28 junho 2015


“Quais são minhas raízes?”. “Onde estão meus pares?”. “Em que momento as referências das  origens  africanas  se  perderam  na  família?”.  Com  alguns  destes  questionamentos pessoais  referentes  à  historicidade  familiar  e autoidentificação,  surgiram  inquietações maiores,  que  produziram  um  questionamento  mais  amplo  sobre  a  visibilidade  da  mulher negra na sociedade atual.
 Da   inquietação   surgiu   a   energia   para   criar   visualmente   algo   em   que   minha   arte contribuísse para expressar o que parecia faltar nas mídias de ampla penetração social: as  mulheres  negras  existem  em  grande  quantidade,  estão  aqui  e  tem  as  mais  diversas possibilidades criativas de expressão com seus corpos.
Se existimos, onde estamos na mídia de massas e o que ocorre que não nos vemos de fato representadas nas mesmas e muitas de nós sequer se reconheçam como tal? Qual o perfil de mulher negra que consegue atravessar este “bloqueio” midiático e ser inserido? E como   fica   quem   não   se   enquadra   nestes   perfis   que   auxiliam   na   construção   de estereótipos socialmente aceitos?
Com  tantos  questionamentos  em  mente,  o  passo  seria  tornar  realidade  a  inquietação: buscar mulheres negras de diferentes idades, tons de pele, tipos e cores de cabelo, para expressarem  de  diferentes  formas  partes  de  suas  personalidades  em  imagens  que buscariam  mostrar  umas  para  as  outras  que  estamos  aqui  e  podemos  sim  ser  quem somos.
 Todas as mulheres deste ensaio mostraram-se disponíveis  para  se  expor  por  uma  causa  comum, permitindo   que   sua   geração   e   as   futuras   vislumbrem   sua   diversidade   e   beleza, independentemente de quais sejam os padrões sociais vigentes.
Mulheres de todos os tipos e jeitos, e gostos, e formas. Celebrando em conjunto o simples fato de serem mulheres, e negras, e belas, e diferentes. Serem quem são. Em toda sua plenitude.

Ensaio fotográfico por Ester MendesTexto por Luciana Medeiros, beauty artist.
Visto no: NOO

1º – Vê-la dançar. Ter ciência que se trata de um espetáculo. Sua mão por cima da minha cueca naquela noite foi meu ingresso. Essa cama, a área vip. Um rebolado desses não se assiste, se devora com os olhos;
2º – Te beijar a boca. Mas não é essa coisa de beijinho fofinho. É beijo na boca te engolindo os lábios. Minha língua invadindo seu mundo. Te apertando em mim e te soltando assim que a saliva quiser alcançar outro patamar;
3º – Fazer seu pescoço pedir bis. Como adoro seu pescoço. Meu beijo nele não se importa com perfume ou suor, com a pele doce ou salgada. Nem ouso falar ‘venha como for’, porque, comigo, você não vem, eu busco;
4º – Tirar seu sutiã e, antes de qualquer beijo ou qualquer mão, te colar em mim. Como são interessantes dois corpos que, sem pressa, se tateiam e se misturam. Seu peito no meu. Sua alma na minha;
5º – Pela nuca, expor a mulher dentro de você. É a nuca que revela quem é de beijinho e quem é de beijão. Quem é de amorzinho e quem é da entrega intensa. A mão que te aperta o cabelo na pressão perfeita é a mesma que te traz pra perto, pra dentro, pro caminho;
6º – Tatear seu seio e me dar o direito de descer outra mão até o botão que sua calça insiste em achar nos segura. Se não perco uma gota de tudo que é teu, jamais deixaria passar batido o barulho do zíper descendo. Sinfonia do tesão. Acho que faz todo sentido um beijo mordiscado no seio esquerdo, uma mão pesada no direito e dedos ágeis descobrindo a umidade da sua calcinha;
7º – Chupar, lamber, melar, foder com a língua a buceta que esperou essa noite, que esperou essa cama pra ganhar beijos que algumas bocas nunca ganharam. Se existe segredo pra te chupar, eu não sei, nessas horas eu evito tudo que é guardado a sete chaves; prefiro o que é aberto por dez dedos. Vou abrir. Vou puxar. Vou me lambuzar. Eu quero o cheiro, eu quero o mel, eu quero seu clitóris desistindo de resistir. Quero que você esqueça pra onde tinha que ir depois;
8º – Te convidar pra sentar na minha cara. Pra você se esfregar sem receio ou pudor, sem economia de movimentos. E, com você me fazendo respirar apenas o seu sexo, perceber que seu gozo é um futuro certo, mas, mesmo longe do meu aniversário, um presente certeiro;
9º – Te colocar deitada e, provocar seu riso e seu desespero. Esfregá-lo duro, intenso e molhado no seu clitóris. Sim, falo do meu pau. Tocar a campainha, mas entrar sem bater na porta. Essa coisa de colocar só a cabeça é a brincadeira mais divertida quando você começa ‘Pelo amor de deus: Mete. Fode. Come. Entra. Invade. Faz fundo. Faz forte. Vem pra mim’. Que mulher!;
10º – Te comer a buceta com a raiva e a fúria que nossos beijos já anunciavam. Molhar o lençol com o prazer descomunal que nos demos o direito. Te tapar a boca a cada centímetro além. Te vendar os olhos e me presentear os ouvidos com cada novo barulho de tapa que sua bunda receber. Te deixar as marcas de uma noite que ainda nem aconteceu, mas que já me deixa assim: prestes a gozar a cada vírgula. Te foder sem reticências, porque são três pontos que escondem o que está por vir. Entre nós nada é escondido. Cumplicidade, olhar, mãos, corpos, suor, orgasmo e um baseado antes do nosso próximo auge.
Aliás, de regra meu sexo não se alimenta. Se eu citei dez, cite vinte. Vem me dominar.

