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30 abril 2019



Nem faz muito tempo assim, eu estava assistindo ao vídeo feito pelos maravilhosos integrantes do Porta dos Fundos intitulado de Escola sem Partido. Nele, aparecia uma professora sendo interrogada pelos alunos a se posicionar sobre questões cada vez mais delicadas no país ligadas a história nacional, ao passo que a turma toda, aparelhada com o que há de mais moderno em tecnologia, filmava o posicionamento da docente. Na ocasião, dei jubilosas risadas da comicidade envolta naquela ideia, mas não imaginava que o cômico tão rapidamente ganharia ares trágicos. Todavia, como a arte imita a vida, nos dramas reais, professores passaram a sentir o peso da sensura desse governo desgovernado que rege a nação.

Há poucos dias, um educador perdeu o emprego após passar pela mesma situação teatralizada pelo Porta dos Fundos, em que critica em sala a postura, indiscutivelmente criticável, do presidente (em minúsculo mesmo) Jair Bolsonaro. Senti um misto de raiva e indigestão quando li essa matéria. Aliás, a cada posicionamento do atual governante da nação, eu preciso fazer um mantra, ressuscitar o meu nirvana, preparando-me para a enxurrada de absurdos que sairão da fossa que ele tem na boca. Pois bem, como porcos não costumam andar sozinhos, a horda de malucos na política escolheram a educação como o epicentro dos seus ataques.

O impronunciável Ministro da Educação, seguindo a mesma retórica insana da presidência, foi categórico ao legitimar o direito dos alunos em filmar professores em sala de aula como um direito dos discentes. Pouco antes disso, Bolsonaro usa o twitter, sua principal rota de envio de barbaridades virtuais, para inferiorizar os cursos de humanas e enaltecer a leitura e a escrita; algo, diga-se de passagem, incongruente, pois o que menos tem sido feito pela corja no poder é uma leitura interpretativa da realidade. Voltando à vigilância eletrônica endossada pelo governo, percebemos, ou deveríamos, qual é a meta por trás desse cinema retrô: emudecer a educação.

Ao aprovar o novo ensino médio, implantar a educação domiciliar e vetar a educação sexual nas escolas, paulatinamente a intenção desses políticos é silenciar os alunos por meio da castração do saber crítico, o qual é autônomo por excelência. Agora o alvo mira em cheio nos educadores. Por meio de uma conduta clara de intimidação, espera-se subserviência dos docentes, os quais terão a passividade em suas aulas como artifício pedagógico, caso queiram permanecer em seus cargos. O tiro de misericórdia já está sendo engatilhado. Em mais um ataque ao saber, Bolsonaro começa a semana afirmando que mudará o patrono do Brasil, o educador mais respeitado do mundo, Paulo Freire, por outro aos moldes do governo. Talvez ele opte por Olavo de Carvalho, um total desconhecido das academias sérias brasileiras, de formação duvidosa e cheio de demagogia alienante, usada a torto e a direito para a chegada da burrice ao poder.

Nada mais justo do que substituir um grande pensador por um perturbador da ordem pública numa era onde o pensar deixou de ser ação para ser ofensa. Entretanto, já que a luz, câmera e ação (leia-se perseguição) estarão nos curtas metragens dos dramas educacionais brasileiros, antes do professor ser o protagonista desse cinema pornô, é preciso destacar o vilão da história, o governo. Aos alunos co-diretores, que compactuam com tamanha obscenidade, gravem a falta de estrutura das suas escolas, carteiras quebradas e/ou insuficientes; material defasado, atrasado e revisado por uma política de apagamento da história. Filmem a violência escolar, o bullying, as armas, drogas e todas as balas perdidas desferidas pela sociedade do dedinho apontado.

Não se esqueçam de registrar em close a feição de fome dos seus colegas, o déficit na aprendizagem que decorre disso, o abandono de muitos responsáveis que delegam ao professor o papel de pai e mãe. Se der, façam ainda um slow motion dos ataques de seus colegas desrespeitosos aos seus docentes, mostrando ao presidente quem são as reais vítimas da deseducação do país. Por fim, aos com celulares mais chiques, aproveitem e façam um plano sequência de vocês mesmos falando diretamente ao presidente da nação sobre o que falta para que a educação seja de fato de qualidade.

Talvez assim com algo gravado por vocês ele dê ouvidos às necessidades no ensino, já que os apelos dos profissionais da área e as teorias de pessoas renomadas são ignoradas por ele. Quem sabe não rola uma premiação, hein?!Garanto que o cenário escolar brasileiro, se dirigido por alguém sério, levaria um Oscar na categoria drama, quiçá comédia. Enquanto não há nada de artístico nisso, vemos estarrecidos o amadorismo governar o Brasil, em detrimento daquilo que perdeu seu status quo na sociedade, a livre expressão do pensamento. Que venham os grilhões!


59° lugar. Esta é a posição do Brasil no último PISA, Programa Internacional de Avaliação dos Alunos, entre os 70 países participantes. Para conseguir essa vergonhosa colocação, o país fez feio nos quesitos matemática, ciências e leitura. Aliás, no que se refere a ler, a pátria que tem exaltado as armas ao invés dos livros vai se aproximar ainda mais do derradeiro lugar neste pódio. Antes, porém, é incontestável que em sucessivos planos governamentais a educação não foi prioridade. Isto porque, numa relação clara de adestramento, subserviência e tecnicismo, o foco é mecanizar o saber transformando nossos estudantes em meros protótipos do sistema.

Decerto, para alcançar este vexatório posto só um misto de descompromisso e burrice regeram, e regem, esse (des)educado Brasil. Como tudo que é ruim pode piorar, o cataclismático governo de Jair Bolsonaro assina a ordem para permitir que pais possam educar seus rebentos em casa. A priori, todavia, é preciso concatenar o porquê da educação ter se tornado o alvo dessa nova política que acomete o país. Muito antes de ser empossado, a persona não grata da figura Temer conseguiu modificar o ensino médio, permitindo aos estudantes moldarem a sua grade de estudos ao seu belprazer. Entrementes, a discussão da Escola sem Partido avançava a todo vapor também com os olhares elogiosos de Bolsonaro.

Entre as metas do, na época presidenciável, estavam a educação domiciliar e a proibição do tema educação sexual nas escolas. Ora, apenas aqui há práticas claras de cerceamento da liberdade pedagógica, além da negação às pesquisas científicas e silenciamento de discussões caras aos nossos jovens. Entretanto, o bombardeamento na esfera educacional têm propósitos mais nefastos. Após a empobrecimento cognitivo transmitido pelas fake news, que levaram aquele cidadão ao poder, o governo resolveu esculhambar de vez o que já era uma balbúrdia. Agora, com aval legislativo, diversos projetos pretendem emburrecer a sociedade por meio de uma (des)educação sem respaldo científico, eivada pela interferência perigosíssima de setores religiosos e descomprometida com o que há de mais vanguardista na formação intelectual da sociedade. É educar para doutrinar.

Trata-se de marionetes cuja função é perpetuar na política uma esfera de governo tirano e claramente inexperiente. A prática do Homeschooling é uma prova disso. Conhecido como educação domiciliar, tal modalidade é aceita em grandes nações espalhadas pelo mundo. No entanto, em muitas delas educa-se seus entes em casa porque há toda uma estrutura sócio-cultural efetiva, capaz de oferecer aos responsáveis o mínimo de arcabouço para orientar seus alunos-familiares. Porém, diferente deles, o Brasil possui diversos entraves que antecedem o colégio de um lado e, do outro, adentram os muros escolares atrapalhando a aprendizagem.

