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28 março 2018


      Definitivamente, somos uma sociedade leiga no quesito artístico, ainda mais quando esta seara percorre caminhos mais políticos pautados na representatividade de determinados grupos e temas, bem como na tomada de discussões pertinentes a toda a população.
      O que se vendeu às massas, e continua sendo manufaturado pela grande mídia, é a arte mais vulgar, mas nem por isso sem valor, apenas mais palatável por não suscitar maiores questionamentos, servindo meramente a degustação momentânea. Isso não seria de todo mal, caso os demais fazeres artísticos tivessem seu lugar ao sol, sobretudo os intimamente carregados de significância dado aqueles que os produzem e o momento histórico em que estão inseridos.
       As Drag Queens fazem parte do grupo dos injustiçados. Renegadas aos guetos das boates, hoje elas transpõem seus limites, levando ao grande público seus talentos, a relevância de seus trabalhos e a coragem de se reinventar no país da intolerância.
      O travestismo com viés artístico é algo bastante antigo e antes da popularização das Drags, era popularmente conhecido como transformismo, pelo menos aqui no Brasil. Sua intenção é bem conhecida: homens vestidos e maquiados com elementos do universo feminino de forma exagerada, com intuito de comicidade, extravagância, capazes de entreter públicos diversos, muitos embora, durante muito tempo, ficaram confinadas aos redutos gays, como boates e bares do gênero.
       Apesar de haver clássicos como o filme “Priscila, a Rainha do Deserto”, elas não conquistaram de imediato o público heterossexual, educado preconceituosamente ao que diz respeito a aparência andrógena desses personagens. Então, durante anos, grandes maquiadores, costureiros, estilistas, viviam vidas duplas: exercendo suas funções pré-definidas durante o dia e, a noite, incorporando a alcunha de mulheres famosas, ou simplesmente aquelas inventadas pelos próprios, para mostrar uma forma de feminilidade artística contida em seus íntimos. Devido ao preconceito, muitos viviam essa misancene em total sigilo.
      Entretanto, quando há verdade no que se faz e, principalmente, capricho, a arte tende a sobreviver as intempéries, alcançando patamares inimagináveis. No caso das Drag Queens, chegar à mídia televisiva foi um grande passo no Brasil. Há décadas elas aparecem timidamente em programas de auditório, com suas performances bem elaboradas, dublagens incríveis e suas primorosas caricaturas.
    Algumas conquistaram espaços como repórter, ganharam destaques em determinados quadros, contrariando todo o conservadorismo de ontem e hoje. Isso só foi possível, além da persistência dessas profissionais, do seu inegável talento, que surgi da mera observação de seus ídolos, fora a autodidata capacidade delas de metamorfosear o ideário feminino em algo contemplável, mas sem o apelo a sexualização do corpo da mulher, ou sua redução aos estereótipos construídos pelo machismo vigente.
     As Drags, ao invés disso, levam em carne e osso um ideal artístico de mulher vivo, como se um quadro ganhasse vida, permitindo ao público tocar, conversar, tirar uma foto com o criador e a criatura ali personificados.
    Evidentemente as influências estrangeiras foram determinantes para a mudança de paradigma do que é ser Drag Queen no país. Essa transformação tem nome, sobrenome e apelido, RuPaul's Drag Race. Esse reality show foi declaradamente um divisor de águas, levando ao grande público a pirotecnia dessas artistas, antes reféns dos poucos universos LGBT´s.
      Para a surpresa dos mais conservadores, aqueles homens travestidos de mulheres, disputando entre si para conquistar o título de a melhor Drag, conquistaram telespectadores para além do público gay, de idades e classes sociais bem distintas. Soma-se a isso a redemocratização do acesso à internet, há a popularização de Drags YouTuber’s, com seus tutoriais impecáveis de maquiagens; outras lançando-se de vez na comédia, com personagens próximos da realidade brasileira; algumas conseguiram se destacar na TV e na rede ao mesmo tempo, seja fazendo shows performáticos, seja como convidadas; outras participam de filmes, seriados, se lançam no mercado da música.
      O que se vê é uma invasão de Drag Queens, com influências bem distintas, de épocas e contextos bem particulares, levando sua arte a um público cada vez mais receptivo, apesar de muitas vezes não compreender bem o que está sendo produzido para seu entretenimento.
      Com a ascensão meteórica da Drag mais famosa do Brasil, Pabllo Vittar, a sociedade se depara com outra face dessas artistas, a música. Antes, a dublagem era o que compunha os espetáculos Drag. Agora muitas delas têm canções próprias, com repertório que agrada gregos e troianos.
      Infelizmente, porém, toda repercussão “repentina” leva muitos a olhar de cara feia para essas artistas, alegando pobreza artística, sobretudo quando há o quesito voz envolvido. Todavia, os opositores focalizam num ponto e desconsideram o todo.
      Muitas Drags cantam mal, assim como muitos cantores não Drags também. A questão não se reduz a isso, mas a representatividade que tais indivíduos proporcionam a milhares de pessoas, que se veem excluídas por uma cultura que invisibiliza certas demonstrações de arte por puro preconceito.
     Decerto, a ausência de talento vocal não pode inferiorizar o cuidado com a construção de um personagem feito exclusivamente para transmitir alegria a todos que o assistem. Ainda mais o poder político-ideológico dessas artistas num Brasil onde qualquer tentativa de macular o que se elaborou como do universo masculino pode resultar em diversas formas de violência, às vezes até morte.
       Aos que se opõem a chegada das Drag Queens ao mercado consumível nacional, não pensem que elas vieram do nada. A trajetória do transformismo em todo o mundo é bem antiga, assim como as razões que levam essas pessoas a se aventurarem em se fantasiar do sexo oposto. Ninguém faria isso se não houvesse um propósito maior.
       E a arte é o lugar onde a nobreza do talento das pessoas mostra sua face mais criativa, através da valentia daqueles que se utilizam do inconformismo para, suavemente, lançar suas críticas à sociedade. Afinal, nada mais imperceptível do que problematizar a realidade por meio da arte.
      É isso que as Drags tem feito há anos: questionar o que é ser homem e mulher; ressignificar os espetáculos teatrais; ri das hipocrisias da sociedade que as aplaude; se infiltrar nos espaços binários e garantir sua morada; apresentar um trabalho sério, custeado muitas vezes pelo próprio bolso, com pouquíssimo ou nenhum retorno financeiro; demonstrar um respeito descomunal pelo palco, pelos artistas que nele estrelaram, oportunizando que outras Drags possam garantir seu lugar na ribalta; além de presentear o público com um misto de arte (dança, música, interpretação, maquiagem, pintura, costura, criação, etc.), digno de grandes artesãos.
       Por tudo isso, as Drag Queens vieram para ficar sim. O quão bom é isso para a sociedade? É cedo dizer.

