28 junho 2015



   Hodiernamente, podemos ver milhares de pessoas, em especial o povo brasileiro a venerar esportes. Dentre tantos, o que mais se destaca é o futebol, pois, este é um esporte que movimenta dinheiro e emoção. A sociedade pobre, muita das vezes, sempre é a que mais sofre, pois, é a classe que não é levada a sério e em certos casos é tratada como lixo. Este fato ocorreu no mundial anterior em que a população foi humilhada, pisoteada e tratada como indigente por aqueles que plantam igualdade para todos. 

   A copa do mundo, ocorrida no Brasil 2014, para alguns foi alegria, mas para outros tristeza.Os grandes afetados com essa grande cultura do pão e circo foram os moradores de favelas que injustamente, foram desabrigados. De acordo com a Articulação Nacional dos Comitês Populares (ANCOP) cerca de 250 mil cidadãos foram expulsos violentamente pelos policiais que destruíram tudo. Diante disso, o Deputado Federal e ex jogador Romário afirmou que este fato ocorreu para que os empresários pudessem ganhar dinheiro com os  turistas hospedados na 12 cidades sede do pais 

  O futebol, protagonista da copa e considerado maior e melhor esporte do mundo, é um meio artístico que gera muito dinheiro e admiração. Contratos milionários, jogadores famosos e ricos são as principais características de um esporte feito para classes um pouco elevada. Uma partida de futebol leva, muita das vezes, milhares de brasileiros alienados à loucura. Mas nem sempre ocorre de forma pacífica . 

   As famosas e temidas torcidas organizadas atormentam a sociedade pelos atos vivenciados. Um exemplo desta violência ocorreu em 2013, no Recife, entre o jogo de Náutico e Sport. Neste, o jovem, Lucas Lyra, foi atingido por um tiro que o deixou com sequelas graves. Este fato só fez expandir ainda mais a mensagem do quanto é perigoso lugares como esses que impõe uma fictícia mensagem de paz 

  Faz-se necessário, portanto, que a população em si tome conhecimento do quão alienada elas estão. Grandes eventos como estes foram feitos para denegrir e ridicularizar com a imagem do pobre que, lamentavelmente, não tem como se defender. Crianças, jovens e idosos, vivenciam tristes cenas de despejações violentas, para que o outrem possa se divertir . Dessa forma, que as esferas governamentais possam investir mais em educação, saúde e segurança do que em mundial realizado no país em que a própria população não pode participar . 

Aluna: Monaliza  Rodrigues
Professor: Diogo Didier


Quando menina, eu vi um documentário de que jamais me esquecerei: “A ilha das flores”. Era a história de um tomate. O tal tomate possuía algum defeito que o fez ser jogado no lixo. Fora encontrado por um cuidador de porcos e novamente rejeitado, voltando a ser jogado no lixo. O tomate é, então,  encontrado por uma criança, em um lixão a céu aberto. E assim, o tomate que foi jogado fora por ser imprestável, que foi rejeitado como inservível aos porcos passa a ser a sagrada refeição daquela criança.
Eu sempre fui uma pessoa inconformada. Minha face serena e meus olhos doces camuflam tempestades interiores. Mares revoltos, gritos silenciados, dores petrificadas desde os primórdios da minha existência. Ver um vídeo como esse, aos 10 anos, causou-me e ainda causa intenso sofrimento.
Doía-me mais porque eu bem sabia que aquela história não era fruto da mente criativa do produtor do filme. Na escola em que eu estudava, pública e da periferia de uma cidade interiorana deste nosso Brasil, a merenda escolar não servia apenas aos alunos. Após o nosso lanche, entrávamos para a sala de aula e, no portão, forma-se uma longa fila. Eram os irmãozinhos, crianças abaixo da idade escolar, que aguardavam para, caso sobrasse lanche, também comerem.
Hoje contemplei algo que me fez recordar de todas essas histórias. Pessoas de todo o mundo celebraram o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo nos Estados Unidos. Cada qual celebrou a seu modo e, no Facebook, colocando as cores do arco-íris na foto de perfil. Alguns, discordando da referida celebração, utilizaram a foto de uma criança africana esfomeada, também nas cores do arco-íris, com o seguinte dizer: “O dia que a nação se unir por essa causa, me chama que eu quero participar”.
Por vezes acho que a hipocrisia e a vileza humana são imensuráveis. Esses indivíduos que, em sua maioria, se autoproclamam “cristãos”, expõem a nudez cadavérica de uma criança como disfarce da homofobia de que são porta-vozes, sem pensar na dor e na fome que vitimam essa criança. Sem pensar na morte que lhe bate à porta, sem se colocar em seu lugar, sem ver a pequenez do seu próprio coração diante daquela cena e diz: “me chama que eu quero participar”. Como assim: “Me chama”?
São centenas e centenas de campanhas mundiais contra a fome, contra a desnutrição e de prevenção à mortalidade infantil. São milhares de ONGs que se dedicam a esse propósito. São inúmeras as instituições religiosas que se dedicam a isso. Há programas governamentais que visam exatamente à erradicação da miséria e da fome e a pessoa vem dizer que quando houver essa mobilização devemos chamá-la?
Eu faço aqui um desafio. Aposto que a maioria desses que postaram a foto da criança esfomeada é contra os programas governamentais de combate à fome. Afinal, a hipocrisia pseudo cristã é de grandeza infinita.
Num mundo onde porcos, não raro, são melhor alimentados que muitos humanos, ainda há religiosos que asseveram que a divindade se ocupa de orifícios penetráveis e não penetráveis, de amores abençoados e abomináveis, da existência de filhos e de meras criaturas. Talvez esse deus tenha mandado aos seus que estes amassem o próximo, mas não muito. Mas não sempre. Que amassem apenas quando lhes conviessem, como, por exemplo, quando estivessem despeitados pela alegria dos “hereges e abomináveis gays”.
Visto no: CONTI outra

