26 janeiro 2016



Como não pensar, a cada dia, que a lama avança. Essa lama tóxica que mata gente, mata bicho, mata planta, mata histórias. Essa lama que engoliu um povoado chamado Bento Rodrigues, assassina o Rio Doce, avança pelo oceano, atravessa os estados e segue avançando. Essa lama que deixou meio milhão sem água. Essa lama venenosa que vai comendo o mundo como se fosse um organismo vivo. Essa lama morta que se move. E ao se mover, mata. Enquanto alguém toma um café, pega o ônibus, reclama do trânsito, faz um selfie, se apaixona, assiste a uma série do Netflix, se preocupa com as contas, faz sexo, se queixa do chefe, sente que o cotidiano não está à altura de suas grandes esperanças, briga no Facebook, faz planos para as festas de fim de ano, engole umas gotas de Rivotril, a lama avança. Enquanto escrevo, a lama avança. Piscamos, e a lama avança. Parece quase impossível pensar em algo além de que a lama avança. E ninguém pode afirmar até aonde a lama vai chegar.

É mais como um filme de imagens impossíveis, cada um entre seus muros, fronteiras cada vez mais enfarpadas, e a lama avançando. Dia e noite, essa lama que não dorme. Avançando. Talvez fosse necessário mais um movimento de vanguarda na arte, que desse conta do excesso de real da realidade. Da lama que avança. Concreta, espessa, tóxica. Inescapavelmente lama. QueGuernica poderá ser pintada diante da obra da Samarco, a mineradora que pertence à Vale (antes chamada “do Rio Doce”) e à anglo-australiana BHP Billiton? Precisamos de umaGuernica para representar o irrepresentável dessa lama que avança enquanto fazemos xixi.

Haveria de ter uma bienal das artes criando coletivamente representação diante da lama, em tempo real, uma bienal viva diante da lama morta que mata. Para que a lama que avança não pudesse ser esquecida para além dos que jamais poderão esquecê-la porque nela perderam quem amavam. Ou perderam um rio. Ou, no fio de voz do homem que conta para um repórter de TV que perdeu a fotografia do pai e da mãe, ele mesmo achando pouco, mas sentindo tão doído que era tanto. Não era carne, mas era história, história que dizia que ele teve um pai e uma mãe que um dia fizeram um retrato para se representar. E a lama comeu.

A lama avança. Não apenas como metáfora, como havia sido até 5 de novembro, quando a barragem se rompeu liberando todo o recalque. A lama avança matando Emanuely, Thiago, Waldemir, Claudio, Sileno, Marcos, Marcos Aurélio, Samuel, Mateus, Edinaldo, Daniel... Mais dois mortos ainda sem nome. Pelo menos 13 corpos já foram encontrados na barriga de baleia da lama. Treze gentes, com suas histórias, seus sonhos, seus desesperos, seus amores. Treze que se multiplicam por centenas que acordarão a cada dia com a faca do luto esburacando o peito.

E pelo menos oito desaparecidos, que um dia poderão ser cuspidos pela lama. Ou não. Oito que sumiram e que também eram amados por alguém e que também sonhavam e que também suavam e que também queriam. Oito de quem ainda se espera que apareçam para dizer que escaparam dos dentes da lama e para serem abraçados com força e para virarem histórias de superação ou conto de Natal. E há os peixes que são dimensionados em toneladas, e não parece possível compreender que vidas sejam dimensionadas em toneladas, apenas porque são outras vidas ou vidas de outros. Há as tartarugas. Há espécies que poderão deixar de existir, um tipo de vida que desaparece por inteiro, a pobreza máxima, insuperável, aquela para a qual não existe nenhuma possibilidade de Bolsa Família para resgatar. Há todas as plantas que não farão mais fotossíntese, árvores que já não respiram. Flores afogadas. Há o rio assassinado. O não rio.

E a lama avança.

Não como metáfora.

Mas também como metáfora. Enquanto a lama avança – “vai invadir o Arquipélago de Abrolhos”, “não vai invadir o Arquipélago de Abrolhos”, “alcançou o ninho das tartarugas-gigantes”, “praias são interditadas no Espírito Santo”... –, há uma lama metafórica que entra pela nossa boca e nos faz tossir. Mas a tosse não nos liberta, porque estamos intoxicados de lama. Essa lama que circula pelas veias desse corpo que chamamos de país.

A lama que nega a lama. Assim como Vale e BHP Billiton fingem que a Samarco é outra coisa que não elas mesmas. Assim como o governo federal finge que aplicar multas é uma demonstração de força, sem dizer que apenas 3% das multas são de fato pagas pelas empresas multadas, e sem dizer que não haverá dinheiro que possa dar conta da reparação. Nem mesmo os 20 bilhões de reais que o governo federal anunciou exigir na Justiça. Sem admitir, principalmente, que se uma barragem de rejeitos de mineração rompeu em Mariana é porque há algo (cor)rompido em todo o processo que permitiu que essa barragem rompesse. Algo que precisa ser corrigido já, porque há outras barragens, outras lamas, que podem avançar a qualquer momento porque há algo corrompido há muito que precede a lama que mata. E agora aquilo que era metáfora já não é.

Enquanto a lama que mata avança, outra lama que também mata, a lama que pode ser chamada de primordial, também avança. E avança rápido. Quando a lama que mata avançava havia 20 dias, a Comissão Especial do Desenvolvimento Nacional, vale a pena prestar atenção nas palavras escolhidas para nomear essa comissão do Senado, aprovou um projeto do senador Romero Jucá (PMDB-RR)para acelerar a liberação de licenças ambientais para “empreendimentos de infraestrutura estratégicos para o interesse nacional”. Devido à pressão do momento, a exploração de recursos minerais foi retirada da lista dos projetos considerados prioritários. Mas a lista dos beneficiados pelo licenciamento facilitado não é nada pequena: obras dos sistemas viário, hidroviário, ferroviário e aeroviário, portos e instalações portuárias, energia e telecomunicações.

Não um projeto para tornar os processos de licenciamento ambiental mais rígidos e eficazes, menos sujeitos a corrupção e a pressões. Não um projeto para fortalecer os órgãos responsáveis, garantir monitoramento e informações independentes e ampliar as equipes de fiscalização. Não. Vinte dias depois de a barragem romper e a lama avançar sobre o corpo do país, essa comissão do Senado aprovou um “rito sumário”, que facilita a licença para as empresas e limita o prazo entre o pedido do “empreendedor” (mais uma palavra interessante) e o licenciamento ambiental a cerca de oito meses. Se o órgão responsável pelo licenciamento não cumprir o prazo, libera-se automaticamente. Sem qualquer análise sobre a vida, sobre o planeta, sobre o futuro. Porque, como declarou o autor do projeto, Romero Jucá, o licenciamento ambiental é o “vilão” dos grandes empreendimentos. Nesta lógica do senador, tão cristalina quanto a água do Rio Doce dificilmente voltará a ser, acabará se concluindo que a catástrofe de Mariana foi causada pelo excesso de rigor no licenciamento ambiental da obra da Samarco (leia-se Vale e BHP Billiton).

E a lama avança.

A quem serve esse projeto que avança no Senado, enquanto avança a lama que mata? Ao país, é o que dizem. É parte de algo batizado de “Agenda Brasil”, um pacote de propostas “com o objetivo de estancar a crise política e estimular o crescimento da economia brasileira”. Foi apresentado em agosto pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), como uma salvação para o Brasil e para a fragilizada presidente Dilma Rousseff (PT).

O Brasil precisa avançar, lembrou Renan Calheiros. Mas é a lama que avança.

