ver direito, sem parar de falar:
- Pérsio, de agora em diante eu vou me chamar Pérsio. Sempre quis me chamar Pérsio. Lembra do Pérsio, aquele maluco dos Premios? O que olhava as estrelas no tombadilho, é assim que se diz? Tombadilho ou convés? Aquela coisa aberta dos navios. Ou popa, onde é a tal popa? Proa e popa, os navios têm tanta coisa. Comportas, escotilhas. Acho que era astrólogo, o Pérsio. Ou astrônomo, não sei, ou só pirado mesmo. Seja o que for, vou ter que falar de estrelas. O Pérsio entendia horrores de estrelas. - Caminhou até a janela aberta e olhou o céu. Um luminoso de Coca-Cola brilhou ao longe, vermelho, branco: “Beba”. - Só que não se vêem nunca as estrelas nesta maldita cidade, senão começaria a falar já. Tudo bem, falo depois. Na seqüência, quem sabe pinta? Afinal, vai ser uma longa noite. E é só uma criança, a noite ainda é uma criança. Você se chama Santiago, eu me chamo Pérsio. Santiago e Pérsio vão virar a noite nesta noite de inverno. Entendeu, Santiago?
- Não - o outro disse, sorrindo talvez de pura implicância. - Acho que não.
Ele voltou-se da janela. Abriu os braços, bateu forte as palmas das mãos contra as coxas, teatralmente desanimado:
- Como não, cara? Não tem o que entender. Tudo muito simples: a partir de agora você se chama Santiago e eu me chamo Pérsio. Certo, Santiago? Que que foi, não gosta do nome? É um nome fantástico, cara. Além do Nasar, que você gosta, tem o outro Santiago, o da Catedral, aquele jornalista com mania de pobre, filho de pai político e veado; é uma dupla homenagem. Como a Simone Clarice do Rubem Fonseca, naquela história, como era o nome, “Corações solitários”, era isso? Sem falar em Santiago do Chile, que Deus salve e guarde. Allende. Aff, uma tripla homenagem. - Vinha caminhando em direção ao sofá. Que tripla que nada: quádrupla, God!, que palavrinha, quá-dru-pla. Tem ainda Santiago de Compostela, lembra da Via Láctea? Na Espanha, acho que na Espanha, será Galícia? - Parou bem na frente dele, sem sapatos, as meias berrantes listradas de azul, amarelo, uma bandeira sueca, quase tocando as pontas dos seus tênis muito brancos. - Mais ainda, muito, muito mais. Tem Santiago do Boqueirão, no Rio Grande do Sul, terra de macho, chê, quase fronteira com a Argentina, já ouviu falar? Pois tem, quer ver no mapa? Tive um amigo de lá, o Ruy, onde andará o Ruy Krebs? - Deu um salto no ar, arregalando os olhos. - Impossível que você não goste desse nome, rapaz. É uma quín-tu-pla homenagem. E mais, tem mais, nossa, sêxtupla: aquele Santiago pescador do Hemingway. Se procurar tem mais ainda. Santiagos não faltam.
Engraçada, aquela animação falsa. Ou meio louca. Esta-pa-fúr-dia, soletrou. Bebeu um gole de vinho. E sorriu sem jeito:
- Não, o nome eu gosto. Isso eu entendi. Tudo bem, o que não.
- Pérsio.
- Hein?
- Diga assim, dois-pontos-nova-linha-travessão: “Não, o nome eu gosto. Isso eu entendi. Tudo bem, Pérsio, o que não”.
Os olhos dos dois tornaram a se cruzar. Tão raro. Nas ruas, nos ônibus, nos elevadores. Você me reconhece? E por me reconhecer, tem medo? A peste de que nos acusam. E assustado. Baixou-os, baixavam quase sempre os olhos para os pés, as listras, azul, amarelo, sobre o bordô do tapete. O outro veio se curvando para ele, um dos joelhos apoiados no chão, num melodramático simulacro de súplica. Começou a rir:
- Que loucura.
- Diga, diga. Por favor, diga.
Tá bom, eu digo. - Repetiu, tentando conter o riso. Afetado, escandindo bem as sílabas, num espanhol hesitante: No, el nombre me gusta. Esto yo he compreendido. Todo bien...
Recomeçou a rir. Tão violentamente que colocou o cálice no tapete, ao lado do joelho do outro.
- Ah, diga. Diga, vamos: um, dois e.
- Tá bom, Pér... Pérsio.
Que foi que você disse, Santiago?
- Pérsio. Eu disse: “Tá bom, PÉRSIO”.
O outro bateu palmas, rindo. Um gato no sol do meio- dia, rolando pelo tapete da sala enorme. As mãos cruzadas seguravam os joelhos bem na altura do esgarçado dos jeans, quase furados.
- Pérsio, você me chamou de Pérsio! - Esfregou as mãos. - Estamos apenas começando, e vamos muito bem. Já viu que nome lindo, cara? E não tem homenagem nenhuma. Ninguém se chama Pérsio.
Sacudiu a cabeça, fazendo que não, ainda rindo. Sentado no chão, as pernas cruzadas feito um iogue, o outro olhava para algum ponto da parede acima da cabeça dele.
- Só mesmo a própria Pérsia. Tapetes, gatos, aiatolás, Sorayas e que tais. Que nem se chama mais Pérsia, mas Irã, não é? Tenho uma amiga que quando falam no Irã ou no Nordeste, leva a mão ao coração, revira os olhos e diz assim: “Ai, meus Deus, o Irã! Ai, meu Deus, o Nordeste!”. Depois grita, puta: “Mas não tenho culpa se estou bebendo champanhe, porra!”.
- Olha, Pérsio, o que não entendi foi...
- Fala, Santiago.
- Foi o que isso tinha a ver com o que eu falei antes.
- Antes?
- É, o negócio de ser bailarino. E aquilo que você falou depois, de.
Parecia sério, embalando-se sobre os joelhos cruzados, numa imitação de surto catatônico. Para a frente, para trás. Os olhos fixos num ponto remoto da parede, bem acima da cabeça dele.
- Sei, sei. Qualquer coisa que ficar falando no que a gente podia ter sido não é bom. Dá uma sensação de...
- ...fracasso...
- Justamente. Em cima. De fracasso, amargura, frustração. Tipo Walter Hugo Khoury, nem pensar. Aí resolvi que nesta noite de inverno em que vamos virar a noite de sábado pelo avesso da noite de julho, ninguém vai falar no que podia ter sido e não foi. Simplesmente porque você não se chama João nem Paulo, assim como eu não me chamo Carlos nem Pedro. Você se chama Santiago, eu me chamo Pérsio. Além de evitar amarguras, é superpolitizado, você não vê? Adequadíssimo, perfeito. Mais do que, sei lá, Jean-Paul ou Vittorio ou Steeve ou Wolfgang. Com um nome desses você pode virar a noite impunemente. Do champanhe à cachaça, dos Jardins ao Jeca, do 0ff à Terra de Marlboro. Sem culpa alguma, rapaz. Dois latino-americanos virando a noite pelo avesso da noite na noite da maior cidade da América do Sul. Cantarolou, desafinado: - Vi-ve-mos-na-me-ihor-ci-da-de-dAmé-ri-ca-do-Sui-dA-mé-ri-ca-do-Sul-ba-hy-ha-by-há-quan-to-tem-po? - Olhou direto para ele quando disse: - Há quanto tempo, não? Desde o ginásio. Desde Os Verdes Anos na província. Ah, The Green Years... Quem diria que... - Ergueu-se, manso, mão estendida para ele. – Como é que é, Santiago? Topas o nome que nos dei?
Tocou a mão estendida. Morna, boa. Como o rosto, um rosto que se eliminasse certos fios brancos nas têmporas, quase invisíveis, pouco mais que reflexos prateados quando a luz batia, e aquele vinco fundo no canto direito da boca, ah, essa mania de sorrir de lado, pensou com uma espécie de arrepio, gelo na nuca, a janela continuava aberta, mas não era frio, só um certo incerto frio, vinha junto com outra coisa de muito longe, uma coisa clara mas meio perdida, e tinha um gramado inclinado, estranhamente inclinado, sol quase posto, cheiro de terra, queixo apoiado numa bola de futebol, uma bola de couro número cinco, tão raras, só no Natal, não eram assim como essas de hoje, quadriculadas de preto, um talo de grama entre os dentes, seria o mesmo, menos as espinhas de lá, menos o azulado da barba de dois dias daqui, gosto ácido açucarado na superfície da língua, a voz que então subia e descia, montanha-russa derrapando súbita entre graves e agudos incontroláveis, em mutação, super- postos a tarde, o céu, a grama, superpostas as mãos de pêlos macios, apertando-se cordiais - sim, te reconheço tanto, tanto tempo, tanta coisa.
- E daí, Santiago? - ele repetiu. Visto assim, de baixo para cima, os olhos pareciam brilhar. Baços, claros. Talvez um pouco molhados. - Como é que é, você topa?
Ele apertou com força a mão do outro. Confirmou:
- Topo. Eu topo, sim. Claro que eu topo, Pérsio. E percebeu que ele estremecia um pouco. Como se visse um pouco além de tudo aquilo? Soltou seus dedos quase bruscamente para esfregar as palmas das mãos nos braços nus. Está com frio? Por que não veste uma coisa mais quente?
Em silêncio, Pérsio parecia olhar agora não mais acima de sua cabeça nem direto nos seus olhos. Mas através dele, para uma região tão insondável que já não era ele a quem olhava, e sim.
- Quer que eu feche a janela?
Sem esperar resposta, levantou-se sacudindo as pernas meio dormentes pelo vinho, pela umidade da chuva, pelo frio de julho, pelo tempo que ficara ali sentado, pelas histórias loucas do outro. Teve que desviar-se dele, cheiro de maconha e cigarro e suor limpo e lençóis mornos, para caminhar até a janela. No escuro viu lá embaixo as cintilações dos faróis dos carros, anúncios luminosos, Minister, Melitta, Coca-Cola, fume, beba, compre, morra, suspensos no ar, flutuantes, naves espaciais, janelas iluminadas nos outros edifícios, luzes às vezes vermelho-quente, íntimas como as das boates, vago erotismo nas silhuetas mal desenhadas nos interiores alheios, beijavam- se talvez, acariciavam seios coxas dedos mergulhados em pêlos umedecidos, atrás de cortinas gemiam baixinho entre plantas desidratadas, gemidos roucos de tenso prazer urbano, dezenas de metros abaixo as poças d’água no asfalto espelhavam o brilho artificial do neon. Pulsante, a noite de sábado refletida às avessas no meio da rua. Um grande mar escuro, alto-mar sem ondas sobre o qual tivessem Deus, o capitão de um transatlântico, o piloto de um helicóptero - salpicado na superfície das águas gotas de tinta fosforescente. Fechou com cuidado os vidros. Junto com o ruído metálico dos dois puxadores de metal, penetrando um por dentro do outro, escutou o tilintar agudo do telefone.
A mão suspensa sobre a mesinha de tampo de vidro, em frente do sofá, Pérsio esperou que tocasse três vezes. Piscou irônico antes de atender:
- Lições Urbanas de Estratégia Telefônica, principalmente à noite e durante os fins de semana. Claro que tudo
isso se você não tiver uma secretária eletrônica, o que infelizmente é o caso. Capítulo um: nunca atenda antes de deixar tocar pelo menos três vezes, para não demonstrar ansiedade. Que ninguém possa supor jamais que você vive plantado ao lado de um maldito telefone. Principalmente à noite e durante os fins de semana, claro. - Atendeu, entediado. - Alô? Eu. - Equilibrou o fone no ombro esquerdo, contra o queixo, procurou com a mão livre o maço de cigarros na mesa. Acendeu um. Tragou.
- Tudo em cima, e você?
Parecia subitamente cansado, os cabelos claros muitos curtos, uma das pernas estendidas sobre o encosto do sofá, forçando para a frente, como numa barra, o pé em ponta numa aula de dança, na camiseta sem manga era David Bowie a figura, via agora, a barba por fazer. Distraídos, os olhos erravam à toa pelos quatro cantos. Na parede atrás do sofá Santiago viu então, pela primeira vez, a grande reprodução colorida e vertical de um quadro onde um homem beijava uma mulher. Podiam-se distinguir apenas os cabelos dele, muito pretos e crespos, com uma nesga do rosto moreno afundando na pele branca da mulher. Dela, via os olhos fechados numa expressão menos de prazer que de paz, pequeninas estrelas brancas e azuis emaranhadas no cabelo. E aquela chuva de ouro ao fundo, derramada também pelos longos mantos amarelos que vestiam, pisando flores miudinhas. Tão claro, tudo, mancha ofuscante de sol no meio da parede da sala branca.
- Hoje não - seca, a voz de Pérsio. Ou delicadamente irritada, evasiva. - Tenho um compromisso, posso não. É, um amigo. Muito tempo. Liga outra hora. Amanhã, depois. Se vê, a gente se vê. Tchau, Outro. - Bateu o telefone, tragou fundo, soltando a fumaça pelas narinas. A cabeça erguida, acompanhou o olhar de Santiago até o quadro. - É O beijo, de Klimt. Trouxe de Paris, faz tempo. Tem muito por aí, só que esta é uma reprodução au-tên-ti-ca.
Até que ponto uma reprodução pode ser autêntica? Ah, eis aqui uma contradição intrínseca. Sabia que atrás dele mora uma lagartixa? Uma lagartixa chique, atrás de uma reprodução francesa. Chiquíssima. Ainda se fosse um primitivo. Mas não, um clássico nouveau. Nouveau ou decô, qual a diferença? Não sei como foi parar lá, já viu uma lagartixa morando num décimo nono andar? Quer ver? - Sacudiu de leve um dos cantos do quadro. Kay Kendall - chamou. - Kay Kendall, meu bem, onde está você?
De um dos cantos superiores do quadro surgiu uma pequena lagartixa de longa cauda nervosa. Vacilou por um segundo na parede, indecisa em sentir-se ameaçada, depois subiu veloz em direção ao teto e desapareceu entre rebuscados arabescos de gesso. Santiago imaginou a pele gelada, viscosa. Cauda cortada retorcendo-se como se tivesse vida própria. Nasceria outra, depois, bífida. Desviou os olhos:
- Não gosto de lagartixas.
- Mas a Kay é inteiramente inofensiva. E tão ecológica. Deixo ela aí, à vontade. Dizem que dá sorte. Tem gente que chama de salamandra. Me disseram que são os duendes do fogo, as salamandras. Não é lindo salamandra? E eu sempre penso na Teiniaguá, lembra da Teiniaguá? A princesa moura encantada em forma de salamandra, uma pedra preciosa no lugar da cabeça. Depois penso também que a Kay Kendall pode muito bem ser uma princesa encantada. Fazendo companhia a um príncipe encantado também, por que não? - Apagou com força o cigarro. Esfregou a palma da mão na barba crescida.- Tenho um amigo que diz: “Ultimamente tenho me deitado com príncipes e acordado com sapos...”
Santiago baixou os olhos.
- Você parece cansado.
- Cansado, eu? Imagina, sou inesgotável. Uma verdadeira Fonte Alternativa de Energia. Passei a tarde inteira deitado queimando fumo, vendo televisão, cheirando umas, batendo punheta. Tenho fantasias cada vez mais singelas & eficientes. Esse frio, essa umidade, essa chuva, essa.
- Se você não quiser sair, não se preocupe.
- Que que é isso, menino? Já não te disse que vamos virar a noite? Não me ouviu descartar agora há pouco mais uma suculenta FF?* (*) FF: Foda Fixa - Imitou, a voz melosa:-Oi-tudo-bem-e-aí-tô-ligando-pra-saber-se-você-va-fazer-alguma-coisa-hoje-à-noite. Como se a gente tivesse obrigação de fazer alguma coisa toda noite. Só porque é sábado. Essa obsessão urbanóide de aliviar a neurose a qualquer preço nos fins de semana, pode? Tenho vontade de dizer nada, não vou fazer absolutamente nada. Só talvez, mais tarde, se estiver de saco muito cheio, tentar o suicídio com uma dose excessiva de barbitúricos, uma navalha, um bom bujão de gás ou algo assim. Se você quiser me salvar, esteja a gosto, coração. God! Um dia acabo mesmo dizendo, porra. Acendeu outro cigarro. - Cansado nada. Só um pouco. Histérico, acho que estou meio histérico, não estou? Você deve estar me achando completamente louco. Cabeça a mil, garoto. Aí começo a falar e não paro mais. - Ergueu lentamente os ombros, depois soltou-os, com um gemido. - Olha, vou tomar uma boa chuveirada, fazer uma bela barba. Aí te mostro a minha outra face, que você ainda não viu. Uma face limpa, barbeada, saudável, equilibrada, gentil, simpática, madura & razoável. Cheirando a sabonete Phebo, creme de barbear Bozzano, pinho silvestre e carradas de santas intenções. Então a gente sai. Você está com fome?
- Um pouco - disse Santiago. - Nada de grave.
- Nunca, nada de grave. Nada-de-grave é ótimo. Fica aí, eu volto já. - Antes de entrar, ainda ergueu os olhos para o alto da parede, chamando em voz baixa:
- Kay Kendall, onde está você? Pode voltar, gatinha. Não ouviu o moço? Nada de grave no pedaço.
Vinda de dentro, Santiago ouviu a voz dele, batendo portas, fica à vontade, sabe mexer no som? põe um som aí, tem jazz, porradas de jazz, que tal uma boa e velha Billie pra dar o clima noturno? tem um rock também, uns berros de Nina Hagen? ligando a televisão no quarto, a música familiar, irritante e estridente do Jornal nacional derramou-se pelo corredor para invadir a sala, umas revistas malucas aqui no quarto, gosta de sacanagem forte? muito fist-fucking, cada posição, menino, nem de conto, Kama-Sutra é Imitação de Cristo, perde, fica à vontade, quer ver? ai, meu Deus, o Irã, o Nordeste, odeio ficar bem informado, se quiser mais vinho vai até a cozinha, te serve, tem branco também, branco e tinto, rosé não é vinho, tem queijo em cima da mesa, a casa é sua, olha, se estiver a fim de queimar uma coisa tá na latinha, na cabeceira, tem umas revistas antigas de cinema, um sarro, a tia Clara eu bato depois, quer dar uma conferida nas baixarias de hoje do nosso querido planetinha ou prefere ouvir Mozart?
Santiago gritou que não, que não queria, que tudo bem, que não se preocupasse. A musiquinha diminuiu, desapareceu num dique seco. Depois uma gaveta fechada, um ruído de porta, a água caindo do chuveiro, a voz agora em falsete imitando Ângela Maria num bolero qualquer. Através da água uma voz gemida, desafinada, cortante.
Sozinho, rodou por alguns momentos desorientado na sala subitamente esvaziada. Olhou em volta, o sofá, o quadro, a mesinha, a estante despencando de livros e discos, o tapete bordô, algumas almofadas. Remexeu nos discos sem vontade, Caetano, Gal, Duke Ellington, Armstrong, Stan Getz, Thelonious Monk, Marina, acariciou a capa de um Erik Satie, Silvia Telles, continuou mexendo, João Gilberto, Ray Charles, Dinah Washington, Elis, várias
Elis, Dulce Veiga, Nina Simone, Ângela Rô-Rô, obras completas, um velho Mutantes, um Sérgio Sampaio, fui internado ontem, lembrou, um Brahms. Deteve-se na capa conhecida, azul-desbotado, rosto branco, olhos fechados como uma máscara mortuária. Colocou-o no prato, sobre o outro, o do bandoneón, Piazzolla e Gerry Mulligan, conferiu, apertou o botão. No exato momento em que a música começou a brotar das caixas, olhou para a parede atrás do sofá e viu a lagartixa descendo rápida de um orifício no gesso.
- Kay Kendall - chamou baixinho -, nada de grave, gatinha. - E cantarolou lento, junto com a voz rouca de Billie Holiday: - I’m a fool to want you, I’m a fool to hold you.
Inesperadamente pacífico, ou com o gosto de outra paz antiga, o blues trazia uma vontade de deitar-se no chão ao comprido, sobre almofadas, para olhar detidamente o teto, suas tênues rachaduras, rios num mapa, as cintilações dos anúncios luminosos através das vidraças fechadas, alguma coisa dura nos ombros se soltava, talvez acenderia um cigarro, se fumasse apagaria as luzes, bebendo lento o vinho. Apanhou o cálice quase vazio junto ao sofá, e penetrou pelo corredor de paredes também brancas, tão estreito e alto que sentiu uma espécie de vertigem. O longo canal do útero à vagina, deve ser fome, pensou, e entrou na cozinha aberta, iluminada no final do corredor. Do banheiro, a voz de Pérsio chegava agora misturada à de Billie, em meio a gritos e ruídos, água, corpo, sabonete. Pegou a garrafa, encheu o copo enquanto cortava uma lasca de queijo. A cozinha de azulejos limpos, a cesta de maçãs vermelhas. Foi quando voltava, sem planejar, vontade apenas de chegar novamente à sala para estender-se sobre as almofadas, descalçando os tênis, talvez porque a porta estivesse também aberta, a luz do abajur acesa como um convite, ou por algum tipo de esquisita vibração, custou a achar o nome, mas repetiu, uma esquisita vibração de intimidade, por curiosidade pura, limpa, sem inscrição nenhuma, diria, se lhe pedissem explicações mais tarde, mas ninguém pediria, ninguém saberia, por razões ainda mais simples, se houvesse razões, porque simplesmente, finalmente, naturalmente a porta estava aberta e ele parado ali, na entrada do quarto de Pérsio, por uma coincidência de tempo, de geografia, de cir-cuns-tân-ci-a, justificou. Instante rápido: ele ali parado e a voz rouca de Billie repetindo qualquer coisa melancólica como it ‘s a pleasure to be sad. Instante em que ele poderia perfeitamente ter continuado a caminhar em direção a.
Quando deu por si estava dentro do quarto.
Era grande, alto, branco. Como a sala. Não havia muito para ver, nem muita coisa. Nada excepcional capaz de atraí-lo assim, hipnótico, para dentro. Mas como um ímã, magnetizado, parou à beira da cama desarrumada e olhou em volta. A escrivaninha cheia de livros, laudas de jornal, programas de teatro, revistas, xícara vazia, garrafa térmica amarela, par de óculos de armação pesada. Contra um fundo lilás, pôster com uma fotografia em sépia de Sarah Bernhardt, entre a escrivaninha e as cortinas fechadas, espessas, até o chão. O armário embutido de portas azul-marinho levemente entreabertas deixando ver qualquer coisa verde-brilhante, talvez um blusão de náilon. E a cama, então. Lençóis brancos, travesseiros amassados, o cobertor listrado de verde e vermelho, meio dobrado, um cinzeiro cheio de pontas equilibrado entre as dobras. Ao lado a mesinha-de-cabeceira, o relógio digital marcando dois mil e trinta, vinte horas e trinta minutos, corrigiu, maço de cigarros amassado, Hollywood, leu, o abajur aceso, uma caneta de tampa mordiscada, bloco de papel, a caixinha de metal cheia de fumo, a espátula verde-translúcido, marinha, algas, ilhas, o corpo nu de uma mulher de selos empinados, braços erguidos acima da cabeça, segurando uma lupa redonda, marcava a página aberta de um livro com algumas frases sublinhadas. Curvou-se para ler, de repente, assim:

- Dançarás! - disse o anjo. - Dançarás com teus sapatos vermelhos, até estares pálida e fria, até tua pele enrugar-se como a de um cadáver. Dançarás deporta em porta, e onde morem crianças soberbas, vaidosas, baterás à porta, para que te ouçam e tenham pavor de ti! Dançarás, dançarás sempre...
- Misericórdia! - implorou Karen.
Mas não ouviu o que o anjo respondeu, pois os sapatos já a levavam, através do portão, aos campos, cruzando caminhos e atalhos, fazendo-a dançar continuamente, sem interrupção.
Fechou o livro. E viu a capa branca: contos de Andersen. A princesinha deitada sobre dezenas de colchões, o grão de ervilha sob o último, lembrou, princesa encantada, Kay Kendall, acordar com sapos, Teiniaguá. Teve um pequeno tremor, como se fizesse algo proibido e pudessem surpreendê-lo assim, vampiro de intimidades, Bebeu um gole de vinho. Talvez na noite anterior, ou à tarde, nu entre os lençóis, janelas fechadas, o ruído distante dos automóveis, na rua, coados pelas cortinas cerradas. O cheiro áspero das pontas de cigarros amassadas no cinzeiro. Desviou os olhos, desviava muito os olhos, calor no rosto, sentia sempre calor no rosto, para as duas pilhas de revistas em cima da televisão desligada, aos pés da cama.
Só ao se aproximar viu o desenho: um homem jovem inteiramente nu, a não ser pelos tênis e as meias, deitado de bruços na grama, olhos fechados, boca entreaberta, passivo, deliciado, possuído pelo leão entre suas coxas, a língua do animal penetrando fundo numa das orelhas. Animals love maneaters, leu, uma sensação de proibido. Na memória, um professor bateu com estrondo um livro no tampo de sua mesa, porque esta i-mo-ra-li-da-de, Carlos Zéfiro, Suzana Flag, Adelaide Carraro. Virou as páginas furtivo, outro homem deitado de costas, a camiseta erguida roçando os mamilos rijos cercados de pêlos dourados, coxas abertas entre almofadas marroquinas, densos interiores, a glande redonda, rosada, um figo aberto na extremidade mais polpuda, meio invisível, perdido entre sombras, pentelhos, músculos, tudo num tom avermelhado de febre, igual ao do interior das janelas nos Outros edifícios, atrás dos quais alguém insinuava lentamente as pontas hábeis dos dedos por entre botões desabotoados da camisa de outro, outra quem sabe, a leve carícia, e o negro em pé, de costas, apoiado na poltrona de couro, bunda voltada para ele, a bunda dura, negra, musculosa, uma bunda de homem com um pequeno triângulo de pêlos negros encaracolados antes da divisão macia das nádegas por onde se penetraria aos poucos, primeiro o dedo umedecido descobrindo caminhos, depois talvez a língua móvel, ágil, despertando o prazer em convulsões miudinhas, gemidos abafados, as pernas abertas, a voz de Billie vinda da sala embalava os dois rapazes nus, misturados em meio aos lençóis de cetim, o rosto erguido para a câmera de um, em direção à luz, o rosto do outro mergulhado nos cabelos do peito, como o quadro na sala, os músculos tocando-se tensos, luz azulada sobre os dois, estrelas emaranhadas nas peles, nas carnes matas cerradas, pântanos de estranho perfume, o grande pau em ereção, a glande de curvas suaves, ponta de foguete enristado em direção à luz, talvez Saturno, um lento blues ao fundo, imaginou, roupas jogadas em desordem pelo chão, misturadas, como os corpos, calças brancas de um, camiseta vermelha de outro, cálice de vinho virado sobre o tapete bordô, um cinzeiro cheio, alguma cinza no chão, dessas que se apanham com o indicador molhado para depositar novamente no cinzeiro, o vinho misturado à cor do tapete, tinto sobre tinto, poça onde se refletiriam não os edifícios, mas esquisitas luzes íntimas, chama de isqueiro, brilho de olho, de ouro, reflexo de neon nos dentes, ânsias, tesões, sensualidades, par de tênis e meias brancas jogados ao acaso, brilhando no escuro fosforescentes, cristal do cálice, ruído de zíper, peles nuas, cheiro espesso de suor limpo, almíscar, quando o suor mal começa a vencer os perfumes, diluindo colônias, sucos, cruas secreções com seu odor de carne livre de roupas, os números do relógio digital vermelhos destacados no escuro, e o lento blues, um choque de dentes, unha rasgando as costas, uma mão meticulosa acompanhando devagar o desenho preciso dos pêlos no ventre, um gemido baixinho, a carne do pescoço levemente ferida pelos dentes, roxo indisfarçável na manhã seguinte, óculos escuros, mas antes, bem antes, o peso quente de outro corpo, os cheiros guardados secretos sob as axilas, no vértice do queixo, curva da virilha, onde termina a pele lisa e começam os pentelhos, a um passo do poço fundo da orelha onde a língua se perde para descobrir gostos longínquos, desconhecidos, os dedos dos pés separados, intimidades, fronteiras, acariciando o outro pé, o pé do outro, dois membros duros, luta de espadas, calor, quarenta graus, pressão pulsante na barriga um segundo antes. Tocou o próprio pau endurecido contra a calça. E ouviu a voz rouca de Pérsio, do meio da água, num grito, no banheiro:
- Vira o disco. Esse é ótimo.
Apanhou rápido uma das revistas da pilha ao lado e saiu do quarto. Na sala excessivamente clara, um pouco tonto, entre dois goles de vinho, folheou à toa as páginas amareladas, como não tivesse ouvido, como não tivesse culpa, estendido nas almofadas, rindo sozinho, divertido demais, enquanto enumerava os nomes, as fotos, Donna Reed, Yvonne de Cano, Dorothy Malone, Rhonda Fieming, Mamie van Doren, Arlene Dahl, e então, de entre as páginas caiu sobre o tapete o cartão-postal. Antes de virá-lo para ler viu um céu todo manchado de roxo e laranja, um laranja mais claro em cima, adensando-se em nuvens de um lilás cada vez mais pesado, até desabarem no horizonte realçando o contorno dos edifícios com luzes esparsas, a torre Eiffel ao fundo. Paris La Nuit, leu. Virou o cartão, a tinta preta, a letra firme:
Paris, 5 de abril
Já começou a esquentar, eu penso em você. A cidade está linda. O inverno guardado nos ossos vai indo embora aos poucos. Como um degelo, por dentro. Me dá notícias. Se encontrar um daqueles telefones, ligo qualquer noite. Você vem mesmo em julho? Sinto saudade, ando meio só. Um beijo, cem beijos, teu J.
Fechou a revista, o cartão dentro. E ficou olhando na capa os olhos profundos de Lana Turner. Levantou-se para virar o disco. Aproveitou que estava em pé para entreabrir as duas folhas de vidro da janela. Um vento quase gelado bateu em sua testa. Ao recuar, viu o próprio rosto misturado às luzes da cidade, corado como o de um garoto surpreendido em meio a um ato obsceno. Caminhou até a mesa, acendeu um cigarro. Teve medo de sentir náuseas. Fazia tanto tempo. Mas a fumaça subiu pelas narinas apaziguante, alcançando o cérebro, agradável. Gosto meio áspero misturado ao espesso do vinho sobre a língua, reconfortante como um chá, uma mão no ombro, uma palavra de carinho, um blues, uma punheta. Santiago suspirou, atento a alguma coisa crispada nos ombros soltando-se, desaparecendo.
Então o telefone tocou outra vez, e duas vezes, enquanto ele esperava que Pérsio gritasse qualquer coisa como atende aí, ou deixa tocar. Atendeu.
- Ele está tomando banho - disse. - Quem quer falar?
- É o Paulinho. Diga a ele que é o Paulinho.
Chamou Pérsio, o fone nas mãos, meio confuso. O outro emergiu do corredor enrolado numa toalha branca, cabelos molhados, cara coberta de espuma, um pincel de barba na mão.
- Paulinho? - cumprimentou. - Olha, eu estou no meio de um banho. Você pode ligar depois? Daqui a pouco, sei lá. Dez minutos, quinze. Me dá um tempo, estou todo ensaboado.
Bonito, Santiago pensou, era um homem bonito de ver, bem desenhado, de ficar olhando para ele, Pérsio, pincel de barba numa das mãos, telefone na outra. E olhou devagar e detalhado o peito nu sem barriga, a espuma branca do rosto escorrendo num fio entre os mamilos, em direção aos pêlos espessos em volta do umbigo.
- Tchau então. Até já. - Pérsio desligou. Para ver Santiago estranhamente ruborizado no meio da sala, copo de vinho numa das mãos, cigarro na outra, muito moço, vagamente familiar. Como um vizinho que mal se vê, um colega de trabalho em outro andar, vestido de branco e cinza, sólido, ao mesmo tempo frágil jeito nas mãos, parado ali a olhar para ele, Sorriu mecânico, sem vontade, sem nada para dizer, que praticamente não o conhecia, e no entanto era por ele, de certa forma era para ele que tomava banho, afugentando os fantasmas do sábado à tarde. Teve uma espécie de frio. Ou medo, desconforto. Premonição, pode ser.
- Está gostando da Billie?
- Perfeito, é realmente perfeito para um sábado à noite.
Pérsio entrou pelo corredor, fechou a porta e examinou o rosto no espelho embaçado do banheiro. Tão embaçado que precisou limpá-lo devagar com uma toalha. Feito nuvem, a camada fina de vapor dissolveu-se para revelar olhos muito claros, pupilas um pouco dilatadas. Estou com olheiras, pensou. Largou o pincel na pia, bateu leve com os dois indicadores sob os olhos, depois nas faces, cada vez mais forte, até ficarem coradas como as de Santiago parado na sala, jeito frágil nas mãos.
O banheiro nublado pelo vapor do chuveiro morno. Como a sauna onde mal divisava as formas do outro, diluídos naquela neblina, chegando muito perto, subindo os olhos pelo peito largo coberto de crespos pêlos negros reluzentes de suor, depois o pescoço forte, taurino, nascendo reto dos maxilares, uma massa escura de cabelos pretos empastados e os olhos pretos também olhando atentos, vindos de longe, de muito longe, tanto que não conseguiria precisar quando, nem onde, nem quanto, em que lugar, em que tempo, de que jeito, com que intenção escondida. Identificou-se aos poucos, hesitante tateava aqui, ali, na sombra. Para não errar, tateava. Não errava, que eram eles mesmos, embora de muitas formas talvez já não fossem iguais - os anos, a distância, a cidade, os caminhos. Pérsio suspirou paciente, deixando os olhos vararem pelos outros homens nus dispostos feito estátuas nos bancos de azulejos, entre o vapor um músculo mais nítido, relance, coxa, braço, bunda, reconhecendo também, mas há quanto tempo, o que é que você faz aqui. Logo depois, sentindo-se um pouco idiota, o que é que um cara podia fazer num lugar daqueles senão procurar outro homem? Mas resguardaram ambos um clima talvez de antiga intimidade, mesmo que para isso precisassem renunciar tacitamente a todas as outras possibilidades expostas, machos na caça, vagamente nítidas na névoa. Que não seria o caso, porque era sábado - como hoje, só que antes -, porque praticamente mal se conheciam, e o que um pudesse pensar do outro pouco ou nada importava, tantas esquinas na cidade, caminhos diversos, descruzados, por delicadeza, por atenção gratuita, involuntária, natural, jogada um sobre o outro. Pérsio, Santiago - sem nome, pagãos.
E de repente estavam sentados juntos à beira da piscina de jatos quentes, bebendo cerveja civilizados, lembrando coisas sem tocar no assunto, você também, procuras, como se fosse inteiramente por acaso, veja só, um lugar como outro qualquer, cruzamento de duas avenidas centrais, no fim da tarde elevador repleto ou sala de espera de um cinema, sessão anônima de domingo. De repente viu-se convidando sem planejar, por que você não aparece em casa uma noite dessas, fim de semana, a gente podia sair, jantar, dar uma olhada na noite. E de repente apressado, estava no vestiário, estendia um cartão, um número, um nome. Era bonito o outro que ainda não era Santiago, se espiasse com cuidado por baixo dos cabelos pretos molhados, emaranhados, se desbastasse traço a traço aquele ar solícito e espantado até quem sabe algum atrevimento, coisas assim, promessas, mas não ousava. Sairia então pela noite levando uma sensação esquisita, quase nova, dentro do peito, essa armadilha de que não gostava, o passado abrindo súbito seu baú mofado para trazer de volta fantasmas esquecidos, que não era, como supunha, um desconhecido na grande cidade, embora dando a partida no carro, arrancando brusco, ligando o rádio numa FM qualquer para ouvir Guilherme Arantes, o som ligado bem alto, ou qualquer um deles, cada vez que o mundo diz: não, não importava, pudesse imaginar que na próxima volta da próxima esquina e outra mais e ainda mais uma, ninguém o reconheceria.
Ninguém o reconheceria assim, a cara coberta de espuma dentro do banheiro embaçado, teve certeza, músculos mais soltos depois da ducha morna. Vinha de longe a cara do outro, com suas sobrancelhas espessas unidas sobre o nariz curto, vinha de coisas e tempos que gostaria de deixar talvez completamente para trás, tão distantes e empoeirados que não conseguiria ver-lhes direito as faces, mesmo depois de afastar meticuloso a poeira acumulada durante anos e anos de quedas e vôos.
Vertical, a gilete cortou a face. Um fio fino de sangue espalhou-se no branco da espuma, tinta vermelha em mata-borrão. Caralho, resmungou. E ouviu da sala que Santiago substituía Billie Holiday por um velho James Taylor. Subitamente então, tentando estancar o sangue, pensou que era muito tarde. Entre os dois, não haveria volta?
Qualquer coisa que ainda não compreendia, que não era exatamente essa. Nem assim. De alguma maneira só restava a ele, Santiago, dar prosseguimento aquilo que começara talvez antes do sábado anterior, tortuosamente, à revelia deles, numa tarde qualquer havia muitos anos - ah, The Green Years, repetiu, era como num filme, sessão da madrugada -, num gramado, como uma sina, estranhamente inclinado, numa cidade do interior em que teriam sido os únicos, mesmo sem dizer, mesmo que eles próprios não soubessem ainda o que já sabiam sem sequer saber o nome, criava uma espécie de pacto mudo, sinuosa cumplicidade prosseguindo agora - fatalidades? E, no entanto, o sangue estancava junto com a letra da velha canção, you just call out my name, tudo era tão bonito e tão antigo, and you know wherever I am, gostava dele assim, meio pesado, I’ll come running to see you again, vacilando entre as emoções, winter spring summer or fall, gostava como se gosta de si mesmo, all you have to do is call, ou o que ficou de si, and I’ll be there, no passado, you ‘ve got a friend, cantou junto: um pedaço que se imagina para sempre perdido. Até que um dia, como nas histórias inventadas, como se quisesse abraçá-lo para confirmar-se, como se pudesse abraçar-se para confirmá-lo. Do meio da neblina emergia o rosto do outro, desculpa, não leva a mal, mas você não é? Era, ou tinha sido, ou poderia voltar a ser, e isso teria quem sabe um gosto bom de mel, se pudesse estancar definitivamente o sangue, merda, se soubesse dividir a noite, se quisesse, como dizer, como dizer?, a questão era sempre como e não o que, sim, espelhar-se? sim, re-per-cu-tir-se, sim, qualquer coisa dessas, refletida, por isso mais amena, mais suportável, menos maldita, compartilhada, cúmplice. E queria, pelo menos agora, queria limpo, queria instintivo, bicho que busca proteção, enquanto não era determinado um Pérsio furiosamente independente numa cidade para sempre sem estrelas, rechaçando convites telefônicos, mas apenas um homem sozinho raspando apático a espuma de um dos lados da cara, enquanto na torneira aberta deixava escorrer do barbeador os tufos de pêlos negros diluídos no branco da espuma, desaparecendo no ralo da pia.
- Santiago - chamou, abrindo a porta. - Você pode me alcançar. - Mas não havia nada que o outro pudesse alcançar. No entanto, já estava ali, que bastava chamá-lo, na porta do banheiro, o vapor embaçando os óculos, o cálice de vinho. Pérsio virou a colônia na palma da mão, depois bebeu do copo do outro. Um gole grande, sem pedir licença. Esfregou as faces. Sorriu constrangido. - Nada, não é nada. Eu esqueci que.
Santiago não parecia pedir nem esperar explicação alguma. Então ele atravessou o corredor, desviando-se um pouco do corpo largo do outro que atrapalhava a passagem - que atrapalhava a passagem, repetiu -, entrou no quarto, jogou a toalha molhada em cima da cama, entre os lençóis, o cinzeiro cheio, abriu a porta do guarda-roupa e pediu:
- Você me alcança o cigarro que ficou na sala?
Completamente nu, olhou o guarda-roupa. Como um desânimo, vontade de dizer rápido qualquer coisa como olha, você me desculpa, mas estou mesmo muito cansado, fica para outro dia, para outra noite, outro tempo, outra vida. Depois que o outro partisse, sem ao menos abrir a janela para que o ar circulasse um pouco no interior viciado de fumaça, sono e solidão, sem esvaziar o cinzeiro nem arrumar a cama, apagar a luz, ligar a televisão, névoa colorida, intermitente, mergulhar entre lençóis ainda quentes, cheiro de corpo e porra seca guardado nas dobras, mergulhar de cabeça na penumbra colorida, no escuro amarfanhado de dentro, e nunca mais outra vez. Olhou a caixinha aberta na mesa-de-cabeceira, fecharia mais um, talvez bebesse também um copo de vinho, ou dois, ou três, havia ainda alguns comprimidos cor-de-rosa no armário do banheiro, Elis, lembrou, uísque, Dietil, Dienpax, altos, baixos, morrer de amor não dado. Depois a noite avançaria flácida, lenta como se o tempo tivesse cessado, os membros gordurosos da noite e sua molhada boca negra sem dentes envolvendo seus membros num abraço pegajoso, puta gorda, porca irresistível, que teria quem sabe vontade de chorar mais tarde, ou telefonar para alguém a quem pudesse queixar-se longamente choroso, drogado, pedinte, saciado de punhetas secas até dormir sem sentir, sem parar de falar, sem desligar o telefone. Mais fácil, mais confortável deixar a dormência conhecida começar devagarinho a escalar as pernas, pelos dedos dos pés, como sempre começava, subindo pelas coxas para atingir a cabeça que rodaria ainda alguns momentos, perdida entre imagens içadas do inconsciente, tontos anzóis, súbitas vozes, contornos difusos dos objetos, presenças ausentes, antes de afundar confusa, dolorida, no travesseiro onde identificaria, um segundo antes de cair no poço, o cheiro de seus próprios cabelos, xampu de babosa, guardado desde a tarde ou a noite anterior, não voltaria.
Demasiado, demasiado esforço. Imaginou a cidade lá fora, com gentes falando sempre alto demais, sem parar, entrando e saindo de lugares, bebendo, comendo coisas, pagando contas, dançando alucinadas, querendo ser felizes antes da segunda-feira: urgente. Apertou o rosto contra o travesseiro. Mas Santiago o tocava de leve no ombro com o maço de cigarros:
- Está se sentindo mal? Já disse que se você não quiser sair.
Pérsio ergueu-se rápido, acendeu um cigarro. Recomeçou, elétrico, a mexer no guarda-roupa:
- Branco? Branco é bom, brilha na luz negra, afasta as más vibrações. Só que as más vibrações desta cidade, God! Nem todo o sal grosso, nem toda a arruda do mundo dariam jeito. Mas não, você também está de branco. Tipo par de vasos, é péssimo. - Embolou a calça branca, jogou-a sobre a cama. Encostado à porta aberta, uma velha Cinelândia nas mãos, Santiago olhava para ele sem dizer nada. - Amarelo, então. Porque hoje é sábado, porque hoje é dia de Oxum. - Saudou, a mão direita com o indicador mais alto erguida para o teto: - Ora ye ye ô! Mas estou meio abatido, não estou? God!, umas olheiras até o queixo. Quem sabe vermelho. Realça, joga pra cima. - Enfiou a blusa larga, depois começou a enfiar os mesmos jeans quase brancos de tão velhos. - Sem muita produção, melhor: Um Certo Ar Esportivo de Saudável Juventude um Tanto Gasta. E sem cuecas: liberdade para os países baixos! Você ainda usa cuecas?
Que bastaria talvez estender a mão. Acariciar primeiro, colando o corpo. Mas não era assim.
- Uso - disse Santiago. E estendeu a revista para colocá-la em cima da televisão.
Foi quando Pérsio recuou para poder ver-se de corpo inteiro no espelho que esbarrou na mão dele e a revista caiu no chão. O cartão-postal escorregou de dentro. Pérsio curvou-se para apanhá-lo. Leu, em voz alta:
- Paris La Nuite. - Estalou os lábios. - Um beijo, cem beijos.
- Eu li sem querer - explicou Santiago. - Caiu de dentro.
- Tudo bem, não tem importância. Quer saber quem é J? - Releu o cartão, rapidamente. - Tem alguma referência ao sexo do remetente? Não, não tem. Então eu poderia dizer que se chama. Digamos, Janice? Ou Juçara, tão tropical, Ou Jennifer, melhor Jeanne, já que veio da França. E ninguém poderia provar jamais absolutamente nada. - Apanhou o cinzeiro no meio dos lençóis, bateu o cigarro com força, depois colocou-o sobre o cartão, em cima da pilha de revistas, sobre o busto de Lana Turner. - Mas não vou mentir: é homem mesmo. Tenho cara de receber cartões amorosos de mulheres? J, teu J. Não é misterioso? O que te parece? Poderia ser Jorge ou José, na linha trivial com fritas. Se você prefere um sabor estrangeiro, bem, Juan, Jean, John. Qualquer coisa assim, que tal? Tanto faz. Um cara aí, que importa? Que importam os cartões ou todas as cartas de amor do mundo? Se eu ia mesmo em julho. Bem, você vê, julho está nas portas e eu não fui. Você está me vendo aqui onde estou? Tanto quanto estou me vendo ali no espelho? Pois é, eu não estou em Paris.
Santiago ia dizer qualquer coisa quando o telefone começou a tocar novamente. Fez um movimento para atender, mas Pérsio o deteve.
- Deixa tocar. Deve ser o Paulinho de novo. God!, as pessoas não têm nem QI nem complexo de rejeição nem componentes paranóides suficientes para desconfiarem que quando você diz me liga daqui a dez minutos quase sempre significa não liga mais, não quero falar com você.
Escutaram o telefone tocar, contando as chamadas até oito. Quando cessaram, Pérsio riu:
- Bem, agora está mais do que claro. Se eu realmente estava no banho não poderia me vestir e sair em dez minutos. Eles contam no relógio. Exatinho, minuto por minuto. Ou fumam dois cigarros, um cigarro dura uns cinco minutos. E se eu pedi que telefonasse é porque esperaria. E se não esperei é porque. Pelo menos é assim que uma mente normal funciona. Ou deveria funcionar. - Deu uma última tragada no cigarro, esmagou a ponta no cinzeiro, em cima do cartão. Olhou para Santiago, irônico. - O que você achou deste número?
- O quê?
- Ora, esse do Telefone que Toca Insistentemente. Você deve estar impressionado, não está? Tantas so-li-ci-ta-çõ-es. O jovem crítico de teatro tão disputado.
Santiago riu sem vontade.
- É que pedi a um amigo meu que telefonasse de quinze em quinze minutos. Para impressionar você. - Começou a calçar os tênis. - Tudo estudadíssimo, cara. Para você não supor que nunca acontece nada na minha vida. Esta é a primeira vez que você vem aqui, preciso passar uma imagem ultra-dinâmica, hiper-jovem & super-movimentada. Para que você pense nossa, mas ele é um verdadeiro vendaval de atividade & sedução. Dez mil encontros, dez mil pessoas querendo vê-lo. Ansiosamente. Homens, homens, homens, reparou quantos homens? Até o do cartão-postal, special guest star a distância. Você acha que deixei a revista bem em cima da pilha por mero acaso?
Santiago encolheu os ombros:
- Se você quer que eu acredite nisso, está bem. Eu acredito. Na minha cabeça a sua imagem está se tornando a cada minuto mais. - Ia dizer sedutora, mas interrompeu-se, inibido. Quis dizer atraente, mas também não conseguiu. Não conseguia acompanhar aquele ritmo acelerado, sarcástico, teatral. E se tentava, voltava então aquele nó crispado nos ombros. Porque não era preciso, embora. Não se trata de um duelo, pensou. E foi isso que finalmente disse, olhando direto nos olhos de Pérsio: - Não quero pensar nada de você. Não se trata de um duelo.
Ele tinha terminado de se vestir. A blusa vermelha, os jeans muito gastos, os tênis um pouco sujos. Passava a mão pelos cabelos quase raspados, para eriçá-los ainda mais.
- Eu sei - suspirou. E mais sereno: - Também acho que não. É que. Não sei, estou mesmo meio histérico, não estou? - Aproximou-se para tocá-lo, a ponta do dedo no ombro. Cheirava a sabonete, loção de barba, Eau Sauvage. - Tudo bem, está tudo bem. Agora vamos organizar a saída, onde fica a saída? Você desliga o som na sala enquanto eu faço uma produção rápida, por aqui, então a gente sai, certo?
Tão próximo que Santiago hesitou. E se? Mas quando deu por si batiam-se os dois estonteados numa onda nervosa de movimento, apagavam luzes, fechavam portas e janelas, esvaziavam cinzeiros. As luzes da cidade brilhavam através da cortina da sala, viu antes de saírem.
De repente estavam com os casacos nas mãos, parados em frente à porta que Pérsio fechava dentro de um corredor que a luz amarela no teto fazia parecer ainda mais alto, cinza e frio. Apertaram o botão do elevador. O topo da cabeça encostado no pequeno orifício da porta, Pérsio podia sentir o vento lambendo seus cabelos ainda molhados. Quando o elevador parou e a porta abriu, à luz amarelada do teto que se misturava àquela outra mais dura, vinda de dentro das outras paredes revestidas de fórmica, um tanto azulada, o rosto de Pérsio, segurando a porta aberta para que ele entrasse, parecia extremamente fatigado. O vermelho-vivo da blusa realçava ainda mais os círculos roxos das olheiras em torno dos olhos claros, quase verdes. Seriam verdes, quase certo, em dias de muito sol. Dias de luz tão clara que precisaria escondê-los atrás de óculos escuros. Ou perto do mar, gostaria certamente de mar, No sétimo dia de bronzeado, quando o dourado da pele se torna mais brilhante, os dentes e os olhos brilhariam feito facas no escuro. Um dia, ele também. A barba recém-feita, em vez de aliviar o peso das sombras nos ângulos do rosto, ao contrário, sublinhava ainda mais a palidez que os pêlos escuros tinham disfarçado pouco antes. Como a luz clara do dia, quase insuportável, embora noturno.
No fundo do elevador, uma mulher muito maquiada sorriu para eles dentro de um vestido lilás cintilante e justo, o talho na saia deixando à mostra uma nesga grossa de coxa sob o casaco de peles. Pérsio cumprimentou, sério. Depois começou a vestir seu enorme casaco verde-musgo, como o de um aviador, cheio de bolsos, presilhas, cordões, distintivos costurados, pendurados, caseados e fechos. Atrapalhou-se, e como um afogado, como num conto de Cortázar, Santiago lembrou, começou a fazer gestos desordenados com os braços compridos, enfiando um pelo avesso e deixando o capuz escorregar para dentro, uma corcunda. Babou um pouco, olhando para os dois, vesgo.
Santiago tentou ajudá-lo, envergonhado, enquanto a mulher continuava a sorrir com a boca cuidadosamente pintada de vermelho denso quase negro. Sobrancelhas muito finas, sombra azul nas pálpebras pesadas.
- Porra, que aflição - Pérsio gemeu. Detesto estas trolhas. Parece que nunca mais vou achar a saída. Meio uterino, um barato meio uterino. O longo canal entre o útero e a boceta.
Santiago riu. A mulher contemplava-os tolerante, remota, duas crianças, monstrinhos atrevidos, fascinantes. Quando o elevador parou outra vez, Pérsio segurou a porta para que ela saísse.
- Ladies first - curvou a cabeça. - Ou você é daquelas feministas radicalésimas que acham que boa educação é machismo desprezível?
A mulher agradeceu em voz baixa, rouca. Piscou brejeira. Depois desviou-se deliberadamente do tapete estreito para sair batendo os saltos altíssimos contra os ladrilhos do corredor. Pérsio contou no ouvido de Santiago:
- Chama-se Lavínia. É uma traficante de morfina que mora na cobertura. Detesta o sol, reparou na pele branca? Só sai depois que o sol se põe. Lá na porta está esperando o amante Douglas, numa Mercedes dourada. Ela detesta a cor, já pediu mil vezes a ele que mande pintá-la de preto. Douglas veio do interior, é primeiranista de medicina, podre de rico, filho de fazendeiros. Ele tem o pau pequeno, mas ela gosta de chupá-lo, embora quase sempre durma no meio. Ele está apaixonado, mas ainda não sabe direito com quem está envolvido. Lavínia ainda não revelou nada a ele sobre o terrível vício que a devora, nem sobre seu trágico passado. Pode ser que ela tenha estado em Auschwitz, como Sophia. Ela tem medo de ser deportada para a Romênia, de onde veio após a Segunda Guerra. Até que um dia Douglas, que ela chama ardente e suavemente de “meu Douggie”, resolve convidá-la para jantar no Rodeio com seu pai, aquele fazendeiro riquíssimo. E ao
entrar no restaurante, restorrân, ela diz, com seu exótico e sensual sotaque, de longe, da porta, sem ser vista pelos dois, atrás de uma coluna Lavínia percebe que o Riquíssimo Fazendeiro é nada mais nada menos que justamente o Homem de Pau Enorme que a desgraçou quando muito jovem, no cais do porto de Santos.
Cumprimentou o porteiro, parou à porta do edifício, abriu os braços para a noite úmida:
- Que fará a desventurada Lavínia? Enfurnar-se-á, repare na mesóclise, sorrateiramente no banheiro, aplicando-se, quem sabe, com uma dose mortal? Sentar-se-á normalmente à mesa, fumando seu Camel, enquanto o Riquíssimo Fazendeiro empalidece mortalmente, repare nos advérbios, sem que o ingênuo Douggie perceba qualquer, repare na gíria, transação escusa? Sucumbirá Lavínia a uma incontrolável onda de lascívia, repare na aliteração, e, sub-repticiamente, sob a toalha, tocará no latejante pau enorme do Riquíssimo Fazendeiro? Beberá, trêmula, as narinas frementes, uma dose dupla de vodca, repare no merchandising, Wyborowa? Ou sairá em desabalada carreira do restorrân, esbarrando em Telmo Martino, que a tudo assistiu, quebrando um salto e telefonando em prantos de um orelhão para explicar que sente muito, mas, devido aos gravíssimos acontecimentos, não poderá comparecer ao encontro? Voltará à sua luxuosa cobertura para tentar o suicídio ingerindo uma dose excessiva de barbitúricos? Ou ligará o videocassete para assistir, uma vez mais, a Tio Wiggily in Connecticut, encharcando-se de gim junto com Susan Hayward?
Rindo, Santiago atravessou a calçada para abrir a porta do carro. Pérsio enterrou o capuz até os olhos. Sentou-se ao lado dele, ligou o rádio. A voz de Roberto Carlos encheu o carro. Ele desligou:
- Assim não dá, que pobreza. A controvertida Lavínia, a lasciva, merecia pelo menos uma Marlene Dietrich.
Uma Edith Piaf, um Non, je ne regrette rien - cantarolou baixinho, rascando os erres.
Santiago espiou a mulher sozinha à beira da calçada, fazendo sinais inúteis para táxis que não paravam. Uma das mãos comprimia a gola do casaco de peles contra o pescoço, a coxa branca escapando do rasgão lilás-cintilante do vestido.
- Vestem-se como putas para ir a festas - comentou Pérsio. - É a moda, que se há de fazer? E fumam baseados infindos, cheiram carreiras bem servidas, dançam punk rock, copiam modelinhos new wave, topam qualquer cantada. Trepam em pé, coito anal, coito oral, sexo grupal, masturbação sem culpa. Tão liberais, você não acha? Sou do tempo em que cabaço era documento.
- Aonde você quer ir? - Santiago perguntou lento, coadjuvante conformado.
Pérsio tornou a ligar o rádio. Gal Costa cantava um frevo nervoso do Carnaval passado.
- Não suporto mais a Paraguaia - disse.
- Quem?
- Essa linha Paraguaia Tropical da Gal.
Santiago passou um feltro no pára-brisa.
- Sei, mas onde você quer ir?
- Qualquer lugar, por mim. Você faz questão de algum?
- Qualquer coisa.
- Então vai em frente. Daqui a umas seis quadras tem uma pizzaria absolutamente normal. Não há a menor possibilidade de encontrar nenhum ator, atriz, diretor, cenógrafo, figurinista, produtor, divulgador, autor ou iluminador em cartaz ou em vias de. - Puxou os dois fios do capuz, amarrou-os sob o queixo, num laço. - Não suporto assédios profissionais em horas de lazer. Ou tentativa de lazer. Hoje estou inteiramente incógnito. Não quero cruzar com nenhuma das passadas, presentes ou futuras estrelas de nossa cultura.
Santiago ligou a chave. Enquanto o motor esquentava, no meio do ruído teve tanta certeza de que o outro ia novamente começar a falar sem parar que chegou a curvar-se para ele, para ouvir melhor. Mas Pérsio sacudiu a cabeça e nada, Pérsio disse que não tinha dito nada e, o carro subindo pela Consolação, abriu a janela deixando a cabeça pender para trás, apoiada no banco. Um vento molhado entrou pela janela. Ele soltou os cordões sob o queixo, acendeu um cigarro. Sem mover a cabeça, procurou outra estação de rádio, a voz estridente de Gal perdendo-se entre outras, agudas, roucas, ruído de estática, um baixo elétrico desvairado, um samba de braços-erguidos-e-todo-mundo-agora, até deter-se no piano lento.
- A sonata número 4, de Beethoven - sussurrou.
- Moonhight. Só que não tem lua.
Atrás, além do perfil dele, recortados contra a janela aberta, encobrindo por vezes as luzes que passavam, Santiago pôde ver primeiro a silhueta irregular dos edifícios, algum ponto de ônibus com pessoas encolhidas, amontoadas embaixo das marquises batidas pela garoa fina, um outdoor com dentes resplandecentes, outro com coxas morenas, volume saliente, cuecas qualquer coisa, bares abertos, algumas putas, um travesti de saia de couro, botas brancas, depois o início dos muros altos e brancos do cemitério, a massa sombria dos ciprestes - seriam mesmo ciprestes?, ou pinheiros?, ou abetos, repetiu, abetos, e sem querer pensou numa mangueira cercada de samambaias -, desviando os olhos para baixo, para o asfalto, aquelas poças de água colorida pelo neon, longo lago vertical ascendente, subindo através da rua, como se o carro fosse um barco navegando pela avenida, para cima, contra a correnteza, Aguirre.
Pérsio estava quieto agora, o rosto meio voltado para a janela. De vez em quando a brasa do cigarro brilhava mais nítida. Depois de um som miúdo como um pequeno suspiro, descia pelo ar a brasa tão lenta quanto o piano, no mesmo ritmo, para juntar-se à outra mão esquecida sobre as coxas. Outra vez assim, olhando para ele Santiago pensou que era bom de olhar, e não conseguiria ainda dizer de outro jeito, mesmo que parecesse absurdo. Bom, que bom de olhar, um quadro, o detalhe caprichoso de algum objeto antigo, o parque atrás das vidraças, Mesmo quando em movimento, qualquer coisa quieta no fundo. Restava, permanecia. Qualquer coisa que se movimentava ou, de dentro, contemplava os movimentos tolerantes, não crítica, apenas remota, feito Lavínia no elevador, duas crianças, olhando para eles sob pálpebras azuis. Ou de novo como se seus olhos, os olhos escuros de Santiago, um pouco pesados nos cantos, cílios densos, fossem câmeras cinematográficas com lentes capazes de aproximar ou afastar as imagens em zoom tornando às vezes mais definido o primeiro plano, agora a brasa que tornava a subir para empastar em cores foscas, misturadas, indefinidas, as formas do fundo cortadas por alguma súbita cintilação, lâmina, externa, ou liquefazer então os dedos esmaecendo o formato, a brasa que descia, mão suspensa encontrando mão pousada, vagos, obscuros, ressaltando vibrantes, dinâmicos, mastigava adjetivos como quindins, algum reflexo do semáforo no meio-fio da sarjeta transbordante da água suja dos bueiros, esgotos. Tossiu, menos por vontade que por confusão, para afastar um pouco aquela - era feito uma vertigem?, era feito uma tontura, teria sido o vinho, lentes meio embaçadas dos óculos, fome, chuva no pára-brisa, piano lentíssimo, nota por nota, cada dedo do pianista depositado em infinito cuidado sobre cada uma das teclas, a brasa despencava devagar em direção ao solo para deter-se na altura da outra mão, porque era sábado, tinham programado sair, ou todas essas coisas juntas, afinal, porque ele também estava bastante cansado de semanas e histórias e trabalhos e pessoas e.
Parecia dormir, Pérsio. A boca entreaberta. O lábio inferior mais polpudo, onde se poderia passar num carinha a ponta do dedo médio.
Morderia sem força, gato brincando. Estacionou devagar, para não acordá-lo. Mas era tão cedo, tudo, a noite, uma criança, virando a cabeça para trás, para os lados. Façamos de conta no meio da chuva que te enxuguei os cabelos, te levei para a cama, te aqueci com abraços, tirei tua roupa devagar, cantei para te adormecer até a manhã seguinte. Ficou olhando as grades baixas cortando a avenida em duas, enquanto os toques nas teclas do piano tornavam-se mais e mais acelerados no allegro, câmera que se aproxima, brasa acesa na penumbra, respiração regular. Ergueu as vidraças, as gotas mais fortes esmagadas. Do lado de Pérsio, salpicavam o casaco, o rosto, os cabelos. Santiago olhou para ele. Que o olhava também, atento, do outro lado, desperto, um palmo. Mas nenhum se moveu até Santiago dizer:
- Acho que é aqui. Vamos lá?
Saltaram poças, os dois pela calçada. A pequena marquise metálica de pessoas misturadas, algumas crianças, Herodes, rosnou Pérsio, o sábio mais injustamente incompreendido de toda a história ocidental, depois o calor no rosto, os grandes fornos abertos, um cheiro inesperado de cânfora ou alecrim queimado perdido no ar, mas não tinham nada em comum os dois, a nota disfarçada na mão do garçom, sorriso cúmplice, rapidinho, não temos tempo, tantas cores misturadas, saídos de um filme preto-e- branco para a rua repleta de cores, em plena tarde de sol, janeiro, verões, piscinas azuis de cloro, pouco depois a mesinha no canto, a toalha xadrez verde e branco. Escolheram indecisos, veio o vinho, tinto como o outro, e um cálice de conhaque dourado para afastar a gripe, limpar a voz, Pérsio justificou, que precisava de pretextos, álibis, culpas, punições, e passaram o cálice de um para o outro, aquecendo a base mais larga entre as duas mãos. Estava mais corado agora, Santiago observou. E depositou os óculos ao lado do maço de cigarros.
- Bem, agora conte-me coisas - Pérsio pediu.
Santiago olhou por cima da cabeça dele, O quadro com faunos e bacantes nuas esmagando cachos de uvas sob os pés dentro do barril de madeira.
- Que coisas?
- Coisas, ora, coisas. Excitantes, escabrosas, melancólicas, excêntricas, depressivas, estimulantes, atrevidas, mesquinhas, loucas, maravilhosas.
- Mas não há nada para contar.
- Então inventa, inventa rápido. Falei a noite inteira. Agora entrei em alfa. Aproveita, senão recomeço. É a sua vez.
- Eu gosto de ouvir.
- Claro que você gosta. Eu sou interessantíssimo, não é mesmo, gente? Mas pelo amor de Deus, pare de fazer o ouvinte omisso & respeitoso, senão vou morrer de sono antes que venha a pizza. Faz mal morrer de sono com o estômago vazio, sabia?
Santiago corou:
Mas contar o quê?
- Qualquer coisa, já disse. Senão eu piro. Conte depressa, senão eles vão começar a olhar.
- Olhar?
- Todo mundo. As mammas, as possessivas gordas, as criancinhas odiosas, os maridos subjugados, as nonnas de saco cheio.
Santiago olhou em volta. Localizou três mocinhas feias na mesa ao lado e, mais além, um casal entediado, ela gorda, tranças presas no alto da cabeça, ele de terno azul-marinho, provavelmente o mesmo que usava para trabalhar, bigodinho fino, antes da mesa grande, cheia de criancinhas barulhentas. Caras cansadas, sem mistério. Eram só dois rapazes não muito jovens numa noite de sábado. Nada especial. Comuns, urbanos, talvez bonitos.
- Ninguém está olhando.
- Ainda não, mas vão começar já, se você não falar alguma coisa. Em silêncio profundo, God!, deep silence, não é bonito?, só casal em fase de separação. Aquela linha Tédio, Rancor & Acusações Recíprocas. Conheces?, perguntaram. De sobra, responderam. Ou namorados, começo de namoro, inteiramente apaixonados, nem treparam ainda, meio bestas, babando de tesão contida. Você sabe, aquela coisa de olho no olho. Um gole, um cigarro. Muitos cigarros, o cinzeiro. Talvez até terminarem os cigarros e terem que dividir um. Suprema perversão, lamber a saliva do outro. Um roçar de mãos ocasional, completamente ocasional, ao bater o cigarro, de repente. Assim.
Pérsio bateu o cigarro no cinzeiro. Deixou a ponta de um dedo roçar fugidia nos pêlos macios das costas da mão de Santiago. Santiago abriu os dedos. O indicador suspenso no ar, Pérsio não se mexeu.
- Vamos, diga alguma coisa. Quer que rasteje a teus pés? Senão eles vão pensar que somos um casal em fase de separação. Ou um par de namorados babões. Onde está seu superego? O que é que você quer que eles pensem de nós, de mim, aqui a teus pés? E em qualquer das hipóteses as mammas cutucarão seus maridos ruins de cama repetindo baixinho, escandalizadas, guarda, amore, questi belli ragazzi, Dio mio, veados. Santa Madona, como é que se diz veados em italiano? - Acentuou a palavra, como gostava de fazer. As mocinhas se voltaram, curiosas. - Já começaram a olhar, viu? Você quer que pensem isso de você, hein? Que nós somos veados, bichas, baitolas, putos, maricões, xibungos, jaciras, frescos, peras, homossexuais, invertidos? Hein, cara? - Bateu forte no joelho sob a mesa. - Então, como disse Michelangelo dando a martelada, parla, cazzo!
Santiago estava vermelho:
- Eu não sei bem por que estou aqui. Ainda não consegui entender bem por que é que eu estou aqui com você.
- Porque a gente se encontrou sábado passado na sauna. E eu convidei, eu disse apareça um sábado desses.
Qualquer coisa assim, e você apareceu. Você ligou hoje à tarde, aceitando sensibilizado. - Pérsio sacudiu o cálice de conhaque, depois entornou-o rápido, erguendo o pescoço para vê-lo melhor. - Então eu fiquei meio surpreso de você ligar e.
- Você ficou surpreso?
- Fiquei. Quer saber? Eu quase não saio mais. Eu quase não vejo ninguém. Devo pedir aos violinos que comecem a tocar ao fundo?
- Eu também não.
- Também não o quê?
- Quase não vejo ninguém, quase não saio mais. Dou aquelas aulas, volto para casa. Aí fico lendo ou vou ao cinema. Vou ao cinema quase todo dia. Ou vejo uns dois filmes na televisão, cada noite. Já ando vendo as coisas, as coisas todas, o tempo inteiro como. Como se meus olhos fossem lentes. Dessas de cinema, um dose, pá, vejo mais perto. Um zoom, pá, vou afastando.
- Ou aproximando.
- Ou aproximando, claro. Mas também fiquei surpreso de eu mesmo ter telefonado.
- E agora você não entende como está aqui.
- Eu não entendo?
- Você disse.
- Eu disse? Não sei bem. As coisas foram indo. Quase não conheço você. - Hesitou. E acrescentou: - Pérsio.
- Faz muito tempo.
- Muito, faz muito tempo.
- E de repente eu ia dizer não, não posso, não quero, não devo, estou doente, descobri que estou com AIDS, tenho um compromisso, tentei pular da janela. Quando vi tinha dito te espero às oito, não foi? E de repente eram só sete e meia quando a campainha tocou e eu não pensei que fosse você. Oh, Deus, tudo tão típico. Eu queria ter tomado um banho antes e feito a barba, uns cheiros, uns charmes, essas coisas. Eu queria dar uma boa. Sei lá, troço mais babaca, impressão. Eu queria que você gostasse de mim. Eu estava superchapado, supercheirado. Torto, eu estava torto. Detonado. Ainda estou um pouco, comecei a aterrissar só depois do banho. Eu ia espiar pelo olho mágico e não ia abrir, a não ser que fosse assim um. Um James Caan, um Nuno Leal Maia, paizão. Mas de repente já tinha aberto a porta e você disse oi, e eu devia estar um horror, uma cara de Christiane F. antes da desintoxicação, eu disse oi com aquele olho vermelho, o nariz meio pingando, aquele bafo de maconha. A pele, a pele, você reparou como estou pálido? Então você entrou e perguntou como é que eu estava, daí eu botei correndo aquela música, eu tinha que me mexer rápido, e disse.
- Como esta música.
- O quê?
- Como esta música, você disse. Exatamente como esta música.
Pérsio parou de falar. Bebeu mais um gole de conhaque.