        Das cozinhas para os escritórios, a mulher brasileira vem deixando para trás o estereótipo de dona de casa. Hoje, o estigma de sexo frágil é substituído por mulheres capacitadas que ocupam posições que antes eram exclusivamente dos homens, como a eleição de Dilma Rousseff para a presidência do Brasil; é notável que tais mudanças sejam importantes, mas não realmente suficientes. 

Desde a sua inserção no mercado de trabalho, na Revolução Industrial, as conquistas femininas tais como o direito ao voto e ao divórcio, permitiram a elas um espaço maior na sociedade. O movimento feminista, por exemplo, que busca a igualdade entre os sexos, ganha todos os anos milhares de adeptas. Através de caminhadas e protestos, como a Marcha das Vadias, buscam chamar a atenção da sociedade contra o machismo. 

Entretanto, mesmo diante de muitas conquistas, vale salientar que a mulher ainda é colocada de forma desigual em relação ao homem. Mesmo sendo maioria da população e também mais escolarizadas, elas recebem em média 30% a menos que os homens no mesmo cargo, de acordo com uma pesquisa do IBGE de 2012.

A violência e a falta de respeito, impulsionados pela coisificação da mulher pela mídia, são outros entraves encontrados pelas mulheres. A cultura do estupro, tão enraizada na sociedade brasileira, deixa claro que mesmo com a conquista da pílula anticoncepcional em 1960, a mulher não alcançou ainda, a total liberdade sobre seu próprio corpo. 

Portanto, se faz necessário, a real cooperação entre homens e mulheres como acreditava Simone Beauvoir. É importante, o estímulo pela mídia, de campanhas que preguem uma relação equânime entre os gêneros. Cabe também as famílias e as escolas, o combate ao sexismo entre as crianças e ao Estado, o incentivo as empresas em proporcionar uma equiparidade de oportunidade entre os sexos. Sendo assim, as mulheres deixarão de serem vistas como as Amélias de Ataulfo Alves, para serem as Marias de Milton Nascimento. 

Aluna: Tayanne Adrian Santana Morais da Silva
Professor: Diogo Didier

“Você está ficando velha, já tem quase 30 anos, precisa casar!” Por que????
Por que eu não posso ser feliz solteira? Por que eu preciso de um namorado, noivo, marido, para ser feliz? Por que não posso ser feliz comigo mesma, fazendo minhas coisas, vivendo minha vida em paz?
Quem foi que determinou que apenas as pessoas compromissadas são felizes? Eu conheço um monte de casais infelizes e conheço também muito solteiros felizes. E a felicidade ou a infelicidade não estão, diretamente, relacionadas ao estado civil das pessoas.
Eu não entendo aquelas pessoas que procuram um namorado desesperadamente. Isso pra mim se chama CARÊNCIA! Se você não consegue viver bem consigo mesma, tem algum problema aí. E provavelmente, esse problema está ligado à sua autoestima.
Não que eu seja autossuficiente, muito pelo contrário. Adoro estar com as pessoas e preciso delas. Mas antes de tudo eu preciso de mim mesma! Se eu não aguento ficar sozinha comigo, quem vai aguentar? Se eu não gosto da minha companhia, quem vai gostar?
Eu me faço feliz. Eu escolhi viver assim. “Antes só do que mal acompanhada?” Não! Eu não ando mal acompanhada. Tenho a mim e muitas pessoas ao meu redor. Pessoas especiais, que me entendem, me aceitam e caminham ao meu lado.
Eu não quero um namorado qualquer. Para ter um relacionamento infeliz, inseguro e destrutivo? Eu valorizo demais a minha vida para ligar ela à qualquer um. Pra quê? Só para mostrar ao mundo que eu tenho um namorado? Não preciso disso! Eu quero um cara legal, divertido, inteligente, charmoso…. Quero um relacionamento saudável, leve, que me acrescente, me incentive e me leve além.
Você acha que eu estou querendo demais? Pode ser! Talvez por isso eu ainda esteja solteira. Mas não tem problema. Eu não aceito menos que isso. Enquanto o certo não aparece eu sigo aqui. Me divertindo com meus amigos incríveis, minha família linda, meu cachorro, meus livros, meus filmes, meus passeios, alguns gatinhos interessantes que aparecem, minhas viagens, minhas baladas, meus porres, meus textos, minhas tardes no salão, minhas voltas no shopping e, principalmente, comigo mesma.
Solteira sim, sozinha nunca! Eu sempre terei a mim mesma!
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Autor Desconhecido

“Narciso acha feio tudo o que não é espelho.”

        A concepção de “beleza” vem sofrendo profundas transformações ao longo dos séculos. Se na Antiguidade Egípcia ela era tida como símbolo de soberania e pode, hoje é alvo do capitalismo exacerbado que comercializa um ideal de beleza padronizado. Com base nisso, é importante analisar os motores responsáveis pela difusão dessa conduta, bem como o reflexo disso na sociedade contemporânea brasileira.

        Com o avanço da globalização, um dos modelos adotados para a comercialização de produtos foi o uso do corpo nas campanhas publicitarias. Com essa modificação no paradigma social, ocorreu a massificação dos padrões de beleza que acabaram por acentuar as diferenças sociais no Brasil. Isso porque foi difundido o pensamento de que, para ser incluído em determinados grupos sociais, era necessário se adaptar às tendências pré-estipuladas pela sociedade de consumo. A partir disso, o Sociólogo Max Webber compara esses modelos estereotipados a uma gaiola de ferro que acaba por segregar as minorias, negando-lhes o direito de inclusão e exercício da cidadania.

