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28 agosto 2018



Sinto algo correr dentro de casa. Algo robusto, com braços longos e uma cabeça deformada. Seu vulto remexe a casa inteira, bate no telhado, cai no chão com um som estrondoso, se arrasta entre as janelas. Depois para num canto, acuado. Não sabe mais para onde ir. Ele se deixa cair, enquanto escorre facilmente pela parede, até que seus braços compridos ocupem toda a quina da mesa e sua cabeça deformada penda debilmente sobre seu pescoço quase inexistente. Depois de um tempo, quando não mais o percebo, ele surge. Ele surge em várias maneiras e por vários motivos. Motivos os quais ainda não compreendo. Já quis e já o mandei embora de minha casa várias vezes. Mas é bom tê-lo, porque essa casa está quase sempre vazia. Na verdade, às vezes eu nem estou em casa e o vejo. Ele está nos braços de uma estátua, deitado, me fitando com olhos que eu não sei a cor. Me perco em outro pensamento e quando vejo, ele está lá. Numa luzinha branca que aparece no celular. Não me controlo e corro para vê-lo. Altivo, oculto, dissimulado. Não sei quem você é, não sei se sua presença é boa, não sei se quero que vá embora. Essa casa de carne e veias gostaria de te comportar. Mas nessa casa de sentimentos não tem espaço pra ti. Voa, disforme. Quem sabe um dia tu topes com a porta fechada. Quem sabe um dia baterás, em vão, nessa porta por que tu antes costumava entrar e fazer a festa. Quando esse dia chegar, o que você vai fazer? Bater mais forte na porta? ou dar meia volta-volver?

24 abril 2018



Estar sob o olhar alheio é uma experiência perturbadora. Como dois juízes prontos para nos sentenciar, os olhos refletem valores adquiridos a partir da nossa convivência em sociedade, por isso são tão eficazes em nos amedrontar, intimidar, constranger, inferiorizar, humilhar, porque são prismas inseridos na nossa personalidade. Por estarem em todos os cantos, sobretudo agora com a redemocratização da internet, somos cada vez mais alvos fáceis de olhares tecnológicos das câmeras de vídeo, dos celulares, além da própria TV, todos controlados pela visão humana. Esses Argos da atualidade são ainda mais vigilantes quando o assunto é a estética alheia. Semelhante ao gigante da mitologia grega, os sentinelas da beleza estão em toda parte prontos para rechaçar quem se atreve a fugir da normalidade imposta pelos paradigmas da beleza moderna, sobretudo as mulheres.

Desde que me descobri desencaixada dos padrões da moda, tratei rapidamente de me por no meu lugar. Não se tratava de me inferiorizar. Nada disso. Adquiri precocemente a maturidade de pensamento sobre os ditames impostos pela indústria da beleza. Nesse período de reflexão, eu tinha três caminhos: ou me entregava aos apelos mercadológicos do que é ser/estar bonita, ou correspondia às expectativas sociais da beleza dentro dos meus limites, de acordo com aquilo visto por mim como aceitável, saudável e, sobretudo, barato; ou abolia qualquer alternativa de me encaixar no modelo alta, magra, cabelo liso, dando literalmente um foda-se aos que se incomodavam com as minhas formas “disformes.” Antes de decidir tomar um desses rumos, experimentei todos eles. Depois de uma infância e adolescência buscando a aprovação das colegas de escola, descobri que só seria aceita se me moldasse ao pré-estabelecido, o qual para mim, na época, parecia o certo.

Então, fiz inúmeras dietas, pus química para alisar meus cachos, aderi a academia, gastei com roupas caras, usei maquiagens importadas, mas nenhum esforço era o bastante para afastar de mim aqueles olhares que me seguiam dizendo nas entrelinhas: “você não faz parte disso.” Se estava na academia, minhas ‘companheiras’ de musculação não disfarçavam o sentimento de despeito nas comparações entre o meu corpo e o delas, que mesmo não sendo gorda, tão pouco era sarada. Qualquer celulite, estria, gorduras localizadas, eram analisadas minuciosamente por todos, abrindo um debate fútil sobre como cheguei aquele estado “deplorável” e o que poderia ser feito para mudar. Desamparada pelas minhas formas, deixava-me ser julgada, por acreditar que naquelas palavras havia mais boas intenções do que maledicências. Porém, os vigilantes da estética nunca se davam por satisfeitos, mesmo eu fazendo tudo dentro do possível para atender suas cada vez mais egocêntricas expectativas.