Zoociedade moderna

        Festas de aniversário, médico particular e roupas de marca. Todas essas regalias poderiam ser de humanos, mas são realidades de muitos animais no mundo. Seja criado na cama ou no quintal, os animais domésticos vêm tomando espaço nas casas de seus donos. No entanto, é preciso rever os privilégios concedidos a tal espécie, de modo que a mesma não troque de papel com o seu dono.

A carência e a desvalorização do sentimento humano estimulam cada vez mais pessoas a adotarem bichos e fazê-los realmente de melhores amigos. Ao ultrapassar esse ponto, porém, a amizade pode se tornar fatal ao ponto do animal precisar ir ao médico por tais mimos que chegam a prejudicar sua saúde.

Do quintal à poltrona da sala de casa, animais como cães e gatos são considerados membros da família, como é vista a personagem de Graciliano Ramos em Vidas Secas, Baleia. Na mesma obra, o Fabiano representa o homem sertanejo que, até hoje, luta pela sobrevivência, mesmo analfabeto; característica essa que o torna ignorante, ainda que falasse pouco, é considerado como um animal na narrativa.

Além disso, o zoomorfismo se faz presente nas relações familiares, nas quais pais e filhos se olham como estranhos e a compaixão já não há. Pessoas movidas por instintos e guiadas pelos desejos também são influenciadas e adequadas a esta sociedade onde a dignidade não é mais encontrada facilmente.

Desse modo, a conscientização de criar gente como gente e bicho como bicho é necessária para o progresso de boas relações. As corretas orientações aos donos quanto ao excesso de regalias com os bichos é imprescindível; além de ter respeito e altruísmo para lidar com as diferenças existentes. Assim, a protocooperação mostrará suas diretrizes para uma verdadeira relação harmônica equilibrada entre as espécies.

Aluna: Mylena Souza
Professor: Diogo Didier

Sexta feira, 26 de junho de 2015. Acordei, tomei banho, dei comida pro cachorro. Nas redes sociais um burburinho. Fora aprovado o Casamento Gay em todos os Estados Americanos.
Obama lançou a #LoveWins que logo tomou conta do Twitter. Sorri. É sempre bom ver que o amor e a igualdade vencem o preconceito, principalmente na maior potencia do mundo, onde diversas famílias tradicionais passam férias.
Sai para o trabalho. Almocei. Durante o almoço li algumas matérias, algumas manifestações nas redes sociais. Mas foi quando olhei meu Facebook que meu coração parou.
Aquela rede social que diversas vezes é palco do compartilhamento em massa de frases de ódio, manifestações e compartilhamentos de vídeos que eu prefiro esquecer, agora fora invadida. Não reconhecia mais minha timeline.
Inúmeros amigos mudaram suas fotos de perfil, e a cada minuto mais e mais amigos e conhecidos mudavam suas fotos.
Não mudavam pra uma foto nova, na verdade era a mesma foto que vinham usando há meses. Mas elas eram diferentes. Todas tinham o arco-íris colorindo seus rostos.
E não eram apenas os amigos gays. Eram os héteros também. Eram desde os mais jovens até os mais velhos que eu tinha ali. Vi professor da faculdade mudar a foto do perfil e acrescentar a bandeira, símbolo da luta LGBTT. Vi irmão de amiga, amiga de amiga, vi melhor amiga trocar também.
Vi frases de amor. Vi pessoas comemorando e entendi porque elas comemoravam: a maior potencia mundial, símbolo de desenvolvimento, o país que é exemplo, o país onde elas vão passar férias e sonham em poder morar. Esse país agora não fazia distinção entre os casais. Agora todos eram iguais perante a lei.
Em tempos onde marca de perfume foi boicotada por mostrar um simples abraço entre casais do mesmo sexo, muitos brincavam “agora acabaram as férias na Disney” “quero ver ir pra Miami agora”.
Meu Facebook foi invadido também por empresas, diversas delas, que alteraram seus perfis em apoio à conquista.
Meu Facebook foi invadido por uma onda de amor e aceitação e uma tarde de sexta, que tinha tudo pra ser igual as outras, mostrou que há esperança de que a discriminação seja um dia  contada nos livros de história como uma fase obscura de um passado distante.
Flavia Bortolini é estudante de direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie e estagiária no escritório HBC advogados associados em São Paulo.
Visto no: Justificando

Eles morrem de todas as formas mais cruentas de morrer. Morrem não porque tenham invadido uma casa, não porque tenham molestado um gato, não porque tenham furtado uma banana podre de uma barraca de feira, não. Morrem por serem quem são. Morrem matados, humilhados, por serem como são. Morrem faz tempo, morrem nos guetos, morrem nos cortiços. Morrem em toda parte.