       Por outro lado, decorrente da busca incessante pelo ‘‘belo’’, observa-se o crescimento da indústria do corpo nos setores de todas as áreas, com destaque para as academias de musculação. Isso porque um número cada vez maior de pessoas vem sendo atraídas pelas facilidades de custo e, muitas vezes, priorizam a beleza em detrimento da saúde. Reflexo disso é o uso descontrolado de anabolizantes e recursos para melhorar a aparência física que acabam por causar danos à saúde, como impotência sexual e problemas cardiovasculares. Assim, isso acaba por coisificar as pessoas, induzindo à busca de métodos cirúrgicos e estéticos para atingir uma máxima de beleza frequentemente associado ao status social como meio de se destacar na sua realidade.

      Compreende-se, portanto, que há uma linha tênue entre os padrões de beleza propostos pela sociedade capitalista e a necessidade de quebrar os paradigmas associados a um ideal de belo estereotipado. Logo, é preciso que o poder público, através de incentivos fiscais, estimulem as empresas a reduzirem o uso do corpo como artefato de venda, bem como conscientize a população, através de campanhas publicitarias, para que a sociedade não se deixe ser alienada pela ditadura da beleza. E, assim, romper com os estigmas de uma sociedade apática para que não acabemos como no mito de narciso, afogados no próprio ego.

Aluno: Guilherme Queiroz Braga
Professor: Diogo Didier




O Eduardo está em Paes desde que era Garotinho
O Fernando teve Collor pra salvar os nossos filhos
Zé Dirceu, Sarney, Nader em Serra isso
Getúlio nas horas Vargas não pensava em suicídio

Difícil achar um que Prestes na nação brasileira
Cabral se banha embaixo, Dilma Cachoeira
ACMergência, ACMinência
Indica um estado de Jaderpendência

Defesa civil, Sérgio na Yamaha
Mestre em dar voltas nos prédios da Barra
Porque no Brasil, corrupção é Genoíno
No Palócio do Planalto Nagi Narra Pinheirinhos

Depois de Dantas mentiras, de tucanos e petistas
Isso calha pra Calheiros, governo e oposicionistas
Todos tão do mesmo lado, todos são da mesma firma
Eles negam até a morte e você aperta CONFIRMA





Ninguém vai ser meu juiz, pois não há discernimento
Tá na hora de alguém justo ter poder no julgamento
NO PAÍS DA SAIA JUSTA E DO DINHEIRO NA CUECA
quem faz cara de santinho na real é quem mais peca
NO PAÍS DA SAIA JUSTA E DO DINHEIRO NA CUECA
corrupção é uma fonte e parece que não seca
NO PAÍS DA SAIA JUSTA E DO DINHEIRO NA CUECA
vejo no Brasil inteiro, mas Brasília é a MECA

Na tribo do Pajéfferson o que vale é Valério
Foi pro céu só Daniel, porque incomodou o império
Nem todo Cavalcanti é humorista Severino
O povo é aéreo e o Império é Marinho.

Beira mar é uma gota, ignoramos o oceano, 
isso vem do americano e do Russomano
O país não quer um Bastos e sim um BASTA!
O que não falta é valete pra completar os canastras

Maluficou rico, esses nunca rodam
Porque em São Paulo ele e Pita bordam
Quem teme não deve, mas quem deve Temer
Demóstenes porque existe a PM

Juiz Lalau dos Santos
Bispos não vão pro xadrez
Macedo 500 anos Crivela do português
PC também faria dinheiro no Bolsonaro
Não adianta pedir Arruda quando vir o mau olhado

Da Figueira de Figueredo não Delúbio os galhos
Kubitschek cheque mate seus adversários
Médici os Quadros pelo Castelo Branco, 
pois no meio da tortura nem o Itamar é Franco

Ninguém vai ser meu juiz, pois não há discernimento
Tá na hora de alguém justo ter poder no julgamento
NO PAÍS DA SAIA JUSTA E DO DINHEIRO NA CUECA
Quem faz cara de santinho na real é quem mais peca

NO PAÍS DA SAIA JUSTA E DO DINHEIRO NA CUECA
Corrupção é uma fonte e parece que não seca
NO PAÍS DA SAIA JUSTA E DO DINHEIRO NA CUECA
Vejo no Brasil inteiro, mas Brasília é a MECA




      Desde o século XV, com a invenção da imprensa por Gutenberg, os processos de interação comunicativa aprofundaram as relações humanas e intensificaram as atividades culturais e informativas. Entretanto, a atual indústria midiática, apesar de promover as mesmas interações, fundamenta-se como forma de alienação e domínio social; outrossim, garante a permanência de realidades políticas fundadas na passividade dos indivíduos, porquanto se fazem pela normatização da sociedade.

         As linhas de comunicação são importantes tanto para a difusão cultural e científica, quanto para o desenvolvimento econômico-comercial. Contudo, o marketing da mídia não se limita à venda de produtos, mas à formulas prescritas de como se viver e agir, o que lhe confere força social e política.

      Essa relação com o poder caracterizam-nas como instituições sociais que constituem o que o filósofo Michel Foucault nomeou de “sociedade disciplinar”. Sociedade esta que interfere de modo incisivo nas ações individuais da população; ou seja, as atividades midiáticas fundamentam-se na uniformização de valores em detrimento da diversidade étnico-cultural de um povo.

     Além disso, o processo informativo relacionado a essas instituições provocam uma crise epistemológica, sobretudo no que diz respeito aos veículos de informação da internet. Não se sabe mais distinguir as notícias procedentes das sem legitimidade. Como efeito, isso abre espaço para discursos coercitivos e de dominação das camadas sociais.

