17 novembro 2016



Por Raquel Brito
Há vínculos que nos debilitam de maneira sistemática. São as amizades possessivas e tóxicas, uma relação que compartilhamos com pessoas absorvedoras e que acaba convertendo um sentimento genuíno e valioso em uma fonte do terror.
As pessoas absorvedoras nos esgotam, nos debilitam e sugam a nossa energia de maneira frequente, não deixando espaço para os interesses e as necessidades que cada pessoa tem de forma individual.
Provavelmente quando recriminamos as exigências dessas pessoas elas dizem que fazem isso para o nosso bem, o que nos faz questionar se a nossa atitude é a mais adequada, manipulando o nosso sentimento de culpa para ir ao encontro da sua vontade.
É possível que estas pessoas não nos queiram fazer mal de forma consciente, além disso, também é provável que nós mesmos, em algum momento, nos tenhamos convertido em absorvedores e tóxicos.
A atitude egoísta dessas pessoas pode ser explicada por um estado emocional negativo crônico e uma falta de autoestima que procuram suprir da única maneira que sabem: tornando suas as pessoas que as rodeiam.
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Como identificar os “predadores emocionais”

A coação da nossa liberdade emocional e relacional funciona como a predação. Os potenciais “predadores” emocionais procuram as pessoas mais apetitosas, que é o mesmo que dizer aquelas pessoas que possuem as características que todos desejam: amabilidade, carisma, força de vontade, etc.
Como já sabemos, quem a boa árvore se encosta, boa sombra o acolhe. Por isso, estas amizades possessivas e tóxicas aproximam-se da boa essência dos seus amigos, maquiando as suas ações com a bandeira da amizade verdadeira.
Mas a verdadeira amizade não é aquela que nos impede de crescer, mas sim aquela que alimenta o equilíbrio e o bem-estar de todos os membros da dualidade. Dessa forma, podemos saber que uma boa relação NÃO é:
  • Abusar emocionalmente dos outros.
  • Manipular os outros para alcançar os interesses individuais.
  • Aproveitar-se da confiança inerente aos laços que nos unem às pessoas para deixá-las sem alento emocional.
  • Ter gestos de bondade esporádicos que tentam reparar a infelicidade provocada.
  • Criticar de forma impetuosa as questões que fazem mais dano.
  • Retirar o apoio quando convém.
  • Promover a dependência emocional.
  • Recordar os erros do passado e usar a chantagem como ferramenta.
  • Não assumir a responsabilidade dos nossos atos.
  • Humilhar e menosprezar de maneira sutil sem que as pessoas em comum com a vítima entendam como tal.
  • Sentir ciúmes da pessoa dar-se bem com os outros.
  • Minguar o potencial de desenvolvimento dos outros.
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Há vampiros de todas as idades e condições. Habitualmente são pessoas próximas de nós que usam o seu poder e a sua astúcia para satisfazer a necessidade de ação manipuladora, meio pelo qual obtêm a alimentação socioafetiva que tanto procuram nas amizades possessivas.
Quanto mais mascaradas estão, mais perigosas são. Pode ser que sejam amizades de longos anos e que a intensidade das experiências vividas nos impeça de ver a árvore doente dentro de um frondoso bosque.
Sua habilidade para argumentar uma visão de mártires procura conseguir que os outros se convertam em propagadores das virtudes do próximo.
Dessa forma, essas pessoas cedem nas discussões e disputas apenas quando sabem que podem alcançar um benefício maior. Manipulam habilmente o “você é pior”e o “lembra quando… agora é a sua vez”. Esse “é a sua vez” é apenas uma concessão ainda maior que a anterior.
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Elas têm dificuldade para aceitar uma confrontação direta, por isso fogem quando algo as incomoda e não se encaixa com os interesses do seu ego, procurando usar isso em outra situação mais apropriada às suas necessidades.
Além disso, elas costumam vestir as suas reações com uma emocionalidade dramática, algo que acaba por prendê-las entre as grades da compulsão, o que provoca um repetição dos seus estratagemas absorvedores.
Mas as amizades bonitas e saudáveis são o contrário absoluto disto. São as que dão asas para voar e motivos para ficar, são as que propagam a sensibilidade e a emocionalidade de maneira equilibrada e genuína.
Lembre-se de que a sua capacidade de identificar este tipo de pessoas depende de não prenderem você e os outros ao seu redor.  Fuja das adagas disfarçadas das amizades possessivas e procure sempre o equilíbrio, porque garanto que disso você não vai se arrepender. Distancie-se de que o afasta de você mesmo.
TEXTO ORIGINAL DE A MENTE É MARAVILHOSA

Por Rodrigo Borges
Eu não discuto mais pela internet. No começo dessa conexão virtual constante à qual estamos submetidos, enxerguei as mídias sociais também como a oportunidade de debater assuntos sérios e compartilhar pontos de vista distintos para, quem sabe, evoluir em conjunto com a rapaziada da web. Entretanto, a coisa ficou feia.
De alguma forma, discutir entre amigos (ou pior, entre desconhecidos) à frente de uma tela transforma as pessoas. O cara pode ser a pessoa mais afável e inofensiva pessoalmente, mas se porta como um dos cavaleiros do apocalipse ao digitar respostas a um post. Por isso, eu parei. Não é da minha natureza agredir outras pessoas e eu fico me policiando para evitar que isso aconteça. Nem sempre consigo, mas acho que tenho um bom aproveitamento. De qualquer forma, sigo existindo na internet com meus perfis, porque obtenho diversos benefícios, desde informação atualizada sobre o mundo a amenidades divertidas de amigos.
E também posto mensagens na expectativa de me conectar com o mundo. Entretanto, vez ou outra, compartilho algo que pode ser considerado polêmico, controverso ou ofensivo por alguém. E, nesses momentos, há quem manifeste sua discordância. Em princípio, isso seria muito legal: a conexão entre duas pessoas que pensam de forma diferente e podem aprender com pontos de vista opostos e, quem sabe até (sei que estou sendo otimista demais) chegar a um consenso. Mas a realidade é mais dura que isso.
Minha primeira reação é refletir e antecipar a confusão que será se eu responder a mensagem de forma a dar margem para aumentar a distância que já se estabeleceu entre mim e o comentarista. Passado o sentimento, escrevo algo tentando compreender o outro lado, mas, obviamente, explicando meu ponto de vista. Infelizmente, muitas vezes isso não é o bastante e a próxima mensagem que recebo praticamente desconsidera o que escrevi. Este é o sinal, senhoras e senhores: é preciso abortar a missão. Caso seu interlocutor seja um amigo, sugiro manter a amizade. Caso seja um desconhecido, sugiro manter a sanidade.
É hora da curtida escarlate, a #curtidadapaz. A estratégia é simples: curta o último comentário do cavaleiro apocalíptico. Não importa o absurdo que foi dito. Sim, é preciso calma, mas é para isso que estamos aqui. Respire fundo e clique naquele joinha ou coração vermelho sem medo de ser feliz. Ele equivale a um “beleza, deixa eu ir fazer uma negócio ali”. Quase que por um passe de mágica, o vortex da insanidade no qual você havia se metido sumirá do espaço-tempo, deixando apenas registros da batalha de egos, que desaparecerá da sua timeline em seguida aos próximos posts que você publicar.