No dia em que fui dispensado do serviço militar obrigatório, éramos milhares de adolescentes em um ginásio poliesportivo de Ribeirão Preto. Estava prestes a fazer dezoito; um de nós, porém, muito diferente de todos nós, vestia roupas femininas, usava saltos femininos, tinha cabelo feminino, foi exibido à multidão de garotos como se fora um bicho e, ali, para delírio da plateia, teve seu cabelo raspado. Eu estava a poucos passos dele e era nítido que estava aterrorizado. Também se chamava Roberto, como eu, e estava na fila poucos metros à minha frente. Foi vaiado, foi xingado e carimbado: Pederasta! Um carimbo enorme, que até hoje, caso ainda esteja vivo por aí, ornamenta seu Certificado de Dispensa de Incorporação. Foi enxotado, por ser um péssimo exemplo à juventude brasileira. Uma das cenas mais marcantes de minha vida. A concha acústica que formava o ginásio, lá conhecido por Cava do Bosque… Saiu pregado, anti-cristo da moral e dos bons costumes. Soube depois que ele morava perto de casa. Nunca o havia visto antes, nunca o vi depois. Desapareceu.

No júri, C. L. J. se tornou meu conhecido. Matava na Avenida Celso Garcia, uma das mais importantes aqui de Sampa. Matou muitos e só matou muitos deles, porque eram invisíveis, marginalizados, desprotegidos e sem direito a alçarem voos à dignidade humana, à dignidade processual. Somente foi identificado quando mais de uma dúzia haviam sido brutalmente mortos, emasculados. C. L. J. era um herói condecorado por atos de bravura, havia matado outros em situações extremas. Só parou de matar quando matou excessivamente e sempre me perguntei se houve um caso de alguém ter matado mais doze médicos, costureiras, protéticos, publicitários ou coveiros. Não. Só conseguiu matar tanta gente porque as pessoas que matava eram menos pessoas. Eram não pessoas.

Carlota (nome que troco propositadamente) passou pelas dores terríveis de uma cirurgia de transformação. Pobre, inscreveu-se em um desses programas oficiais politicamente corretos e percebeu que jamais teria chances de atendimento, além de ter sido obrigada a devassar sua vida e sua intimidade a entrevistas invasivas de toda espécie. Partiu para uma aventura enlouquecida e, após prostituir-se muito além do suportável, conseguiu pagar, em Milão, alguém que fizesse a operação, com o mínimo padrão de segurança. De volta ao Brasil, tentou mudar seus documentos e festejar a vida nova. Não deferiram nem indeferiram, uma vez que o juiz de direito mandou expedir um mandado de averbação e nele carimbar: transexual. A explicação de Sua Excelência foi simples: era uma precaução para que Carlota não enganasse as pessoas, ocultando sua real condição. Na cabeça do Magistrado, as pessoas conferem as carteiras de identidade de seus parceiros. Carlota sentiu-se um lixo e disse para mim que preferia ter sido morta no parto.

Todas essas pessoas passaram por minha vida, inclusive as envergonhadas famílias das travestis mortas, numa cena de filme de horror. Uma delas me pediu para que o sobrenome da família fosse poupado: até morto e depois de emasculado, estripado e assassinado, encontrou-se tempo para sentir-se vergonha pela exposição dos parentes, que não tinham nada com aquilo.

Vejo agora a indignação furiosa de quem se inconformou com uma alegoria na Passeata do Orgulho Gay, na verdade uma manifestação de milhões de pessoas contra a intolerância, manifestada no repúdio à homofobia. A passeata que irrita, somente irrita porque expõe ao sol os preconceitos, as limitações e os ódios que se cultivaram nos últimos meses, em que erguemos e cultivamos frondosas árvores de frutos envenenados.

A alegoria, porém, remonta ao tratamento que se deu a um homem que era diferente dos demais de sua época. Aos que creem na Sua existência, pareceria mais coerente identificar-se com a alegoria do que abominá-la. Se há milhões de pessoas que acreditam que Jesus é o Salvador, talvez tenham se dado conta de que a principal lição não teria sido apreendida: o amor, o respeito, a igualdade.

Temos um Jesus crucificado por dia em cada poste. Temos o Jesus Gay, temos o Jesus Negro, temos o Jesus Morador de Rua, temos o Jesus preso em cadeias fétidas, temos o Jesus morto na periferia, temos o Jesus subempregado nos faróis, temos o Jesus analfabeto, temos o Jesus morrendo à míngua nos hospitais sem saúde no Brasil, temos o Jesus retirando dos lixões sua subsistência e matando sua fome com comida podre, temos o Jesus criança abusado sexualmente, temos o Jesus criança vitimizado em porradas e fraturas, temos o Jesus criança prostituindo-se em paraísos tropicais deslumbrantes, temos o Jesus criança que dorme no ventinho quente do Metrô nas noites geladas da Paulicéia, temos o Jesus enlouquecido zumbizando pela rua, temos o Jesus morto pela intolerância, homem ou mulher, mulher ou homem, temos o Jesus que é estuprada pelo marido, pelo pai, pelo irmão, pelo avô, temos o Jesus carvoeiro, temos o Jesus que quebra coco, temos o Jesus morto no trem, temos o Jesus torturado numa viatura policial, temos Jesus para todos os gostos.

Deixemos que o Jesus da Parada Gay renasça em uma ponte de discernimento, igualdade, respeito à pluralidade, aos direitos humanos, à dignidade para todos, à paz, à felicidade como projeto de cada um, em liberdade e em comunhão de liberdade.

Aos que não conseguirem, aos que sequer tentarem, aos que se irritarem lendo isso, que procurem dentro de si o Jesus perdido em algum lugar.

