A obrigação de se fazer feliz é sua

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Refletindo sobre a minha própria vida, percebi que quase todos nós perdemos tempos demais. Isso não é uma suposição, não é uma indagação. É uma afirmação. É uma observação. A grande maioria das pessoas que conheço gasta os dias esperando os dias passarem. Esperando as horas avançarem, as semanas acabarem, os meses terminarem, os anos virarem, mas elas não esperam quase nada de si. Elas querem que os relógios deem conta de conquistar a vida por elas.
Não faz muito tempo e o meu sonho era ter 18 anos. Eu achava que uma tatuagem e um alargador transformariam a minha vida. Eu tinha certeza absoluta que poder entrar em todas as festas, beber ou chegar tarde em casa faria total diferença para mim, para os meus dias e para as coisas que soavam divertidíssimas e empolgantes aos meus olhos um tanto quanto impressionados com a vida adulta.
Hoje, meu braço é tatuado, minha orelha carrega um alargador, ninguém pergunta mais se eu tenho idade para beber ou se importa se eu virar três noites seguidas sem dormir, mas minha vida não se tornou nada parecido com o parque de diversões que eu imaginaria que fosse. Não que eu não goste do traço, da marca permanente no meu corpo, não que o alargador que me ajudou a superar meu trauma por ter uma orelha grande não seja especial, não que eu não suporte o sabor de cerveja ou sinta sono às duas da manhã e já implore para ir para casa, mas é que eu pensei que isso tudo seria mais legal.
Com o passar dos anos, com o ganhar da maturidade, uma coisa que quase nenhum pré-adolescente pensa, mas todo adulto sofre, é com o censo de responsabilidade e a necessidade de ser bem sucedido. Hoje, as pessoas meio que enterraram o – fazer por amor – das escolhas profissionais. A onda da vez é – fazer por dinheiro para ter dinheiro para fazer por amor.
Nos meus tempos de colégio, os testes vocacionais diziam que era para eu me imaginar dez anos na frente e pensar se estaria feliz com aquela opção de trabalho. Mas olha, veja bem, é difícil pedir isso a qualquer pessoa que só tem como responsabilidade tirar 10 na prova de química. É difícil exigir isso de quem só morre de preguiça de praticar esportes porque as aulas de educação física são obrigatórias. É difícil obrigar alguém que tem tantos sonhos a escolher um sonho só.
Agora, no presente, sou um jovem de vinte e poucos anos que trabalha quarenta horas semanais. Que tem horários marcados para chegar, sair, almoçar, voltar, chegar, sair e enfim ter liberdade. Sim, meu amigo, depois da faculdade, aquele paraíso das horas livres para fazer o que você quiser, que quase sempre se restringe entre as 18h e 7:20h da manhã. Ou pior: entre meia noite e o segundo alarme do despertador. Depois disso, é a hora da sua parcela capitalista trabalhar para pagar os boletos dos sonhos que você faz enquanto procrastina.
A vida é só um sopro. A vida é curta demais. A vida passa rápido demais para você deixar de ser ator, atriz, cantor(a), dançarino(a), veterinário(a), ginecologista, urologista, dentista, engenheiro(a), arquiteto(a), tatuador(a), desenhista, cronista, cartunista, artista ou o que mais couber nessa lista, porque alguém disse a você que é errado ou não dá dinheiro ou que não é o melhor para a sua história.
A vida, cara pessoa do outro lado da tela, é curta demais para a gente deixar de comer pizza, assistir desenho animado ou levantar do sofá para aprender a tocar violão. A vida, essa que está, neste segundo, fazendo seu coração bater, é rara demais para ser triste. Para ser o que der para ser. Para ser qualquer coisa. Para ser esse calvário interminável onde a gente passa mais tempo reclamando do que realmente sendo feliz.
Meu único conselho para você é: siga seu coração. Dê mais ouvidos a ele e ligue menos para as críticas das pessoas, especialmente as que não acreditarem no seu sonho. A obrigação de se fazer feliz é sua. O expediente acabar não vai trazer a felicidade. A semana acabar não vai trazer a felicidade. O mês acabar não vai trazer a felicidade. O ano acabar não vai trazer a felicidade. Mas você pode ir até ela. Então, simplesmente, vá. Nem que seja só com a roupa do corpo. Quando a gente tem um sorriso enorme estampado no rosto, ninguém liga para a estampa da nossa camiseta.

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