     Sendo assim, faz-se necessário a conscientização popular de modo a criar uma “vigilância epistêmica”, no intuito de filtrar os dados e notícias de forma minuciosa. Fundamental também é a ação educativa na formação de cidadãos críticos, com capacidade de subsidiar pensamentos construtivos para criar uma sociedade legítima. 

Aluno: George Rodrigues do Nascimento
Professor: Diogo Didier
                                                                               

Uma amiga me conta, na volta de uma viagem a Paris com a família. “Só quando estava lá é que percebi que minha filha estava, literalmente, andando na rua pela primeira vez”. A menina tem quatro anos. Classe média. Mora em São Paulo, num condomínio fechado. Do condomínio, vai de carro para a escola privada. Da escola privada volta para casa. No fim de semana, fica dentro do seu condomínio ou vai para outros condomínios, de casas ou prédios, cercados por muros ou grades, com guaritas e porteiros. Ou vai a shoppings, onde chega pelo estacionamento, de onde sai pelo estacionamento. Desloca-se apenas de carro, bem presa na cadeirinha, protegida atrás de janelas fechadas, vidros escurecidos com insulfilm. De muro em muro, a criança passou os primeiros quatro anos de vida sem pisar na rua, a não ser por breves e arriscados instantes. E apenas quando a rua não pôde ser evitada. E apenas como percurso rápido, temeroso, entre um muro e outro.
A cidade é uma paisagem do outro lado do vidro, uma paisagem que ela espia mas não toca. O fora, o lado exterior, é uma ameaça. O outro é aquele com quem ela não pode conviver, tanto que não deve nem enxergá-la. Até mesmo contatos visuais devem ser evitados, encontros de olhares também são perigosos. Qualquer permeabilidade entre o dentro e o fora, entre a rua e o muro, seja na casa, na escola, no shopping ou no carro, ela já aprendeu a decodificar como intrusão. O outro é o intruso, aquele que, se entrar, vai tirar dela alguma coisa. Se a tocar, vai contaminá-la. Se a enxergar, vai ameaçá-la.
A rua, o espaço público, é onde ela não pode estar. E por quê? Porque lá está o outro, o diferente. E ela só pode estar segura entre seus iguais, no lado de dentro dos muros.
Minha amiga chocou-se, de repente desconhecida de si mesma. Tinha passado os primeiros quatro anos da vida da filha preocupada em descobrir qual era a casa mais protegida que poderiam comprar juntando as economias dela e do marido, a casa dentro de muros, mas com espaço de convivência, com um “playground” em que as crianças de dentro, as crianças “certas”, se encontram. Em seguida, preocupada em escolher uma escola que garantiria mais habilidades competitivas quando a menina chegasse à vida adulta e que também fosse uma escola protegida, na qual a filha ficasse segura no lado de dentro. Não tinha sequer percebido que estava criando uma criança com horror a todos aqueles que estavam do lado de fora dos muros e com pavor de pisar na rua.
Outra mãe, esta de um menino, ficou sem respostas diante de duas perguntas sequencias do filho pequeno: “Por que ela é marrom?”, o menino perguntou, referindo-se à empregada. E, logo em seguida: “Onde dormem as pessoas marrons?”, já que as “pessoas marrons” deixavam os muros ao final do dia, tanto na casa dela quanto na casa dos amiguinhos, mas ele não sabia para onde iam. Outro condomínio?
Podem parecer acontecimentos banais para alguns, afinal, os tempos são assim. Podem parecer histórias de terror, para outros, afinal, os tempos são assim. Para mim as crianças denunciam a brutalidade do país que criamos para elas, fazendo as perguntas que os adultos preferem não fazer a si mesmos. Não sabemos que pessoas serão estas que crescem entre muros e que aprendem a escanear o outro, o diferente, como ameaça.
Mais preocupados devemos ficar quando a resposta da Câmara dos Deputados à violência se encaminha para a redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos, nos crimes considerados mais graves. O que estão tentando fazer, estes que manipulam o medo? Querem garantir que esses outros, adolescentes que não tiveram educação nem saneamento nem saúde nem lazer nem acesso a nenhum de seus direitos garantidos pela Constituição, esses outros que tiveram as leis que os protegem violadas desde o nascimento, crianças dessas “pessoas marrons” que o menino não sabe para onde vão à noite nem quem cuida dos filhos delas, sejam encarcerados mais cedo porque já decretaram que, para elas, não há solução.
Para estes outros é apagada a responsabilidade do Estado de ajudá-los a construir um caminho alternativo e dar-lhes acesso a direitos que sempre lhe foram negados. Sem as perguntas que as crianças poderiam fazer a adultos que preferem anular os pontos de interrogação, os adolescentes que praticam crimes são esvaziados de história para que a sociedade seja absolvida e, portanto, desresponsabilizada. Os deputados manipulam o medo de seus eleitores para torná-los uma ameaça incontornável. Varre-se então das ruas aqueles que sujam a paisagem, para que nem mesmo seja preciso enxergá-los do outro lado dos vidros, e os colocam em instituições muradas onde o lado de dentro se assemelha a campos de concentração. Se alguém acha que excluir e punir mais e mais cedo é o caminho para um país sem muros, precisa voltar a raciocinar. Não é preciso ser vidente para saber o que a vingança provoca num indivíduo e num país quando passa a ocupar o lugar da justiça. E os que estão atrás de seus tantos muros se vingam do quê, valeria a pena perguntar?
A História já nos mostrou o que acontece quando o Estado determina que um tipo de outro encarna a ameaça e deve, portanto, ser separado e confinado. E depois, qual é o próximo passo ou qual é a solução final? Pena de morte, extermínio? Cuidado. Em algum momento aqueles que se iludem que estão seguros por trás dos muros que ergueram podem se tornar o outro a ser eliminado. Uma sociedade fundada em muros cada vez mais altos sempre vai precisar de uma ameaça no lado de fora para culpar pelo seu mal-estar, para que as engrenagens continuem funcionando, garantindo a desigualdade e enriquecendo os mesmos de sempre. Em vez de se horrorizar com a violência do sistema de educação pública, que sequestra o presente e o futuro destas crianças que têm cor, classe social e endereço, preocupam-se em desumanizá-las, apagando singularidades e trajetórias, esvaziando-as de sentidos para torná-las monstruosas. Quando conseguirem encarcerar todos os filhos de pobres que não puderam converter em mão de obra barata, talvez prendendo logo no nascimento, já que o aborto é condenado pelos mesmos que defendem a redução da maioridade penal, há de se encontrar uma nova ameaça para manter o sistema de privilégios intacto.
Uma sociedade de muros sempre vai precisar forjar monstros para seguir justificando a desumanização e o sistema não oficial de castas. Aqueles que tentam se sentir seguros e criar seus filhos em segurança não estão inseguros porque há um outro ameaçador do lado de fora. Essa é só a aparência que mantém tudo como está. O que precisamos não é erguer muros cada vez mais altos, mas derrubá-los e nos misturarmos nas ruas da cidade.
O Brasil atual é uma realidade esgarçada. Entre as mais recentes tentativas de compreendê-lo destaco uma bem interessante, proposta pelo psicanalista Christian Dunker. Está num livro que ele lançou há pouco, chamado Mal-estar, sofrimento e sintoma – uma psicopatologia do Brasil entre muros (Boitempo). Mas poderia chamar-se “Condomínio Brasil”. Dunker pensa o país a partir da lógica do condomínio, que tem em Alphaville, construído nos anos 70 nos arredores de São Paulo, sua expressão mais marcante. Vale a pena, como aponta o autor, lembrar o filme de Jean-Luc Godard de mesmo nome. Alphaville, o do cineasta francês, se passa em outro planeta, onde tudo é controlado por um computador central, o Alpha 60. Um agente secreto é enviado a Alphaville para destruir o computador e eliminar seu criador. Em Alphaville não há singularidades. Amor, poesia ou emoção estão proibidos. São vetadas as interrogações. É banido o “por quê?”. Só é permitido o modo explicativo: “porquê”.
