Quadrilha Junina Tradição 2010 - Sinopse: Hoje é o Meu Dia de Sorte (PARTE 2)

14:06


By Anderson Gomes
Correção Textual: Diogo Didier

O tema

O recorte temático a seguir construído para este espetáculo junino, apropriado da história viva da vida conhecida por vocês na fundamentação teórica, vai agora, filtrar em um Causo Nordestino um pouco dos desejos e sonhos intrínsecos ao homem, depositados na vontade de se manter vivo para amar e ser feliz.

Boa história!

Causos Nordestinos

A sabedoria popular é passada de geração para geração, contando os causos vividos pelo povo nordestino.

Os causos são situações reais que acontecem no dia a dia são estórias nascidas do imaginário popular, em que, os fatos mais inacreditáveis que você possa imaginar ganham vida! Completam um universo lúdico contribuindo para a preservação das raízes e crenças populares dessa nação nordestina.

“Por mais incríveis que pareçam essas estórias, pode acredita que são verdade”. É o que garante Zé poeta, autor de vários causos nordestinos em Pernambuco. E é a partir da imaginação dessa gente simples que palavras em versos enriquecem as mais variadas e fantásticas estórias, das quais até hoje não se sabe em que local começam ou terminam o limite entre a verdade e o voo para a imaginação dos causos.

Desse modo, apropriando-se da literatura de cordel e dos artistas cordelistas, os causos possuem um ritmo próprio, cheios de detalhes curiosos e engraçados para convidar os expectadores a acreditarem nos contos, traduzindo assim, os saberes com um toque de humor inteligente que serve a sociedade para informar, criticar ou apenas divertir.

A $orte:

O que diz o dicionário Aurélio para desvendar os significados da sorte: “substantivo feminino; uma força que determina ou regula tudo quando ocorre, e cuja causa se atribui ao acaso das circunstâncias ou da suporta predestinação; destino, fado, sina; felicidade; fortuna; dinheiro; casualidade; bilhete ou coisa premiada nestes boletos de loteria e sorteio.”

Já o povo... Bem, sair de casa sem ela nem pensar! Há quem não largue um trevo de 4 folhas, uma ferradura, um pé de coelho, a imagem do santinho(a) de sua graça, um crucifixo, um terço, uma camisa que te deu sorte naquele encontro, um vestido, uma bolsa na hora daquela entrevista de emprego, uma caneta para assinar um cheque ou o cartão de crédito. E assim “andar com a fé eu vou que a fé não costuma falhar” já dizia Gilberto Gil. Mas para os ciganos a verdadeira sorte está escrita entre as linhas da palma da mão. Foram eles que popularizaram pelo mundo a Quiromancia, tanto é que, quando se pensa em leitura das mãos, vem logo a imagem de uma cigana.

A arte de ler as mãos tem origem misteriosa. Acredita-se que desde o princípio da humanidade já se utilizava deste recurso para conhecer o futuro. No continente africano, berço de todas as civilizações mundiais, especificamente no Egito, os Faraós não travavam uma guerra sem antes consultar os magos e saber o que o destino reservava ao seu povo. Desta forma, na cultura de outra civilização também africana, as indianas ciganas aprendem com suas mães o oficio desta arte já na infância. Diz à tradição que as mulheres andem com outras mulheres da mesma família a procura de pessoas que queiram saber de seu futuro, ver ou ler a sua sorte.

Todos os detalhes das mãos possuem um significado particular, desde sua forma, sua cor e até mesmo sua temperatura. Quanto maior o número de informações contidas nas mãos das pessoas mais se conhece sobre ela, tanto da sua personalidade, quanto a sorte que o futuro as reserva. O que é observado: Formato das mãos que pode ser elementar, psíquica, quadrada entre outros; as linhas da cabeça, da vida, do coração; o volume dos montes (relevos) como o morte de Vênus que fica abaixo do dedo polegar ou o monte de Júpiter a baixo do dedo indicador etc. Além da técnica de adivinhação que parece simples se tivermos um manual, é fundamental possuir o dom, pois esse é exclusivo, não se repassa de mãe para filha. Algumas ciganas olham para uma pessoa e traduzem de imediato o que o destino as reserva – é mágico.

HOJE é meu dia de SORTE!

