02 junho 2010

Resenha de Linguistica: Curso de Linguística Geral

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Curso de Linguística Geral é uma das obras mais importantes da história relacionada aos estudos da linguagem. Embasada por Ferdinand de Saussure, um dos maiores estudiosos nessa área, este livro foi lançado em 1916, postumamente pelos alunos de Saussure. Esses aprendizes fizeram uma compilação das obras do mestre a fim de construir uma obra que internalizasse as ideias geniais desse que foi um dos maiores responsáveis pela estruturação da linguística como ciência. Os temas e conceitos abordados por esse livro dizem respeito ao trabalho realizado por Ferdinand em estudar a língua como elemento fundamental da comunicação humana. Ele, por sua vez, faz uma divisão no seu campo de estudo, popularmente conhecida como dicotomias. Esse desmembramento serviu para clarificar os conceitos que ele tinha com relação à função exercida pela linguagem. Nesta obra as dicotomias são: língua x fala; significante x significado; sincronia x diacronia; sintagma x paradigma.

Esta obra começa fazendo um panorama evolutivo da linguística, que teve três fases antes de encontrar o seu real objeto de estudo. Primeiro veio à gramática com a sua visão limitada e normativa da língua, impondo regras do que certo e errado na língua. Depois, surgiu a filologia que não tinha apenas a língua como objeto de estudo, mas também os textos literários, comentando-os e interpretando-os. Por último, a história da linguística chega à gramática comparada que, como o próprio nome já diz, faz uma comparação entre as línguas. Nessa fase temos o nome de Franz Bropp que em 1816 lançou uma obra intitulada de Sistema da Conjuração do Sânscrito, estudando as relações que uniam essa língua a várias outras como o grego, germânico, latim e etc. Bropp não foi o primeiro a assinalar, contudo, que essas novas línguas pertenciam a uma mesma família, mas foi ele que compreendeu que as relações entre línguas afins podiam torna-se matéria para uma ciência autônoma. Ainda na parte introdutória do livro, merece menção a parte em que o autor começa a fazer comentários sobre os erros cometidos pela gramática comparativa, que não enquadrou à história nos seus estudos sobre a língua. Essa atitude exclusivamente comparatista acarretou uma série de conceitos errôneos em torno da linguagem, dando início ao surgimento dos neogramáticos, que por sua vez, analisavam a língua “não como um organismo que se desenvolve por si, mas um produto do espírito coletivo dos grupos linguísticos (p.12)”.

No desenrolar da obra, encontramos no segundo capítulo as tarefas da linguística e as suas relações com determinadas ciências. Na leitura dessa parte, cumpre enfatizar, que em momento algum a linguística se dissocia da gramática normativa. A linguística, como ciência, apenas estreita as relações do seu estudo para um melhor desempenho das teorias sobre a linguagem. É claro que para isso a linguística não poderá trabalhar sozinha. Então, surgi à correlação entre ciências como a fisiologia que, não diferente da linguística, estuda os aspectos fônicos da língua. Diferentemente da filologia que tem seu papel definido como ciência e se distingue da linguística.

No terceiro capítulo do livro, aparecem os questionamentos sobre o objeto de estudo da linguística. No desenrolar do texto fica cada vez mais evidente o interesse de Saussure pelo estudo da língua, pois, para ele, a linguagem é social e individual, enfim, a fusão da língua e da fala.

Ferdinand escolhe o estudo sistemático da língua, por esta ser a matéria indissociável da linguagem. Para reforçar esse argumento o autor coloca: “Para atribuir à língua o primeiro lugar do estudo da linguagem pode-se, enfim, fazer valer o argumento de que a faculdade - natural ou não – de articular palavras não se exerce senão com ajuda de instrumento criado e fornecido pela coletividade (p.18)”. Ainda nesse capítulo, mais precisamente no segundo subtópico, inicia-se o estudo da língua no meio da linguagem. É nos exemplificado, fisiologicamente, como ocorre o fenômeno da interação da língua no ato da comunicação, tanto no aspecto físico quanto no psíquico. É interessante observar nesta parte da obra como os mecanismos que compõe a linguagem funcionam no dado momento da comunicação, fazendo com que a interação entre indivíduos efetivamente ocorra. Além disso, Saussure, continua traçando paralelos entre língua e fala, sempre dando ênfase na primeira.

