09 janeiro 2012

Atente para o que diz.
A sua palavra edifica, eleva e agrada.
Mas também destrói, rebaixa e machuca.
O que sai de sua boca é força criadora.
A palavra proferida e pensada passa a produzir efeitos.
Não há como fazê-la retornar.
Por isso, cuide-se no falar. Evite excessos.
Regre-se pela verdade e sensatez.
Regule o tom de voz.
Não fale alto, nem seja rude.
Transmita paz, certeza, carinho, alegria.
Quando minhas provações se tornam muito grandes, busco a compreensão, primeiro, em mim mesmo.
Não ponho a culpa nas circunstâncias, nem tento corrigir os demais.
Primeiro eu me interiorizo.
Tento limpar a cidadela do espírito para remover tudo o que obstrua a todo-poderosa e plenamente sábia expressão da alma.
Esse é o modo de viver que produz o êxito.
Doenças e dificuldades nos trazem uma lição.
Nossas experiências dolorosas não foram feitas para nos destruir, mas para incinerar nossas impurezas e nos apressar, na nossa volta ao Lar.

"Ninguém está mais ansioso pela nossa libertação do que Deus. "
Yogananda


Turbilhão

Moacyr Franco

A nossa vida é um carnaval
A gente brinca escondendo a dor
E a fantasia do meu ideal
É você, meu amor
Sopraram cinzas no meu coração
Tocou silêncio em todos clarins
Caiu a máscara da ilusão
Dos Pierrots e Arlequins

Vê colombinas azuis a sorrir laiá
Vê serpentinas na luz reluzir
Vê os confetes do pranto no olhar
Desses palhaços dançando no ar
Vê multidão colorida a gritar lará
Vê turbilhão dessa vida passar
Vê os delírios dos gritos de amor
Nessa orgia de som e de dor

La lalaia lalaia lalaia


Por Tiago Duque*

Quando a notícia de que os vereadores de São Paulo aprovaram o Dia do Orgulho Heterossexual, de autoria do vereador Carlos Apolinário (foto), começou a provocar polêmica e vergonha entre grande parte dos eleitores paulistanos, fiquei curioso para conhecer as justificativas de tal iniciativa. Logo consegui encontrar o texto aprovado no Google. Afinal, o que não encontramos por lá?

No entanto, o que li não vale a pena reproduzir aqui. É mais raso do que qualquer bem intencionado possa suportar. Penso que houve aí uma grande perda de oportunidade. Já que se propôs tal projeto, ao invés de na motivação da lei terem reforçado o preconceito contra não-heterossexuais, porque não buscaram salvar os heteros das suas próprias opressões? Deveriam por em debate que as coisas como estão não são boas para ninguém, nem mesmo para eles.

Por que não justificar o dia do orgulho hetero considerando a heterossexualidade compulsória (que a todos nós recai) uma forma limitadora de vivenciar a sexualidade? Afinal, ela busca reduzir os corpos e os prazeres tornando-nos crentes na falácia da existência de uma prática sexual e uma vivência do desejo da qual não temos como fugir, natural. E, pior, crentes na mentira de que nossa experiência sexual está ligada enquanto destino e funções à biologia dos corpos, isto é, a possíveis reações hormonais e respostas sexuais que não podemos mudar.

O dia do orgulho hetero deveria ser aquele dia para denunciar o quanto é contraditório educarmos as crianças (sim, isso começa muito cedo) a "pegar todas" se for menino e se for menina "não pegar ninguém". Porque não repudiamos essa injustiça que atinge tantas pessoas, supervalorizando um masculino idealizado em detrimento de um feminino subalternizado?

O fato dos heterossexuais terem conquistado o direito ao divorcio no Brasil, dos heteros (especialmente as mulheres) terem sido contemplados por leis que criminalizam a violência doméstica e de haver possibilidades seguras e difundidas de prevenir a gravidez não seriam motivos suficientes para ter um dia "só para eles" festejar e buscar novas conquistas ainda mais libertadoras?

Todos estes ganhos são importantes porque nos fazem reconhecer que, para muita gente, a família e o casamento não são os lugares de maior proteção e acolhida. Mas, ainda há muito que avançar. Por isso, volto a defender que no ano de 2012 tenha um dia dedicado aos heterossexuais, ainda que eles não morram na mesma proporção que os não-heterossexuais por terem uma sexualidade e uma vivência do gênero diversificada do que se espera socialmente.

No sentido de reverter a lógica inicial do projeto do dia do orgulho hetero, pergunto: qual data poderíamos dedicar aos heterossexuais? Qual dia do nosso calendário poderia ser marcado identitariamente como símbolo da luta dos heteros, entre outras coisas, para buscar mais gente comprometida com as causas que não são só deles, mas aprendemos que são apenas eles os responsáveis, como a louvável luta pela descriminalização do aborto e por uma moral menos monogâmica?