É um causo cigano que ,acreditem ,ocorreu no nordeste brasileiro. Retrata a pobre situação de um casal de namorados que vê seu sonho de casamento competir com a falta de dinheiro para se casarem. Mas como fazer para pagar tantos gastos com a festa e a cerimônia na igreja sem ter dinheiro? O amor sozinho pode salvar essa estória? Entretanto, no caminho deste sonho, viajando de lugar em lugar pelas estradas da vida a quem ganhou fama desvendando a sorte e lendo o destino para sobreviver – essa é a cultura cigana, uma tradição milenar dos povos nômades indianos espalhados pelo mundo e que, também estão presentes no nordeste brasileiro.

É um mistério... “Ouvir de longe o seu lamento menina, deixe me ler a sua sorte” falou a cigana. E quem nunca ouviu falar de uma cigana querendo adivinhar o futuro lendo a palma de sua mão? No entanto, diante deste duelo entre amor e destino, dinheiro e $orte, esse jovem casal ver nascer o seu dia de sorte a partir da magia cigana no horóscopo da vida, do qual, acreditam no seu sonho de felicidade e, não vão deixar a sorte passar por nada neste mundo.



CASAMENTO

A igreja e sua relação antiga com o dinheiro.
Ao entrarmos em uma igreja católica, a exemplo das que existem no centro do Recife e Olinda, de estilo arquitetônico barroco ou rococó, não nos contemos com a surpresa: É lindo o luxo! Altares banhados de folhas de ouro em todas as direções, restaurados recentemente ou em processo de licitação financiados pelo governo. A forma como foram estrategicamente construídas essas igrejas, nos intimida pela majestosa grandiosidade, deixando-nos sem qualquer reação, sem falar, no contexto cultural a que fomos educados a partir da “cultura cristã” que invalida qualquer comportamento. Já os trajes dos padres feitos com suntuoso requinte, como haveria de ser, afinal são representantes do poder divino sobre a terra. Um poder estético materializado na imagem das cerimônias e rituais, embora já aceitadas pelo poder do subconsciente espiritual.
Mais o que falar das cerimônias católicas?

Católicos, sendo ou não praticantes, podem casar-se na Igreja de acordo com o ritual Católico. No entanto, o padre tem o poder de recusar a celebração de um casamento, caso tenha razões para acreditar que os noivos não acreditem nos ideais católicos.

A cerimônia católica é, atualmente, dominante no Brasil. No catolicismo, considera-se o casamento um verdadeiro sacramento, reconhecido como uma graça de Deus. No momento, de todas as promessas da vida nova em comum, na saúde e na riqueza o que se deseja é ter uma vida feliz, já que, o sentimento que leva duas pessoas a se casarem pode ter diversas razões, mas normalmente fazem-no para dar visibilidade à sua relação afetiva, para buscar estabilidade econômica e social, para formar família, procriar e educar seus filhos.

Ainda nesse contexto, a ostentação propagada no interior das Igrejas recai de forma intrínseca nos tributos pagos nas cerimônias religiosas, sobretudo nas uniões afetivas, ou seja, casamentos. Calma! Por hora não vem ai nenhuma critica aos dízimos, mas sim as taxas cobradas para a realização dessas cerimônias religiosas.

Os valores cobrados pela Igreja chamam a atenção devido aos altos preços cobrados para realizar as cerimônias de casamento. Em muitos casos, os noivos têm que desembolsar quantias exorbitantes de dinheiro para concretizar o sonho clássico de casar-se numa Igreja.



O CASAMENTO:

A seguir, vocês poderão conferi na integra o texto do casamento que propícia o inicio desta trama nordestina.
Boa sorte e bom espetáculo!


Texto e direção: Anderson Abreu

O dinheiro do Padre


1º ATO - PERSONAGENS:

Cordelista: Jimmy Glauber (Marcador da quadrilha).
Noivo: Gildo Alencar.
Noiva: Carmem Costa.
Cigana: Amélia Costa.
Cigana: Ellon Sant`Anna.
Padre: Eduardo Manoel.
Padeiro: Alan Santos.
Coronel: Murilo Caritas.
Capitão da Volante: Eduardo Andrade.
Sanfoneiro: Everson da Silva.
Prefeito: Ricardo Souza.
Cangaceiro: Luciano Barros.