O Brasil precisa avançar, lembrou Renan Calheiros com pose de estadista, certo de que nenhum cidadão brasileiro que acompanhou sua trajetória nos vários governos e parlamentos da redemocratização possa ter qualquer dúvida sobre a veracidade de sua preocupação com o país, sobre o seu amor exacerbado pela Constituição, sobre o seu compromisso maior com o interesse público. Ele, investigado pela Operação Lava Jato; ele, o homem suspeito de ter pagado a pensão de uma filha com dinheiro de uma empreiteira; ele, que usou o avião da FAB para levá-lo a Pernambuco para fazer um implante de 10 mil fios de cabelo, a Força Aérea Brasileira a serviço de sua urgência de deixar de ser careca. E a Agenda Brasil avança, facilitando o licenciamento ambiental em nome não dos interesses individuais e privados, de forma alguma. Renan Calheiros e o grupo de senadores que aprovou o projeto garantem que não se trata disso. E aquele que acredita que a lama jamais chegará a sua porta acredita.

A Agenda Brasil avança em nome do “interesse nacional”.

E a lama avança.

A comissão de nome interessante do Senado aprovou o projeto no dia 25 de novembro. No mesmo dia, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT-MG), também aprovou o seu na Assembleia Legislativa de Minas. Sim, ele, o homem que comanda o estado em que se iniciou aquele que é considerado “o maior desastre ambiental da história do Brasil” – e que, a depender das investigações da Polícia Federal, poderá ser promovido a “maior crime ambiental da história do Brasil”. O governador propôs acelerar o licenciamento ambiental, inclusive para mineradoras, porque, como todos sabem e o acidente da Samarco (leia-se Vale e BHP Billinton) provou, a demora no licenciamento ambiental é o grande problema do Brasil.

Não as pressões, a corrupção, os interesses privados acima dos interesses públicos, a precariedade dos estudos prévios e dos estudos de acompanhamento, a fragilidade do monitoramento, a indigência da fiscalização. Não. O problema do Brasil é que o licenciamento ambiental demora, o drama do país são esses ambientalistas que ficam exigindo que barragens como a do Fundão tenham monitoramento, fiscalização e um plano em caso de acidentes. Como governador diligente e preocupado com o meio ambiente, afinado com os desafios em debate na Conferência do Clima que se inicia em Paris, Pimentel resolveu o problema, em perfeita sintonia com os elevados princípios dos deputados mineiros que aprovaram o projeto.

Com o licenciamento ambiental acelerado, obviamente barragens não vão mais se romper matando gente, bicho, planta, rio. Faz completo sentido, quem haveria de discordar dessa lógica límpida como a água do rio Doce dificilmente voltará a ser? Tanto empenho e celeridade para quê? Para priorizar as grandes empresas, como empreiteiras e mineradoras, que por coincidência são também grandes financiadoras de campanhas eleitorais? Claro que não, garantem os que fazem as leis. Isso tudo é para o bem do Brasil. E aquele que se comove com as imagens dos soterrados pela lama no noticiário da TV, mas tem certeza de que a massa tóxica jamais chegará à sua porta, muito menos ao seu nariz, acredita.

E a lama avança.

Logo no dia seguinte ao rompimento da barragem, o secretário de Desenvolvimento Econômico de Minas, Altamir Rôso, já havia se apressado em garantir, antes do início de qualquer investigação: “a Samarco (leia-se Vale e BHP Billinton) é uma das que mais se preocupam com segurança e com meio ambiente”. E, em seguida: “A Samarco (leia-se Vale e BHP Billinton) também é vítima”.
E a lama avança.

Mas ainda há quem acredite que ela jamais chegará à sua porta.

A Organização das Nações Unidas denuncia que as medidas tomadas pelo governo federal, a Vale e a BHP Billiton têm se mostrado “claramente insuficientes” para enfrentar uma catástrofe equivalente ao volume de 20 mil piscinas olímpicas contendo lama tóxica, que contamina solo, rios e sistemas de abastecimento em áreas superiores a 850 quilômetros e que não se sabe até onde vai chegar. A ONU declara que é “inaceitável” que se leve três semanas para divulgar que há risco tóxico na lama que avança. A ONU afirma que “o desastre é um trágico exemplo da falha na condução de negócios com relação aos direitos humanos e com relação à diligência para prevenir abusos”. Dilma Rousseff, a presidente que levou uma semana para sobrevoar (mais uma palavra interessante) a região daquele que é considerado o maior desastre ambiental do país que governa, nega qualquer negligência do seu governo.

Talvez o problema seja não a incompetência na prevenção e no enfrentamento da catástrofe, mas a incapacidade de a ONU compreender que o desenvolvimento é o grande “interesse nacional”. Em nome de uma causa maior, os obtusos precisam entender a necessidade de fazer sacrifícios, ainda que os sacrificados jamais sejam os que defendem a necessidade de fazer sacrifícios. Na posição de restos, os sacrificados não crescem. Submergem.

E a lama avança.

Assim como avança o novo Código de Mineração no Congresso. Uma parcela significativa dos deputados da comissão responsável pela sua criação recebeu doações de empresas ligadas à mineração. Mas, como aquele que acredita que a lama ainda não chegou à sua porta tem certeza, este é um mero detalhe que não corromperá o alto senso de dever cívico dos parlamentares. Na hora de legislar e decidir como proteger Brasil e os cidadãos brasileiros para que catástrofes como as das barragens da Samarco (leia-se Vale e BHP Billiton) não se repitam, eles não pensarão em quem financiou suas campanhas, mas apenas no “interesse nacional”.

E a lama avança.

Em 24 de novembro, o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), outro nome para se prestar atenção, deu a licença de operação à barragem de Belo Monte, no Pará. A presidente do órgão, Marilene Ramos, afirmou durante o anúncio: “Postergar a licença de operação seria punir o Brasil”.

E a lama avança.

Três dias depois dessa frase lapidar da presidente do IBAMA, a empreiteira Andrade Gutierrez fechou acordo com a Procuradoria Geral da República, segundo informou a Folha de S.Paulo, comprometendo-se a detalhar vários esquemas de corrupção, entre eles propinas envolvendo Belo Monte, uma obra estimada hoje em mais de 30 bilhões de reais. Pagamentos de propinas na obra da hidrelétrica já foram relatados em acordos de outras delações premiadas da Operação Lava Jato por executivos de empreiteiras que formam o Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM), contratado pela Norte Energia para executar a obra, e estão sendo investigados. Mas em Belo Monte o “interesse nacional” é tão imperativo que nem mesmo 23 ações do Ministério Público Federal denunciando violações à Constituição foram capazes de interromper a obra, que será julgada como “fato consumado”. Como escreveu o presidente da Norte Energia, Duílio Diniz de Figueiredo, após a licença de operação, “é um orgulho para o Brasil ver Belo Monte se tornando uma realidade”.

E a lama avança.

Ao anunciar a licença de operação, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a presidente do IBAMA afirmou que a Norte Energia tinha “atendido integralmente” às exigências, “menos 10%”. Dias antes, a FUNAI (Fundação Nacional do Índio) já havia dado o seu aval à licença de operação, apesar de mencionar uma série de pendências e descumprimentos de condicionantes. A mesma FUNAI que, em vez de ser fortalecida para que os povos indígenas afetados pela obra pudessem ter maior proteção diante da empresa, passou exatamente pelo processo contrário: teve seu quadro em Altamira reduzido de 60 para 23 funcionários, no período de construção de uma das maiores obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

E a lama avança.