É bem possível que seu ego lhe pergunte se, ao curtir o post do coleguinha, isso quer dizer que você perdeu o debate. Pessoas de personalidade forte ou inseguras terão bastante dificuldade com isso. Mas, se você não consegue deixar um debate de mídias sociais insano de lado para fazer algo certamente mais valioso, talvez seja hora de reavaliar alguns conceitos.
É claro que a técnica não é infalível e há pessoas carentes ou com tempo livre suficiente para resistir à curtida escarlate. Mas vale tentar. <3 p="">
TEXTO ORIGINAL DE BRASILPOST

A história é sempre a mesma: mulher é estuprada/violentada, sua imagem é divulgada na rede e, ao invés de ser tratada como vítima, ela é culpabilizada pela atrocidade que sofreu. Esse é o nosso Brasil onde o machismo culpabiliza quem é violada e inocenta o agressor. No caso os agressores, já que não basta ser brutalizada por um, agora a ideia é coletivizar a estupro. Essa conduta animalesca ocorreu há pouco tempo e destroçou a vida de uma moça usada barbaramente como objeto sexual por mais de trinta homens. Esse fato injustificável e indiscutivelmente desmedido não ocorreu no oriente médio, nem em nenhuma tribo africana, mas no nosso país, onde as minorias são agredidas, negligenciadas e silenciadas pela própria herança patriarcal que social/midiática/religiosa e politicamente contribui para esse tipo de crime.
O mais abjeto de tudo isso é que quando se pensa em estupro, a comoção se dá apenas quando a vítima é brutalizada, sexualmente falando, seja por um ou por vários indivíduos. A sociedade não entende que muito antes de consumar o ato, é a cultura do estupro que sedimenta estas práticas. Em outras palavras, todos os dias as mulheres são estupradas por multidões nas ruas através de assovios, cantadas, puxões de cabelo, roçadas e encoxadas em ônibus/metrôs. Muitas são abusadas no trabalho, na escola, dentro de espaços religiosos. Outras tantas não encontram respeito nem mesmo em casa, pois muitas vezes são estupradas por companheiros, pais, primos, entre outros familiares e parentes. Isso significa dizer que muitas estão nesse exato momento sendo estupradas por multidões de ignorantes, dos quais se acham no direito de invadir o corpo alheio por acreditarem que tenham direito de fazer isso.
Tal pensamento é fruto, ainda, do nosso clichê e velho machismo, enraizado numa cultura da qual o homem é o epicentro das relações sociais e, sobretudo, sexuais. A começar pela educação subserviente ensinada as mulheres até hoje por N religiões, as quais reduziram o ser feminino ao lar e aos afazeres deste. A mídia ainda tenta ratificar esse modelo trazendo à tona, debochadamente, a ideia de que a mulher perfeita é aquela "bela, recatada e do lar", como se esse reducionismo impedisse os assédios, moral e físico, sofridos por quem escolheu ser mais comedida, diferente daquelas vistas como mais "transgressoras". Se comportamento, vestimenta e religião fossem escudos bons o bastante para impedir a abrupta violação sexual, as mulheres que usam burcas no oriente médio não seriam as maiores vítimas nesse sentido. Por que a sociedade, então, não vê o estupro muito além da penetração em si e, por essa razão, não menos bárbaro?
A questão é muito mais complexa. Vivemos num país que naturalizou a ideia de que a mulher é propriedade do outro, então sua conduta é avaliada desde sempre pelo o que ela veste, fala, pensa, deseja, etc, etc. Ou seja, ela não pode fugir do crivo masculino sempre disposto a tacha-la de puta, caso subverta o que está estabelecido. Esse encurralamento ganha terreno fértil na mídia, responsável por sexualizar ainda mais esse grupo: "vai verão, vem verão!". A igreja por acreditar que o corpo feminino é apenas uma máquina de reproduzir crianças, mas que ignora a forma como elas são concebidas, sobretudo no raso debate acerca do aborto. Esta mesma igreja, que culpabiliza a vítima e faz vista grossa para o agressor, estuprou bem mais do que 30 mulheres ao longo da história. Tudo isso regido por uma política controversa, a qual até legitima esse tema: "só não estupro porque você não merece", palavras do próprio Bolsonaro e que retratam bem a nossa sociedade sexista.
Machismo este que viraliza na rede com frases do tipo: "por que ela estava nesse local a essa hora?", "com que roupa ela estava?", "ela deve ter bebido de mais!", menções estas que suplantam o crime em detrimento de justificativas vãs para o ato. O crime nesse contexto é ser mulher e não ter o corpo dilacerado por 30 homens querendo saciar suas vontades bestiais. Não é a toa que são sexualizadas desde cedo, a exemplo da Mc Mellody, pois o quanto antes estiverem no "ponto" de serem estupradas, melhor. Incoerentemente, a mesma sociedade que se deleita com a onda musical das novinhas é a mesma que se esquiva da responsabilidade quando uma delas é estuprada por um coletivo. Ou seja, elas são corporificadas em peitos e bundas , tornam-se objetos de consumo, dançam, requebram até o chão, mas quando são violadas devem carregar a culpa sozinha, porque "pediram" para isso acontecer. Ou pior, há homens, e muitas mulheres também, que acham/defendem a ideia do estupro, por mais absurdo que pareça.
De fato, há quem se ache no direito de estuprar mulheres, já que não há políticas efetivas para combater esse tipo de crime. Falta também a presença massiva desse gênero dentro do espaço político para que aja uma maior representação para esse grupo. Sem isso, delegacias não são orientadas a tratar das demandas femininas. Hospitais com alas específicas para estupros, coletivos ou não, são poucos, como também faltam profissionais para lidar com as feridas físicas e emocionais das vítimas. O problema se agrava, ainda, porque não há uma educação sexual libertadora, de casa para a escola e vice-versa, que reposicione o papel da mulher dentro da sociedade desde a tenra idade. Os papeis de gênero são cada vez mais estanques, mesmo com todos os avanços tecnológicos responsáveis por levar a informação até nós na palma das mãos através da telefonia móvel. Sem conhecer, nem fazer nenhum esforço para isso, temas como sexo, gênero, identidade, sexualidade, orientação, são alimentados por achismos, que por si só são limitados, e acabam sendo propagados como verdades na rede, onde a propagação de chorume travestido de opinião se tornou banal. Vide Ana Paula Valadão.

