A liberdade é um princípio ético de essência demoníaca. " BREVIRÁRIO DE DECOMPOSIÇÃO

15:53




  • " Ainda que o problema da liberdade seja insolúvel, podemos sempre discorrer sobre ele, colocar-nos do lado da contingência ou da necessidade... Nossos temperamentos e nossos preconceitos nos facilitam uma opção que circunscreve e simplifica o problema sem resolvê-lo. Se nenhuma construção teórica consegue torná-lo perceptível a nós, fazer-nos experimentar sua realidade espessa e contraditória, uma intuição privilegiada instala-nos no coração mesmo da liberdade, a despeito de todos os argumentos inventados contra ela. E temos medo; temos medo da imensidão do possível, não estando preparados para uma revelação tão vasta e tão súbita, para esse bem perigoso ao qual aspiramos e ante o qual retrocedemos. Que vamos fazer, habituados às cadeias e às leis, frente a um infinito de iniciativas, a uma orgia de resoluções ? A sedução do arbitrário no apavora. Se podemos começar qualquer ato, se não há limites para a inspiração e para os caprichos, como evitar nossa perda na embriaguez de tanto poder ? 
  • A consciência, abalada por esta revelação, interroga-se e estremece. Quem, em um mundo em pode dispor de tudo, não foi vítima de vertigem? O assassino faz um uso ilimitado de sua liberdade e não pode resistir à ideia de seu poder. Está dentro das possibilidades de cada um de nós tirar a vida de outro. Se todos os que matamos em pensamento desaparecessem de verdade, a Terra não teria mais habitantes. Trazemos em nós um carrasco reticente, um criminoso irrealizado. E os que não têm audácia de confessar suas tendências homicidas, assassinam em sonhos, povoam de cadáveres seus pesadelos. Ante um tribunal absoluto, só os anjos seriam absolvidos. Pois nunca houve ser que não desejasse - ao menos inconscientemente - a morte de outro ser. Cada qual arrasta atrás de si um cemitério de amigos e inimigos; importa pouco que esse cemitério seja relegado aos abismos do coração ou projetado à superfície dos desejos.
  • A liberdade, concebida em suas implicações últimas, coloca a questão de nossa vida ou da dos outros; comporta a dupla possibilidade de salvar-nos ou de perder-nos. Mas só nos sentimos livres, só compreendemos nossas oportunidades e nossos perigos, em certos sobressaltos. E é a intermitência desses sobressaltos, sua raridade, que explica por que este mundo não passa de um matadouro medíocre e de um paraíso fictício. Dissertar sobre a liberdade não leva a nenhuma consequência, nem para bem nem para mal; mas só temos instantes para dar-nos conta de que tudo depende de nós.


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