Diante de um projeto de ensino deveras avacalhado, estamos permitindo que diversos professores formados, detentores de anos de experiência em sala de aula - e das dificuldades que cercam está atividade - sejam desmoralizados por um governo que permite pessoas sem qualquer noção pedagógica de ensinar a nossa juventude. É evidente o desconhecimento político das teorias de Paulo Freire acerca da pedagogia, sobretudo aquelas que veem a opressão em torno daquilo que há nos moldes clássicos de ensino. Contudo, as contribuições freirianas, aceitas e respeitadas em diversas universidades do mundo, são ridicularizadas na vala que se tornou o Brasil de Bolsonaro. Submergindo na lama da ignorância, estamos atolados até o pescoço com as medidas insanas desse governo despreparado, o qual tem conseguido a proeza de deteriorar o que já está em ruínas. Não falta muito para o pouco fôlego restante extinguir-se de nossos pulmões. Até lá, o ar continua mais rarefeito todas as vezes que o presidente de muitos brasileiros, não o meu, pronuncia alguma barbaridade com ares benfazejos na mídia.

Enquanto desdenham dessa maneira da nossa Educação, não irá tardar para que outros rankings, além do PISA, mostrem a defasada realidade conhecida por todos nós. O Enem está chegando e com ele a visão rasa da religiosidade fotoshopada de Bolsonaro. Será mais um tiro certeiro na morte iminente da intelectualidade do Brasil. Caso o Homeschooling se concretize, veremos a robotização juvenil em cadeia. Será o maior atentado ao conhecimento da história desse país. O efeito kamikaze de uma educação domiciliar em lares sem educação vai ser o nosso regresso a idade das cavernas. Pena que não teremos mais os dinossauros para nos entreter.

05 dezembro 2018


A prova do ENEM foi uma afronta ao conservadorismo. Mostrou que a escola é o lugar da subversão, da não aceitação do conservadorismo, do pluralismo de ideias, da abertura para o novo.
Contra o agronegócio, a prova trouxe a agroecologia, bem diferente da propaganda da Globo que diz que o agro é tec e pop. Contra o binarismo biológico do sexo, a prova joga na cara duas autoras lésbicas: Angélica Freitas, de "o útero é do tamanho de um punho", e Natalia Polesso, de "Amora". Além disso, o vocabulário do mundo gay, vindo diretamente do iorubá, expõe que estamos negros, mulheres e gays no mesmo barco da transgressão por ousarmos ser o que somos. Contra o racismo, a prova traz uma questão que, mais do verificar a função da linguagem, expõe os estereótipos e solicita empoderamento. Por que motivo uma questão mostra a produção de Stela do Patrocínio? Uma negra louca e lindamente poeta a gritar "Eu sobrevivi do nada, do nada...". Por que motivo uma questão traz um poema da "literatura negra" que diz "às vezes sou o policial que me suspeito e o porteiro não me deixando entrar em mim mesmo"? Por quê, me digam? Contra o machismo, inclusive instituído pela leitura errônea dos textos sagrados, a prova fez os alunos se depararem com um anúncio de denúncia ao assédio e uma propaganda publicitária da década de 40 que vendia um tônico para mulheres considerando-as de natureza doentia e frágil.
Para coroar, a redação exigia que os candidatos reconhecessem que a internet tem seus mecanismos de manipulação dos usuários, tais como as farms de likes e as fake news compradas. Ah, e não passou despercebida a questão que mostra que esse negócio de brasileiro cordial é uma balela, porque as redes sociais são, na verdade, antissociais, disseminadoras de intolerância e ódio. Contra os idiotas que vociferam contra os direitos humanos, a prova esfrega uma questão que fala da Declaração Universal dos Direitos Humanos e indica seu estudo desde os primeiros anos escolares. Sim, escola deve ensinar o aluno a valorizar os seus direitos e os direitos do outro.
Essa prova foi contra toda a onda conservadora que nos abateu, contra a horda de eleitores que decidiram votar no homem que quase nem gente é e que representa o que de pior somos. Essa prova é para que os bolsominions saibam que não será fácil calar a voz dos educadores.
Enfim, esse foi uma prova que os subversivos, perseguidos e vistos como aberrações devem ter respondido com um sorriso de orelha a orelha, que é o mesmo que sambar na cara da sociedade hipócrita, machista, misógina, racista e cretina. durmam com essa e aguardem a luta, porque nosso nome é LEGIÃO DE SUBVERSIVOS.


A palavra “Desiderata” vem do Latin e significa “coisas que são desejadas”. Também é o título de um famosíssimo poema, que se tornou particularmente conhecido durante os anos sessenta, junto com o movimento hippie. O texto é uma reunião de sábios conselhos que deram a volta ao mundo inteiro, pela precisão de suas ideias e pela profundidade de seu conteúdo.
Em um dado momento, surgiu todo um debate sobre a origem desse poema. Em torno do texto foi criada a lenda de que havia sido escrito por um monge anônimo e que havia sido encontrado sobre o banco de uma igreja em Baltimore, há duzentos anos. De acordo com esta versão, o poema teria sido escrito no ano de 1692.
Na verdade, tudo se tratava de um equívoco. O autor de “Desiderata” foi o filósofo e advogado Max Ehrman. Mas o texto não foi publicado em vida; só foi a público em 1948, quando sua esposa publicou seus poemas de forma póstuma.
O erro surgiu porque, por muitos anos, ‘Desiderata’ foi um poema que passou de mão em mão, como uma espécie de ato de boa vontade. Se transformou em algo como uma proclamação; buscava-se que quem o recebesse praticasse tudo que estava escrito ali.
Muitos resolveram omitir o nome do autor, e foi assim que chegou às mãos de um pastor de Maryland, que compilou vários textos para fazer uma edição especial de Natal. Dentro destes textos estava o ‘Desiderata’ e, ao lado do nome, o presbítero anotou uma legenda: “Igreja de Saint Paul, 1692”. Ele só escreveu estes dados para identificar seu tempo e o ano de fundação do mesmo.
Alguém da congregação ficou encantado com o poema e pediu que um jornal o publicasse. Assim aconteceu, então, a popularização do erro que dizia ser um texto de 1692 que havia sido encontrado na Igreja de Saint Paul.
Seja como for, a verdade é que se trata de um lindo texto que foi traduzido para mais de 70 idiomas.
Este é o texto desse maravilhoso poema:
Desiderata
Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se que há sempre paz no silêncio. Tanto que possível, sem humilhar-se, viva em harmonia com todos os que o cercam.
Fale a sua verdade mansa e calmamente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes – eles também tem sua própria história.
Evite as pessoas agressivas e transtornadas, elas afligem nosso espírito. Se você se comparar com os outros você se tornará presunçoso e magoado, pois haverá sempre alguém inferior e alguém superior a você. Viva intensamente o que já pode realizar.
Mantenha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde, ele é o que de real existe ao longo de todo tempo. Seja cauteloso nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia, mas não caia na descrença, a virtude existirá sempre.
“Você é filho do Universo, irmão das estrelas e árvores. Você merece estar aqui e mesmo que você não possa perceber a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.”
Muita gente luta por altos ideais e em toda parte a vida está cheia de heroísmos.
Seja você mesmo, principalmente, não simule afeição nem seja descrente do amor; porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto ele é tão perene quanto a relva.
Aceite com carinho o conselho dos mais velhos, mas seja compreensível aos impulsos inovadores da juventude.
Alimente a força do Espírito que o protegerá no infortúnio inesperado, mas não se desespere com perigos imaginários, muitos temores nascem do cansaço e da solidão.
E a despeito de uma disciplina rigorosa, seja gentil para consigo mesmo. Portanto esteja em paz com Deus, como quer que você O conceba, e quaisquer que sejam seus trabalhos e aspirações, na fatigante jornada da vida, mantenha-se em paz com sua própria alma.
Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito, seja prudente.
FAÇA TUDO PARA SER FELIZ
Max Ehrmann
Texto extraído e traduzido de  VerkenJeGeest

A mente de cada um de nós pode ser nossa liberdade ou nossa prisão. Tudo depende dos pensamentos que cultivamos dentro de nós.
Você já se deu conta de que a forma como você pensa pode mudar o rumo da sua vida?
Pensamentos podem ser asas. Quando se decide o que quer, os pensamentos vão adquirindo forma, tornam-se concretos e nos levam a lugares incríveis, onde só uma mente que pensa à frente é capaz de chegar. Nenhuma barreira é suficientemente forte para provocar uma desistência.
Mas os pensamentos também podem se tornar uma prisão, se não forem bem direcionados. Se girarem em torno de amargura, pessimismo, revanchismo ou outras formas de negatividade, a vida se aprisiona e passa a acontecer em um contexto limitado, dentro de cercas e sem mudanças ou avanços consistentes.
Buda ensinou que: “A LEI DA MENTE É IMPLACÁVEL. O QUE VOCÊ PENSA, VOCÊ CRIA; O QUE VOCÊ SENTE, VOCÊ ATRAI; O QUE VOCÊ ACREDITA, TORNA-SE REALIDADE.”
Tudo está relacionado à energia com que você alimenta seus pensamentos, e seus desejos. Depende também do quanto você realmente acredita naquilo que pensa. Porque, ao acreditar, começamos a caminhar em direção ao que queremos que aconteça, como se já antecipássemos o que ainda é impalpável.
Mesmo que algumas coisas não aconteçam no tempo que gostaríamos, é importante que já acordemos com pensamentos positivos e com sinceros desejos de que eles se tornem realidade. Isso é muito poderoso! Produz força, inclusive, para nos ajudar a lidarmos com os inesperados da vida, que são inevitáveis e fazem parte da história de todas as pessoas.
As vantagens de saber direcionar os pensamentos são visíveis. A pessoa que alimenta pensamentos positivos tem um semblante mais feliz e confiante, vive com mais determinação, aprende com as quedas e traça planos mais ousados que os da maioria. Segue com coragem e sem o medo paralisante do desconhecido, que trava muita gente. Olha pra frente, mantendo as dores no passado e traçando metas para um futuro que, por essas características, tende a ser promissor.
Pensar positivo não se trata de uma teoria sem fundamento, é um jeito eficiente e mais prazeroso de ver a vida. É entender que acreditar no que se pensa é o primeiro passo para fazer acontecer. O pensamento positivo tem o poder de levar a crer que tudo pode mudar a qualquer momento, e a crença de que essa mudança será para melhor, traz ânimo e disposição. Afinal, sabemos de antemão que tudo depende da importância que se dá.
Para quem ainda não se deu conta dos benefícios, o ideal é educar a mente. Pode-se começar com leituras e músicas que incentivem a manter a mente aberta para as coisas boas e passar a substituir palavras negativas por palavras positivas no dia a dia. E a partir disso, deixar de pensar nos obstáculos apenas como problemas e percebê-los como desafios capazes de gerar aprendizados e desenvolvimento pessoal.
Manter a mente ocupada com o que realmente é construtivo e importante tem um valor inestimável. Como nos diria Marla de Queiróz, “pensamentos são lugares. Escolha onde você quer estar.”
Escolha o seu e seja feliz!
Visto no: CONTIoutra