Certamente, Ele existe e só espera uma única chance.

Roberto Tardelli é Procurador de Justiça aposentado (1984/2014), onde atuou em casos como de Suzane Von Richthofen. Atualmente é advogado da banca Tardelli, Giacon e Conway Advogados, Conselheiro Editorial do Portal Justificando.com e Presidente de Honra do Movimento de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Visto no: Justificando

Não é raro – para não dizer frequente – nos depararmos, em alguns setores de movimentos sociais, com palavras de ordem a bradar que homens não podem ser feministas, heterossexuais não podem lutar contra a discriminação de homossexuais, “brancos” (e ficam aqui as aspas para indicar a frágil definição conceitual da categoria “raça”) não podem militar contra o racismo, cis-sexuais não podem defender direitos dos transsexuais, “ricos” não podem combater a exclusão social.

Todo esse “não-pode-não-pode-não-pode” geralmente procura ser justificado pelo argumento da qualidade inata de opressor, ou seja: que homens “nascem” machistas e não sabem o que passa uma mulher, heterossexuais “nascem” no privilégio da heterossexualidade e jamais poderão experimentar uma manifestação homofóbica como um homossexual, o “branco” “nasce” racista e não será alvo de discriminação racial, e assim por diante, muitas vezes acompanhando-se tais argumentos de acusações de “hipocrisia” e “petulância”.

Mas será produtivo continuar a despender tanto tempo e energia na fogueira das vaidades de disputa pelas caixinhas e prateleiras mais bem-acabadas e detalhadas onde colocaremos, indicados por abas coloridas, as feministas cis-brancas, as defensoras dos direitos das trans-negras, os militantes do movimento negro homossexual, as lésbicas brancas periféricas, os bissexuais deficientes, e toda a miríade de combinações possíveis entre vulnerabilidades sociais?

É evidente ser imprescindível reconhecer as especificidades de demandas de todos os grupos, muitas vezes obscurecidas pela essencialização dos sujeitos de direitos – daí o problema em se falar de demandas para “A” mulher, “O” negro, “O” homossexual, “O” transsexual, ignorando as diferentes realidades e trajetórias experimentadas pelos indivíduos que compõem as categorias, negando-lhes suas identidades. Mas é importante não confundir identidade com posição política: ser negro é identidade, militar contra o racismo (qualquer que seja o tom da sua pele) é posição política. Ser (uma das muitas possibilidades de) mulher é identidade, ser feminista (qualquer que seja seu sexo ou seu gênero) é posição política. Ser homossexual é identidade, lutar contra a homofobia (qualquer que seja sua orientação sexual) é posição política. E esta confusão entre identidade e posição política e a disputa por essas categorias podem trazer ainda mais cisão e intolerância entre os grupos sociais, ou seja, o efeito contrário do que (imagino) se pretende.

Para agregar mais elementos a essa reflexão e possibilitar que diferenciemos o que é identidade e o que é posição política – e poder constatar que não são condicionantes entre si – vale a pena esmiuçar alguns conceitos que ajudam a compreender a construção cultural e social da exclusão de determinados grupos: a ideologia discriminatória, o preconceito e a discriminação.

A ideologia discriminatória pode ser descrita como um conjunto de crenças na inferioridade de determinado grupo, construindo uma identidade alvo de preconceito. A ideologia discriminatória opera por meio de uma lógica perversa, pois forma e fomenta mentalidades de modo a ensinar, desde muito cedo, que situações de injustiça e exclusão são normais e fazem parte da vida. E todos crescemos e formamos nossas identidades expostos às mais diversas ideologias discriminatórias: quando crescemos assistindo a um programa de TV de sucesso que nos ensina que um homem de trejeitos classificados como afeminados é algo digno de riso (e não de respeito), aprendemos que “isso é assim mesmo”, da mesma forma quando meninas são ensinadas “a sentar direito para se dar ao respeito”, ou quando se afirma que negros “de sucesso” são cantores de determinados estilos musicais ou atletas de determinadas modalidades (alguém aí lembra de um violoncelista ou esgrimista negro?).

O preconceito, como se depreende da própria análise semântica do termo, é um “pré-conceito”, ou seja, o julgamento de pessoa ou situação com base na ideologia discriminatória, e não no que de fato se conhece sobre aquele indivíduo. A ideologia discriminatória alimenta os preconceitos construindo estereótipos negativos, que são representações essencializantes e coletivamente compartilhadas, inclusive por quem sofre o preconceito. Sendo mulher e crescendo sendo ensinada a “sentar direito para me dar ao respeito”, internalizo a norma segundo a qual somente serei digna de respeito se me portar de determinada maneira (e acreditarei que as mulheres que não “sentam direito” não são dignas de respeito). Sendo negro, cresço aprendendo que para ter sucesso há apenas um leque bem estreito de opções que me restringirão a determinadas trajetórias de vida, e me faltarão modelos de outras experiências. Sendo homossexual, aprendo que serei objeto de ridicularização e marginalização. E, nem é preciso dizer, que os grupos imunes a alguns preconceitos, internalizarão e serão empoderados pela assimetria de poder imposta pela ideologia discriminatória.

