Essencial e Verdadeiro

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Podia ser o horário que fosse. Se Caio Fernando Abreu sentasse à frente de sua máquina para escrever, acendia antes uma vela para Virginia Woolf, ao lado do retrato que mantinha da escritora inglesa na cabeceira da cama. Depois, mil laudas em branco, um cigarro atrás do outro, música e café com conhaque eram suficientes para o escritor, jornalista e dramaturgo cumprir o único dos ofícios que dizia saber. Criar era, para ele, “sangrar a-bun-dan-te-men-te. Porque dói, dói, dói. É de uma solidão assustadora”, como escreveu certa vez a um amigo.

Mas, com as palavras no papel, Caio era mais ele. Bastava uma noite para desprender os sentimentos díspares e a sensação de não pertencer a lugar algum. “Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais autodestrutiva do que insistir sem fé nenhuma?”, destilava ele. Tão perceptível hoje, passados quinze anos de sua morte– em decorrência de complicações causadas pelo vírus da aids –, como desde os primeiros textos escritos aos 6 anos de idade em sua cidade natal, Santiago do Boqueirão, no interior do Rio Grande do Sul. Virginiano de 12 de setembro de 1948, era o primogênito do casal Nair e Zael Abreu, respectivamente educadora – com formação em história e pedagogia – e militar.

Ainda jovem, com 15 anos, mudou-se para a capital gaúcha para cursar o colegial no internato Instituto Porto Alegre. Pouco depois, ingressou em Letras e em Artes Cênicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mas não concluiu nenhum dos cursos. Acontece que, com 20 anos, atendeu ao primeiro dos muitos chamados que norteariam sua vida: após ser selecionado em um concurso nacional, embarcou para São Paulo para integrar a primeira redação da revista Veja. Era o ano de 1969.

Nos dois anos seguintes, publicou o primeiro livro de contos, Inventário do irremediável, passou pelas redações das revistas Manchete, Pais e Filhos e do jornal Zero Hora, além de preencher as prateleiras com a segunda obra: o romance Limite branco.

ALMA INADEQUADA
“Caio tinha vocação para a tristeza”, atesta a jornalista Paula Dip, que conheceu o escritor em 1979 quando trabalharam juntos em uma editora paulista. “Como todas as vocações, é difícil dizer de onde veio a dele. Acho que um pouco estava no DNA da nossa geração, mas também acredito numa espécie de sopro divino”, diz ela, que em 2009 lançou Para sempre teu, Caio F. Na obra, ela destrincha a relação de muitos anos com o escritor, que, reciprocamente lhe dedicou contos, correspondências e peças literárias.

Paula conta que Caio sempre se sentiu diferente e excluído, sentimentos que o arrebatavam e o intimavam a aprender a conviver com sua bipolaridade, quando tal distúrbio nem era assim conhecido. Todavia, o impelia a diversas crises depressivas, que o faziam beirar o suicídio.

A inadequação ao mundo de Caio Fernando Abreu, de alma cigana, se traduzia também em um constante mudar de casas, cidades, estados e países. Em 1973, por exemplo, embarcou para um autoexílio pela Europa. Passou por Paris, lavou pratos em Estocolmo e tomou o rumo de Londres, onde viveu como hippie e chegou a trabalhar até como modelo vivo. Ali, o “escritor da paixão”, como a ele se referia Lygia Fagundes Telles, respirava as últimas baforadas e viagens psicodélicas do movimento Flower Power antes de voltar ao Brasil e preparar os futuros O ovo apunhalado (1975) e Pedras de Calcutá (1977).

MULTIFACETADO
Conhecer Caio Fernando Abreu era estar diante de um homem sem igual, como afirmam aqueles que se honram com o título de seus amigos. “Ele era intenso, superlativo, passional, amoroso, irônico, profundo, culto, inteligente, denso e de uma extrema sensibilidade”, relata o ator Marcos Breda, que conheceu o escritor em fevereiro de 1986.

