O Navio não é só Negreiro.

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Autor: Eduardo Andrade - Mestrando em Linguística Semiótica

“Era um sonho dantesco o tombadilho”, assim inicia o poeta Castro Alves o seu célebre “Navio Negreiro”. Hoje, o sonho infernal descrito pelo vate baiano permanece; todavia, não é diante de um tombadilho que passam os “olhares condoreiros” do século XXI.

Às portas do fim da primeira década daquele que deveria ser o “século da igualdade”, ainda é possível ver, nas mais distintas áreas da sociedade contemporânea, as cenas castro-alvinas de um – aparentemente – distante século XXI: “legiões de homens (não apenas) negros” continuam a sofrer com a segregação étnica, racial, cultural e religiosa; multidões famintas permanecem cambaleando, alvos da desigualdade social; “o velho (ainda) arqueja e no chão resvala”, vítima da discriminação etária, e muitas mulheres permanecem “num turbilhão de espectros arrastadas em ânsia e mágoa vãs”, em virtude da disparidade entre os gêneros.

No apogeu da técnica, questões básicas permanecem sem solução e muitas sociedades – como a brasileira – ainda acumulam dívidas das inúmeras falhas de seus transcursos sócio-históricos. Enquanto isso, mulheres, judeus, homossexuais, idosos, índios, negros e pobres – seres humanos, enfim – permanecem alvos fáceis da estereotipação e da segregação, corruptoras do caráter e violentadoras da dignidade humana.

Parece faltar ao homem do século XXI a lição de outro poeta, o mineiro Carlos Drummond de Andrade. Falta a este homem “fazer a viagem de si a si mesmo” e “pôr o pé no chão do seu coração”, descobrindo, assim, o significado mais sublime da palavra “con-viver”. Talvez, agindo assim, o homem descubra que o navio em que viaja não é negro, nem branco, mas humano.

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