         Então, só resta o espanto da contemplação.

21 fevereiro 2018



Deve ser difícil, no mínimo, ser a Anitta.
Todos opinam sobre seu cabelo — dread é “apropriação cultural”, bleh! –, sobre seu discurso, sobre sua bunda. Talvez ela nem se incomode tanto, porque está ocupada produzindo clipes sensacionais.
 
O último, da música “Vai Malandra”, foi, por si, a resposta afiada que a cantora costuma direcionar aos haters: trancinhas no cabelo, com apropriação cultural e tudo, uma bunda brasileiríssima sem correção nas celulites e um Brasil muito brasileiro escancarado numa superprodução pro mundo inteiro.
Anitta, que prometia, com os rumos estéticos de sua carreira, uma abordagem artística cada vez menos brasileira, surpreendeu, de novo. Só a linguagem do clipe é meio gringa (e faz mal?): o resto é Brasil, nu e cru.
Lulu Santos, que aparentemente não entende nem de Brasil nem de música, criticou nas redes o clipe, a cantora e a bunda.
 
Pfff.
 
Aqui cabe um parêntese: nem a bossa nova, careta por tradição, comungaria da chatice da persona Lulu Santos, que compete com a chatice de suas músicas. Talvez fosse mais facilmente aceito no rock, que se tornou um velho careta e conservador, mas até pra isso lhe falta musicalidade.
 
Não, Lulu, não é só uma bunda: O funk de Anitta tem gerado discussões sociais contemporâneas e importantíssimas, e não é de hoje. Assim caminha a humanidade, graças a gente como você, a passo de formiga e sem vontade.
Aliás, não foram só a bunda e as tranças que incomodaram: a esquerda progressista (risos) não brinca em serviço quando o assunto é cagação de regra.
 
Reclamaram — e muito — do olhar masculino do produtor do clipe, acusado de assédio, como se isso tirasse o mérito empoderador do clipe e da música.
 
