Padrões que não cabem em mim - por Mazes

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Parece que ao longo das décadas, nós, homens, assim como as mulheres, passamos a ser agredidos pela mão da imposição do corpo ideal. Quando nosso corpo não cabe nos moldes “esperados” (leia-se sarado, alto forte olhos azuis, negão gigante com pau idem ou coisa do tipo), somos retirados do lugar de homem desejável e deslocados para o lugar do homem acomodado, preguiçoso, displicente e tantos outros nomes aos quais queriam nos dar.
A imposição da estrutura corporal ideal para os homens, embora não seja evidentemente declarada, existe e coloca muitos homens na mesma fragilidade e dilema que acometem as mulheres que não cabem no modelo Juliana Paes. O agravante nesse caso parece ser o sentimento de culpa experimentado por nós, meros mortais convidados a nos retirar da morada dos deuses de corpos perfeitos. Na intenção de voltar para o palco dos deuses, estamos diariamente superlotando as acadêmicas da vida. Lutando severamente contra sua natureza e o tempo, muitos homens tentam alterar seu biótipo na marra, ou melhor, na barra, estando assim aptos a competir com o Malvino Salvador. 
            Claro que cuidados com a saúde são e sempre são importante para todos nós, independente de qual lugar nos coloquem. Eu mesmo venho reconhecendo que meu corpo está mudando (engordando? amadurecendo? transformações normais para a idade?) e depois de tantos questionamentos sobre estar ou não deixando de ser um cara desejável, parei pra entender que a forma como eu vou lhe dar com o meu corpo talvez seja mais importante do que o estado físico em que ele se encontra. 
Apesar de ser filho de um pai que desde sempre foi atleta (professor de caratê, jogador de futebol quase profissional), nunca consegui desenvolver apreço pelo exercitar, pelo menos não no sentido do exercício físico (Apolo que me perdoi.). A arte me ganhou desde muito cedo e meu principal exercício sempre foi o imaginar, criar, ler, escrever, contemplar... O que acabou (ou não) ocasionando uma protusão discal acentuada - “a protrusão anormal de um órgão ou outra estrutura do corpo através de um defeito ou uma abertura natural em um invólucro, cobertura, membrana, músculo ou osso” - que me impediu desde sempre de fazer alguns muitos esforços físicos. 
Além da protusão, preciso admitir que não tenho vocação pra ir quase que diariamente a academia pegar peso e comparar meu nível de testosterona com a dos outros rapazes, tão inseguros quantos eu, tentando construir cada um uma capa mais forte para sua existência. Não vou brincar de conferir poder usando meu corpo como parâmetros para afirmar minha “masculinidade” e “gostosura”. Claro que não posso cair no equívoco de usar um discurso generalizante, porque conheço muitas pessoas que estão a seu modo buscando ter um corpo mais saudável e a acadêmica é uma das alternativas que auxiliam nesse processo. Uma das alternativas e não a única. As pessoas esquecem. Até eu durante um tempo me esqueci.
“É caminhando que se faz o caminho...” Diz a música dos titãs. Em poucos minutos vou tentar mais uma vez a velha e boa caminhada. Hoje é segunda, dia propício para mais um começo. O tênis e a camiseta já estão separados no quarto e como aparentemente não tenho nenhum motivo que me impeça de ir, não irei desistir, não por hoje. No entanto decidi que não vou sofrer em demasiado nessa busca por um corpo bacana nem vou me maltratar se chegar aos 25 anos com o corpo diferente do que eu queria ter, porque muito além do corpo que me movimenta tem a alma que me sustenta.
Em algum momento da nossa existência corpórea o culto ao corpo deve ter sido saudável, não é possível... Mas parece que agora o que antes parecia uma escolha natural virou uma violenta imposição. Agora não é como gostar mais de Caetano do que do Chico Buarque. Agora é ter que comprar o pacote inteiro e gostar muito de toda MPB.
A ideia de “qualidade de vida” está malfada por não respeitar os limites e interesses individuais e por não nos responsabilizar por nossos desejos singulares. Querem nos vender um pacote ideal de felicidade/saúde e nós nos equivocamos assim como fazemos com as medicações, achando que a mesma pílula irá trazer o mesmo efeito para pessoas diferentes. 
Estudiosos do chamado mundo moderno ou pós-moderno, caracterizam o termo como uma tentativa de dizer um bom para todos, um bem viver para todas as pessoas. Fico junto com o filósofo italiano Giorgio Agamben e outros que conseguem pensar nos novos contextos de vida de maneira ampliada, propondo a substituição do termo “qualidade de vida” por “vida qualificada”. Onde, segundo o Agamben, o substantivo não é mais ‘qualidade’, e sim a ‘vida’.
E assim vou caminhando - literalmente - tentando inventar uma satisfação pessoal que me proporcione uma vida qualificada do jeito que melhor me servir. Não vou mais insistir em padrões que não cabem no meu corpo.

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