A palavra “condicionante” sofreu uma intervenção original no texto da Licença de Operação, em uma das interpretações recentes da língua portuguesa de maior criatividade, expressa por essa frase que abre uma nova página na literatura brasileira: “A validade desta LO (Licença de Operação) está condicionada ao cumprimento das condicionantes constantes no verso deste documento....”. Como se sabe, a língua é viva. E, assim, o que era condição para acontecer virou condição depois do acontecido.

Mas, assim como as autoridades do IBAMA e da FUNAI acreditam, aquele que acha que a lama jamais chegará à sua porta, muito menos à sua garganta, também tem certeza de que é justamente agora, quando a Norte Energia já conseguiu tudo o que quer, que a empresa fará questão de cumprir cada uma das suas obrigações legais. Faz todo o sentido. É sempre um prazer constatar que as ações do governo estão em sintonia com o pensamento lógico.

A barragem de rejeitos de mineração da Samarco (leia-se Vale e BHP Billiton) que rompeu tinham como condicionante um plano de contingência.

E a lama avança.

Belo Monte começa a encher o lago num momento em que a região passa por uma seca histórica e a vazão do rio está perigosamente baixa. Antes, havia uma resolução da Agência Nacional de Águas (ANA) permitindo o enchimento do reservatório apenas entre janeiro e junho, fora do período de estiagem. Mas ela também foi derrubada, como denunciou o repórter André Borges, do jornal O Estado de S. Paulo. Cerca de 1.800 famílias expulsas de suas casas e ilhas procuraram a Defensoria Pública da União em busca de justiça. A população atingida só teve acesso à assistência jurídica no início deste ano de 2015, cinco anos após o leilão da obra. Também o governo não cumpriu com suas obrigações, como homologar a Terra Indígena Cachoeira Seca, a mais desmatada do Brasil: só em 2014 saiu dali uma quantidade de madeira capaz de encher 13 mil caminhões madeireiros.

Lideranças da floresta amazônica e organizações socioambientais denunciam que ninguém sabe o que acontecerá com o Rio Xingu e com todos que vivem nesse delicado ecossistema. Denunciam que ninguém consegue avaliar com a necessária precisão o tamanho do impacto da operação de Belo Monte, já que os órgãos fiscalizadores dependem das informações e análises fornecidas pela própria empresa. Como os órgãos também eram dependentes na catástrofe da bacia do Rio Doce, que já alcançou o oceano.

Mas talvez aquele que acredita que a lama jamais chegará à sua porta conclua que todas essas pessoas que alertam para o impacto de Belo Monte nada sabem do “interesse nacional”. Diante do temor e da dúvida, é preciso invocar a frase da presidente do IBAMA, para recuperar de imediato a tranquilidade e a confiança no desenvolvimento: “Postergar a licença de operação seria punir o Brasil”.

E a lama avança.

E a lama avança para muito além, derrubando as fronteiras entre o público e o privado, entre os partidos e também entre os poderes, se imiscuindo a cada dia um pouco mais, empapando os dias, emprestando ao cotidiano a sua textura tóxica. E também aí ninguém sabe até aonde a lama pode chegar. Quantos pontos ela poderá ligar não apenas nos contratos da Petrobras, mas também no setor elétrico. E talvez adiante.

E a lama avança.

A mudança climática marca o momento em que o homem não apenas teme a catástrofe, mas torna-se a catástrofe. É assim que o Brasil chega à Conferência do Clima, em Paris: levando no currículo “o maior desastre ambiental da história do país” e a Licença de Operação à Belo Monte, mais uma barragem gigantesca na Amazônia como fato consumado.

E a lama avança.

Que momento da história do Brasil, este em que há tanta lama por todos os lados e, ao mesmo tempo, essa lama concreta, que avança e que mata. Essa lama das imagens, essa lama morta que parece viva porque anda, essa que só rompeu a barragem que a segurava por conta da lama ainda mais tóxica que a precede. O momento da história em que a lama rompeu a barragem do simbólico para invadir o real em sua forma concreta.

Diante de tantas autoridades, em tantas esferas, que frente à lama dizem agir “em nome do interesse nacional”, talvez seja a hora de começar a pintar a nossa Guernica para tentarmos uma representação da catástrofe. Uma Guernica de imagens, mas também de vozes. Uma Guernica de memórias e de testemunhos. Uma Guernica que confronte “o interesse nacional” e que o denuncie. Uma Guernica que exponha a perversão das barragens e também das fronteiras.

Porque a lama avança. E aquilo que atravessa o vão da porta da casa já não é poeira.



Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site:desacontecimentos.com Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:@brumelianebrum

19 janeiro 2016


No início de 2015, a performer sérvia Marina Abramovic veio ao Brasil e propôs um experimento ao público: as pessoas deveriam caminhar silenciosamente pelo espaço de um centro cultural com fones de ouvido que evitavam qualquer barulho durante quatro horas. Nesta experiência de imersão e sem distrações, a proposta da artista era que o público estivesse presente no aqui e agora e vivenciasse a quietude.
A falta de conexão com o momento presente é um sintoma da sociedade contemporânea. Quantas vezes você acessa a internet por dia, lê notícias em tempo real, responde a e-mails ou envia mensagens e fotos aos amigos via celular quase tudo ao mesmo tempo?
Hoje consome-se informação e dados a qualquer hora e em qualquer lugar. O fácil acesso à tecnologia e a mobilidade dos smartphones e tablets transformou o mundo em um ambiente cada vez mais hiperconectado e imediatista.
O brasileiro conhece bem essa realidade. Dados da comScore de 2014 mostram que nós passamos em média 650 horas por mês acessando as redes sociais (se você não fez a conta, um mês de 30 dias, por exemplo, tem um total de 720 horas). Já o estudo AdReaction 2014, da consultoria Millward Brown, indica que brasileiro gasta em média 149 minutos no smartphone e outros 66 minutos no tablet por dia.
A ascensão das redes sociais gerou duas necessidades: é preciso estar sempre conectado para conseguir se relacionar com a sociedade e registrar constantemente os fatos da vida.
Se por um lado a tecnologia é uma aliada do dia a dia, por outro, o crescente ritmo de receber e enviar mensagens, curtidas ou cliques em vários sites ao mesmo tempo pode gerar um excesso de informação. Pesquisas demostram que o uso excessivo de tecnologia pode resultar em estresse, distração e dependência.
Para muitas pessoas, deixar a tecnologia de lado pode parecer impossível. A Associação Americana de Psiquiatria já considera a dependência da internet como um transtorno mental. Para os psiquiatras e psicanalistas, a vida online vicia tanto quanto álcool e drogas.
Segundo o Manual Diagnóstico de Transtornos Mentais, viciados passam, em média, seis horas e meia online todos os dias, e apresentam depressão, ansiedade e transtornos de personalidade.
Outro novo transtorno classificado pela medicina é a nomofobia, o medo de ficar sem celular. Segundo uma pesquisa feita pelo provedor de serviços SecurEnvoy, 66% dos entrevistados no Reino Unido têm medo de perder ou ficar sem celular, o objeto que mais tempo passa conosco.
Para o sociólogo polônes Zygmunt Bauman, o mundo contemporâneo é marcado pelo efêmero, no conceito que ele cunhou como “sociedade líquida”.
O autor destaca no livro “Cegueira Moral”, que no mundo de hoje, se você não está nas redes sociais, não está em lugar nenhum. Isso levaria a uma exclusão social. A velocidade de consumo de informações também levaria a uma perda de sensibilidade e a um aumento da sensação de vazio.
"A nossa era é móvel e sem a possibilidade de vanguardas. A melhor mulher, a melhor refeição e a melhor oportunidade são sempre as próximas. Não aproveitamos mais cada momento, vivemos pela performance e pelos likes. Pagamos pelos próprios pecados antes mesmo de cometê-los”, escreve Bauman.