- Foi. Bem assim. Flash-back na mosca, cara. Entra “Years of solitude” na trilha. Só uma vinheta, anos. Anos de solidão. Falar em flash-back, sabe que às vezes tenho vontade de voltar para lá?
- Você? Não acredito.
- Acredite, tenho. Uma vontade louca, às vezes, de voltar para o Passo da Guanxuma. Besteira? Pode ser, mas me dá um cansaço daqui. Um nojo, às vezes me dá. Esse cinismo lento invadindo. Principalmente quando chove, e chove sempre. Você não tem?
O quê?
- Vontade de voltar.
- Agora é muito tarde.
- Já pensou, eu lá? Não ia ter nada a ver, menino. God!, como ia ser medonho. Não ia mesmo ter nada a ver.
- Chamou o garçom, pediu outro conhaque. - Você dá uns tapas? Então tudo bem. Não quero segurar a culpa sozinho.
Preciso de cúmplices. - Pegou os óculos de Santiago, ficou revirando entre os dedos. - Naquele tempo, já não tinha. Imagina agora. Descaralhei tanto, esses anos. Vamos entrar na linha traumas, algo a opor?
- Vai em frente.
- Acho prudente avisar. Mas é sempre danger.
- Não tem importância.
- Oh, como você é compreensivo. - Tocou com o vidro dos óculos na mão de Santiago. - Sabe que quando eu saía na rua as meninas gritavam biiiiiiiiiicha! Não, não era bicha! Nem veado. Acho que era maricas, qualquer coisa assim.
- Fresco - Santiago disse. – Era fresco que se dizia.
- Isso. Fresco, elas gritavam. Todas gritavam juntas. Ai, ai, elas gritavam. Bem alto, elas queriam ferir. Elas queriam sangue. E eu nem era, porra, eu nem sabia de nada. Eu não entendia nada. Eu era superinocente, nunca tinha trepado. Só fui trepar aqui, já tinha quase vinte anos. E cheio de problemas, beijava de boca fechada. - Sorriu, contornando os aros dos óculos com as pontas das unhas roídas.
- Vou perguntar uma besteira: foi bom?
- Bom? Foi uma bosta, cara. Mas não vem ao caso, tudo superado. Ah, tão Maduro & Equilibrado. Cinco anos de terapia, sob controle. Mas era difícil lá. Aquelas garotas todas gritando de manhã bem cedo, quando eu ia para o colégio. Todos os dias. Ao meio-dia, quando voltava. Todos, todos os dias. God!, que inferno. Semana após semana, ano após ano. Eu já não tinha coragem de sair de casa. Ficava chorando pelos cantos, bem tanso, me perguntando apavorado meu Deus, meu Deus, será que sou mesmo isso que elas gritam que eu sou? - Enfiou o dedo no fundo do copo vazio e lambeu. Depois passou nas gengivas. - Só tinha um na cidade, lembra?
- Lembro, o seu Benjamim, o barbeiro. Ele se matou, sabia?
- Claro, não é? E fez muito bem. Sábia decisão. Só podia mesmo era cortar os pulsos.
- Ele se enforcou. Bem no meio da praça. Num domingo de Páscoa. Na figueira. O padre encontrou na hora de abrir a porta da igreja, antes da missa.
- Perfeito, perfeito. A Anônima Tragédia Provinciana. E dá no mesmo. Aquelas garotas eram umas assassinas. - Olhou em volta, as pessoas, uma a uma. - Como eles, todos uns assassinos. Eles não perdoam, eles não aceitam. Eles não perdoam nunca, sabia? Eles não vão sacar que não se trata sequer de perdão. Se um deles discutir com você, esse vai ser sempre o último insulto que te jogarão na cara. O mais ofensivo, na opinião deles. Você não vai passar nunca de um veado escroto. Uma a-ber-ra-ção. Com todos os Masters & Johnsons do planeta. Que lamentável, meu amigo.
Santiago esfregou as mãos. Desviou os olhos.
- Tinha outro, também - tentou. - Como era o nome dele? Ary, era o Ary do Instituto de Beleza.
- Mania que veado tem de mexer no cabelo dos outros.
Santiago riu:
- Não tem graça.
- Eu sei, era triste?
- Triste, você disse triste? Era medonho, cara. Era duma solidão horrenda, era dum desespero pânico. Era duma. Duma agressão, de um desprezo, de uma crueldade. Você não lembra?
- Eu já tinha ido embora.
- Eu não tinha nenhum amigo. Só Peter Pan.
- O quê?
Pérsio passou o indicador, de leve, sob o roxo dos olhos.
- Ao fundo, entra agora um slide de Pollyana. Eu já tinha visto o filme, depois comprei o livro. A versão de Monteiro Lobato. Depois ganhei a tradução, era lindo.
Não tinha um álbum, um álbum de figurinhas? Eu fiquei absolutamente apaixonado pelo Peter Pan. Quando eu ia dormir, de noite, queria que aquelas garotas nojentas todas morressem enquanto eu voava sobre a cabeça delas. Para a Terra do Nunca, Peter Pan vinha me buscar toda noite, nós íamos voando para a Terra do Nunca. God!, introjetei completamente a Wendy, aquela putinha. Eu não queria crescer. Eu tinha nojo de crescer. Gente adulta me dava vontade de vomitar. - O garçom trouxe o conhaque. Ele bebeu até quase a metade, de um gole só. Estendeu o cálice para Santiago. - Mas eu não pensava em sacanagem nenhuma. Só queria ficar perto dele. No máximo, deitar abraçado com ele. Na mesma cama. Nem um beijo, nada. Só um abraço, bem apertado. Ridículo, ridículo. Eu era meio retardado, acho. Até uns dezoito anos não sabia nem o que era punheta, pode?
As mocinhas se agitaram na mesa ao lado. Riram baixinho. Pérsio olhou para elas. Acendeu outro cigarro. Tragou, bem fundo. E repetiu alto:
- Pu-nhe-ta. Eu não sabia o que era. Aquelas monstras. Devem estar todas gordas, balofas, megeras medonhas, cheias de varizes, frígidas, com mil crias ranhetas na barra da saia, malcomidas. Os maridos arrotando e peidando repolho, barrigudos de cerveja, meio broxas, trepando pelos cantos com as empregadas. Como cachorros. - Levantou a mão. E bateu o cigarro no ar. A cinza caiu. - Não me venha dizer que perdoar-é-divino. Desejo o pior para eles todos. A lepra, o câncer na pele. Merda, continuo histérico. Eu não devia sentir tanto ódio. Mas nunca, porra, nunca ninguém. Ai, que lamentável orgia de autocomiseração. Mas não consigo esquecer. Sei que não é nem um pouco espiritual. - E de repente, o olho brilhando: - Você tinha uma namorada, não tinha?
Santiago corou outra vez:
- Tinha, era a.