Esse aprendizado da norma preconceituosa (e, portanto, injusta) conduz à ponta do iceberg, que é a discriminação: ação decorrente do julgamento preconceituoso construído e legitimado pela ideologia discriminatória. Quando se acredita que meninas tem que “sentar direito para se dar ao respeito”, ensina-se desde cedo a julgar a menina que “não senta direito” como não sendo digna de respeito, e, como consequência deste julgamento, ela poderá ser preterida em determinadas situações em decorrência do julgamento de seu caráter a partir de sua vida sexual. Quando se acredita que negros somente fazem sucesso quando são músicos ou atletas, ensina-se que não são capazes de outras trabalhos, e, como consequência deste julgamento, serão discriminados quando ousarem exercer outro tipo de atividade.

Desta forma, é importante o reconhecimento de identidades de grupos histórica, cultural e socialmente vulnerabilizados para que se possam ressignificar signos como aparências, comportamentos, roupas, sotaques e recolocá-los no campo da representação coletiva como algo positivo: daí a importância de movimentos como a Marcha das Vadias, a Parada do Orgulho LGBT, ou o clássico “black is beautiful”. Mais importante ainda é dar voz a essas pessoas, que em geral são subrepresentadas nas arenas de debate político, para que possam falar por si mesmas a respeito dos obstáculos que precisam transpor, e pensar as melhores estratégias para tanto.

Porém, há que se cuidar para não transformar a militância pela igualdade de direitos em uma busca pelo inimigo: classificam-se rapidamente todos os homens como machistas inatos, todos os heterossexuais como homofóbicos de nascença, todos os “brancos” racistas de pai e mãe, em uma reedição da ideia do pecado original. Na melhor das hipóteses, recebem na testa o carimbo indelével com os dizeres “em desconstrução”, como se fosse razoável atribuir culpas a sujeitos determinados, diagnosticar maldades individuais passíveis de tratamento ou punição, a ignorar quase que por completo o processo de construção de mentalidades preconceituosas, legitimadas por ideologias seculares e manifestadas por atitudes discriminatórias.
Mais justo, eficaz e maduro é sermos todos indignados pelas mais diversas discriminações: não preciso ser mulher para me indignar com o machismo, não preciso ser negra para me indignar com o racismo, não preciso ser homossexual para me indignar com a homofobia, não preciso ser transsexual para me indignar com a transfobia, não preciso ser pobre para me indignar com a exclusão social. Acusar esse novo “outro” de privilegiado afasta do debate e impede a empatia imprescindível para erradicar toda forma de preconceito e discriminação.

Então, na minha identidade de cidadã (como indivíduo que ocupa uma relação de direitos e deveres com o Estado e com os demais cidadãos), considero que sim, é problema meu se um negro sofreu preconceito racial, se uma mulher foi alvo de machismo, se um homossexual foi discriminado. É de meu interesse viver em uma sociedade libertária e igualitária.

Maíra Zapater é graduada em Direito pela PUC-SP e Ciências Sociais pela FFLCH-USP. É especialista em Direito Penal e Processual Penal pela Escola Superior do Ministério Público de São Paulo e doutoranda em Direitos Humanos pela FADUSP. Professora e pesquisadora, é autora do blog deunatv. 

Visto no: Justificando

    No Brasil, ainda há uma forte influência do patriarcalismo em sua cultura, onde o homem é considerado a figura mais eminente de sua sociedade. Porém, a luta da mulher brasileira por espaço cresce consideravelmente ao longo dos anos, fazendo com que algumas diferenças diminuam. No entanto, ainda assim, se tem muito a ser feito, desde quebrar ideias como a do corpo de violão até conquistar lugares tidos como apenas dos homens.

       Dentro da sociedade, a mulher é vítima de diversos tabus, onde, a maioria deles, está relacionado ao sexo. Não se educa uma mulher para conhecer seu próprio corpo, muito menos para ter autonomia sobre ele. Tudo gira em torno de costumes e paradigmas atrelados ao homem e seu prazer. Porém, já dizia Leila Diniz, considerada uma mulher à frente do seu tempo, "a mulher brasileira deveria ir menos ao psicanalista e mais ao ginecologista". Tratando-se então de uma mulher que cuida de si para si.

        Em contrapartida, outros tabus foram quebrados no decorrer do tempo, como por exemplo, o uso da minissaia, do biquíni e dos métodos contraceptivos. Ainda se tratando de conquistas, vale ressaltar a vitória política e democrática da atual presidente, Dilma Rousseff, que exerce seu segundo mandato consecutivo. Além disso, também é possível destacar a Lei Maria da Penha, que protege e julga casos de violência contra mulher no país.

       Sendo assim, é notória a longa jornada que ainda existe para a mulher conseguir a igualdade entre os sexos. Porém, até lá, é preciso pregar sobre a tal ideologia igualitária, tratar sobre a autonomia feminina desde a infância e fazer com que haja uma reeducação em todos os âmbitos sociais sobre a mulher.