Multitarefas

Você já falou ao celular enquanto mandava uma mensagem nas redes sociais ou enviava um e-mail? Dados do Google de 2015 mostram que 69% dos usuários pegam o celular no meio da conversa para olhar alguma informação relativa ao papo.
O hábito de acessar ou fazer várias coisas ao mesmo tempo (prática conhecida como “multitasking”, em inglês) já foi considerado como positivo em ambientes de trabalhos. Mas estudos indicam que a prática pode afetar o raciocínio.
Em um estudo de Stanford, pesquisadores descobriram que os multitaskers eram menos eficientes por serem mais suscetíveis ao uso de informações irrelevantes e de memórias inapropriadas. Quem faz muitas tarefas ao mesmo tempo acaba se tornando menos produtivo em cada uma dessas tarefas. Isso porque o cérebro faz conexões mais eficientes quando nos concentramos em uma tarefa por vez.
Para especialistas, estamos na “era da distração”, na qual as pessoas estão dispersas demais. A facilidade em obter informações favorece a distração e a falta de raciocínio em profundidade, tornando-nos consumidores rasos de informação e influenciando problemas cognitivos.
Em alguns casos, a dispersão pode representar um verdadeiro perigo. Um relatório do Conselho de Segurança Nacional mostra mandar mensagens enquanto caminhamos pela rua aumenta o risco de acidentes. Mais de 11 mil pessoas se machucaram em 2014, nos EUA, ao andar e falar em seus telefones ao mesmo tempo.

O desejo de desconectar

Nesse mundo conectado 24 horas por dia, cresce cada vez mais o desejo de se desconectar. Nos Estados Unidos e no Brasil já existem os chamados acampamentos de desintoxicação digital, voltados para proporcionar uma experiência afastada das cidades e da tecnologia, próxima à natureza. 
Um dos mais famosos acampamentos nessa linha é o norte-americano Detox Digital, que envia um questionário para os internautas interessados com perguntas como: você checou o Facebook nas últimas 48 horas? Você costuma buscar algum dispositivo eletrônico em qualquer minuto de pausa? 
A tendência de buscar a quietude e a desaceleração se espalha para outros aspectos além da tecnologia. Hoje em grandes cidades, o silêncio virou artigo de luxo. E não é só modo de dizer.
Em 2014, a revista Fortune apontou que as pessoas estão dispostas a gastar mais dinheiro para experimentar lugares calmos e silenciosos.
Algumas marcas já estão de olho na tendência. Resorts e hotéis de luxo já estão investindo em “zonas livres de barulho”, com paredes à prova de ruídos e jardins zen.
Recentemente a empresa de trem Amtrak criou o Amtrak’s Quiet Car, um vagão que pode ser desfrutado pelo passageiro e que tem sido muito disputado nos Estados Unidos. O diferencial? O silêncio é a regra do ambiente.
Já um aplicativo chamado Stereopublic pede para os usuários mapearem os pontos da cidade que são silenciosos ou barulhentos.
Isolar-se da poluição visual, sonora e de informação é uma forma de se reconectar consigo mesmo. Mas a vida online e o mundo interligado são um movimento sem volta. O que se busca é o equilíbrio entre as duas pontas.

BIBLIOGRAFIA

Vivendo Esse Mundo Digital – Impactos na saúde, de Cristiano Nabuco e Evelyn Eisenstein (Artmed, 2013)
Diferentes, Desiguais e Desconectados, de Nestor Garcia Canclini (UFRJ, 2005)
Modernidade e Ambivalência, Zygmunt Bauman (Zahar, 1999)
Cegueira Moral, Zygmunt Bauman (Zahar, 2014)

Carolina Cunha
Visto: Uol
Por Patricia Zaidan.
Nunca tinha ouvido falar em casamento infantil no Brasil até 2013. Fiquei estarrecida. Como podia ser verdade? Supunha que fosse uma realidade da África Subsaariana ou do Sul da Ásia, onde fome ou tradições e ritos se impõem. Quem deu a informação foi a assistente social Neilza Buarque Costa, da ong Visão Mundial, ao debater o documentário Girl Rising (Richard Robbins), segundo o qual 66 milhões de meninas estão fora da escola, em todo o Planeta, e uma das razões é o matrimônio precoce. Mas eu imaginei: se tem aqui, deve ser uma situação isolada num rincão profundo.
Por dois anos não me saiu da cabeça um caso da Paraíba, que Neilza contou à plateia: um homem queixou-se à sogra, porque sua mulher, de 12 anos, nunca estava em casa quando ele chegava. Passava as tardes brincando de boneca com a filha da vizinha, deixava a roupa sem lavar, a cozinha suja… Comecei a pesquisar. Tive notícias de tantas adolescentes se submetendo a um marido violento, com dois ou três filhos nos braços. E de homens – alguns com mais de 40 anos – que adoram casar com menininhas firmes de carne e a quem eles podem moldar o caráter.
O tema passou a me doer. A reportagem “Noivas Meninas” está nas bancas, na edição de janeiro, de Claudia – um fôlego que juntou o fotógrafo Victor Moriyama, a estagiária Gabriela Abreu e eu. A primeira descoberta: não se trata apenas de casos em um grotão perdido. O casamento infantil ocorre na maior economia brasileira – a cidade de São Paulo -, na região metropolitana de Curitiba, no Tocantins, em Minas, nas capitais do Pará e Maranhão… Difícil descobrir onde não tem. Hoje, 554 mil garotas de 10 a 17 anos são casadas, calcula um estudo do Instituto Promundo, com base no IBGE, publicado em setembro passado. Como a lei considera crime o sexo com menores de 14, mesmo que consensual, a maioria das uniões é informal. Ainda assim, em 2013, Campo Grande casou no cartório o maior número de brasileirinhas. Partimos atrás de uma amostra nacional. O texto começa assim:
“Catingueiras magricelas e peladas, sol forte, uma cabrita, um bode e algumas galinhas são quase tudo que Ivonete Santos da Silva, 14 anos, vê ao longo do dia e por semanas a fio. Mãe de Rayslani, 1 ano, ela dorme cedo. A casa de taipa onde vive, no sítio Lagoa Nova, em Inhapi (AL), a 289 quilômetros da capital, Maceió, não tem lâmpadas nem TV. Ivonete juntou-se aos 12 anos com Sislânio Silvério, 21, seu primo. Deixou a escola sem aprender a unir as letras: “Era aperreio demais, tudo acontecia na hora do almoço, tinha que fazer comida, me arrumar, sair para estudar”. Não se arrepende. “Só quando estou bem estressada, limpando a casa, e a menina acorda chorando, penso: ‘Meu Deus, o que eu fiz?’ ” Ainda assim, considera que está melhor do que no tempo em que vivia na casa materna. “Um dia, saí calada, o povo estava todo lá pra dentro. Fui embora com Sislânio.” Ele trabalha na roça. Quando tem roça. Há cinco anos, o sertão enfrenta uma seca bruta; a terra está tão dura que é impossível plantar. Na única panela, no fogãozinho de barro, há feijão. Ivonete não faz planos, não pronuncia desejos – pelo menos a estranhos que invadem sua rotina -, mas responde como se sente: “Não sei direito. Sou um pouco mulher, pequena demais, meio criança também”. Quando fecha os olhos, do que se lembra? “De mim desenhando pé de maçã, árvore de morango.” Mesmo que morangos amadureçam a não mais que 30 centímetros do chão, era esse seu deleite na sala de aula. Queria ser professora, acha que não dá mais tempo. “Espero que minha filha case bem tarde, só com 17 anos, e não engane a escola para aprender tudo bem direitinho”, diz.
Depois de Inhapi, percorremos Canapi (AL), Colombo (PR), e uma das maiores favelas do país, Heliópolis – não haveria nenhuma dificuldade de encontrar meninas casadas nessa comunidade paulistana. Enquanto Victor fotografava, ali, Thainá Darri, 17 anos, casada desde os 15, dezenas de meninas iam se juntando para saber o que fazíamos. Dei a pauta e elas quiseram saber porque tanta curiosidade sobre algo tão comum. Várias, entre 14 e 16, carregavam um filho.
Thainá é um caso diferente, tem uma consciência política clara, é feminista, está no conselho do meio ambiente da região e é a única das entrevistadas que concluiu o segundo grau. Acabava de receber o resultado do laboratório – positivo para gravidez – e decidiu adiar os planos de fazer uma faculdade. No seu discurso, me chamou a atenção a explicação para seu casamento aos 15: queria privacidade com o namorado e, de certa forma, proteção. “Aqui, as meninas se jogam no funk, bebem e nem sabe quem é o pai do filho delas. O casamento me poupou disso.”
Ana Clara e o marido Jaílson (Foto: Victor Moriyama/Revista CLÁUDIA)
Ana Clara e o marido Jaílson (Foto: Victor Moriyama/Revista CLÁUDIA)
Mãe de Michel Júnior, casada em Canapi desde os 14, Ana Clara dos Santos, 16, fugiu de casa para ficar com seu amado, Jaílson de Oliveira, na época com 16. Duro para ambos é deixar o bebê aos cuidados da mãe de Ana, porque eles não têm condição financeira de criá-lo. A alagoana Jamille Henrique ganhou, aos 14, uma aliança e se viu livre da lida pesada com seus oito irmãos, além do jugo do pai alcoólatra. Embora tenha em Marcelo um parceiro divertido, e com quem gosta “de brincar e de fazer sexo”, seu semblante é triste e sua concepção sobre a vida de mulher, medonha: “Todas apanham. Não acho bom, mas é o que acontece”.
Monique e sua Maria Clara (Foto: Victor Moriyama/Revista CLÁUDIA)
Monique Barbosa, aos 15, parece uma madonna, de Michelangelo, com sua Maria Clara sempre a tiracolo. Essa Pietá de Colombo (PR), queria ser policial, mas desistiu, está fora da escola, cansada dos afazeres domésticos e do ciúme do marido. Na mesma cidade, Joyce Pinheiro, mãe de gêmeas aos 15, teme as estrias e que o marido a troque por uma menina mais magrinha. Ela conta: “Das 20 colegas que estudavam comigo, 16 estão casadas ou são mães solteiras”. Ouvimos vários especialistas para entender o fenômeno.
Joyce, Kauany Vitória e Karyne Manuele (Foto: Victor Moriyama/Revista CLÁUDIA)
Joyce, Kauany Vitória e Karyne Manuele (Foto: Victor Moriyama/Revista CLÁUDIA)
Saio das reportagens carregando as personagens em mim. Demoro a tirá-las do pensamento. Ivonete, a sertaneja do sítio sem luz, me abraçou longamente quando nos despedimos. Prometi enviar uma revista para alguém ler para ela. E também uma fotografia ampliada. Essa menina-mãe nunca teve uma foto sua. De todas as personagens, foi a que mais interagiu com a câmera. Tem uma força no olhar inexplicável. Encarava as lentes de Victor com muita naturalidade e firmeza. Fico imaginando como Ivonete fará para desamarrar o nó, desbancar seu destino e vencer as agruras todas que enfrenta desde o nascimento. Algo me diz que ela vai conseguir.
Visto: Desacato