- Espera aí, não diz. Eu vou lembrar, claro que eu vou lembrar. Era uma das mais monstras de todas. Tinha uns peitos enormes, uma franjona na testa. Era um nome ridículo, como era mesmo? Janete? Não, Salete? Sei, sei: Rejane, pelo amor de Deus, cara, era a Rejane Magalhães, filha do doutor Antoninho.
Santiago começou a rir.
- Eram duas irmãs, não eram? Regina e Rejane. A Regina usava óculos, tinha bigode e uma saia jeans. Era a única saia jeans de toda a cidade. Estudava por aqui, só voltava lá nas férias. E levava sempre uma amiga. Umas amigas desmilingüidas, de cabelo liso, óculos e rabo-de-cavalo. Diziam que era paraíba, macho-fêmea, meio comunista. Minha mãe garantia que não. Minha mãe era meio gay, botava a mão no fogo por todas as bichas e sapatões incompreendidos da cidade. Claro, com o filho que tinha. Jurava que a Regina tinha era muita personalidade. Uma personalidade muito forte. Você, como ex-futuro-cunhado, deve saber toda a verdade sobre Regina Magalhães. Era lésbica?
- Era. Uma vez encontrei ela no Ferro’s Bar. De moto e blusão de couro.
Pérsio riu tão alto que a família inteira da outra mesa voltou-se para os dois:
- Mentira, jura? Calçando quanto?
- Uns cinqüenta em cada pé. Bico largo.
Pérsio batia na mesa, rindo:
- Você é louco, cara. Você é completamente pirado. Como é que você namorou a Rejane Magalhães, com aqueles ubres de Jayne Mansfield? Elas moravam na esquina de baixo. Quando subiam de tardezinha para o centro, depois do banho, meu pai olhava e dizia mas não é possível, gente, esta filha do Antoninho andou comendo estoura-peito.
- Eu fui noivo dela.
Pérsio riu tanto que quase caiu da cadeira, engasgado com a fumaça do cigarro. Bebeu um gole de vinho. Quando esfregava os olhos vermelhos o garçom colocou a pizza na mesa. Santiago cortou um pedaço. Assoprou, antes de provar.
- Não era cânfora. Nem alecrim.
- O quê?
- O cheiro. Um cheiro que senti quando entramos, era manjericão.
- Erva de Oxum. - Pérsio ergueu a mão para o teto, saudando outra vez: - Ora ye ye ô, minha mãe! Segura essas, com a bênção de Oxalá e Ogum de guarda. Então me conta mais. Você devia ser completamente mongolóide, bicho. Meu Deus, ficar noivo da Rejane.
- De aliança, sofá e tudo - Santiago confirmou. - Anos a fio. Seis anos. Ela já estava com o enxoval pronto. Aí eu vim para São Paulo fazer a faculdade e.
- Conheceu um cara.
- Como é que você sabe?
- Clássico, é clássico, rapaz. Mas não se constranja. Em princípio, tipo rapaz encontra moça. Mas logo depois, para infelicidade dela, encontra também rapaz. E gosta muito mais, lógico. Vai em frente.
Santiago vacilou, remexendo na pizza com o garfo. Mordeu um tomate. Mesmo sem óculos, as bacantes nuas, muito nítido, os sátiros com coroas de folhas de videira nos cabelos encaracolados. As mocinhas atentas na mesa ao lado. Mastigou devagar, as duas mãos cuidadosamente postas sobre a toalha, mal tocando o pano, uma ao lado da outra. Pérsio o espiava, olhos divertidos, meio ternos talvez, um pouco avermelhados.
- Pois é. Um cara, na faculdade. Roberto, era o Roberto. Beto, as pessoas todas chamavam ele de Beto. Eu andava sempre com um livro embaixo do braço, acho que eu queria que as pessoas vissem a capa do livro. Que pensassem coisas, que eu lia, sei lá. Eu ficava sozinho no Centro Acadêmico lendo o tal livro. Não era sempre o mesmo, mas era escolhido, para que vissem. Demorava uma semana com o mesmo livro, depois trocava. Eu lia devagar naquela época. Um dia ele chegou de repente e perguntou que livro era.
- Fantástico - disse Pérsio. - Estudadíssimo você, hein? Com essa carinha sonsa. E que livro era, afinal?
- Era Clarice Lispector, nesse dia era Perto do coração selvagem. Eu acho que fiquei olhando para ele uma porção de tempo antes de conseguir dizer o nome do livro. Era uma ousadia ler Clarice naquele tempo, ninguém entendia direito, diziam que era difícil. Eu também achava, mas gostava. Eu gostava dela. Tinha um jeito de ver por trás, por dentro, que eu achava que também tinha. Que só eu tinha. Eu fiquei olhando para o Beto. Era bonito, eu já tinha visto ele e tinha pensado, que bonito. Nossa, que bonito. Ele tinha uma camisa xadrez. De madras, não era assim que se dizia? Lembro até hoje. Xadrez meio assim desbotado, muito vago, vermelho, verde. Madras, engraçado, não é o nome de uma cidade da Índia? Aí ele sentou e começou a falar em Kafka e em Sartre e em Camus. Em Simone não, ele achava Simone uma farsa. Depois perguntou se eu tinha lido um livro chamado Poeira.
- Dusty answer. - Pérsio sorriu. - Rosamond Lehman.
Santiago sorriu também.
- Isso, isso. Judith, Roddy.
- O rio, a escola.
- E Jennifer. Que eu tinha que ler. Que se eu gostava de Clarice tinha que ler Poeira. Que ele ia me emprestar, fazia questão. Aí ele me trouxe, no dia seguinte. No dia seguinte não, que era sábado. Nem no domingo. Na segunda, ele trouxe na segunda. Todo o fim de semana eu pensei nisso, achei que ele ia esquecer. Mas ele não esqueceu. Eu esperei ele fumando numa mesa do fundo. No recreio das dez, que era maior, eu não fumava, mas Minister, eu tinha comprado um maço de Minister. Era um livro de capa dura, meio amarelado. Aí a gente começou a se emprestar livros, a ir ao cinema juntos, de tarde. Glauber, Godard, Truffaut, aquelas coisas. Ele gostava de Françoise Dorléac, eu adorava Rita Tushingham. Depois uns concertos, de noite. Mozart, o Beto tinha paixão por Mozart. Principalmente um concerto de piano em si bemol. No teatro, umas vezes. Eu nunca tinha ido ao teatro. Foi uma noite, era Um gosto de mel, sabe Um gosto de mel?
- Sei. Aquela história da garota grávida que vai morar com uma bicha boa. Tinha uma música, não tinha? “A taste of honey” - Pérsio cantarolou, batendo com a faca no cálice. - Ta-ram-tam. Taram-taram-taram.
- Depois fomos num bar e começamos a beber. Ele escrevia poemas. Tinha um, como era? Ele me mostrou naquela noite. Lembro, lembrei. Ele disse inteiro, o começo era assim: Navego pelo teu silêncio, amigo, esse estranho labirinto cheio de portas falsas e desejos de mármore redondo.
- Mármore redondo?
- É. O que tem?
- Nada, esquisito. Fiquei pensando. Redondo como as bundas de Rodin. E aí o poema era para você.
- Claro que era. Nós só tínhamos vinte anos.
- Não se justifique.
- Não estou me justificando, era bonito. Nós bebemos muito, Cuba, a gente bebia cuba. Era uma ousadia tremenda dele mostrar aquele poema justo depois daquela peça. A gente saiu junto, já estavam fechando o bar, e na praça. A gente estava completamente bêbado, na praça a gente se abraçou com força. Com muita força. Durante muito tempo. Eu me lembro que ele tremia. Acho que eu tremia também. E me beijou, depois, na boca. Ou eu beijei ele, não me lembro. Ou nos beijamos juntos, ao mesmo tempo.
- Vocês foram para a cama?
- Na mesma noite. Eu morava num hotel pequeno, ninguém via.
- Foi legal?
- Foi... foi complicado. Foi complicadíssimo. Eu não sabia trepar. Nem ele. A gente ficava só do pescoço para cima. Como se o corpo nem existisse. Pau, essas coisas. Mas foi bonito. Não tinha importância que não desse muito certo. - Repetiu: - Nós só tínhamos vinte anos.
Santiago cruzou os talheres, empurrou o prato.
- E aí?
- Aí o quê?
- Aí, depois. O que aconteceu na seqüência?
Santiago acendeu um cigarro.
- Nós vivemos juntos quase dez anos. Quer dizer, eu viajei, ele viajou. Quando um voltava, a gente continuava. Separava, às vezes. Poucas vezes, transava outras pessoas. Mas voltava sempre.
- Dez anos? God!, longas paixões, hein? SEIS anos com a Rejane Magalhães, DEZ anos com o Beto. Como é que você pode? Porra, eu nunca consegui ficar mais do que um mês transando a mesma pessoa. Sempre me dá uma... Uma coisa, já conheço aquele corpo, aquele cheiro, aquele gosto. Aí vou à luta.
Santiago soltou a fumaça pelas narinas e ficou vendo-a embaçar-se sobre a cabeça de Pérsio. Como uma auréola, apagando os contornos dos sátiros, das bacantes. Os cachos de uvas escorregavam meio desmanchados pelas bordas do barril. Roxo sobre o verde, misturavam-se à grama alta cheia de flores amarelas. Madras, mudras, gesto parado.
- Muito tempo, não?
- Para caralho, cara. E depois? Dez anos, deixa ver. Se vocês começaram a transar quando você tinha uns vinte. Dez anos, quantos você tem agora?
Santiago bebeu mais um gole de conhaque. E disse:
- Trinta e três. Faz quatro anos que o Beto morreu.
O rapaz olhava de longe fazia algum tempo, Santiago tinha visto. Com o canto do olho, enquanto contava, percebeu que ele procurava chamar a atenção de Pérsio. Movimentava-se sem parar, falando muito alto. Mas Pérsio estava mergulhado nas palavras dele, um menino antigo ouvindo uma história de fadas, bruxas, príncipes. Chegara a esquecer a ponta do cigarro aceso entre os dedos, boca entreaberta, olhos arregalados, mais próximos do verde assim, a luz batendo direto na íris clara. Quis alertá-lo, as estrelas de nossa cultura, lembrou. O rapaz veio se aproximando por trás, macio, felino, até tocá-lo no ombro. Pérsio assustou-se e queimou os dedos num sobressalto.
- Merda - resmungou, esmagando a ponta no cinzeiro. E voltou-se para o rapaz sorridente, um excesso de dentes grandes enfileirados sobre a gola alta, cabelos curtos, um topete anos 50, as mãos enfiadas nos bolsos das calças largas cheias de bolsos, um enorme chaveiro pendurado, tilintando enquanto ele se curvava.
- Oi - cumprimentou. - Lembra de mim?
- Oi. - Pérsio lambeu os dedos queimados. Estendeu a mão. - Lembro, claro que lembro. Como vai? Você não é do elenco do Édipo?
- Antígona - o rapaz corrigiu. - Do coro, sou o Carlinhos do coro.
- Claro, claro. O coro, lembro sim. Não foi você quem levou as fotos e o release no jornal? E como vai o espetáculo, Carlinhos do Coro?
- Meio mal, sabe como é. - Enfiava as mãos até o fundo dos enormes bolsos, balançando-se para a frente e para trás. - Hoje nem teve. Meia dúzia de pessoas. Puta crise, não é?
- Putíssima - concordou Pérsio. E repetiu, olhando para as três mocinhas: - Putésima, de pleno acordo. Eu não sei onde vamos parar com. Para teatro então, nem se fala. Artes em geral.
A deixa exata. Santiago tornou a tragar demorado o cigarro, o conhaque, o vinho, a miopia, olhando em volta.
Mas não acontecia nada. As três mocinhas disputavam um último pedaço de pizza (de aliche, reconheceu), na mesa grande uma das crianças dormia afundada nos seios fartos da mãe, enquanto alguém cantava melancólico la festa è appena com inciata e già èfinita, o vento lá fora, a moça gorda de tranças e o moço de bigodinho tinham ido embora, uns japoneses frenéticos tinham tomado conta da mesa, falando uma língua cheia de miúdos faniquitos. Quase sem respirar, Carlinhos investiu:
- Pois é daí então a gente precisa de força sabe como é cooperativa e tal gente nova todo mundo pôs alguma grana em cima tá super-ruço você sabe daí que se você pudesse dar uma força lá no jornal sabe como é sempre ajuda a divulgação é fundamental só depende da boa vontade de alguns uma questão de acreditar e dar força.
Pérsio colocou os óculos de Santiago. Cruzou os braços, balançando a cabeça com ar profissional:
- Tá. Vou ver o que posso fazer. Não depende só de mim. Tem os caras mais em cima, você sabe, que mandam mais. Você tem um diretor, eu tenho um editor. Eles é que decidem.
- A gente agradece. - Carlinhos curvou a cabeça. Fez um ar tardiamente polido de não-quero-interromper-nada-entre-vocês, apertou a mão de Santiago, levemente cúmplice, e foi saindo entre as mesas.
Pérsio tirou os óculos, cruzou os talheres, empurrou o prato. Parecia deprimido. Pegou outro cigarro, acendeu na ponta que Santiago começava a apagar.
- Saco. Sempre aparece um. Na próxima vez que eu falar que este lugar é normal, você me cospe na cara, combinado?
- Ou chamo a Rejane - Santiago brincou.
- Maravilha. Chama a Rejane e manda ela gritar da porta, bem alto, para todo mundo ouvir: freeeeeeeesco! - Tornou a lamber os dedos queimados. - Bosta, bosta de profissão. Sabe o que eu fiz ontem à noite? Gastei três laudas demolindo im-pi-e-do-sa-mente a tal Antígona. Principalmente o coro. Que parece sofrer de descontrole motor, com tantas acrobacias físicas. Que não decorava o texto. Que devia voltar a fazer teatro infantil daquele bem debilóide, cheio de oncinhas. Que Antígona, quem diria, acabou na Mooca. E eu que até gostava de teatro. Estou pegando bode para sempre, vejo um palco e quero sair batendo em todo mundo. O coro tem pelo menos vinte pessoas. São vinte inimigos, já pensou? Haja santo forte capaz de segurar. Você não acha o fim ficar dando palpite no trabalho dos outros assim, sem saber direito da viagem dos caras?
- Eu corrijo provas.
- Dez anos. Classe teatral. Aquelas monstras todas gritando na rua. Pede a conta, enchi o saco disso aqui. Coitado do menino, deve morar em Pirituba. Tem que comer depressa porque volta de metrô. Tem metrô em Pirituba? E mora num conjunto habitacional do BNH, com a irmã costureira e a mãe entrevadinha. Dorme na parte de cima de um beliche. Na cama de baixo dorme o irmão que trabalha na polícia de choque. E amanhã vai sair no jornal que ele é uma besta. Assinado por mim.
Santiago disse que ele estava exagerando, que fazia parte, que não era tão grave assim, Mas ele não parou. Santiago chamou o garçom.
- Dez anos. God! E você deu o cu nesses dez anos?
- Hein?
Pérsio batia com a faca no copo, os olhos injetados.
- O cu, não é isso? No final das contas tudo se reduz a isso. Se eu fizesse assim com os dedos o Carlinhos caía nos meus pés e me dava o cu em público. Ou me comia o cu. Podia até ser gostoso. Daquele tamanho, deve ter um baita pau. O Carlinhos, o Paulinho, o Luisinho, todos os inhos com seus enormes chaveiros. Queria bater neles todos. Cu, cu, cu - repetiu. As mocinhas levantavam da outra mesa, olhando sempre. - Aquelas monstras, porra, eu só tinha uns treze anos. Fiquei com um nojo. Entre dois homens, amor é igual a sexo que é igual a cu que é igual a merda. Sabe que não agüento merda? Eu vejo um cara e gosto e tal e me aproximo e rola umas, sempre rola umas, porque eu canto bem, eu sei cantar, veja que vaidade, e daí eu penso Deus, daqui a pouco a gente vai pra cama e chupa daqui, chupa dali, baba, roça, morde, e no fim inevitável tem o cu e a merda no meio. Você acaba sempre dando a bunda ou comendo a bunda do outro. Se você dá, ainda não é nada. Tem a dor, a puta dor. Caralho dói para caralho. Tem uns jeitos, uns cuspes, uns cremes. Mas é nojento pensar que o pau do outro vai sair dali cheio da sua merda. Mesmo nos casos mais dignos, você consegue imaginar Verlaine comendo Rimbaud? E se você come o outro, tem a merda do cara grudada no teu pau. Mesmo no escuro, você sente. É impossível não sentir. Por mais limpos que vocês estejam fica aquele cheiro, aquele cheiro de merda solto no ar. Às vezes vou no escuro até o banheiro e lavo o pau de olhos fechados, ensabôo bem com a torneira aberta para pensar que aquela meleca toda é do sabonete, não da merda. Mas fedor de merda é sempre mais forte. Mais forte que tudo. Objetivo, subjetivo. Tem amor que resista? Agora me diz. - Bateu com os óculos na mesa. Tão forte que Santiago teve medo de que as lentes quebrassem. Mas não quebraram.
- Por mais flores e risos e beijos e carinho e, droga, compreensão mútua e ma-tu-ri-da-de. Por mais apaixonado, por mais legal. Para mim, nunca. Fica um cheiro de merda por tudo. Mesmo que você não veja. Que você não sinta. No escuro, fica. No dia seguinte, mexendo nos lençóis, sem querer você vai acabar descobrindo uma manchinha fedorenta: merda, merda pura. Não me venham com liberações, normalidades, porque não tem nada demais, é uma opção como qualquer outra, não sei que lá. Quem resolve o meu bode com cheiro de merda? Amor entre homens tem sempre cheiro de merda. Por isso, eu não agüento. Um mês, dois. Você mascara, disfarça, põe uma vaselina aqui, um sabonete ali. Mas o cheiro da merda continua grudado na tua pele. Eu não consigo aceitar que amor seja sinônimo de cu, de cheiro de merda. Aí eu falava isso para o analista e ele repetia sempre mas, afinal, o que há de tão nojento com a merda? Pode? Como o que há de tão nojento? É nojentíssimo, porra. Ter cu é insuportável, é degradante você se resumir a um tubo que engole e desengole coisas. Eu não vou aceitar nunca que o ser humano tenha cu e cague. Você conseguiria imaginar Virginia Woolf cagando? Eu só estou falando nisso agora porque a gente parou de comer. Se falasse antes, ninguém conseguiria comer nada.
O garçom trouxe a conta, cafés. Pérsio riscou a toalha com a faca várias vezes, horizontalmente. Depois na vertical, grades.
- Ontem à noite sublinhei umas frases numa história de Andersen. A moça dos sapatinhos vermelhos. A maldição, quando o anjo diz.
- Dançarás, dançarás para sempre, não é isso?
- Como é que você sabe?
- Eu vi no seu quarto. Estava aberto.
- Pois parece assim. Uma maldição. Para sempre. Só acaba quando amputam os pés da moça. Quando você perde um pedaço. Quando você se anula. Quando você renuncia e nunca mais trepa. Em nome da higiene, em nome da... Eu não consigo. Jean Genet me cuspiria na cara. Daí você me diz, então pára, se é tão... Tão traumatizante, tão violento, pára. Ou batalha uma mulher. Sublima. Ou muda a tua sexualidade. Eu não gosto de mulher. Até já transei, mas não sinto nada, tudo liso. Então eu tento, eu ficou uma semana, quinze dias sem foder. Então sinto falta. Aí vou na esquina e cato o primeiro que passar. Quanto custa, vamos lá, qualquer um. Paraíba, michê, crioulo, não tem problema. É rápido. Toalhas, torneiras, camisinha e tal. A grana, papéis definidos, eu-sou-bicha-você-é-macho, nenhum envolvimento. Já me roubaram, qualquer dia me matam. Isso não me importa. Mas é isso que falavam, amor? Essa sua história, eu não conheço. Eu só tive vislumbres, parecia prometido, preparado, e nunca aconteceu. Eu nunca consegui, eu nunca fui capaz, deve ser culpa minha. Ah, que banal. Até que ponto as circunstâncias não me favorecem, ou eu é que não favoreço as circunstâncias?
Santiago voltou a colocar os óculos. Estendeu a mão para a conta.
- Quanto foi?
- Deixa, eu tenho.
- A gente racha, então.
Santiago colocou duas notas no pratinho de plástico. Pérsio remexeu nos bolsos de casaco verde. Guardou as duas notas, assinou um cheque. E tocou com a ponta do dedo no pulso de Santiago.
- Me diz.
- Hein?
- A merda, o cheiro, o nojo. E o amor, o amor, cara. O que eu faço com isso?
- Você esquece, sei lá. Não tem tanta importância assim. E se for mais forte?
- A merda?
- Claro que não. O amor.
- Amor não existe. É uma invenção capitalista.
- Isso é só uma frase.
- Eu não sei, pode ser.
- Mas se. Tudo bem. Suponhamos que os dois caras gostem muito um do outro.
- O que já é difícil.
- Pode ser, mas... Suponhamos. Eu já vivi isso. E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a palavra nojo não tem mais sentido. Você também tem cheiros. As pessoas têm cheiros, é natural. Os animais cheiram uns aos outros. No rabo. O que é que você queria? Rendas brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão, se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho. Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio corpo. Porque então você se ama também.
Pérsio vestia o casaco, cigarro apertado nos lábios.
- Muito edificante - disse. E contraiu os olhos para evitar a fumaça. - Mas quem sabe, quem sabe? Então você conclui que, portanto, eu não entendo picas de amor.
- Não disse isso.
- Mas pode ser. O meu problema é um problema juvenil, de adolescente enrustido. Ou de burguesinho que fez a primeira comunhão e vai se sentir eternamente culpado com a possibilidade do prazer. Tudo muito cristão.
- Revirou os olhos. - Ai, tormentos, cilícios. De repente devo ter parado no Peter Pan. A carne é insuportável, uma espécie de macrobiótica da sexualidade. Só platonismos. Ou sacanagem braba, Dama do lotação perde.
Ia dizer qualquer outra coisa. Mas de repente estendeu os braços sobre a mesa e segurou nos ombros de Santiago. Apertou forte. O bafo morno dos restos de pizza flutuando no óleo, cinzeiro cheio, copos vazios, pratos amontoados entre os dois, pedaços de lingüiça, caroços de azeitona, queijo derretido, lascas engorduradas de presunto. Santiago quase não entendeu o que ele disse, palavras brotando confusas de entre os dentes que apertavam o cigarro.
- Sabe que eu gosto de você? Eu gosto muito de você, garoto.
Um bicho arisco, Santiago lembrou. Você precisa estender a mão com cuidado senão ele foge, era isso? Entre os brilhos falsos, insinuado, um pedaço de estopa. Porque eu também sinto medo, e haverá a morte um dia. A vida é apenas uma ponte entre dois nadas e tenho pressa. De repente sentiu-se sufocado enquanto saíam por entre as mesas barulhentas. Uma sufocação semelhante à daquelas manhãs de fim de semana em que, involuntário, acordava cedo demais apesar do esforço para permanecer na cama até mais tarde, para que o dia parecesse mais curto e não precisasse bater-se tanto pelo apartamento vazio, sem vontade de fazer coisa alguma a não ser olhar pelas janelas. Espiava então pela janela o movimento das ruas, os verdes lá fora, com vontade de sentar-se num banco de praça, comendo maçãs ao sol. Não saberia por que justamente maçãs, mas sem dúvida maçãs, maçãs vermelhas daquelas argentinas, embrulhadas em papel fininho quase roxo.
Não havia nenhuma praça próxima. Quase nunca havia sequer sol. Nem verdes, lá fora. Ainda que houvesse, que pudesse talvez comprar maçãs na venda da esquina e procurar uma praça, em algum lugar devia haver uma, sentado ali na poltrona alta de couro que, só percebera tempos depois, arrastara para junto da janela exatamente com esse fim, olhar lá fora, permanecia parado, atravessando as manhãs sem sequer fumar ou falar sozinho. Cortava unhas, às vezes. Das mãos, dos pés, detendo-se para pensar que - seria bom. E vinha depois também, insinuada aos poucos no meio da manhã, uma vontade de que alguém telefonasse, tocasse a campainha, chamasse lá embaixo, a princípio vaga, mas cada vez mais nítida, até chegar quase a ferir, feito uma dor, agulha, brasa. Nada acontecia. Aquela como uma vontade de ser feliz, de haver alguma ordem ou estar noutro lugar onde fosse possível sentar ao sol comendo maçãs, deixava também de ser como um estar-à-beira-de-qualquer-coisa-boa Campainha e telefone mudos, a manhã a transformar-se em tarde, emergia venenosa a sufocação, vontade de fugir, de não ser quem era nem ter vivido nenhuma das coisas que vivera. Todo um passado, essa coisa que chamam de passado, desembocava ali naquele momento, em pleno centro das manhãs esbranquiçadas de silêncio.
Na chuva mais forte da rua, Pérsio tornou a enfiar o capuz verde.
- Vamos em frente?
Santiago hesitava, mãos nos bolsos, óculos embaçados. Pérsio mostrou a ponta acesa do cigarro.
- Que é isso, companheiro? Vacilando? Vamos lá. Olha, vou jogar esta ponta na calçada. Se a brasa fizer tsssss! ao apagar, nós vamos.
Jogou a ponta numa poça d’água aos pés de Santiago. Quase puderam ouvir o chiado forte da brasa apagando.
- Está vendo? São os deuses que ordenam, a noite continua. Você está sem casaco, me dá a chave, eu corro na frente, abro e você entra.
Santiago estendeu as chaves. Pérsio correu pelo meio da chuva, pulando poças. Acontecia às vezes também, sentado na poltrona de couro junto à janela, observando a curva do sol pelos edifícios em frente iluminar aos poucos o parapeito, escorregar para dentro da sala, alongar-se por suas pernas, aquecendo as mãos paradas, distender- se palmo a palmo pelo tapete até encontrar uma ponta da parede oposta. Certas manhãs, ou quando as manhãs já tinham virado tarde, levantava-se por um momento para sair a recolher as plantas do apartamento, colocando-se atrás da poltrona, dentro da mancha de sol. Ficava ele também junto com as plantas na luz, existindo silencioso e imóvel no centro do dia. Mas acontecia quase sempre de o sol não aparecer, de a manhã acinzentar-se aos poucos, sem que fosse necessário apanhar as plantas. Algumas gotas de chuva começavam a bater nos vidros. Chovia muito, os papéis amoleciam, as paredes mofavam. A alma, se havia uma, curvava os ombros. Ele baixava os vidros, ficava vendo as gotas formando desenhos vadios. Duas, três, que encontravam uma outra para descer mais rápidas, pequenos rios verticais, pára-brisa do carro. Em vez de maçãs tinha vontade então de qualquer coisa como um chá, como se fosse velho, como se tivesse sobrado à margem dos movimentos que levam pelo tempo afora.
Não se movia para fazê-lo, esse movimento, Alguém que não chegava espiaria na porta perguntando em voz baixa se. Estremeceu. Pérsio buzinava, a porta aberta do carro. Correu, a gola do casaco levantada.
- Posso dirigir um pouco? - Pérsio pediu.
- Claro. Tudo bem.
Pérsio deu a partida. Depois repetiu, o carro passando por baixo do viaduto da Rebouças:
- Veni de sancta sede, Adonai: timor qui omnia ad voluntatem nostram coarctabit.
- O que foi que você disse?
- Um feitiço, cara. Aprendi num livro de magia, seduções e tal. Estou te ensinando um encantamento da pesada. Seguinte: se na seqüência você ficar a fim de um cara, olha bem fixo para ele e repete mentalmente. Bem concentrado, sete vezes. É tiro e queda. Repete junto comigo até decorar. Vamos: Veni de.
Santiago suspirou:
- Mas não vou ficar a fim de ninguém.
- Como é que você tem tanta certeza? Vamos, eia, sus, avante, companheiro! E se de repente, no meio da noite, um garoto lindíssimo avançar para você e perguntar como nos velhos bons tempos que livro você está lendo? Não, livro não. Livro em bar de veado não dá muito certo. Veado só lê Vogue e Interview. Livro parece a Theresa Dunn em Looking for Mr. Goodbar, só pinta baixo- astral. Mas pode perguntar que bebida, isso, o que é que você está tomando, garotão? E você diz um supernovo drinque chamado Perto do Coração Selvagem. Que tal?
- Não brinca com isso, porra.
Pérsio tirou uma das mãos do volante, colocou-a sobre o joelho dele. Apertou leve. Teve vontade de tocá-lo. Mas continuava parado na janela, espiando o sol, a rua, as gotas sem se mover. Antes que descruzasse os braços, Pérsio já tinha retirado a mão.
- Desculpa. Não tive intenção de.
- Não tem importância.
- Como não tem importância? Foi grossura minha.
Desciam pela rua molhada. Santiago viu o relógio da Faria Lima marcando, a intervalos, zero hora, trinta minutos, doze graus, depois zero hora, trinta e um minutos, doze graus.
- Você sente falta, não é? Você sente muita falta dele?
Zero hora, trinta e dois minutos, doze graus, zero hora, trinta e três minutos, doze graus, zero hora, trinta e.
- Sinto, às vezes. Sinto muita falta.
- Como foi que ele morreu?
Acendeu um cigarro. Estendeu o maço para Santiago, que aceitou sem pensar. A chama do isqueiro brilhou por um segundo, iluminando de relance o rosto deles. Ligou o rádio. A voz aguda e clara de Cida Moreyra brincou irônica entre os dois, repetindo: Ah, deixe-me, rapaz, lhe dizer que em mim tudo tanto faz. Pérsio riu.
- Nem de encomenda, não? Cantarolou junto, um pedacinho. E tornou a tocá-lo no joelho. É difícil, não é?
- Não gosto de falar nisso.
- Tá bom, desculpa outra vez. É que estou achando você triste. Falar de repente ajuda. Sabe no que eu estava pensando há pouco? Santiago não disse nada mas ele continuou, a voz soando falsa, estridente demais, alegre demais. - Em Lavínia, a lasciva. God! Como estará a ardente Lavínia nos braços de seu amado Douggie?
- Foi um acidente - cortou Santiago, brusco. - Ele morreu num acidente de carro. Nada, não teve nada demais. Nenhuma tragédia. De repente, um negócio besta. Eu estava em casa, eu estava achando estranho que ele estivesse demorando tanto. A gente sempre sabia onde o outro estava, não tinha nenhum jogo de angústia. A gente cuidava um do outro, não havia dor. Aí tocou o telefone e uma voz desconhecida perguntou se era ali que o Beto morava. Era, eu disse, é aqui. E pronto, já tinha acontecido. Morreu na hora. Não doeu, não deve ter doído, não houve tempo. - Jogou fora o cigarro. - Mas tudo bem, esquece. Já passou.
Pérsio olhava para ele, atento:
- Como esquece? Você deve ter sofrido muito.
- Claro, é normal, não é? As coisas dele ali, todos os dias, sem ele. A cama vazia. Uma falta, eu sentia uma falta. - Sorriu para si mesmo. - Dor, dor, dor. Lembrei duns versos do Ferreira Gullar, o Beto gostava do Ferreira Gullar. Uns versos assim:
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

Pérsio sorriu de volta.
- Pois lembrei de outros. Do Ferreira Gullar, também. Há Ferreira Gullar para todas as ocasiões, eu sempre gostei. Presta atenção neste. - E recitou, devagar:
Amigos morrem,
as ruas morrem,
as casas morrem.
Os homens se amparam em retratos.
Ou no coração dos outros homens.

