Ser Feliz é Ser Livre

15 outubro 2019



As palavras professor, profissão e prostituição não iniciam com as mesmas três primeiras letras à toa. Não há nada mais vulgar do que ensinar em um país que prostitui os nossos conhecimentos e paga quase nada por isso. Quem lucra com esse prostíbulo do ensino é o atual governo, que historicamente cafetão, goza muito ao usar de nossos serviços, mas não nos legitima para a sociedade. Professor virou a meretriz do Estado, muitas vezes contaminado por doenças contraídas pelo estresse na sala de aula, salários mal remunerados, violência escolar, e todos os demais fetiches dos quais estamos submetidos.

Somos responsabilizados pela mal resolvida situação sexual da educação nacional. Careta e conservadora, o saber agora limitou-se ao papai e mamãe apregoado pelas igrejas que ditam os rumos da política do país. Contudo, nos bastidores do poder, precisamos transformar a sala de aula em kama sutra, pois é necessário driblar a sociedade modelo recatado e do lar no aprendizado, ao mesmo tempo que incorporamos a Bruna Surfistinha para motivar os alunos e desconstruir as incoerências sociais.

Para estes, não basta explorar nossos corpos das várias maneiras possíveis em sala de aula, seja como conselheiros, seja como aqueles que vão servir de acessório para os desejos mais lascivos envoltos a xingamentos, violência física e muitas vezes assédio. Muitos, porém, usam a rede para prostituir nossos serviços. Em um misto de vigilância e questionamento, a internet passou a ser o novo bordel, onde o aluno nos compara com outras ferramentas, sempre mais atraentes e tentadoras. Assim, somos inferiorizados no ato a dois, ou grupal, já que o mais comum é o sexo coletivo nesse modelo de aprendizado com salas de aula abarrotadas de clientes que deixariam a categoria orgia do Xvideos no chinelo.

Há também quem filme a nossa didática em sala de aula para expor nossos esforços de levar prazer a esses desafortunados, numa espécie de sexting educacional. Não suficiente, projetos políticos controversos como a Escola Sem Partido querem ainda ilegalizar a liberdade da nossa profissão, que durante anos satisfez a devassidão social, levando um pouco de esperança para as relações frígidas da sociedade. Sem representatividade sindical, social, política e cultural, a ilegalidade serve de extra para estes profissionais. Muitos de nós vendem seus atributos na rua, a preço de banana, em cursinhos, isoladas, preparatórios, atuando em três turnos todos os dias da semana. Se isso não for se prostituir, na pior das hipóteses é exploração sexual.

Desnudos, ficamos vulneráveis também fora dos espaços escolares. Isto porque, a família nos usa como um puxadinho, como aquela crioula do tempo da escravidão que tinha sexo "consentido" com o senhorzinho branco e conservador. Hoje há a mesma lógica: satisfazemos os desejos de muitos pais que entregam em nossos braços as taras dos seus filhos, todas ligadas a negligência parental, para suprir as volúpias de ambos nem sempre ligadas ao conhecimento. Então, semelhante ao passado, todos os envolvidos sabem que há uma clara relação erótica perversa no ato, mas ignoram isso em nome da satisfação luxuriosa de repassar ao outro a incumbência do gozo pessoal.

O reflexo disso não poderia ser outro: uma sociedade mal resolvida, sexualmente e educacionalmente, escravizando profissionais sérios cujo papel só é lembrado, de relance, no dia 15 de outubro de cada ano, quando, na verdade, estamos presentes em cada bem sucedida história de sucesso da sociedade, mas continuamos sendo tratados como putas por todos aqueles que sabem do peso da nossa existência. Isso também resvala no alunado, que finge ares de libidinagem, porém, em essência, saí sem tesão da escola em busca de azulzinhos para se inserir na suruba que lhe espera, de preferência excitado, na sociedade.

Mesmo assim, ainda acalentando a fantasia nacional de que somos responsáveis pelo apetite sexual do aluno pelo conhecimento, fingimos orgasmos por meio de dados mentirosos sobre os nossos clientes, os quais chegam em sala de aula carentes de muita coisa para além do saber, mas saem com a libido destruída frente a brochante conjuntura educacional do Brasil.

Portanto, não dá mais para tangenciar essa realidade. A educação não pode ser tratada como uma transa casual, irresponsável e inconsequente, prostituindo indivíduos que poderiam ganhar bem mais do que o prazer efêmero de um gozo em forma de aula. Da mesma forma, caso fôssemos valorizados para além de hoje, o professor teria o deleite sobre um ensino onde o sexo e o amor estariam em sintonia para suprir as carências dentro e fora dos espaços escolares. Entretanto, enquanto nos pagarem mal, usarem nossos corpos e cobrarem regalos para além do que podemos oferecer, nada vai mudar. Não haverá pílula ou afrodisíaco que dê jeito. A solução é clichê: investir em nós professores. Do contrário, a cada 15 de outubro, todas as vezes que me perguntarem qual é a minha profissão, eu direi professor prostituto.

09 setembro 2019



     A maior burrice que podemos fazer ao entrar em um relacionamento é excluir aquelas pessoas que, na nossa solteirice, nos preencheram o vazio da solidão, porém, é o que mais acontece. No afã do encantamento, rapidamente números são apagados da agenda, mensagens comprometedoras são deletadas e aqueles contatos, que saciaram a ausência de uma cia, são renegados ao esquecimento. Os bem intencionados argumentarão que isso é uma prova de amor, de fidelidade, palavras muito grandes para serem usadas levianamente, ainda mais quando pouco se conhece de quem está ao nosso lado. Em muitos casos, quando começamos um envolvimento com alguém, há muitas incertezas em jogo. Entretanto, ávidos para dar uma resposta imediatista ao nosso par, desfazemos laços importantes com os contatinhos que tínhamos, os quais, na pior das hipóteses, são os únicos dispostos a nos oferecer alguma forma de afago quando o que idealizamos não dá certo.
     Como a dinâmica a dois ganhou novos contornos com a internet, os relacionamentos seguem em gigabytes unindo almas ávidas a se arriscarem no convívio com o outro. Levar em consideração o advento tecnológico é imprescindível para dar credibilidade aos contatos. Isto porque, por mais vislumbre que se crie por alguém na vida real, a rede tem ofertado hiper possibilidades de envolvimento. São aplicativos, salas de namoro, chats, todos dispostos a acalentar nossas necessidades, sejam elas afetivas ou sexuais. Logo, se afobar na escolha de alguém, sem estar certo dos reais sentimentos envolvidos na questão, não só amplia a incidência de se optar por uma alternativa errada, como também nos faz agir por impulso, renegando aqueles contatos que tiveram, e tem, a sua serventia. Essas tomadas de decisões imprudentes costumam vir carregadas de arrependimentos depois, quando aquilo que deveria durar uma vida nem chega a ser um namoro de verão.
       Em muitos desses casos, ao começar um envolvimento com alguém, há muitas incertezas em jogo acerca da durabilidade daquela história. Não há garantias de que os sentimentos sejam recíprocos e, o pior, duradouros. Hoje, devido aos arranjos conjugais que começam com um click e terminam em outro, é cada vez mais complexo assegurar a duração de uma vida a dois. Porém, iludidos com uma ideia frágil de fidelidade, muitos de nós faz uma demonstração abrupta de comprometimento eliminando os contatinhos da lista telefônica e demais redes sociais. O problema é que, em diversos exemplos, a pessoa que se dizia disposta a estar conosco pode mudar de ideia. Então, nos vemos duplamente sós: sem os contatos e sem a promessa de uma aliança vindoura. Muitos podem alegar que quem chega a esse ponto peca pelo amadorismo. Porém, não há profissionalismo nem experiência capaz de nos impedir de fazer uma escolha equivocada. No campo do sentimento estamos na arquibancada torcendo para que o nosso time ganhe, mas, muitas vezes, o jogo vira.
       Nesse sentido, há conexões que precisam ser mantidas, mesmo que não venham com a promessa de algo a longo prazo, mas que sejam capazes de saciar lacunas presentes, antes daquela pessoa especial de fato surgir em nossas vidas. Porém, concordo que há contatos e contatos. Alguns merecem ser tratados no diminutivo, pois pouco acrescentam a nossa história de vida. Outros, todavia, deveriam ser alocados em outra categoria, porque se tão presentes na dinâmica diária que muitas vezes é impossível pensar em um desenlace. Evidentemente que esse pensamento é repudiado numa sociedade pseudo monogâmica como a nossa. Preferimos ir de encontro a nossa natureza para atender a anseios externos incapazes de compreender e, sobretudo, suprir o nosso lado mais animalesco, aquele que deseja sim várias pessoas, amá-las sem o jugo da condenação, sempre tão rápido e raso em sentenciar os transviados. 
       Ter opções não pode ser visto como traição quando o outro não nos garante a devida segurança. Até que alguém se torne prioridade para nós, não podemos descartar as inúmeras possibilidades de conhecer, estar ou quiçá viver com alguéns, no plural, desde que seja algo consentido, devidamente compactuado entre as partes e seguro para os envolvidos. Entretanto, os mais puritanos rapidamente levantarão a bandeira da promiscuidade para acusar quem opta por essa forma de relacionamento. Tal atitude, além do inegável tom conservador, ignora uma realidade vista claramente: todos usam todo mundo. Seja por uma noite de prazer, seja por mera conveniência, estamos todos em constante relação de interesse com o outro. Ir de encontro a isso é ignorar a influência do capital no convívio humano também no campo afetivo. Assim, ao invés de sentenciar os contatinhos no bojo das vulgaridades, o mais sensato seria rever esse modelo tacanho de namoro/casamento, o qual inicia-se e termina-se cada mais abruptamente.
         Poucas são as uniões não precipitadas. Na ânsia de estar com o outro, firmamos um acordo sem ler as entrelinhas desse contrato, o qual é repleto de cláusulas e pouquíssimas brechas, fazendo com que, quando haja um conflito, ambos estejam sufocados. Não é de se espantar que no Brasil tenha aumentado significativamente o número de litígios, alguns até de forma violenta, bem como de pessoas que trocam de parceiros como de roupa, até mesmo em ambientes ditos mais improváveis como espaços religiosos. Esse fenômeno, apesar de ignorado, na prática refere-se a precipitação dos envolvidos. Estamos divididos em dois polos bem claros: aqueles que buscam ensandecidamente por uma alma gêmea e o outro que não quer perder tempo apenas com uma única pessoa quando o mundo oferece um leque gigantesco de possibilidades. A questão é que o segundo lado dessa moeda é hipocritamente acusado de lascivo, quando ambos os lados praticam, de fato ou em pensamento, a política de ter, ou idealizar alguém, para preencher o que nos falta.
       Os contatinhos, portanto, limitam a chance de escolhermos apressadamente alguém que pode não ser o grande amor de nossa vida. É a nossa zona de conforto, o purgatório, uma espécie de transição para algo melhor que mais cedo ou mais tarde virar. Também faz parte das novas modalidades cibernéticas, em um mundo onde a desconectividade é impossível. Serve para ampliar a nossa noção de tempo, o qual é adiantado para estar com o outro cujo o ritmo nem sempre está em compasso com o nosso. Mais que isso, os contatinhos confrontam as verdades frágeis que criamos para defender uma monogamia incapaz de deter o curso de nossas paixões. Claro, em países como o Brasil, o machismo e a misoginia nem sempre equiparam a balança dessas experimentações, o que está sendo paulatinamente combatido e revisto. Assim, caso você não esteja certo de que encontrou a pessoa da sua vida, não aniquile a pluralidade que te serviu nesse processo. Permita-se experimentar os outros e ser provado por eles. Não se precipite: os contatinhos são importantes.

06 setembro 2019



       Quem nunca se viu perdidamente apaixonado por uma pessoa que não tem nada a ver com o seu perfil? Aquele indivíduo que chega do nada e penetra em fendas muito profundas de nossa alma e parece nos conhecer mais do que a nós mesmos. A pessoa que nos revira do avesso e descobrimos com ele que esse era o nosso lado certo. Aquele cara que sua família certamente não vai aceitar por não ter perspectiva de futuro, mas que conseguiu valorizar qualidades suas que nenhum outro já fez. Ou aquela garota superindependente, cheia de personalidade, indisposta a encarar o perfil dona de casa, que a muitos assusta, transformou-se na mulher de sua vida. Provavelmente, esses e tantos outros arranjos conjugais começam com uma química inexplicável. Trata-se de um fio condutor invisível que, por mais que tentemos lutar contra a nossa razão, a emoção toma as rédeas e nos faz correr o risco de viver aquele sentimento incerto com esse alguém. Isso provavelmente seja química, uma sensação subversiva de ir de encontro as nossas verdades, desconstruindo todas as certezas que tínhamos, para nos aventurar no novo e, a partir dele, começar uma história de amor digna de novela.
        Nem faz muito tempo assim, escrevi um texto sobre relacionamentos sob a perspectiva da cara metade, a outra face da laranja, alma gêmea, descreditando o valor dessas expressões. Na época, achava inconcebível a possibilidade de validar essas ideias no campo amoroso, embora eu tenha tido envolvimentos facilmente classificáveis naquelas categorias. Na minha intransigência, fruto da imaturidade e inexperiência, torcia o nariz para os apaixonados os quais se derramavam em romantismo dentro e fora da rede quando seu aparentemente par perfeito aparecia em suas vidas. Continuo achando que a perfeição nesse campo é impossível, mas estou mais flexível quanto a possibilidade de encontrarmos alguém sob medida para nós. Tamanha mudança só acontece quando passamos a dividir das mesmas experimentações vividas por muitos. O problema é racionalizar esse novo sentimento que não é amor, paixão, é apenas química, a qual, no início, em sua vaga manifestação, vai muitas vezes de encontro com os preceitos que criamos para estar com alguém.
         Vou me colocar na berlinda deste assunto, mesmo não tendo ampla propriedade para falar dele. Antes de me aventurar nas possibilidades oferecidas pelos aplicativos de relacionamento, partia do princípio de ser incapaz de me envolver sentimentalmente com alguém pela internet, sem ao menos ter tido qualquer contato íntimo clássico que me fizesse ter certeza de quem aquela pessoa era. Falo do olho no olho, sentir a pele, provar do beijo... mas que isso, analisar se o perfil daquele indivíduo confere com as minhas expectativas, se temos gostos parecidos, ou complementares e, assim, se a mágica da afinidade acontecia entre nós. Esses critérios me pareciam irrefutáveis, mas também foram flexibilizados. Nessa era tecnológica, o príncipe ou princesa não deixaram de ser símbolos de desejos para uma vida a dois, apenas ganharam novos contornos. Os castelos são outros e os muros, que impediam a entrada ou saída desses locais, nem sempre bloqueiam a conexão, agora mais virtual, entre as pessoas. Assim, a tecnologia baniu muitas barreiras impenetráveis para estar com alguém, mas não nos ensinou a lidar com o outro fora dela. Estou em fase de formação nesta seara.
         Acredito que não seja o único em aprendizado nesse sentido. É complexo demais lidar com a euforia de estar conectado com alguém que mal conhecemos, mas queremos estar juntos, dividir uma intimidade, mesmo que esse alguém seja completamente o oposto do parceiro que havíamos idealizado. Esse é outro ponto interessante da química, ela quebra toda e qualquer expectativa que temos sobre com quem vamos nos relacionar. Apesar da nossa insistência em traçar um perfil X ou Y, quando o coração diz “é esse!”, mesmo que não seja, somos compelidos a arriscar. Dar Match também significa se aventurar no incerto, permitir-nos criar laços de afeto à revelia de qualquer checklist. Claro, há muitas chances de sermos enganados pelos nossos sentimentos. Às vezes, nosso nível de carência ultrapassa o tolerável e nos faz cair em armadilhas. Porém, após alguns tropeços, passamos a distinguir melhor quem serve ou não para estar ao nosso lado.
        De certo, não prevemos de quem vamos gostar. Nosso gosto, apesar das interferências culturais, é incerto, pois correspondem aos nossos anseios mais instintivos e são passíveis de mudanças temporais e comportamentais. Por exemplo, há pessoas que numa fase da vida preferem se relacionar com outras mais velhas, devido não só a curiosidade, maturidade, mas também ao senso de responsabilidade. Anos depois essas mesmas pessoas passam a desejar outras mais novas, por razões variáveis. Há quem prefira na juventude o tipo Bad Boy, e mais à frente se case com o mais almofadinha dos caras. Da mesma forma, há quem prefira mulheres complacentes para namorar, mas se atraia ao longo da vida por outras mais atrevidas. Quando a química bate, personalidade, características físicas, noções de estética, classe social, idade, gênero e até mesmo sexualidade, perdem seu poder limitado de classificação para se transformarem em meros detalhes incapazes de impedir a felicidade de quem se vê refletindo brilhante pelo olhar do outro.
          Entretanto, combinar com alguém momentaneamente não garante a longevidade desse enlace, e não há drama nesse sentido. Por mais que vivamos numa fase onde as relações amorosas são cada vez mais breves, isso não quer dizer que estão menos intensas. Pelo contrário, é nessa efemeridade que as pessoas regozijam de um prazer a dois fora do comum, pois não há espaço para desperdício, é um sugando o máximo que pode do outro e vice-versa, o que naturalmente pode levar à exaustão. Todavia, essa intensidade que constitui a química entre duas pessoas no início não deixa muitas sequelas, caso termine antes de virar uma longa história de amor. Muitas delas são paixões de verão, envolvimentos de curtas semanas, as vezes dias, mas não menos especial do que uma vida inteira. Diante da falta de profundidade de algumas dessas configurações a dois, sobra entrega, permissividade e recomeço com menos neuras e mais bagagem na mochila quando uma onda de tremores anunciar que uma nova química está abalando as estruturas. Bater a química, então, não significa sacramentar nada em definitivo. É mais um dos compassos do baile que sempre segue adiante.
        Estou aprendendo essa nova coreografia dos envolvimentos. Para quem está de fora, parece complexo, mas logo logo encontramos no ritmo da dança os parceiros de uma noite, uma estação ou da vida inteira. A durabilidade da história não determinará sua intensidade. Aliás, quando a química bate, o lance não é quantificar nada, mas qualificar. Se foi bom, se valeu a pena, nos deixou mais leves, bem conosco, significa que ficou algum legado e isso não pode ser descartado. Da mesma forma que as experiências ruins também precisam ser aproveitadas. Nada é desperdiçado no processo. Claro, inconscientemente somos levados a crer que aquele Match será nosso por tempo ilimitado, mas o eterno enquanto dure, enfatizado pelo poeta, está cada vez mais relativizando-se. O que não se relativiza são as sensações: o frio na barriga, a ansiedade, as fugas, as loucuras, a vontade de estar junto, de ir contra o mundo para viver com aquela pessoa. Tudo isso continua dando aos nossos Match’s algum significado, embora a química continue sem explicação, e não precisa de uma. Basta continuar nos fazendo felizes.  