Todo esse panorama é responsável pelo estupro daquela garota e de tantas outras Brasil afora. Infelizmente, é apenas a ponta de um profundo iceberg ligado a velhas tradições patriarcais que insistem em ressurgir para nos mostrar o quanto nós estamos aquém dos direitos das mulheres. Nessas horas, é preciso compreender a essência do feminismo, suas demandas e lutas. Sem um empoderamento, de fato, outras atrocidades dessa natureza voltarão a público, e o pior, passarão a ser naturalizadas. Para que isso não aconteça, não basta se chocar com a quantidade de homens que assediam ou estupram mulheres. Não importa se é um ou um milhão. A quantidade aqui é meramente ilustrativa. O mais importante é insurgir-se contra isso; é culpar os reais responsáveis; é dar o apoio necessário as vítimas; é denunciar o agressor; é não se calar diante das violências diárias; é legitimar o feminismo; é buscar uma política mais inclusiva; é incluir as minorias na política; é lutar por maior representatividade; e, principalmente, ressignificar a nossa educação. Sem isso, 30 ou mais homens continuarão a estuprar outras tantas mulheres e milhões de brasileiros ignorantes continuarão a fazer o que sempre fazem nessas horas: culpar a pessoa errada.

Por Isabela Moreira
Era para ser mais um dia de passeio na praia com a família. Kelli percebeu que dois rapazes olhavam para o seu corpo e ficou incomodada, mas não se sentiu em condições de protestar. Ela então saiu da orla para acompanhar a tia nas compras e, quando as duas entraram na fila do caixa, deram de cara com os dois sujeitos da praia. Um deles estava com uma câmera. “Não era pra eu perceber que ele estava tirando fotos, mas eu notei”, lembra. “Comecei a me perguntar por que caras de 20 e poucos anos estavam tirando fotos de mim. Percebi que tinha algo errado ali.” Kelli tinha 11 anos.
Os assédios não pararam por ali. Entre os 13 e os 14, ela ouviu muitas cantadas e comentários de cunho sexual pela rua. “Comecei a usar bermudão, camisa masculina e o cabelo preso. Só andava com homens porque entre eles conseguia me camuflar”, conta. Hoje com 18 anos, diz que episódios como o da praia ainda são comuns.
Nos últimos meses, as histórias de uma aspirante a miss de 13 anos, de uma cozinheira de 12 e de uma funkeira de 9 trouxeram à tona as diversas formas pelas quais crianças são hipersexualizadas e causaram a ira de coletivos feministas, que debatem os problemas que esse comportamento traz para o desenvolvimento dessas meninas.
Um levantamento do site Pornhub mostra que “teen” (adolescente, em inglês) é um dos termos mais procurados do em pornografia na internet. Fora das telas versões menores das roupas de adultas são fabricadas para meninas pequenas que, antes mesmo de desenvolverem sua identidade, entendem que só têm valor se corresponderem a padrões de beleza e sensualidade. Como consequência, a autoestima delas diminui, ao passo que o número de assédios — o primeiro ocorre, em média, aos 9,7 anos, segundo o coletivo Think Olga — e de abusos sexuais.
Por muito tempo, a erotização de crianças foi vista como normal. Cercado de câmeras no Big Brother Basil 16, o participante Laércio de Moura, 53, não se constrangeu em dizer que preferia se relacionar com meninas mais jovens, “na faixa dos 17, 18 e 20 anos”. Nas redes sociais, ele também já tinha dito que era “efebófilo”, alguém que sente atração sexual por adolescentes. Fora da casa, porém, a repercussão da fala levou a uma investigação e, em maio, ele foi preso acusado de estupro de vulnerável.
Mas o episódio é exceção no país. Foi só recentemente que o assunto começou a ser pesquisado e problematizado. E um dos primeiros casos a chamar a atenção foi o de um concurso de beleza infantojuvenil que gerou revolta na internet.
Há 30 anos o Clube Esportivo da Penha, de São Paulo, realiza o concurso Garota Verão para premiar as sócias com idades entre 13 e 17 anos consideradas as mais bonitas do clube. A cerimônia acontece em meados de fevereiro. De bíquini, com os cabelos arrumados e rostos maquiados, as participantes desfilam por um tapete vermelho em frente a uma bancada de jurados e centenas de sócios.
No início deste ano, fotos das participantes na borda da piscina foram publicadas na página do Facebook do clube. Uma das imagens exibe uma candidata de 13 anos. “Loiríssima, olhos lindos, chegou para apimentar um pouco mais o concurso”, diz a descrição da foto. Em questão de horas, a publicação estava cheia de comentários acusando o clube de sexualizar a menina. “Gente, mas são 13 anos! Apimentar? Ela não tem idade para apimentar nada!”, escreveu um usuário.
Procurada pela reportagem, a diretoria do clube afirmou que a descrição “pode ter sido mal colocada, mas foi uma brincadeira interna”. Depois do ocorrido, a postagem em questão, bem como todas as fotos das participantes, foi deletada da página do clube no Facebook. Mas internautas já haviam registrado imagens do post e repassado pela internet, questionando a necessidade de haver um concurso desse tipo para meninas de 13 a 17 anos. O evento acontece há três décadas, mas a edição deste ano foi a primeira em que se atentou para as questões da idade e da sexualização precoce das participantes. Boa parcela desse movimento tem relação direta com a campanha #primeiroassédio, do coletivo Think Olga, que reuniu nas redes sociais milhares de histórias de mulheres que foram assediadas quando crianças. Mas parte da explicação também passa pela nossa relação com a infância, que já não é a mesma de alguns anos atrás.
Coisa de criança
Em História Social da Criança da Família, o historiador francês Philippe Ariès explica que, na Idade Média, não existia o conceito da infância: as crianças eram vistas como pequenos adultos. Para o pesquisador, a noção de infância surge na Idade Moderna, quando meninos e meninas começam a ser insderidos no espaço da família. Mas é só a partir do século 20 que a sociedade passa a se preocupar de fato com o bem-estar e os direitos da criança. No Brasil, por exemplo, o conjunto de normas que têm como objetivo garantir esses direitos, o Estatuto da Criança e do Adolescente, só foi criado em 1990.
A forma como elementos culturais influenciam essa construção não passou despercebida para os pesquisadores. Para a especialista em representação da mulher na mídia Meenakshi Gigi Durham, da Universidade de Iowa (EUA), a publicação do livro Lolita, de Vladimir Nabokov, em 1955, criou no imaginário cultural a imagem da menina precoce e sedutora — uma ideia que permanece no inconsciente coletivo até hoje.
No romance, Nabokov conta a história do professor Humbert Humbert, que desenvolve relações sexuais com sua enteada, Dolores, de 12 anos, por quem é obcecado. Na perspectiva do protagonista, a garota — conhecida pelos familiares como Lo e pelo padrasto como Lolita — é uma ninfeta. “Entre os 9 e 14 anos de idade, ocorrem donzelas que, a certos viajantes enfeitiçados, duas ou muitas vezes mais velhos do que elas, revelam sua verdadeira natureza que não é humana, mas nínfica (isto é, demoníaca); e essas criaturas predestinadas proponho designar como ‘ninfetas’”, explica o professor no livro. No dicionário, é definida como ninfeta uma “menina jovem ou adolescente cujo comportamento ou pensamento estão direcionados para o sexo; menina que incita o desejo sexual”.
Mas essa é a visão que Humbert, um homem com o triplo de idade da enteada, tem da garota. “O crime de Humbert é o de forçá-la a agir contra a sua natureza — forçar uma criança a saltar através dos arcos da feminilidade adulta, insultando e degradando sua essência infantil”, afirma o escrito britânico Martin Amis no posfácio de Lolita (Editora Alfaguara, 2011).