Aluna: Beatriz Borges
Professor: Diogo Didier

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Este texto é uma tradução e uma adaptação de um texto chamado Our bodies are of this land: Decolonization and Indigenous women’s radical self-love, de autoria de Samantha Nock,  feminista indígena, parte da tribo Métis. Ela é graduada pela Universidade deBritish Columbia e tem bacharelado em “First Nations Studies”.
Eu sempre me senti impressionada com a beleza natural desta terra. Eu cresci admirando os rios e as luzes do norte. Eu estive me senti em êxtase com a elegância tranquila das árvores cobertas de neve. Fui criada em um lugar onde a paisagem deixa pessoas sem fôlego e sem palavras.
E mesmo tendo sido criada em um lugar onde fui incentivada a admirar a beleza da terra, nunca fui incentivada a admirar minha própria beleza. Em vez disso, graças à uma mídia insidiosa e seu apoio esmagador aos padrões de beleza brancos e ocidentais que sempre favoreceram as mulheres brancas e magras, fui criada para tentar seguir padrões impossíveis, formas impossíveis de se atingir esses objetivos. Eu herdei muitas coisas bonitas de minha mãe, sendo uma dessas coisas a impossibilidade de se adequar à essas normas de beleza. Quando se nasce baixinha, robusta e vesga dificulta muito para que você consiga realmente conseguir se ver como uma pessoa bonita. Eu ainda tenho problemas com isso.
Esta luta para que eu conseguisse me aceitar como sou também sempre teve muito a ver com o fato de eu ser Métis. Eu costumava pensar: “se eu pelo menos tivesse dois pais brancos… se eu pelo menos… eu talvez, quem sabe… não seria desse jeito. Não seria assim”.  Lutei comigo mesma intensamente durante toda a minha adolescência. Eu tinha me convencido e fui convencida por outros que minha indianidade era uma maldição, era algo de que eu deveria ter vergonha, foi fator determinante na minha “notável feiura”. Sendo eu mestiça, sempre me senti presa à um paradigma: eu não era indígena o suficiente para ser bonita nem branca o suficiente para ser bonita. Este padrão arbitrário de beleza no qual eu me guiava, que ainda permeia minha mente nos dias em que não me sinto forte o suficiente para combatê-lo, está profundamente enraizado na colonização e age como uma forma de perpetuar uma mentalidade colonial insalubre.
Venho tentando pensar em uma forma de  corrigir este pensamento. Como eu posso tornar o ato de amar a mim mesma uma parte normal da minha práxis decolonizadora? Para mim, a descolonização começa e termina com a terra, tudo está ligado à terra – como tratamos uns aos outros, como nos organizamos politicamente, como nos sustentamos como povos indígenas… tudo isso está ligado à terra. Seguindo o mesmo raciocínio, meu amor próprio, como uma mulher Métis, está ligado à terra também. Minhas curvas são como colinas verdejantes, minhas estrias são desfiladeiros, meus machucados são como as luzes do norte e as minhas veias são rios: eu sou bela como esta terra da qual eu venho e à qual pertenço.
Esta terra é maravilhosa e nós somos também. Se podemos parar para apreciar o pôr do sol e os picos das montanhas, podemos também parar para nos olhar no espelho todas as manhãs e apreciar as curvas de nossos corpos. Precisamos, como mulheres indígenas mas acima de tudo como mulher, praticar o “amor próprio radical”. Precisamos nos amar da mesma maneira que nós amamos esta terra. Nossos corpos são profundamente falhos, imperfeitos e de tirar o fôlego – como esta terra. Nossos corpos são território soberano como nossos Nações, nossos corpos são as casas nas quais temos para viver e com as quais temos que conviver. Muitas vezes nos sentimos deslocadas, descontentes e consternadas com de onde viemos, mas nós amamos isso – profunda e intrinsecamente. Amar a nós mesmas não é algo que pode fazer de forma simples, é um processo trabalhoso. É um trabalho de descolonização e é um trabalho que não podemos fazer sozinhas: precisamos de apoio e precisamos apoiar umas às outras.
Luto todos os dias para me amar. Eu sei que todas nós o fazemos. Mas, quando tudo se torna difícil e vêm dias ou eu mal consigo encarar-me no espelho, eu me lembro que nós existimos por causa do amor de nossos antepassados. Nossos corpos estão comprometidos com histórias mais antigas do que o tempo, o nosso sangue e os nossos ossos são desta terra, parte dela.
Mesmo se existirem dias em que eu não consiga enxergar a beleza em mim mesma, eu ainda irei ter consciência, sendo tão imperfeita como eu sou, eu estou aqui e sou apoiada por aqueles que me amaram para que eu existisse. Dentro desse acúmulo insuperável de amor, pela terra e pelas pessoas, eu encontro o suficiente para eu começar a me amar novamente.