Spoiler: se o olhar fosse verdadeiramente masculino, as tais celulites teriam sido apagadas na edição.
 
Não foram, porque a última palavra é dela, e eu não sei vocês, mas eu tenho um orgasmo mental só de imaginar uma mulher impondo as próprias celulites diante de um produtor assediador metido a importante.
Vai, malandra. Os cães ladram e a caravana passa.
Visto no: DCM

Publicado no Facebook de Elika Takimoto
Estou procurando entender que tanto empoderamento feminino estão encontrando por aparecer na tela uma puta raba sem Photoshop.
Exibir o corpo das mulheres é uma afirmação da sexualidade ou apenas uma outra forma de exploração? Eu, sinceramente, estou com muitas dúvidas.
Vejo Anitta “lacrando” e fico me perguntando em que medida o último clipe derruba padrões de beleza. Em que medida um clipe que exibe corpos femininos e começa com uma bunda, ainda que com celulite, mas uma puta raba daquelas tomando conta de toda a tela, ajuda na causa feminista? Em outras palavras: o que o cu tem a ver com a causa?
Não sejamos ingênuos. Anitta trabalha em um sistema que requer que as mulheres tenham uma determinada aparência porque se não forem lindas do jeito que são e rebolarem como fazem não serão expostas na televisão.
Entendo perfeitamente que tudo aquilo possa ser uma reivindicação da sexualidade. O que não percebo é uma ferramenta de mudança real na estrutura do patriarcado que muitas pessoas estão vendo com esse clipe. Mudança veria se me dissessem que o Brasil passou a ler mais e que havia parado de babar vendo bunda que ocupa a tela toda.
Olhando por um lado, vejo uma heroína, uma mulher forte, lucrando de forma inteligente com o que tem. Olhando por outro, percebo mais uma marionete. Constato que muitas manas são estrategistas bem perspicazes que sabem usar essa sexualidade e obter muito lucro. Palmas para elas.
Não percebo, porém, um clipe desse ajudar na desconstrução de um mundo machista de entretenimento que coloca a sexualidade feminina em uma caixa de forma que ela seja a mais chamativa possível.
Vi apenas mais um clipe não diferente de outros pornoficados exacerbando a cultura da hipersexualização da mulher. Cadê a ideia de que ser sexy pode ser algo diferente disso que estou assistindo? Cadê o ensinamento maior para as manas que o modo como elas percebem seus corpos é mais importante que a forma como os homens as vêem? Anitta seria rainha da porra toda se tivesse outro corpo?
“Ah mais antigamente mostrava a bunda para agradar macho, hoje não. Hoje temos Anitta com celulite.” Ah, gente.
Vi bunda de chacrete, bunda da Gretchen, bunda da Xuxa, bunda de Carla Perez, bunda bunda bunda. Curti a música, me distraí com o clipe Vai, malandra. Daí a afirmar que as mulheres estão lacrando, o Brasil evoluindo, mentes se abrindo e o machismo sendo desconstruido por causa da bunda da Anitta com celulite na tela toda vai um abismo.
Nada contra Anitta como não tive nada contra Carla Perez. São duas lindas e excelentes dançarinas. Estou me posicionando contra pessoas que estão vendo traços de evolução em uma humanidade cujo foco ainda é a bunda.
Foi divertido e só. O Brasil continua um cu.
Visto no: DCM

Quantos de nós temos uma segunda chance de viver um grande amor? Ou melhor, quantos de nós nos damos essa oportunidade, sobretudo quando a velhice nos bate à porta? Provavelmente poucos se aventurariam numa relação a dois depois dos 60, 70 ou 80 anos. Numa sociedade que romantiza os relacionamentos juvenis, impera-se uma validade para o amor, que é bastante cruel com as pessoas mais velhas, impedindo-as de se aventurarem em novas experiências. Essa devastadora prática é antiga e responsável por muitos dos males acrescentados às pessoas idosas. Um desrespeito a sua saúde física, mental e emocional, além de uma afronta a quem teve o privilégio de chegar até uma certa idade, privando-as do direito de experienciar novas sensações ou revivê-las de acordo com o seu contexto de vida. É o momento de repensarmos isso e olharmos com menos preconceito e mais empatia para essa classe que engrossa as estatísticas de longevidade em várias partes do mundo, inclusive no Brasil.