       Tive depressão. Não faz muito tempo, mas ainda machuca tocar nessa ferida, embora, da descoberta até a atualidade, houve um longo processo de tratamento e reencontro comigo mesmo para vencer essa doença e impedir o seu agravo. Não é fácil. Ainda carrego profundas marcas da época em vias de cicatrização. Quem tem/teve momentos assim sabe da luta diária travada consigo para seguir em frente. Parece que o mundo perde as tonalidades vívidas que dão sentido a existência. Digo isto porque, revirando o meu transcurso depressivo, lembro como a ausência de cores em coisas básicas do meu cotidiano afetaram outros sentidos meus como o paladar, o olfato e o tato. Sem o colorido ávido capaz de atribuir vida ao que me cercava, comecei a sucumbir a escuridão lentamente até chegar a um ponto crítico do qual o breu surgia como único refúgio para a dor que sentia. E por que estou falando de cores nesse contexto? Justamente porque no mês do Setembro Amarelo, apesar de compreender a função deste tom para a discussão sobre suicídio/depressão, acredito que há outras pigmentações tão caras a essa problemática, que precisam ser destacadas.
       Para validar essa tese, recorro a algo pouco difundido entre o grande público. Trata-se da psicologia das cores, estudo voltado a mostrar como o nosso cérebro identifica e transforma os tons a nossa volta em sensações. O marketing já usa desse artifício há anos para angariar novos clientes, mas pode ser estendida também para a maneira como gostaríamos de ser vistos e compreendidos pela sociedade. Nesse sentido, as cores não servem meramente para o adorno do olhar. Cada uma exerce uma força quando captada pelas lentes humanas. O problema é que no prisma refletido pela sociedade contemporânea, há uma pintura única, traçada no geral pelos socialmente privilegiados, para delinear a existência de todos. Trocando em miúdos, nos é vendido um quadro de vida do qual o molde pode ser ajustado para todos os indivíduos, como se possuíssemos uma capacidade furta-cor de nos adequar a realidade do outro, ao passo que anulamos a nossa. Alguns conseguem tal adaptabilidade, pagando um alto preço por isso, porém, outros muitos destoam, e daí o suicídio muitas vezes entra em cena.
          Em outras palavras, o suicida é alguém desencaixado dos parâmetros sociais. Ele é sensível ao captar a insuficiência da matiz ofertada pelo social, depois sofre ao perceber que não se encaixa naquela aquarela aparentemente perfeita, grita em silêncio por socorro, observa que ninguém se importa com isso e, por fim, chama atenção para si através do apagamento da própria existência. Seguindo esse raciocínio, é espantoso o crescimento do autocídio, sobretudo entre os mais jovens. Dentre muitas razões, nossa juventude não está sendo vista, incluída em sua multiplicidade e, sobretudo, acolhida. Sem referenciais para se apoiar, a depressão ofusca possíveis rotas de fuga, levando-os ao trágico desfecho pela morte. Não à toa, entre os muitos sinais daqueles que pretendem dar cabo da própria vida, está o uso de vestimentas escuras, como um prelúdio daquilo que estar por vir. Ou seja, o verde conhecido como símbolo da juventude, por designar vitalidade, saúde e esperança, perde sua conotação de segurança e dá lugar ao preto da melancolia e da morbidez.
      Entendo como essa substituição se dá. No auge da minha crise, sentia uma paz quando estava na escuridão do meu quarto trancado, ausente da pieguice alheia - inútil por excelência – longe dos ruídos externos que muito diziam, mas eram incapazes de tocar meu íntimo, e protegido do contato humano. Para ser resgatado desse limbo foram meses de insistência daqueles que me amam, todos não apenas preocupados com o meu bem-estar, mas com o desaparecimento do brilho nítido que havia nos meus olhos – que de verdes ficaram foscos diante do que passei. Sorte não ter chegado ao ponto do obscurantismo total, porque tinha estas pessoas ao redor dizendo que havia um arco-íris à minha espera. Porém, ter gente disposta a colorir o meu caminhar é um privilégio de poucos. Muitos em situações semelhantes ou piores que a minha nem sequer são percebidos por aqueles que dizem nutrir algum sentimento. Talvez seja essa negligência uma das principais responsáveis pelo desaparecimento das cores que equilibrariam os desajustes daqueles com depressão.
        Sabiamente, todavia, o amarelo escolhido para tingir o mês de Setembro é eficaz no que se propõe, pois problematiza a necessidade de olharmos atentamente para aqueles que nos rodeiam. Isto porque, em uma era onde o eu é autossuficiente, não há espaço para os dilemas do outro. Então, evocamos essa cor de alerta, da luz, da euforia, mas também do otimismo, para reverter esse quadro egocêntrico, na tentativa de salvar quem tanto precisa da nossa ajuda. Tem funcionado. Após algumas edições dessa campanha anual, mais pessoas se mostram receptivas a discussão e, mais que isso, aptas a dispor de tempo para observar e acolher aqueles susceptíveis a depressão e suicídio. Contudo, sobrecarregar a cor amarela, concentrando-a em um único mês, é pouco diante da complexidade do assunto. É preciso neutralizar as chances de tais doenças acometerem ainda mais a sociedade. A maneira que encontrei, e quem tem funcionado muito, é potencializar o sentido das cores: tranquilizar-me com o azul, espiritualizar-me com o lilás, alegrar-me com o laranja, reavivar o verde da esperança, estar vermelho de paixão pela vida e em paz comigo mesmo.
      Não cheguei a essa conclusão sozinho. Além dos muitos que me cercam, ser acompanhado por psicólogo e depois por analista, a qual faço até hoje, e recomendo – foram cruciais para reaprender a olhar o mundo. É um ciclo que pode variar de pessoa para pessoa. O que quero dizer aqui é que as cores, e não apenas o amarelo, poderiam ser grandes aliadas no combate e cura daqueles, que como eu, sofrem/sofreram de depressão, impedindo a opção do suicídio. Dessa forma, reiterando a psicologia, cores podem ser uteis por compreender nossos anseios, salvando-nos de longos sofrimentos e fins abruptos. Cores são indivíduos atentos aos sinais mais singelos do outro pedindo socorro. Pessoas ternas como o tom de rosa que tanto romantiza as nossas relações, levando a compreensão através da delicadeza do olhar, sempre visando não apenas afagar, mas, principalmente ouvir e entender as dores do outro. Cores também são possibilidades. É a metáfora do pote de ouro no fim do arco-íris. Significa mostrar para quem está nessa condição de vazio profundo que há um mundo colorido debaixo daquela escuridão imposta pelos nossos medos.
        Passados três anos após a descoberta da minha depressão, aceitação do diagnóstico – que também não é fácil – tratamento e processo de cura, estou reencontrando as cores a minha volta, todas ainda mais brilhantes e vivas do que antes. Mais que isso, passei a iluminar a vida daqueles cuja a escuridão da depressão tenta fisgá-los. Tornei-me uma cor, é isso que precisamos também para evitar que o amarelo seja a única encarregada de chamar atenção sobre esse assunto. Parece complexo por em prática essa sinestesia, porém, o fato é que já irradiamos isso sem notar quando não julgamos os depressivos, não o condenamos ao inferno, ou, simplesmente quando estamos dispostos a ouvi-los e compreendê-los, ao passo que mostramos que há naquela dor toda dentro dele uma paleta de cores apenas revirada, mas que pode ser reorganizada. Se o depressivo/suicida, descolorido pelo mundo, notar que o mundo passou a nota-lo, incluí-lo, respeitá-lo como é, suas cores voltarão junto com a sua vontade de existir, pois o suicídio precisa de cores para viver.