CENA:


Cordelista: Vou contar um causo bem nordestino e peço sua atenção
Zé e Florzinha são dois apaixonados que falam ao coração
Têm um sonho... Na igreja querem se casar
Mais confesso são pobres e lisos, e dinheiro? Nem pensar!

Noiva- Ai de mim Zé.
Noivo- Danou-se... Oxente, onde foi que doeu?
Noiva-No meu coração... Vixe Maria, só em pensar que na igreja não iremos casar, me dá uma tristeza tão grande!
Noivo-Eita que a situação está preta estou sem nenhum tostão. Casar na igreja é negocio pra gente rica mulher.
Noiva- Meu Santo Antônio te diz uma coisa, ser pobre tudo bem, mais ser pobre todo dia, vou te contar viu! Quem me dera à sorte grande batesse a nossa porta.
Noivo-Hô aperreio danado. Já vem você falar em sorte!É luxo até ter sorte.
Noiva- sei-lá mais alguma coisa me diz que na noite de São João algo de bom vai nos acontecer.

Cordelista: Pra ter dinheiro é preciso contar com a sorte
Trevo de quatro folhas, Pé de coelho, Ferradura...
Danou-se é muita fé na vida de um pobre
Mais se é a sorte que eles querem encontrar
Chega à cidade uma caravana de Ciganos pra ajudar
E o sonho do casamento pode se realizar.


Noiva-Olhe Zé, nossa sorte vem vindo.
Cigana-Ouvi de longe o seu lamento menina, deixa-me ver a tua sorte.
Cigano-Mas antes o pagamento para ver tu destino.
Noivo- Oxe! Tu pensa que nós tá nadando em dinheiro, é?
Cigana-(Vendo a sua tristeza) Hombre… Deixa entrar desta vez, no cuesta nada atender a voz do coracion.
Cigano-É mismo!
Cigana-Muestra tu mano tchica!
Noiva- irmã…? Não tenho, sou sou filha única.
Cigano- Tu mano (palmas) mulher!
Noiva- Aaaaa… Aqui está.


(A noiva ao estender a mão pisa na casa da moeda, simbolo do horóscopo cigano.)


Todos: Gritos!!!
Cigana-Nossa! Vejo fortuna em sua mano.
Noivo e Noiva-Como assim???
Cigana- Você pissou na casa da moeda do nosso Horóscopo cigano e, isto quer dizer...
Noivo e Noiva - Quer dizer...???
Cigana-Que a sorte de vocês nascerá da moeda…Mas para isto acontecer, terá que correr a cidade e ganhar 7 moedas.
Todos-7 moedas!!!
Noivo- Esse povo não conhece o pobre mesmo! Nós não tem 1ª vai ter 7!
Cigana – Posso continuar?
Noiva-(Tapando a boca do noivo) Pode sim! (teatro mudo para responde que sim).
Cigana- Em la noite de São João, na luz do luar… Plante as moedas que ganhar no terreno da igreja e, lá somente lá nascerá o seu destinoooooo…
Noiva- Vamos Zé, você vai por ali e eu por aqui...Ui!


(Os noivos saem correndo de casa em casa pedindo aos 7 personagens as 7 moedas que salvarão o sonho do casamento)


Cordelista: E a jornada vai começar

As 7 moedas à de encontrar?
O tempo começa a correr
E com o Prefeito a 1ª moeda aparecer
O padeiro será que vai ajudar?
A 2 moeda com Florzinha está
A 3ª moeda Zé está pedindo o Coronel,
Que agradece levantando a mão pro céu
No Capitão da Polícia, sentido! Florzinha se instalou
Estende a mão e a 4 Moeda a conquistou
Zé vai ao Cangaceiro e fala em miúdo a sua aflição
Ele puxa a espingarda, mas é a 5ª moeda joga em sua mão
A 6ª moeda com um jeito bem gostoso de ganhar
Pede ao sanfoneiro pro seu sonho realizar
O tempo correm sem parar
E a 7 moeda com quem está?
Será que na igreja vão achar?
O Padre pergunta-lhe pelo casório com aflição
Le dá a última moeda para abençoar esta união
É hora então de comemorar
Pois da terra a magia cigana vem brotar
Uma Árvore de dinheiro nascerá
Em fim, um casamento pra comemorar!