Por: Vitor Paiva –  do site Hypeness
Quando soube que havia enfim recebido o Prêmio Nobel de Literatura, não só o poeta chileno Pablo Neruda como seu próprio país de origem viviam realidades muito diferentes da que viria a lhes assaltar dois anos depois. Corria o ano de 1971, e aquele a quem Gabriel Gárcia Márquez chamou de “o maior poeta do século 20, em qualquer idioma” quase não acreditou no que chamou de “milagre”, conforme declarou em entrevista diante da notícia. “Enfim parece que sou mesmo agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Ótimo, vocês sabem que nós, poetas, sempre estamos esperando milagres. E o milagre realizou-se”, afirmou Neruda.
Em seguida, o poeta expôs outra alegria que lhe acometia junto do Nobel: a eleição de Salvador Allende como presidente do Chile e o primeiro socialista a ser eleito democraticamente na América Latina. “O presidente Allende acaba de me felicitar, em nome do governo e do povo chileno”, disse Neruda. Dois anos depois, no fatídico 11 de setembro de 1973, Allende seria derrubado e assassinado pelas tropas de Pinochet, que instauraria uma longa ditadura no país, e doze dias depois do golpe militar, o próprio Neruda viria a falecer, em circunstâncias suspeitas que hoje sugerem também um assassinato.
Mas a poesia e a memória de Neruda, assim como de Allende, permanecem – e se fazem mais necessárias do que nunca, em um mundo tão polarizado, sombrio e perigoso como o que vivemos.
A grandeza de Neruda e a força simbólica de seu Nobel merecem ser lembrados hoje, através da íntegra de seu comovente discurso diante da Academia Sueca ao receber o prêmio.
“Meu discurso será uma longa travessia, uma viagem minha por regiões longínquas e antípodas, não por isso menos semelhantes à paisagem e às solidões do norte. Falo do extremo sul do meu país. Nós, chilenos, nos afastamos tanto até tocar com nossos limites o Pólo Sul, que parecemos a geografia da Suécia, que roça com a sua cabeça o norte nevado do planeta.
Por ali, por aquelas extensões da minha pátria, para onde me levaram acontecimentos já esquecidos, deve-se atravessar, tive que atravessar os Andes, procurando a fronteira do meu país com a Argentina. Grandes bosques cobrem como um túnel as regiões inacessíveis, e, como o nosso caminho era oculto e vedado, aceitávamos somente os sinais mais débeis da orientação. Não havia rastros, não existiam caminhos, e com meus quatro companheiros a cavalo procurávamos em ondulante cavalgada – eliminando os obstáculos de árvores poderosas, impossíveis rios, rochas imensas, desoladas neves, adivinhando quase a rota da minha própria liberdade. Os que me acompanhavam conheciam a orientação, a possibilidade entre as grandes folhagens, mas, para sentirem-se mais seguros montados em seus cavalos, marcavam com seus machados aqui e acolá os troncos das grandes árvores, deixando rastros que pudessem guiá-los no regresso, quando tivessem me deixado só com meu destino.
Cada qual avançava tolhido por aquela solidão sem margens, naquele silêncio verde e branco; as árvores, as grandes trepadeiras, o húmus depositado por centenas de anos, os tron­cos semiderrubados, que repentinamente tornavam-se outra barreira na nossa marcha. Tudo era ao mesmo tempo uma na­tureza deslumbrante e secreta e uma crescente ameaça de frio, neve, perseguição. Tudo se misturava; a solidão, o perigo, o si­lêncio e a urgência da minha missão.
Às vezes, seguíamos um rastro estreitíssimo, deixado tal­vez por contrabandistas ou delinquentes comuns fugitivos, e ig­norávamos se muitos deles tinham perecido, surpreendidos de repente pelas glaciais mãos do inverno, pelas tremendas tormentas de neve que, quando se desencadeiam nos Andes, en­volvem o viajante, enterram-no sob sete andares de brancura.
A cada lado do rastro contemplei, naquela desolação sel­vagem, algo parecido com uma construção humana. Eram peda­ços de galhos acumulados que tinham suportado muitos inver­nos, oferenda vegetal de centenas de viajantes, altos túmulos de madeira para recordar os caídos, para fazer pensar naqueles que não puderam continuar e ficaram ali para sempre embaixo das neves. Também os meus companheiros cortaram com os seus machados os galhos que tocavam nossas cabeças e que desciam sobre nós desde a altura das coníferas imensas, desde os carvalhos cujas últimas folhas palpitavam antes das tempes­tades do inverno. E eu também fui deixando em cada túmulo uma recordação, um cartão de madeira, um galho cortado do bosque para enfeitar as tumbas de alguns daqueles viajantes desconhecidos.
Tínhamos que atravessar um rio. Esses pequenos manan­ciais nascidos nos cumes dos Andes se precipitam, descarregam sua força vertiginosa e atropeladora, transformam-se em casca­tas, rompem terras e rochas com a energia e a velocidade que trouxeram das alturas insignes: mas essa vez encontramos um remanso, um grande espelho de água, um vau. Os cavalos en­traram, perderam pé e nadaram até à outra margem. Em segui­da, o meu cavalo foi sobrepassado quase totalmente pelas águas; eu comecei a balançar sem nenhum apoio, meus pés boiavam enquanto o animal lutava por manter a cabeça ao ar li­vre. Dessa forma, atravessamos. No momento em que chega­mos à outra beira, os vaqueanos, os camponeses que me acom­panhavam, perguntaram-me com um certo sorriso:
– Sentiu muito medo?
– Muito. Achei que a minha última hora tinha chegado – disse.
– Íamos atrás do senhor com o laço na mão – responde­ram-me.
– Aí mesmo – acrescentou um deles – meu pai caiu e foi ar­rastado pela correnteza. Não ia acontecer a mesma coisa com o senhor.
Continuamos até entrar num túnel natural que talvez tives­se sido aberto nas rochas imponentes por um caudaloso rio per­dido, ou por um estremecimento do planeta que criou aquela obra nas alturas, aquele canal rupestre de pedra socavada, de granito, no qual penetramos.
Depois de poucos passos, as cavalgaduras já resvalavam, tentavam apoiar-se nos desníveis de pedra, suas patas dobra­vam-se, produziam-se faíscas nas ferraduras: mais de uma vez me vi atirado fora do cavalo e estendido sobre as rochas. O focinho e as patas da minha cavalgadura sangravam, mas prosse­guimos pertinazmente o vasto, o esplêndido, o difícil caminho.
Algo esperava por nós no meio daquela selva selvagem. Subitamente, como singular visão, chegamos a uma pradaria pequena e esmerada, encolhida no regaço das montanhas: água clara, prado verde, flores silvestres, rumor de rios e o céu azul em cima, generosa luz ininterrompida por nenhuma folhagem.
Ali nos detivemos como dentro de um círculo mágico, como hóspedes de um recinto sagrado: e ainda maior foi a condição de sagrada que teve a cerimônia da qual participei. Os vaqueiros desceram das suas cavalgaduras. No centro do recinto, estava colocada, como num rito, uma caveira de boi. Meus companhei­ros aproximaram-se silenciosamente, um por um, para deixar umas moedas e alguns alimentos nos buracos do osso. Uni-me a eles naquela oferenda destinada a toscos Ulísses extraviados, a fugitivos de todas as espécies que encontrariam pão e auxílio nas órbitas do touro morto.
Mas a inesquecível cerimônia não se deteve neste ponto. Meus rústicos amigos tiraram seus chapéus e iniciaram uma es­tranha dança, pulando num pé só ao redor da caveira abandona­da, repassando o rastro circular deixado por tantas danças de outros que passaram antes por ali.
Compreendi, então, de uma maneira imprecisa, ao lado dos meus impenetráveis companheiros, que existia uma comunica­ção de desconhecido a desconhecido, que havia uma solicitude, uma petição e uma resposta mesmo nas mais longínquas e afas­tadas solidões deste mundo.
Mais longe, já perto das fronteiras que me afastariam por muitos anos da minha pátria, chegamos à noite às últimas gar­gantas das montanhas. Subitamente, vimos urna luz acesa que era indício certo de habitação humana e, quando nos aproxima­mos, encontramos umas construções derruídas, uns galpões mi­seráveis que pareciam vazios. Entramos num deles e vimos, ao clarão do lume, grandes troncos acesos no centro da habitação, corpos de árvores gigantes que ali ardiam de dia e de noite e que deixavam sair pelas fendas do teto uma fumaça que flutua­va no meio das trevas como um profundo véu azul. Vimos mon­tões de queijos acumulados por aqueles que os coalharam na­quelas alturas. Perto do fogo, agrupados como sacos, jaziam al­guns homens. Distinguimos no silêncio as cordas de um violão e as palavras de uma canção que, nascendo das brasas e da escu­ridão, nos trazia a primeira voz humana que tínhamos encontra­do pelo caminho. Era uma canção de amor e de distância, um la­mento de amor e de saudade dirigido à primavera longínqua, às cidades de onde vínhamos, à infinita extensão da vida. Eles igno­ravam quem nós éramos, eles nada sabiam do fugitivo, eles não conheciam a minha poesia nem meu nome. Ou o conheciam, nos conheciam? O fato real foi que junto àquele fogo cantamos e comemos, e depois caminhamos dentro da escuridão até uns quartos elementais. Através deles passava uma corrente ter­mal, água vulcânica onde nos submergimos, calor que se des­prendia das cordilheiras e que nos acolheu no seu seio.
Chapinhamos com gozo, penetrando naquela água, limpando o peso da imensa cavalgada. Sentimo-nos frescos, re­nascidos, batizados, quando ao amanhecer empreendemos os últimos quilômetros da jornada que separar-me-iam daquele eclipse da minha pátria. Afastamo-nos cantando sobre as nossas cavalgaduras, repletos de um ar novo, de um hábito que nos empurrava para o grande caminho do mundo que estava me es­perando. Quando quisemos dar (recordo vivamente este fato) aos montanheses algumas moedas de recompensa pelas can­ções, pelos alimentos, pelas águas termais, pelo teto e pelos lei­tos, isto é, pelo inesperado amparo que encontramos, eles rejei­taram o nosso oferecimento sem um gesto. Eles tinham nos ser­vido e nada mais. E nesse nada mais, nesse silencioso nada mais havia muitas coisas subentendidas, talvez o reconhecimen­to, talvez os próprios sonhos.
Senhoras e Senhores:
Não aprendi nos livros nenhuma receita para a composição de um poema; e também não deixarei impresso nem sequer um conselho, modo ou estilo para que os novos poetas recebam de mim alguma gota de suposta sabedoria.
Se narrei neste discurso certos fatos do passado, se revivi um relato nunca esquecido nesta ocasião e neste lugar tão dife­rentes daqueles, foi porque no transcurso de minha vida tenho encontrado sempre em alguma parte a asseveração necessária, a fórmula que me aguardava, não para endurecer-se em minhas palavras, mas para explicar-me a mim mesmo.