04 setembro 2019



      Após o término recente e conturbado do meu namoro, tinha decidido dar um tempo nos relacionamentos. Na época, o pivô da nossa separação foi a mentira, de ambas as partes. Acontece que a pressão social para estar com alguém alimenta uma carência nem sempre nossa de preencher o vazio deixado pelo outro com uma nova pessoa. Assim, depois de encontros mal sucedidos, aderi, por indicação da minha analista, ao famoso Tinder, pois, diante de tantos relatos, haveria uma chance de achar alguém bacana por lá. Empolgado, fiz a minha conta e confesso que tenho me divertido com a experiência de dar “Match” com pessoas interessantes, geralmente fora da minha caixinha. Porém, para não repetir os erros passados, resolvi ser o mais honesto possível na criação do meu perfil, desde fotos, descrição, gostos pessoais e o que mais me representasse. Iludido, achei que não era o único, mas, depois de uma espécie de DR com um futuro pretendente, percebi que dizer a verdade nesses aplicativos esfria qualquer possibilidade de envolvimento.
        Não é novidade que a internet se tornou o celeiro dos mentirosos. Nessa era de pós-verdade, encontrar na rede alguma veracidade nas informações é uma tarefa de Sísifo. Mais ainda é conseguir se relacionar com o outro sem a presença de inverdades convidativas para atrair aquele que se quer ter uma ligação. O que há são fabulações pessoais consentidas criando um pacto silencioso, mas frágil, entre duas ou mais pessoas que, quando inteiradas fora do âmbito virtual, percebem a fraude que há no outro ou em si mesmos. Nesse sentido, mentimos sobre a nossa idade- geralmente para menos- inventamos profissões, atributos físicos, características pessoais. Enxertamos adjetivos extras a nossa personalidade, elaboramos frases de efeito, floreamos um perfil imaginário de nós mesmos para atrair o outro tão ou mais aparamentado das mesmas artimanhas. Todo esse teatro do absurdo é estrelado por inúmeros perfis atrás de outros atores para dividir uma cena mentirosa de uma possível fake vida a dois.
          Então, os poucos como eu dispostos a encontrar alguma genuinidade acabam se frustrando diante dos simulacros existentes na rede. Digo isso por experiência própria e sei que não sou nem serei o único. Na odisseia pelo “dating”, passei por situações constrangedoras, as quais poderiam ser facilmente evitadas se o outro estivesse inclinado desde o início a se mostrar como é tanto esteticamente quanto individualmente, assim como ser aberto para receber o inverso de minha parte. Por exemplo, dos muitos encontros marcados, apenas um foi interessante. Noutros, as pessoas eram completamente diferentes daquilo que se mostravam no aplicativo, tanto visualmente quanto na personalidade. Numa ocasião, fiquei enrubescido quando um cara com o dobro da minha altura e peso chegou perto de mim cumprimentando-me. Fiquei, a priori, sem reação, porque meu cérebro não conseguiu captar quem ele era. Após as apresentações, ele me disse ser o rapaz do Tinder, que na minha memória era mais magro do que eu e pelo menos dez anos mais jovem. Perguntei porque ele não se mostrou como é. A resposta saiu em retórica: “E quem faz isso?!”.
             Em outro exemplo, conheci um rapaz cujo perfil muito me agradou. Marcamos um encontro e logo de cara percebi que ele não era nada daquilo que havia descrito no aplicativo: “Sou amante da leitura, gosto de um bom papo, amo filmes e séries, sair à noite para jantar ou se jogar na balada. Sou alto astral, da paz, estou em busca de alguém para dividir os bons momentos da vida comigo.” Quando li isso, disse para mim mesmo: encontrei meu futuro namorado. Quando deu “Match” eu quase tive um surto pela tela do celular. Conversamos alguns dias e tudo parecia bem, até que a máscara dele caiu quando o questionei sobre a necessidade de nos vermos, aí ele disse filosoficamente: “tudo tem seu tempo...” Retruquei dizendo que namoro virtual só é viável quando a distância é um obstáculo imposto, o que não era o nosso caso. Foi o suficiente, o rapaz “alto astral” se mostrou superintransigente, rude, assumiu que odiava sair de casa e que não sabia se queria namorar. Pensei, oi?! Escorpiano que só, alfinetei: “Você mentiu desde o início, então?” Pronto, começou uma DR pelo zap que hoje me causa gargalhadas, mas que denota algo sério: a verdade não é um critério para se relacionar.
            Ficamos tão preocupados em conceber um arquétipo equivocado de nós mesmos que não admitimos que alguém, mesmo que seja um futuro pretendente, venha arruinar o conto de fadas feito para nos fazer acreditar que somos mais do que aquilo que já somos. O problema começa com mentirinhas bobas, mas que se agigantam e podem levar a construções patológicas das nossas particularidades, levando-nos a acreditar que precisamos assumir uma persona multifacetada para conseguir ser visto por alguém. Disso não só há a negação das nossas potencialidades, mas também o desrespeito com a expectativa do outro. Mentimos duplamente nesse sentido. E mentir, apesar do efeito paliativo, não soluciona nossas dores, só agrava, submergindo-nos em um mar de ilusões onde o afogamento leva a morte das nossas identidades. Falar a verdade, dentro e fora das redes, por mais surpreendente que seja, confere dignidade a nossa história de vida e aquela que pretendemos iniciar com alguém. Claro, digo isto pela perspectiva de alguém que já usou e abusou do artifício da mentira e viu as consequências negativas advindas de tais atitudes. A maturidade ensina que o custo da mentira é alto, mas o valor da verdade é incalculável.
           Todavia, na era fake das relações virtuais, é preferível ludibriar a própria essência para conseguir fomentar uma versão imaginária de si, desde que esta sirva de atrativo para angariar outros currículos tão enganosos quanto. Assim, “photoshopa-se” a aparência, edita-se o caráter, simulam-se preferências, inventam-se idades, táticas dissimuladas de quem prefere preencher o vazio da solidão a partir de um pertencimento transitório, ou restrito ao mundo cibernético. No cara a cara, no tête-à-tête, não há espaço para essas mentiras, por mais bem elaboradas que sejam. Salvo quando o outro logra dos mesmos anseios falseados. Contudo, no geral, perfis irreais são facilmente perceptíveis. Tratam-se de máscaras mal ajustadas à face. Infelizmente, muito provavelmente esse espetáculo de horror, do qual a genuinidade é vista como vilã, estará em longuíssima temporada nas redes sociais e, sobretudo, nos aplicativos de relacionamento, pois, nestas páginas – assim como em toda a internet- a verdade tem sido inimiga do convívio sensato entre as pessoas. Assim, inseridos nesse mundo, e sem o discernimento para filtrar suas interferências, optamos por relações mentirosas, sejam com amigos ou futuros pretendentes, do que abraçar a delícia da honestidade nossa, do outro e entre todos.
             Eu, enquanto isso, continuo fidedigno ao que sou para atrair o que há de mais legítimo no outro. Não cederei à mentira nesse âmbito à custa de perder o que me há de mais precioso, a minha identidade. Respeito, porém, quem prefere usar do subterfúgio da inverdade para saciar seus desejos. Não julgo ninguém por isso. Só não quero servir de experimento para as fantasias de quem acredita que a verdade não é um critério para se relacionar.