“Ela é vista pelos olhos do predador como uma sedutora disposta a participar de atos sexuais, que é como predadores sempre veem as vítimas infantis. E claro, é um mito sobre o qual eles sonham a ponto de usá-lo para justificar suas ações”, explica Durham. Autora do livro The Lolita Effect: The Media Sexualization of Young Girls and What We Can Do About It (Efeito Lolita: A Sexualização de Jovens Garotas e o que Podemos Fazer Sobre Isso, em tradução livre), a pesquisadora afirma que é um equívoco enorme acusar as meninas de apresentar um comportamento visto como sensual. “Existe muita conversa sobre garotas que usam roupas sensuais e se engajam em atividades sexuais desde muito novas, e o discurso tende a culpar as meninas por tudo isso”, ressalta Durham. “Mas elas simplesmente estão reagindo a um marketing e a uma mídia agressivos que empurram na direção delas mitos de sexualização em vez de ajudá-las a entender seus próprios corpos em desenvolvimento de maneira apropriada e correta.”
Parece gente grande
Em abril de 2015, o Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito para investigar o teor de músicas e coreografias de funkeiros mirins. “São crianças e adolescentes cantando e desempenhando coreografias inadequadas para suas faixas etárias, em especial pelo forte conteúdo erótico e de apelo sexual”, disse o promotor Eduardo Dias de Souza Ferreira na época.
Uma das crianças investigadas foi Gabriela Abreu, mais conhecida como MC Melody, então com 8 anos de idade. A funkeira mirim começou a ganhar atenção na internet após a viralização de um vídeo em ela aparece fazendo a coreografia altamente erotizada da música “Quadradinho de Oito”, do grupo Bonde das Maravilhas. Naquele mesmo ano, o MP fez com que MC Belinho, pai e empresário da menina, assinasse um termo de ajustamento de conduta, compromentendo-se a cumprir uma série de medidas para garantir o bem-estar da filha, entre elas a retirada de expressões de conotação pornográfica de suas músicas e a garantia de que ela usaria roupas adequadas para sua idade. Uma das maiores acusações na época do processo era a de que MC Belinho estaria explorando a imagem da filha para lucrar. Procurado pela reportagem, o funkeiro até concordou em conversar, mas com uma condição: o pagamento antecipado de R$ 2 mil (a repórter declinou da oferta).
Passado um ano desde a abertura do inquérito do Ministério Público, Melody — atualmente com 9 anos — continua fazendo aparições na mídia. Em programas de auditório, costuma se apresentar como uma versão pequena de uma adulta. Para um quadro do programa Pânico na Band, a menina reproduziu o clipe de “Bang”, de Anitta, em que, caracterizada como a cantora de 23 anos, rebola e joga os cabelos para os lados, fazendo a coreografia acompanhada de duas dançarinas adultas.
Para os acadêmicos, essa contradição entre a busca pela garantia da inocência da infância e a erotização precoce tem nome: pedofilização. O termo foi cunhado pela pesquisadora Jane Felipe de Souza, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Ao mesmo tempo que a nossa sociedade faz leis para proteger a infância e a adolescência, também coloca os corpos infantis dentro da perspectiva de espetacularização desses corpos e da sexualidade”, explica Souza.
De acordo com ela, existem roteiros sociais que definem o que é o ideal de cada gênero antes mesmo que as crianças nasçam. Espera-se que o bebê seja durão se for menino e delicado se for menina. E as expectativas não ficam só no plano do discurso e das ideias: produtos desenvolvidos para crianças nas mais tenras idades já reproduzem esses valores.
Na pesquisa Que linda, parece gente grande — Construção de um ideal de feminilidade na infância, a pedagoga Annelise Ribeiro, também da UFRGS, conta que, ao anunciar que estava grávida de uma menina, amigos e parentes começaram a lhe enviar imagens de roupas infantis femininas. Ela logo reparou que a erotização precoce era constante nas roupinhas e acessórios para bebês do sexo feminino.Com base na análise dos catálogos de duas lojas virtuais, a pedagoga constatou a presença de transparências, ombros de fora, costas nuas e o uso de tecidos como cetim, tafetá e malhas apertadas na maioria das peças.
Em muitas das imagens estudadas por Ribeiro, as meninas aparecem como miniaturas de mulheres adultas. Segundo ela, a adultização da infância é um fenômeno do nosso tempo. “Vestir e produzir uma criança como adulto é privá-la de vivenciar situações fundamentais para o seu desenvolvimento, como a liberdade de correr, saltar, pular. Para isso, é preciso que ela use roupas que possam facilitar tais movimentos”, escreve Ribeiro. “Pulando fases, a criança não amadurecerá psiquicamente o suficiente para lidar com as transformações que virão até alcançar a vida adulta.”
Essas características não são privilégio da moda comercial. Em 2006, a doutora em Educação Dinah Quesada percebeu que os uniformes de algumas escolas também erotizam precocemente as crianças, principalmente as meninas. Na ocasião, ela trabalhava em uma escola da rede privada de Porto Alegre que oferecia versões diferentes do mesmo uniforme para meninos e meninas. “Desde a educação infantil já existia a possibilidade do investimento no corpo por meio dos uniformes, aspecto que se aprofundava no Ensino Fundamental”, diz Quesada. “Para os meninos, os ideários de masculinidade eram reproduzir o corte de cabelo da época e, se possível, usar algum acessório relacionado ao esporte. Mas esse investimento era muito mais forte nas meninas. Inclusive, o número de peças de uniforme era maior para elas.”
Para as meninas, o uniforme unissex e as camisetas eram consideradas “roupas de menino”. Por isso, elas preferiam peças mais apertadas, como calça legging e blusas baby look. Além disso, as alunas de Quesada se envolviam com outros aspectos da aparência. “Elas não só escolhiam as peças como usavam maquiagem, faziam a unha, queriam arrumar o cabelo”, afirma. Como aponta ela em sua pesquisa, quando apareciam arrumadas, as meninas eram elogiadas pelos meninos e, por vezes, até por pais e professores; quando não o faziam, eram consideradas desleixadas.
O oposto também ocorre. No Colégio Anchieta, também de Porto Alegre, a partir do 8º ano os estudantes podem usar as roupas que quiserem — em partes: se as meninas usam shorts, são convidadas a se retirar da sala de aula; se os meninos vestem bermudas e chinelos, nada acontece. “A justificativa da escola é que o uso do shorts está proibido porque pode causar acidentes e prende a atenção dos alunos e professores. Parece que é mais importante que os meninos aprendam as matérias do que as meninas”, reclama a estudante Júlia Martins, do 2º colegial.