Naquela longa jornada, encontrei as doses necessárias para a formação do poema. Ali, me foram dadas as dádivas solenes da terra e da alma. E penso que a poesia é uma ação passageira ou solene na qual entram em igual medida a solidão e a solidariedade, o sentimento e a ação, a intimidade de si mesmo, a in­timidade do homem e a revelação secreta da natureza. E penso com não menor fé que tudo está sustentado – o homem e sua sombra, o homem e sua atitude, o homem e sua poesia – numa comunidade cada vez mais extensa, num exercício que integrará para sempre em nós a realidade e os sonhos porque de tal ma­neira os une e confunde. E digo igualmente que não sei, depois de tantos anos, se aquelas lições que recebi ao atravessar um rio vertiginoso, ao dançar em torno do crânio duma vaca, ao ba­nhar a minha pele na água purificadora das mais altas regiões, digo que não sei se aquilo saía de mim mesmo para comunicar-se depois com muitos outros seres, ou se era a mensagem que os outros homens me enviavam como exigênciaou desafio. Não sei se vivi aquilo ou se o escrevi, não sei se foram verdade ou poesia, transição ou eternidade, os versos que experimentei na­quele momento, as experiências que cantei mais tarde.
De tudo isso, amigos, surge uma lição que o poeta deve aprender dos outros homens. Não há solidão inexpugnável. To­dos os caminhos levam ao mesmo ponto: a comunicação daquilo que somos. E é preciso atravessar a solidão e a aspereza, a incomunicação e o silêncio para chegar ao recinto mágico no qual podemos dançar torpemente ou cantar com melancolia: mas nesta dança ou nesta canção estão consumados os mais antigos ritos da consciência, da consciência de ser homens e de crer num destino comum.
Na realidade, embora alguma ou muita gente tenha me considerado um sectário, sem possível participação na mesa comum da amizade e da responsabilidade, não quero me justi­ficar, não acredito que as acusações nem as justificações façam parte dos deveres do poeta. De qualquer forma, nenhum poeta administrou a poesia, e se algum deles dedicou-se a acusar os seus semelhantes, ou se outro pensou que poderia gastar a vida defendendo-se de recriminações razoáveis ou absurdas, tenho a convicção de que somente a vaidade é capaz de desviar-nos a tais extremos. Digo que os inimigos da poesia não estão entre os que a professam ou resguardam, mas na falta de concordância do poeta. Por esta razão, nenhum poeta tem um inimigo mais essencial do que a sua própria incapacidade para entender-se com os mais ignorados e explorados dos seus contemporâneos; e isso acontece em todas as épocas e em todas as terras.
O poeta não é um pequeno deus. Não, não é um pequeno deus. Não está marcado por um destino cabalístico superior ao daqueles que exercem outros misteres é ofícios. Tenho expres­sado frequentemente que o melhor poeta é o homem que nos entrega o pão de cada dia: o padeiro mais próximo, que não pen­sa que é deus. Ele realiza a sua majestosa e humilde tarefa de amassar, colocar no forno, dourar e entregar o pão cada dia, com uma obrigação comunitária. E se o poeta chegar a al­cançar esta consciência simples, poderá também a cons­ciência simples converter-se em parte de um colossal arte­sanato, de uma construção simples ou complicada, que é a construção da sociedade, a transformação das condições que rodeiam o homem, a entrega de uma mercadoria: pão, verdade, vinho, sonhos. Se o poeta se incorpo­rar a esta luta nunca gasta a fim de consignar cada qual nas mãos do outro sua ração de compromisso, sua dedicação e sua ternura pelo trabalho comum de cada dia e de todos os homens, o poeta tomará parte no suor, no pão, no vinho, no sonho da Humanida­de inteira. Somente por este caminho inalienável de ser homens comuns chegaremos a restituir à poesia o amplo espaço que lhe é recortado em cada época, que nós mesmos lhe recortamos em cada época.
Os erros que me levaram a uma relativa verdade, e as ver­dades que repetidas vezes me conduziram ao erro, ambos não me pertimiram – nem eu nunca pretendi isso – orientar, dirigir, ensinar o que é chamado de processo criador, de caminhos da li­teratura. Mas pude verificar uma coisa: que nós mesmos vamos criando os fantasmas da nossa própria mitificação. Da argamassa do que nós fazemos, ou queremos fazer, surgem mais tarde os impedimentos do nosso próprio e futuro desenvolvi­mento. Vemo-nos indefectivelmente conduzidos à realidade e ao realismo, isto é,a tomar uma consciência direta daquilo que nos rodeia e dos caminhos da transformação, e depois compreen­demos, quando parece tarde, que construímos uma limitação tão exagerada que matamos o que vive, em vez de fazer a vida desenvolver-se e florescer. Impomo-nos um realismo que poste­riormente nos resulta mais pesado que o tijolo das construções, sem que por isso tenhamos levantado o edifício que contemplávamos como parte integral do nosso dever. E, em sentido con­trário, se conseguimos criar o fetiche do incompreensível (ou daquilo que é compreensível parapoucos), o fetiche do seleto e do secreto, se suprimimos a realidade e suas degenerações rea­listas, nos veremos de repente rodeados por um terreno impos­sível, por um pântano de folhas, de barro, de nuvens, no qual afundam os nossos pés e somos afogados por uma incomunicação opressiva.
Quanto a nós em particular, escritores da vasta extensão americana, escutamos sem trégua a chamada para encher esse espaço enorme com seres de carne e osso. Somos conscientes da nossa obrigação de povoadores e – ao mesmo tempo que nos re­sulta essencial o dever de uma comunicação crítica num mundo desabitado, porém, não por desabitado, menos cheio de injusti­ças, castigos e dores – sentimos também o compromisso de recu­perar os antigos sonhos que dormem nas estátuas de pedra, nos antigos monumentos destruídos, nos largos silêncios de pampas plantários, de selvas espessas, de rios que cantam como tro­vões. Necessitamos colmar de palavras os confins de um conti­nente mudo, e nos embriaga esta tarefa de fabular e de nomear. Talvez essa seja a razão determinante do meu humilde caso in­dividual: e, nessa circunstância, os meus excessos, a minha abundância ou a minha retórica, não seriam nada mais que atos, os mais simples, do mister americano de cada dia. Cada um dos meus versos quis se instalar como umobjeto palpável; cada um dos meus poemas pretendeu ser um instrumento útil de traba­lho; cada um dos meus cantos aspirou a servir no espaço como signo de reunião onde os caminhos se cruzaram, ou como frag­mento de pedra ou de madeira em que alguém, outros, os que virão, pudessem depositar os novos signos.
Ampliando estes deveres do poeta, na verdade ou no erro, até as suas últimas consequências, decidi que a minha atitude dentro da sociedade e perante a vida devia ser também humil­demente partidária. Decidi isso vendo gloriosos fracassos, soli­tárias vitórias, derrotas deslumbrantes. Compreendi, imerso no cenário das lutas da América, que minha missão humana era a de unir-me à extensa força do povo organizado, unir-me com sangue e alma, com paixão e esperança, porque somente desta torrente impetuosa podem nascer as mudanças necessárias para os escritores e para os povos. E embora minha posição tenha causado e cause objeções amargas ou amáveis, o certo é que não encontro outro caminho para o escritor dos nossos amplos e cruéis países, se não queremos que a escuridão floresça, se pre­tendemos que os milhões de homens que ainda não aprenderam aler-nos nem a ler, que ainda não sabem escrever nem escre­ver-nos, se estabeleçam no terreno da dignidade sem a qual não é possível serem homens integrais.
Herdamos a vida dilacerada dos povos que arrastam um castigo de séculos, os povos mais edênicos, os mais puros, aqueles que construíram com pedras e metais torres milagro­sas, joias de fulgor deslumbrante; povos que de repente foram arrasados e emudecidos pelas épocas terríveis do colonialismo que ainda existe.
Nossas estrelas primordiais são a luta e a esperança. Mas não há luta nem esperança solitárias. Em todo homem se jun­tam as épocas remotas, a inércia, os erros, as paixões, as urgên­cias do nosso tempo, a velocidade da História. Mas o que seria de mim se eu, por exemplo, tivesse contribuído de alguma ma­neira com o passado feudal do grande continente americano? Como poderia eu levantar a cabeça, iluminada pela honra que a Suécia me outorgou, se não me sentisse orgulhoso de ter toma­do uma mínima parte na transformação atual do meu país? É preciso olhar o mapa da América, encarar a grandiosa diversi­dade, a generosidade cósmica do espaço que nos rodeia, para entender que muitos escritores se negam a compartir o passado de opróbrio e de pilhagem que obscuros deuses destinaram aos povos americanos.
Escolhi o difícil caminho de uma responsabilidade compartida e, em vez de reiterar a adoração ao indivíduo como sol cen­tral do sistema, preferi entregar com humildade o meu serviço a um considerável exército que pode errar às vezes, mas que ca­minha sem descanso e avança cada dia, enfrentando tanto ana­crônicos recalcitrantes, quanto enfatuados impacientes. Porque acredito que meus deveres de poeta não me indicavam somente a fraternidade com a rosa e a simetria, com o exaltado amor e a nostalgia infinita, mas também com as ásperas tarefas humanas que incorporei à minha poesia.
Há exatamente cem anos, um pobre e esplêndido poeta, o mais atroz dos desesperados, escreveu esta profecia: “À l’aurore, armes d’une ardente patiente, nous entrerons aux splendides Villes” (Ao amanhecer, armados de uma ardente paciência, entraremos nas esplêndidas cidades).
Acredito nesta profecia de Rimbaud, o vidente. Venho de uma obscura província, de um país separado de todos os outros pela sua talhante geografia. Fui o mais abandonado dos poetas e minha poesia foi regional, dolorosa e chuvosa. Mas sempre ti­ve confiança no homem. Jamais perdi a esperança. Por isso talvez tenha chegado até aqui com a minha poesia, e também com a minha bandeira.
Em conclusão, devo dizer aos homens de boa vontade, aos trabalhadores, aos poetas, que todo o futuro foi expressado nes­sa frase de Rimbaud: só com uma ardente paciência conquista­remos a esplêndida cidade que dará luz, justiça e dignidade a todos os homens.
Assim a poesia não terá cantado em vão.”
Pablo Neruda, 1971
Vitor Paiva
Escritor, jornalista e músico, doutorando em literatura pela PUC-Rio, publica artigos, ensaios e reportagens. É autor dos livros Tudo Que Não é Cavalo, Boca Aberta, Só o Sol Sabe Sair de Cena e Dólar e outros amores.