28 agosto 2019


Sou daqueles que acredita na sintonia do universo. Partindo desse princípio, creio na ideia de que nada nos chega ao acaso, mas sim que são instrumentos orquestrados por energias, alheias a nossa vontade, responsáveis por criar novas sonoridades para as nossas existências. Assim, pessoas que vêm e vão, aquisições materiais, perdas, ganhos, frustrações, recomeços e términos, tudo isso tem uma razão para acontecer e mexe com o que há de mais profundo em nossos sentimentos. É subjetivo, eu sei, porém, nem toda objetividade é capaz de suprir as lacunas criadas pelos desafios da sobrevivência. Alguns, inconformados com as inevitáveis mudanças, buscam rotas de fuga na ânsia de resgatar o que se foi ou encontrar forças para renascer diante do novo. Vale tudo, desde consultas psicológicas a intervenção religiosa, todas, em suas devidas proporções, válidas. Eu, além delas, sou presenteado com outro elixir, que me encontra nos momentos que mais preciso, sempre com o antídoto na medida exata para as minhas dores: os livros.

O que resenho hoje remediou feridas antigas cuja cicatrização parecia impossível, trata-se da obra Só a Gente Sabe o que Sente, de Frederico Elboni. Antes que você destile seu preconceito contra tal leitura – respaldado pela ideia canônica de que apenas os clássicos literários possuem tamanho poder – aconselho ir além do elitismo apoiado em certas opiniões letradas para se permitir aprofundar no raso e, mesmo assim, conseguir dar profundas braçadas pelos mares complexos da palavra. Foi isso que fiz. De primeira, olhei de soslaio para este livro com a arrogância de quem vinha lendo obras riquíssimas do ponto de vista histórico e literário. Até que, emergindo das minhas limitações, lembrei-me de que qualquer leitura é enriquecedora desde que estejamos aptos a extrair dela aquilo que nos for útil. Então, sabendo que o universo tinha me colocado Elboni na minha frente por uma razão, pedi emprestado esse livro ao meu ex-namorado e, depois que comecei a lê-lo, não mais o devolvi (sim, sou cleptomaníaco de livros).

Só a Gente Sabe o que Sente é um entre tantos livros de crônicas, gênero textual do qual gosto muito, pois consegue aproximar obra e interlocutor de situações cotidianas com o charme que só a literatura é capaz de nos proporcionar. Sua linguagem simples já era esperada por mim. Na verdade, eu temia que isso fosse um problema, uma vez que muitos cronistas pós-modernos pecam pela pobreza linguística como artifício para prender os leitores menos adeptos a leituras mais “complexas”. Porém, depois de ler umas duas ou três crônicas, percebi que Elboni simplifica a linguagem, mas isso não empobrece a essência do que ele diz. Sinto verdade em suas palavras, nas histórias e eventos ora contados ora desejados por ele. O leitor, então, acaba por se identificar naquelas vivências e se vê preso numa redoma carismática de situações tão universais e cosmopolitas dessa nossa sociedade, a qual cada mais distorce o sentido da palavra relacionamento. Vi como um livro de experimento, permissividade, mas também de anseios, fantasias, ingredientes indispensáveis à vida.

Só a Gente Sabe o que Sente também me cativou pelo título. Aliás, esse artificio nem sempre casa com o conteúdo escrito, falo isso por experiência de quem teve contato com obras cujo título não abarcavam a amplitude do texto ou vice-versa. Elboni, porém, me ganhou também nesse sentido. A frase retórica de sua obra é clichê, por isso familiar, convidativa, um atrativo a todos nós que passamos por diversos dilemas, muitos restritos ao campo do pensamento, sem ter chance, talento, vontade ou oportunidade de externar nossas dores através da escrita. Então, ler Só a Gente Sabe o que Sente familiariza as angustias do autor com as nossas, criando um elo muitas vezes impensado, pois, em boa medida, seu livro atende a uma visão heteronormativa de relacionamento. Contudo, por ser apenas um traço de suas crônicas, preferi não me ater a esse detalhe, dando oportunidade de ser guiado pelas outras perspectivas trazidas pelo autor. Logo notei que o que ele dizia ultrapassava barreiras etárias, sexuais e sociais, falando de temas caros a todos nós.

Os meus ganhos não pararam por aí. Como disse nas primeiras linhas, creio no poder da sintonia do universo que nos rodeia. Dessa forma, há coisas que nos chegam para nos mostrar a coletividade dos nossos desafios diários. Ou seja, nossas dores não são nossas, assemelham-se com outras, apequenam-se, agigantam-se, dependendo de quem se torne o nosso referencial. Contudo, se se diferenciam na proporção, igualam-se no sentido de existir para todos. É clichê, eu sei, você sabe, mas, quando estamos afogados em temores, o egoísmo assume o controle fazendo-nos acreditar que nossos obstáculos são mais difíceis que os dos outros, e que por isso merecem mais atenção, bem como solução imediata. Nisso também foi benéfica a leitura de Só a Gente Sabe o que Sente: ressiginificar nossos clichês diários, atribuindo-lhes algum valor dantes perdidos pelo elitismo da linguagem ou pelo desenfreado ritmo da vida moderna.

Diante mão, por ser uma obra curta, não aconselho devorá-lo por inteiro numa tarde. Só a Gente Sabe o que Sente deve ser lido aos poucos, homeopaticamente, de preferência como coparticipe de outras leituras. Eu, por exemplo, tenho hábito de ler vários livros de uma vez - geralmente três - cada um atendendo as minhas necessidades momentâneas. Só a Gente Sabe o que Sente me serviu de divã, de amigo, conselheiro, amante, dentre outros adjetivos, todos evocados pelos frissons que me acometiam ao longo dos dias. Nem por isso veja como se a obra tivesse um quê de autoajuda, apesar de transparecer pelo título. Trata-se de um bate papo com um cara apaixonado numa era onde tal sentimento é deliberadamente surrupiado de nós. Ter contato com esse sentimento me faz reavivar os meus, trouxe aconchego em noites onde a solidão parecia congelar minha existência e me proporcionou instantes de calma que eu acreditava ser impossível. Talvez esteja exagerando. Talvez não seja tudo isso. Porém, Elboni neste livro foi o instrumento dado pelo universo para atender aos meus anseios. Com você pode ser diferente. Seja como for, permita-se lê-lo e passe por aqui para dividir comigo a sua experiência. Afinal, Só a Gente Sabe o que Sente.