Mesmo assim eu insistia. Mentia em voz alta na esperança das palavras se tornarem verdade, afastando aqueles que me vigiavam. Não funcionou. Os olhares de repreensão eram mais onipresentes. Estavam em casa, no meu trabalho, nas ruas, nas festas, na televisão, na frente do meu espelho. Onde houvesse reflexo, era possível me enxergar sendo examinada por todos, por mim mesma. Passei a me sentir frustrada, por pouco não entrei num estágio de depressão. No ápice da busca pelo pertencimento, os males da saúde não tardaram a se manifestar. Passei a comer cada vez menos e sem nenhuma orientação médica. Fazia exercícios em demasia. Nessa ânsia, saí do manequim 40 para o 36, mas estava debilitada, fraca, o que resultou numa internação às pressas com diversos problemas, entre eles anemia, exaustão física, desnutrição, baixa autoestima, etc. Quase morri. Todavia, mesmo visivelmente fragilizada, não deixei de ser perseguida pelos vigilantes da estética, que agora me olhavam de forma ainda mais repreensiva.

Quando cheguei a este nível de autodepreciação, achei que seria o fim. Até que, meses depois, já com a saúde restabelecida, passei por uma loja e vi um manequim vestido com uma roupa linda. Fiquei em transe do outro lado, olhando aquele modelito e me vendo no reflexo da vitrine. Era evidente que não caberia naquele modelo, mesmo ainda estando magra após quase fenecer. Nessa neura, tive a impressão de que aquele fantoche travestido a minha frente tinha ganhado vida, julgando a minha estúpida decisão de talvez comprar aquela peça cara, a qual não ficaria bem no meu corpo. Assustada com aquilo, vi que era hora de dar um basta ao cárcere de onde tinham me aprisionado. Olhei fixamente para o manequim, para os vendedores, para a loja, estendi meu olhar por 360° graus pela rua e gritei feito uma louca: fodam-se os vigilantes da estética. Minha voz saiu como um brado e todos os olhos, que costumavam me olhar de soslaio analisando minhas formas, agora estavam voltados para mim, possivelmente achando que enlouqueci. Nunca estive tão lúcida. Depois saí aliviada e passei a ignorar as vistas alheias.

A química do meu cabelo caiu, meu corpo ganhou contornos naturais, uso maquiagem agora apenas em eventos importantes e em pouquíssima quantidade, roupas caras nem pensar e mantenho uma alimentação saudável, mas sem excluir aquilo que me dá prazer. Faço caminhada às vezes, mais para manter minha vitalidade do que para perder quilos e atrair os holofotes da estética à minha direção. Evidentemente os olhos estéticos da sociedade continuam a me perseguir. A mim e a todas as mulheres. Entretanto, seus juízos de valores não me afetam como antes. Percebi nesse processo que quanto mais cedemos às cobranças desses olhares mais ficamos submissos aos seus caprichos. Qualquer imperfeição precisava ser corrigida para que os vigilantes se dessem por satisfeitos. Acontece que tal sensação era momentânea e rapidamente surgia uma nova exigência para nos aprisionar. Infelizmente a maioria de nós não consegue escapar desse ciclo vicioso, vivendo à mercê do estabelecido pelo arquétipo ideal da beleza por toda a vida. Eu recusei tamanha subserviência e pago um preço por isso, como todas e todos que irrompem com o que é/está padronizado. Mas os ganhos pessoais são impagáveis.

Apesar dos avanços na questão da aceitação do corpo feminino em sua multiplicidade, há um longínquo caminho até que todas nós nos sintamos encorajadas a romper esse casulo ditado pela indústria da moda. Até esse dia, muitas meninas continuarão a fazer dietas mirabolantes, destruirão suas fibras capilares originais com alisamentos, gastarão fortunas em academias, roupas e maquiagens caras, perderão tempo vendo tutoriais que reproduzem mais a beleza padrão do que aquela real, acessível e palpável, e, no fim, poucas verão o quão infrutífero é querer enquadrar a capa corpórea enquanto o interior, que mais importa, não é valorizado. Isso não significa se descuidar, virar um eremita ou aderir a uma moda hippie como forma de revolta ao sistema. Trata-se de superar o que nos aflige, os vigilantes da estética, apelidados muitas vezes de “vigilantes do peso”, cuja preocupação com a nossa saúde está em enésimo plano. O que eles focam é em regular nossas formas, tolerando-as ou excluindo-as.  Não permita que eles ganhem ainda mais força sobre aquilo que é de total autonomia sua, seu corpo. Eles não têm esse direito. Só nós possuímos a plena capacidade de nos aceitar, mas para isso precisamos quebrar esse feitiço televisivo/midiático/fashion/cosmético/fitness que puseram sobre nós.

