A morte antecipada de Niemeyer - por Luís Antônio Giron

08:42


A morte do arquiteto Oscar Niemeyer era a notícia mais antiga do Brasil. Os obituários agora publicados foram escritos havia muitos anos, até mesmo por gente que veio a morrer antes de Niemeyer. Quem trabalha em redação sabe que as celebridades com mais de 60 anos ou até menos devem ganhar um obituário por antecipação, para que o redator não seja pego de surpresa quando alguma delas venha a morrer. Os necrológios de Niemeyer são produzidos há mais de 20 anos. Bem mais. Em 1994, o crítico e professor Teixeira Coelho publicou o livro Niemeyer: um romance. Narra as angústias de um biógrafo amador que espera a morte de Oscar Niemeyer para escrever a biografia “definitiva” do arquiteto. Mas, como Niemeyer não morre, o biógrafo fica à mercê do biografado, preso ao dia-a-dia opressor, curvado às decisões de sua mulher controladora, Beatriz B. Há onze anos, o livro ganhou uma segunda edição. Agora merece ser republicado, porque a tristeza do biógrafo de Niemeyer recebeu um sopro de dramaticidade. Até porque o personagem se foi bem antes de Niemeyer, 18 anos antes, sem poder concluir a sonhada obra, fracassado no ensaísmo e no casamento. A crítica disse que o personagem é um alter ego do próprio Teixeira Coelho, que sempre sonhou em escrever a biografia de Niemeyer. Chegou a hora, professor. Já para os jornalistas, a hora da morte precisa ser antecipada. A morte de Niemeyer era aguardada e sua vida, devidamente redigida.

Muita gente famosa sabe disso. Celebridades são entrevistadas e, quando não veem nada publicado, se dão conta de que deram um depoimento à posteridade. Devem sentir calafrios ao pensar nisso. Em geral, os vivos célebres que um dia vão morrer não são nem mesmo consultados. É preciso ser previdente: gente que nunca morreu sempre morrerá pela primeira vez e precisará de um texto de preferência elogioso. A sensação de que alguém está escrevendo o seu obituário neste momento deve ser pouco agradável, salvo para aqueles que, tomados pelo egocentrismo, sentem-se confortáveis com a eternidade; entendem que as reticências do texto precisarão ser preenchidas tão logo partam. Devem sentir como ninguém o significado do verso do poema “Um lance de dados”, de Stéphane Mallarmé, que preconiza o “ulterior demônio imemorial” (“ultérieur démon immémorial”), a noção da morte que o poeta deve possuir, para seguir seu trabalho no ossuário de outros poetas. Autobiografias são uma espécie de obituários premonitórios escritos por autores que querem dar a palavra final em tudo, até mesmo em sua posteridade. Infelizmente, o mundo e a posteridade se encarregam de contrariá-lo.  

Dessa forma, a exigência do necrológio adiantado cria algumas distorções. A pior delas é que não existem praticamente obituários puros, escritos no calor da hora. Eles poderiam trazer alguma emoção. Um texto dramático sobre alguém que morre de repente é sempre mais interessante que uma peça pré-fabricada. Obituário é o gênero literário que mais evita a imprevisibilidade; daí ser difícil praticá-lo com alguma elegância. Geralmente, os textos dos obituários ostentam o tom frio e distante – quando não alegre. Isso porque quem o está redigindo não se encontra no momento da escritura envolvido emocionalmente com o assunto. Em geral, o redator encarregado do serviço fica de mau humor e costuma varrer a vida e a obra da celebridade em questão da forma mais burocrática possível, para assim se livrar rapidamente da tarefa desagradável. Este é um dos temas do romance Afirma Pereira(1994), do italiano Antonio Tabucchi, que foi levado ao cinema em 1996, com Marcello Mastroianni no papel de Pereira. O editor de um diário de Lisboa no tempo da ditadura de Salazar contrata um jovem jornalista para redigir obituários de escritores famosos ainda vivos. Ele se chama Pereira, e é só o começo de uma aventura política. O obituarista serve apenas como um mote para um enredo maior. Na redação, Pereira sua para escrever obituários de seus autores favoritos ainda vivos. E, se algumas vezes ri da situação, acha tudo aquilo horrível. Até porque existe uma superstição segundo a qual redigir obituários dá azar. Quem o faz corre o risco de morrer antes do morto futuro. E isso acontece de fato.


Em abril de 2005, a revista Época publicou o elogio fúnebre de João Paulo II, escrito pelo famoso jornalista polonês Tad Szulc, que havia morrido quatro anos antes. Um texto comovente e repleto de detalhes escrito por um compatriota – que estava na gaveta da redação havia anos. Os leitores aplaudiram a iniciativa. 
O caso se repete agora. O jornal londrino The Guardian publicou ontem, na noite da morte de Niemeyer, um brilhante obituário escrito pelo crítico de arquitetura Martin Pawley – que morreu em 2008. Ele deixou as reticências para serem completadas com os dados da morte do morto. O redator anônimo do Guardian que completou o texto ciosamente citou os prédios de Niemeyer construídos muitos anos depois da morte do autor do necrológio. Pawley ganhou, em março de 2008, um obituário de seu colega David Jenkins, que ainda vive. Mas não consigo deixar de pensar em uma história em que Jenkins já havia escrito o obituário de Pawley, e morrido antes dele.
Essa corrente de obituários que se unem a outros obituários novos e antigos me leva a pensar que não faz diferença se um morto é analisado por um vivo ou por outro morto. Aliás, um morto recente abordado por um morto mais velho fornece respeitabilidade ainda maior ao conteúdo do texto. Soa como se o redator fizesse o papel de anfitrião do seu biografado nos portões do Paraíso – e o recebesse por lá como um especialista em sua obra e contribuição à humanidade. Ninguém melhor credenciado que um morto para falar de outro. Mais ainda um morto antigo que trata do morto recém-chegado ao outro mundo. Imagino que Pawley tenha aberto ontem um sorriso para recepcionar Oscar Niemeyer no céu. Os dois devem estar rindo das penosas tarefas dos vivos, uma delas a dos redatores eternamente obrigados a viver antecipando a morte alheia.
Visto no: Época

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1 FELICIDADES

  1. Caramba!! Imagino o quão dispendioso para os jornalistas devem ter sido mortes inesperadas como as de Ayrton Senna e Mamonas Assassinas...

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