- Versos, versos, versos. Acho que somos a última geração que sabe versos.
- E por que não, versos? Versos, livros, filmes, músicas, quadros. Qualquer coisa, desde que seja bonita. É bom poder tocar um instrumento, é bom cantar, Quando eu lavava pratos em Paris pedia sempre para um amigo, o J, lembra do J do cartão-postal? O J era o João, que ficou. até hoje. O João foi a única pessoa que. Eu pedia para ele me escrever as letras de Roberto Carlos, prendia o papel na prateleira em frente e ficava cantando o dia inteiro. Roberto, Erasmo, Leno e Lilian, Ronnie Von, Mar- tinha, ele sabia toda a Jovem Guarda de cor. “Ternura”, lembra de “Ternura”? Era a que eu mais gostava. - E cantou, imitando a voz de Vanderléia: - Uma fez você falou...
Santiago riu:
- Eu sei, mas dá. Às vezes dá uma distância. Eu penso coisas banais, eu sinto coisas banais. Mas tão nítidas. Quando estou dando aula, quando digo a eles para copiarem ou fazerem qualquer coisa em silêncio, fico olhando aquela porção de cabeças baixas e pensando que tem um abismo entre a gente. Um abismo de tempo, de história. Que as coisas andaram muito rápidas. Que eles não têm tempo. Que tudo acabou. E eu sinto pena, então. Como os velhos, os bem velhos, devem ter pena dos moços. Que a gente tem a cabeça cheia de versos e filmes e livros e histórias e memórias que para eles já não têm nada a ver. Peças de museu, nossas emoções. Todas as emoções.
- Pior para eles.
- Ou para nós, que estamos ficando velhos?
Pérsio fez uma mudança rápida:
- Velhos? Imagina, eu não. Por favor, me exclua desse seu grilo. Estou na flor da idade. Na força da juventude. Mal comecei, mal comecei a me desembaraçar de toda a culpa. Quero mais, quero o que ainda não veio.
- Mas tantas memórias. A gente tem tantas memórias. Eu fico pensando se o mais difícil no tempo que passa não será exatamente isso. O acúmulo de memórias, a montanha de lembranças que você vai juntando por dentro. De repente o presente, qualquer coisa presente. Uma rua, por exemplo. Há pouco, quando você passou perto de Pinheiros eu olhei e pensei: eu já morei ali com o Beto. E a rua não é mais a mesma, demoliram o edifício. As ruas vão mudando, os edifícios vão sendo destruídos. Mas continuam inteiros dentro de você. Chega um tempo, eu acho, que você vai olhar em volta sem conseguir reconhecer nada.
- As ruas morrem - repetiu Pérsio. - As casas morrem.
- Eu sei, eu sei. Mas você não sente medo?
- Sinto, sinto. Claro que sinto. Tenho milhões de medos. Alguns até mais graves. Medo de ficar só, medo de não encontrar, medo de AIDS. Medo de que tudo esteja no fim, de que não exista mais tempo para nada. E da grande peste. Mas hoje não, agora não. Agora só tenho vontade de galinhar um pouco. Portanto nós vamos estacionar este batmóvel, se os orixás ajudarem. Depois vamos descer e tomar uns bons drinques ali no Deer’s, conhece o Deer’s?
Santiago disse que não, que não conhecia e que. Mas Pérsio tinha acabado de estacionar, empurrando um pouco o carro da frente, e descia abrindo a porta para que ele descesse. A chuva fria bateu forte na cara. Pérsio tirou o casaco, colocou-o sobre a cabeça dos dois, como uma capa de chuva. Enfiou o braço no dele, e correram então protegidos pelo meio da chuva até a porta iluminada com o guarda vestido de amarelo. Penetraram de repente numa penumbra bordô borbulhante, cheia de gente. A moça da caixa estendeu dois cartões. Pérsio tirou o casaco da cabeça dos dois e começou a puxá-lo pela manga em direção ao bar, metendo-se pelo meio das pessoas sem pedir licença.
- Vou tomar vinho - disse. - É bom não misturar. O que você quer?
Santiago não conseguiu ouvir direito com o barulho. Música muito alta, e vozes, e corpos, e acima de tudo uma espécie de excitação coletiva. Como um ruído atordoando, estonteando. Pérsio repetiu aos gritos:
- Vinho, pede vinho também.
Deixou que ele apanhasse os dois copos e continuasse andando por entre as paredes forradas de veludo - interior de uma fruta, ameixa madura demais - até encontrarem uma mesa vazia no canto, ao lado da coluna coberta de pequenos espelhos.
- São todos muito nervosos, muito tensos. Não conseguem ficar parados um segundo. God!, que galinhagem.
- Bateu na perna de Santiago. - Não esqueça, hein? Qualquer modelo mais forte, é só fixar o cara na nuca, de preferência na nuca. Ou então entre os olhos, bem no terceiro olho, mas aí é muita bandeira, e se ele se permitiu chegar a esse ponto também não precisa mais feitiço algum.
E repita: Veni de sancta sede, Adonai. Dá o maior resultado, cara. Uma vez deu certo comigo mesmo, aqui onde me vês, neste mesmo lugar. Eu tinha ficado a noite inteira sentado no bar, meio de bode, com um cara do lado. Um cara fantástico, algo assim entre o David de Michelangelo e James Bond em início de carreira, mas não me dava a mínima. Eu puxei o banquinho para trás dele um pouco e volta e meia olhava a nuca do moção. Era um moção do tamanho daquela porta, coxas arqueológicas, e repetia, veni, veni, veni. Lá pelas quatro da matina, quando o bar estava quase vazio e eu inteiramente de porre, ele olhou para mim e perguntou você quer dormir comigo? Eu disse não, obrigado. Só estou testando uma arma secreta.
Santiago bebeu um gole de vinho. Pérsio olhou em volta:
- Então, ninguém te agrada?
- Não - Santiago disse.
- Vamos dar notas, tipo Márcia de Windsor, que Deus a tenha. Aquele ali, de blusão de couro, não te piace? É muito dangerizante. Vestido assim, dou nota oito. Com direito a segunda época. God!, que rabo. E o parrudinho de jeans? Em geral os baixinhos parrudinhos são uma grande revelação na hora do let’s dance. Eu dou sete, queridos telespectadoreS. Nossa, como estou generoso hoje. Deve ser carência generalizada. Mas olhando bem, a média geral não passa de cinco. Com muito boa vontade.
- Parecem todos iguais.
- E são. Tipo andróides, em série. Vestem as mesmas roupas, usam o mesmo cabelo, dizem as mesmas coisas, vêem os mesmos filmes, ouvem as mesmas músicas. Não existe um tal cultura gay? E se acham todos muito originais, muito exclusivos. Odeio guetos.
- Odeio a palavra gay.
- Mas ela existe, rapaz. E não é só uma palavra. É mais grave, um comportamento, um feeling. A sacralização da bobagem. E são todos exatamente assim. Felizes, descontraídos, sem problemas. Leves, levíssimos. Soltos, sem culpas nem traumas. Todos muito bem vestidinhos com os modelinhos que trouxeram de Nova York, todos adoram Nova York. Todos muito bem-amados. Musculosinhos, liberadinhos, burrinhos. Umas gracinhas. - Olho para Santiago. - Você não vai ficar deprimido agora vai?
Eu estou deprimido, Santiago quis dizer. Mas preferiu permanecer em silêncio, bebendo devagar o vinho. Começava a ficar tonto, E poderia rir, tão fácil, só não tinha vontade. Um garçom colocou um pratinho cheio de pipocas ao lado. Mordiscou algumas, entediado.
- Não tenho nada a ver com isso.
- Sei, sei. Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui. Mas finja que tem. Não olhe para eles como se quisesse assassiná-los. No fundo é tudo a mesma coisa. E tanto faz. Vamos, sorria.
Pérsio segurou o queixo dele entre o indicador e o polegar, como se faz com os bebês, obrigando-o a voltar- se. Santiago foi se virando lento, sem vontade, a pressão forte no queixo, até olhá-lo bem dentro dos olhos. Uns olhos claros brilhantes, inquietos, irônicos, o vinco de lado, no canto da boca. Na coluna de espelhos quebrados viu refletidos os rostos dos dois. Vários rostos espatifados, divididos em ângulos, em pedaços. Um rapaz de cabelos curtos eriçados, segurando o queixo de um outro mais moreno, de óculos, sobrancelhas densas, cacos também. Tirou os óculos, colocou-os no bolso. E sorriu à toa. Pérsio acariciou de leve seu queixo, rascando a barba forte.
- Isso, assim, bom. Bom menino. Não precisa esgazear os olhos, apavorado como se visse abantesmas. Aqui está tudo em casa, não tem aquelas mammas repressoras. Nem garotas monstras vaiando em coro. Esse trauma é pessoal, mas todo homossexual sul-americano tem no subconsciente um grupo de garotas monstras vaiando enfurecidas, Está tudo bem, tudo zen. - Soltou os dedos, desviou os olhos, acendeu um cigarro. - Só quero que você se sinta bem, meu bem.
Como um vazio no queixo, de repente. O calor que já não estava ali.
- Mas eu estou bem. Não se preocupe.
- Bem mesmo?
- Ótimo. Maravilhoso. Opíparo.
- Não precisa ser agressivo. Deixe as doenças mais graves para mim. E se segure por aí, entre a moçada. Vou até o banheiro pegar mais vinho para nós, dar uma olhada rápida no açougue. - Parou ao lado da coluna, piscou. - Olha, se você quiser namorar alguém não faça cerimônia. E não esqueça do encantamento.
Um desamparo súbito desabando. Aquela poeira fina chovendo dos telhados cheios de cupins. Um automóvel em alta velocidade na hora da descida brusca, vácuo no estômago. Pérsio mergulhou na penumbra bordô fervilhante. Marina cantava quem é esse rapaz que quando chega?, a voz rouca fazia as pessoas relaxarem, por um segundo abandonando as poses. Um copo longo, acariciou com os dedos um copo esguio, corpo entre borbulhas. O líquido da cor das paredes, pouco mais escuro, tão espesso que poderia tocá-lo. Cruzou os braços, jogou a cabeça para trás olhando os outros. Mas quase não conseguia ver ninguém assim sem óculos. O copo de vinho, a coluna de espelhos, depois a grande massa móvel, colorida, cabeças destacadas, agitadas, um único corpo de muitas cabeças nervosas. A Quimera, lembrou, o monstro grego. E repetiu sem pausa, mexendo nas pipocas: quimeras quimeras quimeras. Era Belerofonte? Ou Teseu, ou Perseu. Perseu, Pérsio. Desejou que ele estivesse logo de volta, para dizer coisas sem sentido, para se mexer, para ferir e ferir-se, para sorrir de lado, esfregar as mãos, fazendo estalar as juntas dos dedos, uma saudade prévia, para ficar perto e fazê-lo rir de susto, de prazer, de. Apertando um pouco os olhos, no meio da massa de cabeças irrequietas viu destacar-se uma vagamente conhecida, cada vez mais próxima. Só quando chegou na beira da mesa é que Santiago conseguiu reconhecê-lo. Era Carlinhos.
- Desculpe, não nos encontramos há pouco?
- Não lembro - Santiago mentiu.
- Você não estava na pizzaria?
Viu Pérsio aproximar-se por trás, de repente. Quis avisá-lo, mas era muito tarde, Carlinhos já o tinha visto.
- Oi de novo - disse Carlinhos. - Eu estava justamente perguntando por você.
Pérsio colocou mais dois copos de vinho sobre a mesa. Sentou-se ao lado de Santiago e passou o braço sobre os ombros dele, no encosto da cadeira. Apertou-o, suave.
- Pois aqui me tens, infante. Pedi e ser-vos-á dado, não falou o Senhor?
- Não quero interromper nada. - Carlinhos estendeu a mão para os copos. - Posso dar um gole?
- Esteja a gosto, a casa é sua. - Pérsio estendeu o maço de cigarros. - Não quer aproveitar o ensejo e fumar um, também?
- Obrigado. - Carlinhos pegou um e ficou esperando, o cigarro no ar, que alguém acendesse. Mas Pérsio brincava com o isqueiro olhando para ele como se estivesse distraído. O rapaz cutucou alguém que passava. - Fogo - pediu. E de novo, malicioso: - Como eu disse, não quero interromper mesmo nada. Desculpa eu parecer indiscreto, longe de mim, mas vocês são caso?
Pérsio batia o isqueiro na mesa, ritmadamente. Cinco vezes, Santiago contou, bem destacadas.
- O que é que você acha?
- Ah, não sei. Olhando assim, bem. Difícil dizer. Sei lá, às vezes parece, às vezes não. Tenho amigos que... Mas de cara dá pra sentir que vocês têm assim uma, como dizer... Uma ligação muito forte. - Olhou para Santiago, que já tinha bebido quase metade do vinho. - Aliás, meu bem, me dá licença de dizer. De muito bom gosto os dois, umas gracinhas, uns gatinhos. Sabia que vocês são lindos? - Bebeu outro gole de vinho. E debruçou-se na mesa. - Ah, deixa de onda, qual é? Conta logo, vai. Vocês são mesmo caso?
- Somos - disse Pérsio. Apertou mais o ombro de Santiago. - O nome dele é Beto. Vivemos juntos há quase dez anos.
- Aff Maria, dez anos? Que loucura, gente.
- Eu disse DEZ anos. E é bom você ir se mandando porque além de detestar veado, ele morre de ciúmes. Por qualquer coisinha, fica completamente louco. Sai virando mesa, quebra tudo e parte a cara de quem pinta pela frente.
Carlinhos empalideceu, pediu desculpas, licença e sumiu. Pérsio bateu na mesa.
- Não disse? Veado é foda. No restaurante chegou cheio de salamaleques, porque com licença, porque não sei o quê? No gueto perdeu logo o respeito, já veio invadindo, pedindo bebida, pedindo cigarro, querendo saber se é caso. Pelo amor de Deus, caso, mais um pouco e ia falar em entendido. Que nojo. Só porque é veado também acha que está tudo em casa. Se eu não chegasse a tempo provavelmente ia te passar uma cantada. Viu só do que te livrei, garoto?
Santiago afastou com força o braço dele das costas da cadeira:
- Por que foi que você disse aquilo?
- Aquilo o quê? Que a gente era caso? God!, que palavra asquerosa. Sei lá, pra ele desgrudar, sair de cima. Você ficou chateado?
- Não é disso que estou falando.
- Você está falando do quê, então? Por que eu disse o quê, rapaz?
- Que o meu nome era Beto. Você disse que o meu nome era Beto.
Pérsio parecia surpreso.
- Beto, eu disse Beto? Que você se chama Beto?
Santiago batia com a palma da mão no tampo de fórmica da mesa:
- Disse, você disse: O nome dele é Beto. Vivemos juntos há quase dez anos.
Pérsio arregalou os olhos:
- Mas eu não disse isso.
- Disse, você disse. Quer chamar o garoto aqui para confirmar? Você disse Beto, o nome dele é Beto. - Colocou a mão no ombro dele. Mas não chegou a tocá-lo. A mão ficou pairando trêmula no ar, pouco acima da blusa vermelha. - Olha, cara, de repente você está brincando com coisas muito sérias para mim. Você não tem esse direito. Primeiro foi o cu, se eu dava o cu para ele. Quer saber, quer mesmo saber? Pois eu dava, sim. Ele dava também. Sem culpa, com prazer. Sem doença. A gente se amava, será que você é capaz de entender isso? Será que você consegue esquecer por um segundo a sua monumental frustração para entender que outras pessoas podem ter tido relações mais dignas que as suas? Depois foi no carro, aquela história de alguém perguntar que livro eu estava lendo. E agora você acabou de me chamar pelo nome dele. Você não pode fazer isso. Uma pessoa não é só um amontoado de frasezinhas supostamente brilhantes. Você não sabe o esforço enorme que estou fazendo para.
- A mão no ombro baixou, apertou forte. Pérsio olhava para ele como se não compreendesse sequer a língua que falava. A voz de Santiago era apertada e rouca. - Ah, você e seus truques. Você e suas palavras impensadas. Você e suas brincadeiras espirituosas. Você e seus traumas, seus ódios, seus nojos. Eu não tenho nada a ver com isso. Estou cansado dos seus números, da sua inconseqüência, da sua neurose, da sua. - Levantou-se e empurrou a cadeira. - Eu vou embora, eu já devia ter ido embora há muito tempo. Não tenho mais paciência nem cabeça para esse tipo de coisa miúda. Quer saber do que mais? Boa noite, meu amigo.
Pérsio ficou sentado com o copo de vinho enquanto Santiago colocava os óculos, apertava sua mão e desaparecia no meio dos outros. Mas eu não, pensou. E bebeu outro gole. Tão rápido que o vinho derramou na mesa. Passou o dedo, puxou um fio longo, vermelho, para baixo, depois lambeu. A música parecia bater nas paredes forradas de veludo, câmara de eco, para depois voltar mais alta, mais barulhenta, cheia de metais, nosso louco amor, repercutindo dentro da cabeça. Apertou o copo com as duas mãos. Escuta, eu não pretendi, eu gosto de você. Em volta olhavam disfarçado, riam baixinho. Foi quando terminava de acender mais um cigarro que sem pensar apanhou o casaco, pegou os dois cartões, levantou-se, correu para a porta. Alguém tentou segurá-lo pelo braço, há quanto tempo, nossa você por aqui, precisamos. Libertou- se brusco, quase num soco, afastando faces e corpos com os cotovelos. Jogou os cartões na caixa, pagou sem esperar o troco e saiu para a chuva.
Surpreendeu-o no momento em que abria a porta do carro. A roupa branca parecia brilhar no meio da noite.
- Santiago - chamou.
- Não me chame assim. Não é esse o meu nome.
Segurou-o pelos ombros, forçando-o a encará-lo.
- Olha, eu não quis. Eu juro que. Eu não me lembro.
- Beto - Santiago repetiu. - Beto, Beto, Beto. Você disse que eu me chamava Beto. Você não tem o direito.
Pérsio sacudiu-o, muito leve. Depois com mais força, olhando-o nos olhos. Se conseguisse enxergar os olhos dele, atrás das lentes respingadas de chuva.
- Pára com isso. Já ouviu falar em, em... - Hesitou, e disse: - Em lapso, lapso freudiano, que idiota, eu. Deve ter sido isso. Uma coisa assim. Eu não quis dizer. Conscientemente, eu não quis dizer, me entende. Acredite, eu gosto de você. Não vamos estragar a noite, não vamos estragar o nosso... Conhecimento, a nossa amizade. Não vamos, por favor, não vamos. Não quero que você pense. A gente bebeu demais, só isso. Por favor, não quero que você pense.
Santiago tinha uma das mãos na porta aberta do carro, a outra caída ao longo do corpo. Olhava para ele sem dizer nada, a chuva escorrendo pelos cabelos, ombros tensos. Atrás dele, Pérsio via agora, atrás e além dele a grande avenida cheia de carros em movimento, anúncios luminosos, a cidade encharcada, alagada, nunca mais pararia de chover. Charco e brilho, pensou sem querer. À sua frente, muito próximo, o rosto erguido de Santiago com um orgulho infantil, a chuva molhava os óculos por trás dos quais o olhar brilhava sobre os maxilares cerrados, enrijecidos com raiva, desprezo, mágoa, confusão e todas essas coisas assim vermelhas, coisas que não havia antes, que não suportava agora porque não era assim, porque não devia ser desse jeito farpado, porque não era preciso. Porque iria embora quase certamente no próximo minuto, e nunca mais se veriam, porque estava só, embaixo da chuva interminável, o Sul alagado, a segurá-lo pelos ombros como se pudesse prendê-lo, e se ele fosse embora naquele momento, daquela forma dura, se ele fizesse um movimento para entrar no carro, dando a partida, parado na calçada, não queria o drama, por favor, poupe-me as cenas, tornaria a entrar no bar, tinha certeza, para encher a cara copo a copo, determinado, seria insistente, desagradável, pegajoso, cantaria qualquer um, treparia até a manhã seguinte, talvez dormisse no meio, de porre, de tédio, não importava, para despertar cheio de náusea e cansaço e ressaca, o ruído incessante da chuva, uma requintada tortura e dor no meio da tarde de outro domingo sujo. Quase gritou, apavorado:
- Alguma coisa em. Alguma coisa em mim que eu não entendo. Eu devo ter inveja, eu não te disse que eu nunca consegui? Eu não entendo de amor, de algum jeito complicado. Dentro de mim, vê se me entende. Isso nunca aconteceu antes, eu não queria ferir você. Te ferir, eu não podia ferir. Seria a última coisa que. Eu não devia, eu não pensei.
Santiago soltou os ombros, baixou a cabeça. A chuva escorreu pelo rosto:
- Está bem, está tudo bem. Mas eu vou embora.
- Você não vai embora.
- Eu estou cansado.
- Você não pode ir embora.
- Eu estou triste.
As unhas roídas, Pérsio tocou-o no rosto. Ele virou brusco a cabeça. Pérsio avançou mais os dedos, puxando-o para si até que estivessem tão próximos que o ar entre a boca dos dois formava uma pequena esfera de fumaça, cheirando a conhaque, a vinho, a cigarro, a medo.
- Não, você não vai embora. Pelo amor de Deus, você quer me ver fazer uma cena passional em plena frente do Deer’s? Sabia que esta é conhecida como a Esquina do Ridículo? Daqui a pouco começa a juntar gente. O Carlinhos viu tudo. Você acha que a viborazinha não ficou cuidando? E a minha reputação pro-fis-si-o-nal, onde fica? God!, deve ter ido correndo chamar o coro inteiro do tal Édipo.
- Antígona - Santiago corrigiu.
- Tanto faz, que importa? Édipo, Antígona, Ifigênia, Hipólito, Prometeu, Electra, Agamêmnon, Clitemnestra, Orestes. Toda a tragédia grega. Não transforme um lapso freudiano primário numa super-tragédia urbano-contemporânea, menino. Eu gosto de você. Eu estou meio bêbado. Eu estou ficando completamente torto. Me dá uma chance. - Abraçou-o. Afundou o rosto na gola molhada do paletó de veludo branco. E parecia verdadeiro, pequenino e desamparado, repetindo: - Eu gosto de você, eu gosto tanto de você, garoto. Me dá outra chance. Me deixa guiar a nossa noite.
Santiago podia sentir o rosto dele ao lado do seu, pouco abaixo, apoiado no peito. Ergueu devagar o casaco que Pérsio trazia nas costas, colocou-o sobre a cabeça molhada dos dois abafando os ruídos. Como embaixo de uma barraca, acampados num lugar deserto longe de tudo, talvez montanha, perto de uma vertente de água, e então começasse a cair aquela chuva louca lá fora. Dentro de uma redoma de cristal, protegidos da rua, da cidade, dos Outros. Dos artifícios, jogos, tortuosidades, pensou, a respiração morna junto ao pescoço. Abraçou-o também, que vinha de muito longe, que mal se conheciam, um bicho arisco, abraçou-o com muita força, como se quisesse entrar dentro dele para poder compreendê-lo mais, e melhor, inteiramente sozinhos no meio da chuva, assim mais poderosos, na esquina do ridículo, por dentro da noite. Foi apertando aos poucos, o corpo inteiro contra o corpo do outro. Pérsio beijou-o leve, lábios molhados, com cuidado e vagar, onde a barba terminava e começava a pele lisa – La peau douce, lembrou. Ao longe a porta do bar abriu e tornou a fechar, deixando fugir para a calçada um rugido de guitarra elétrica que o fez estremecer com frio e medo e saudade e uma bola, um novelo escuro parecido com solidão e nunca mais. O casaco escorregou, caiu na calçada, ruído fofo. Afastou-se para olhá-lo outra vez nos olhos, que não se esgotavam. Eram olhos de criança muito claros e limpos, um pouco vermelhos, assustados, sem maldade. Sorriram um para o outro. E tudo estava certo outra vez, e tudo tinha um gosto bom.
- Está bem - disse. - Eu não vou embora. Você pode comandar a nossa noite.
Entregou-lhe a chave do carro. Entrou, deslizando pelo banco, puxando-o para dentro, pela mão de unhas roídas. Pérsio apanhou o casaco molhado. E manteve a mão dele apertada, até soltá-la lentamente para dar a partida.
- Você está muito molhado. Vai pegar uma gripe. Precisamos de mais um conhaque. Você quer ir até a Terra de Marlboro?
- Onde?
Ele riu. Canto de boca, fio suspenso, cordel puxado: o vinco.
- Terra de Marlboro, onde os homens se encontram. Ou se perdem às vezes, dá no mesmo.
Santiago enxugava os óculos na ponta da camisa.
- Você quer?
- Para dizer a verdade, não queria ir a lugar nenhum mais. Quero ir embora.
- Mas nós podemos ir.
- Não é isso. Não para casa. Nem para Paris, Londres, Roma, Nova York. Nem para Pasárgada, Xanadu ou Eldorado. Para mais longe. Jacarta, Togo, Bali, Surabaya, Zaire, Java, o mar de Java. Qualquer lugar onde a gente pudesse viver uma coisa mais inteira. Não nesta cidade, não neste país. - Cantarolou: - Surabaya, Johnny, não me deixe assim, Surabaya, Johnny, estou tão infeliz. - Repetiu, como uma música: - Jacarta, Togo, Bali, Surabaya, Zaire, Java.
Mas deslizavam outra vez pelas mesmas ruas molhadas no caminho de volta, entre edifícios com algumas janelas iluminadas, recortes de cartolina, velhos filmes na televisão, Jane Wyman, Cornel Wilde, pessoas entrando, saindo de lugares barulhentos, semáforos colorindo as poças onde navegavam. Santiago quis dizer outra vez que preferia ir embora. Mas as manhãs paradas, temeu, como uma toca, seu lugar conhecido onde tomaria um chá bem quente, leite morno com mel e canela antes de afundar entre lençóis, talvez dormir, se conseguisse deter o galope na cabeça cruzada de memórias e presságios. Não pelas palavras, não pelo encontro, não pela noite. Talvez apenas para certificar-se de que em algum ponto da cidade existia um espaço onde não seria forçado a movimentar-se, onde não houvesse nenhuma conversa, nenhuma solicitação de fora, nenhuma possibilidade de prazer ou dor, nenhuma expectativa. Somente um silêncio de homem sozinho naquelas manhãs sem praças nem maçãs, olhando a luz do dia do lado de fora da janela.
- Gostaria que fosse de manhã - disse.
Pérsio não respondeu. Fumava quieto atravessando sinais fechados, desertos, virando esquinas. Alguma coisa partida agora. A xícara, uma xícara antiga de porcelana chinesa que você ganhou de alguém especial, de um modo especial, num dia especial, ou comprou em certa tarde de extravagâncias, recriminando-se mais tarde ao fazer contas debruçado sobre o talão de cheques, ao mesmo tempo em que acompanha com fascínio, talvez algum horror e infinito cuidado, os desenhos delicados, aquele ideograma indecifrável, quem sabe Pi, como no I-Ching que jogara à tarde, Santiago foi desenhando no vidro embaçado água sobre terra, repetiu, seis na segunda linha, o-movimento-para-com-união-e-afeto-procede-do-intenor-da-mente. De repente, num canto de sala, sobre um objeto, você esbarraria sem querer, e cacos numa explosão aguda, os cacos da xícara que nem chegou a durar um dia, depois você tentaria colar paciente, embora sabendo que sempre restarão pequenos vincos, gretas, quase invisíveis, mas indisfarçáveis na sua trama, as linhas finas entre os cacos colados um por um, para sempre. Uma almofada de seda clara onde num movimento bruto você derramaria vinho tinto.
A mancha, o caco, o silêncio soando falso.
Pérsio ligou o rádio, volume muito alto. Mas era um som alucinado de metais, manchas, cacos no espaço entre os dois. Das janelas abertas, nos carros próximos, quando paravam nos sinais, brotavam músicas semelhantes. Donna Summer, pensou, Terra de Marlboro. E dentro dos carros próximos havia quase sempre um casal sem crianças, ou duas moças, ou dois rapazes, ou mais raramente três ou quatro pessoas que fumavam, se olhavam, diziam coisas. Quando o carro novamente avançou pela Faria Lima e ele pôde ver o relógio brilhando no escuro, no alto, duas horas e quarenta e três minutos, onze graus, dentro do carro ao lado, duas horas e quarenta e quatro minutos, onze graus, um homem de cabelos grisalhos, sem música, sozinho, olhou para ele como se não o visse. Que ficaria assim um dia, dirigindo à toa, à noite, pelas ruas, cheio de memórias fatigadas sem presságio algum, ausências ocas, lembranças áridas, porque não faria nada com elas a não ser senti-las ácido, não seria necessário o rádio ligado nem direção alguma, não iria para lugar nenhum, negou, negou de novo, nunca haveria ninguém ao seu lado. Falaria consigo mesmo em voz baixa coisas sem importância, talvez cantasse repetindo nomes de outros tempos, de pessoas, cidades, livros, cruzaria de ponta a ponta a cidade que não teria fim, atravessando túneis, viadutos, por baixo, por cima da terra, que tinha medo da morte cega em seu encalço e das perdas e das marcas deixadas pelas perdas e mais além, das perdas tão completas que nem sequer deixavam marcas e do que não conseguiria lembrar, sentia pena dos cacos entre as mãos, tão pulverizados que mesmo que os apertasse com força não conseguiria arrancar nem uma gota de sangue.
- Você está cheio de memórias - Pérsio disse.
As gotas de chuva começavam a apagar o ideograma no vidro.
- Eu sei. Às vezes acho que não vou esquecer. Mas está passando. Vai passar, vai passar. - Deslizou o dedo pelo desenho quase apagado. - Eu é que devia pedir desculpas a você. Não tinha o direito de dizer aquelas coisas todas.
Pérsio sacudiu os ombros.
- Não tem importância. Já passou.
Atravessaram a avenida Paulista, alcançaram a descida ampla em direção às luzes da cidade, os muros altos do cemitério, as sombras emaranhadas das árvores - ciprestes, abetos, abetos, e as urzes, os cardos -, o grande anjo de braço erguido, mármore frio segurando a espada reluzente de chuva, a igreja recortada contra o céu, nenhuma estrela, uma vontade de benzer-se pedindo proteção, afasta de mim, Deus, mas Deus tinha morrido em Auschwitz, talvez no Vietnã, fazia tempo. Enveredaram pelas ruas estreitas repletas de gente parada pelas esquinas, sob as marquises, nos bares, buracos iluminados. Pérsio estacionou com dificuldade, depois de voltas lentas pelos quarteirões. Na calçada, lado a lado em silêncio, procuraram as marquises junto aos edifícios para abrigar-se. Um na frente do outro, encolhidos, até que Pérsio alcançou-o, tirando o casaco para protegê-lo novamente. Mas já não se olhavam, mesmo quando à beira da porta pegou-o pelo braço empurrando-o por entre as pessoas, para mergulharem na penumbra de uma onda riscada de cores, pesada de fumaça, vozes, perfumes e música muito alta, ansiosa, elétrica como a do carro. Furar lentamente a barreira dos corpos de muitos homens, uma cerimônia selvagem, a massa de pessoas dançando sem parar na pista do centro, imaginou um adolescente branco e nu, amarrado num altar no centro da pista, o anjo empunhava a espada, prestes a ser sacrificado. Cálices de sangue, tambores, atabaques, percussões.
No balcão, Pérsio estendeu os tickets por cima da cabeça de alguém e pediu dois conhaques. Apresentou-o a um rapaz grande, de camiseta muito justa realçando os músculos esticados sob a pele tensa, mas não conseguiu ouvir o nome nem outra coisa qualquer sendo dita, apenas sorriu, apertou a mão enorme. Suspensa do teto, sobre a pista uma esfera de pedaços de vidro girava jorrando fachos de luz em todas as direções. Às vezes soava um apito agudo, sirene, buzina, então a luz começava a tremer azulada e os movimentos das pessoas tremiam também, partidos como se no ato de voltar a cabeça para o lado não houvesse transição alguma: o rosto subitamente de perfil, curvado sobre o ombro, depois outra vez de frente, ou o contrário. Como o rapaz grande curvando a cabeça para ele, depois de costas, interposto entre Pérsio e ele.
A roupa branca cintilava, feita de prata e luz.
Fechou os olhos. Por um momento um ninho de serpentes coloridas e riscos de neon agitou-se no fundo das pálpebras, entrelaçadas. Santiago apanhou o copo que Pérsio estendia sobre o ombro do outro e de repente, quando um dos fachos de luz incidiu direto sobre as garrafas dispostas na prateleira de vidro atrás do balcão, entre o ombro largo do outro e os reflexos de luz, percebeu que ele o olhava outra vez direto nos olhos. Que não se esgotavam, os olhos inesgotáveis. Mas não sorria. Não sorria nem fazia movimento algum com o rosto ou o corpo além de erguer o copo quase acima da própria cabeça, para depois estendê-lo entre o ombro largo do outro e o reflexo de luz batendo no vidro, tocando de leve no copo dele sem dizer nada, num brinde sem tilintar nem palavras, ou dizendo alguma coisa que se perdia no meio das vozes, da luz que tornava a apagar, palavras partidas como os movimentos, cacos, lascas.