Na contemporaneidade é cada vez mais comum a oferta de discursos de salvação e de eliminação de angústias, implicações e conflitos aos indivíduos. Oferecimento de “pílulas” de felicidade, vida paradisíaca e sem interrogações. Dentre as “pílulas” mais comuns, estão as diversificadas “próteses emocionais e afetivas”, que retiram do sujeito a responsabilidade pelas implicações originárias de seu percurso, escolhas e decisões.
Um dos principais reflexos do mal-estar contemporâneo é a existência de diversificados sintomas psíquicos e físicos (pânico, depressão, insônia, transtorno alimentar, impotência sexual, etc.), que são os sinais de alerta e convite para o indivíduo enfrentar as interrogações, impasses e conflitos existentes entre seus desejos, sua singularidade e as convenções sociais e civilizatórias. Mas, observamos a proliferação e exaltação de discursos de salvação que acabam por eliminar os “incômodos” (é proibido ficar triste!!!) e oferecer “saída fácil” e rápida para “todos os males e problemas” originários de conflito psíquico e mal-estar existencial.
A adesão fácil a estes discursos de salvação e de “pílulas de felicidade” tem caracterizado a sociedade contemporânea, cada vez mais ávida por soluções fáceis para questões de ordem subjetiva, que não são atingidas pela objetividade, racionalidade ou pela capacidade de consumo. Indivíduos massificados que evitam a todo custo fugir das implicações, conflitos e impasses de suas realidades psíquicas, por isso acabam por entregarem-se á aqueles “iluminados” e “bondosos” que querem dar solução para suas perturbações cotidianas.
Este indivíduo acaba por eliminar o componente humano de sua interação social, principalmente quando transfere e corrobora seus afetos para os vínculos originários das redes sociais, estas que acabam por fortalecer a superficialidade e a morte do sujeito na contemporaneidade. Vive, interage, deseja (virtualmente apenas), sem o ônus de todas as implicações do vínculo humano e verdadeiramente interativo.
As redes sociais oferecem “próteses” e “pílulas” que servem de sustentação exatamente para indivíduos que não conseguem de forma alguma interagir com a vida real e com o componente humano das relações sociais. Por isso consegue em sua conta, ser um (vibrante, agradável, viril, amoroso, inteligente) e na vida real concreta ser outro (fútil, indiferente, tacanho, agressivo). Sem perceber, em sua busca pelo aplauso e aceitação, alimenta sua própria miséria existencial e foge do mal-estar, das implicações que o cotidiano lhe impõe a todo instante.
Alguns, por conta de sua rotina de hiper-conectividade e de miséria nos vínculos humanos, parecem incapazes de enxergar suas realidades interna e de resistirem à tentação da superficialidade, da solução rápida e do gozo fácil. Incapaz de desenvolver o que um sujeito humanamente interativo necessita para constituir-se no cotidiano: lucidez crítica.
A nova sociabilidade trazida pelas redes sociais é sustentada exatamente pela morte do sujeito na contemporaneidade. Pois muitos indivíduos não parecem pessoas constituídas de elementos humanos e subjetivos e sim máscaras perambulantes em busca de aceitação e aplauso. Que flutuam pelos slogans e a fácil adesão aos apelos do gozo fácil e do preenchimento narcisista e sem interação concretamente humana.
Dentre potentes mecanismos persuasivos está a exaltação da cura medicamentosa dos males do indivíduo contemporâneo. Tomar a medicação, eliminar momentaneamente o sintoma e retirar deste mesmo a sua parcela de responsabilidade na produção dos incômodos e sintomas (principalmente os referidos a depressão). Evitar a todo custo o caro e comprometedor diálogo do sujeito com o seu mal-estar, sua angústia e os conflitos permanentes do cotidiano.
E quem são estes “bondosos” e “altruístas” que querem “curar”, aconselhar, “acolher” os problemas do indivíduo e dar-lhe soluções rápidas, pacíficas e paradisíacas? Charlatões de variadas tinturas, aliadas à indústria farmacêutica, corporações midiáticas e do entretenimento alienado. Com exígua inteligência e poderosos disfarces, conseguem explorar vulnerabilidade e ignorância dos aglomerados humanos. Daí, são construídos seus imbatíveis impérios econômicos e politiqueiros.
Segue o indivíduo contemporâneo, em seu cotidiano, amparado por “próteses emocionais”, “pílulas de felicidade”, soluções rápidas, curas medicamentosas, sociabilidade virtual, alegria de plástico, discursos e lugares que lhe dão uma vida sem implicações e impasses internos a resolver. Porém, uma simples interação com a vida real e situações (concretamente) humanas denuncia a precariedade, vazio, mendicância afetiva, aleijo social e miséria existencial deste, que se nega a enfrentar o mal-estar e implicações inerentes à sua própria vida.
Por estes motivos (por outros também), é que métodos terapêuticos como a Psicanálise são criticados. Exatamente por convidar o indivíduo a responder seus enigmas, implicações e dilemas, a discernir, historicizar, contextualizar seu próprio percurso e construção como pessoa.
Não existem pílulas e “solução rápida” capazes de eliminar angústia e mal-estar de nossa prática cotidiana. Que a todo instante nos convida através de sintomas (ou de estranhas manifestações) a refletir que somos sujeitos de nossos percursos e construções, que nos exigem implicações e responsabilidades que deveriam ser assumidas apenas por nós mesmos.
Quatro mulheres -- três das quais, bruxas -- numa gravura medieval
Quatro mulheres — três das quais, bruxas — numa gravura medieval
Na base do projeto de lei 5069 há uma concepção medieval: a de que mulheres são seres suspeitos, de palavra inconfiável e corpo frequentemente pecaminoso
Por Alyson Freire
A admissão do projeto de lei (PL) 5069/13 do deputado Eduardo Cunha pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados na última quarta feira, 21/10, mostra como ainda não estão consolidados os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres. O projeto é animado por um ímpeto de negar atendimento às mulheres e meninas vítimas de violência sexual. Prevê, mesmo nos casos em que o aborto é permitido, punição aos profissionais de saúde que facilitarem este procedimento. Revela que persiste enorme dificuldade de reconhecer as mulheres como seres autônomos, pessoas plenas e capazes racional e moralmente de se responsabilizar por suas próprias ações e decisões – especialmente no que diz respeito às gestações.
As novas restrições tencionadas pelo projeto para dificultar o acesso aos procedimentos abortivos — no caso, previstos em lei – atingem, no entanto, mais do que o reconhecimento da autonomia feminina. Elas colocam em suspeição o valor da palavra das mulheres, e, nesse sentido, a violação do corpo e da palavra podem formar, com o auxílio das instituições, um mesmo e perverso golpe.
