E daí se Vanessão morreu? Você já riu mesmo...

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Fonte: Jornal do Comércio - Publicado em 12.04.2010

Fabiana Moraes

Vanessão é sem dúvida a travesti brasileira de maior sucesso no YouTube. Basta escrever seu nome do site de busca mais popular da atualidade, o Google, para que o próprio liste uma série de assuntos ligados a ela: "morre/you tube/ji-paraná/20 reais/não morreu/vídeo/jogo do tamanco/emoticons/presa". Vanessão vem, há anos, divertindo internautas com seu ar desbocado, as roupas mínimas, a entrevista na delegacia onde ela e um cliente discutem o valor de um programa e uma moto quebrada. Para além do desbunde, o peito de fora que ela mostra, o rebolado e a edição que macaqueia as expressões da travesti ("o babado é certo..."), uma questão é bastante significativa no vídeo (postado no dia 20 de julho de 2007, passava dos dois milhões e seiscentos mil acessos na primeira semana de abril). Vanessão é entrevistada e, enquanto o repórter faz piada de sua identidade feminina ("essa moça... que prefere ser chamada de moça... é homossexual"), a câmera mostra seu rosto por alguns minutos. No momento em que o repórter vai entrevistar o suposto cliente da travesti, porém, vemos uma confortável tarja preta cobrindo sua face. Os dois se acusam e se defendem, mas apenas o "cliente" identificado socialmente como "homem" (hétero) tem as graças da identidade preservada. Vanessão tem que ser mostrada, afinal ela precisa cumprir outra função social das travestis: ser mote de riso daqueles cujo sexo está, em tese, dentro do normativo.

Na Last FM, rede social na qual é possível compartilhar músicas, a Rádio Vanessão toca um funk no qual todo o episódio da delegacia é ouvido, agora desconstruído e acompanhado de um batidão. O site Puts Grilo fez emoticons (aquelas figuras que demonstram emoções ou frases, enviadas em mensagens) com a figura da travesti. São vários: um mostra seu corpo e é finalizado com um beijo, outro mostra o rapaz com a traja preta no rosto e a palavra "maricona". No site Nada Contra, foi criado o jogo Para a Moto na BR ("não brinque com as trava", avisa a introdução), onde Vanessa joga seu salto anabela em motos e carros de polícia. Acertar os últimos é mais difícil, exige duas tamancadas, mas garante mais pontos. Talvez seja uma das poucas vezes em que podemos ver a travesti - aí representando aquelas que são tão "engraçadas" quanto ela - saindo do posto de vidraça para ela mesma atuar como espécie de algoz virtual.

Outros dois vídeos no YouTube trazem Vanessão (ou o que seria, para muitos, uma cópia dela): um é particularmente interessante, mostrando novamente cliente e travesti na delegacia, ele com tarja cobrindo o rosto, ela usando os cabelos para compensar a falta de proteção eletrônica à qual apenas o "hétero/homem" tem acesso. "Ela hoje está revoltada, diz que estamos usando a imagem dela", diz o repórter enquanto, de costas, ela levanta os óculos escuros para a câmera (e consequentemente a sua plateia) e arqueia várias vezes a sobrancelha. Ela joga o tamanco na câmera. Depois, vemos aquela que seria Vanessão ser levada por um policial até uma cela. Ao fundo, pontuando a piada, ouvimos a música que diz "Você é doida demais".

No outro vídeo, intitulado "A volta de Vanessão", uma travesti chamada Patrícia é novamente vista na delegacia, o cenário comum dessa espécie de esquete humorístico apreciado pelo jornalismo policial "para as massas". Não há nada de novo nesse ambiente, mas duas coisas merecem atenção: a identificação do cliente, que desta vez não teve direito a tarja, e, mais importante, o fato de ele assumir que estava de fato transando com a travesti. Provavelmente porque estava apenas cumprindo seu papel, ora essa: era ela quem fazia sexo oral nele. No vídeo mais famoso, era ele, "homem/hétero", quem teria pago para fazer a mesma coisa em Vanessão. "Nossa Senhora!", espanta-se o repórter. "Eu não sou um cabra safado que nem ele", defende-se o cliente.

Dizem que Vanessão foi assassinada em Ariquemes, perto de Ji-Paraná, Rondônia, cidade para sempre inscrita no mapa contemporâneo brasileiro. Outros dizem que ela está viva e que atualmente prefere ser chamada de Patrícia. Apesar de vista por milhões, até hoje ela não apareceu para reclamar sua apropriação em larga escala. É uma de nossas novas celebridades mais curiosas: sua visibilidade, para nós, se concentra na escala do humor, do riso, de seu fenótipo masculino decorado por saia curta e top brilhante. Quem é ela, se está realmente morta, se vive em outra cidade, ainda não se sabe, nem é preciso. O importante, destacam os internautas ("kkkkkkkkkkkkk", "hauahauahaua"), é que ela continua em nosso coração, nos divertindo cada vez que um emoticon mostra sua cara meio safada e ouvimos a sua voz fanhosa dizer "vintche reais".

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