Nossas Noites nos faz esse convite à reflexão do amor na terceira idade. Lança o olhar para esse público tão estigmatizado pela sociedade, que finge ignorar a todo custo essa fase da vida, ou retardá-la através dos métodos oferecidos pela famigerada indústria da beleza. Com uma narrativa simples, a obra conta a história de dois vizinhos, septuagenários, ela viúva e ele idem, que resolvem passar as noites dormindo juntos para espantar a solidão, depois de estarem acostumados há anos de cia nos seus respectivos casamentos. A iniciativa é inusitada, mas aos poucos agradam os personagens, que se divertem com os encontros às escondidas e as conversas antes da chegada do sono. De forma leve, a obra narra como cada um deles perdeu seus cônjuges, sua rotina antes desses encontros e as poucas histórias interessantes vividas por eles, que se conheciam de vista por morarem na mesma rua, mas contadas por ambos sob ópticas diferentes.

O livro tem um traço marcante que merece ser mencionado: a narrativa não dá lugar a um clímax, aquele ponto alto que é comum em muitos romances e que deixa a obra mais eletrizante, prendendo o leitor. Evidentemente que este recurso é útil quando bem utilizado, mas, muitas vezes, mais que empobrece a obra do que a enriquece. Em Nossas Noites, porém, não há esse mecanismo. O romance do início ao fim não tem praticamente um momento marcante. Tudo se desenrola no ritmo lento daqueles personagens. Parece que essa foi justamente e intenção de Haruf: dar a narrativa uma pegada condizente com a história da qual estava sendo contada, sem maculá-la com efeitos exagerados capazes de descaracterizá-la. Funcionou, e nem por isso perdeu o seu encanto. Nossas Noites é de uma elegância ímpar. Um romance delicado, profundo e único entre dois indivíduos que partilharam uma longeva história de vida e se dão a oportunidade de reviver um amor sem reservas, mesmo que precisem enfrentar a sociedade por isso.

É o que acontece. Ao longo da história, a relação entre eles intriga primeiro os vizinhos, amigos em comum e depois os familiares, que sob o manto do preconceito, investem fortemente contra aquele romance. Daí em diante todos os dissabores vividos pelos “amores proibidos” são vivenciados por eles, com o acréscimo maior a sua condição idosa mais do que pelo sentimento existente entre eles. Vários subterfúgios são criados para que o relacionamento não vingue, chegando a abalá-los profundamente. Entretanto, quando duas pessoas se permitem dar mais uma chance, poucas interferências são capazes de impedi-las de realizar seus objetivos. Pode até haver momentos de fraquezas, breves indecisões, mas tais titubeadas são efêmeras e sucumbem em meio a algo maior que sempre está em jogo: a nossa felicidade. Este sentimento supremo é levado ao extremo por aquele casal de idoso, que já desconheciam há tempos o que era estar novamente apaixonado, até que tal sentimento lhes presenteou.

Nossas Noites lança ainda um olhar para outras questões vistas de soslaio pela sociedade como o sexo, a sexualidade, o prazer, novos arranjos conjugais, a opinião pública, a pressão da sociedade, o preconceito etário, os desafios da velhice, o abandono da pessoa idosa, a inevitabilidade da morte, todos subtemas complexos irrefletidos ou ignorados pela sociedade “Forever Young” da qual somos submetidos desde sempre. O interessante é que esses assuntos não são problematizados claramente na obra. Haruf preferiu a sutileza da sugestão em vez de focar numa crítica mais ferrenha aos dilemas vividos pelos mais velhos. O enfoque é na nova oportunidade dada aos personagens, mas todos os outros desafios oriundos desta escolha estão claramente visíveis para o leitor mais atento, ora de forma mais categórica, ora diluída por todo o romance.

Em boa medida, Nossas Noites é um romance ousado, por retratar a coragem de duas pessoas viúvas, vistas pela sociedade como no fim da vida, mas que encontram um no outro o que faltava para dar uma guinada em sua história, mesmo que ela tenha fim amanhã ou depois. Também desconstrói a ideia falaciosa de que não podemos mais amar na velhice, que é feio ou nojento, adjetivos criados para limitar os prazeres conjugais a determinadas faixas etárias. De forma subliminar, fica exposto no livro que não é preciso viver grandes aventuras para se amar, nem correr grandes riscos para estar perto de quem gostamos. Às vezes, é mais perigoso não se permitir, deixando que a solidão ganhe espaço na nossa existência, encurtando ainda mais a nossa qualidade de vida. Nisso, o livro busca nos deixar claramente uma reflexão sobre como os nossos preconceitos nos impedem de provar novas formas de felicidade por medo do que a sociedade pensará do rumo do qual estamos dando a nossa vida.