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No fim de fevereiro, Martins e suas colegas criaram o movimento “Vai ter shortinho sim”. Elas criaram um abaixo-assinado para ser entregue à diretoria. “Em vez de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino”, dizia o documento. O objetivo era conseguir cem assinaturas — elas conseguiram mais de 25 mil. Mas também tiveram de lidar com críticas que dificilmente poderiam ser classificadas como construtivas. “Já que é para ficar sem dignidade nenhuma, por que vocês não vão nuas?”, dizia um comentário na página que as meninas criaram no Facebook. No final, a diretoria não liberou o uso de shorts, mas Martins não vê o episódio como de todo ruim: estudantes de colégios de todo o Brasil se inspiraram no movimento e algumas até conseguiram a permissão para usar a peça na escola. “Foi bom porque demos coragem para as pessoas. Contribuímos para que elas vissem que isso é um direito delas.”
Contudo, o Efeito Lolita também opera por contradições. Enquanto Martins e as amigas eram criticadas defender o uso de shorts, a cantora Maísa Silva, de 13 anos, era acusada de ser “ser infantil demais”. Quando lançou o clipe da música “Cabelo”, em que aparece brincando e dançando com as amigas, a jovem recebeu uma enxurrada de comentários que diziam que ela não era sensual o suficiente. “Acontece que eu tenho 13 anos, ainda não sou mulher e nem quero ser uma com essa idade”, desabafou a apresentadora do SBT em suas redes sociais. “Sou uma pré-adolescente e me comporto como menina, pois conservo minha alma de criança.”
A hipersexualização de garotas novas é perceptível principalmente por meio da pornografia. Um levantamento realizado pelo Pornhub, um dos maiores sites de conteúdo adulto do mundo, revela que “novinha” e “teen” (adolescente, em inglês) são dois dos termos mais procurados no Brasil e no mundo, respectivamente. Variações da busca por corpos infantojuvenis também ocorrem em outros países: um dos termos mais buscados na França é “etudiante française” (estudante francesa); nas Filipinas, “pinay teen” (adolescente filipina) e na Argentina, jovencitas argentinas (jovens argentinas).
Ao digitar o termo “teen” no Pornhub, mais de 290 mil vídeos aparecem. Muitos deles estrelados por adolescentes e jovens mulheres. Em Miami, nos Estados Unidos, existe toda uma estrutura pronta para recrutar meninas recém-saídas do colegial, entre 18 a 20 anos, para serem atrizes de filmes pornô amadores.
O documentário Hot Girls Wanted, dirigido por Jill Bauer e Ronna Gradus, acompanha os passos de algumas meninas que querem tentar fazer carreira na indústria pornográfica. O resultado é devastador: as moças tendem a permanecer, no máximo, três meses nos sets de filmagem; para ficarem por mais tempo, optam por gravar os tipos de cenas mais degradantes que, consequentemente, são as que pagam valores mais altos de cachê.
Em uma das cenas nos bastidores de uma gravação, o diretor instrui a atriz Rachel Bernard a não reagir quando o ator mais velho com quem contracena investir sobre ela. “É como se você nunca realmente tivesse consentido, entende?”, explica. “Nossa, me sinto todo predador”, afirma o ator. Bernard só se manifesta quando fica a sós com os documentaristas: “Eu odiei tudo aquilo. Não tem nada de sensual no que fizemos”, confessa, nervosa.
A partir da busca por “teen” em sites de pornografia é possível ainda encontrar vídeos de atrizes adultas utilizando roupas e acessórios infantis e juvenis. Entre os resultados há desde mulheres agindo de forma inocente em uniformes colegiais até outras usando chupeta e imitando o comportamento de bebês.
No artigo “Poder, Mickey Mouse e a Infantilização de Mulheres”, a socióloga Lisa Wade, do Occidental College (EUA), afirma que vivemos numa cultura imperativa na qual as mulheres têm que incorporar tanto a sensualidade quanto a fofura. “A sexualização de meninas e a infantilização de mulheres adultas são dois lados da mesma moeda. Ambos nos dizem que deveríamos achar a juventude, a inexperiência e a ingenuidade sensuais nas mulheres”, escreve.
Um estudo realizado por psicólogos da Universidade do Texas em Austin, nos Estados Unidos, sugere que quanto mais as meninas são expostas à imagens sexualizadas de mulheres na mídia, mais acreditam que precisam ser sensuais para conseguirem ser valorizadas. Ao analisar o comportamento de meninas com idades entre 10 e 15 anos, os pesquisadores descobriram ainda que o contato com a hipersexualização faz com que as jovens tenham baixa autoestima, principalmente no que diz respeito aos seus próprios corpos.
 
Nada de fiu fiu
Quando o primeiro episódio da versão brasileira do MasterChef Jr. foi ao ar, a internet entrou em polvorosa. Não só porque o reality show é um dos mais assistidos em duas telas — em que se acompanha pela televisão e pelas redes sociais —, mas pela repercussão que teve online. Percebeu-se que vários dos comentários sobre o programa eram relacionados com uma participante de 12 anos. Ou melhor, com a aparência dela. “Sobre essa participante: se tiver consenso, é pedofilia?”, escreveu um dos usuários.
O coletivo feminista Think Olga prontamente se posicionou contra esses comentários, reforçando o fato de a participante ser uma criança. Assim nasceu a campanha #primeiroassédio, em que as mulheres foram incentivadas a compartilhar a história da primeira vez em que foram vítimas de assédio. “Queríamos mostrar o quanto o assédio é comum, e a reação que isso gerou só comprova que tínhamos razão: foram 82 mil tweets mencionando a campanha em quatro dias. Ficamos impressionadas com a quantidade de compartilhamentos, mas não surpresas”, revela Luíse Bello, gerente de conteúdo do Think Olga. “O assédio é extremamente comum e normatizado, e ainda é uma conversa muito recente no Brasil e no mundo.”
Entre os compartilhamentos é possível encontrar casos que retratam diferentes tipos de assédio. Há a história da mulher que, quando tinha 7 anos, percebeu que um homem se masturbava enquanto a assistia brincar na rua com as amigas; a da mulher que, aos 5 anos, sofreu um assédio tão sério que não conseguiu nem escrever sobre o que se passou sem passar mal; e há o caso de Kelli, a moça do início desta matéria que, até a campanha do Think Olga, nunca tinha comentado sobre o ocorrido com ninguém. “Eu quis mostrar o que aconteceu comigo; todas nós passamos por esse tipo de coisa e a gente tem que divulgar esses casos. A erotização do corpo das meninas existe e é um absurdo”, diz. “Quando as mulheres começaram a ver que tinha muita gente compartilhando histórias de assédio e abuso na infância, perceberam que a culpa não era delas e que não eram as únicas que passaram por situações como aquelas”, explica Isadora Cabral, que atualmente desenvolve uma pesquisa sobre gênero, sexualidade e ciberativismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Cabral acredita que os efeitos da campanha, a primeira de vários movimentos de grande repercussão voltados para os direitos da menina e da mulher nos últimos meses, não é de curto prazo. “O poder da internet é muito grande. Quando veem essas movimentações nas redes sociais, muitas meninas novas começam a pensar sobre suas próprias experiências. Isso não só cria uma nova leva de meninas mais conscientes sobre seus direitos como gera discussões e leva os movimentos para fora da internet”, explica. Esse é o melhor caminho para que outras Kellis, Júlias e Maísas aprendam a resistir à pressão criada sobre elas e entendam que suas próprias vozes são a melhor e mais potente forma de romper esse ciclo.