Disse que ia ao banheiro, e voltou-se para penetrar entre os homens. Mas deteve-se na porta aberta, o homem de pernas abertas, braços cruzados, contra os azulejos do fundo, a mão pousada na braguilha dos jeans, entre o cheiro de mijo vindo de dentro, desodorante sanitário e alguém que o empurrava, pedindo passagem. Voltou até o bar, durante horas voltou até o bar desorientado, procurando o rosto conhecido do outro sem encontrá-lo. Viu uma blusa vermelha ao longe, dobrando a curva das escadas, em direção ao andar de cima, feito balcões suspensos de onde se podia acompanhar a dança dos outros, o sacrifício, anjo, espada, ritual, embaixo, no meio da pista, estava tonto, sob a esfera de vidro que girava e girava e girava. Pensou em chamá-lo, mas não ouviria. Não queria ouvir mais, e quis ir embora, mas estava perdido, as chaves do carro, a noite suja. lima das n1ns segurando bem alto o copo cheio foi subindo pelos degraus olhando as caras desconhecidas uma por uma, uns cabelos crespos, um bigode negro, uns olhos escancarados. Pérsio não estava lá. Estou bêbado, disse em voz baixa. Descobriu a mesa no canto, pediu licença ao homem solitário ao lado e sentou-se debruçado no balcão, olhando para baixo. Guardou os óculos no bolso para que se emaranhassem melhor os corpos, as formas, as cores, os gestos. Com os olhos fechados, depois, as serpentes coloridas voltavam a se revolver inquietas.
Não conseguiria lembrar ao certo. Talvez fosse verão, porque usavam roupas leves, calções largos, camisetas. Estava entardecendo, não fazia frio. Por alguma razão, tinham ficado os dois para trás, ele e aquele outro garoto esquisito, silencioso, esguio como um daqueles egípcios das gravuras no livro de história. Ele tinha uma bola de futebol embaixo de um dos braços. Caminhavam sobre um campo inclinado, tão inclinado que antes do topo, onde estavam, não conseguiriam ver o que viria depois. Havia outros, que já tinham ultrapassado aquele ponto. Ele queria chegar até aquele ponto onde estavam os outros, embora já o conhecesse, a tudo o que existia do outro lado, e só iria porque os outros tinham ido, como um dever que se cumpre. Mas havia também aquele garoto caminhando lento pouco mais atrás, descobrindo devagar entre os talos de grama coisas que ele não via. Foi ficando quase junto com ele, para trás também. Se desse mais alguns passos alcançaria o topo, então olhou para trás e o garoto tinha começado a rodar de braços abertos para depois cair estendido de costas no chão. Ao invés de avançar, começou a voltar em direção a ele, e percebeu que mastigava um talo de grama, e perguntou então qualquer coisa como se estava cansado ou tonto ou algo assim. Mas o outro disse que não, que só estava olhando o céu, que quando rodava daquele jeito o céu rodava junto, e quando finalmente caía de costas sobre a grama, o céu e a terra de repente se misturavam e na cabeça, disse, parecia que uma coisa de dentro ia para longe, para cima, para fora. Perguntou se ele não queria experimentar também, que era divertido. Ele achou estranho, no começo ele achou bastante estranho, o outro era um garoto estranho que fazia coisas estranhas, mas não havia ninguém em volta vendo, então jogou a bola na grama e rodou ele também de braços abertos cada vez mais rápido tanto e tanto que não conseguiu perceber o momento exato em que deixava de estar em pé e começava a tombar. O céu e a terra se misturavam enquanto ele já não era completamente ele mesmo, mas uma coisa que girava junto misturada também, deitado ali ao lado do outro na terra, enquanto a cabeça parecia flutuar um pouco acima do corpo. A tontura passava aos poucos feito um começo de porre, mas isso só saberia mais tarde, muitas vezes, quando você respira fundo ou sacode a cabeça, por enquanto não, porque era pouco mais que uma criança, o outro também, e não sabiam. Por enquanto sabia só que aquilo era estranho, estranho estar deitado na grama, o queixo apoiado na bola de futebol, descobrindo vidas miúdas entre os talos, mascava um, gosto adocicado entre os dentes. O rosto do outro muito perto com seus olhos claros que não eram egípcios, eram olhos de gato fixos, redondos, entre o verde, amarelo, e dizia então que não era igual aos outros, os que estavam do outro lado, que um dia iria embora para outra cidade, uma cidade grande, uma cidade imensa, para outras cidades de outros países, e viveria coisas tão inteiramente diferentes de todas aquelas vividas ali que nenhum de todos aqueles seria mais capaz de compreendê-lo, nunca mais. E que quando rodava assim, tudo se misturando, era como se sentisse naquela tarde o que sentiria no tempo futuro, quando todas as pessoas que tivesse conhecido e todos os lugares por onde teria andado e todas as coisas que teria vivido se misturassem dentro dele. E perguntou se ele não queria também partir um dia.
Afundou o queixo na bola de futebol e disse talvez, não conseguiria lembrar direito, talvez primeiro que não, que nunca tinha pensado nisso, depois que sim ou que gostaria, um pouco depois, ou que guardaria isso na cabeça para pensar mais tarde, quando chegasse em casa. Então o garoto esquisito como um egípcio levantou-se de um salto para recomeçar a rodar e a rodar de novo, o rosto erguido para o céu quase transparente de fim de tarde, até cair novamente no chão. Mas desta vez desequilibrou- se um pouco antes de tombar, rolando por cima dele. Que não se desviou, apenas levantou-se e rodou também e rodou de novo e rodou bastante até cair também um pouco por cima do outro, do esquisito. Então, ou antes ou depois, não lembraria, era tanto tempo e tanta história e muita estrada, o outro garoto perguntou se duas pessoas juntas não poderiam rodar assim para sempre juntas e quando os Outros olhassem com raiva porque rodavam assim, eles os veriam de um Outro jeito, daquele lugar para onde teria ido a cabeça, um pouco de cima, de longe, de fora, porque não seriam como eles, veriam juntos, os outros não os compreenderiam nunca, porque estavam misturados com o céu e a terra, talvez não os perdoassem. E tornaram a rodar mais vezes, o sol se pondo e talvez algum vento deixavam a grama liberar um perfume forte de coisa verde viva, e rodaram outra vez caindo um por cima do outro, rindo a cada choque, porque eram leves, os corpos se tocavam sem se machucar. E de repente rolavam juntos um sobre o outro para baixo no campo inclinado, na direção oposta das pessoas que tinham passado para o outro lado e quem sabe esperavam por eles. Porque era o que se esperava das outras pessoas, que passassem também para o outro lado, aqueles mesmos que diriam, se soubessem, para não se deterem assim no meio do caminho a procurar inutilidades na grama, no céu, no vento. Então rolaram e rolaram outra vez e tornaram a rolar, às vezes subindo com esforço pelo campo inclinado, os corpos se tocando mais, para depois baixarem mais velozmente, misturados um no outro. Tinham começado a suar, sujos de terra e muito vermelhos, e riam alto às gargalhadas rolando pelo campo afora. Não lembraria agora, não lembraria aqui nem naquele dia ou outro qualquer, pudesse avançar ou voltar, e não voltaria, não saberia precisar qual deles parou primeiro para olhar bem de perto o rosto do outro. Não saberia ainda se teriam sabido que eram rostos muitos moços, rostos que apenas tinham começado a deixar de ser crianças, imprecisos, traços não definidos, e alguns pêlos por nascer, outros formando sombras nas faces, espinhas, indecisões que desapareciam mais tarde ou se confirmariam em outros traços mais duros, mais suaves, mais pesados ou leves, não sabiam o que aconteceria, nem das marcas reservadas pelo tempo enorme como um tapete estendido na sua frente. Não saberia dizer qual das bocas avançou antes de outra para que se encontrassem vencendo o espaço molhadas, se misturando. Rolaram outra vez assim calados tontos suados ofegantes sem medo algum, porque eram leves e não tinham culpa, quase crianças, até que de longe cortando o momento longo do outro lado, do lado para onde todos os outros iam sempre e para onde eles deveriam ir também, se fossem como os outros, mas não iriam nunca mais, que era muito tarde, se não tivessem se detido por ali, no campo inclinado brincando tonturas, trazida pelo vento veio uma voz chamando por seus nomes três, quatro vezes, uma navalha interposta afiada entre dois objetos colados, rasgando o inseparável.
O contato morno na perna direita tinha subido desde o joelho, avançando pela coxa até deter-se móvel, circular, em sua braguilha. O ruído da voz, o silêncio do campo, o deslizar o zíper da calça sendo abaixado e dedos penetrando feito cobras quentes, um ninho contorcido de cobras lentas, afastando os panos, os pêlos, procurando. Bebeu mais um gole de conhaque e sem sentir, num gesto mecânico, tornou a colocar os óculos para ver as pessoas dançando lá embaixo. Os dedos no ritmo da música, cada vez mais acelerados, um calor que não sabia se vinha da bebida ou da proximidade do corpo do homem a seu lado, cada vez mais perto, embora olhasse para a frente, para baixo, os dedos alcançando a cabeça redonda de seu pau duro, depois um braço passado em torno de seus ombros quase timidamente, como se tivesse medo de ser afastado, pedindo desculpas, uns olhos de cão, viu sem olhar. Santiago abriu mais as pernas, deitou o corpo para trás na cadeira, lentamente cedendo, os dedos do homem se fechavam, moviam-se ritmados, para cima, para baixo. Foi quando começava a apoiar a nuca no encosto da cadeira que seus olhos descobriram inesperados os olhos de Pérsio dançando sozinho no meio das pessoas lá embaixo, voltados para ele, um jato de luz iluminando primeiro o rosto de um, depois o rosto do outro. Pérsio ergueu o copo sorrindo para ele.
- Desculpe - disse levantando-se.
O homem limitou-se a sacudir os ombros. Não importava, havia tantos. Tornou a descer, puxando o zíper, afastando corpos. Braços abertos, Pérsio o esperava no fim da escada. Mas Santiago pegou-o pelo braço estendido e começou a puxá-lo entre as pessoas, no caminho de volta em direção à saída. Uma folhagem densa, quase intransponível, em torno de um pântano, os outros homens, os rostos, os corpos, os muitos cheiros dos outros homens que afastava brusco com a mão feito cortasse cipós, plantas daninhas, até a porta onde pagou rápido procurando ar. Depois os bares, calçadas cobertas de cores e desejos, carros parados no meio da rua, motos, algumas frases, certos olhares, convites, palavras partidas, rapazes de braços cruzados, mãos entre as coxas, encostados na parede, travestis, policiais tolerantes entre o cheiro de porra e maconha - e como uma febre, no interior da folhagem densa, uma febre coletiva enchendo o ar de tremores, ardências delírios, malárias, dentes rangentes, promessas, convites, rostos distorcidos pelas luzes artificiais, as luzes cruas do mercúrio revelavam marcas fundas, da noite. Pararam perto do carro. A chuva tinha diminuído, pouco mais que uma garoa fria.
- Mas o que deu em você, cara?
- Quero ir embora. Você quer ficar?
Pérsio sacudiu a cabeça:
- Sozinho não. Não tem graça. - Estendeu-lhe a chave que tirou do bolso. - Pensei que eu é quem ia comandar a nossa noite. Ainda é cedo. Não são sem quatro. Podemos ainda dar um pulo no Triângulo das Bermudas.
- Eu te dou uma carona.
- Não precisa, é perto. Posso ir sozinho. Assim talvez consiga alguma companhia mais bem-humorada.
Santiago sorriu, imitando a voz do outro. Rouca, arrastada, irônica:
- God! Você não quer me ver fazendo uma cena passional em plena Terra de Marlboro, quer? E a minha reputação pro-fis-si-o-nal, onde fica? - Tocou-o de leve, os cabelos molhados de suor. - Vamos logo, senão daqui a pouco chega um bando de garotas monstras. Ou o que é pior, seu amigo Carlinhos e todo o coro do Édipo.
- Antígona - Pérsio corrigiu. E entrou no carro, tentando rir. - Ok., você venceu. Zero a zero, está empatada a peleja. Dura peleja, duríssimo embate, caros ouvintes.
Olhou para a frente enquanto Santiago limpava o vidro. O casarão antigo recém-pintado. As molduras das janelas cuidadosamente coloridas de azul-marinho brilhante, ressaltadas contra o branco do fundo, as vidraças lavradas com guirlandas de flores miudinhas. Era quando via casas assim, pensou, que sentia vontade de voltar para o Passo da Guanxuma. Quis dizer qualquer coisa sobre isso, vidraças assim. Mas já tinha dito fazia tempo, as casas morrem, e Santiago parecia não ouvir nem ver nada, uma sombra escurecendo o rosto onde Pérsio descobriu pela primeira vez a nítida beleza dos traços bem desenhados. Só que, repetiu devagar para dentro, não se conserta uma pessoa como se conserta uma casa. E de repente lembrou de alguém que não lembraria se ele o lembrasse um dia, porque talvez tivesse se perdido, sem permitir, repetindo, os olhos pretos, não se diz conserta quando se trata de uma coisa bonita, a gente diz re-cons-ti-tui, aprenda, e ele tinha respondido com palavras meio vazias, superficialmente brilhantes, convidativas, então vamos re-consti-tu-ir a nossa relação?, o outro dissera eu sabia que você ia dizer isso, e ele rápido mas claro, foi por isso mesmo que você disse, das dores cinzentas de tudo o que tinha se perdido essa era exatamente a que mais doía, porque não tinha sido capaz, e dependia dele? Ah, gemeu sem ninguém ouvir, ah, amor, ai, amores, e contaria todas as faltas de nobreza, sem nenhum esforço viria à tona mais claro depois do banho, um dia, e ficariam horas a fio sentados no sol quase insuportável de Saquarema, os pés descalços de um tocando os pés descalços do outro, mas já não poderia dizer que tinha sido tanto e quis lamentar-se, quis beber mais para chorar baixinho repetindo eu não mereço eu não mereço não me deram chance alguma a culpa não foi minha sempre a mesma solidão eu devia estar acostumado eu só queria e era tão simples, muitas vezes. Esta sangrava ainda, você compreende? Ele estava meio bêbado, não daquela vez, desta. Quando estava meio bêbado assim emergia, vinha à tona, mas não estava limpo, todo melado de emoções informuláveis, saudades impossíveis, tinha vontade de pedir que ficassem com ele, que o colocassem no colo, na cama, que lhe dessem chá ou leite quente e repetissem que tudo ia ficar bem, que amanhã haveria sol, e não teria ressaca nem precisaria trabalhar e todas as dívidas estariam saldadas e receberia todas as cartas, todos os telefonemas que esperava inutilmente havai meses, havia anos, uma vida inteira esperando o que não vinha.
Teve vontade de pedir a Santiago que ficasse com ele, mas a rua girava junto com o movimento do carro, a rua era dinâmica, aquela pedra suspensa sobre o mar, eu não vou esquecer, como as casas que envelheciam e ruíam, como as pessoas que chegavam e partiam para se perderem umas das outras entre viagens inconciliáveis, linhas paralelas, o infinito não existia, coisas sem importância, o que era um casarão antigo de repente tinha se tornado uma avenida, um estacionamento, e o que tinha sido uma presença morna se perdia à toa pelas ruas da cidade, pelas estradas que levavam a outras cidades distantes, a outros países, às vezes inatingíveis, pelos telefones que não voltavam a chamar, sem nenhuma explicação, porque era assim que as coisas eram, era assim que o que chamavam de vida, essa tontura que sentia agora evoluía em direção ao nada sobre uma esteira de perdas que não aceitava, de sonhos que não aconteciam, desejos espatifados, espelhos, pedras, cacos, fios dispersos no tear de um tapete incompreensível que as mãos vazias um dia talvez não se atrevessem mais a tecer.
O coração batia tão forte que por um segundo teve medo de que Santiago ouvisse. Então pensou em ligar o rádio outra vez bem alto, bem inadequado. Ou começar a falar sem parar, exagerando carências, até convencê-lo a pelo menos tomarem um café na esquina da São João, depois o flipperama, as colunas do cinema, a banca de jornal, os cartazes gigantescos dos cinemas, depois. Acendeu um cigarro, encostou a cabeça no vidro.
- Queria que fosse de manhã - Santiago repetiu.
- Então viria uma luz cinzenta, uma horrível luz cinza-clara. Cada vez mais clara. Então as pessoas se olhariam disfarçadas, para perceberem que estavam com olheiras fundas, a pele gasta, cansada, velha. Durante alguns momentos ficaria um silêncio pesado, você tentaria dizer alguma coisa, e perceberia que a sua voz está meio rouca porque você já fumou e já bebeu e já falou demais. Na melhor das hipóteses alguém proporia mais uma carreira gentilmente, mais uma carreira, caros sobreviventes do naufrágio do sentido? - Tragou fundo, soprou a fumaça em direção ao pára-brisa. - Não diria que foi uma noite especialmente brilhante não?
- As noites não são brilhantes. As manhãs sim. Por isso eu queria.
- Mas as manhãs são péssimas. Eu nunca vejo as manhãs. Eu sinto um humor nazista de manhã. - Pérsio fez um risco no vidro. Depois outro, cortando o primeiro, com um grande X. - Talvez seja esse o problema. Uma vida sem manhãs. Estranho é que não escolhi. Não consigo precisar o momento em que escolhi. Nem isso, nem qualquer outra coisa, nem nada. Foram me arrastando. Não houve aquele momento em que você pode decidir se vai em frente, se volta atrás, se vira à esquerda ou à direita. Se houve, eu não lembro. Tenho a impressão de que a vida, as coisas foram me levando. Levando em frente, levando embora, levando aos trancos, de qualquer jeito. Sem se importarem se eu não queria mais ir. Agora olho em volta e não tenho certeza se gostaria mesmo de estar aqui. Só sei que dentro de mim tem uma coisa pronta, esperando acontecer, O problema é que essa coisa talvez dependa de uma outra pessoa para começar a acontecer.
- Toque nela com cuidado - disse Santiago. - Senão ela foge.
- A coisa ou a pessoa?
- As duas.
Santiago tinha estacionado o carro em frente ao edifício. E respirava lento, feito um iogue. Isso era só o que Pérsio podia perceber olhando para ele, a cabeça apoiada no vidro. Os ombros do outro subiam e desciam como se tivesse corrido. Quando expulsava o ar, saía junto um pequeno jato de fumaça que batia contra o vidro.
No meio do silêncio, Pérsio teve a impressão de ouvir o coração de Santiago batendo batendo batendo tão forte quanto o dele, enquanto convidava:
- Você não quer descer um pouco? Você não quer tomar uma saideira?
- Já bebi demais.
Um relâmpago clareou o céu para os lados do Martinelli. Pagu, lembrou. Muito além.
- Não beberemos, então. Um chá, talvez? Quem sabe um café, um baseado? Vou te revelar um segredo, no fundo de uma caixinha secreta tenho ainda uma poeira dum papel dangerizante. Esquentando bem, batendo com cuidado, dá umas três carreiras para cada um.
Que subiriam juntos outra vez pelo elevador, acenderiam luzes, aqueceria a pedra de ágata ou o pequeno espelho, a gilete, a nota, colocaria um disco, talvez o mesmo, ou Ravel, gostava de Ravel nessas horas, o Bolero, tornaria a dançar, a dizer coisas como quando você estende a mão e pensa que vai tocá-lo, pronto: ele já não está mais ali. Falariam de coisas como essas novamente, ou de outras, se houvesse, e haveria, porque precisava desesperadamente falar e falar sem parar, para que não começasse a doer aquele ponto por dentro, à espera de que algo - ou alguém, seria alguém? - vindo de fora o tocasse para começar a acontecer, e aconteceria brilhante, iluminando ao redor, para que não latejasse tanto, chaga, ferida aberta, escondida feito úlcera, até que o cinza-claro do dia atravessasse cortinas e embora fosse domingo já não haveria tempo para mais nada porque teria amanhecido e quando amanhece, pensou, as pessoas fazem coisas prosaicas, caseiras, uma ilusão de ordem, feito escovar dentes, cabelos, bater travesseiros, ou no reverso alucinam-se falando e falando a um ponto de exaustão em que, no dia seguinte, como num lapso etílico, as grandes descobertas, as palavras incendiadas, as fantásticas sacações não passariam de manchas foscas quase apagadas.
Que não, de um Outro jeito, que não esse. Quis abraçá-lo de novo no meio da chuva, à beira do ridículo, na esquina. Mas as mãos de Santiago permaneciam cerradas em torno do volante. Ele respirava, o coração batia forte.
- Não - disse. - Melhor eu ir.
Pérsio abriu a porta.
- Você é que sabe. - Riu, de lado. No canto da boca, o vinco, marca funda, um talho. - Então o que digo? Me liga, está bem? Ou nos vemos. Ou pinta aí. O que você prefere? Quem sabe como foi moda em Ipanema há uns dois verões, tchau, su-ces-so, hein? Ou.
- Não precisa dizer nada. - Santiago estendeu a mão, segurou na mão dele. Acariciou a parte interna do pulso com a ponta do dedo. - Eu penso devagar. Não sei dizer coisas. Estou cansado. Preciso ficar só. A gente se vê. Até.
Pérsio desceu.
- A gente se vê é perfeito.
Jogou a ponta do cigarro numa poça d’água, foi andando para o edifício. Não se voltou quando ouviu o carro dar a partida. Atravessou o cheiro de éter da portaria, porteiro adormecido, tapete vermelho. No fundo do corredor, no espelho, a cara cansada que ele desviou abrindo a porta do elevador, Uma peça, pensou, uma peça teatral inteira passada no interior de um elevador enguiçado entre dois andares. Primeiro aqueles olhares paranóicos entre as pessoas, bem demorados, uns cinco ou dez minutos só de olhares e climas de elevador subindo ou baixando, pouco importa. Depois um dique, luzes apagadas, tudo parado. Nenhum grito. O elevador parou, ele desceu. Mas haveria um problema de espaço, um elevador é pouco maior que uma escrivaninha, uma banheira, imagine um palco apenas com aquele espaço iluminado, caberiam uns quatro, cinco atores. E não poderiam se movimentar. Só palavras soltas, movimentos presos, esboçados, entalados. Sem marcações.
Besteira, besteira, besteira, repetiu enfiando a chave na porta, fáceis realismos. Acendeu a luz, a sala grande demais, branca demais. Parado na porta, um impulso breve de voltar, tornar a descer pelo elevador, atravessar outra vez o tapete vermelho, sair para as ruas, não era longe, quatro, cinco quadras, um café na esquina, outra bebida talvez, uma cerveja, rebater todas, qualquer um, o primeiro, ao acaso, uni-duni-tê, como é seu nome, o que você faz, chupa-dá-come?, quanto você cobra, só da cintura para baixo, paraplegia às avessas, nada de beijos, lambeções, macho, sei, sei, examinar o volume apertado pelas calças justas como quem compra carne, talvez apalpar, mas quem garante que é de primeira?, depois esconder a carteira, a chave, o creme, a camisinha, a porra, a grana, pausa, banho, banho longo, trocar lençóis, Neocid nos pentelhos.
Fazia tempo, não tinha vontade. Atento apenas à coisa, ao ponto palpitante, pronto por dentro, redondo. Era redondo?, perguntaram. Era perfeito, responderam. To silencioso e remoto que quase não existia, ali à espera. Um toque, uma palavra mágica, um beijo no sapo, desencantaria. Redondo, aberto, perfeito. Pêssego maduro, os vermes rondavam, apodreceria logo se ninguém... Jogou o casaco sobre o sofá e chamou baixinho, sacudindo o quadro:
- Kay Kendall, onde está você, meu amor? Apareça: o prisioneiro da cela ao lado voltou da condicional. Está péssimo lá fora, meu bem.
Mas não aconteceu nada.
Mas não aconteceu nada, caminhando à toa pela sala enquanto recolocava os livros nas estantes. Pérsio, Santiago, lembrou, depois guardou os discos na capa um por um. Então apago a luz da sala, vou até o banheiro, examino a cara com desgosto e pena, principalmente pena, muita pena, descubro alguma marca nova, mijo, lavo o rosto, vou até a cozinha, uma maçã, talvez coma uma maçã, ponho um pouco de leite a ferver, uma colher de mel, um pouco de canela, isso, como a maçã enquanto o leite ferve, parabéns, muito saudável, jovem, apago a luz, entro no quarto, cubro a xícara de leite quente com o cinzeiro para não esfriar, tiro a roupa, ligo a televisão, procurando um filme com Audrey Hepburn, que saudade de Audrey Hepburn, sacudo os lençóis, desligo a televisão, Audrey nenhuma, peruas platinadas, dúzias delas, então deito, bebo devagar o leite pensando em escrever para minha mãe, em mudar de vida, de emprego, de cidade, de país, que vontade, querida mamãe, de ser feliz, de ter um grande amor bem limpinho, bem clarinho, um amor de manhã bem cedo, não diga nada a ninguém, não é preciso, mas cá-entre-nós-que-ninguém-nos-ouça, não vem dando muito certo, tenho tentado, juro, beijos no pai, que ele não saiba que estou ficando velho, não conte a tia Flora que perdi as ilusões, que já nem lembro mais, e encho o saco disso e apago a luz e durmo e sonho. Sonho um sonho muito vivo, colorido, sonho por exemplo que estou no meio de um gramado, de manhã bem cedo, um ar tão limpo que os pulmões chegam a doer um pouco quando você respira, há flores amarelas no meio do gramado verde, e brilham, eu respiro e respiro mais fundo e sei que bem perto dali existe uma cachoeira, minha flor das montanhas, posso ouvir o ruído das águas caindo, caminho em direção à cachoeira pelo meio do mato, tiro toda a roupa, não, não, eu estou nu, o sonho todo, desde o começo, eu sempre estive nu, então fico embaixo da cachoeira muito tempo, encostado numa pedra, deixo aquele jato de água fria limpa clara bater bem no alto da cabeça, o lótus em mil pétalas abertas abrindo, passa uma borboleta azul, bons presságios: eu penso, eu acredito, a água gelada continua batendo na cabeça, escorre pelo corpo todo, e vou entrando, o sonho é meu, numa espécie de êxtase, satori, nirvana, eu acredito, eu sigo acreditando, outra vez eu acredito, embaixo da cachoeira, eu não paro um segundo de acreditar porque tudo é vivo vibra brilha, meu corpo não se separa da água nem da pedra nem do céu que vejo entre as folhas.
Filho da puta, disse sozinho, eu nem falei de estrelas, Pérsio falaria o tempo todo de estrelas pulsares quasares anãs brancas buracos negros, apontaria constelações, se fosse possível ver constelações neste céu de merda, mostraria o céu, didático: ali um pouco acima de Scorpius, está vendo?, bem ali fica Lupus, e logo acima a grande constelação da Hydra, entre Lupus e Hydra está Centaurus, de onde eu pensei que tinha vindo um dia, você consegue ver?, traçaria com o dedo, acompanharia o desenho, aquela bem grande, aquela estrela imensa, tem vida lá na Alfa de Centaurus, se você puxar uma linha quase horizontal, levemente oblíqua, só levemente, para cima, encontrará também Canopus, teria sido lá?, e não importava, ouça, não é lindo Ca-no-pus-Ca-no-pus-Ca-no-pus-Ca-no-pus-Ca-no-pus-Ca, a água escorreria pelo corpo inteiro, cabeça, peito, pinto, pés, mas se fosse de manhã bem cedo não poderia apontar estrelas.
Acendeu Outro cigarro. Caminhou para a janela como se fosse olhar para fora. Mas não queria olhar para fora. Queria talvez olhar para dentro, dentro-e-fora, misturados, o céu sujo da cidade pregado na alma, se havia alma. Mas se era um sonho, repetiu, num sonho pode. Num sonho pode tudo. A água escorria da cachoeira no dia claro enquanto as constelações brilhavam sobre a cabeça entregue.
Filho da puta, filho da puta, filho da puta.
- Sentado no chão, as mãos nos pés. E todo aquele papo, todos aqueles toques, todos aqueles traumas, todos aqueles climas, todas aquelas cenas, tudo aquilo na noite feito um movimento vindo de fora para despertar o vivo de dentro, o vivo quieto, à espera apenas daquele justo toque exato - mas de quem foi o erro, o que é um erro? Teve vontade de rolar pelo tapete, cena dramática, altamente realista, em gemidos dilacerados, síndrome de abstinência, sabor mexicano, delirium tremens, fassbinderiano bater nas paredes, chorando em soluços arquejartes, em gemidos desmesurados, depois correr ao banheiro para vomitar vomitar vomitar sem vírgulas nem pausas: vomitar. Mas não sentia náusea alguma, nem ânsias melodramáticas, filmáveis, aplaudíveis, premiáveis, patrocináveis. Só uma coisa seca na garganta. Poeira, dusty answer. Lera em algum lugar que as glândulas lacrimais começam a secar com o passar do tempo, seria isso?, cada vez você chora menos, já não conseguia, lágrimas, venenos expulsos pelo organismo, quem chora menos vive menos, não chorarei então, que estava farto, que tinha acostumado ao prego, que tinha petrificado, estátua de sal, de plástico, descalçou os tênis, dançarás descalço, para sempre pela Terra de Marlboro e pela Terra do Nunca, até que te amputem esses pezinhos e, de muletas, te tiveres tornado outra vez Puro & Piedoso, Iluminado por uma Divina Chama Interior, que eram anos, nem horas, nem dias, nem meses, mas anos, não apenas um, dezenas, anos e anos de solidão, eu quero a alegria, rosnou, quero porque quero o princípio do prazer, não tornaria a ouvir o sax desesperado, o seco, porque não suportaria, sim, suportaria, suportarás, as pessoas suportam tudo, as pessoas às vezes procuram exatamente o que será capaz de doer ainda mais fundo, o verso justo, a música perfeita, o filme exato, punhaladas revirando um talho quase fechado, cada palavra, cada acorde, cada cena, até a dor esgotar-se autofágica, consumida em si mesma, transformada em outra coisa que não saberia dizer qual era, porque não chegara lá ou sim, que chegar lá não passava disso, aqui passando a mão no rosto, nos cabelos, alguns brancos poucos, bejo, como estás viejo, cuspiu o verso de Vallejo, o que morrera em Paris com aguaceiro, onde João lavava pratos, a carta da mãe, mas a mãe estava morta, autopiedade nojenta, quase não havia mais tempo, embora pudesse ainda repetir there will be time, there will be time ou acaso não fui cúmplice dos meus? desses vindos da noite ou stars open among the lilies, tanta literatura andando pelo apartamento vazio, a vida, fosse o que fosse era agora, a vida era já, a vida era aqui, e o aqui e o já e o agora não passavam de uma vontade de chorar sem lágrimas, de vomitar sem náusea, de trepar sem sexo, tantos versos, tantos planos ficados para trás, só os dias rodando sem parar, o de ontem gerando o de amanhã, trazendo sempre o mesmo gosto de café e cigarros, tocou o peito, que talvez já tivesse começado a apodrecer, a coisa secreta, o ponto escondido, sem ninguém tocá-la, mais um tempo e sentiria o fedor, os outros sentiriam o fedor de longe, quando o encontrassem sozinho pelas esquinas da noite, procurando a pedra de toque, o aleph, sephirot, em algum encontro que, se chegasse, chegaria tarde demais porque o verde novo começara a ceder à decomposição.
Não existe volta para quem escolheu o esquerdo.
Tirou a roupa aos poucos. Completamente nu, começou a girar de braços abertos no meio da sala. Remoto, então, como se viesse do apartamento ao lado ou de baixo, de cima - talvez o de Lavínia, a lasciva, lembrou querendo rir, mas não conseguiu -, o som da campainha cortou o movimento. Uma voz que chega de longe. Navalha, alfanje, cimitarra. A cabeça ainda girava no meio da tontura quando entreabriu a porta para ver Santiago parado no corredor, mãos nos bolsos.
- Resolveu aceitar aquele chá, Santiago?
- Eu não me chamo Santiago - ele disse.
Não afastou o corpo para que o outro entrasse, Mas ele entrou. Fechou a porta às suas costas. Estendeu as duas mãos. Tocou-o nos ombros. De frente.
- Eu também não me chamo Pérsio. Portanto não nos conhecemos. O que é que você quer?
Ele sorriu. Estendeu as mãos, tocou-o também. Vontade de pedir silêncio. Porque não seria necessária mais nenhuma palavra um segundo antes ou depois de dizerem ao mesmo tempo:
- Quero ficar com você.
Provaram um do outro no colo da manhã.
E viram que isso era bom.