22 agosto 2019



       Não é prudente atribuir como recentes as queimadas que estão reduzindo a pó a maior riqueza ecológica da humanidade. Há longas datas ativistas e ambientalistas nacionais e estrangeiros alertam para o crescimento dos focos de incêndio na floresta amazônica, todos motivados por questões inegavelmente econômicas. Porém, o choque atual não se reduz ao alcance da destruição da floresta, que é imensurável - quiçá irremediável - mas a conjuntura sócio-político-cultural que ruma contrário à proteção desse bem nacional. Isto porque, mesmo diante de constatações científicas, dos noticiários televisionados mostrando o rastro de devastação ambiental e o apelo internacional em prol da salvação da Amazônia, há um sentimento de apatia social, fomentado pelo cenário político, ignorando e extinção anunciada daquilo que pode não apenas salvar o Brasil, mas, possivelmente, a sobrevivência humana na terra.
           Na realidade, esse sentimento autodestrutivo avolumou-se com a figura incendiária que (des)governa o país, o incapaz Jair Bolsonaro. Engatilhando discursos ligados a acabar, cortar, destruir, não surpreende que a Amazônia estaria a salvo das investidas aniquilatórias de sua regência. Para isso, como de praxe, o presidente não poupou artilharia para descreditar há pouco tempo estudos geográficos incontestes sobre os rumos do desmatamento da Amazônia, ao passo que enaltecia o setor econômico agrícola como potencializador do crescimento financeiro do país. Ao mesmo tempo, limitou o poder de atuação do Ibama, perseguiu a Funai, colocou alguém contrário a natureza para gerar a pasta do Meio Ambiente, tudo isso visando, evidentemente, favorecer a bancada ruralista do congresso, boa parte dela composta por políticos religiosos em um grande Feudalismo à brasileira. Como a mentira se tornou a plataforma governamental, e a bússola que (des)orienta a nação, muitos preferem as falácias políticas em torno da Amazônia do que encarar os fatos: estão destruindo a nossa floresta.  
            Nesse sentido, parece que o fogo pretende incinerar as maiores riquezas do Brasil este ano. Até onde a minha memória consegue ir no momento, dois patrimônios imprescindíveis à vida foram às cinzas: o Museu Nacional do Rio de Janeiro e a floresta Amazônica. Apesar de dispares a olhos nus, é preciso lembrar que o conhecimento é tão indispensável a existência humana quanto a natureza, sobretudo nesta era onde a ignorância governa a nação - literalmente falando. Porém, inconscientes dessas necessidades, seguimos destruindo tudo o que nos é caro. A vítima agora trata-se da maior floresta do planeta. Apesar dos clamores dos ativistas e ambientalistas, a destruição da Amazônia segue rente rumo a extinção de matas preservadas em prol de interesses políticos/ruralistas descarados, os quais ganharam força na regência imprudente daquele que elegeram para chefe de estado desse país.
          Nem faz tanto tempo assim, os EUA antagonizavam o papel daquele que roubaria o tesouro amazônico das posses nacionais. Há mais ou menos dez anos, o fantasma da internacionalização da Amazônia assombrava todos aqueles que defendiam a soberania desse patrimônio nas mãos de seus verdadeiros donos, os brasileiros. À época, Cristóvan Buarque, quando questionado se tal floresta deveria ser internacionalizada, respondeu provocativamente que caso isso acontecesse, seria preciso que outras riquezas naturais, culturais e econômicas também passassem a pertencer a toda humanidade, citando, entre muitos exemplos, o petróleo, os Museus e o capital estrangeiro. Hoje, o espectro internacional subdividiu-se entre aqueles que desejam a soberania ecológica do país, os Americanos, e aqueles descrentes da capacidade nacional de preservar esse bem precioso a manutenção da vida.
              Em meio a isso, o vilão não é mais de fora, mas daqui. Está no poder tomando decisões arbitrárias que poderão trazer graves consequências à vida de todos nós. Contudo, a burrice é mais devastadora que o fogo que arruína a Amazônia. Numa sociedade onde terraplanistas ganharam visibilidade, qualquer apelo científico é uma afronta as verdades elaboradas por mentes delirantes, construídas a partir de um espectro cultural ultraconservador, limitado, cego por uma crença alienante, a qual retira do indivíduo a sua capacidade natural de pensar e insere nele um dispositivo replicador de boçalidades, muitas delas contrárias a sua própria essência, mas que, por serem solidificadas por um Estado ludibriante, ganham ares de verdade. Logo, apesar da avalanche de fumaça que nublou ou céus de São Paulo, dos vídeos retratando a dizimação da florestas e dos números estatísticos que quantificam o tamanho dessa tragédia, tudo é ignorado, ou pior, minimizado. Enquanto isso, as chamas na Amazônia avançam para a alegria do setor agrícola e das madeireiras ilegais. Dou outro lado do fogaréu seguido pela fumaça, as cinzas de mentiras, nessa era de inverdades legitimadas via twitter, nublam a percepção da sociedade para a gravidade desse problema.
             Assim, a ameaça da extinção, a qual se limitava as espécimes da fauna e flora – algo imperdoável frente a biodiversidade existente em terras brasileiras – pode se voltar contra aquele que se tornou o principal algoz do seu habitat, o homem. Todavia, a mudança sempre é possível. Um levante já está sendo organizado para levar as ruas as reivindicações ignoradas pelo atual governo. Assim, chamando a atenção internacional, o Brasil passe a tomar alguma atitude em prol da Amazônia. Porém, isso ainda é pouco. Precisamos usar as mídias para denunciar o descaso ecológico do país; cobrar mais empenho político para criação de projetos ambientais nas grades escolares; escolher candidatos comprometidos com o meio ambiente, ou, pelo menos com formas sustentáveis de economia; reduzir o consumo de carnes, as quais são as principais vilãs da degradação ambiental; se voluntariar para reflorestar nossas matas; apoiar ativistas; validar as pesquisas científicas, ao passo que desmascaramos a insensatez dessa era de trevas; lutar pelo Ibama/Funai; estar ao lado dos índios. Fazer o que for possível, mas não se omitir diante de mais essa tragédia. Nossa omissão será sentida, como já está sendo.
            O fato de não termos ateado fogo na Amazônia não nos torna menos cúmplices desse crime quando possuímos as armas para impedi-lo e não as usamos.

31 julho 2019



Durante muito tempo a figura caricaturada do pastor/político Silas Malafaia me divertia à beça. Com seu jeitão de símbolo máximo da moral e dos bons costumes, entonação alteradíssima – com direito a gestos espalhafatosos – ele me garantia prolongadas gargalhadas. Seu Stand Up conservador chegava até a aliviar meu estresse quando no roteiro tinha como pauta o boicote de alguma marca ou emissora, seguido à risca por seus fãs tão caricatos quanto ele. Esse espetáculo divertidíssimo me servia de escape diante das barbaridades ditas por Malafaia e sua trupe. Na época, eu quis acreditar, por meio do humor, que era impensável alguém chegar na política, assim como ele chegou, trazendo ao público ideais tão cômicos com ares de seriedade. Porém, a Ministra Damares Alves deu vida aos meus principais temores. Sua persona não é apenas ridícula, mas também trágica numa era onde só há dois caminhos: ou transformamos em risível os dilemas nacionais ou problematizamos essa tragicomédia da qual nos tornamos a principal piada.

A priori, gosto da ideia de que rir atua milagrosamente em nossas vidas, desde que não nos percamos no riso ao ponto de nos alienarmos da realidade. Assim, confesso que dei, e ainda dou, jubilosas gargalhadas quando a Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos vem a público dar vasão ao seu roteiro paranoico de ministrar. Porém, tão rápido quando as luzes da ribalta, me recomponho para não deixar que o riso me deixe de fora do resto do show dessa “artista”. Digo isso porque as questões trazidas por ela são inegavelmente irrelevantes frente a importância do cargo que esta ocupa. Há muitas temáticas transversais urgentes sobre a mulher, família e, sobretudo, os Direitos Humanos, que precisam ser discutidas e, principalmente, solucionadas. Contudo, nossa humorista/ministra já fez de tudo para desviar nossa atenção para o que, de fato, é importante: de meninos vestem azul a meninas vestem rosa, Jesus no pé de goiabeira, Frozen ser lésbica e, a mais atual e insana de todas – se é que possível - calcinhas para as meninas exploradas sexualmente na Ilha do Marajó.

Diante de tamanha ridicularização da mentalidade social, Damares Alves consegue chacotear problemas gravíssimos que acometem a sociedade: sexismo, machismo, homofobia, exploração sexual infanto-juvenil, todos eles sob à luz sagrada da fé cristã que ilumina o palco do seu governo. É importante trazer à tona esse parêntese, uma vez que tanto a Ministra quando Malafaia, além da jocosidade que os compõem, são evangélicos fervorosos, (leia-se fanáticos), usando da graça divina para implantar um projeto político de perseguição e não de inclusão das minorias. Caso fosse o oposto, ao invés de propor uma fábrica de calcinhas, Damares teria feito ações assertivas para entender e erradicar a exploração sexual que vitimiza aquelas garotas. Contudo, seu compromisso recreativo é debochar de nossas mazelas e não resolvê-las. Usar do burlesco para encobrir a incapacidade de suas ações, quiçá sua má vontade de ministrar igualitariamente em uma nação onde o diferente é a ameaça. A questão é, o que diferencia Damares de Malafaia, além do curto hiato temporal, é apenas o poder que ela exerce em meio a um plano de governo tão tragicômico.

Meio que bobo da corte da atual política manicômica do país, a Damares Alves não merece ser vista como alguém que quer nos divertir com suas pautas hilariantes. Ela tem se prestado, antes de tudo, como desvio midiático, enquanto os soberanos que (des)governam a nação estão nos bastidores rindo das desgraças nacionais ao passo que quantificam o número cada vez maior de imbecis que os glorificam. É a cultura de pão e circo sendo ressignificada a cada governo, o qual acredita que o país não passa fome. Logo, pseudoalimentados, a população merece ser divertida com a figura grotesca de Damares. Em parte tem funcionado. Estamos dando a ela não apenas nossos risos, mas também aplausos, pagando seu espetáculo de horror e estendendo sua temporada, quando deveríamos estar, assim como Fafá de Belém, repudiando seus atos e cobrando uma postura mais producente de alguém que ocupa um ministério nunca antes tão imperativo.

Não vejo o mesmo empenho popular contra as loucuras dessa mulher tomando forma dentro e fora das redes sociais assim como ocorreu com a ridicularização de Tiririca, quando este ocupou durante um bom tempo o cargo de Deputado Federal. Ele, humorista de fato, teve sua profissão usada como chacota por aqueles que questionavam a presença de um comediante na política nacional. Hoje temos a figura de Damares, que mesmo não tendo viés artístico algum, consegue ser tão icônica quanto Tiririca. Esse silêncio de grande parte da sociedade denota algo muito perturbador: há muitas pessoas comungando do discurso dela. Ou seja, indivíduos que creem na distribuição de calcinhas para meninas exploradas sexualmente, de que há cores específicas para sexos específicos, dentre outras barbaridades ditas e defendidas pela zorra do governo. É uma piada que não deveria ter graça, mas que está literalmente entretendo a sociedade de um lado e, do outro, servindo de espelho para representar o sanatório que se tornou o Brasil.