Talvez nos dias dos pais ou das mães, afinal há maior injustiça do que a mulher crescer aprendendo que só vai ser plena se engravidar e parir? Não é sofredor o homem só ser autorizados e visto como não perigoso em relação às crianças quando veste a aparência assexuada de papai? O slogan poderia ser: "Todos contra o amor romântico!".

E que tal no dia 25 de dezembro? Por ser uma festa cristã, poderíamos olhar para outras dimensões da sagrada família que estão quase sempre escondidas: Maria era absolutamente mais jovem que José, ele assumiu um filho que não era dele, estavam com os animais devido a serem portadores de muitos estigmas - pessoas tidas como indesejadas e miseráveis.

Outra data sugestiva poderia ser os dias da folia de Momo. Porque, se há certa "liberdade" sexual para os heteros, essa "liberdade" (ainda bastante conservadora) ocorre nos dias de carnaval. Parece que para eles estes dias são esperados porque algumas convenções e normais de gênero e sexualidade podem ser flexibilizadas, como mulheres exporem mais seus corpos e homens se vestirem de mulher. No entanto, vale a pena lembrar que esta flexibilização no fundo reforça as regras que são cobradas o ano todo: de que mulher não pode se expor e que homem não deve ser feminino.

Ah, mas acho que parada do orgulho hetero não deveria existir. Creio que a luta hetero poderia começar ganhando visibilidade dentro das casas, nas camas, cozinhas e banheiros. Seria um dia ideal para reunir a família e dizer coisas que não são ditas. Propor coisas que não são bem vistas, reverter lógicas e criar confusão.

Mas, se for mesmo ter que caminhar unidos pelas ruas e avenidas, que seja em prol da vergonha! Da importante manutenção da vergonha que é ser visto como alguém que não se dá o respeito, da transformadora vexação de assumir que não se acredita na família tradicional, de que não se está preocupado em amar para reproduzir e do papel importante que é a humilhação de assumir que se vive uma heterossexualidade que não é a esperada socialmente.

Os gays também poderiam ir a esta caminhada. Há muitas coisas que os gays precisam aprender com a vergonha alheia. Quem sabe vão se sentir menos orgulhosos com o respeito vindo via o conservadorismos de se adaptar às regras heterocentradas? Por isso que o dia do orgulho hereto pode ser importante, para contrapor uma onda de moralismos que está para além da própria heterossexualidade. Viva o dia do orgulho (da vergonha) heterossexual!

*Tiago Duque é sociólogo e tem experiência como educador em diferentes áreas, desde a formação de professores à educação social de rua. Milita no Identidade - Grupo de Luta Pela Diversidade Sexual. Gosta de pensar e agir com quem quer fazer algo de novo, em busca de um outro mundo possível.


Visto no: A Capa

03 janeiro 2012

Contam-se nos dedos os bons filmes produzidos por Hollywood. Infelizmente, o mesmo pode ser dito de Bollywood, a indústria de cinema indiana. Por isso, é uma grata surpresa se deparar com pérolas raras como o filme “Como Estrelas na Terra – Toda criança é especial” (“Taare Zameen Par – Every child is special”, no original, lançado nas salas indianas no fim de 2007). O filme rapidamente conquistou uma legião de admiradores na Índia e no mundo, recebendo os prêmios de melhor filme e melhor ator pela crítica, além do prêmio de melhor direção, para Aamir Khan, e de melhor letra de música pelo Filmfare Awards.

“Como Estrelas na Terra” revela extrema sensibilidade e consegue captar a magia do universo infantil, mostrando que crianças são crianças em qualquer lugar do mundo. A história é centrada em Ishaan Awasthi, de 8 ou 9 anos de idade, que sofre com dislexia, dificuldade de aprendizado e, pior, incompreensão. O filme contrasta o mundo massificante orientado para o capitalismo com a valorização do indivíduo, com suas diferenças, virtudes e defeitos.

Incapazes de lidar com o “filho problema”, os pais de Ishaan resolvem matriculá-lo num colégio interno. Ali o garoto se fecha ainda mais em seu mundo depressivo. Com saudades da família e oprimido por professores insensíveis, o menino começa a “morrer” aos poucos.

Mas tudo muda quando um professor de arte substituto chega ao colégio e percebe que há algo de errado com Ishaan. Tem início, então, a aventura de “ressuscitar” o garoto que, na verdade, se revela um gênio da pintura.