Ser humano multifacetado, Caio era vegetariano macrobiótico, embora, às vezes, se fartasse em uma boa churrascada ou com uma porção de camarões. Era católico de batismo e de primeira comunhão, cresceu rosacruz, consultou videntes e cartomantes, foi budista, kardecista, frequentava terreiros de candomblé, experimentou a Ayhuasca, lia Krishnamurti, acreditava em óvnis e estudou astrologia por mais de trinta anos.

Esse mesmo homem era também briguento e ciumento. Adorava as noites do Ritz e do Espaço Pirandello, em São Paulo. Assim como mergulhava em festas intensas, regadas a drogas e boa música, e fazia sexo com toda a liberdade defendida por sua geração.

ÍCONE DE SEU TEMPO
Quando o sonho da contracultura acabou, na década de 1980, Caio estava ali, com o fardo que carregou durante anos. A aids era a realidade que levou embora boa parte de seus amigos e namorados. A dor da perda, entretanto, não o intimidou. Jornalisticamente, continuou a escrever reportagens e crônicas para veículos como O Estado de S. Paulo, enquanto ia firmando seu nome entre os maiores na literatura, especialmente com o que é, até hoje, seu maior sucesso editorial: Morangos mofados (1982). Também faturou o prêmio Jabuti três vezes com o Triângulo das águas (1984), Os dragões não conhecem o paraíso (1988) e com o que ele intitulou como “pré-póstumo”, Ovelhas negras (1996).

“Sua obra, especialmente nos contos, aborda os personagens de um modo peculiar: eles estão sempre um pouco fora de foco. Quer dizer, nunca se sabe se são aquilo que dizem ser, pois pensam atropeladamente e têm muitas incertezas, talvez por serem um tanto assustados. E esse é o segredo da obra do Caio: seu estilo é o estilo dos seus personagens”, destaca o escritor e amigo João Silvério Trevisan, que conheceu Caio em 1976.

Outro profundo conhecedor da produção do autor gaúcho é o poeta, editor e professor de literatura da Universidade Estadual do Rio de Janeiro Italo Moriconi, responsável por publicar em 2002 o livro Caio Fernando Abreu – Cartas (esgotado).

“Eu diria que a sensibilidade e a delicadeza são as características mais fortes de seus escritos, mesmo quando trabalham textos pesados. E as suas cartas nos mostram como pode ser intenso o cotidiano banal. Elas revelam para o mundo suas angústias, ansiedades e, às vezes, um pouco de tédio também”, afirma.

PAIXÃO A-LI-MEN-TO
Na última década de vida, os anos 1990, Caio conhecia os louros do sucesso, embora não tenha guardado nenhum dinheiro ou adquirido posses. Preocupava-se, como sempre, em escrever. E assim lançou seu livro de maior repercussão internacional: o romance Onde andará Dulce Veiga?

Somente em 1994, já com alguns problemas de saúde, ele aceitou fazer o exame que lhe confirmou ser portador do HIV desde 1985. Diante da certeza da morte, que o levaria em 25 de fevereiro de 1998, o escritor decidiu viver mais. “Ele voltou para a casa dos pais no bairro Menino Deus, em Porto Alegre. Também não reclamava mais da vida. Ficou em paz consigo mesmo, aceitou o pouco que lhe restava e trabalhava furiosamente em sua obra”, revela Paula Dip.

A maior dor, contudo, foi, talvez, a ausência do amor definitivo. “Caio se alimentava de paixão. Mas, por ser mais atento e sensível que a maioria, não suportava relações mornas: assim que percebia a fugacidade da paixã, quebrava tudo, ia embora, se decepcionava, sofria. Ele mesmo dizia que, se encontrasse um amor duradouro, talvez parasse de escrever”, conta ela.

Talvez também por isso Caio tenha dito, certa vez, que a epígrafe, a síntese e “quem sabe epitáfio” de tudo o que produziu seria a frase que até hoje pode ser lida na fachada da casa número 19 do Quai de Bourbon, em Paris: “Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta”. Foi escrita pela escultora Camille Claudel para seu mestre e amante, Auguste Rodin, em 1886. ©

Fonte: Revista da Cultura

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