Na verdade, Damares é a única capaz de roubar o estrelato conquistado a duras penas por Bolsonaro semanalmente. Inconformada com a figuração, ela faz de tudo – e isso é literal – para ganhar seus minutos de fama. Seu êxito é inegável. Do outro lado do palco, o seu colega de coxia Jair Bolsonaro age incólume diante das pitorescas colocações de Damares. Faz sentido, ela tem servido ao propósito presidencial, pois não há nada mais desviante das mazelas sociais do que atribuir valor cômico a elas. E Damares é uma artista no sentido jocoso da palavra. Em contrapartida, há muita tragédia na sua presença cômica na política. Há alguém à frente de pautas caras à mulher, família e Direitos Humanos, incapaz de empreender um projeto de governo competente para atender tais demandas. Existe também o vilipêndio a inteligência daqueles que lutam para trazer rotas mais racionais para os descaminhos criados pela lorota que se transformou a política nacional. Por fim, há o fanatismo religioso usado como subterfúgio para atribuir sanidade a quem inegavelmente precisa de ajuda terapêutica.

Malafaia agora me parece ainda mais divertido, pois é menos louco e perigoso que Damares.

21 julho 2019



        Impactado com o rumo da política nacional, resolvi me abster deliberadamente de quaisquer discussões nessa seara. Por longas semanas me privei de alfinetar o (des)governo que nos rege. Nada de compartilhar matérias. Nada de encher os stories com imagens de cunho político. Nada de elaborar textões para extravasar meus dissabores. Absolutamente nada de Bolsonaro. Tive boas razões para isso: era preciso oxigenar o cérebro diante de tanta burrice legislada em menos de um ano de governo; além do descrédito dado às palavras nessa era anti-intelectual do Brasil.
            Talvez não tenha sido o único a enclausurar minha militância. Muitos esgotaram suas forças em meio ao avanço inconteste da insanidade no país. Então, enfraquecidos pela loucura generalizada, o mais sensato parecia ignorar o desenrolar dos fatos e torcer para que esse onirismo trouxesse para nós ao acordar uma perspectiva menos tumultuada da realidade. Porém, não foi uma decisão sábia. Individualizar-se perante a temas comuns a todos não é a escolha mais sensata. Logo, para resgatar o pacto com o outro - que aliás está se perdendo no fio de nossas vaidades - é preciso nutrir nossas bases mentais e seguir na luta antes que a compacta noção de sociedade se nacionalize.
            Felizmente, as boas novas do nosso chefe de Estado são capazes de trazer dos mortos qualquer militante. Eu, por exemplo, fui trazido do limbo ao saber da recente ofensa de Bolsonaro ao Nordeste, numa clara acepção de que seu governo, desde o começo, não prioriza o país como um todo. Mais que isso, o antagonista do atual governo, o PT, ainda na figura de Lula, tinha uma enorme aprovação nacional, sobretudo no Nordeste. Talvez, na visão rubra do atual presidente, ele enxergue o vermelho - sua cor odiada - em tal região. Porém, antes de conjecturar, é inegável que a atitude dele resvala do preconceito que o levou a ocupar o cargo máximo da nação.
            Depois de modular as mentes dos mais fracos permitindo a disseminação de discursos de ódio disfarçados de opinião, Bolsonaro representa uma grande parcela social que burla o politicamente correto, desrespeitando quaisquer minorias. Assim, para quem já atacou mulheres, índios e gays, falar mal do Nordeste completa o combo de intolerâncias desse ser que cada vez se distancia da classificação de humano. Fechado em si, ele pretende com tais atitudes compactar os seus no seu clube politicamente incorreto. Tem funcionado. Muitos apenas assistem aos vômitos presidenciais e continuam alheios a tamanha falta de respeito ou, na pior das hipóteses, ressonam essas violências.
            Enquanto isso, os dele são agraciados com indicações políticas nacionais e internacionais, em um claro misto de nepotismo e meritocracia. Na sua falta de civilidade, boa parte da família Bolsonaro ocupa, por "merecimento", cargos públicos e um deles está prestes a alçar o posto de embaixador do país nos Estados Unidos. É controversa tal postura presidencial, já que seu posicionamento neoliberal insufla a sociedade a conquistar seus espaços por mérito próprio, ignorando entraves sociais, econômicos e, principalmente étnicos. Certamente, seu filho hétero, branco, rico, deve ter tido “muitas” dificuldades para alcançar a chance de estar no poder como a maioria dos brasileiros.
            Na indigesta sucessão de barbaridades, Bolsonaro afirmou que ninguém passa fome no Brasil. Ler isso não me surpreendeu. Quando um presidente eleito por meio das Fake News, e que ainda usa deste recurso cibernético para incitar o ódio pelas redes, diz que não há fome na nação, ele apenas está sendo coerente com todas as mentiras que formam o seu plano político – se é que há. Logo, fiel aos seus ideais fascistas, é esperado dele desmistificar os indicadores econômicos nacionais e internacionais sobre a miséria à brasileira, sobretudo porque o pobre não é e nem será a prioridade de seu governo. Decerto, para quem vem atacando a educação e desestruturando a previdência, a fome para Bolsonaro de fato é algo a longo prazo, pois a de antes e a de agora não demoverá seu cético compromisso em destruir o país, do saber à mesa.
            Nesse sentido, não basta desnutrir o corpo e a mente, a comitiva avassaladora do presidente quer deixar sua contribuição nociva também no meio ambiente e na cultura. Firme em suas alegações anticientíficas, Bolsonaro contradiz anos de pesquisas frente ao desmatamento da Amazônia, acusando os profissionais que protegem a maior riqueza nacional de mentirosos, pois, para ele, há exageros nas alegações científicas. Aliás, a ciência, seja ela humana, estatística (vide o IBGE), seja ela acadêmica, ambiental, ou qualquer outra, não tem a maior relevância na era da burrice da qual encontrou na presidência sua principal representação.
            Censurar também as produções artísticas será o próximo passo do governo. Após criticar a Ancine (Agência Nacional do Cinema), não no que diz respeito a destinação de verbas públicas para a cultura, mas as produções feitas pelo cinema nacional, é provável que ele estenda a censura às mídias televisivas, exposições de arte, shows musicais, caso estas tenham um conteúdo “impróprio” as normas governamentais. Ou seja, firam o decoro branco + hétero + cristão + conservador + elitista que controla a nação. Quiçá a Record, e suas produções bíblicas infindáveis, passe incólume nas sanções políticas atuais, uma vez que retrata o país dos sonhos do clã Bolsonaro.
            No entanto, na Cruzada das intransigências do Governo, ler que Bolsonaro acredita ser o emissário de Deus para salvar o Brasil foi a mais impactante das notícias. Isto porque, em um país cristão, esta menção é perigosíssima, sobretudo com as alianças políticas feitas em acordos duvidosos com a bancada evangélica no congresso, a qual tem grande poder de barrar e criar diversos projetos. Além disso, confere ao presidente eleito um elemento sobrenatural, que além de subjetivo, é inconstitucional numa democracia dita laica. Portanto, ao se apossar do discurso divino em benefício próprio não só é uma tática clara de charlatanismo, como também uma maneira desonesta de ludibriar a fé do povo para conquistar benesses terrenas.
            Diante de tudo isso, em apenas seis meses de governo, Bolsonaro tenta compactar sua loucura em um grande manicômio a seu aberto, infelizmente com outros doidos compactuando espontaneamente dessas e muitas outras loucuras que virão. Eu, por outro lado, assim como os poucos sãos que vagam pela sociedade, preciso criar um pacto ainda mais forte comigo e com o outrem cujo desconhecimento de causa tem sido fisgado por esse Asilo Arkham que se tornou o Brasil. Não temos um Batman, mas temos um ao outro. Precisamos resgatar esse senso de coletividade. Não soltar a mão de ninguém e, se possível, dar os braços para assegurar as amarras de nossas lutas. Esse é o pacto com o outro contra o compacto do eu individualista que impera na nação que urge ser posto em prática.
            Por mais impactante que seja a realidade, o impacto da vida poderá ser menor se o pacto for o bem de todos.
            Voltei para somar. Falta você!