*Com edição de Cristine Kist
TEXTO ORIGINAL DE REVISTA GALILEU

Por Carlos Beloto
O assunto que desejo abordar é um pouco complexo. O que não deveria ocorrer, caso tivéssemos uma educação que valorizasse as ciências humanas e a filosofia. Infelizmente, nossa sociedade não foi ensinada sobre a importância de entender o mundo a partir de conhecimentos que analisam os vários fenômenos sociais que estamos ligados direta ou indiretamente. Como consequência, um povo altamente despolitizado.
As redes sociais possibilitaram, dentre outras coisas, evidenciar a grande dificuldade das pessoas em assimilar conceitos básicos para o bom entendimento do que são as diversas correntes ideológicas e suas divisões. Muitos, por exemplo, afirmam ser marxistas sem ter lido sequer uma obra de Karl Marx ou de alguém que procure elucidar o pensamento deste autor. Como não bastasse, aqueles que se dizem discordar das ideias do referido pensador, muito menos. Entretanto, ambas as partes se acham no direito de expressar suas impressões sobre Marx, sem ter o mínimo conhecimento prévio para dialogar com alguém.
Não estou aqui a afirmar que essas pessoas não deveriam dizer nada. Muito pelo contrário, elas devem dizer o que pensam.
Mas devem fazê-lo com propriedade, conhecer o que de fato defendem. Se não, torna-se o que chamamos de doxa, ou seja, uma opinião baseada no senso comum, sem nenhuma reflexão sobre este ou aquele assunto. Tendo apenas a intenção de perpetuar tradições, preconceitos e, na maioria das vezes, justificar discriminações.
A mídia, em especial as que pertencem aos grandes grupos corporativistas, contribui para essa (de)formação que leva a maior parte da população, até mesmo grande parte da mais “letrada”, a um estado de espírito incapaz de ver além das linhas do horizonte, de conseguir fazer um leitura crítica da realidade em que está inserido.
Os meios de comunicação que tanto falamos serem ferramentas que aproximam as pessoas, e, com a globalização e o advento da internet, nos permitem saber, quase em tempo real (ou real mesmo), o que se passa em qualquer canto do planeta, também são utilizados para distanciar indivíduos do conhecimento fundamentados na análise crítica, na observação e no uso da razão, a episteme.

Acredito que se fosse dado a todos os seres humanos a oportunidade de pensar da maneira mais autônoma possível, teríamos saído da caverna (referência ao mundo das aparências), conforme Platão ilustra em sua obra A República, na passagem sobre o “Mito da Caverna”. A grande questão é: Estamos dispostos a sair de nossas cavernas e nos deixar guiar pela luz do sol que ilumina o mundo exterior a essas cavernas?
Essa luz do sol, que podemos entender aqui como o conhecimento, está à disposição de todos aqueles que a buscam, talvez muitos podem, assim, dizer. No entanto, por se encontrar numa caverna, na caverna individual de cada ser, só se poderá ter contato com essa luz através da decisão de ouvir aquele que se libertou das correntes, que são as opiniões (doxa), e deseja mostrá-las aos demais.
Na metáfora de Platão, trata-se do filósofo que, por meio da filosofia, se libertou dos preconceitos e conhecimentos errôneos, e quer dar a oportunidade aos outros de adquirirem conhecimentos. E não é um conhecimento doutrinário ou do estilo autoajuda, os quais dependem de alguém iluminado, superior, que conduz as pessoas ao bem maior. A filosofia, na verdade, propõe fazer dos homens e mulheres seres autônomos intelectualmente. Quer dizer que, ao invés de se guiarem pelo o que lhe é dito, eles e elas construirão sua própria forma de ver o mundo, longe de superstições e aparências.
O termo “filósofo” significa literalmente “amigo da sabedoria”. Neste sentido podemos dizer que filósofo é muito mais do que um título acadêmico. É alguém que ama tanto o conhecimento que busca a todo o custo adquiri-lo, pelo simples prazer de aprender. Eis aqui o problema maior: há uma campanha crescente, digo sempre, para que as pessoas não tenham o estímulo necessário para aprender. E não é à toa! “Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitissem às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica”, disse Paulo Freire. Diga-se de passagem, que este grande intelectual e educador, foi alvo de críticas das manifestações ocorridas nas últimas semanas. O que me causou um choque, pois, independente de sua orientação política, as contribuições dele para a educação foram e são relevantes.
Seja como for, o caminho de volta à caverna começou a ser seguido por muita gente que prefere se acomodar no meio da escuridão a sentir a dor que a claridade provoca, no início, quando em contato com a luz. Esquece que tal dor é passageira. Assim que os olhos se acostumam, perceberá que há um mundo fantástico a ser compreendido e desvendado.
É uma pena ver que a mídia deseja nos ver presos às ideologias que nos escravizam e nos mantém longe de todo o conhecimento que poderia beneficiar a humanidade. Bom, nem sempre causa algum bem. Mas, ao menos, viabiliza tentar um mundo melhor.
TEXTO ORIGINAL DE OBVIOUS

Infelizmente existem pessoas que têm doutorado acadêmico ou pelo capital e status se intitulam doutores, mas não cumprimentam o porteiro ou faxineira do prédio, pois são indivíduos sem sensibilidade social, porque valorizam o dinheiro, antes do que as pessoas e a mercantilização dos bens, do que a dignidade dos outros.
Para mostrar essa falta de sensibilidade durante nove anos, o psicólogo Fernando Braga da Costa como parte da pesquisa do seu doutorado trabalhou junto com os garis da Universidade de São Paulo, não conseguiu ser reconhecido por seus professores e amigos de curso. Não foi rejeitado, era como não existisse. Na convivência com os trabalhadores, compartilhou o sofrimento vivido por eles nas situações de humilhação pelas quais passavam cotidianamente.
A invisibilidade social é um fenômeno da neurose de classe para discriminar certas pessoas que ficam invisíveis através de preconceitos estéticos, culturais, sociais e econômicos. Essa arrogância opera nos planos mentais do consciente e do inconsciente, o resultado disso é que pessoas com atividades consideradas inferiores permanecem como seres imperceptíveis.
As profissões que se tornam invisíveis: catadores de lixo, garis, faxineiras, frentistas, babás, cobradores de ônibus e outras de caráter operacional. São tratadas como insignificantes por uma parte da sociedade, apesar de sua extrema relevância econômica e social.
O antropólogo Robert DaMatta em seu livro O que é o Brasil? Afirma a existência de dois espaços básicos brasileiros: “A casa e a rua. A casa reflete ao privado – não somente a morada, como as redondezas do bairro, lá o indivíduo torna-se sujeito em tom de pessoalidade exacerbado, um ser totalmente visível. Ao contrário da rua, o público, que transforma o sujeito em indivíduo, um ser impessoal, caracterizado pela função do trabalho. Invisível socialmente, visível funcionalmente”.
A sensibilidade humana é uma decorrência direta da compreensão. Quem não compreende não pode ser sensível, porque não é vulnerável às dificuldades dos outros e dificilmente consegue entender que todo o comportamento, decisão ou opinião só faz sentido quando é interpretado, levando em conta o tempo e o espaço, a história e as circunstâncias.