O PL pretende exigir das vítimas de estupro a submissão a exame de corpo de delito e registro de boletim de ocorrência para comprovar a violência sexual. Sua palavra já não basta. De maneira cruel, acrescenta-se uma segunda violência e violação à vítima. Dessa vez, uma violência que parte das próprias instituições que deveriam resguardar e garantir o respeito a integridade e o reparo ao dano físico e psicológico que vítimas sofreram de modo tão traumático. Há uma evidente má fé institucional nessa iniciativa de lei, que passar por cima das dores e desconforto das vítimas, porque não lhes reconhece direito pleno à verdade e aos seus próprios corpos. A suspeição sobre as palavras das mulheres por meio de procedimentos de poder visa regular os corpos femininos, não apenas como agentes não-autônomos, mas como espaços perigosos e frágeis no tocante à verdade. O que, com efeito, reforça a condição de subordinação, na medida em que não reconhecer um discurso, ou melhor, um sujeito como digno de confiança e verdade significa rebaixá-lo e submetê-lo ao poder de outrem.
Nossa sociedade, como mostrou o filósofo Michel Foucault, é dominada por uma vontade de verdade – quer dizer, pela atuação de procedimentos e mecanismos variados que pretendem controlar, selecionar, excluir e organizar os discursos como verdadeiros e falsos, e, assim, conjurar seus poderes e perigos. Aquilo que é dito como verdade, que reivindica a condição de verdade tem de se apoiar numa rede de poderes e passar por constrangimentos variados que o sancionem na condição de um discurso verdadeiro. Ora, na “política geral da verdade” das sociedades ocidentais, nos jogos de poder entre o verdadeiro e o falso, as mulheres são historicamente enxergadas como forças ambíguas e potencialmente ardilosas, que podem embaralhar e confundir os juízos. O PL de Cunha está dentro dessa maquinaria de poder que regula os discursos, ou melhor, reforça a subordinação e exclusão das pessoas com base na deslegitimação de sua palavra e discursos como sendo insuficientes e suspeitos.
Nesse sentido, poder-se-ia afirmar que a exigência dos exames de corpo de delito e do Boletim de Ocorrência são procedimentos de poder que retiram das vítimas à condição de sujeito em relação à verdade – a de sua própria experiência de violação. Essa verdade deve ser buscada não na fala da vítima, mas arrancada do seu corpo, um corpo mudo, ou melhor, emudecido. O discurso da vítima não interessa, não há nada o que de relevante ouvir e aprender com ele, porque esse discurso não é confiável. O que importa são as marcas internas no corpo e o discurso que o poder enuncia a esse respeito. São eles que sancionam a verdade, que atestam sua materialidade. A vítima é só um corpo, talvez até um corpo mentiroso, mal-intencionado. Ele não pode dizer a verdade. Então, é preciso purgar a verdade em relação ao corpo que a tenta dizer. Um corpo enxergado como duplamente maculado: primeiro, por ser feminino, segundo por ter sido violado. Não é simplesmente a palavra o que se nega, mas o reconhecimento insuspeito de que aquele corpo possa emitir uma verdade segura e confiável. Então, a verdade para surgir em sua luz natural precisa ser purificada dos pecados desse corpo que a esconde. Pecados de diversas ordem: pecado de ser mulher, pecado sexual.
Trata-se, com efeito, de uma verdade que, mais do que confessada, precisa ser arrancada do corpo. E por que? Por estar em um corpo suspeito e perigoso que precisa ser devidamente regulado e controlado, pois, por ser o que é, isto é, um corpo feminino, está envolto de desconfianças. A palavra não vale o mesmo, nem ela é avaliada sem referência aos sujeitos que a enunciam. Existe uma estrutura desigual de legitimidade e confiabilidade da palavra. E, nessa estrutura, as divisões de gênero, como as de raça e classe, são historicamente constituintes para definir o lugar e a legitimidade social do verdadeiro e do falso em nossa sociedade.
De um ponto vista cultural mais amplo, o PL de Eduardo Cunha se inscreve e alça ao presente um imaginário social profundamente obscurantista em relação às mulheres. É como se fosse necessário buscar, por trás de suas palavras e intenções, algo que elas podem esconder. Por isso, a proposta lembra, em certa medida, o Malleus Maleficarum (“Martelo das Bruxas”), infame manual inquisidor do final de 1487, sobre como identificar e reconhecer bruxas e feiticeiras. Cunha, como os inquisidores, concebe-se em uma cruzada moral como um caçador de “bruxas”, das “bruxas” abortistas, que querem ludibriar os poderes com os seus feitiços.
Na história do Ocidente, em suas mais diversas culturas, pesou desde muito, sobre as mulheres e seus corpos, um conjunto de imagens e narrativas que as estigmatizaram como o lugar da malícia, do ardil, da tentação, do perigo, do mistério e da perdição. O corpo da mulher foi representado sistematicamente como habitado por forças e qualidades perigosas que facilmente poderiam conduzir ao erro, à injustiça, à mentira. Nas mitologias, as mulheres, como Pandora e Eva, são a porta do mal pelo qual entraram no mundo o pecado, a morte e a desgraça. Nos cantos das sereias de Homero ou nas armadilhas de Cila e de Caríbidis, a ideia dos perigos terríveis capazes de desencaminhar por completo os homens em seus objetivos. Os julgamentos inquisitoriais sobre as bruxas e seus exercícios e técnicas de apuração exprimem a tensa relação de poder e desconfiança que se construiu sobre as mulheres no Ocidente. O corpo feminino foi construído culturalmente como algo diante de que deve-se ter cuidado e cautela para não ser por ele enganado, tragado, contaminado, seduzido. A dissimulação, a mentira, o fingimento, o feitiço, o veneno, a vingança seriam artes diabolicamente femininas. No Ocidente, portanto, há um medo e ansiedade históricos em relação às mulheres e ao seu corpo.
Além de todo os jogos de poder e interesse presentes nas atuais correlações de força entre congresso e governo, subjaz um imaginário social misógino que sustenta moralmente, num nível tácito, as concepções e decisões de apoio e legitimidade ao dito PL de Eduardo Cunha, fazendo com que ele prossiga tramitando na Câmara.
Este imaginário está, também, na raiz de nossa dificuldade histórica de reconhecer nas mulheres pessoas plenas e integrais em suas faculdades. O Projeto de Lei 5069/13 atenta contra uma condição fundamental para a formação de um sentimento de autonomia e identidade, qual seja: o controle sobre seu corpo e o respeito social por suas decisões e projetos de vida.

