19 janeiro 2015

Bethânia, minha mãe - por Arnaldo Bloch


Sempre adoro como nossos baianos, novos, velhos, eternos, cantam e encaram Deus, ou deus, ou deuses, forças

Passei a noite do 31 com minha mãe Iná, em sua casa no Flamengo. A primeira virada sem meu pai. Jantamos no quarto, onde havia ar-condicionado. Esquecemos os fogos e a chuva lá fora. Brindamos com espumante rosé e sorvete de passas ao rum. Ela lembrou do primeiro flerte com Leonardo, o ruivo rechonchudo que furou uma onda em Copacabana, o areal, e, como um golfinho, emergiu diante dela. Num gesto ousado, Iná espirrou água no seu rosto. Ele a ameaçou: “Da próxima vez que fizer isso...” Ela reagiu: “O que você vai fazer? Hem?”. E ele: “Da próxima vez, te dou um beijo”. O beijo veio meses depois. O resto da história durou 50 anos e se encerrou em novembro.
Ela quis dormir na sala, e eu fiquei no quarto, deixando o lugar de papai vazio, e o cão Yossi quis ficar por ali. Juntos, sentimos a falta do golfinho de barbas e de tempos solares. Mas foi uma noite doce. Cedinho mamãe apanhou Yossi para um passeio e continuei a roncar. No início da tarde lá estava de novo o cão, aninhado. Acordei. Minha irmã havia voltado da festa da Narcisa e contava os babados. Que conversara muito com Elke. Que mulher inteligente! Sabia que ela nasceu na Rússia, Leningrado?
Despedi-me das duas e vim para casa pela Lagoa. No iPhone, que estava em aleatório, surgiu Maria Bethânia cantando “Alguma voz”, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro. Quando eu ouço alguma voz/ Na janela do horizonte/ De alguém cantando por nós/ É Deus cantando defronte. Sempre adoro como nossos baianos, novos, velhos, eternos, cantam e encaram Deus, ou deus, ou deuses, forças. Nem sempre creem nele(s). Mas sempre creem na sua expressão, na fé do povo, na relação do símbolo divino com os homens e as mulheres através da palavra, dos sons, das vozes da natureza. Caetano, crítico sensível daquilo que, de Deus, os homens fazem, estudioso dos vínculos secretos que o tempo reserva em mil níveis; Gil, panteísta, quântico, oriental. Uma vez em Montreux, anos 1990, quando perguntei se voltaria à política, respondeu: “Estou mais para líder religioso”. Na verdade, está mais para entidade cosmológica.
Bethânia, ela, sim, é mais devota: um tanto de orixás, um pouco dos santos, a cruz, altiva, luas e estrelas. Orações, atos, práticas. Longe, porém, das pulsões proselitistas, dos constrangimentos, do masoquismo. E, para complementar, aquela cara-sorriso de “judia e moura”, como na canção de Caetano, o iemenita.
A voz de Bethânia, tão bonita e particular, não se quer a maior das vozes ou das técnicas (ela vive como se fora obstinada aprendiz, tecendo loas às outras vozes, não a si). Mas é uma voz que carrega tanto do teatro (presente nos modos espectrais e físicos das festas do candomblé) quanto desse canto indizível que Dori enxerga no horizonte, talvez o tal do sentimento oceânico de que Freud fala, incapaz, ele mesmo, de senti-lo, e que, desconfiado, só consegue explicar como o sentimento do útero saudoso e até da projeção da morte em paz.
Foi bonito sair assim da casa de minha mãe e cair no colo de Bethânia, filha de Canô, de Menininha e de tantas mães, ela mesma um tipo de mãe para mim e um mundão, cada vez mais bela e jovem, transitando pelo palco com seus pés descalços, coberta de folhas cadentes e luzes de cidadezinha de interior.
Foi bonito e útil: eu estava pensando no que escrever na primeira crônica do ano, e o advento da canção de Dori, sobre as vozes, na voz dela, me fez lembrar de seus 50 anos de carreira que coroam a cabeça de 2015 (amanhã, no Segundo Caderno, edição especial sobre este meio século tão importante).
Aí cheguei em casa e mandei bala no teclado. E aqui estou lembrando dos vários encontros que tive com Bethânia. Nunca nos tornamos amigos naquele sentido de convivência periódica, do confessionário de compadres, mas, através de alguns textos, nos aproximamos, um recado de cá, um recado de lá, admirações e homenagens. Uma vez eu a ajudei a achar um gravadorzinho portátil MP3 que ela avistara na mão de outro jornalista e ficara obcecada pelo microfone pequenino, bojudo e acolchoado que havia no vértice do aparelho. Queria que queria um igual. Saí à procura e acabei achando na Avenida Rio Branco.
Dias depois, fui entregar-lhe como se fosse uma dessas oferendas a uma mãe de santo. Tem gente que diz que Bethânia é uma, e que é até mais. Quem já foi ao camarim de Bethânia após um de seus shows saiu sempre com a impressão de que ela dava passes a cada um de seus admiradores e amigos, pois o que sai de gente chorando (eu já molhei os olhos) depois de abraçá-la não está no gibi.
Ela gosta desse assédio, mas não no sentido da vulgar celebridade. Pois aquilo cansa, e essas romarias duram horas, e ela se dedica com amor. Bethânia gosta é de abraçar a gente mesmo. De ouvir e dizer palavrinhas no ouvido. De ser devota do outro, carne, mente, sangue, perfume. O que há para além disso ninguém sabe. Muita gente sente. Intui. Vê e até ouve vozes. Não sei tampouco no que Bethânia crê, pois ela crê em tanta coisa que não importa muito o que vem deste ou de outro mundo, da intuição, da síntese a priori ou de catarse a posteriori, sabe lá...
Eu creio em Bethânia. Ela existe e multiplica o divino no espelho de sua voz grave, de seus gestos que iluminam o palco, de sua raiva desabafada nos ápices das canções de amor, a ponto de apertar-se toda, incrédula, diante de certas estrofes; de seus passeios aplicados pela poesia, de seu respeito doce e fofamente professoral pela cultura brasileira. Que bom que Bethânia está entre nós. “Como uma deusa”, diria o hit brega. Chique e humana. Maria, minha mãe, parabéns.


.Visto no: O GLOBO

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