São Paulo (Jardim América), 1980
Rio de Janeiro (Santa Teresa), 1983

Visto no: Sem Amor Só a Loucura

12 julho 2018



A complexidade de certos conceitos reside em sua simplicidade. A pansexualidade faz jus a esta máxima. No geral, quem se entende pansexual não se atrai apenas pelo gênero, orientação ou identidade do outro, mas por tudo isso e muito mais. É como se as categorias, que mais complicam a nossa vida do que facilitam, ruíssem, inúteis em suas próprias concepções, perdendo sua relevância sexual. É a pessoa revisitando sua humanidade através do desejo pelo outro que é apenas humano. Esse reencontro, porém, esbarra no tradicionalismo operante do qual nos impõe apenas o modelo heterossexual como sendo aprovável. Esse entrave veta outras experimentações sexuais ao colocar nossa sexualidade dentro de blocos rígidos. É por causa desse amontoamento de ideias castradoras que passamos a demonizar quem prefere trazer a público uma visão mais ampla acerca de suas práticas sexuais. Entretanto, ao não problematizar a pansexualidade, estamos impedindo uma maior compreensão daquilo que atribuímos como critérios atrativos para estar com alguém, para além dos impulsos sexuais.

Acima da questão hormonal envolta na química entre duas pessoas, há, sobretudo, uma pressão social latente, vigilante, exigindo de todos os encaixes voltados à procriação da espécie. Nenhum problema até aí, quando levamos em conta a nossa condição animalesca na natureza. Mas, estar sob este julgo natural não significa reduzir nossos estímulos sexuais às exigências reprodutivas. Ao se difundir isso, além de improdutivo, leva-nos ao fracasso de experimentações, que poderiam engrandecer nossas vidas sexuais, como também ampliar nossa sensibilidade para com aqueles que se permitem aventurar por outras águas, vistas por muitos de nós como intranquilas. A pansexualidade navega por esses mares revoltos do possível, permitindo aos seus adeptos não se tolher o direito de se aproximar, mais do que qualquer outro, de provar o que há de mais humano em nós, a diversidade. Por isso, ficamos assustados com essa prática, por medo de encontrar em nós uma brecha do tamanho o suficiente para saciar nossa curiosidade pelo outro.

Sem sombra de dúvidas, tememos também questionar as certezas destinadas aos nossos sentimentos quando encontramos a nossa “cara metade”. A regra social dita que ela tem a face oposta da nossa, mas nem sempre essa norma é seguida à risca. Há pessoas que são apaixonantes, atraentes, desejáveis, sensíveis ao nosso modo, compreensíveis, moldadas com as características das quais mais valorizamos. São quesitos interiores que ganham forma de gente e nos fazem ignorar aquele corpo a nossa frente, mero receptáculo de carne e osso. Repensando, chegamos à conclusão de que, ademais da representação visual, é o interior que nos conquista. É ele que se revela num olhar, num toque, numa conversa, numa breve respiração. Imperceptivelmente, somos seduzidos pela essência daquele outro, porém, muitas vezes não levamos a cabo a intensidade desse encontro, porque há toda uma pressão social observando nossas escolhas e punindo aquelas que desagradam a maioria. Ora, se é o âmago que sustenta as relações, porque ele precisa ser desse ou daquele gênero para ser legítimo?

Muito provavelmente porque sem essa anulação do sentimento alheio não haveria justificativa para legitimar o nosso, o qual, como já vimos, é regido mais pela regra do que pela emoção. Então, a pansexualidade desmorona esse conceito e diz ser possível gostar de alguém apenas porque é alguém, e não uma genitália ou um gênero determinado. Não somos porções de carnes disponíveis ao consumo. Somos gostos, emoções, desejos, marcas que podem, ou deveriam, estar sintonizadas a qualquer outro indivíduo, desde que os olhares moralizantes não nos impedissem de fazer outros arranjos sexuais. Limitados nesse âmbito, criamos a falsa ideia de que os pansexuais são promíscuos, muitas vezes para desviar o olhar leigo da massa para a real falha em voga: a de que estamos personificando os sentimentos dos nossos parceiros (as) a partir das categorias em que eles (as) foram colocados (as), e não por serem quem são, humanos. É o preconceito invalidando qualquer avanço discursivo capaz de proporcionar a nós a mais ínfima chance de evolução.

Outra tentativa comum é aproximar a pansexualidade da bissexualidade. Esta última, lamentavelmente, configura na lista entre as práticas transgressoras na visão dos mais conservadores, pois ainda é repercutido a ideia de que é impossível alguém se atrair por ambos os gêneros. Entretanto, não só é possível como já acontece na prática, mesmo que não assumidamente por muitos. Na fragilidade perfeita criada em torno da heterossexualidade, muitos indivíduos, inseridos neste grupo de privilegiados sociais, aventuram-se em transas, regulares ou ocasionais, com pessoas do mesmo sexo às escondidas, seja através da prostituição ou da manutenção de relacionamentos extraconjugais. São pessoas que se apresentam socialmente dentro da norma, mas se permitem ao risco tentador de provar o “fruto proibido”. A pansexualidade, além de distinta da bissexualidade, poderia ser a aliada ideal para tais indivíduos, imersos na clandestinidade das próprias pulsões sexuais, encontrassem as vias de fato dos seus desejos, sem percorrerem caminhos tão tortuosos para viverem as suas humanidades.

O que quero dizer é que não nos atraímos pelo o outro apenas porque suas características biológicas destoam das nossas. É bem mais que isso. Em muitos momentos, o íntimo alheio reflete em nosso interior, revelando sensações aprisionadas pelos preconceitos incutidos metodicamente pela sociedade por eras em nós. Então, perdidos nesse labirinto da sexualidade, só nos é apresentado um caminho, quando na verdade, no quesito sexual, há encruzilhadas de possibilidades. Ser pansexual é isso. Significa enveredar por essas trilhas onde no final qualquer forma de prazer será válida. Não se trata de banalizar o outro, o sexo, ou coisa assim. Mas de oportunizar a todos os envolvidos a chance de romper o casulo que nos impede de voar livremente pela sexualidade. Trata-se do necessário encontro com nossa humanidade, tão higienizada de mentiras consentidas e inverdades hipócritas, que de nada contribuem para o nosso crescimento sexual, apenas difundem mais intolerância. É a pansexualidade que sobreviverá quando todas as demais categorias perderem o sentido.

Até lá, em um modelo heteronormativo de relacionamento amoroso, qualquer enlace que fuja do tradicional homem + mulher será visto como algo desviante à norma. De cara, a homossexualidade será rapidamente lembrada por ser, talvez, a prática mais transgressora nesse sentido. Acontece que nem sempre os arranjos sexuais se encerram por aí. Há, por exemplo, indivíduos movidos por desejos claros tanto por homens quanto por mulheres, evidentemente sendo tão ou mais incompreendidos do que os homoafetivos. O nó ficará mais arrochado quando encontrarmos mais comumente pessoas afirmando que ser desse ou daquele gênero não é critério preponderante para alguém se tornar desejável aos seus olhos, mas sim o fato de ser uma pessoa. De fato, de tão simples, a pansexualidade perturbará todos aqueles presos àquele panorama fechado de relacionamento, mas, ao mesmo tempo, suscitará profundas questões sobre como nos envolvemos com o outro para além de suas genitálias.

A pansexualidade, que já é a vanguarda, se tornará nosso apelo ao humano.

11 julho 2018



Cada vez mais sabemos menos sobre masculinidades e feminilidades. O que nos chega ainda é muito raso, sentenças superficiais demais, incapazes de se aprofundar nessa questão. Porém, ainda se vende protótipos masculinos e femininos como regra. São modelos estanques de condutas, comportamentos, atributos físicos, que precisam ser reproduzidos para serem aceitos e, por fim, naturalizados pela sociedade. Caso alguém fuja à norma, as penalidades não tardarão a chegar. O interessante é que cada vez mais pessoas estão questionando essa cartilha de ser homem e mulher, trazendo à tona novas configurações de si, que de tão possíveis, já fazem parte da realidade social. É que a nossa existência não precisa ser igual a de todo mundo para ser ideal. Pelo visto, estamos aprendendo a idealizar nossa forma de existir através daquilo que mais nos representa, a nossa imagem.

Limitado pelo campo biológico, cuja categoria homem e mulher não assegura a permanência de um indivíduo dentro deste polo ao longo da vida, crescemos acreditando na ideia de que nossos órgãos sexuais irão determinar a forma como nos manifestaremos na sociedade. Essa cobrança, evidentemente, se dá através de uma educação indiscutivelmente sexista, responsável por enquadrar meninos e meninas em agrupamentos distintos para fazer valer aquilo que lhes foi dado pela natureza. Entretanto, mais fortes que a herança biológica são as interações sociais. Nelas, percebemos que existem diversas formas de ser homem e mulher sem necessariamente desonrar nossas genitálias. É só entendermos que nossas áreas sexuais cumprem funções especificamente biológicas, mas são incapazes de nos definir por completo.

Do ponto de vista dos relacionamentos, entender isso é um ganho gigantesco. Por exemplo, a ideia de virilidade destinada aos homens está intimamente relacionada ao pênis, sobretudo se levarmos em conta que vivemos numa sociedade falocêntrica. Em contrapartida, há homens que não são tão viris, mas são homens, muitas vezes héteros sexuais, e que sofrem por não se enquadrar no perfil masculinizado esperado pela sociedade. Com mulheres ocorre o mesmo. Desde o nascimento, ao diferenciá-la do sexo oposto com um brinco, estamos impondo um modelo de feminilidade que pode não ser aquele desejado por ela ao longo da vida. Porém, encaixotamos precocemente nossas crianças em práticas, cores, regras e ações tipicamente sexistas, as quais podem, e vão, resvalar em perfis sexuais adultos estratificados.

O quesito empatia é o mais penalizado nesse sentido. Isto porque, quando não se apresenta à sociedade masculinidades e feminilidades, mas o singular dessas instâncias, isso interfere no entendimento daquelas pessoas que têm suas ramificações de gênero distintas da “normalidade”. É o que acontece, por exemplo, com as travestis, transexuais, Drag Queen’s, Transformistas, Queer’s, dentre outras expressões de gênero e/ou artísticas ainda desconhecidas do grande público. Nem precisa tanto, basta mudanças sutis nos comportamentos vistos como de homem e de mulher para que o desrespeito se faça presente. Sem uma educação conscientizadora, continuamos a oprimir todo aquele que ousar transgredir as masculinidades e feminilidades definidas como corretas. Se não há uma discussão em torno dessa pluralidade, não haverá avanço. Pelo contrário, é justamente os preconceitos que progridem frente a esta realidade.

Diante disso, não há um único ideal de masculino e feminino. Somos plurais. Nossas masculinidades e feminilidades precisam estar alinhadas à diversidade humana. Ignorar isso é uma afronta a nossa natureza, um desrespeito aos nossos corpos e mentes e um erro, sobretudo quando impomos nossas vontades sobre aqueles que corajosamente enfrentam a sociedade como são. Tão pouco é pecaminoso, abominação, fraqueza, ou qualquer outro enunciado preconceituoso, ser diferente dos demais. Apenas é uma prova do quão frágil é essa ideia de que homens e mulheres precisam ser diferentes porque Deus quis assim, ou a genética determinou cromossomicamente. Somos, antes de tudo, seres sociais, sujeitos a mudanças profundas, experimentações, possibilidades, fases das quais precisamos passar até chegar a ilusória ideia de completude. Uns se contentam em seguir a maioria, outros precisam de algo a mais, e não há nada de errado em ambos. São alternativas válidas, que podem ou não estar relacionadas com os nossos desejos, mas, antes de tudo, fazem parte dos nossos anseios, daquilo que enxergamos ser.

Há tempos os perfis masculinos e femininos são insuficientes para definir o que somos. Por mais persistentes que sejam os mais conservadores em nos limitar às genitálias, a verdade é que estamos rapidamente burlando aquela norma imutável de que nossas representações sexuais precisam estar correlacionadas com pênis ou uma vagina. Não necessariamente. É bem possível ultrapassar esses limites e experienciar outras expressões de gênero, e de sexualidade, possíveis. Até lá qualquer configuração pessoal é permitida. Ninguém é em totalidade masculino e feminino mesmo. Somos empurrados ao longo da vida para um desses lados como forma de conceituação, mas isso não significa que precisamos estar lá para sempre. É possível e é preciso rebelar-se, deixar-se escapar, desconstruir a tacanha visão em torno dos gêneros e lançar um olhar mais profundo para essa questão. Não se trata de abandonar o que se entende por masculino e feminino, mas ampliá-lo, ressignificá-lo. Além da tolerância, o que vale é ter imaginação. Feito isso, quem sabe até as masculinidades e feminilidades passem a ser insuficientes, e passemos a nos ver como masculinos e femininos dentro de um só ser.

O futuro é andrógino.

10 julho 2018



Podem dizer o que quiser do novo clipe do Nego do Borel. Todas as críticas negativas são bem vindas, sobretudo levando em conta o histórico do cantor e o oportunismo do momento em que o vídeo foi lançado. Porém, o título do hit nunca foi tão apropriado. É digno, inclusive, de se tornar tema das próximas paradas LGBT’s pelo Brasil, (fica a dica). Mas, por hora, é de grande serventia para discutir questões delicadas para muitos de nós na sociedade, como representatividade, conquistas das minorias, expressão de gênero e o cinismo por trás de algumas ações ditas inclusivas.

Eu sou um dos que apoiam a necessidade de se representar mais fidedignamente na TV, e nas mídias digitais, a realidade LGBT nas periferias brasileiras, longe desse padrão novelesco cuja apresentação gay se dá em dois polos bem dispares. De um lado, o gay branco, rico, ou de família classe média, masculinizado e de perfil estético aceitável. Enquanto do outro, a caricatura afeminada em torno da homossexualidade. De fato, os dois perfis existem e são válidos, mas não são os únicos. Faltam, sobretudo, outras representações gays que ainda não chegaram às pautas problematizadoras do grande público como se deveria.

Logo, quando um artista se predispõe a quebrar esse tabu é, no mínimo, auspicioso. Denota uma clara mudança de paradigma, ainda mais se partir de alguém que reconheça suas vantagens perante uma sociedade claramente machista. Porém, no caso do Nego do Borel, a patética caracterização de um gay periférico nada mais é do que uma atitude fake oriunda da sordidez da qual passamos a ser vítimas. Não basta ignorar os nossos direitos, é preciso agora se aproveitar deles para ganhar visualizações e ampliar a agenda de shows. Pelo visto, caímos nas graças do capitalismo, mas continuamos a ser motivo de chacota.

Presos a esse modelo de sociedade que nos ridiculariza, buscamos a todo custo maior visibilidade. E conseguimos. Temos hoje grandes artistas assumidamente LGBT’s ganhando cada vez mais espaço, embora ainda haja muita resistência e desinformação do público em lidar com essas novas faces artísticas. Evidentemente que esse ganho não passaria despercebido pelos usurpadores, aqueles que se aproveitam do período para fazer a linha bom samaritano frente ao resto da população. Nego do Borel pelo visto faz parte desse grupo. Seu clipe, confuso e espalhafatoso, mostra a picaretice brasileira em se aproveitar de pautas desconhecidas para engrandecimento pessoal.

Provavelmente, o apoio dado por ele ao presidenciável Jair Bolsonaro esteja por trás da infeliz produção daquele clipe. Não há nada mais político do que se apropriar de plataformas atuais para angariar votos, haja vista que há muitos gays dispostos a votar naquele candidato, mesmo ele tendo demonstrado uma postura claramente homofóbica. Com base nisso, trazer um cantor machão, travestido exageradamente e beijando um cara bonitão em um clipe de funk na periferia, é um artifício infalível para ludibriar a massa. Um belo pretexto para se conseguir mais eleitores para aquele senhor. Felizmente, as nossas dores diárias não nos deixam cair nessas deprimentes tentativas de representação, incapazes de conceituar os dilemas dos quais estamos inseridos.

Na verdade, o clipe apenas mostra o quanto não levamos a sério as expressões de gênero das pessoas. É um desrespeito as travestis, aos transexuais, transformistas, Drag Queen’s, e todos aqueles que, identitário ou artisticamente, incorporam outras facetas possíveis de existir sem necessariamente estar preso as masculinidades e feminilidades previstas pela nossa sociedade conservadora. Mostra também a falta de sensibilidade para com esses indivíduos, que não se encaixam nos moldes pré-definidos, e são muitas vezes punidos severamente por externar para o mundo suas representações pessoais fora do “comum.”

Todavia, de todas essas falhas, o cinismo é, para mim, o mais imperdoável. Veste-se o manto do politicamente correto para sair bem na fita, neste caso, no vídeo. Inescrupulosamente, subestima nossa inteligência uma produção toda construída para criar uma frágil ideia de inclusão, quando na verdade está é dificultando a necessária discussão em torno da realidade LGBT no Brasil. Além, é claro, de incentivar outros artistas, tão sórdidos quanto, a se aproveitar da boa fase de aceitação dos gays para fazer clipes, novelas, séries, filmes, propagandas publicitárias, discursos, toda uma sorte de programação voltada ao mero capricho do consumo e despreocupada com a reeducação social.

Sei que é difícil largar certos costumes impregnados em nossa cultura conservadora. Por essa razão, há tantas práticas preconceituosas ainda naturalizadas pela sociedade, porque aprendemos desde sempre a tratar com desdém determinadas pessoas apenas por elas não se encaixarem no que é visto como padrão. Então, seguimos a levada de preconceituosos que, vez ou outra, se escondem atrás da máscara do politicamente correto para encobrir suas reais faces. Entretanto, uma vez descobertos, precisamos escancarar suas verdadeiras feições, e intenções, para todos, evitando que outros sigam seus exemplos e tentem banalizar os problemas vividos por aqueles que ainda vivem à margem da sociedade.

Por essas razões, é você que tem que nos soltar, Nego do Borel. Você e toda essa sociedade machista/conservadora/homofóbica, que nos aprisiona. Tire suas mãos de nós. Não lhe demos o direito de nos representar dessa maneira tão leviana, tão pouco de nos expor mais do que já estamos expostos. Você não sabe o que é ser hostilizado na rua por fugir do padrão macho alfa e fêmea gama. Desconhece nossas identidades e a dificuldade que temos de construí-las nessa sociedade sexista. Não tem nenhuma autonomia para entoar nosso lugar de fala, quando é muitos vezes a sua classe que nos emudece. Aliás, é justamente o seu favoritismo o responsável por nos tolher o direito de mostrar nossas verdadeiras caras em público.

Essa tolice criada pelo patriarcado de modelar homens e mulheres não nos abandona. Mas, sua imagem pública deveria ser a chave para libertar muitos fãs seus acorrentados pelo machismo do qual você e muitos ainda se beneficiam. No entanto, fazer um clipe travestido de mulher e beijando um boy magia não é o bastante. Era preciso, antes de tudo, ter usado o seu privilégio de ser heterossexual para lutar em prol daqueles que têm suas demonstrações sexuais punidas pela sociedade. Existem boas iniciativas que você poderia ter feito, sem ter que apelar para o ridículo e questionar a nossa sagacidade. Porém, além de você, muitos outros artistas não querem correr o risco de se aliar verdadeiramente às pautas LGBT’s.

É uma pena. Lembraremos de todos eles. E, quando precisarem de nós, diremos categoricamente: Nos soltem! 

Quero ver quem vai sair perdendo.

23 junho 2018



Não precisa ser fã de futebol para ser bombardeado pela cobertura massiva dada pelos veículos de comunicação nacional. Quando não são estes, uma breve olhadela nas ruas mostra a mudança clara na rotina dos brasileiros na tão esperada Copa do Mundo de Futebol. Para fins de entretenimento, é plausível tamanha mudança comportamental, visto que o Brasil tem longo histórico de vitórias nessa competição, além de ser aclamado mundo a fora por seus feitos nessa área. Em 2018, porém, possivelmente o país do futebol, dos craques multibilionários, dos torcedores apaixonados, ficaremos conhecidos também como o país que exporta preconceitos já conhecidos pela nação. Entoados com o mesmo orgulho quanto os versos que embalam o hino nacional, tais violências não se restringem ao campo da fala, mas representam toda uma cultura, que pode até perder a taça de campeã mundial, porém já está consolidada no pódio entre as nações mais intolerantes do mundo.