Visto no: Radialista
O nome que a gente dá para as coisas na vida não é inocente, não é por acaso, é marcado por posicionamento, é político, é cultural. Pensando nisso, os diversos apelidos dados aos órgãos sexuais feminino e masculino dizem muito sobre sexo e papéis de gênero:
Enquanto o pênis tem todos os nomes possíveis que remetem ao formato de cenoura, nabo, cano, anaconda, espeto e tantos outros mais, à vagina direciona-se outro tipo de apelido, muito mais pejorativo, como:
bacalhau
carne mijada
nugget de peixe
marisco
suvaco de coxa
túnel cheiroso
suadinha
A vagina e seus perseguidos odores! Fedor de peixe, suor, mijo. A vagina é nojenta, tem mau cheiro. Tudo que o homem hétero quer é que sua estaca crave esse marisco, mas sem abrir mão de rebaixar essa pobre carne mijada ao seu devido lugar.
A mulher escuta esses nomes desde pequena mesmo sem entender ainda seus significados. A gente vai crescendo e entendendo que é suja, que deve esconder nossos cheiros, mesmo que sejam naturais para todas as mulheres. A menina desde novinha aprende a usar uma infinidade de produtos de higiene, enquanto o menino aprende a fazer xixi na árvore e dar só uma balançadinha na sua bengalinha. A gente aprende que peixe podre e vagina tem o mesmo odor. Carregamos um túnel “cheiroso” no meio das pernas, motivo de piada, medo, objeto de controle.
Esses apelidos podem parecer apenas piadinhas inofensivas para muita gente, mas carregam um peso muito maior que uma comédia boba. Muitas mulheres realmente acabam tendo nojo de si mesmas, não conhecem suas próprias vaginas, não tocam em si mesmas. Aliás, falando em toque, a masturbação feminina é um grande tabu que vem também desses apelidinhos carinhosos:
engole espada
ninho de rola
lixa-pica
casa do caralho
papa-duro
gulosinha
buraco da serpente
Se o homem chama a vagina de lixa-pica e casa do caralho, isso significa que a maldita xoxota só existe para servir ao homem; portanto, mulheres, o prazer sexual não é de vocês, mas do homem e sua espada.
O homem carrega orgulhoso sua terceira perna (a vontade de aumentar o tamanho do pênis através de apelidos é visível), sua furadeira, seu socador, sua ferramenta. A mulher esconde, depila, limpa sem cansar seu suvaco de coxa. Dar nomes pejorativos à vagina prejudica muito a sexualidade feminina, pois a mulher tem pensamentos negativos em relação a si mesma, acaba se limitando, tem medo de se expor, de ter o cheiro errado, o formato errado, o prazer errado.
A tentadora vagina, o testador de batina pode parecer idolatrado por muitos homens, mas essa adoração tem um limite muito demarcado: o controle. Dar nome é querer controlar, diminuir, determinar a função. O homem apelida de ninho de rola quando quer dizer que a vagina serve para nada além das vontades de sua rola. O homem corta, mete, penetra, come com sua serpente, seu canivete, sua arma. E finaliza chamando de bacalhau.
Essa mistura de idolatria e controle é muito parecida com aquela história de chamar as mulheres de musas que muitos adoram. Vários homens tentam fugir de uma imagem de machista dizendo que amam as mulheres, que elas são musas inspiradoras, deusas que devem ser veneradas. Gente, deixa eu contar um segredo: isso ainda é machismo, isso ainda é tentar definir uma posição para mulher alheia à sua vontade. Portanto, não me venha dizer que a vagina é a coisa mais adorada do mundo, a área VIP, a desejada, a caixa dos prazeres, pois, homem, você está determinando que a vagina só serve pra ti.
Os apelidos dados à vagina tiram da mulher o controle (e orgulho) sobre o próprio corpo. Quando somos condenadas a levar entre as pernas nada além de um nugget de peixe e um buraco de serpente, aprendemos que somos submissas ao gigante adormecido masculino. O poder das palavras é forte na subjugação de qualquer grupo, qualquer minoria. As 100 palavras para vagina citadas no vídeo no início deste texto podem ser separadas em três grupos: mau cheiro/aparência feia; diminutivos; provedor do prazer masculino. Nenhum apelido carrega uma ideia de poder como espada, ou de algo que machuca e domina como arma.
Esses nomes condenam a mulher pela sua própria natureza, ou seja, não há saída. As mulheres passam a vida lutando contra as suas cavernas, cabaças, cabeludas, pombinhas. A espada manda, o engole-espada obedece. Vivemos numa cultura de idolatria do pênis, toda a teoria psicanalítica do Freud gira em torno do desejo ao falo. No entanto, com as mulheres tentando se libertar cada vez mais, podendo finalmente falar (de vez em quando e ainda controladamente) que gostam de sexo, que se masturbam, que gostam do próprio corpo, acho que está na hora de apelidos com mais empoderamento feminino.