Haruf, que está em outro plano, diz através dessa obra que é preciso ignorar as expectativas sociais em detrimento da nossa felicidade. Nos deixa um alerta claro de que a sociedade está mudando no tocante à velhice e esta deve ser vivida em plenitude. É uma reflexão necessária para quem acredita que não é possível gostar, se apaixonar ou amar alguém, porque o fulgor da juventude os abandonou. Nesta sociedade mercantil, saber que o amor é interminavelmente durável é um maná dos céus. Eu, que estou na casa dos trinta, me senti esperançoso ao ler Nossas Noites. É um livro que guardarei na memória por muito tempo. E, caso tenha a sorte de chegar à velhice, espero ter a chance de continuar amando e sendo amado, e não me fecharei para novas experiências amorosas, apenas temendo o que a sociedade vai ou não pensar sobre mim. É disso que se trata a felicidade, burlar o que está estabelecido por um bem maior. Então, que mais pessoas leiam este livro e transgridam a rancorosa e limitada definição existente de amar.

17 novembro 2016

Por Ana Fraiman, Mestre em Psicologia Social pela USP
Atenção e carinho estão para a alegria da alma, como o ar que respiramos está para a saúde do corpo. Nestas últimas décadas surgiu uma geração de pais sem filhos presentes, por força de uma cultura de independência e autonomia levada ao extremo, que impacta negativamente no modo de vida de toda a família. Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões
A ordem era essa: em busca de melhores oportunidades, vinham para as cidades os filhos mais crescidos e não necessariamente os mais fortes, que logo traziam seus irmãos, que logo traziam seus pais e moravam todos sob um mesmo teto, até que a vida e o trabalho duro e honesto lhes propiciassem melhores condições. Este senhor, com olhos sonhadores, rememorava com saudade os tempos em que cavavam buracos nas terras e ali dormiam, cheios de sonho que lhes fortalecia os músculos cansados. Não importava dormir ao relento. Cediam ao cansaço sob a luz das estrelas e das esperanças.
A evasão dos mais jovens em busca de recursos de sobrevivência e de desenvolvimento, sempre ocorreu. Trabalho, estudos, fugas das guerras e perseguições, a seca e a fome brutal, desde que o mundo é mundo pressionou os jovens a abandonarem o lar paterno. Também os jovens fugiram da violência e brutalidade de seus pais ignorantes e de mau gênio. Nada disso, porém, era vivido como abandono: era rompimento nos casos mais drásticos. Era separação vivida como intervalo, breve ou tornado definitivo, caso a vida não lhes concedesse condição futura de reencontro, de reunião.