O episódio com a repórter russa deu o ponta pé inicial para a vexatória realidade vivida por muitas mulheres no território brasileiro: a banalização do assédio. Esta que surge do preconceito que se tem em torno da liberdade sexual feminina, ainda aprisionada por conservadorismos do sexo dominante, o masculino, o qual dita regras imutáveis sobre os comportamentos sexuais das mulheres. Fora de campo, elas são privadas de sentir prazer, de falar acerca de, tão pouco militar abertamente sobre essas lacunas sem serem hostilizadas por isso. Cientes dessas limitações, o Brasil objetifica o seu corpo a belprazer, seja exportando o modelo apelativo negra-seminua-globeleza como “símbolo nacional”, seja invadindo o espaço de mulheres estrangeiras para reafirmar a ignorância tolerada aqui. Por essa razão, homens brancos, cisgêneros e elitistas não viram problema em gravar um vídeo assediando aquela jornalista em um país estrangeiro, já que em seu território, os perfis sociais ocupados por eles lhes garantem plena liberdade de abusar de mulheres, muitas vezes fora do âmbito da linguagem.

Antes de iniciar a Copa, porém, é preciso lembrar que os campos futebolísticos são os cenários preferidos pela sociedade para escancarar seus preconceitos ancestrais. Embalados pela ânsia da vitória, torcedores não se intimidam em discriminar outros torcedores, atletas e pessoas importantes no cenário nacional. Os casos de racismo são um exemplo disso. De bananas jogadas no campo a piadas grosseiras destinadas a jogadores negros, muitos foram os casos em que a cor de pele foi usada como recurso discriminatório. Também entram na lista condutas homofóbicas, como a vivida pelo jogador Richarlyson, talvez o único atleta desse esporte de “machos alpha” a assumir publicamente sua homossexualidade. De quebra, não poderia ficar de fora as ofensas de cunho machista voltadas a nossa ex-presidenta Dilma Rousseff, ao longo do famigerado golpe do qual todos hoje somos vítimas. Nos diversos jogos da seleção, brasileiros abastados, brancos e autodenominados heterossexuais, faziam da arquibancada sua tribuna onde esses e outros preconceitos eram repetidas vezes proferidos sem receberem as devidas punições.

Em comum, essas ações violentas destoam da atmosfera integradora que compõe a Copa do Mundo. O que se espera de um mundial assim é respeito, aceitação, tolerância, palavras não assimiladas por muitos brasileiros porque não foram, e ainda não são, devidamente ensinadas. O que é repassado aqui é oposto disso, encorajando muitos indivíduos a levar em suas bagagens os sentimentos mais odiosos para além mar. Da mesma forma, é vergonhoso ver o nosso país, um dos mais prestigiados no quesito futebol, ser o protagonista de episódios como aquele da repórter russa e também de outros, como o vídeo viral do qual um outro brasileiro pede para crianças russas falarem palavrões e frases de cunho sexual direcionadas a Neymar. Percebemos, portanto, que os xingamentos até aqui tem a finalidade de validar toda uma construção histórico-social voltada a inferiorizar as minorias, uma conduta por si só incoerente, pois muitos dos ídolos futebolísticos emergiram das realidades malogradas por esses torcedores.

Felizmente, a internet não tem deixado impune as ações de muitos preconceituosos. Caso escapem das punições legais, o povo trata rapidamente de sentenciá-los à condenação em meio a atmosfera politicamente correta em que vivemos. Isso já é muita coisa, mostra o quão inconiventes somos com posturas discriminatórias, pelo menos em tese. Entretanto, a prática precisa ser reavaliada. O que vemos dentro ou fora dos campos de futebol, dos terrenos de brejo aos estádios colossais da Copa do Mundo, precisa ser revisto. Um país totalmente voltado a uma supervalorização futebolística desalinhada dos ideais educacionais, tão caros à formação do torcedor consciente, perde pontos preciosos na corrida rumo ao tão sonhado hexa. Na verdade, somar taças de campeão mundial em meio as vergonhosas demonstrações de desrespeito vividas nessa copa não deveriam ser motivo de orgulho para nação, mas um ponto de inflexão a respeito daquilo que estamos exportando para o mundo, além de ostentar títulos quando o país vive em um verdadeiro atraso humanitário.

Perdemos também quando não assumimos o quão preconceituosos somos. Independente da Copa do Mundo, o Brasil foi construído a partir do alicerce da segregação e ainda hoje vive sustentado por essa base. Então, quando o Ministro dos Esportes diz que os rapazes que assediaram a russa “não nos representam” está incorrendo pela dissimulação dos fatos. Somos sim preconceituosos, intolerantes, desrespeitosos, para com os grupos minoritários e eventos mundiais esportivos como a Copa, voltados a legitimar os grupos dominantes, só reforça essa ideia. Assim, o torcedor, o qual deveria ir a campo munido de humanidade suficiente para torcer pelo seu time sem recorrer aos preconceitos sociais como válvula de escape, faz justamente o contrário porque essa foi a forma do qual ele foi moldado. Dessa maneira, mal resolvido no campo das sexualidades e no respeito às diferenças, a sociedade bate um bolão de idolatria verde-amarela nesse período e mostra a inesgotável fonte distorcida de seu patriotismo à brasileira eivado de ódio.

Para uma cultura claramente elitista/machista/racista/homofóbica como a nossa, usar da linguagem para depreciar o outro representa o tamanho do fosso criado por um processo histórico-político-educacional voltado a legitimar condutas preconceituosas ao invés de problematizá-las e, por fim, extirpá-las da sociedade. Abismo este que se aprofunda no interior de cada brasileiro educacionalmente despreparado para lidar com a diversidade. Então, o que deveria ser banido, passa a ser corriqueiro, levando ao mundo uma face deplorável de um país visto como pacífico, quando, em seu íntimo, é profundamente violento. Por isso, aqueles brasileiros lamentavelmente nos representam, pois todos nós temos nossa parcela de culpa nesses casos, por naturalizar aquele tipo de violência dentro ou fora de campo; por não problematizar de fato as questões caras aos grupos minoritários; por torcer a cara para suas lutas, reivindicações e dilemas; e, sobretudo, por não somar forças em suas pautas políticas-sociais e legais. Então, conscientes ou não, estamos exportando preconceitos, mas não tem importância. 

O que vale é ser hexa!

OS GRITOS DE “buceta rosa” – dados por seis brasileiros que assediavamuma mulher na Rússia – ainda ressoavam por aqui quando 14 conterrâneos cercaram uma jornalista para cantar: “chupar xoxota é uma coisa linda”. Para eles, não havia vergonha alguma em abordar publicamente e filmar mulheres que não os entendiam para falar de suas bucetas.
No entanto, a mesma palavra, proferida com orgulho viril nos assédios, não soou tão natural aos ouvidos masculinos quando deu nome a um oficina sobre saúde sexual feminina, um mês antes, intitulada Empoderamento de Buceta.
Em maio, a ginecologista Andrea Rufino mediou o evento, realizado na Universidade Federal do Piauí. Andrea foi atacada com insultos como “médica vagabunda” e “doente”. Usada por mulheres que desejavam aprender sobre sua sexualidade, e não mais por homens que sexualizavam forçosamente suas interlocutoras, buceta não era uma palavra. Era um afronte.
O correto seria usar palavras “mais amenas”, opinou um dos descontentes. Aceitável apenas quando objeto de desejo e domínio masculino, buceta deveria se transfigurar em vagina, termo desprovido de luxúria, neutro, científico. Monopólio dos homens, buceta não pode pertencer às mulheres. Os números revelam o desconforto delas com seus corpos e a pressão que sentem para satisfazer aos homens. Em 2015, uma pesquisa da revista americana Cosmopolitan mostrou que quase sete de cada dez mulheres já fingiram um orgasmo, em sua maioria para agradar o parceiro ou terminar logo a transa. Ao mesmo tempo, no Brasil, um estudo do Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo mostrou que 40% das mulheres não se masturbam.
Fora dos consultórios e eventos médicos, nem a gêmea casta da buceta foge à estranheza. Há menos de três meses, a versão em quadrinhos do Diário de Anne Frank foi censurada em uma escola do Espírito Santo por conter a palavra “vagina”. O termo deixou alguns pais transtornados, ainda que a leitura fosse dirigida a alunos do 7º ano – apenas uma série anterior àquela em que, em geral, os adolescentes aprendem sobre a anatomia humana.
Constrangida pela profanidade da buceta, a imprensa se desdobrou para contornar o termo ao noticiar os casos de assédio na Copa do Mundo. Na Folha de São Paulo, lia-se: “a cor de seu sexo”. O Globo, assim como o Ig, preferiu escrever “o órgão sexual”. O portal R7, relatando outro caso, recorreu ao uso de asteriscos para citar a frase que brasileiros instruíram uma russa a repetir: “Eu quero dar a b****a para vocês”. Enquanto isso, bastava um clique para ouvir os agressores repetirem, aos berros, a palavra que ninguém ousava repetir.
Buceta, pelo visto, só tem vez na boca dos homens – figurativamente, é claro. Segundo pesquisa da empresa Sex Wipes, 43% dos homens não gostam de fazer sexo oral nas parceiras.


Nunca se problematizou tanto as questões sociais quanto na atual realidade brasileira. Sem dúvidas, essa mudança está intimamente ligada ao acesso praticamente irrestrito à internet, bem como às redes sociais, aos aplicativos e as discussões fecundas originadas dentro desses espaços que moldam a vida moderna. Assim, debates relevantes são levantados na rede, pautas são construídas, inquietações são compartilhadas, levando ao grande público pendências antes restritas às mesas acadêmicas. Confundindo-se muitas vezes com o politicamente correto, as novas e antigas militâncias sociais não buscam apenas ressiginificar certas visões estereotipadas dos grupos desfavorecidos, mas também e, sobretudo, emancipa-los através de suas identidades; assegurando-lhes a autonomia para coexistir em meio a uma sociedade historicamente excludente. O problema, porém, reside na recepção dada aos militantes, que em conjunto ou individualmente, lutam para validar suas demandas frente a uma atmosfera social desestimulada a reivindicar.

A importância de se militar sobre algo parece óbvia quando se trata do Brasil, visto que as disparidades existentes por aqui criam a ambientação propícia às diversas reivindicações. Basta analisar a disparidade entre sexos, sobretudo na questão salarial, na aquisição de cargos de poder e na violência de gênero; verificar a intolerância frente às facetas da sexualidade humana, sobretudo quando foge do padrão “família tradicional brasileira”; além da hipócrita perseguição vindoura ao povo negro, suas raízes, ancestralidades e legado. Para uma minoria privilegiada, talvez seja difícil compreender tal processo de empoderamento nestes e noutros grupos. Isto se dá, porque é justamente a ideia de harmonia social que é vendida e facilmente comprada pela maioria, ignorando recortes de sexo, gênero, raça, identidade, classe e posição social, categorias que por si só já são excludentes. Então, a militância surge para problematizar estas questões, ao passo que aprofunda o debate em torno da premissa falaciosa cuja intenção é fazer a sociedade crer numa equiparidade de direitos, que na prática só é acessível aos grupos dominantes.

Militar é, nesse sentido, dar visibilidade aos invisibilizados e fazê-los enxergar a sociedade a partir de uma óptica, que apesar de cruel, é passível de ser transformada. Por essa razão, não é possível militar no singular. Esta palavra carrega uma ânsia por inclusão. Logo, seria egoísmo e insuficiente agrupar todas as lutas dentro de um único vocábulo. Assim, as militâncias se pluralizam porque representam as carências especificas de grupos com pouca ou nenhuma representatividade. Marcha das vadias, Parada LGBT, Movimento negro, são alguns dos exemplos. Dentro de cada um deles, todavia, há diversas outras ramificações focadas em atender aos anseios urgentes de indivíduos necessitados de recortes mais detalhados para as suas lutas. É aí onde o politicamente correto se (con)funde com a militância. Por acreditar ser o bastante existir agrupamentos reivindicatórios específicos, a sociedade trata com desdém a aparição de subgrupos, pois entende ser desnecessário e, às vezes, até contraprodutivo fatiar tanto as pautas existentes.

De fato, falta unicidade em muitas militâncias, o que prejudica a disseminação de suas queixas, bem como a credibilidade de suas lutas. Entretanto, a falta de empatia social nesse sentido se baseia na quase total ausência de incentivo educacional à defesa de causas urgentes para a sociedade. O que há é uma educação cada vez mais tecnicista, voltada a realização de tarefas das quais o automatismo se sobressai do pensamento crítico da realidade. Imersos nessa pedagogia servil, muitos não encontram tempo, nem razão, para participar de levantes sociais, tão pouco legitimar suas existências, pois não foram orientados a se enxergar naquele panorama, logo, ignoram suas pautas. Dessa forma, muitos indivíduos preferem se aliar aos discursos dominantes do que se arriscar a colaborar com pactos dos quais não foram devidamente inteirados a firmar.

A relação com a política é outro ponto responsável por afugentar muitas pessoas de aderirem certas militâncias. Entendida como um ato político mas nem sempre associado à politicagem, militar é, sobretudo, uma forma de empoderamento a partir do instante em que a pessoa se percebe excluída do seio social e usa sua realidade como plataforma de inclusão pessoal e incentivo aos demais a sua volta a insurgirem-se contra o sistema. Ou seja, por mais que haja intervenção partidária em alguns segmentos militantes, o que é passível de discussão, isso não limita o campo de cobrança, fazendo com que cada um busque se empoderar como protagonista de dilemas geralmente caros a outras pessoas. Trata-se de ecoar o lugar de fala o qual costuma ser silenciado pela retórica predominante no país. Militar é garantir que as vozes dos emudecidos passem a ser ouvidas e, uma vez audíveis, reverberem junto aqueles que negligenciaram ferozmente suas lutas.

As maneiras de se fazer isso são inúmeras. Vão da estética, assumindo cabeleiras, perfis corporais, vestimentas e posturas identitárias particulares, até ações comportamentais vistas como complexas, como beijo, andar de braços dados, gestos simples mas hostilizados por quem faz parte do padrão de relacionamento “aceitável”. Como também ao encontro da valorização de direitos negados pela perseguição da cor e tudo aquilo oriundo dessa lacuna no percurso histórico que construiu no Brasil a ideia de que há seres superiores e inferiores de acordo com o seu tom de pele, mesmo que isso não seja admitido pela maioria. Diante disso, militar permite a muitos indivíduos a chance de se emancipar ideologicamente frente ao modelo reinante cuja característica principal é normatizar certos rótulos vistos como destoantes daquilo que se atribuiu como tolerável. É uma afronta necessária. Além disso, quando se legitima a existência de uma dada pessoa, por mais subversiva que ela pareça, encoraja-se outras a se afirmarem formando, assim, novos coletivos.

É disso que as militâncias tratam, de transfigurar o corpo humano em um registro único, mas que pode ser percebido através de outros com necessidades semelhantes. Militar é documentar essas matérias humanitárias vilipendiadas pelas réplicas tidas como perfeitas pelo seio social. Por isso que, para muitos, essa exigência se torna abstrata, pois, além do total desconhecimento sobre a pluralidade do outro, o que resvala em antipatia, há também a caracterização do outrem a partir daquilo que é esperado pela maioria. Logo, quando alguém transgrede essa linha de montagem deslegitima-se suas existências. São essas barricadas fincadas profundamente na sociedade que impedem o avanço de discussões tão pertinentes a tantos grupos minoritários, que vão às ruas, às redes, militar por suas realidades negligenciadas. É preciso ocupar os espaços dantes privados aos majoritários para bradar todos os inconformismos presos na garganta. Isso significa resgatar os lugares de fala privados desses grupos, muito embora vejam nisso uma atitude politicamente correta em demasia. Porém, trata-se de uma vitória por vez, paulatina, mas significativa daqueles que sozinhos ou agrupados militam em prol de tantas individualidades esquecidas.   

Pelo menos três vídeos de brasileiros assediando mulheres durante a Copa do Mundo Masculina da FIFA de 2018 viralizaram na última semana. Fosse um evento isolado, seria possível pensar em tolerar o argumento de que foi apenas uma “brincadeira em má hora” ou uma graça “que saiu dos limites”. A similaridade entre as condutas de agentes independentes, porém, coloca a lógica a favor das feministas: existe uma forte questão estrutural que une e explica esses eventos.
Para começo de conversa, é preciso reconhecer que a Copa do Mundo e os eventos esportivos em geral seguem marcados por uma desequilibrada masculinidade. Não são poucas as denúncias do machismo nas mais diversas modalidades: desde os casos de assédio sexual na ginástica e na natação, nos Estados Unidos e no Brasil, passando pelo caso das interrupções compulsórias de carreira por conta da maternidade no vôlei brasileiro, chegando no presente da ainda imensa desvalorização da Copa do Mundo de Futebol Feminino – que existe, pasmem, desde 1991 e já teve 7 edições!
É claro que o Mundial de Futebol Masculino é um evento importante para a população brasileira, e não podemos fazer críticas descoladas que invalidem por completo sua potencialidade de fortalecer laços e criar orgulho popular. Entretanto, e isso não pode deixar de ser dito, a Copa do Mundo Masculina é um evento organizado por homens para homens, no qual reina soberano o ideal hegemônico de masculinidade: pautado pela competição, pela exaltação da superioridade, necessidade constante de afirmação, humilhação, agressividade e silenciamento entre os homens e dos homens contra as mulheres.
Assim como um evento não é essencialmente bom ou mau, também não advogamos pela ideia de que os homens sejam natural e biologicamente violentos. Nada é natural. O que acontece é que uma masculinidade passa a ser tóxica ao reproduzir uma construção histórica do masculino superior e dono do mundo, especialmente na figura dos homens heterossexuais, brancos e economicamente dominantes – exatamente o perfil dos homens que estão assediando as mulheres russas, o que não nos surpreende.
Um dos traços da masculinidade dominante – a do Self-MadeMen – é a necessidade de se provar constantemente na esfera pública. Entretanto, após uma prova é necessário realizar outra e mais outra e infinitas mais para que constantemente esteja assegurado àquele homem o reconhecimento de sua virilidade pelos demais. Uma forma de viver baseada, portanto, em ansiedade e competição. Apesar de se tratar de uma construção social, esses homens são responsáveis por seus atos pois escolhem ser e permanecer ignorantes quanto a sua posição de privilégios desiguais nas relações de gênero.
Compreender algumas das estruturas desse modelo de ser homem nos ajuda a situar o comportamento dos assediadores brasileiros na Rússia. Parece não haver um ambiente mais propício que um evento esportivo faraônico – e, por óbvio, competitivo – para que sejam praticados os exercícios de comprovação da masculinidade dominante. Esses homens não sentiram nenhum tipo de constrangimento, culpa ou mesmo senso de responsabilidade ao humilhar as cidadãs russas; pelo contrário, se sentiram completamente confortáveis e socialmente amparados pelo aparato que os sustenta e o qual eles alimentam. 
Esse tipo de masculinidade se cria e sustenta no antagonismo às mulheres, aos negros, e às pessoas LGBT+, que são constantemente diminuídas, desvalorizadas e coisificadas. Se um grupo social (homens dominantes) não se reconhece em um outro grupo (mulheres), as relações do primeiro com o segundo são norteadas por valores utilitaristas de consumo, aproveitamento, uso e abuso, os quais são projetados nos corpos femininos atacados pelo racismo e pela cultura do estupro.
A cultura do estupro é a forma como tratamos nossas mulheres frente à pressão do poder do patriarcado – as mulheres são vistas, por um lado, como vítimas indefesas de seus corpos e, por outro, como culpadas por seus desejos. Um dos vídeos deixa isso bastante óbvio: a mulher tem sua autonomia sexual violada, sendo induzida ao erro de falar algo que, se tivesse plena ciência do que se trata, talvez não o fizesse, ainda mais sem controle quanto à exposição do material gravado. Os homens, por sua vez, atingem a completude de seu destino manifesto de macho alfa dominante quando conseguem, se valendo de uma coisa tão banal como a diferença de idioma, assaltar à mulher a autonomia sobre seu corpo e sua imagem.
O patriarcado e as opressões não se sustentam apenas na misoginia, mas também num profundo racismo. É esse ranço que explica o fato de, em um dos vídeos, alguns homens gritarem “buceta rosa” ao lado de uma mulher loira. Para além da coisificação da mulher, reduzida ao seu órgão sexual, numa banalidade sem fim, estamos lidando aqui com um óbvio racismo que trata de hierarquizar as mulheres por raça, fomentando a exclusão social, a violência e a competição feminina e a partir da desvalorização de um imenso grupo social, como nos explicou Ana Paula Lisboa.
As reivindicações têm amparo legal e têm repercutido em respostas pelas autoridades competentes contra os assediadores de um dos vídeos. Eduardo Nunes, Tenente da Polícia Militar de Santa Catarina, está enfrentando um processo administrativo aberto pela Corporação; Diego Valença Jatobá, advogado e ex-Secretário de Turismo em Ipojuca – PE enfrentou nota de repúdio da OAB de Pernambuco; Felipe Wilson foi demitido do seu emprego da companhia área Latam Airlines. Já Luciano Gil Mendes Coelho assiste à divulgação pública de seu envolvimento, como investigado, na operação ‘Paradise’ da Polícia Federal e do Inquérito Administrativo que está respondendo perante a Prefeitura de Araripina devido ao não comparecimento para exercer as funções de engenheiro civil como servidor público efetivo lotado na Secretaria Municipal de Obras e Infraestrutura. O inquérito pede a exoneração do servidor dos quadros do funcionalismo público municipal.
Além disso, os quatro assediadores poderão ser processados na Rússia a partir da atuação da jurista russa Alyona Popova, que criou uma petição online contra os atos machistas por violência e humilhação pública à honra e à dignidade de outra pessoa. Por fim, mas não menos importante, o Ministério Público Federal no Distrito Federal abriu procedimento investigatório criminal pelo cometimento do crime de injúria.
Parece tempestade em copo d’água, eles afirmam. Mas só se tratarmos disso como uma questão individual. Apesar de ser importantíssima a materialização da responsabilização dos agressores, sabemos que a punição isolada não basta.
O grande problema, e o motivo pelo qual as ativistas têm total razão em se levantar e debater o caso à exaustão, é que não se trata de uma situação isolada, mas sim da reprodução de toda uma pesada estrutura social que coloca todas as mulheres em uma condição vulnerável. Denunciar os casos da vez é apenas uma forma de forçar o mundo dos homens a pensar sobre suas questões.
Se o agressor insiste em permanecer refratário a pensar e mudar, insiste o ativismo feminista em dizer: isso não é sobre você, é um ato de amor pela emancipação da sociedade das amarras do patriarcado.
Isabela Guimarães Del Monde, advogada sócia do Tini e Guimarães Advogados e Cofundadora da Rede Feminista de Juristas – deFEMde.
Tainã Góis, advogada e pesquisadora, mestranda em Direito Coletivo do Trabalho, pesquisadora do Grupo de Pesquisa Trabalho e Capital e Co-fundadora da Rede Feminista de Juristas – deFEMde.
Visto no: Justificando

Dentre as tantas magníficas lições legadas por Warat, uma das que mais me encanta por sua capacidade de tirar o véu discursivo que encobre o que há de pior nas ações racistas, machistas e/ou lgbtfóbicas, é aquela que se resume na frase “Não existem palavras inocentes”.[1]  Digo isso porque, algumas vezes, para além das ofensas diretas, provocam ainda maior asco os discursos que tentam justificá-las com o uso  de expressões chave demonstrativas das relações simbólicas de poder que vigem nesta nossa dita sociedade de “pessoas de bem”.
Recentemente, como todos e todas tivemos o desprazer de tomar conhecimento,  um grupo de brasileiros – diga-se, homens, brancos e supostamente héteros (!) –,  apareceram em vídeos divulgados internacionalmente em uma demonstração exemplificativa dos diferentes tipos de violência das quais as mulheres no Brasil e no mundo são vítimas no Brasil e no mundo. A covardia das ações praticadas falam por si só. Uma mulher, em meio à gritaria de baixo calão masculina, ignorante quanto ao que a ela, e sobre ela, diziam.
A imagem da jovem ofendida como mulher, por ser mulher, por trogloditas fardados com camisetas verde e amarelo é, como sói acontecer, grotesca. Ela traz à mente uma coletânea de atos de violência conhecidos por todas nós mulheres em nosso dia a dia. Mas, especialmente, também me fez lembrar de, dentre outros tantos atos misóginos que marcaram o golpe de 2016, aquele consistente na utilização da figura da ex-Presidenta Dilma como um adesivo de conotação sexualmente violenta que era colado nos tanques de combustíveis por muitos que naquela época também vestiam a camiseta “canarinho”.
Quem sabe esses mesmos autores da ação na Rússia não teriam um decalque desses em seus carros? Não lhes concedo o privilégio da dúvida.
Enfim… indo ao ponto que me move escrever este texto, ante tudo o que as imagens mostram, é motivo de ainda mais repugnância o discurso de autodefesa dos agressores centrado, 1. na minimização do ato violento, por eles entendido como se uma mera brincadeira fosse; 2. na justificativa de que, com a Copa, vive-se um “ambiente carnavalesco” na Rússia; e, 3. na afirmação de serem “pais de família trabalhadores”, ou seja, “cidadãos de bem”[2].
Ah, sempre o cidadão de bem…  Esse ilibado senhor, de regra defensor da lei e da ordem, autoproclamado como detentor de uma a moral “acima de qualquer suspeita” e que se distingue do “outro”, do “marginal”, do “delinquente” que ele estigmatiza e encarcera. Para esses “cidadãos de bem” de camiseta verde e amarela: “Quem está brincando no carnaval exagera um pouquinho na bebida e às vezes passa do ponto”.
Confesso que é brilhante a comparação com o carnaval.
Ou será que poderíamos encontrar melhor metáfora do que a do carnaval para compreender o que se esconde por trás das palavras destes senhores? Afinal, acaso não seria o carnaval um momento máximo do machismo da sociedade brasileira que durante quatro dias considera tudo possível, muito especialmente pela coisificação e sexualização dos corpos femininos? Para vocês, na copa ou no carnaval, róseas ou pretas, o que vale é a festa de sua superioridade como “homens”, que “dizem” ser.
Não, não existem palavras ingênuas.
Como diz Ana Gabriela Ferreira o poderio do discurso vai além de sua simples capacidade de enunciação, ele não somente se projeta através do que é falado ou escrito, “mas através da soma de compreensões por ela formuladas, traduzidas e reiteradas, as figuras arquetípicas são criadas e prospectadas ao longo do tempo, formando as sociedades e amalgamando suas complexidades.”[3]
Concordo com ela. Portanto, se, de um lado os atos praticados na Rússia estão expostos a quem quiser ver, por outro, seus discursos, segundo os quais, aqueles e aquelas que contra estes atos se revoltam não passam da transformação de “um copo d’água em uma tempestade”, revelam o que de pior existe nesse nosso país racista, lgbtfóbico e machista.
Não “meus senhores”,  não basta pedir desculpas “às mulheres que possam ter se sentido ofendidas”. Não é de hoje que suas ofensas são, de uma Presidenta a uma jovem russa, dirigidas a todas nós mulheres.
Desejo-lhes alguma sorte, pois espero muito que logo se avistem judicialmente com as mulheres da terra de Kollontai.
*Soraia Mendes é pós-doutora em Teorias Jurídicas Contemporâneas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, doutora em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília – UnB e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É professora, advogada e coordenadora nacional do Comitê Latino-americano e do Caribe de Defesa dos Direitos da Mulher – CLADEM/Brasil.
Visto no: Justificando