05 maio 2019



A corriqueira sucessão de absurdos advindos da gestão de loucuras que rege o nosso país não cansa de se autossuperar. Chega a nos furtar o ar todas as vezes, e não são poucas, em que o presidente mais insano que o Brasil já teve anuncia na sua principal tribuna, o Twitter, as mudanças pretendidas para a sociedade; todas elas levando em conta seus próprios devaneios alucinógenos. Deve ser algo de propósito, pois sem oxigênio suficiente, as funções cerebrais ficam comprometidas. Assim, sufocar a mentalidade social até a exaustão faz parte do projeto político do atual presidente, já que pensar nos dias de hoje transformou-se em uma arma mais letal do que aquela metálica defendida pelo clã de dedinhos apontados.
Por essas razões também, a educação tornou-se fantoche no jogo delirante do governo de alienar a sociedade. As Fake News, popularizadas no período eleitoral, foram apenas o primeiro passo. Agora, para que o emburrecimento social esteja completo, é preciso atacar a formação da intelectualidade do país, criando mais zumbis do que os muitos existentes. Para tanto, precisamos enumerar os tiros e contabilizar os estilhaços: escola sem partido; educação domiciliar; proibição da educação sexual nas escolas; permissão para filmar professores nas aulas; vilipêndio da vida, obra e contribuição de Paulo Freire; exaltação do descredenciado Olavo de Carvalho; notório saber em detrimento da formação específica dos educadores; corte nas verbas das universidades federais do Brasil.
Qualquer pessoa mentalmente saudável precisaria de um balão de oxigênio para refrescar os pulmões diante dessa lista sufocante. Entretanto, a paulatina vereda do não saber, não questionar e não refletir chegou às universidades. Numa tática de retaliação, o governo infantiloide brinca de se vingar daqueles que promoveram qualquer tentativa de se opor ao seu plano político de alienar o país, e estende o revanchismo a outras instituições da nação. A desculpa? "Vamos investir na educação de base!". Outra falácia descarada recentemente rebatida pelos veículos de informação, os quais comunicaram também novos cortes na educação basilar brasileira.
Em mais uma contraditória ação, o "mito" prova que nem a base nem o topo são a prioridade do seu plano educacional (se é que pode haver algum tipo de educação em seu governo), mas sim a mediocridade, a mesmice, o entorpecimento social a serviço da mera perpetuação de tolices. Quem são seus principais alvos, para além da educação? Professores e alunos! Talvez não nesta ordem. Os primeiros têm seus direitos cerceados por um plano governamental focado em silenciar os docentes, impedindo que qualquer reflexão chegue às salas de aula brasileira. Para os outros os impactos são ainda mais nocivos. Trata-se de hipnotizar os mais jovens a acreditar em um projeto de governo inquestionavelmente desumano, violento, elitista, ofuscando e deturpando meios mais humanísticos de se ensinar.
O reflexo disso já está em voga. Há hordas de professores e estudantes sob o efeito viciante da droga Bolsonaro, chapados com suas ideias estapafúrdias de mudar o país literalmente a tapas. O medo fez com que a violência fosse injetada nas veias de muitas dessas pessoas criando uma espécie de Cracolândia de proporções nacionais. Lamentavelmente, nossa única forma de reabilitação, o saber oriundo da educação, está sendo duramente atacada por aqueles que mais deveriam protegê-la. Assim, mais drogados políticos se proliferam na sociedade alardeando boçalidades sob o efeito delirante do tráfico de influência de Bolsonaro.
Fica então o questionamento: por que tanto esmero em se debruçar sobre a educação, numa nação que ocupa os piores indicadores sociais nessa área no mundo, onde a valorização docente e a autonomia pedagógica nunca foram prioridades? Uma das respostas pode estar neste texto, porém, inebriados de tantas mentiras, muitos não conseguirão concatenar. Outros esclarecimentos estão guardados em cada um de nós, basta apenas que haja um exame antidoping coletivo para descobrir e purificar as toxinas injetadas. Se isso não for feito às pressas, continuaremos doidões e a educação uma droga.

30 abril 2019



Nem faz muito tempo assim, eu estava assistindo ao vídeo feito pelos maravilhosos integrantes do Porta dos Fundos intitulado de Escola sem Partido. Nele, aparecia uma professora sendo interrogada pelos alunos a se posicionar sobre questões cada vez mais delicadas no país ligadas a história nacional, ao passo que a turma toda, aparelhada com o que há de mais moderno em tecnologia, filmava o posicionamento da docente. Na ocasião, dei jubilosas risadas da comicidade envolta naquela ideia, mas não imaginava que o cômico tão rapidamente ganharia ares trágicos. Todavia, como a arte imita a vida, nos dramas reais, professores passaram a sentir o peso da sensura desse governo desgovernado que rege a nação.

Há poucos dias, um educador perdeu o emprego após passar pela mesma situação teatralizada pelo Porta dos Fundos, em que critica em sala a postura, indiscutivelmente criticável, do presidente (em minúsculo mesmo) Jair Bolsonaro. Senti um misto de raiva e indigestão quando li essa matéria. Aliás, a cada posicionamento do atual governante da nação, eu preciso fazer um mantra, ressuscitar o meu nirvana, preparando-me para a enxurrada de absurdos que sairão da fossa que ele tem na boca. Pois bem, como porcos não costumam andar sozinhos, a horda de malucos na política escolheram a educação como o epicentro dos seus ataques.

O impronunciável Ministro da Educação, seguindo a mesma retórica insana da presidência, foi categórico ao legitimar o direito dos alunos em filmar professores em sala de aula como um direito dos discentes. Pouco antes disso, Bolsonaro usa o twitter, sua principal rota de envio de barbaridades virtuais, para inferiorizar os cursos de humanas e enaltecer a leitura e a escrita; algo, diga-se de passagem, incongruente, pois o que menos tem sido feito pela corja no poder é uma leitura interpretativa da realidade. Voltando à vigilância eletrônica endossada pelo governo, percebemos, ou deveríamos, qual é a meta por trás desse cinema retrô: emudecer a educação.

Ao aprovar o novo ensino médio, implantar a educação domiciliar e vetar a educação sexual nas escolas, paulatinamente a intenção desses políticos é silenciar os alunos por meio da castração do saber crítico, o qual é autônomo por excelência. Agora o alvo mira em cheio nos educadores. Por meio de uma conduta clara de intimidação, espera-se subserviência dos docentes, os quais terão a passividade em suas aulas como artifício pedagógico, caso queiram permanecer em seus cargos. O tiro de misericórdia já está sendo engatilhado. Em mais um ataque ao saber, Bolsonaro começa a semana afirmando que mudará o patrono do Brasil, o educador mais respeitado do mundo, Paulo Freire, por outro aos moldes do governo. Talvez ele opte por Olavo de Carvalho, um total desconhecido das academias sérias brasileiras, de formação duvidosa e cheio de demagogia alienante, usada a torto e a direito para a chegada da burrice ao poder.

Nada mais justo do que substituir um grande pensador por um perturbador da ordem pública numa era onde o pensar deixou de ser ação para ser ofensa. Entretanto, já que a luz, câmera e ação (leia-se perseguição) estarão nos curtas metragens dos dramas educacionais brasileiros, antes do professor ser o protagonista desse cinema pornô, é preciso destacar o vilão da história, o governo. Aos alunos co-diretores, que compactuam com tamanha obscenidade, gravem a falta de estrutura das suas escolas, carteiras quebradas e/ou insuficientes; material defasado, atrasado e revisado por uma política de apagamento da história. Filmem a violência escolar, o bullying, as armas, drogas e todas as balas perdidas desferidas pela sociedade do dedinho apontado.

Não se esqueçam de registrar em close a feição de fome dos seus colegas, o déficit na aprendizagem que decorre disso, o abandono de muitos responsáveis que delegam ao professor o papel de pai e mãe. Se der, façam ainda um slow motion dos ataques de seus colegas desrespeitosos aos seus docentes, mostrando ao presidente quem são as reais vítimas da deseducação do país. Por fim, aos com celulares mais chiques, aproveitem e façam um plano sequência de vocês mesmos falando diretamente ao presidente da nação sobre o que falta para que a educação seja de fato de qualidade.

Talvez assim com algo gravado por vocês ele dê ouvidos às necessidades no ensino, já que os apelos dos profissionais da área e as teorias de pessoas renomadas são ignoradas por ele. Quem sabe não rola uma premiação, hein?!Garanto que o cenário escolar brasileiro, se dirigido por alguém sério, levaria um Oscar na categoria drama, quiçá comédia. Enquanto não há nada de artístico nisso, vemos estarrecidos o amadorismo governar o Brasil, em detrimento daquilo que perdeu seu status quo na sociedade, a livre expressão do pensamento. Que venham os grilhões!