Numa das cenas antológicas, como lembra o filósofo Vladimir Safatle na apresentação do livro, o agente é interrogado pelo computador e responde a suas perguntas com citações de Jorge Luis Borges, Blaise Pascal e Friedrich Nietzsche. A máquina, confusa, o libera. “Esta foi a maneira encontrada por Godard para mostrar o que Alphaville havia deixado de fora de suas fronteiras: a indeterminação que vem junto à palavra poética, esse pavor pascaliano diante do silêncio dos espaços infinitos”, escreve Safatle. “Ou seja, fora de Alphaville estava toda a experiência possível.”
E este Condomínio Brasil? A hipótese formulada por Christian Dunker é de que “a vida em forma de condomínio” insere o nosso mal-estar no que chama de capitalismo à brasileira. A lógica do condomínio transforma os problemas em problemas de gestão, no qual o síndico adota o papel de regulador do sofrimento – e também do gozo. Ou, nas palavras de Dunker, “aquele que deve gerir o sofrimento da vida (...) para transformá-lo em formas palpáveis de insatisfação, que ele poderá administrar”. Ou, mais adiante: “Nosso déficit de felicidade nos leva ao sentimento, mais ou menos invejoso, de que o vizinho raptou um fragmento do nosso gozo. O síndico representa tanto a lei mal formulada quanto o gozo excessivo do vizinho”. A segregação, como diz Dunker, surge do fracasso em articular a diferença e a divisão. É um livro ousado e complexo, que pensa sobre o caminho brasileiro de “despolitização do sofrimento, medicalização do mal-estar e condominialização do sintoma”. Recomendo a leitura. Aqui, me detenho apenas em algumas reflexões que o livro me provocou.
Primeiro, é preciso estabelecer as fronteiras. Os que estão do lado de dentro, com a ilusão de proteção, os que estão do lado de fora tentando entrar porque há algo lá que eles não têm. Há ainda aqueles que entram e saem em períodos determinados, pela porta lateral ou dos fundos, para desempenhar serviços e manter a ilusão da paisagem intacta (grama aparada, árvores podadas, ruas e casas limpas etc). Estes outros, tolerados porque necessários, mas uniformizados e indistintos para reforçar a única (des)identidade que importa: a da função, esta estratégica, de maquiar a realidade, limpando a sujeira para que tudo pareça imutável. Garantindo assim a manutenção do paraíso como paraíso que não decai nem se arruína. Ao final, autolimpando-se ao deixar os muros. Vale a pena repetir a pergunta perturbadora do menino do início: “Mãe, onde dormem as pessoas marrons?”.
Há que se desempenhar essa função de “limpar e manter”, mas sendo o mais invisível possível. Entrando e saindo numa cor só, para que invisível também se torne tudo aquilo que escapa ao controle. O que nos leva à próxima pergunta: afinal, o que de fato se limpa e o que é preciso manter? É possível arrancar a erva daninha que avança sobre a grama, anunciando que essa é uma guerra perdida. É possível tirar o mais rápido possível o lixo da vista, antes que ele nos lembre de que cheiramos mal e destruímos muito. Mas não é possível barrar o envelhecimento, a doença e a morte, nem a insatisfação, a ansiedade e a angústia, nem o gosto amargo na boca que só faz aumentar porque o paraíso não era bem como o prometido e a felicidade soa cada vez mais nervosa. Tampouco é possível negar a percepção crescente de que os vizinhos, os iguais, são menos cordiais, interessantes ou suportáveis do que a publicidade garantiu. O que não se consegue deixar do lado de fora é também o mal-estar que o levou para dentro. O custo de estar dentro é alto. Talvez mais alto do que a maioria perceba.
O que acontece quando aquele que está fora decide entrar? Nesta altura, imagino que boa parte dos leitores possa pensar em assalto. Não. Lembro aqui os “rolezinhos”, ocorridos entre o final de 2013 e os primeiros meses de 2014. O momento em que jovens da periferia, a maioria deles negros, decidiram marcar pela internet passeios coletivos nos shoppings e foram humilhados, reprimidos e criminalizados. Qual foi a lei que quebraram? Jovens pretos e pobres não podem frequentar shoppings em grande número? É esta a lei não escrita? O fato é que seu passeio, chamado então de “rolezinho”, foi decodificado pela clientela habitual dos shoppings e pelas forças de segurança do Estado como “assalto”. Mas, de fato, o que se “assaltava” ali, na reivindicação de ocupar o lado de dentro do condomínio que é o shopping, para se divertir com os amigos?
Em maio deste ano, chegou-se a um desfecho só possível num país regido pela lógica do condomínio: a condenação de três jovens que organizaram pelas redes sociais um passeio no shopping. Foi feita então uma “vaquinha” de solidariedade na internet para ajudá-los a pagar a multa de R$ 394 cada um. Para eles, que têm empregos informais e recebem salário mínimo, o valor pode inviabilizar o sustento. Eles não entendiam pelo que estavam sendo condenados. No sentido literal, mesmo. Não sabiam qual era o motivo da condenação alegado pelo juiz, mas assinaram porque foi dito que era o melhor para eles. A justiça aparece aqui como um condomínio em que um dos vários muros é a linguagem.
O condomínio, essa figura concreta, que tão bem conhecemos ou por estar dentro ou por estar fora, é também uma alegoria para compreender todos os outros condomínios dessa vida de muros. A hipótese sugerida por Christian Dunker nos ajuda a pensar sobre questões profundas da atual sociedade brasileira, expressada também nos casos mais recentes de violência, como o já mencionado esforço de um grupo de deputados para aprovar a redução da maioridade penal e encarcerar adolescentes mais cedo atrás de outros muros. Ou o apedrejamento da menina de 11 anos vestida com as roupas da sua religião, o candomblé, por dois homens que gritavam: “Sai demônio! Vão queimar no inferno, macumbeiros!”. A violência resultou num ferimento na cabeça, um desmaio e a perda momentânea da memória da criança, sem contar as sequelas psicológicas.
Entre os casos recentes de violência, podemos pensar ainda na indignação de religiosos contra a artista transexual que encenou a crucificação de Cristo na parada LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) para denunciar a crucificação cotidiana vivida por todos eles. Ao se indignarem com uma transexual no lugar de Cristo, os religiosos defenderam seus muros, na crença de que o símbolo e o sofrimento são privatizáveis e privatizados e, assim convertidos, pertencem ao seu condomínio. Sem contar a mulher que, enquanto era confundida com a “mãe” da criança, pôde permanecer no Clube Pinheiros, em São Paulo, sem ser perturbada. Ao ser descoberta como “babá” da criança passou a ter problemas para entrar e exigiram-lhe que usasse uniforme branco, para que não fosse confundida nem frequentasse espaços reservados apenas para sócios. Os lugares e as fronteiras não podem ser borrados para que os privilégios atrás dos muros se mantenham cimentados.