Visto no: NOO

"Maria, Maria
É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta [...]
O verso da Música de Milton Nascimento realmente traz um alerta para a sociedade pernambucana e brasileira, de que "é preciso ter força, é preciso ter raça" para suportar a perda brutal de mais uma de suas Marias. Desta vez, a jovem Maria Alice Seabra barbaramente assassinada aos 19 anos confirma o que eu já sabia há tempos: o machismo mata. Isto porque, a figura do padrasto e algoz da vítima, o Gildo, é similar, quiçá igual, a de muitos outros homens nascidos e criados no Brasil. Infelizmente, ensina-se a eles que mulher é mercadoria e que, por isso, é de propriedade indiscutível deles.
Essa ideia de posse é defendida pelo machismo e resulta em crimes dessa natureza, uma vez que muitos homens sucumbem ao desejo e violam o corpo alheio desrespeitando a integridade física e moral da vítima. Com as mulheres o machismo age diferente, ora recatando-as entre as "mulheres de respeito", ora vulgarizando-as através da roupa, do modo de falar, agir ou de se comportar. É desse modelo sexista de sociedade que várias Marias são mortas, apenas por serem bonitas, femininas, jovens, desprendidas, ou pelo simples fato de terem nascido mulher. É importante lembrar que mesmo após a sansão da Lei Maria da Penha, os índices criminais em torno da violência de gênero não tiveram mudanças positivas.
Para os mais informados, não é surpresa saber que no Brasil os maiores casos de violência contra a mulher ocorram em casa, geralmente por pessoas bem próximas da vítima, como maridos, pais, padrastos, irmãos, etc. Crimes estes silenciosos, já que a vítima, devido a proximidade com o agressor, não se sente segura e confortável para denunciá-lo. Foi o que talvez tenha ocorrido com Maria Alice, que antes de ser morta, resolveu sair de casa a ter que enfrentar mais uma vez o padrasto "protetor". E quem não tem essa opção? Resta suportar as humilhações, cantadas e assédios de homens asquerosos, que aparentemente passam por meros "cidadãos de bem" no dia a dia. Nesse exato momento, por exemplo, talvez outra garota esteja sofrendo violência de gênero em casa, ou pior, sendo estuprada impiedosamente por aquele que deveria ser seu maior protetor.
Na verdade, é complicado esperar alguma transformação nesse sentido enquanto o machismo é naturalizado em casa, na escola, na mídia, na religião e em todos os lugares. Os perfis de menino e menina personificados pelas cores azul e rosa já dão os primeiros indícios da dominação de um sobre o outro. Depois vem a ideia de fragilidade, do sexo forte em detrimento do fraco. Os colégios, ao invés de desconstruírem tais papeis, acabam perpetrando-os ainda mais. Por sua vez, os segmentos religiosos dominantes no Brasil reduzem a mulher a um objeto de procriação e somente só; ou reduzem-na a um pedaço retirado da costela de Adão.
A lista piora quando a mídia coisifica a mulher nos comercias de bebida; romantiza o gênero como excessivamente sentimentalista em suas tramas; vulgarizam-nas em suas músicas ou ainda insistem na ideia de "Amélia", mesmo que elas hoje tenham conseguido se libertar desse rótulo. O fato é que desse tratado histórico/sociológico nascem vários "Gildos" capazes de assediar, invadir, bater, machucar, trair, violar e até matar mulheres se for necessário para saciar suas vontades mais lascivas. Em meio a isso, Marias, Alices, Brunas, Carlas, Fernandas e Terezas são criadas para servir aos caprichos desses indivíduos, sob pena de serem mortas caso não sigam à risca tudo o que está na cartilha do ser homem e do ser mulher.
É lamentável constatar tais posicionamentos numa era cercada pela informação. É uma pena saber que há mortes derivadas do machismo ainda hoje no brasil. É triste saber que uma jovem de 19 anos teve todos os seus planos interrompidos apenas porque os papeis de gênero ainda se dividem entre os músculos e não pelos méritos. Mais triste ainda é saber que Maria Alice Seabra não foi e nem será a última e que outras, neste momento, podem estar perto de ter um fim semelhante ao dela. Marias de idade semelhantes ao dessa jovem, talvez mais novas, mais velhas, talvez que não tenham nem nascido ainda. Marias que se tornarão estatísticas da violência de uma sociedade sexista, onde as minorias morrem diariamente e pouco é feito para se reverter esse quadro. Marias que não devem ser lembradas apenas na dor, mas como disse Milton nascimento, lembrada como:
''Uma mulher que merece
Viver e amar
Como outra qualquer
Do planeta''



Carla engravidou aos 17. Mal teve beijo; só boquete. Foi no banco de trás do carro. Chupou até o talo. Márcio disse que não tinha camisinha. ‘Põe na bundinha’, Carla pediu. Não foi atendida. Foi comida pela buceta e a treta não é nem essa. A treta foi a pressa com que o pai sumiu. ‘Cadê, Márcio? Ninguém sabe, ninguém viu.’
Márcio abortou.
Carla, em desespero com o sumiço, com o paradeiro do desserviço masculino, saiu por aí. Feito zumbi ficou dias sem dormir, vomitando por lá, por aqui.
Já de três meses, desistiu de encontrar o pai da filha. Contou pra família. Da mãe Irene levou um tapa. Do pai, nada. Nem abraço, nem risada. Nem conforto, nem piada de vô. O próprio pai, Carla nunca conheceu.
Hélio desapareceu. Dezoito anos atrás, deixou a noiva Irene grávida e se mandô. Hélio abortou.
‘Eu te criei pra ser diferente de mim. Não pra ser estúpida sem fim. Você não cansa de cometer os mesmos erros que eu, sua filha da puta?’ - Não deu pra se fazer de surda. Carla carregou pra si dupla culpa. A mãe estava decepcionada. Decidiu que para aprender com a jornada, Carla deveria encarar as consequências sozinha. Como fez a própria com a pequena Carlinha; ainda nos braços.
‘Só assim ela vai aprender.’
Assim Carla conheceu seu terceiro aborto. Foi expulsa de casa.
Com uma mochila nas costas e uma filha no ventre, a garota cedeu ao caos. Depois de três dias de rua, decidiu que ficaria nua pra levantar o necessário. Ficou de quatro pra cada otário que é impossível contar nos dedos.
Os medos, Carla teve que engolir. Teve que aceitar o partir de Márcio, como foi o do pai. Descobriu que há um mundo em que a tristeza não se esvai.
Viu a barriga crescer tendo um viaduto como teto. Por certo, torcia pra que ele desabasse. De preferência que não sobrasse nada dos dois corpos. O nem nascido e o emagrecido dela própria.
‘Sai da minha frente, sua demente.’ Vociferou o motorista quando Carla atravessou a pista fora da faixa com uma caixa de papelão. Eram fraldas, cachaça, calcinha suja e uns documentos que um dia serviriam pra alguma coisa. Se esse dia chegasse.
Em certo ponto,Carla não era mais menina. Por sina, chegou aos dezoito, mas não passou disso. Também não teve o quarto aborto. Seu corpo foi encontrado morto antes do nono mês.
Agora vamos jogar limpo. Quem se importa menos com Carla: eu ou vocês?

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Fábio Chap