28 agosto 2018



Do site Prosa, Verso e Arte
Caio F. Abreu viveu pouco e intensamente. Ao deixar este mundo aos 48 anos, o escritor gaúcho que se tornou conhecido com o livro “Morangos Mofados”, passara pelo existencialismo, pelo movimento beatnik, Woodstook, geração hippie, golpe militar, desilusão contemporânea e pelo fantasma da Aids, até encerrar sua existência no jardim, fazendo aquilo de que mais gostava: cuidar das plantas.
“Nos últimos tempos, quando não conseguia mais escrever, ele ia para o jardim cuidar das rosas. Ia cuidar da vida: tirar da terra a vida – e o Caio morrendo. Fazer desabrochar a flor – e o Caio morrendo. Num planeta enfermo como o nosso, num país, numa sociedade onde impera a boçalidade, a volúpia materialista, foi magnífico contar com o Caio.”
– Lygia Fagundes Telles, em homenagem ao amigo Caio F. Abreu (quando ele partiu).
Leia o conto “A morte dos girassóis”
Anoitecia, eu estava no jardim. Passou um vizinho e ficou me olhando, pálido demais até para o anoitecer. Tanto que cheguei a me virar para trás, quem sabe alguma coisa além de mim no jardim. Mas havia apenas os brincos-de-princesa, a enredadeira subindo tenta pelos cordões, rosas cor-de-rosa, gladíolos desgrenhados. Eu disse oi, ele ficou mais pálido. Perguntei que-que foi, e ele enfim suspirou: “Me disseram no Bonfim que você morreu na Quinta-feira.” Eu disse ou pensei em dizer ou de tal forma deveria ter dito que foi como se dissesse: “É verdade, morri sim. Isso que você está vendo é uma aparição, voltei porque não consigo me libertar do jardim, vou ficar aqui vagando feito Egum até desabrochar aquela rosa amarela plantada no dia de Oxum. Quando passar por lá no Bonfim diz que sim, que morri mesmo, e já faz tempo, lá por agosto do ano passado. Aproveita e avisa o pessoal que é ótimo aqui do outro lado: enfim um lugar sem baixo-astral.”
Acho que ele foi embora, ainda mais pálido. Ou eu fui, não importa.
Mudando de assunto sem mudar propriamente, tenho aprendido muito com o jardim. Os girassóis, por exemplo, que vistos assim de fora parecem flores simples, fáceis, até um pouco brutas.
Pois não são. Girassol leva tempo se preparando, cresce devagar enfrentando mil inimigos, formigas vorazes, caracóis do mal, ventos destruidores. Depois de meses, um dia pá! Lá está o botãozinho todo catita, parece que já vai abrir.
Mas leva tempo, ele também, se produzindo. Eu cuidava, cuidava, e nada. Viajei por quase um mês no verão, quando voltei, a casa tinha sido pintada, muro inclusive, e vários girassóis estavam quebrados. Fiquei uma fera. Gritei com o pintor: “Mas o senhor não sabe que as plantas sentem dor que nem a gente?” O homem ficou me olhando tão pálido quanto aquele vizinho. Não, ele não sabe, entendi. E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer.
Porque tem outra coisa: girassol quando abre flor, geralmente despenca. O talo é frágil demais para a própria flor, compreende? Então, como se não suportasse a beleza que ele mesmo engendrou, cai por terra, exausto da própria criação esplêndida. Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto.
Alguns amarrei com cordões em estacas, mas havia um tão quebrado que nem dei muita atenção, parecia não valer a pena. Só apoiei-o numa espada-de-são-jorge com jeito, e entreguei a Deus. Pois no dia seguinte, lá estava ele todo meio empinado de novo, tortíssimo, mas dispensando o apoio da espada. Foi crescendo assim precário, feinho, fragilíssimo. Quando parecia quase bom, cráu! Veio uma chuva medonha e deitou-se por terra. Pela manhã estava todo enlameado, mas firme. Aí me veio a ideia: cortei-o com cuidado e coloquei-o aos pés do Buda chinês de mãos quebradas que herdei de Vicente Pereira. Estava tão mal que o talo pendia cheio dos ângulos das fraturas, a flor ficava assim meio de cabeça baixa e de costas para o Buda. Não havia como endireitá-lo.
Na manhã seguinte, juro, ele havia feito um giro completo sobre o próprio eixo e estava com a corola toda aberta, iluminada, voltada exatamente para o sorriso do Buda. Os dois pareciam sorrir um para o outro.Um com o talo torto, outro com as mãos quebradas. Durou pouco, girassol dura pouco, uns três dias. Então peguei e joguei-o pétala por pétala, depois o talo e a corola entre as alamandas da sacada, para que caíssem no canteiro lá embaixo e voltassem a ser pó, húmus misturado à terra, depois não sei ao certo, voltasse à tona fazendo parte de uma rosa, palma-de-santa-rita, lírio ou azaléia, vai saber que tramas armam as raízes lá embaixo no escuro, em segredo.
Ah, pede-se não enviar flores. Pois como eu ia dizendo, depois que comecei a cuidar do jardim aprendi tanta coisa, uma delas é que não se deve decretar a morte de um girassol antes do tempo, compreendeu? Algumas pessoas acho que nunca. Mas não é para essas que escrevo.
(Zero Hora, 18.3.1995)
Publicado no livro “Pequenas epifanias”. Caio Fernando Abreu. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2014.