São condomínios murados que proliferam no Brasil, com cercas cada vez mais violentamente defendidas, porque já não basta deixar o outro do lado de fora, é preciso agora eliminá-lo. É também de condomínios e de muros que se trata quando, nas redes sociais da internet, torna-se impossível escutar o argumento do outro, porque o lado de cá, seja ele qual for, tem o privilégio das certezas ou do bem e da justiça e da crítica. E também ali o outro tem de ficar do lado de fora, porque já rotulado como ameaça ou desqualificado como direita ou esquerda, dependendo de que lado se está, não teria nada a dizer que possa ser escutado. Então já não se escuta e nem se reconhece a sua voz. Neste sentido, se nem todos moram em Alphaville, é bom olhar bem para dentro, porque pode ter uma Alphaville morando onde menos se espera, com muros disfarçados de argumentos.
Também muitos dos que se anunciam como derrubadores de muros (e defensores da diversidade de gente e de ideias) parecem, na prática, apenas fortalecer as defesas de suas cercas. Vão até onde os muros podem ser derrubados sem afetar seus privilégios, que às vezes são apenas a ilusão tão cara e afagada de estarem sempre certos e do lado certo. Mas há sempre o último muro, aquele que nos obriga a nos movermos, aquele que toca no privilégio maior, “o de não precisar pensar nos nossos privilégios”, e este precisa ser mantido a qualquer custo.
O muro mais bem guardado, afinal, é o de nossa Alphaville interna. A que nos mantém limpinhos, ao lado das boas causas, mas sem perder nada que nos é caro. “Peraí, perder também não!” Pronto. Chama o pedreiro para construir mais dois metros de muro para deixar de fora quem nos lembra do incômodo de que, para deixar o outro entrar, vai ser preciso perder alguma coisa.
São muitas as armadilhas muradas em um país tão barbaramente desigual. Volta e meia os mais atentos percebem seu pé preso em alguma arapuca, justamente quando acreditavam rumar para a liberdade e para um mundo mais justo. Agora mesmo os condomínios fechados do tipo Alphaville são vistos por muitos como algo da ordem do ridículo. Mas também estes parecem renovar sua busca pelo paraíso perdido (e jamais achado). A moda no Brasil, há algum tempo, é comprar pedaços de terra com mata nativa e fontes de água em algum lugar, como nas regiões serranas ainda disponíveis do Sul e do Sudeste ou mesmo em pedaços “paradisíacos” da Amazônia.
Seria este anseio uma atualização do ideal de uma vida sem mal-estar, cercados por outro tipo de iguais, talvez ainda mais iguais do que os outros? Vizinhos ecologicamente conscientes, equilibrados por meditação, yoga e a prática saudável de esportes, que se locomovem em bicicletas e consomem orgânicos, com espaços e propriedades privadas bem definidas. É altamente sedutor para quem pode escolher seus muros, mas não seria esta uma renovação do condomínio, tanto de suas ilusões como de seu caráter de exclusão? Para quem é deixada a luta pelo espaço público para todos, em cidades cimentadas onde falta tanto água quanto árvores quanto o reconhecimento da humanidade do outro?
“Cidades Rebeldes” é o nome de um seminário promovido pela editora Boitempo e pelo SESC, na segunda semana de junho, que reuniu alguns pensadores da maior relevância sobre o tema, tanto brasileiros, como o próprio Christian Dunker, autor do livro citado anteriormente, quanto estrangeiros como o geógrafo marxista David Harvey. Era também um encontro das esquerdas nesse momento tão desafiador, em que as ruas do país foram tomadas por gritos de direita. Mas houve uma rebelião no debate que debatia a rebelião. O Movimento Independente Mães de Maio divulgou um manifesto cortante com o seguinte título: “A rebelião não será gourmetizada”. (Leia aqui. E sugiro ler também os comentários, para compreender o quadro maior).
O “Mães de Maio” tem na origem um grupo de mulheres, a maioria negras, pobres e periféricas, que perderam seus filhos assassinados, suspeita-se que muitos deles executados pela polícia, nas ruas do estado de São Paulo em maio de 2006. O grupo faz a denúncia cotidiana da violência praticada pelo Estado contra os mais pobres. Costuma chamar Geraldo Alckmin de “governador genocida” e denuncia o que chama de “terrorismo de Estado”. Também empresta o nome à Comissão da Verdade que investiga os crimes cometidos pelo Estado no período democrático. Neste seminário, o movimento foi convidado de última hora para substituir um convidado de primeira hora que precisou cancelar sua participação. Mas recusou o convite. No manifesto explica o porquê.
Entre as justificativas, o Mães de Maio denuncia uma ausência considerada por muitos uma obscenidade: a falta do Movimento Passe Livre (MPL), que provocou as manifestações de 2013 no país, na grade dos debatedores. Também negou a legitimidade de convidados como Luiz Inácio Lula da Silva, que cancelou sua participação antes do início do seminário, e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Este último é considerado um repressor dos protestos de 2013, contra o aumento da tarifa do transporte público, o que tornaria sua presença num seminário sobre cidades rebeldes uma ofensa. Não me recordo de nenhum outro manifesto recente de movimentos sociais tão contundente em sua crítica ao PT, definido como o “agonizante Partido dos Trabalhadores”, e a Lula, chamado a certa altura de “este sujeito”.
Há muitas interpretações possíveis para a rebelião contra o seminário sobre a rebelião. Também há muitas versões. Todas elas fascinantes e muito mais fundamentais para compreender o atual momento do que pode parecer à primeira vista. Como estamos murados, porém, muitos dos sentidos possíveis foram apagados por polarizações (sempre elas). Alguns desqualificaram o debate já antes do manifesto, por ter nele figuras do PT. Logo, nada ali, nem todos os outros, inclusive críticos do PT, poderiam ser escutados. Outros desqualificaram o Movimento Independente Mães de Maio. Outros ainda magoaram-se porque suas melhores intenções não foram compreendidas e se viram num lugar muito incômodo, já que temos a tendência de acreditar que somos só bacanas e estamos a salvo.
Com esse gesto, o Mães de Maio dificultou a recolocação do PT no contexto das ruas e das rebeliões e também na identificação como “esquerda”, o que é muito forte. Dificultou a recolocação do PT não só como protagonista, mas também como participante do movimento mais amplo das cidades rebeldes. Mostrou também que hoje não basta incluir no debate um ou dois representantes das periferias e dos movimentos sociais, o que até pouco tempo teria sido suficiente e garantiria um ambiente controlado. O que o Mães de Maio disse talvez de mais importante é que, no Brasil atual, para ter legitimidade não é suficiente falar sobre, é preciso falar com. Para isso também é necessário que todos – todos mesmo – compreendam que “com” significa “com” – e não “só nós”. Do contrário a lógica dos muros permanece a mesma, ainda que se mude os personagens de lugar. Hoje, é urgente estar de fato com o outro e se arriscar ao que isso significa. Arriscar-se, portanto, à rebelião.
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Dito isso, escolho terminar caminhando com Tim Tim. Neste vídeo viral, a grande transgressão do pequeno rebelde é andar na rua e arriscar-se a encontros. Quanto tudo parece quase intransponível, quando me vejo cercada de muros que me encurralam, os de fora, mas também os de dentro, eu lembro do passo de Tim Tim. E encontro esperança nessa geração que está sendo educada no resgate do espaço público para todos, arriscando-se às diferenças para combater a desigualdade. Arriscando-se à experiência. Às vezes a vida pede a delicadeza de descobrir a rebelião também nos passos vacilantes, mas muito entusiasmados, de um guri com um redemoinho na cabeça.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua,A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:@brumelianebrum