(Com o plantar das 7 moedas doadas pelos personagens mais endieirados de uma cidade do interior, o casal de apaixonados ao plantarem as moedas vêem nascer uma Árvore de Dinheiro que, do qual a quadrilha são as suas cédulas. Assim, conseguirão para o casório)




|INTERVALO|



II ATO – PERSONAGENS

Padre: Eduardo Manoel.
Noivo: Gildo Alencar.
Noiva: Carmem Costa.
Cédulas de dinheiro de R$ 1,00 (Sorte): A quadrilha.
Cédulas de dinheiro de R$ 2,00 (Volante Masculina): Luiz Gomes.
Cédulas de dinheiro de R$ 2,00 (Volante Feminina): Gilvânia Fagundes.
Cédulas de dinheiro de R$ 50,00 (cangaceiros): Joel Francisco, Bruno Pereira, Luciano Barros, Franciele Silva, Almir Estefânio, Elizabeth Oliveira.
Cédulas de dinheiro de R$ 100,00 (Lampião): Ricardo Souza.
Cédulas de dinheiro de R$ 100,00 (Maria Bonita): Fernanda Alves.


CENA:


Padre - Estamos aqui para celebrar a casamento de uma casal que, sabe lá como ficaram ricos da noite pro dia!
Noivo- Essa história se eu lhe contasse seu padre....
Noiva-Juro que o senhor não ia acreditar!
Padre- Mesmo sem saber, eu os declaro marida e mulher até que o dinheiro, quero dizer... Até que a morte o separe.


(Os noivos põem as alianças e o padre discretamente puxa o noivo pelo o braço e lhe cobra o dinheiro para pagar os gastos com o casório).


Padre - Zé, como vê a nossa humilde igreja fez um lindo casório... Mas, cadê o dinheiro para pagar todos os gastos!!!
Noivo - Seu padre, olhe em sua volta, veja quanto dinheiro tem (tempo musicado para organizar o dinheiro). Tem nota de R$1,00, R$2,00, R$ 5,00, R$ 10,00 até de R$ 100,00 meu casamento esta pago!
Padre- (Pegando a nota de R$ 2,00) Êpa! Este dinheiro aqui é falso!!!
Cédulas de dinheiro de R$ 2,00 (mulher) – (chorando) O que foi que o senhor disse seu padre?
Cédulas de dinheiro de R$ 2,00 (homem) - Olhe seu padre, minha mulher tem valor!
Padre – (Gargalhada!)
Padre – (Apontando para as notas de R$ 1,00 da sorte) Este dinheiro... É uma mixaria!!!
Cédulas de dinheiro de R$ 1,00 (Sorte): Caem cenicamente.
Padre – (Pegando a cédula de R$ 100,00) Vejam esta aqui... Como está sujo!
Cédulas de dinheiro de R$ 100,00 (Maria Bonita) – Olhe cabra! Eu sou uma mulher de valor!!!
Cédulas de dinheiro de R$ 100,00 (Lampião) - E eu compro uma briga por você Maria.
Maria Bonita- Então, pago pra ver! Cambada! Vamos se organizar!!!


(Maria bonita chama o cangaço juntamente com todo o “exército” de R$1,00 para confrontar o padre)


Padre- Já entendi vocês estão tentando me enrolar... Isso aqui não passa de uma formação de Quadrilha!!! Se não pagarem o divida... (abre a lista dos gastos com a cerimônia)
Todos: Hoooo!!!
Padre: Cancelo o casamento!!!
Cédulas de dinheiro de R$ 100,00 e R$50,00 (Lampião e cangaceiros) - O que disse? Aqui não tem ladrão visse!
Noivo- Parem com isso. Eu sou um homem de palavra seu padre! Hoje é meu dia de sorte! E prometo que no final da festança eu pago o casório.
Todos: Viva!!!

Cordelista - E a festança...
Vai começar!
Com dinheiro ou sem dinheiro...
Vem com a Tradição festejar!


|INTERVALO|


3º ATO – PERSONAGENS:

Padre: Eduardo Manoel.
Noivo: Gildo Alencar.
Noiva: Carmem Costa.


CENA:


Padre: Então minhas filhas, é chegada à hora! Vim buscar a dinheiro do casamento!
Noivo: Leve seu padre, leve todo o dinheiro. Meu casamento esta pago!!!
Noiva: A nossa maior riqueza é o nosso amor!
Noivo: Pois quando agente ama, não se pensa em dinheiro... Só se quer amar!!!




FIM




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