08 janeiro 2016


A nudez tem sido encarada de diferentes formas ao longo da história. Desde o mito de Adão e Eva até as atuais praias de nudismo, a visão da sociedade em torno da exposição do corpo ganhou novas conotações, muitas delas, porém, ainda ligadas à luxúria e ao pecado. O que não mudou foi o gueto onde a nudez é apresentada. Antecedente ao sexo, o nu, fortemente censurado pelo conservadorismo social, continua sentenciado aos prostíbulos, bordeis, revistas e sites de sacanagem, onde os interessados podem realizar suas fantasias mais lascivas, satisfazendo-se às escondidas. Entretanto, é na vigente geração celular que tal prática ganhou visibilidade. O fenômeno do mandar nudes vai muito além do envio de fotos íntimas. Representa uma transformação das relações interpessoais, também no modo como o indivíduo sente e dar prazer. Ao mesmo tempo, traz à tona problemáticas ligadas a abusos, constrangimentos e violências sexuais, numa sociedade carente de diálogo sobre sexo.

Justiça seja feita, essa conduta do nu pessoal não é mérito prioritário desses novos adventos tecnológicos. A história do Brasil começou a se desnudar, a princípio, com o choque entre os lusitanos e os nativos indígenas, no interessante embate entre a moral portuguesa e a amoralidade da nova terra. Anos depois, veio a controversa visão da inferioridade negra na escravidão, quando a nudez dos escravos era usufruída pelos senhores de engenho também para fins sexuais. O nu já foi tema de quadros e esculturas famosas. Esteve presente em histórias míticas como a do paraíso. No entanto, a nudez tal qual se conhece hoje em países ocidentais como o Brasil foi adquirida a duras penas. As peças foram diminuindo até que fosse possível o indivíduo ser visto com poucas roupas ou quase nada. O espartilho e pesados vestidos foram anos depois substituídos pelos tomara-que-caia e as minissaias. Depois vieram os biquínis, o topless, o carnaval escandalizando tudo ao trazer a nudez à avenida. O cinema, a moda, a música, as artes em geral, simultaneamente deram sua parcela para esse fenômeno que sempre esteve entre a inovação e a transgressão. O que o nudes tem de novo é a afronta a moralidade do país.

Em uma sociedade educada a não externalizar seus desejos, é no mínimo interessante saber que o nudes esteja acontecendo nesse momento em milhares de aparelhos celulares pelo país. Isto porque, aprende-se desde cedo a “esconcer as vergonhas”, até mesmo diante de familiares e amigos, para que só seja vista no ato conjugal, sobretudo após o matrimônio. Esse recato, porém, parece ter sido vencido pelas redes sociais, e os novos meios de interação. Por ser individual, rápido e discreto, o celular se tornou o meio pelo qual as fantasias se realizam. O indivíduo pode photoshopar as imagens antes de manda-las. Pode escolher qual parte do corpo ficará melhor na foto, bem como que ângulo vai valoriza-la. Pode enviar para mais de uma pessoa aumentando seu êxito na paquera. Ainda tem a opção de esconder as fotos pessoais e guardar as alheias, evitando que alguém tenha acesso a esse conteúdo. Os locais também variam: desde de clichês como quartos e banheiros, a exóticos como ônibus, praças e até em espaços teoricamente proibidos como jurídicos e religiosos.

Em todo lugar é possível posar sensualmente para as lentes de um aparelho eletrônico e enviar fotos picantes para futuros pretendentes a namoro, ou apenas a um sexo casual. Ou seja, a piscada no olho, o toque nas mãos, o assovio, até mesmo a velha cantada, parecem estar com os dias contados. A frase “vamos nos conhecer melhor” transformou-se em “manda uma foto da tua...”. O nu volta a ser exaltado. Ele é a porta para a complexidade do outro, uma espécie de convite ao prazer subentendido. Os obstáculos morais e sociais são ignorados. Há uma troca de etapas. Antes se conhecia o parceiro para depois se chegar aos finalmente. Hoje o finalmente é o princípio. O sexo se realiza agora na velocidade de um byte. Não é preciso mais tantos diálogos. As pessoas se mostram umas às outras como em um menu, esperando para serem consumidas. É o prazer pelo prazer. O sexo como protagonista. O ser hedonista sem máscaras nem amarras. Sem perceber, a prática do manda nudes resgatou dois pontos caros à humanidade: o nu e o sexo, ambos poucos discutidos e muito polemizados.

Em contrapartida, não adianta resgatar essas questões sem problematiza-las no tempo e espaço em que elas ocorrem. Na realidade, mesmo com o conservadorismo político-religioso e social, nunca se mostrou tanto o corpo, e de forma tão precoce, do que na atualidade. Há muita orientação contra doenças venéreas, mas pouco se fala sobre sexo, sexualidade, orientação sexual, identidade de gênero, consciência corporal, dentre outras pautas pertinentes ao entendimento do prazer humano. Sem esse conhecimento, jovens crescem à mercê das influências a sua volta, numa sociedade palpavelmente ligada ao sexo. A sociedade cheira a sexo. Na mídia, na música, na moda, na escola, na rua.... Nas proibições não explicadas. Tudo é um convite ao sexo desinformado. O nudes é uma prova disso. Não é difícil encontrar na rede blogs e sites destinados a mostrar fotos de meninos e meninas em poses eróticas, ou até fazendo sexo. Ou seja, indivíduos que mal se apoderaram da própria sexualidade são levados a fazer parte de um mundo onde o exibicionismo gratuito é confundido com liberdade sexual.

