30 abril 2019
30 março 2014
por Luís Gustavo de B. melo
Por vezes o cinema erra a mão ao enfocar minorias marginalizadas. Não é o caso desta produção independente, cujo insight se deu a partir de um sonho (!). Os Sapatos de Aristeu não é apenas um filme sobre homossexuais e preconceito familiar, é antes uma história sobre cumplicidade, perda e redenção. No curta-metragem do diretor e roteirista alagoano Luiz René Guerra, o homossexualismo e o seu eterno conflito com os valores impostos pela sociedade, são tratados com sensibilidade, inteligência e certa dose de ironia.
Além da atmosfera lúgubre – acentuada pela fotografia em preto-e-branco –, o que chama a atenção nos quinze minutos do curta é o silêncio. Quase não há diálogos e parte da construção narrativa se dá a partir dos enquadramentos e da engenhosa sequência de planos, closes e cortes rápidos, que ajudam a compor traços de personalidade das personagens, revelando aos poucos, os valores e a realidade daquelas pessoas.
Nos primeiros segundos do filme, podemos ouvir uma música vinda de um toca-fitas que é abruptamente desligado. Estamos no que parece ser uma casa de shows, onde encontramos o travesti Aristeu, morto, e sendo maquiado por suas colegas no assoalho do palco do estabelecimento. Este é o único momento em que ouvimos música durante todo o filme. Talvez para imprimir um aspecto mais naturalista, Guerra tenha preferido não utilizar trilha sonora.
Após “montar” a travesti, o corpo é levado até a casa da família para ser velado e, a partir do momento em que vemos a irmã do morto à sua espera na porta de casa, percebemos o clima de desestruturação familiar que existia na vida do homossexual. “Minha mãe não pode sofrer mais, eles (os outros travestis) não podem aparecer por aqui. Diga para as pessoas daquele lugar que quem vai ser enterrado é o Aristeu”, disse a irmã para o amigo de Aristeu que o havia trazido.
O filme de René Guerra é conduzido em ritmo fragmentado. Os quadros e movimentos da narrativa vão se sucedendo em cortes e contrapontos, com impressionante fluidez. A sequencia final desvela o quão frágeis e diluídos são os valores que herdamos no que tange ao preconceito e a intransigência. Quando os travestis chegam até a casa onde o corpo está sendo velado, a irmã do morto recusa-se a atender a campanhinha e após uma última explosão de revolta contra o irmão homossexual – que, em suas palavras, as abandonou “para virar isso” – , ouve a mãe lhe revelar que Aristeu foi embora porque ela havia pedido para ele ser quem é longe dela. Quando finalmente resolveram abre a porta para os visitantes, estes calçaram sapatos femininos no falecido. O simbolismo desta cena sintetiza todo o conceito do filme. Por um instante, o abismo que separava aquelas duas realidades tão distintas, deixara de existir. É importante salientar que, ao longo do filme, não há qualquer tipo de julgamento. René Guerra foi muito feliz em sua decisão de contar a história utilizando uma abordagem subjetiva que, acima de tudo, prima pelo bom senso e pela sutileza.
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Por Lufe Steffen em 08/06/2011 às 18h32
Visto no : A Capa
Seria cômico se não fosse trágico. Mais uma vez o governo, autoridades políticas e pseudoautoridades religiosas atacam com seu conservadorismo burro, sua ignorância desmedida e sua hipocrisia, a serviço de motivos escusos que permanecem secretos para nós, meros mortais.
Vamos do começo: o curta-metragem "Eu Não Quero Voltar Sozinho", dirigido pelo cineasta paulistano Daniel Ribeiro, é um filme de rara delicadeza, extremamente sensível, realizado com competência técnica e cuidado artístico inquestionáveis.
Desde 2010, o filme vem sendo exibido e fartamente premiado em festivais e mostras de cinema no Brasil e no exterior. O curta conta a história de Léo, um menino de 15 anos, cego, que se apaixona por um colega de classe.
Como prova de sua qualidade e de seu cuidado ao lidar com dois temas ainda tabu - homossexualidade na adolescência e deficiência visual -, o filme foi incluído no programa Cine Educação, em parceria com a Mostra Latino-Americana de Cinema e Direitos Humanos.
O programa leva pacotes de curtas que englobem os direitos humanos, para que professores das redes de ensino do Brasil escolham os mais adequados - e estes serão exibidos em aula e debatidos com os alunos.
Eis que, na semana passada, uma professora no estado do Acre escolheu "Eu Não Quero Voltar Sozinho" e o exibiu a seus alunos. E aconteceu o episódio surrealista: alunos que viram o filme, demonstrando ignorância, falta de informação ou pura homofobia, "confundiram" o curta com o famoso kit anti-homofobia - que acaba de ser vetado, como sabemos, pela presidente Dilma Rousseff.
Esses alunos levaram o caso - adivinhe a quem? - para os líderes religiosos da região. Estes não perderam tempo e acionaram os políticos locais. Resultado: o projeto Cine Educação foi proibido como um todo no estado do Acre.
Ninguém parou para averiguar o caso e perceber que se tratava apenas de um curta-metragem, que nada tem a ver com o kit anti-homofobia. E pior: o programa Cine Educação foi inteiramente proibido, como se todos os curtas que compõem o projeto fossem sobre o mesmo tema.
Em carta distribuída à imprensa, os produtores do filme - Diana Almeida e o próprio Daniel Ribeiro - desabafam: "Mais uma vez no Brasil, a educação perde a batalha contra o poder assustador das bancadas religiosas e conservadoras."
Enquanto o Cine Educação está parado, secretários de educação e direitos humanos do Acre tentam, junto ao governador do Acre, liberar o programa e dar continuidade ao mesmo. E os tais líderes religiosos continuam fazendo pressão para o cancelamento definitivo do projeto.
"De forma arbitrária, em uma república federativa cuja Constituição atesta um Estado laico, a sociedade está sendo privada de promover debates. Como pretendemos que adolescentes consigam respeitar a diversidade e formem-se cidadãos lúcidos, pensantes e ativos se informação, arte e cultura (sem qualquer caráter doutrinário) lhes são negadas?", refletem Diana e Daniel.
E o Movimento Audiovisual Acreano Contra a Censura lançou também seu manifesto, em uma Carta de Repúdio, onde cita a Constituição Federal, denunciando o absurdo do veto.
Mas nem tudo está perdido. A boa notícia é que os produtores do curta foram selecionados pelo Edital da Eletrobrás e produzirão a versão em longa-metragem de "Eu Não Quero Voltar Sozinho", com a mesma história, mas ampliada e aprofundada, contendo novos personagens e novos debates. Touché!
Assista ao curta no YouTube:










