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30 abril 2019



59° lugar. Esta é a posição do Brasil no último PISA, Programa Internacional de Avaliação dos Alunos, entre os 70 países participantes. Para conseguir essa vergonhosa colocação, o país fez feio nos quesitos matemática, ciências e leitura. Aliás, no que se refere a ler, a pátria que tem exaltado as armas ao invés dos livros vai se aproximar ainda mais do derradeiro lugar neste pódio. Antes, porém, é incontestável que em sucessivos planos governamentais a educação não foi prioridade. Isto porque, numa relação clara de adestramento, subserviência e tecnicismo, o foco é mecanizar o saber transformando nossos estudantes em meros protótipos do sistema.

Decerto, para alcançar este vexatório posto só um misto de descompromisso e burrice regeram, e regem, esse (des)educado Brasil. Como tudo que é ruim pode piorar, o cataclismático governo de Jair Bolsonaro assina a ordem para permitir que pais possam educar seus rebentos em casa. A priori, todavia, é preciso concatenar o porquê da educação ter se tornado o alvo dessa nova política que acomete o país. Muito antes de ser empossado, a persona não grata da figura Temer conseguiu modificar o ensino médio, permitindo aos estudantes moldarem a sua grade de estudos ao seu belprazer. Entrementes, a discussão da Escola sem Partido avançava a todo vapor também com os olhares elogiosos de Bolsonaro.

Entre as metas do, na época presidenciável, estavam a educação domiciliar e a proibição do tema educação sexual nas escolas. Ora, apenas aqui há práticas claras de cerceamento da liberdade pedagógica, além da negação às pesquisas científicas e silenciamento de discussões caras aos nossos jovens. Entretanto, o bombardeamento na esfera educacional têm propósitos mais nefastos. Após a empobrecimento cognitivo transmitido pelas fake news, que levaram aquele cidadão ao poder, o governo resolveu esculhambar de vez o que já era uma balbúrdia. Agora, com aval legislativo, diversos projetos pretendem emburrecer a sociedade por meio de uma (des)educação sem respaldo científico, eivada pela interferência perigosíssima de setores religiosos e descomprometida com o que há de mais vanguardista na formação intelectual da sociedade. É educar para doutrinar.

Trata-se de marionetes cuja função é perpetuar na política uma esfera de governo tirano e claramente inexperiente. A prática do Homeschooling é uma prova disso. Conhecido como educação domiciliar, tal modalidade é aceita em grandes nações espalhadas pelo mundo. No entanto, em muitas delas educa-se seus entes em casa porque há toda uma estrutura sócio-cultural efetiva, capaz de oferecer aos responsáveis o mínimo de arcabouço para orientar seus alunos-familiares. Porém, diferente deles, o Brasil possui diversos entraves que antecedem o colégio de um lado e, do outro, adentram os muros escolares atrapalhando a aprendizagem.

Diante de um projeto de ensino deveras avacalhado, estamos permitindo que diversos professores formados, detentores de anos de experiência em sala de aula - e das dificuldades que cercam está atividade - sejam desmoralizados por um governo que permite pessoas sem qualquer noção pedagógica de ensinar a nossa juventude. É evidente o desconhecimento político das teorias de Paulo Freire acerca da pedagogia, sobretudo aquelas que veem a opressão em torno daquilo que há nos moldes clássicos de ensino. Contudo, as contribuições freirianas, aceitas e respeitadas em diversas universidades do mundo, são ridicularizadas na vala que se tornou o Brasil de Bolsonaro. Submergindo na lama da ignorância, estamos atolados até o pescoço com as medidas insanas desse governo despreparado, o qual tem conseguido a proeza de deteriorar o que já está em ruínas. Não falta muito para o pouco fôlego restante extinguir-se de nossos pulmões. Até lá, o ar continua mais rarefeito todas as vezes que o presidente de muitos brasileiros, não o meu, pronuncia alguma barbaridade com ares benfazejos na mídia.

Enquanto desdenham dessa maneira da nossa Educação, não irá tardar para que outros rankings, além do PISA, mostrem a defasada realidade conhecida por todos nós. O Enem está chegando e com ele a visão rasa da religiosidade fotoshopada de Bolsonaro. Será mais um tiro certeiro na morte iminente da intelectualidade do Brasil. Caso o Homeschooling se concretize, veremos a robotização juvenil em cadeia. Será o maior atentado ao conhecimento da história desse país. O efeito kamikaze de uma educação domiciliar em lares sem educação vai ser o nosso regresso a idade das cavernas. Pena que não teremos mais os dinossauros para nos entreter.

05 dezembro 2018


Por: Vitor Paiva –  do site Hypeness
Quando soube que havia enfim recebido o Prêmio Nobel de Literatura, não só o poeta chileno Pablo Neruda como seu próprio país de origem viviam realidades muito diferentes da que viria a lhes assaltar dois anos depois. Corria o ano de 1971, e aquele a quem Gabriel Gárcia Márquez chamou de “o maior poeta do século 20, em qualquer idioma” quase não acreditou no que chamou de “milagre”, conforme declarou em entrevista diante da notícia. “Enfim parece que sou mesmo agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Ótimo, vocês sabem que nós, poetas, sempre estamos esperando milagres. E o milagre realizou-se”, afirmou Neruda.
Em seguida, o poeta expôs outra alegria que lhe acometia junto do Nobel: a eleição de Salvador Allende como presidente do Chile e o primeiro socialista a ser eleito democraticamente na América Latina. “O presidente Allende acaba de me felicitar, em nome do governo e do povo chileno”, disse Neruda. Dois anos depois, no fatídico 11 de setembro de 1973, Allende seria derrubado e assassinado pelas tropas de Pinochet, que instauraria uma longa ditadura no país, e doze dias depois do golpe militar, o próprio Neruda viria a falecer, em circunstâncias suspeitas que hoje sugerem também um assassinato.
Mas a poesia e a memória de Neruda, assim como de Allende, permanecem – e se fazem mais necessárias do que nunca, em um mundo tão polarizado, sombrio e perigoso como o que vivemos.
A grandeza de Neruda e a força simbólica de seu Nobel merecem ser lembrados hoje, através da íntegra de seu comovente discurso diante da Academia Sueca ao receber o prêmio.
“Meu discurso será uma longa travessia, uma viagem minha por regiões longínquas e antípodas, não por isso menos semelhantes à paisagem e às solidões do norte. Falo do extremo sul do meu país. Nós, chilenos, nos afastamos tanto até tocar com nossos limites o Pólo Sul, que parecemos a geografia da Suécia, que roça com a sua cabeça o norte nevado do planeta.
Por ali, por aquelas extensões da minha pátria, para onde me levaram acontecimentos já esquecidos, deve-se atravessar, tive que atravessar os Andes, procurando a fronteira do meu país com a Argentina. Grandes bosques cobrem como um túnel as regiões inacessíveis, e, como o nosso caminho era oculto e vedado, aceitávamos somente os sinais mais débeis da orientação. Não havia rastros, não existiam caminhos, e com meus quatro companheiros a cavalo procurávamos em ondulante cavalgada – eliminando os obstáculos de árvores poderosas, impossíveis rios, rochas imensas, desoladas neves, adivinhando quase a rota da minha própria liberdade. Os que me acompanhavam conheciam a orientação, a possibilidade entre as grandes folhagens, mas, para sentirem-se mais seguros montados em seus cavalos, marcavam com seus machados aqui e acolá os troncos das grandes árvores, deixando rastros que pudessem guiá-los no regresso, quando tivessem me deixado só com meu destino.
Cada qual avançava tolhido por aquela solidão sem margens, naquele silêncio verde e branco; as árvores, as grandes trepadeiras, o húmus depositado por centenas de anos, os tron­cos semiderrubados, que repentinamente tornavam-se outra barreira na nossa marcha. Tudo era ao mesmo tempo uma na­tureza deslumbrante e secreta e uma crescente ameaça de frio, neve, perseguição. Tudo se misturava; a solidão, o perigo, o si­lêncio e a urgência da minha missão.
Às vezes, seguíamos um rastro estreitíssimo, deixado tal­vez por contrabandistas ou delinquentes comuns fugitivos, e ig­norávamos se muitos deles tinham perecido, surpreendidos de repente pelas glaciais mãos do inverno, pelas tremendas tormentas de neve que, quando se desencadeiam nos Andes, en­volvem o viajante, enterram-no sob sete andares de brancura.
A cada lado do rastro contemplei, naquela desolação sel­vagem, algo parecido com uma construção humana. Eram peda­ços de galhos acumulados que tinham suportado muitos inver­nos, oferenda vegetal de centenas de viajantes, altos túmulos de madeira para recordar os caídos, para fazer pensar naqueles que não puderam continuar e ficaram ali para sempre embaixo das neves. Também os meus companheiros cortaram com os seus machados os galhos que tocavam nossas cabeças e que desciam sobre nós desde a altura das coníferas imensas, desde os carvalhos cujas últimas folhas palpitavam antes das tempes­tades do inverno. E eu também fui deixando em cada túmulo uma recordação, um cartão de madeira, um galho cortado do bosque para enfeitar as tumbas de alguns daqueles viajantes desconhecidos.
Tínhamos que atravessar um rio. Esses pequenos manan­ciais nascidos nos cumes dos Andes se precipitam, descarregam sua força vertiginosa e atropeladora, transformam-se em casca­tas, rompem terras e rochas com a energia e a velocidade que trouxeram das alturas insignes: mas essa vez encontramos um remanso, um grande espelho de água, um vau. Os cavalos en­traram, perderam pé e nadaram até à outra margem. Em segui­da, o meu cavalo foi sobrepassado quase totalmente pelas águas; eu comecei a balançar sem nenhum apoio, meus pés boiavam enquanto o animal lutava por manter a cabeça ao ar li­vre. Dessa forma, atravessamos. No momento em que chega­mos à outra beira, os vaqueanos, os camponeses que me acom­panhavam, perguntaram-me com um certo sorriso:
– Sentiu muito medo?
– Muito. Achei que a minha última hora tinha chegado – disse.
– Íamos atrás do senhor com o laço na mão – responde­ram-me.
– Aí mesmo – acrescentou um deles – meu pai caiu e foi ar­rastado pela correnteza. Não ia acontecer a mesma coisa com o senhor.
Continuamos até entrar num túnel natural que talvez tives­se sido aberto nas rochas imponentes por um caudaloso rio per­dido, ou por um estremecimento do planeta que criou aquela obra nas alturas, aquele canal rupestre de pedra socavada, de granito, no qual penetramos.
Depois de poucos passos, as cavalgaduras já resvalavam, tentavam apoiar-se nos desníveis de pedra, suas patas dobra­vam-se, produziam-se faíscas nas ferraduras: mais de uma vez me vi atirado fora do cavalo e estendido sobre as rochas. O focinho e as patas da minha cavalgadura sangravam, mas prosse­guimos pertinazmente o vasto, o esplêndido, o difícil caminho.
Algo esperava por nós no meio daquela selva selvagem. Subitamente, como singular visão, chegamos a uma pradaria pequena e esmerada, encolhida no regaço das montanhas: água clara, prado verde, flores silvestres, rumor de rios e o céu azul em cima, generosa luz ininterrompida por nenhuma folhagem.
Ali nos detivemos como dentro de um círculo mágico, como hóspedes de um recinto sagrado: e ainda maior foi a condição de sagrada que teve a cerimônia da qual participei. Os vaqueiros desceram das suas cavalgaduras. No centro do recinto, estava colocada, como num rito, uma caveira de boi. Meus companhei­ros aproximaram-se silenciosamente, um por um, para deixar umas moedas e alguns alimentos nos buracos do osso. Uni-me a eles naquela oferenda destinada a toscos Ulísses extraviados, a fugitivos de todas as espécies que encontrariam pão e auxílio nas órbitas do touro morto.
Mas a inesquecível cerimônia não se deteve neste ponto. Meus rústicos amigos tiraram seus chapéus e iniciaram uma es­tranha dança, pulando num pé só ao redor da caveira abandona­da, repassando o rastro circular deixado por tantas danças de outros que passaram antes por ali.
Compreendi, então, de uma maneira imprecisa, ao lado dos meus impenetráveis companheiros, que existia uma comunica­ção de desconhecido a desconhecido, que havia uma solicitude, uma petição e uma resposta mesmo nas mais longínquas e afas­tadas solidões deste mundo.
Mais longe, já perto das fronteiras que me afastariam por muitos anos da minha pátria, chegamos à noite às últimas gar­gantas das montanhas. Subitamente, vimos urna luz acesa que era indício certo de habitação humana e, quando nos aproxima­mos, encontramos umas construções derruídas, uns galpões mi­seráveis que pareciam vazios. Entramos num deles e vimos, ao clarão do lume, grandes troncos acesos no centro da habitação, corpos de árvores gigantes que ali ardiam de dia e de noite e que deixavam sair pelas fendas do teto uma fumaça que flutua­va no meio das trevas como um profundo véu azul. Vimos mon­tões de queijos acumulados por aqueles que os coalharam na­quelas alturas. Perto do fogo, agrupados como sacos, jaziam al­guns homens. Distinguimos no silêncio as cordas de um violão e as palavras de uma canção que, nascendo das brasas e da escu­ridão, nos trazia a primeira voz humana que tínhamos encontra­do pelo caminho. Era uma canção de amor e de distância, um la­mento de amor e de saudade dirigido à primavera longínqua, às cidades de onde vínhamos, à infinita extensão da vida. Eles igno­ravam quem nós éramos, eles nada sabiam do fugitivo, eles não conheciam a minha poesia nem meu nome. Ou o conheciam, nos conheciam? O fato real foi que junto àquele fogo cantamos e comemos, e depois caminhamos dentro da escuridão até uns quartos elementais. Através deles passava uma corrente ter­mal, água vulcânica onde nos submergimos, calor que se des­prendia das cordilheiras e que nos acolheu no seu seio.
Chapinhamos com gozo, penetrando naquela água, limpando o peso da imensa cavalgada. Sentimo-nos frescos, re­nascidos, batizados, quando ao amanhecer empreendemos os últimos quilômetros da jornada que separar-me-iam daquele eclipse da minha pátria. Afastamo-nos cantando sobre as nossas cavalgaduras, repletos de um ar novo, de um hábito que nos empurrava para o grande caminho do mundo que estava me es­perando. Quando quisemos dar (recordo vivamente este fato) aos montanheses algumas moedas de recompensa pelas can­ções, pelos alimentos, pelas águas termais, pelo teto e pelos lei­tos, isto é, pelo inesperado amparo que encontramos, eles rejei­taram o nosso oferecimento sem um gesto. Eles tinham nos ser­vido e nada mais. E nesse nada mais, nesse silencioso nada mais havia muitas coisas subentendidas, talvez o reconhecimen­to, talvez os próprios sonhos.
Senhoras e Senhores:
Não aprendi nos livros nenhuma receita para a composição de um poema; e também não deixarei impresso nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria.
Se narrei neste discurso certos fatos do passado, se revivi um relato nunca esquecido nesta ocasião e neste lugar tão dife­rentes daqueles, foi porque no transcurso de minha vida tenho encontrado sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para endurecer-se em minhas palavras, mas para explicar-me a mim mesmo.
Naquela longa jornada, encontrei as doses necessárias para a formação do poema. Ali, me foram dadas as dádivas solenes da terra e da alma. E penso que a poesia é uma ação passageira ou solene na qual entram em igual medida a solidão e a solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade de si mesmo, a in­timidade do homem e a revelação secreta da natureza. E penso com não menor fé que tudo está sustentado – o homem e sua sombra, o homem e sua atitude, o homem e sua poesia – numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos porque de tal ma­neira os une e confunde. E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao atravessar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio duma vaca, ao ba­nhar a minha pele na água purificadora das mais altas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para comunicar-se depois com muitos outros seres, ou se era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigênciaou desafio. Não sei se vivi aquilo ou se o escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei na­quele momento, as experiências que cantei mais tarde.
De tudo isso, amigos, surge uma lição que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. To­dos os caminhos levam ao mesmo ponto: a comunicação daquilo que somos. E é preciso atravessar a solidão e a aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico no qual podemos dançar torpemente ou cantar com melancolia: mas nesta dança ou nesta canção estão consumados os mais antigos ritos da consciência, da consciência de ser homens e de crer num destino comum.
Na realidade, embora alguma ou muita gente tenha me considerado um sectário, sem possível participação na mesa comum da amizade e da responsabilidade, não quero me justi­ficar, não acredito que as acusações nem as justificações façam parte dos deveres do poeta. De qualquer forma, nenhum poeta administrou a poesia, e se algum deles dedicou-se a acusar os seus semelhantes, ou se outro pensou que poderia gastar a vida defendendo-se de recriminações razoáveis ou absurdas, tenho a convicção de que somente a vaidade é capaz de desviar-nos a tais extremos. Digo que os inimigos da poesia não estão entre os que a professam ou resguardam, mas na falta de concordância do poeta. Por esta razão, nenhum poeta tem um inimigo mais essencial do que a sua própria incapacidade para entender-se com os mais ignorados e explorados dos seus contemporâneos; e isso acontece em todas as épocas e em todas as terras.
O poeta não é um pequeno deus. Não, não é um pequeno deus. Não está marcado por um destino cabalístico superior ao daqueles que exercem outros misteres é ofícios. Tenho expres­sado frequentemente que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia: o padeiro mais próximo, que não pen­sa que é deus. Ele realiza a sua majestosa e humilde tarefa de amassar, colocar no forno, dourar e entregar o pão cada dia, com uma obrigação comunitária. E se o poeta chegar a al­cançar esta consciência simples, poderá também a cons­ciência simples converter-se em parte de um colossal arte­sanato, de uma construção simples ou complicada, que é a construção da sociedade, a transformação das condições que rodeiam o homem, a entrega de uma mercadoria: pão, verdade, vinho, sonhos. Se o poeta se incorpo­rar a esta luta nunca gasta a fim de consignar cada qual nas mãos do outro sua ração de compromisso, sua dedicação e sua ternura pelo trabalho comum de cada dia e de todos os homens, o poeta tomará parte no suor, no pão, no vinho, no sonho da Humanida­de inteira. Somente por este caminho inalienável de ser homens comuns chegaremos a restituir à poesia o amplo espaço que lhe é recortado em cada época, que nós mesmos lhe recortamos em cada época.
Os erros que me levaram a uma relativa verdade, e as ver­dades que repetidas vezes me conduziram ao erro, ambos não me pertimiram – nem eu nunca pretendi isso – orientar, dirigir, ensinar o que é chamado de processo criador, de caminhos da li­teratura. Mas pude verificar uma coisa: que nós mesmos vamos criando os fantasmas da nossa própria mitificação. Da argamassa do que nós fazemos, ou queremos fazer, surgem mais tarde os impedimentos do nosso próprio e futuro desenvolvi­mento. Vemo-nos indefectivelmente conduzidos à realidade e ao realismo, isto é,a tomar uma consciência direta daquilo que nos rodeia e dos caminhos da transformação, e depois compreen­demos, quando parece tarde, que construímos uma limitação tão exagerada que matamos o que vive, em vez de fazer a vida desenvolver-se e florescer. Impomo-nos um realismo que poste­riormente nos resulta mais pesado que o tijolo das construções, sem que por isso tenhamos levantado o edifício que contemplávamos como parte integral do nosso dever. E, em sentido con­trário, se conseguimos criar o fetiche do incompreensível (ou daquilo que é compreensível parapoucos), o fetiche do seleto e do secreto, se suprimimos a realidade e suas degenerações rea­listas, nos veremos de repente rodeados por um terreno impos­sível, por um pântano de folhas, de barro, de nuvens, no qual afundam os nossos pés e somos afogados por uma incomunicação opressiva.
Quanto a nós em particular, escritores da vasta extensão americana, escutamos sem trégua a chamada para encher esse espaço enorme com seres de carne e osso. Somos conscientes da nossa obrigação de povoadores e – ao mesmo tempo que nos re­sulta essencial o dever de uma comunicação crítica num mundo desabitado, porém, não por desabitado, menos cheio de injusti­ças, castigos e dores – sentimos também o compromisso de recu­perar os antigos sonhos que dormem nas estátuas de pedra, nos antigos monumentos destruídos, nos largos silêncios de pampas plantários, de selvas espessas, de rios que cantam como tro­vões. Necessitamos colmar de palavras os confins de um conti­nente mudo, e nos embriaga esta tarefa de fabular e de nomear. Talvez essa seja a razão determinante do meu humilde caso in­dividual: e, nessa circunstância, os meus excessos, a minha abundância ou a minha retórica, não seriam nada mais que atos, os mais simples, do mister americano de cada dia. Cada um dos meus versos quis se instalar como umobjeto palpável; cada um dos meus poemas pretendeu ser um instrumento útil de traba­lho; cada um dos meus cantos aspirou a servir no espaço como signo de reunião onde os caminhos se cruzaram, ou como frag­mento de pedra ou de madeira em que alguém, outros, os que virão, pudessem depositar os novos signos.
Ampliando estes deveres do poeta, na verdade ou no erro, até as suas últimas consequências, decidi que a minha atitude dentro da sociedade e perante a vida devia ser também humil­demente partidária. Decidi isso vendo gloriosos fracassos, soli­tárias vitórias, derrotas deslumbrantes. Compreendi, imerso no cenário das lutas da América, que minha missão humana era a de unir-me à extensa força do povo organizado, unir-me com sangue e alma, com paixão e esperança, porque somente desta torrente impetuosa podem nascer as mudanças necessárias para os escritores e para os povos. E embora minha posição tenha causado e cause objeções amargas ou amáveis, o certo é que não encontro outro caminho para o escritor dos nossos amplos e cruéis países, se não queremos que a escuridão floresça, se pre­tendemos que os milhões de homens que ainda não aprenderam aler-nos nem a ler, que ainda não sabem escrever nem escre­ver-nos, se estabeleçam no terreno da dignidade sem a qual não é possível serem homens integrais.
Herdamos a vida dilacerada dos povos que arrastam um castigo de séculos, os povos mais edênicos, os mais puros, aqueles que construíram com pedras e metais torres milagro­sas, joias de fulgor deslumbrante; povos que de repente foram arrasados e emudecidos pelas épocas terríveis do colonialismo que ainda existe.
Nossas estrelas primordiais são a luta e a esperança. Mas não há luta nem esperança solitárias. Em todo homem se jun­tam as épocas remotas, a inércia, os erros, as paixões, as urgên­cias do nosso tempo, a velocidade da História. Mas o que seria de mim se eu, por exemplo, tivesse contribuído de alguma ma­neira com o passado feudal do grande continente americano? Como poderia eu levantar a cabeça, iluminada pela honra que a Suécia me outorgou, se não me sentisse orgulhoso de ter toma­do uma mínima parte na transformação atual do meu país? É preciso olhar o mapa da América, encarar a grandiosa diversi­dade, a generosidade cósmica do espaço que nos rodeia, para entender que muitos escritores se negam a compartir o passado de opróbrio e de pilhagem que obscuros deuses destinaram aos povos americanos.
Escolhi o difícil caminho de uma responsabilidade compartida e, em vez de reiterar a adoração ao indivíduo como sol cen­tral do sistema, preferi entregar com humildade o meu serviço a um considerável exército que pode errar às vezes, mas que ca­minha sem descanso e avança cada dia, enfrentando tanto ana­crônicos recalcitrantes, quanto enfatuados impacientes. Porque acredito que meus deveres de poeta não me indicavam somente a fraternidade com a rosa e a simetria, com o exaltado amor e a nostalgia infinita, mas também com as ásperas tarefas humanas que incorporei à minha poesia.
Há exatamente cem anos, um pobre e esplêndido poeta, o mais atroz dos desesperados, escreveu esta profecia: “À l’aurore, armes d’une ardente patiente, nous entrerons aux splendides Villes” (Ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades).
Acredito nesta profecia de Rimbaud, o vidente. Venho de uma obscura província, de um país separado de todos os outros pela sua talhante geografia. Fui o mais abandonado dos poetas e minha poesia foi regional, dolorosa e chuvosa. Mas sempre ti­ve confiança no homem. Jamais perdi a esperança. Por isso talvez tenha chegado até aqui com a minha poesia, e também com a minha bandeira.
Em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade, aos trabalhadores, aos poetas, que todo o futuro foi expressado nes­sa frase de Rimbaud: só com uma ardente paciência conquista­remos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.
Assim a poesia não terá cantado em vão.”
Pablo Neruda, 1971
Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

08 maio 2011


A Divindade nunca se revelou tão próxima de sua Criação quanto no livro A Cabana, tão singelo e tocante. Longe de se parecer com a imagem mosaica do Deus vingativo e punitivo, Ela se expõe em todo seu poder compassivo, mas também em sua enérgica e persistente determinação.

Quem espera encontrar mais um livro de auto-ajuda ou o libelo de uma determinada religião, percebe logo que está enganado ao avançar em sua leitura. Quanto mais o leitor mergulha nas páginas desta obra incomum, mais fundo deseja ir. E aos poucos sente que algo em seu interior vai se transformando, especialmente se abrir a mente para uma nova visão espiritual. E, o que é melhor, é uma obra universal, portanto qualquer pessoa, independente de sua religião, irá se apaixonar por esta história.

Capa do livro "A Cabana"

Aqueles que temem cair em uma cilada, em outra leitura piegas, também devem se despreocupar. Embora o enredo, a princípio, pareça se encaminhar para mais um melodrama comum, logo uma inesperada reviravolta o conduz para inesperadas direções. É difícil resumir esta trama sem desvelar os mistérios ocultos nas páginas deste livro.

Basicamente a história gira em torno da profunda desilusão sofrida pelo protagonista, Mackenzie Allen Phillips, mais conhecido pelos familiares e companheiros como Mack. O narrador é praticamente o melhor amigo deste personagem, encarregado de transpor para o papel a experiência profunda vivenciada por seu parceiro.

Logo no início, em um prefácio atípico, o leitor é informado pelo narrador que um dos personagens principais deste enredo é uma misteriosa cabana, testemunha de um trágico evento que marca definitivamente a vida do protagonista e de sua família. Descendente de uma linhagem irlandesa-americana, Mack já traz em seu coração marcas dolorosas de sua infância, especialmente de seu relacionamento com o pai.

Superando o passado, ele forma uma nova família, ao lado de Nannete A. Samuelson, chamada pelo marido e por amigos mais próximos de Nan, com quem tem cinco filhos excepcionais – Jon, Tyler, Josh, Katherine e a caçula, Melissa ou Missy, uma garota incomum, repleta de idéias e concepções brilhantes para sua idade, seis anos.

Um fim-de-semana que deveria ser muito especial, no qual Mack se sente mais que nunca próximo de Josh e das filhas, com quem ele partiu para uma última aventura de férias, antes do reinício das aulas, se transforma em um terrível pesadelo com o desaparecimento inexplicável de Missy. A partir de então, com todas as evidências apontando para um terrível crime, o protagonista mergulha em um sombrio abismo de tristeza e dor.

Quatro anos depois, porém, o protagonista tem a oportunidade de rever seu passado à luz de uma nova compreensão. Ironicamente o encontro de Mack com ele mesmo e com seus assustadores fantasmas interiores se dá justamente no lugar onde tudo começou, a cabana onde sua Missy supostamente havia sido assassinada. Guiado por um intrigante bilhete depositado em sua caixa de correio, ele embarca em uma viagem surpreendente que promete reconciliar sua alma com a Divindade que ele não consegue perdoar.

Este livro, concebido pelo estreante canadense William P. Young, foi lançado em 2007 por uma editora criada estritamente com o propósito de publicar esta obra. Inicialmente o autor só pretendia doar alguns volumes deste enredo para amigos mais próximos, no Natal de 2005. A história, porém, teve uma recepção tão surpreendente que ele decidiu revelar seu conteúdo para dois produtores cinematográficos, Wayne Jacobsen e Brad Cummings.

Recusado por inúmeras editoras, A Cabana foi finalmente publicada por Jacobsen e Cummings, que para isso criaram sua própria empresa editorial. Depois disso, recomendado boca a boca, já vendeu pelo menos dois milhões de exemplares. No idioma português ele foi lançado em 2008.

Este livro, que enfoca principalmente a verdadeira relação de Deus com o Homem, tem despertado e transformado a existência de inúmeras pessoas que, ansiosas por compartilhar suas experiências, formaram o Projeto Missy, que pretende divulgar ainda mais a importância da leitura desta obra.

Há inclusive a possibilidade de, com uma maior venda desta publicação, já considerada um best seller, o enredo ser transposto para as telas do cinema. Os leitores interessados em compartilhar seus pontos de vista sobre A Cabana devem acessar o site www.acabana.com.br.

Fonte: Infoescola

26 abril 2011

Resumo do Livro



Mariam tem 33 anos. Sua mãe morreu quando ela tinha 15 anos e Jalil, o homem que deveria ser seu pai, a deu em casamento a Rasheed, um sapateiro de 45 anos. Ela sempre soube que seu destino era servir seu marido e dar-lhe muitos filhos. Mas as pessoas não controlam seu destino.

Laila tem 14 anos. É filha de um professor que sempre lhe diz - 'Você pode ser tudo o que quiser'. Ela vai à escola todos os dias, é considerada uma das melhores alunas do colégio e sempre soube que seu destino era muito maior do que casar e ter filhos.

Confrontadas pela História, o que parecia impossível acontece - Mariam e Laila se encontram, absolutamente sós. E a partir desse momento, embora a História continue a decidir os destinos, uma outra história começa a ser contada, aquela que ensina que todos nós fazemos parte do 'todo humano', somos iguais na diferença, com nossos pensamentos, sentimentos e mistérios.