Separação e responsabilidade

Assim como os pais deixavam e, ainda deixam seus filhos em mãos de outros familiares, ao partirem em busca de melhores condições de vida, de trabalho e estudos, houve filhos que se separaram de seus pais. Em geral, porém, isso não é percebido como abandono emocional. Não há descaso nem esquecimento. Os filhos que partem e partiam, também assumiam responsabilidades pesadas de ampará-los e aos irmãos mais jovens. Gratidão e retorno, em forma de cuidados ainda que à distância. Mesmo quando um filho não está presente na vida de seus pais, sua voz ao telefone, agora enviada pelas modernas tecnologias e, com ela as imagens nas telinhas, carrega a melodia do afeto, da saudade e da genuína preocupação. E os mais velhos nutrem seus corações e curam as feridas de suas almas, por que se sentem amados e podem abençoá-los. Nos tempos de hoje, porém, dentro de um espectro social muito amplo e profundo, os abandonos e as distâncias não ocupam mais do que algumas quadras ou quilômetros que podem ser vencidos em poucas horas. Nasceu uma geração de ‘pais órfãos de filhos’. Pais órfãos que não se negam a prestar ajuda financeira. Pais mais velhos que sustentam os netos nas escolas e pagam viagens de estudo fora do país. Pais que cedem seus créditos consignados para filhos contraírem dívidas em seus honrados nomes, que lhes antecipam herança. Mas que não têm assento à vida familiar dos mais jovens, seus próprios filhos e netos, em razão – talvez, não diretamente de seu desinteresse, nem de sua falta de tempo – mas da crença de que seus pais se bastam.
Este estilo de vida, nos dias comuns, que não inclui conversa amena e exclui a ‘presença a troco de nada, só para ficar junto’, dificulta ou, mesmo, impede o compartilhar de valores e interesses por parte dos membros de uma família na atualidade, resulta de uma cultura baseada na afirmação das individualidades e na política familiar focada nos mais jovens, nos que tomam decisões ego-centradas e na alta velocidade: tudo muito veloz, tudo fugaz, tudo incerto e instável. Vida líquida, como diz Zygmunt Bauman, sociólogo polonês. Instalou-se e aprofundou-se nos pais, nem tão velhos assim, o sentimento de abandono. E de desespero. O universo de relacionamento nas sociedades líquidas assegura a insegurança permanente e monta uma armadilha em que redes sociais são suficientes para gerar controle e sentimento de pertença. Não passam, porém de ilusões que mascaram as distâncias interpessoais que se acentuam e que esvaziam de afeto, mesmo aquelas que são primordiais: entre pais e filhos e entre irmãos. O desespero calado dos pais desvalidos, órfãos de quem lhes asseguraria conforto emocional e, quiçá material, não faz parte de uma genuína renúncia da parte destes pais, que ‘não querem incomodar ninguém’, uma falsa racionalidade – e é para isso que se prestam as racionalizações – que abala a saúde, a segurança pessoal, o senso de pertença. É do medo de perder o pouco que seus filhos lhes concedem em termos de atenção e presença afetuosa. O primado da ‘falta de tempo’ torna muito difícil viver um dia a dia em que a pessoa está sujeita ao pânico de não ter com quem contar.
A irritação por precisar mudar alguns hábitos. Muitos filhos adultos ficam irritados por precisarem acompanhar os pais idosos ao médico, aos laboratórios. Irritam-se pelo seu andar mais lento e suas dificuldades de se organizar no tempo, sua incapacidade crescente de serem ágeis nos gestos e decisões. Desde os poucos minutos dos sinais luminosos para se atravessar uma rua, até as grandes filas nos supermercados, a dificuldade de caminhar por calçadas quebradas e a hesitação ao digitar uma senha de computador, qualquer coisa que tire o adulto de seu tempo de trabalho e do seu lazer, ao acompanhar os pais, é causa de irritação. Inclusive por que o próprio lazer, igualmente, é executado com horário marcado e em espaço determinado. Nas salas de espera veem-se os idosos calados e seus filhos entretidos nos seus jornais, revistas, tablets e celulares. Vive-se uma vida velocíssima, em que quase todo o tempo do simples existir deve ser vertido para tempo útil, entendendo-se tempo útil como aquele que também é investido nas redes sociais. Enquanto isso, para os mais velhos o relógio gira mais lento, à medida que percebem, eles próprios, irem passando pelo tempo. O tempo para estar parado, o tempo da fruição está limitado. Os adultos correm para diminuir suas ansiosas marchas em aulas de meditação. Os mais velhos têm tempo sobrante para escutar os outros, ou para lerem seus livros, a Bíblia, tudo aquilo que possa requerer reflexão. Ou somente uma leve distração. Os idosos leem o de que gostam. Adultos devoram artigos, revistas e informações sobre o seu trabalho, em suas hiper especializações. Têm que estar a par de tudo just in time – o que não significa exatamente saber, posto que existe grande diferença entre saber e tomar conhecimento. Já, os mais velhos querem mais é se livrar do excesso de conhecimento e manter suas mentes mais abertas e em repouso. Ou, então, focadas naquilo que realmente lhes faz bem como pessoa. Restam poucos interesses em comum a compartilhar. Idosos precisam de tempo para fazer nada e, simplesmente recordar. Idosos apreciam prosear. Adultos têm necessidade de dizer e de contar. A prosa poética e contemplativa ausentou-se do seu dia a dia. Ela não é útil, não produz resultados palpáveis.

A dificuldade de reconhecer a falta que o outro faz.