Por essa breve análise da invisibilidade social, concluímos que o assunto não pode permanecer do mesmo modo invisível. Somos todos iguais, estamos próximos desses profissionais que devemos sempre respeitar e valorizar sua contribuição como fator fundamental ao desenvolvimento humano e econômico. Aqueles com seus rompantes que agem ao contrário e acham que o mundo gira em torno do seu “umbigo” estão fadados a imersão mórbida gerada pelo narcisismo social.

Por Laiz Chohfi
Ela chegou no consultório dizendo que estava tendo altos e baixos. Não sabia mais se deveria ou não se separar do marido. Ele, que a deixava sem dinheiro nem pra água de casa, agora estava oferecendo presentes e dando beijos de boa noite – embora ainda a deixasse sem dinheiro nenhum pras compras da casa…
Ela disse que não estava mais entendendo o que estava acontecendo, se de fato ele era uma pessoa boa ou não. Não sabia mais no que acreditar, pensava que poderia estar vendo coisas onde não tem, que talvez ele fosse mesmo o homem maravilhoso do qual ela sentiria falta – ele disse, por várias vezes que, depois de se separar, ela veria o quão maravilhoso ele era. E ela chorou muito nesse dia enquanto falava.
Muitas vezes a gente pensa que violência é só “tapa na cara” e derivados. Que sempre exige um contato físico. E isso está certo? De certa forma, sim. Mas violência é muito mais do que violência física somente. E hoje vamos falar dessa violência velada, que é a violência possível a partir das palavras.
A vinhetinha de caso aí acima nos permite pensar um pouco a esse respeito. Deixar alguém que, no momento, depende de você, sem ter como se virar sem ser pedindo, é muita humilhação. E humilhação é violência. Com palavras e ações, que não são necessariamente “porrada”. É colocar o outro num lugar de muita vulnerabilidade, é fragilizar o outro. Além disso, deliberadamente confundir o outro, não ser claro ou escolher transmitir duplas mensagens, também é agressão.
GIL
Falei aí acima de confundir o outro. Vamos à uma vinhetinha pra pensar a esse respeito mais aprofundadamente?
Ela dizia que tinha vivido um relacionamento abusivo. Seu namorado, ela descobrira depois, tinha outras três namoradas. Dizia pra ela que esses relacionamentos já tinham acabado, que um deles inclusive havia sido um relacionamento aberto, e que não teria o menor problema eles ficarem juntos. Segundo ela, ele a cada dia ele dizia uma coisa diferente. Podia ser o nome de uma ex (na verdade, atual), a data de início ou do término do relacionamento… Enfim, ela sempre tinha entendido mal, entendido errado, estava esquecida ou qualquer coisa do gênero. No fim, ela acabou terminando com ele quando ficou sabendo dos outros três relacionamentos. Sentia-se muito mal por ter sido enganada e por não ter percebido nada.
Mentir, omitir, insinuar ou confundir pode ser violência também. Fez o outro sofrer? É violência. A régua é o sofrimento do outro, não o que eu penso como sendo ou não violência. É o corpo do outro que dita o tom e o limite. Outra trilha de pensamento comum nesses casos é mais ou menos assim: nossa, mas que trouxa ela! Vai ficar com um cara assim por que? É como se a culpa fosse só dela, como se ela tivesse escolhido não enxergar. Como se ela tivesse culpa de o cara ter sido um babaca. E adivinhe só? Culpabilizar também pode ser violência. Claro que ela tem uma parcela de responsabilidade. Mas é de responsabilidade, não de culpa.
Última vinhetinha do dia:
Ele havia agredido a professora. Pegou-a pelo braço quando ela o usava de exemplo de “aluno que não se deve ser” para a turma. Durante a conversa, a mãe, que estava junto, disse que a professora só achou aquilo que aconteceu fora da normalidade porque ela não tem filhos. Se tivesse, entenderia que essas coisas acontecem e não teria se chocado a ponto de levar a situação para a diretoria da escola.
Muitas violências acontecendo nesse último causo. Primeiro, a mais óbvia, que é a agressão do aluno à professora. Essa é física, o que a torna quase que indiscutível nesse caso. Mas e as veladas? A primeira delas que eu gostaria de falar a respeito é a da mãe para com a professora. Deslegitimar o que a professora disse por ela ser quem é, ter a história e/ou família que tem é violência também. Então por não ter filhos ela não tem o que dizer da situação?! E, agora, a violência mais escondida dessa história: a da mãe em direção ao filho. Desresponsabilizar, dizer que o que o outro faz é aceitável, que nada tem problema, “sempre passar a mão na cabeça” pode ser violência também. E sabe por que? Porque impedimos o outro de crescer a partir do ato de se responsabilizar pelas próprias ações no mundo.
Portanto, é muito importante que prestemos atenção nas nossas ações e palavras por aí afora. Tudo que a gente diz pode deixar marcas no outro. Palavras podem ser tão ou mais violentas do que agressões físicas. Fique atento!
TEXTO ORIGINAL DE HYPENESS
* Laiz Chohfi trabalha como psicóloga na Universidade de São Paulo (USP). É pesquisadora no LEFE-USP (Laboratório de Estudos em Fenomenologia Existencial e Prática em Psicologia), professora na Universidade Paulista (UNIP) e atende em consultório particular. Mãe de dois gatos, é amante de (dirigir) bons carros e está constantemente pensando na próxima tatuagem.

Por Amanda Mont’Alvão Veloso
Um professor ou uma professora podem ser uma janela para o mundo que se vê, ou além, para o mundo que se deseja construir.
Ainda na infância, intermediados por esses profissionais, experimentamos realidades que não conhecíamos e conhecimentos até então inéditos. Podemos até achar que eram apenas Matemática, Português, História, Filosofia ou Ciências, mas eram vida, em pequenos ou maiores fragmentos. E essa vida era tecida por cada saber que íamos conquistando.
Alguns desses saberes davam seu adeus depois da aprovação do vestibular. Outros ficavam em algum canto da memória, para serem utilizados em um quiz ou em uma entrevista de emprego. Outros tantos magicamente se dissolviam no dia a dia e no repertório de vivências. Passageiros ou permanentes, tais saberes ajudavam a constituir a história singular de cada pessoa.
“O saber da nossa espécie, a humana, não se transmite pela genética, mas sim pela linguagem. Os professores são especialistas nesta transmissão”, sentencia Alfredo Jerusalinsky, psicanalista e doutor em Psicologia da Educação e Desenvolvimento Humano.
Nossos especialistas, infelizmente, andam matando leões diariamente. A profissão é cada vez mais desvalorizada; a remuneração dos professores é muito abaixo do básico e impede a reciclagem de experiências, como comprar livros ou fazer um curso; a instabilidade no emprego é uma realidade, assim como a carga horária exaustiva; a infraestrutura é precária ou deixa a desejar.