Numa sociedade imagética, o ideal é parecer ser. Por isso que as redes sociais são tão populares e ganham tantos adeptos. As pessoas ali conctadas muitas vezes desconhecem os dilemas vividos pelo país na atualidade. Elas estão mais preocupadas com sua própria imagem, literalmente falando. Saõ fotos ousadas mostrando muito mais do que o corpo pode oferecer. Diante de tanta exibição, muitos indivíduos, sobretudo jovens, são sexualizados por cliques e comentários elogiosos sem perceber o perigo que reside nisso tudo. A sexualidade só pode ser exercida em plenitude a partir do momento em que o indivíduo passa pela maturação necessária para se entender enquanto sujeito sexual, dentro de um espaço plural onde a sexualidade dele faz parte de uma pluralidade maior e legítima. Sem esse entendimento, a sexualidade fica incompleta, deturpada, o que pode resvalar em problemas ligados a baixa estima, inaceitação, frustração, dentre outras patologias sociais e biológicas. Nesse sentido, o manda nudes tem se configurado, na vida desses jovens incipientes e despreparados para a iniciação sexual,  mais como um contato narcisistico com sexo, e por isso perigoso, do que como uma prática salutar.

Ao mesmo tempo que o manda nudes fez uma reviravolta na vida sexual das pessoas, possibilitando-as novas experiências, também mexeu com questões ainda pendentes na sociedade. Um delas diz respeito a corporificação da mulher. Elas infelizmente são os principais alvos e vítimas da violência sexual na rede. Geralmente, quando fotos íntimas são enviadas numa interação virtual não há garantias de que estarão seguras. A prova disso é que a prática do Sexting, o vazamento de imagens íntimas, que tem trazido graves prejuízos as vítimas. Nos EUA, por exemplo, há inúmeros casos envolvendo suicídios por constrangimento. No Brasil, há diversos casos parecidos, envolvendo até invasão de contas privadas de  personalidades, como o que ocorreu com a atriz Carolina Dickman e que resultou numa lei de mesmo nome. O problema se agrava ainda mais porque jovens moças, em sua maioria menores de idade, tornam-se presas fáceis da violência sexual na internet. Vítimas do sexismo que impera na sociedade, elas se veem encuraladas pelo machismo que dita até onde a sexualidade delas pode ir. Quando há qualquer transgressão, mesmo que inconsciente, elas são penalizadas pelo discurso facista da moral e dos bons costumes.

Para completar esse lado negativo do manda nudes, há a proliferação das Infecções Sexualmente Transmissíveis – IST e a AIDS. Recentemente, uma pesquisa feita pela Unicef na região entre o Pacífico e a Ásia constatou a proliferação de diversas infecções sexuais em função da popularidade dos aplicativos de paquera. Na verdade, paquera aqui é um eufemismo para pegação e sexo casual. Em muitos destes dispositivos, no momento em que a interação acontece, o manda nudes se materializa e, depois, acontece o sexo, muitas vezes sem proteção e com mais de uma pessoa. O resultado disso é o aumento de indivíduos infectados com o vírus da AIDS, principalmente na faixa etária entre os 15 aos 29 anos. Engana-se quem pensa que as únicas vítimas sejam homossexuais, embora estes ocupem a liderança no percetual dos infectados em decorrência do uso de aplicativos de “paquera”. Há muitos heterossexuais, idosos, pessoas casadas, enfim, uma grande variedade de pessoas que usufrem desses mecanismos. Por aqui, apesar de não haver até o momento pesquisas que liguem o crescimento das infecçlões sexuais com o uso de aplicativos, já há levantamentos informando um crescente índice de doenças sexuais entre jovens, possivelmente ligados à rede. A nudez quando mal administrada deixa significativas marcas, difíceis de serem esquecidas.

Outro ponto a ser citado envolve a influência das celebridades nacionais e internacionais flagradas em momentos íntimos. São muitos os artístas na lista: Jared Leto, Justin Bieber, Luana Piovani, Carolina Dickman, Stênio Garcia, Carlos Machado... entre outros nomes do show business tendo suas vidas privadas expostas em fotos ora hackeadas, ora expostas por livre e espontênea vontade. Nesses casos há um maniqueísmo que deve ser analisado. De um lado, é importante saber que não só os meros mortais são passíveis de terem imagens publicadas na rede. Artistias de renome também podem ser violados nesse sentido. Também é importante para naturalizar os corpos desses indivíduois, muitas vezes endeusados pela mídia. Do outro lado, porém, quando uma celebridade é exposta dentro da sua intimidade, em meio a um mundo amplamente conectado à internet, abre-se um leque de discussão em torno da privicidade alheia; da postura que se espera de um artista frente a seu público; da forma como a nudez se deu, pois muitas celebridades encontram no corpo a chance de se manter em evidência na mídia; e como o público receberá aquele ídolo depois de vê-lo em tal condição. Como a nudez ainda é um tabu, provavalmente a sociedade veja o nudista de forma apelativa, execrando-o. É como Nelson Rodrigues disse “Toda nudez será castigada”.

Talvez ele tenha razão, já que a sociedade vive numa palpável ambiguidade, a qual se resume a uma frase do célebre Machado de Assis: “O problema não é o pecado, mas a sua exposição”. Pode ser, mas reduzir o nu total a guetos não resolverá os problemas ligados ao sexo. Pelo contrário, é preciso cada vez mais naturalizá-lo, sabiamente, para que se desfaçam as barreiras em torno desse assunto. Falar disso não é o mesmo que criar praias de nudismo, nem incentivar a criação de novas produtoras especializadas nesse tipo de trabalho, como as saudosas Play Boy e a G magazine; embora não seja uma má ideia. É tratar a nudez como parte da realidade humana. Encontrar nela a beleza que muitos escultores, pintores e escritores encontraram para retratar a suas musas. Evidentemente que a nudez não deverá ser reduzida a um gênero. Não se pode desgastar a imagem da mulher, mas do que já está. É usufruir de todas as nudezes, além de gênero, cores, formas, padrões. Buscar encontrar a essência do nu, sua relevância e importância, ítens claramente esquecidos nesse amontoado de nudes, muitas vezes mandado sem sentido.

Libertino na visão de muitos, e libertário na de outros, a nudez atual não pode ser condenada ao julgo do pecado sem ser levado em consideração todos os elementos transversais e antepostos a tal tema. Há um longo caminho a ser trilhado para que se compreenda as facetas da nudez. Faces essas que podem se apresentar de diversas formas: através de um protesto, ou de um discurso meramente apelativo; de alguém buscando encontrar um encaixe, um romance, ou apenas sexo sem compromisso; quem sabe em forma de arte para ser cultuada, ou apenas para transgredir como no carnaval ou na exibição de corpos sarados à beira mar; no cinema, num filme como Ninfomaniaca, lá no fundo, no escuro da sessão, ou em casa assistindo as Brasileirinhas e se resolvendo como pode; num poema, numa música, ou nas dúbias propagandas midiáticas; e no manda nudes, por que não, desde que se tenha consciência dos prós e contras que tal atmosfera pode proporcionar. Seja como for a forma de nudez, que seja feita com naturalidade, discernimento e respeito entre as partes. Em se tratando ainda do nudes, não se pode esperar que seja um fênomeno passageiro, já que as inovações tecnológicas chegaram para ficar. Entretanto, antes que a paquera se reduza de vez a “emotions”, é importante fortalecer na sociedade, através da educação, que o fato do sexo contar com o aliado virtual não quer dizer que isso trará sempre malefícios como os citados. Na verdade, antes de fazê-lo é preciso entender o que é o sexo, como ele surge, materializa e se concretiza nas suas diversas ramificações. Tendo esse conhecimento prévio, transformado em respeito, o sexo deixará de ser polêmico e voltará a ser o que sempre foi: natural.


“Quando o nu deixar de ser uma arma de sedução, e for visto de forma natural, o todo mundo nu(des) deixará de ser uma utopia”


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...


Florbela Espanca