Como a valorização do ato de dizer, mais do que o conteúdo do que se diz, vai impactar a eleição no Brasil
A pós-verdade se tornou nos últimos anos um conceito importante para compreender o mundo atual. Mas talvez seja necessário pensar também no que podemos chamar de “autoverdade”. Algo que pode ser entendido como a valorização de uma verdade pessoal e autoproclamada, uma verdade do indivíduo, uma verdade determinada pelo “dizer tudo” da internet. E que é expressa nas redes sociais pela palavra “lacrou”.
O valor dessa verdade não está na sua ligação com os fatos. Nem seu apagamento está na produção de mentiras ou notícias falsas (“fake news”). Essa é uma relação que já não opera no mundo da autoverdade. O valor da autoverdade está em outro lugar e obedece a uma lógica distinta. O valor não está na verdade em si, como não estaria na mentira em si. Não está no que é dito. Ou está muito menos no que é dito.
Assim, a questão da autoverdade também não está na substituição de verdades ancoradas nos fatos por mentiras produzidas para falsificar a realidade. No fenômeno da pós-verdade, as mentiras que falsificam a realidade passam elas mesmas a produzir realidades, como a eleição de Donald Trump ou a aprovação do Brexit. A autoverdade se articula com esse fenômeno, mas segue uma outra lógica.
O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no fato de dizer. “Dizer tudo” é o único fato que importa. Ou, pelo menos, é o fato que mais importa. É esse deslocamento de onde está o valor, do conteúdo do que é dito para o ato de dizer, que também pode nos ajudar a compreender a ressonância de personagens como Jair Bolsonaro e, claro, (sempre), Donald Trump. E como não são eles e outros assemelhados o problema, mas sim o fenômeno que vai muito além deles e do qual são apenas os exemplos mais mal acabados.
Uma pesquisa de junho do Datafolha mostrou, mais uma vez, que a maioria das pessoas que declaram voto em Jair Bolsonaro (PSL) são jovens: seu eleitorado se concentra principalmente na faixa dos 16 aos 34 anos. O capitão do exército também lidera as intenções de voto entre os mais ricos e os mais escolarizados do país. O candidato de extrema-direita está em primeiro lugar na disputa presidencial de outubro. Isso num cenário sem o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com Lula, Bolsonaro cai para o segundo lugar. Mas Lula, como sabemos, está preso e impedido de se manifestar num dos mais controversos episódios da história recente do Brasil, um país hoje assinalado pela politização da justiça.
Em pesquisa recém divulgada, a professora Esther Solano entrevistou pessoas na cidade de São Paulo para compreender o crescimento das novas direitas e especialmente da extrema-direita mais antidemocrática, representada por Jair Bolsonaro. Os selecionados cobrem um amplo espectro de posição econômica, de emprego, de idade e de gênero. Solano é professora da Escola Paulista de Política, Economia e Negócios da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e do Mestrado Interuniversitário Internacional de Estudos Contemporâneos de América Latina da Universidad Complutense de Madrid. Ela tem se destacado como uma das principais estudiosas do perfil dos participantes dos protestos no Brasil desde 2013, quando foi uma das poucas a escutar os adeptos da tática black bloc em profundidade.
A pesquisa, financiada pela Fundação Friedrich Ebert, é ótima, importante e deve ser lida na íntegra. Aqui, me limito a reproduzir um trecho que ajuda a iluminar a questão que apresento nessa coluna:
“No começo da roda de conversa com os alunos de São Miguel Paulista, assistimos a um vídeo com as frases mais polêmicas de Bolsonaro. No final do vídeo, muitos alunos estavam rindo e aplaudindo. Por quê? Porque ele é legal, porque ele é um mito, porque ele é engraçado, porque ele fala o que pensa e não está nem aí. Com mais de cinco milhões de seguidores no Facebook, o fato é que Bolsonaro representa uma direita que se comunica com os jovens, uma direita que alguns jovens identificam como rebelde, como contraponto ao sistema, como uma proposta diferente e que tem coragem de peitar os caras de Brasília e dizer o que tem de ser dito. Ele é foda.
O uso das redes sociais, a utilização de vídeos curtos e apelativos, o meme como ferramenta de comunicação, a figura heroica e juvenil do ‘mito ’Bolsonaro, falas irreverentes e até ridículas, falas fortes, destrutivas, contra todos, são aspectos que atraem os jovens. Se, nos anos 70, ser rebelde era ser de esquerda, agora, para muitos destes jovens, é votar nesta nova direita que se apresenta de uma forma cool, disfarçando seu discurso de ódio em formas de memes e de vídeos divertidos: O Bolsomito é divertido, o resto dos políticos não”.
Na roda de conversa na escola de São Miguel Paulista, na Zona Leste, a mais precarizada de São Paulo, os alunos negam que Bolsonaro faça a difusão de um discurso de ódio. Mas valorizam a sua coragem de dizer coisas fortes. Um garoto de 16 anos resumiu: “Ele não tem discurso de ódio. Tá só expondo a opinião dele, falando a verdade”.
A opinião de Bolsonaro, ou a “verdade” de Bolsonaro, que circula em vídeos de “lacração” do “Bolsomito”, é chamar uma deputada de “vagabunda” e dizer que não a estupraria porque ela não merece, por considerá-la “muito feia”; a afirmação de que sua filha, caçula de cinco homens, é resultado de uma “fraquejada”; a declaração de que seus filhos não namorariam uma negra ou virariam gays porque foram “muito bem educados”. E, claro, sua performance na votação do impeachment de Dilma Rousseff (PT).
Ao declarar seu voto pelo afastamento da presidente eleita, Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra. O herói de Bolsonaro, hoje estampado em camisetas de seus apoiadores, é um dos mais notórios torturadores e assassinos da ditadura civil-militar, um sádico que chegou a levar crianças pequenas para ver as mães torturadas, cobertas de hematomas, urinadas, vomitadas e nuas, como forma de pressioná-las. Sobram ainda declarações racistas de Bolsonaro contra índios e quilombolas.
Uma das entrevistadas por Esther Solano assim justifica as falas de seu escolhido: “É que ele tem esse jeito tosco, bruto de falar, militar mesmo. Mas ele não quis dizer essas coisas. Às vezes exagera, não pensa porque vai no impulso, porque é muito honesto, muito sincero e não mede as palavras como outros políticos, sempre pensando no politicamente correto, no que a imprensa vai falar. Ele não está nem aí com o politicamente correto, diz o que pensa e ponto, mas não é homofóbico. Ele gosta dos gays. É o jeitão dele”.
Na minha própria escuta de pessoas nas periferias de São Paulo e na região do Xingu, no Pará, em diferentes classes sociais e faixas etárias, escuto seguidamente uma variação destas frases: “Ele é honesto porque ele diz o que pensa” ou “Ele não tem medo de dizer a verdade”. Quando questiono o conteúdo do que Bolsonaro pensa, a “verdade” de Bolsonaro, em geral aparece um sorriso divertido, meio carinhoso, meio cúmplice: “Ele é meio exagerado, mas porque é um sincerão”.
Assim, Bolsonaro não seria homofóbico ou misógino ou mesmo racista para aqueles que aderem a ele, mas um “homem de bem” exercendo a “liberdade de expressão”. Estes são os adjetivos que aparecem com frequência colados ao candidato de extrema-direita por seus eleitores: “sincero”, “verdadeiro”, “autêntico”, “honesto” e “politicamente incorreto” (este último também como um elogio).
Embora o conteúdo do que Bolsonaro diz obviamente influencia no apoio do seu eleitorado, me parece que ele é mais beneficiado pelo fenômeno que aqui estou chamando de autoverdade. O ato de dizer “tudo” e o como diz o que diz parece ser mais importante do que o conteúdo. A estética é decodificada como ética. Ou colocada no mesmo lugar. E este não é um dado qualquer.
Por isso também é possível se desconectar do conteúdo real de suas falas, como fazem tantos de seus eleitores. E por isso é tão difícil que a sua desconstrução, por meio do conteúdo, tenha efeito sobre os seus eleitores. Quando a imprensa mostra que Bolsonaro se revelou um deputado medíocre, que ganhou seu salário e benefícios fazendo quase nada no Congresso, quando mostra que ele nada tem de novo, mas sim é um político tão tradicional como outros ou até mais tradicional do que muitos, quando mostra que falta consistência no seu discurso, assim como projeto que justifique seu pleito à presidência, há pouco ou nenhum efeito sobre os seus eleitores. Porque o conteúdo pouco importa. As agências de checagem são um bom instrumento para combater as notícias e as declarações falsas de candidatos, mas têm pouca eficácia para combater a autoverdade.