Do prisma dos relacionamentos afetivos e dos compromissos existenciais, todas as gerações têm medo de confessar o quanto o outro faz falta em suas vidas, como se isso fraqueza fosse. Montou-se, coletivamente, uma enorme e terrível armadilha existencial, como se ninguém mais precisasse de ninguém. A família nuclear é muito ameaçadora. para o conforto, segurança e bem-estar: um número grande de filhos não mais é bemvindo, pais longevos não são bem tolerados e tudo isso custa muito caro, financeira, material e psicologicamente falando. Sobrevieram a solidão e o medo permanente que impregnam a cultura utilitarista, que transformou as relações humanas em transações comerciais. As pessoas se enxergam como recursos ou clientes. Pais em desespero tentam comprar o amor dos filhos e temem os ataques e abandono de clientes descontentes. Mas, carinho de filho não se compra, assim como ausência de pai e mãe não se compensa com presentes, dinheiro e silêncio sobre as dores profundas as gerações em conflito se infringem. Por vezes a estratégia de condutas desviantes dão certo, para os adolescentes conseguirem trazer seus pais para mais perto, enquanto os mais idosos caem doentes, necessitando – objetivamente – de cuidados especiais. Tudo isso, porém, tem um altíssimo custo. Diálogo? Só existe o verdadeiro diálogo entre aqueles que não comungam das mesmas crenças e valores, que são efetivamente diferentes. Conversar, trocar ideias não é dialogar. Dialogar é abrir-se para o outro. É experiência delicada e profunda de auto revelação. Dialogar requer tempo, ambiente e clima, para que se realizem escutas autênticas e para que sejam afastadas as mútuas projeções. O que sabem, pais e filhos, sobre as noites insones de uns e de outros? O que conversam eles sobre os receios, inseguranças e solidão? E sobre os novos amores? Cada geração se encerra dentro de si própria e age como se tudo estivesse certo e correto, quando isso não é verdade.
A dificuldade de reconhecer limites característicos do envelhecimento dos pais. Este é o modelo que se pode identificar. Muito mais grave seria não ter modelo. A questão é que as dores são tão mascaradas, profundas e bem alimentadas pelas novas tecnologias, inclusive, que todas as gerações estão envolvidas pelo desejo exacerbado de viver fortes emoções e correr riscos desnecessários, quase que diariamente. Drogas e violência toldam a visão de consequências e sequestram as responsabilidades. Na infância e adolescência os pais devem ser responsáveis pelos seus filhos. Depois, os adultos, cada qual deve ser responsável por si próprio. Mais além, os filhos devem ser responsáveis por seus pais de mais idade. E quando não se é mais nem tão jovem e, ainda não tão idoso que se necessite de cuidados permanentes por parte dos filhos? Temos aí a geração de pais desvalidos: pais órfãos de seus filhos vivos. E estes respondem, de maneira geral, ou com negligência ou, com superproteção. Qualquer das formas caracteriza maus cuidados e violência emocional.
Na vida dos mais velhos alguns dos limites físicos e mentais vão se instalando e vão mudando com a idade. Dos pais e dos filhos. Desobrigados que foram de serem solidários aos seus pais, os filhos adultos como que se habituaram a não prestarem atenção às necessidades de seus pais, conforme envelhecem. Mantêm expectativas irrealistas e não têm pálida ideia do que é ter lutado toda uma vida para se auto afirmar, para depois passar a viver com dependências relativas e dar de frente com a grande dor da exclusão social. A começar pela perda dos postos de trabalho e, a continuar, pela enxurrada de preconceitos que se abatem sobre os idosos, nas sociedades profundamente preconceituosas e fóbicas em relação à morte e à velhice. Somente que, em vez de se flexibilizarem, uns e outros, os filhos tentam modificar seus pais, ensinando-lhes como envelhecer. Chega a ser patético. Então, eles impõem suas verdades pós-modernas e os idosos fingem acatar seus conselhos, que não foram pedidos e nem lhes cabem de fato.
De onde vem a prepotência de filhos adultos e netos adolescentes que se arrogam saber como seus pais e avós devem ser, fazer, sentir e pensar ao envelhecer? É risível o esforço das gerações mais jovens, querendo educa-los, quando o envelhecimento é uma obra social e, mais, profundamente coletiva, da qual os adultos de hoje – que justa, porém indevidamente – cultivam os valores da juventude permanente e, da velhice não fazem a mais pálida ideia. Além do que, também não têm a menor noção de como haverão eles próprios de envelhecer, uma vez que está em curso uma profunda mudança nas formas, estilos e no tempo de se viver até envelhecer naturalmente e, morrer a Boa Morte. Penso ser uma verdadeira utopia propor, neste momento crítico, mudanças definidas na interação entre pais e filhos e entre irmãos. Mudanças definidas e, de nenhuma forma definitivas, porém, um tanto mais humanas, sensíveis e confortáveis. O compartilhar é imperativo. O dialogar poderá interpor-se entre os conflitos geracionais, quem sabe atenuando-os e reafirmando a necessidade de resgatar a simplicidade dos afetos garantidos e das presenças necessárias para a segurança de todos.
Quando a solidão e o desamparo, o abandono emocional, forem reconhecidos como altamente nocivos, pela experiência e pelas autoridades médicas, em redes públicas de saúde e de comunicação, quem sabe ouviremos mais pessoas que pensam desta mesma forma, porém se auto impuseram a lei do silêncio. Por vergonha de se declararem abandonados justamente por aqueles a quem mais se dedicaram até então. É necessário aprender a enfrentar o que constitui perigo, alto risco para a saúde moral e emocional para cada faixa etária. Temos previsão de que, chegados ao ano de 2.035, no Brasil haverá mais pessoas com 55 anos ou mais de idade, do que crianças de até dez anos, em toda a população. E, com certeza, no seio das famílias. Estudos de grande envergadura em relação ao envelhecimento populacional afirmam que a população de 80 anos e mais é a que vai quadruplicar de hoje até o ano de 2.050. O diálogo, portanto, intra e intergeracional deve ensaiar seus passos desde agora. O aumento expressivo de idosos acima dos 80 anos nas políticas públicas ainda não está, nem de longe, sendo contemplado pelas autoridades competentes. As medidas a serem tomadas serão muito duras. Ninguém de nós vai ficar de fora. Como não deve permanecer fora da discussão sobre o envelhecimento populacional mundial e as estratégias para enfrentá-lo.
Para ler na integra acesse Aqui