Na sala de aula, os desafios aumentam. A autoridade é questionada por pais e alunos; a indisciplina comparece com uma ofensa verbal ou mesmo uma agressão física; alunos desinteressados tentam ser avivados por professores desestimulados; a cobrança por desempenho dita os caminhos do que deve ser considerado educação.
Reflexo desses desafios são os afastamentos do trabalho por algum transtorno mental ou problema de comportamento, responsáveis por 27,8% dos casos. Só na rede estadual de ensino de São Paulo, 327 licenças médicas são dadas por dia a docentes, segundo reportagem do Estado de S. Paulo a partir de dados da Lei de Acesso à Informação. Em 2015, foram concedidos cerca de 136 mil afastamentos médicos.
“Os professores estão entre os profissionais que mais se afastam do trabalho por transtornos mentais. O estresse contínuo, o desgaste na relação com alunos e os desafios de manter a atenção em crianças cada vez mais dispersas sobrecarregam os professores, colocando-os em sofrimento frequente, e adoecendo às vezes”, afirma o psiquiatra Daniel Barros, professor colaborador do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.
“Não é fácil para um professor admitir que sofre ou que não tem paz em sua prática. Parece que paira sobre ele a marca de uma abnegada coragem aliada a uma sabedoria terapêutica que não lhe permite fracassar”, desabafa Patrizia Bergamaschi, professora de Língua Portuguesa e Literatura há 33 anos. Ela acrescenta:
“Todavia, admito que o que mais me tira o sossego é o fato de que os alunos leem pouco e que realmente não se incomodam com isso. Já o que me causa sofrimento é o desrespeito, a mentira, o pouco caso diante do conhecimento humano. O professor se tornou objeto de críticas mesquinhas por parte dos alunos e também das famílias.”

O papel em um novo cenário
A diferença entre o conhecimento e o saber se torna fundamental para destacar o valor da profissão. Os aparelhos eletrônicos são capazes de transmitir conhecimentos, mas não saberes, pondera Jerusalinsky.
“Uma coisa é transmitir informação, outra muito diferente é transmitir experiência. Essa última só é transmissível por outros humanos, geralmente os professores e os pais. Quando se sobrevaloriza a informação (via informática, por exemplo), se desautorizam os verdadeiros responsáveis pela educação: os pais e os professores.”
A revolução tecnológica e da comunicação, portanto, impõe aos educadores um desafio além dos já existentes: o de saber o seu lugar neste novo cenário, explica Raquel Franzim, assessora pedagógica do Instituto Alana, que gere o programa Escolas Transformadoras:
“Qual o papel do professor em uma sociedade com acesso ao conhecimento facilitado por tantos recursos, mas ainda desigual?”
“Creio que o papel do professor irá se transformar, assim como o dos médicos e dos jornalistas”, afirma Barros. “Cada vez mais não existem detentores do saber, mas gerenciadores da informação. O papel dos professores passará a ser o de ensinar as pessoas a lidar com os dados, extraindo daí informações. Parte do estresse que eles enfrentam hoje é justamente por conta de estarmos no meio dessa transição.”
Para que serve a escola
Segundo Franzim, pensar o papel do professor demonstra a urgência de se refletir sobre o sentido da educação e da escola. “A escola é o espaço privilegiado para transformações pessoais, coletivas, sociais e culturais ocorrerem. E os estudantes são os grandes protagonistas de todo o processo, em parceria com os professores e os outros atores.”
“Não dá para entender a escola como um lugar para onde se vai, exclusivamente, aprender determinados conteúdos, sem nenhuma relação com a vida, mesmo porque esses conteúdos, por si só, são insuficientes para os desafios que enfrentamos em nossa sociedade e na formação humana.”
Para Caroline Ferrari, professora de História há 10 anos, a instituição escolar necessita urgentemente de uma reformulação em seus métodos e estruturas.
“A escola ainda segue padrões tradicionais referentes ao século 19, apoiando-se em instrumentos pouco chamativos e eficazes para o desenvolvimento e concentração do aluno contemporâneo. Como esperar que uma instituição tão sólida em sua disposição, com paredes que sufocam a possibilidade de uma criança ver o mundo e carteiras que as isolam de seu convívio social com os demais colegas e até com a figura do próprio professor, possa efetivamente estar a serviço do desenvolvimento humano e criativo de um indivíduo?”
Ora negligenciada nos investimentos, ora tratada como objeto de consumo, em que o aluno é cliente, a escola acaba caindo em uma lógica mercantilista e, assim, se desviando de seu propósito básico, que é o de educar. Bergamaschi lamenta essa realidade:
“Vemos que a escolha de uma escola pela família acaba, em muitos casos, sendo motivada pelo status social que sugere e não pelo projeto educativo que estabelece. Nessa relação cliente/fornecedor, o cliente exige que o fornecedor corresponda a seus desejos e é o que se vê muitas vezes: se meu filho me pressiona, eu pressiono a escola e se não sou atendido, mudo de escola. O fato de pagar a escola parece dar a algumas pessoas o direito de querer mandar nela.”
Segundo Jerusalinsky, o “capitalismo selvagem” transforma tudo em mercadoria. “A educação não podia ser a exceção”, afirma:
“O núcleo da educação reside no valor da palavra. Quando ela se transforma em mercadoria, perde seu poder de regular as relações sociais. Em lugar de ser elo de enlace, ela passa a ser ferramenta de controle e opressão.”
Para Ferrari, nesse contexto não há espaço algum para acolher o sofrimento do professor. A ele é reservada a solidão.
“Alguém deve ser culpabilizado pela notória decadência da educação. O professor cumpre um papel muito diferente de sua função de educador. Cumpre a função de ser o responsável direto pelo não desenvolvimento educacional. Mas e aquele professor que consegue atingir o seu aluno e desenvolver um trabalho coletivo com seus alunos? Esse professor cai na cilada de ser usado para culpar os outros professores que não atingem sua meta de trabalho, além, claro, de ser rechaçado pelos seus próprios colegas por ter conseguido fugir do peso de uma lógica tradicional. Ser professor é um lugar solitário. Ser um professor com forças para lutar contra um sistema é um lugar mais solitário ainda.”
Resistência e persistência
Em meio a tanta falta de perspectiva, a resistência se mostra imperativa. “Os professores resistem, embandeirados na letra contra a barbárie”, declara Jerusalinsky.
A professora Patrizia Bergamaschi enxerga revolução em seu ofício:
“Dizem por aí que ninguém se torna professor, mas nasce com esse vírus. Acho mesmo que nasci para ser professora, para ficar na retaguarda e empurrar a moçada para frente, para acender lamparinas para que os alunos as transformem em fogueiras. Acredito que um país só progride pela educação de seu povo: a escola é a verdadeira revolução.”
Para a professora Caroline Ferrari, são os alunos que a fazem persistir:
“Quando um aluno sorri para mim por eu tê-lo ajudado com alguma dificuldade, seja ela qual for, eu fiz parte de sua história e contribuí para que este conseguisse enxergar o seu lugar no mundo. Afinal, que mais pode ser um professor senão aquele que empresta o seu olhar para que o outro possa construir o seu olhar também?”
TEXTO ORIGINAL DE BRASILPOST