Querem me vigiar? Então, olhem! Estou/sou linda. Admirem meus cabelos naturais em meio a esse mar de progressivas. Olhem minhas curvas autênticas feitas por Deus e não moldadas em salas de cirurgias. Meu manequim voltou aos 40. Minhas roupas condizem com o meu corpo e bolso. Maquiagem? Só se for uma data muito especial. Como o que quero, sem abuso, mas desencanei das dietas mágicas que prometem o irrealizável. Amo na mesma medida um prato de salada e um pedaço generoso de bolo de chocolate. Gosto de fazer exercícios, porém não quero mais perder tempo em academias que só me viam como experimento, como uma estranha fora do ninho. Minhas celulites, estrias, são marcas da feminilidade do que é ser mulher e precisam ser vistas com respeito, não como inimigas da nossa identidade. Não sou melhor ou pior do que ninguém por querer ou não fazer a sobrancelha, hidratar meus cabelos, fazer depilação, tomar shakes emagrecedores, usar toneladas de cremes e cosméticos, ou abolir a tudo isso. Minha vaidade não se restringe às interferências que faço no meu corpo. Trata-se, antes de tudo, de autenticidade. Essa sou eu agora. Aquela que sempre fui, na verdade, mas ocultada pela pressão do culto à forma. Não sou plenamente livre, ainda. Nenhuma de nós é/será, mas me esforço para ser a menos aprisionada possível.

Então, Argos modernos, lidem com isso ou fodam-se!