É um filme emocionante, bem feito e que vale a pena ser visto por toda a família.

Michelson Borges



Eu Velejava Em Você

Maria Bethânia

Eu velejava em você
Não finja!
Como coisa que não me vê
E foge de mim...
A boca tremia,
Os olhos ardiam
Oh! Doce agonia
Oh! Dor de viver
De ver sua imagem
Que eu nunca via
Sua boca molhada
Seu olhar assanhado
Convite pra se perder
Minha alma cansada
Não faz cerimônia
Você pode entrar sem bater
Pois eu já velejei em você
E foi bom de doer
Mas foi, como sempre, um sonho
Tão longe, risonho
Sinto falta,
Queria lhe ver...

02 janeiro 2012


Como se sabe, na infância é construído as primeiras bases da aprendizagem humana. Nela a criança aprende e depreende sobre a realidade circundante, acumulando conhecimentos de várias áreas e de maneiras diversas, num processo de absorção crucial para a sua formação enquanto individuo pensante. Nesse período, a presença de segmentos sociais é determinante para a consolidação desse processo, desde a família, elemento chave nesse curso de evolução infantil, e da escola, responsável pela adequação desses infantes ao mundo exterior. Esta última instância, no entanto, luta há anos para adotar métodos educacionais que preparem de forma eficaz os pequenos, porém, está tarefa não é exercida com total maestria, uma vez que a rota entre as teorias pedagógicas e a prática da docência muitas vezes não se encontram. Isso se dá por inúmeros fatores, mas, o principal é que a educação como um todo, no Brasil, ainda não é priorizada como deveria.
 
Melhorar a qualidade do ensino, essa é uma das muitas atribuições dadas às teorias pedagógicas que vão desde a escola Tradicionalista até o modelo revolucionário de Paulo Freire. No geral, essas tendências exercem o papel de melhorar o ensino-aprendizagem e assim ampliar as chances dos alunos de serem realmente educados. Como muitos educadores fazem questão de ressaltar, não existe teoria x ou y que seja mais eficaz do que outra. O que existem são contextos diferentes em que elas podem ser usadas, juntas ou separadas, para possibilitar a execução de um trabalho contundente com os alunos. Contudo, muitos desses métodos esbarram na fadada máquina pública que não preparam seres pensantes, mas sim máquinas que irão reproduzir e perpetuar esse sistema tecnicista de compra e venda que o capitalismo fincou na nossa cultura. Ou seja, a real função de educar, de criar seres autônomos, como bem desejou Paulo Freire, já não existe. O que há é uma educação focada em preparar pessoas para simplesmente ganhar dinheiro, alimentando a fome voraz do consumismo.
A verdade é que, por um lado, o país tem investido massiçamente em educação. São mais escolas sendo construídas, em locais onde a educação tardou a chegar. Consequentemente mais profissionais estão sendo contratados para suprir essa demanda. E o bom de tudo isso é que mais crianças estão tendo a oportunidade de trilhar um caminho menos obscuro, ganhando a chance de obter um futuro mais promissor. Entretanto, por outro lado, esse mesmo país, que investe tanto na educação, não investe também na fiscalização desse educar. Ou seja, não adianta apenas aumentar a oferta financeira se não há como fiscalizar o trabalho exercido pelo corpo docente e o aprendizado das crianças. Dai vem à necessidade de acompanhar o método do qual os profissionais da educação estão utilizando em sala de aula. Qual é a perspectiva educacional de cada professor? Qual a tendência pedagógica utilizada por ele? De que forma ele consegue contornar as adversidades cotidianas dentro do ambiente escolar?




Essas indagações devem ser respondidas à luz da vivência de todos os integrantes da escola. Não se pode limitar o olhar para livros paradigmáticos e teorias utópicas, se na realidade não há um trabalho de contextualização do que é aprendido pelo professor. A educação brasileira deve sair desse cenário de ilusão do qual os protagonistas são os belos métodos que dizem incluir, revolucionar e transformar o caos existente neste modelo pseudoeducativo, no qual muitas das nossas crianças estão inseridas. E a educação infantil não pode ser vista como mera coadjuvante, mas sim como estrela principal do palco da mudança. Para isso, os professores devem cumprir com o seu papel e não apenas esperar do governo providências milagrosas. Se nada foi feito antes por eles, cabe aos educadores o exercício da mudança, mesmo que de forma lenta e gradual. Se o educar é uma tarefa cada vez mais difícil a culpa não é só do governo, mas da permissividade familiar e da falta de comprometimento de alguns profissionais. Logo, teorias e práticas só terão um real encontro quando as mentiras que rodeiam o círculo educacional forem realmente desfeitas.