E QUEM DISSE QUE SER PUTA É RUIM?!

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Parabéns a todas as putas, messalinas, meretrizes, vadias, concubinas, vacas, piranhas, perdidas, rameiras, garotas de programa, prostitutas. Parabéns a todas vocês por fazerem do sexo uma cultura de entretenimento. Por enfrentarem tantos preconceitos apenas para saciar a fome de uma sociedade carente, e porque não doente, no tocante ao sexo.
Vocês que vendem prazeres momentâneos para quem prefere a ilusão do sexo irreal a ter que se regozijar com ele em sua naturalidade. Parabéns por darem a cara a tapa nas ruas e avenidas expondo a real face da prostituição. Muitas de vocês nasceram da miséria, da exclusão, da total falta de oportunidade. Outras poucas da curiosidade, do oportunismo, algumas até do mais puro fetiche. Mas, a ideia é a mesma: subverter o sexo, oferecendo-o como moeda de troca.
Parabéns por confrontarem o machismo, pondo-o em segundo plano. No quarto, são vocês que dão as cartas. Eles podem negociar, mas são vocês que dão a palavra final. Em meio a uma sociedade vulgarizada, banalizada quanto ao sexo, e ao mesmo tempo despreparada para fazê-lo, a prostituta continua ilhada de fantasia despertando os sensos comuns mais absurdos daqueles que não compreendem a sua função social.
Sim, vocês prestam um serviço de emergente utilidade pública. Proporcionam prazer àqueles cujos desejos foram negados ao longo da vida. Permitem que o gozo seja a sensação mais visceral do ser humano. Fingem, teatralizando orgasmos revestidos de cifrões. Mentem para o outro e, assim, conseguem desvendar seus temores mais profundos. Do outro lado, há um indivíduo que muitas vezes se engana para fazer parte desse espetáculo efêmero do prazer.
Na meia luz de um quarto, verdades e mentiras perdem seus reais significados. Só a satisfação importa. Não há medos nem ressentimentos. O risco de se contrair algo venéreo existe, mas não atemoriza esses atores. Esses personagens não carregam o estigma da morte como antes. No passado, sua presença era motivo de doença. Despertava temor, repulsa e condenação por parte dos mais puritanos. Hoje essa áurea não se desfez por completo, porém há muito mais saúde em vocês do que em seus clientes engravatados e bem casados. Na verdade, quem se prostitui são eles, vocês apenas lhes fazem um favor.
Prestação de serviço rápida, barata e eficiente, um verdadeiro fast food do prazer. Vocês são guerreiras. Vivem vidas duplas, triplas. Trabalham, estudam, sustentam famílias inteiras. A noite, além de usarem o corpo para satisfazer a lasciva mentalidade do outro, ainda são psicólogas, terapeutas, conselheiras, mesmo sem formações para isso. Tudo é feito para agradar o cliente e garantir o pão de cada dia. Na pior das hipóteses, a noite mostra a suas garras. Por isso são perseguidas, roubadas, até mortas e esquecidas pelas autoridades.
Para se proteger, criam uma couraça sob si mesmas que beira à marginalidade. Há quem não entenda, mas na selva de pedra da madrugada, é preciso estar a espreita dos grandes predadores. Por essa razão, muitas de vocês saíram do gueto, onde ruas e avenidas escuras serviam-lhes de refúgio. A preferência agora é estar mais perto do alvo, mesmo que de forma silenciosa, obscura. Não se pode revelar o sexo por completo, pois isso pode estragar o script da sedução.
De tão talentosas, já se tornaram temas de músicas, filmes, novelas e seriados. Estão no mais alto escalão das sociedades modernas. Muitas passam despercebidas pela multidão. Falam bem, são refinadas, formadas e fisicamente desenhadas para despertar as mais abstratas reações. São chamadas de acompanhantes, eufemismo que suaviza o peso do pecado da palavra puta, porém carrega os mesmos mistérios de seus sinônimos.
Isso aquelas que brotaram nesse ramo por opção, as outras, oriundas das mazelas sociais, se viram com podem. A maioria já são vendidas desde novas e se veem encarceradas em um mundo onde a prostituição é a sua única rota de fuga. Crianças são prostituídas a partir disso. Como também as travestis, que infelizmente encontram nessa vida sua única fonte de renda. Porém, não podemos culpa-la por isso, já que há outras razões para estas demandas lamentavelmente ocorrerem.
Parabéns a vocês por encorajar as mulheres casadas a se libertarem em seus quartos, inovarem na cama, se permitirem a serem putas por um breve instante. Graças a vocês prostitutas, as relações conjugais ganharam a chance de reinventar o sexo, este que muitas vezes é limitado por questões morais, sociais e religiosas, as quais ignoram a importância do prazer dentro de uma relação.

Parabéns a vocês mulheres, sofredoras e mágicas. Essa dualidade que lhes foi atribuída é fruto de uma cultura mal resolvida sexualmente. Não se penalizem por causa disso. Nem muito menos se culpem. Sentimento de vergonha quem deve ter são todos nós, hipócritas bordeleiros, que buscamos sorrateiramente seus serviços na calada da noite, no escuro pecaminoso de ruas, clubes e bordéis. Parabéns por jogar na cara da sociedade essa dualidade e, ainda assim, estarem sempre lindas, maquiadas e dispostas a nos prestar esse favor. Não importam seus nomes nem seus rótulos, o importante é ter ciência que ser puta nunca foi o principal problema da prostituição. A prostituta é o termômetro do nosso fracasso quanto ao sexo e suas vertentes. É o puxadinho que falta em muitos de nossos latifúndios.

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