Chega de Mentiras!

19:38


Esconder, omitir, mascarar, dentre tantas outras palavras do mesmo campo semântico, sempre estiveram presentes nas atitudes humanas como recursos eufêmicos para justificar práticas, muitas vezes ilícitas. Na realidade, na essência de cada uma delas paira outra palavra da qual elas foram derivadas, a mentira. Esta, como se sabe, configura-se como a ausência da verdade, quando a pessoa que a propaga faz isso de forma maledicente, ou seja, com o intuito de prejudicar o outro, seja conscientemente ou não. Muito além dessa conceituação, as inverdades humanas chegam à contemporaneidade como armas de dissipação da violência, de veiculação de ideologias falsas e, principalmente de exclusão social, dividindo a humanidade entre seres superiores e inferiores.

Foi por causa dessa ampliação dada à mentira que muitas pessoas sofreram e ainda sofrem com o desamor dos outros integrantes da sociedade. Quando no passado da construção do povo brasileiro, os nossos colonos escravizaram, humilharam, torturaram e mataram os negros, justificando para isso que a cor negra da pele dos escravos era inferior a deles, eles estavam propagando falsas ideologias, baseado apenas na irracionalidade e na ausência de conhecimento de suas mentes primitivas. No presente isso culminou no preconceito velado que muitos nutrem contra a negritude de um povo marcado pela discriminação.

Muito tem se falado em longevidade, na qual pessoas vivem cada vez mais e melhor, com acesso a tudo o que possa propiciar uma vida longa e feliz. Entretanto, é muito difícil manter uma vida duradoura e com felicidade, quando os idosos desse país são desrespeitados nas filas dos bancos, ou nos assentos preferenciais dos ônibus. Ou ainda, quando algum deles procura um atendimento de qualidade na esfera pública de saúde e não encontram. Ou então, na luta para comprovar, numa idade certa, que já estão aptos a serem aposentados, e assim, terem seus direitos garantidos. Mesmo assim, é muito mais simples mentir dizendo que as pessoas estão vivendo mais, escondendo das estatísticas um modelo de vida marcado pelo sofrimento e pelo descaso.

Por um problema semelhante passa os deficientes físicos. Mesmo com os avanços tecnológicos, com equipamentos que ajudam muitos deles a levarem uma vida tão comum como as de outras pessoas, infelizmente nem todos têm condições de usufruir de tais avanços. Muitos não podem comprar certos equipamentos e acabam sendo privados de participar das atividades mais corriqueiras da sociedade. Além disso, ruas, avenidas, lojas, escolas e uma infinidade de lugares não são ajustados para atender devidamente essa parcela da população. Porém, para nós, é muito fácil excluir esses indivíduos, fingindo que eles vivem uma vida tranquila, a ter que promover uma revolução social para garantir uma mudança significativa na vida deles, descortinando mais essa mentira.

Nessa linha de mentiras e incertezas vive o sistema prisional do Brasil. Com selas lotadas de detentos vivendo em condições subumanas, os presídios do país seguem a sua rotina de aglomeração, com homens e mulheres à espera de julgamento, convivendo com estruturas deficientes e despreparadas, para realizar uma possível ressocialização, capaz de reenquadrar esses indivíduos no meio social. Porém, para os nossos governantes, criar leis que liberem esses prisioneiros, ou que dificultem o acesso deles aos presídios, serve de paliativo mentiroso para obscurecer o já negro quadro do sistema presidiário do Brasil.

O que falar então das mentiras que são veiculadas sobre as melhorias na educação de base aqui no Brasil. São índices mascarados, dados alterados, gráficos manipulados, tudo para tentar criar uma comprovação ilusória de que o ensino público melhora a cada dia. No entanto, na realidade, o que se vê nas escolas são os mesmos problemas de décadas atrás, professores mal remunerados, escolas com estruturas precárias, metodologias ultrapassadas de ensino, alunos desestimulados e o pior, descaso governamental para sanar essas moléstias da educação, tão antigas e fadadas a eternalidade.

O ser humano luta dia após dia para sobreviver nessa terra sem lei da qual são lançados no momento do nascimento. Numa corrida contra o tempo, cada indivíduo trava uma verdadeira batalha para permanecer vivo, escapando da fúria inconsequente dos membros de sua própria espécie. Quantas e quantas pessoas enfrentam grandes obstáculos, apenas para provarem que são dignas de respeito? Quantas outras passam anos de suas vidas lutando para serem aceitas pela sociedade? Sem contar aquelas que travam verdadeiras guerras contra a intolerância e o desrespeito alheio.

Por isso, em respeito a esses e outros problemas que assolam a nossa realidade, as inverdades proferidas por todos que compõe essa sociedade devem ser revistas e, sobretudo reavaliadas, no intuito de buscarmos formas consistentes que possam transformar de uma vez por todas essas mentiras que insistimos em disseminar. Minimizar a hipocrisia deve estar nas metas de cada cidadão, desde a formação educacional de uma criança até a reflexão dela na fase adulta. Seja como for, não podemos mais fechar os olhos para a realidade circundante. Temos sim, que ampliar o nosso campo de visão para converter essas mentiras em verdades verdadeiras.

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3 FELICIDADES

  1. Infelizmente (mesmo) são estes os que mais se adaptam à realidade dessa sociedade descrita por você: os mentirosos, os hipócritas, os preconceituosos, os mascarados.
    Aliás, são estes os requisitos para se tornar um ser "superior"; com poder - principalmente no Brasil.
    Bjoks e bom domingo.

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  2. Oi, Diogo! A mentira é o sustentáculo do poder (junto com o dinheiro). Já nas relações sociais cotidianas, você me fez lembrar de um excelente artigo (que vai virar livro em breve) de um jornalista alemão que resolveu investigar o assunto e passou 40 dias sem falar uma mentira sequer. Ele se deu muito mal na maioria dos aspectos. Depois , se voce se interessar,acesse o esse link e leia. Abração. paz e bem.

    http://revistagalileu.globo.com/Revista/Common/0,,EMI241709-17770,00-SOMENTE+A+VERDADE.html

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  3. perfeita a sua análise querido ... aliás, como sempre né?

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