Transar depois do casamento pode. Perder a virgindade antes disso não pode. Masturbação na adolescência pode. Mas se você for menina não pode. Sentir atração sexual por alguém pode. Manifestar esse desejo em público nem pensar. Levar camisinha na bolsa pode. Só não é permitido deixar ela amostra por aí. Sexo só pode com o gênero oposto, pois o inverso é pecado. Assistir a filmes pornôs pode. Mas ficar animado com cena de sexo no cinema está fora de cogitação. Assumir o gosto pelo sexo pode, porém, colocar isso em prática com várias pessoas é ser assumidamente desavergonhado. Diante de tantos pode e não pode, não é de se surpreender que ainda hoje aja tantos tabus em torno do sexo. A mesma sociedade que busca regozijar-se entre quatro paredes é a mesma que cria os próprios limites em torno do prazer. Com isso, gerações vão perpetuando a ideia de que o sexo deve ser limitado, privado a atmosfera matrimonial. Porém, tudo isso poderia ser diferente se, entre tantas proibições, houvesse a legalização do orgasmo, pois muitos problemas ligados ao sexo seriam previamente solucionados.

Parece irreal, mas muitos dilemas da sexualidade humana estão relacionados ao gozo alheio. Seguindo uma ordem cronológica, é perceptível que isso tenha início já na infância. Numa sociedade onde as crianças são divididas por cores, como representação dos seus gêneros, o resultado é a herança de padrões sexuais limitados. Azul e rosa representam bem mais do que a distinção de gênero neste sentido. Elas representam a sinalização que deverá ser seguida por quem as representa. Ele, o azul, terá cartão livre para se conhecer, tocar e experienciar tudo o que quiser sobre sexo. Já ela, a rosa, não terá a mesma chance. Sua sexualidade será regrada pela delicadeza desta cor. Seu orgasmo será contido, regulado por uma cadeia de sistema que definirá com quem ele poderá ou não transar. Em contraponto a isso, muitos adultos, atraídos pela pureza pueril, aproveitam para erotizar precocemente essas crianças. Ou seja, mesmo sem ter nenhuma noção de orgasmo, muitas delas são comercializadas por aqueles, que vindos de um contexto semelhante, canalizam suas frustrações para quem não tem noção alguma de sexo e sexualidade.