Na última parte desse capítulo surgi o debate em torno do signo linguístico, denominado como Semiologia. Essa parte da obra é crucial, pois, nos próximos capítulos, Saussure começa a fazer as distinções sobre as suas famosas dicotomias. Por isso, o entendimento do signo linguístico como uma entidade do conjunto que forma a linguagem é fundamental. Ainda sobre a semiologia cabe ilustrar a diferença existente entre ela e a linguística. Enquanto a linguística limita-se em estudar apenas a linguagem humana, a semiologia vai além, estudando a dos animais e de toda e qualquer sistema de comunicação, seja natural ou convencional.

Finalizando essa parte, no quarto capítulo, o autor começa a separar a língua da fala, dividindo-as como duas partes particulares da linguística. Mesmo sabendo que ambas são indissociáveis na formação da linguagem, percebemos a ênfase, na leitura desse capítulo, em que Saussure, em várias situações, coloca a língua no patamar superior ao da fala. Ele chega a afirmar categoricamente que a língua seria a parte essencial no estudo da linguagem, e a fala, portanto, seria a parte secundária. Toda essa valorização da língua como objeto de estudo perdura também nos próximos capítulos do texto, sobretudo na parte seguinte em que começa a ser conceituada as famosas dicotomias de Saussure.

Ferdinand de Saussure ficou conhecido no mundo todo por elaborar teorias que propiciaram o desenvolvimento da linguística enquanto ciência. A partir daí acabou desencadeando no surgimento do Estruturalismo, corrente que veio de encontro com o gerativismo e o pragmatismo. Na base dessa reestruturação linguística Saussure criou dicotomias que explicassem, de forma clara, as suas ideias em torno da língua. Na obra em questão, ele começa analisando a natureza do signo linguístico. Cada um deles é visto separadamente por Saussure que sistematiza seus conceitos a fim de clarificar ainda mais o seu raciocínio. Uma das primeiras dicotomias refere-se ao conceito de significante e significado. O primeiro consiste em uma imagem acústica, enquanto o outro reside no plano do conteúdo. Depois dessa sucinta definição o livro da continuidade aos exemplos que envolvem o signo linguístico, no intuito de elucidar ainda mais os conceitos que envolvem essa dicotomia. A segunda dicotomia diz respeito ao estudo da língua na história.

Durante muito tempo a linguística não analisava o seu objeto de estudo, a língua, numa perspectiva histórica. Então surgi à segunda dicotomia conhecida como sincronia e diacronia. A primeira estuda a língua num determinado ponto da história, enquanto a outra estuda a língua no curso evolutivo da história. Nessa parte do livro é indispensável à leitura do capitulo referente à imutabilidade e mutabilidade da língua, pois, os questionamentos levantados são de extrema importância para o entendimento das dicotomias de Saussure.

Essa obra, portanto, é uma boa pedida para aqueles que querem se aprofundar na área da linguística, como também para qualquer outro profissional de áreas diferentes que estejam interessados em desmistificar o surgimento e a evolução da língua. Habilidosamente, a obra clarifica os conceitos elaborados por Saussure que, sistematicamente mudaram a forma de ver e estudar a linguística. Mesmo com a oposição de alguns linguistas contemporâneos, o Curso de Linguistica Geral é uma excelente material para a compreensão da linguística como ciência, sobretudo para aqueles que estão dando os primeiros passos nessa área.


2 comentários :

  1. Muito boa sua resenha! Estou lendo a obra para uma prova de seleção de mestrado e sua resenha me ajudou bastante a entender melhor a obra de Saussure.

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  2. Adorei a resenha! Foi muito importante para aprimorar meus conhecimentos de linguagem

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