Simples assim. Complexo demais. A lógica em que a imprensa opera, quando faz jornalismo sério, que é a do conteúdo, não atinge Bolsonaro porque seu eleitorado opera em lógica diversa. Esse é um dado bastante trágico, na medida em que os instrumentos disponíveis para expor verdades que mereçam esse nome, para iluminar fatos que de fato existem, passam a girar em falso.
Se Bolsonaro participar dos debates ao vivo durante a campanha eleitoral, para uma parcela significativa do eleitorado brasileiro o que vai prevalecer é a estética marcada pelo “dizer tudo” e dizer tudo lacrando. Também por isso Ciro Gomes (PDT), por sua própria personalidade mais agressiva e sua falta de freio na língua, é visto por uma parcela preocupada com a ascensão de Bolsonaro como o mais capaz de enfrentá-lo.
Se esse quadro permanecer, a disputa entre testosteronas infláveis – e inflamáveis – será mais importante do que o conteúdo na eleição brasileira, porque mesmo quem tem conteúdo terá que deixá-lo em segundo plano para ganhar a disputa da dramaturgia. Mais um degrau escada abaixo na apoteótica descida do país rumo à irrelevância.
Se este não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, no Brasil há uma particularidade que parece impactar de forma decisiva a autoverdade. Essa particularidade é o crescimento das igrejas evangélicas fundamentalistas e sua narrativa do mundo a partir de uma leitura propositalmente tosca da Bíblia. A retórica do bem contra o mal atravessa fenômenos como a “bolsonarização do país”.
Embora os pastores fundamentalistas exaltem a perseguição do “povo de Deus”, a prática mostra exatamente o contrário, ao perseguirem os LGBTQs, as mulheres e, em alguns casos de racismo, os negros. Mas a prática são os fatos, e os fatos não importam. O que importa é a retórica e a forma. A autoverdade atravessa o discurso fundamentalista como conceito e como estética. O milagre da transmutação aqui é justamente fazer com que a estética seja convertida em ética.
Formados nessa narrativa, uma geração de brasileiros é capaz de ler ou assistir a uma reportagem da imprensa mostrando verdades que Bolsonaro gostaria que não subissem à superfície não pelo seu conteúdo, mas pela ótica da perseguição. O conteúdo não importa quando quem questiona o inquestionável é automaticamente um inimigo, capaz de usar qualquer “mentira” para atacar um “homem de bem”. Afinal, as imagens de malas de dinheiro (de dízimo, no caso) foram inauguradas por alguns pastores neopentecostais, muito antes do que pela investigação da Lava Jato, e mesmo assim suas igrejas não pararam de crescer. Bolsonaro torna-se o “perseguido” na luta do bem contra o mal, o que faz todo o sentido para quem é bombardeado por uma visão maniqueísta do mundo.
Produtos de entretenimento como as novelas e os filmes supostamente bíblicos de uma rede de TV como a Record, por exemplo, colaboram para formatar um determinado olhar sobre a dinâmica da vida. Se alguém só vê o mundo de um mesmo modo, não consegue mais ver de outro. Não há mais interpretação, a decodificação passa a ser por reflexo.
Este é o mecanismo que tem se alastrado no Brasil. E que é imensamente beneficiado pela tragédia educacional brasileira. Não é por acaso que a escola pública, já tão desvalorizada e desprestigiada, esteja sofrendo o brutal ataque representado pelo movimento político e ideológico nomeado como “Escola Sem Partido”. O pensamento múltiplo e o debate das ideias são os principais instrumentos para devolver importância aos fatos e ao conteúdo, assim como recolocar a questão da verdade.
Não é um risco que os protagonistas das novas direitas queiram correr. No jogo das aparências, seu truque é sempre o mesmo: fazer um movimento ideológico afirmando que é para combater a ideologia, agir politicamente mas afirmar-se antipolítico, apoiar partidos de direita dizendo-se apartidários. Esse mascaramento só funciona se aquele a quem a mensagem se destina abdicar do pensamento em favor da fé.
A retórica supostamente bíblica está educando aqueles que não estão sendo educados. Como produto de entretenimento, as novelas e filmes se articulam com os programas policialescos sensacionalistas da TV, muitas vezes na mesma rede de TV, e os ampliam. Já existe uma geração formada tanto na desumanização dos mais pobres e dos negros, tratados como coisas que podem levar bala nas imagens desse tipo de programa, quanto na adesão à política pela fé, a grande sacada dos atuais protagonistas da articulação religiosa-militarista que figuras como Bolsonaro representam.
A personificação, a valorização do indivíduo, do “Um” que é só ele, jamais um+um, garante que personagens como Bolsonaro e até mesmo Sergio Moro possam encarnar como “O Um”. “O Um” contra o mal, ungido pelas “pessoas de bem”, dispostas a linchar quem estiver no caminho. Afinal, se a luta é do bem contra o mal, tudo não só é permitido como abençoado.
Não há nada mais perigoso numa eleição do que o eleitor que acredita ser “um instrumento de Deus”, absolvido previamente por todos os seus atos, mesmo que eles sejam sórdidos ou até criminosos. Como a lei que vale não é a terrena, laica, mas ditada diretamente do alto e, com frequência, diretamente ao indivíduo, tudo é permitido quando supostamente “Deus estaria agindo”. Não testemunhamos apenas a politização da justiça, mas algo possivelmente ainda mais destruidor: a “religiosização” da política. E ela tem como primeiro efeito a política da antipolítica.
Figuras como Bolsonaro se beneficiam da crise econômica, do crescimento da violência e da produção de medo, sim. Mas sua força vem de uma população treinada para aderir pela fé ao que não diz respeito à fé. Por isso é possível até mesmo fazer política e se dizer apolítico. Se o imperativo é crer, a adesão já está garantida não importa o conteúdo do discurso, desde que a dramaturgia garanta entretenimento, espetáculo. Embora pareçam desacreditar de quase tudo em suas manifestações na internet, ninguém se iluda. Uma parte significativa do eleitorado brasileiro é formada por crentes. E ser crente hoje no Brasil tem um sentido e um alcance muito mais amplo do que em qualquer momento da história do país.
A autoverdade desloca o poder para a verdade do um, destruindo a essência da política como mediadora do desejo de muitos. Se o valor está no ato de dizer e não no conteúdo do que é dito, não há como perceber que não há nenhuma verdade no que é dito. Bolsonaro não está dizendo a verdade quando estimula o ódio aos gays, mas sendo homofóbico. Não está dizendo a verdade quando agride negros, mas sendo racista. Não está dizendo a verdade quando diz que não vai estuprar uma mulher porque ela é feia, mas incitando a violência contra as mulheres e sendo misógino. Há nome na língua para tudo isso e também artigos no Código Penal.
Muitos daqueles que o aplaudem, especialmente os jovens nas periferias, não percebem que o discurso da meritocracia proclamado pela extrema-direita que Bolsonaro representa é justamente a sacanagem que os mantêm no lugar cimentado do qual gostariam de sair. Não existe meritocracia, ascensão apenas por méritos próprios, sem partir de bases minimamente igualitárias.
Jair Bolsonaro é a encarnação de um fenômeno muito maior do que ele, do qual ele se aproveita. Tanto quanto Donald Trump, em nível global. A tragédia é que eles possivelmente sejam só os primeiros.
O desafio imposto tanto pela pós-verdade quanto pela autoverdade é como devolver a verdade à verdade. Não faremos isso sem tomar partido por escola de qualidade para todos, apoiando aqueles que lutam por isso de maneira muito mais contundente do que fazemos hoje, assim como pressionando por políticas públicas e investimento, e questionando fortemente os candidatos para além da retórica fácil. Nem faremos isso sem a recuperação do sentido de comunidade, o que implica a reapropriação do espaço público para a convivência entre os diferentes, assim como a retomada da cidade. Temos que voltar a conviver com o corpo presente, compartilhando os espaços mesmo e – principalmente – quando as opiniões divergem. Temos que resgatar o hábito tão humano de conversar. E conversar em todas as oportunidades possíveis.

E isso não amanhã. Ontem. A verdade do momento é que estamos ferrados. Outra verdade é que, ainda assim, precisamos nos mover. Juntos. Não por esperança, um luxo que já não temos. Mas por imperativo ético.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com

Visto no: El País Brasil