Na adolescência não é muito diferente. Nesta fase da vida, quando os hormônios estão em efervescência, jovens começam a se descobrir sexualmente. Vem aquela vontade instintiva de conhecer o próprio corpo, tocá-lo, sentir as possibilidades que ele oferece. Aliado a isso, vem a menstruação, a barba, os seios, a polução noturna. Entretanto, neste mar de descobertas, a sociedade dá o primeiro de muitos cartões vermelhos ao orgasmo, a partir do momento que segrega o prazer dos meninos e das meninas. Eles são ensinados a serem predadores, insensíveis e cruéis, buscando de forma egoísta o própria gozo independente do alheio. Já elas reprimidas, descobrem o orgasmo de forma errada, são geralmente usadas e se tornam objetos sexuais. Por essa razão, muitos contraem doenças sexualmente transmissíveis, se tornam pais antes do tempo, ou abortam irresponsavelmente, pois não foram devidamente educados a gozar. Ou seja, mais uma vez a falta de orientação sobre orgasmo, prazer em si, fizeram com que mais problemas derivados do sexo surgissem.

 Chega a fase adulta, e acredita-se que agora as pessoas serão mais livres para realizar suas fantasias sexuais. Todavia, ocorre o contrário nessa fase da vida. Sem muito diálogo, muitos se frustram logo nas primeiras relações, buscando nos braços alheios a satisfação desejada. Para estes surgem logo os rótulos de infiéis e imorais, apenas porque resolveram realizar suas fantasias nos braços de quem realmente tinha competência para fazê-lo. Porém, aqueles que resolvem aventurar-se ao se relacionar com alguém, precisam de muita liberdade, e certa dose de coragem, para dividir na relação os desejos mais lascivos que estão guardados. Dos dois modos, as pessoas que buscam o orgasmo a todo custo são crucificadas. Se o indivíduo não se contenta apenas com uma só companhia é chamado apontado pela sociedade, se é reprimido dentro desta relação, idem.

Depois de uma longa jornada de privações em torno do sexo, eis que surge a velhice, fase da qual nada mais preocupe, a não ser a saúde. Agora, os indivíduos que foram reprimidos a vida toda a respeito do sexo, podem se manifestar livremente nesse sentido. Ledo engano. É nesse período que a sociedade amplia os tabus em torno do sexo, ratificando aquela máxima de que ele tem prazo de validade e, por isso, deve ser realizado até certo período da vida. Ora, disso tudo é possível encontrar várias incoerências. A primeira, se a velhice é limitada nesse sentido, porque os remédios contra a impotência sexual, conhecidos como azuzinhos, continuam sendo vendidos e elaborados? Segunda, baseado nos estudos científicos, o ser humano, em especial os homens, foi projetado para fazer sexo a vida toda. Então, porque determinar o fim de suas atividades, quando o corpo tem plenas condições de realizar o ato?

As respostas se resumem a palavra tabu. É ele que limita as ações humanas, baseado geralmente em preceitos anacrônicos de certo e errado. Também não há uma naturalização em torno do sexo. O que há é ora uma banalização em torno dele, ora uma proibição, causando inúmeras incoerências e problemáticas sociais. Muitos dilemas nesse sentido, ligados ao prazer humano, poderiam ser solucionados apenas com o maior entendimento do que é o desejo, o sexo e o orgasmo em si. Não apenas uma descrição biológica, mas todo um tratado cultural e sociológico das satisfações sexuais da humanidade. Atrelado a isso, as mesmas bases legais, que são capazes de criar leis contrárias ao sexo e a sexualidade em si, deveriam ser as primeiras a legalizar o orgasmo no Brasil. Aquele realizado sem neura nem bloqueios, apenas o sexo como tem que ser, natural, animal em sua essência. Talvez assim, muitos debates enfadonhos sobre esse ou aqueles assuntos cairiam por terra. Talvez...