Visto na: Revista Pazes

Atitudes negativas em relação a pessoas idosas têm consequências para a saúde física e mental dessa população, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Idosos que se sentem um fardo percebem suas vidas como menos valiosas, colocando-se em risco de depressão e isolamento social. Além disso, pesquisa indicou que idosos com opiniões negativas sobre seu próprio envelhecimento não se recuperam bem de deficiências e vivem, em média, 7,5 anos a menos que pessoas com atitudes positivas.
Estudo produzido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) indicou que atitudes negativas ou discriminatórias contra idosos prejudicam a saúde física e mental dessa população, um dado preocupante divulgado às vésperas do Dia Internacional das Pessoas Idosas, lembrado no sábado (1).
O estudo ouviu mais de 83 mil pessoas em 57 países, avaliando as atitudes de pessoas de todas as faixas etárias em relação aos idosos. Os mais baixos níveis de respeito foram relatados em países de alta renda, segundo a pesquisa.
“Esta análise confirma que a discriminação por idade é extremamente comum. No entanto, a maioria das pessoas desconhece completamente os estereótipos subconscientes que têm sobre pessoas idosas”, disse John Beard, diretor de envelhecimento e curso de vida da OMS. “Assim como acontece com o sexismo e o racismo, é possível mudar as normas sociais. É tempo de parar de definir as pessoas por sua idade”, completou.
Atitudes negativas sobre o envelhecimento e em relação a pessoas idosas também têm consequências significativas para a saúde física e mental dessa população. Idosos que se sentem um fardo percebem suas vidas como menos valiosas, colocando-se em risco de depressão e isolamento social, de acordo com a OMS.
Pesquisa publicada recentemente aponta que idosos que têm opiniões negativas sobre seu próprio envelhecimento não se recuperam bem de deficiências e vivem, em média, 7,5 anos a menos que pessoas com atitudes positivas.
Até 2025, o número de pessoas com 60 anos ou mais duplicará e, até 2050, alcançará a marca de 2 bilhões no mundo, com a maioria vivendo em países de baixa e média renda.
“A sociedade se beneficiará desse envelhecimento da população se todos nós envelhecermos de uma forma mais saudável”, disse Alana Officer, coordenadora de envelhecimento e curso de vida da OMS. “Entretanto, para fazer isso, precisamos acabar com a discriminação por idade”.
Alana acrescentou que “a discriminação por idade assume muitas formas”. “Elas incluem retratar pessoas mais velhas como frágeis, dependentes e fora de contato, ou por meio de práticas discriminatórias como racionamento dos cuidados de saúde por idade ou políticas institucionais, como a aposentadoria obrigatória em certa idade”.
TEXTO ORIGINAL DE NAÇÕES UNIDAS