10 abril 2018



O vazio ao lado da cama me acordou. É uma sensação incômoda tatear o lençol intacto e não encontrar vestígios teus. Com os olhos semicerrados insisto em vasculhar algum traço que te identifique: um fio de cabelo, teu cheiro, o calor do teu corpo, o travesseiro que costumava ficar úmido com teu suor. Nada. Levemente desconcertado, volto a fechar os olhos. O sono já tem me abandonado, mas insisto em ficar prostrado em pensamentos, rememorando fagulhas de lembranças.
Aos poucos, elas vêm e meu corpo se ouriça. Lembro-me de nós dois dividindo esse mesmo recinto. Você insinuante a me provocar. Eu cedendo facilmente aos teus encantos. Nós entregues entre os lençóis, emaranhados entre beijos e toques e carícias e paixão. Subitamente essa sintonia unificava nossos corpos, colocando-nos dentro um do outro. Era simples, intenso, mágico, sublime, sobrenatural. O encaixe perfeito para nosso molde de amor.
Entorpecido por essas memórias, deixo meu corpo estremecer. Deleito-me com essa breve sensação de prazer em tua homenagem. Ofego. Ainda arquejante, vou recobrando a consciência. Você não está mais aqui para partilhar deste delírio comigo. Mas me recuso a aceitar tua partida. Então, ainda em êxtase, levanto e me deixo levar por aquele cômodo, agora ainda menor sem tua presença. Encontro-me debaixo do chuveiro inerte. A água toca minha pele ainda em brasa. Meu coração pulsando firmemente, sôfrego, desejoso do teu corpo ao meu lado. Aos poucos, a temperatura da água me recoloca para a realidade.
Não sei que horas são. Aliás, na dor de um sentimento não correspondido, as horas parecem se arrastar, ampliando nosso sofrimento. Vejo que o sol penetra as nuvens. Irrompe o céu, que teimoso, não quer permitir que aquele astro reine sobre nós. Meu corpo lentamente se esfria. Desperto, então, sessenta por cento. Nem sei se conseguirei estar pleno até sair para trabalhar.
Não sou mais cem por cento sem ti.
Olho-me no espelho sem me encontrar naquele reflexo. Nada me é familiar. Sou impreciso na minha autodescrição: será que engordei ou emagreci? Essa mancha na minha barriga já estava ai antes? Tinha esse mesmo tamanho? Não me lembro de ter esse corte de cabelo. Nem sei se ele está na moda. O que aconteceu com o meu rosto? Meus olhos brilhantes, agora estão opacos, vazios, distantes. Minha face preencheu-se de espinhas, manchas, marcas, que eu não sei decifrar. Meus lábios estão rachados, secos, como se não fossem hidratados a eras. Lanço desesperadamente punhados generosos de água gelada, para extirpar do espelho aquele estranho que se apossou da minha face. Não funciona. Espanco aquela imagem desconhecida com tapas, depois socos, que só pioram o que já está aterrador. Sou eu mesmo. Nem sei quando me permitir adquirir aquela aparência. Na agonia da incerteza, me agacho nu em prantos. Choro incontrolavelmente pelo que me tornei, pelo que perdi, por não te ter aqui perto de mim. Deixo-me afundar nesta dor merecida, pungente, necessária, por um tempo.
Quando sinto as lágrimas se esgotarem, busco forças para me levantar. Perambulo incerto por aquele espaço irreconhecível sem ti. Recolho fragmentos de roupas sujas abandonadas pelos móveis. Visto-as como estão, sem reparar em qualquer possível combinação, sujeira, mal cheiro, ou qualquer outra coisa que as coloque em desuso. De repente, recordo de ti me impedindo de me vestir. Era sempre difícil te deixar para ir trabalhar. Você desabotoava minha camisa com a boca, enquanto eu protestava mansinho que precisava ir. Você relutava sabendo que eu cederia.
Nesse jogo eu fazia questão de perder, mesmo que me custasse chegar atrasado ao trabalho. Só mais um pouquinho, você dizia. Como eu poderia negar-te mais um beijo? Com essa boca, esse corpo, qualquer jogador se daria por vencido. Esse joguinho se repetia por várias manhãs. Comíamos juntos. Às vezes, eu levantava cedinho só para preparar a sua comidinha favorita. Acariciando teus pés, eu te acordava lentamente enlaçando-me entre meu corpo. Você, surpresa, amava receber mimos na cama. Eu, inebriado pela sua alegria, ficava cada vez mais apaixonado. E mais beijos, carícias. Mais você e eu, nós.
Relembrar isso me machuca. A emoção domina meus olhos doloridos de tanto chorar, mas as lágrimas não descem. Ficam represadas em mim, turvando a minha visão, obscurecendo meus pensamentos. Num ímpeto, procuro você loucamente pelos cantos da casa. Abro o guarda roupa atrás das suas coisas. Nada. Nenhuma roupa, toalha, perfume, creme, escova, nada que me faça relembrar sua presença aqui. Com o coração a batucar, vou à busca de uma foto. Nada. Chamo seu nome, seu apelido, a forma carinhosa como nos referíamos um ao outro. Nada. Pego o telefone e disco o seu contato. Nada. Tento parentes, amigos, seu trabalho. Nada. Em sofreguidão, acesso as redes sociais à sua procura. Nada.
Você não está lá, não existe aqui, não me atende, não quer me ver, não me quer mais. Ensandecido pelo medo, urro pela casa ecoando seu nome como uma fera capturada numa armadilha certa de que vai morrer se não for resgatada. Eu preciso ser resgatado por ti. Não quero acreditar na tua ausência, pois é a tua presença que me fez viver por todo esse tempo. Na torpeza daquilo que me fere, caiu novamente no sono profundo.
Algo me desperta teimosamente. É o despertador. Estou na cama, com um livro ao meu lado. Você está aqui deitada a minha frente. Sinto um alívio tranquilizar minha consciência. Foi apenas um pesadelo. Solto um suspiro arfante. Você acorda e vira para o outro lado. Eu te toco, mas você rejeita a minha mão. Insisto. Você balbucia algo como, você precisa trabalhar... Não pode ficar deitado o dia todo... Me deixa dormir. Respeito tua vontade.
Levanto, tomo banho e como qualquer coisa. Você levanta e repete o mesmo processo. Na mesa, somos dois estranhos compartilhando o mesmo recinto. Puxo uma conversa, você me ignora. Faço um elogio, você nem nota. Pergunto se está tudo bem, você dá de ombros. Percebo instantaneamente que estamos no mesmo espaço, dividimos a mesma cama, partilhamos da comida, mas há um vazio entre nós. Porém, não há culpados ou inocentes. Ambos os são inconscientemente. Talvez falte apenas diálogo.
Quando estamos numa relação sem conversa, atraímos sem perceber os fantasmas da separação. Então sugiro bater um papo sobre nós quando voltar do trabalho. Você assente e diz ok. Tomo o último gole de café e beijo tua testa fraternamente dizendo tenha um bom dia. Você limita-se a responder, você também. Caminho até a porta. Antes de abri-la você chama meu nome. Fico retesado esperando um gesto carinhoso, quem sabe um beijo. Você apenas diz: você esqueceu o livro na cama, que é para devolver hoje.
Agradeço com um obrigado insosso. Na capa, o título: a certeza da ausência.

17 novembro 2016


” Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.
É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.
É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela – tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.
E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.
Todo filho é pai da morte de seu pai.
Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.
E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.
Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.
A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.
Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.
A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.
Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.
Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?
Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.
E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.
Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.
No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira: e
— Deixa que eu ajudo.
Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.
Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.
Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.
Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.
Embalou o pai de um lado para o outro.
Aninhou o pai.
Acalmou o pai.
E apenas dizia, sussurrado:
— Estou aqui, estou aqui, pai!
O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. ”
-Autor desconhecido

Furto de flor
Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.
Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida
Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.
Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.
Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.
– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!
Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis. Rio de Janeiro, José Olympio, 1985. p. 80.