08 janeiro 2016



Homens de terno e mulheres de saia com a Bíblia na mão vão enchendo o auditório. Alguém regula o som do violão e dos microfones. A música que celebra “júbilo ao Senhor” estoura nos alto-falantes, e a audiência canta junto. Em um púlpito no palco, os pastores abrem o culto com uma oração fervorosamente acompanhada pelos fiéis.
Uma descrição comum de um culto evangélico não fossem os pastores, deputados, falando de um o púlpito improvisado no Plenário Nereu Ramos da Câmara dos Deputados de um país laico chamado Brasil. E se o (até então) presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), anunciado do púlpito ao entrar no recinto pelos pastores João Campos (PSDB/GO) e Sóstenes Cavalcante (PSD/RJ), não tivesse deixado de lado a agenda oficial para participar da celebração e tirar selfies com pessoas que se amontoavam ao seu redor.
Certamente seria bem menos estranho se logo atrás de mim, no fundo do auditório, assessores de parlamentares não estivessem fazendo piadas de cunho homofóbico e rindo alto durante boa parte do evento, que se tornou show com a chegada da aclamada cantora gospel Aline Barros, vencedora do Grammy Latino 2014 e um dos cachês mais altos do mundo gospel brasileiro. Ela tinha viajado do Rio a Brasília com o marido, o ex-jogador de futebol e hoje pastor e empresário gospel Gilmar Santos, especialmente para cantar e orar naquela manhã de quarta-feira no Congresso. Ao final do culto/evento, todos receberiam um CD promocional de Aline.
Aline Barros entoou alguns de seus sucessos com o auxílio de um playback, antes da pregação do marido. O tema é a luta do profeta Elias contra Jezebel, a princesa fenícia que se casou com o rei de Israel e, uma vez rainha, perseguiu e matou profetas israelitas. A imagem da mulher poderosa de alma cruel é usada por dezenas de sites religiosos, que comparam Jezebel à presidente Dilma Rousseff, ameaçando-a de acabar como a rainha, comida por cães.
“Em Tiago capítulo 5, versículo 17, está escrito que Elias era um homem como nós. Ele orou e durante três anos e meio não choveu. Depois ele orou de novo e Deus manda vir a chuva”, diz o pastor Gilmar, dirigindo-se aos parlamentares. “Muitas vezes a gente tem orado ‘Deus sacode esse país, traz um avivamento, faz algo novo’. Deus está fazendo. Mas a forma que Deus está fazendo nem sempre é do jeito que a gente quer, da nossa maneira. Muitas vezes a gente queria que Deus fizesse chover dinheiro do céu, que fizesse anjo carregar a gente no colo pra levar a gente pra todos os lados e queria pedir pra Deus pra sentar numa rede, pra ele trazer um suco de laranja e operar, trabalhar. ‘Manda fogo, destrói aquele endemoniado, aquele idólatra.’ Mas Deus não faz dessa forma.” Por que Deus escondeu Elias? Por que Deus tem escondido muitos de vocês e ainda não estão nos jornais como sonharam ou não tiveram reconhecimento como sempre sonharam? […] Deus está te escondendo, querido. No momento certo tudo vai acontecer, você vai ser exaltado. Deus sabe como honrar. […] Pode ser o momento mais difícil do seu mandato, mas continua confiando. Muitas pessoas podem estar vivendo uma seca nesse país. Nosso país pode estar vivendo o momento mais seco da história. Vidas secas. Mas o céu nunca vai estar em crise. Nunca tem crise, nunca tem crise.”

Sem crise

O número de evangélicos no Parlamento cresceu, acompanhando o aumento de fiéis. Segundo os últimos dados do IBGE, que são de 2010, o número de evangélicos aumentou 61% na década passada (2000-2010). Por sua vez, a Frente Parlamentar Evangélica (FPE), encabeçada pelo deputado e pastor João Campos, agrega mais de 90 parlamentares, segundo dados atualizados da própria Frente – os números podem variar por causa dos suplentes – o que representa um crescimento de 30% na última legislatura.
A mistura de política e religião é a marca da atuação dos pastores deputados. Campos, por exemplo, é presidente da Frente Parlamentar Evangélica, autor do projeto de lei apelidado de “cura gay” e defensor destacado da redução da maioridade penal, como a maioria da chamada “bancada da bala” – em 2014 ele recebeu R$ 400 mil de uma empresa de segurança para sua campanha. Cavalcante ex-diretor de eventos do pastor Silas Malafaia, seu padrinho na fé e na política, é presidente na Comissão Especial que trata do Estatuto da Família.
Encorajada por Eduardo Cunha, que assumiu a presidência da Câmara dizendo que “Aborto e regulação da mídia só serão votados passando por cima do meu cadáver”, a bancada evangélica tem conseguido levar adiante projetos extremamente conservadores, como o Estatuto da Família (PL 6.583/2013), que reconhece a família apenas como a entidade “formada a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou de união estável, e a comunidade formada por qualquer dos pais e seus filhos”, que deve seguir para o Senado nos próximos dias. A PEC 171/1993, que usa passagens bíblicas para justificar a redução da maioridade penal, também foi aprovada na Câmara e aguarda análise do Senado, sem previsão de votação. O próprio Eduardo Cunha é autor do PL 5.069/2013, que cria uma série de empecilhos para o direito constitucional das mulheres vítimas de violência sexual realizarem aborto na rede pública de saúde. Esse está na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania da Câmara. Também foi nesta legislatura que a bancada conseguiu barrar o trecho que trata do ensino da ideologia de gênero nas escolas no Plano Nacional de Educação.
Ainda segundo os dados fornecidos pela FPE, a maioria dos parlamentares pertence a igrejas pentecostais: a Assembleia de Deus é a que mais congrega esses fiéis, seguida pela Igreja Universal do Reino de Deus, que tem como figura de destaque o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ). Também tem representantes no Congresso as igrejas Sara Nossa Terra e a Igreja Quadrangular.
Como acontece com os partidos na política, os membros também trocam de denominação. Eduardo Cunha recentemente trocou a Sara Nossa Terra pela Assembleia de Deus, onde já estavam os colegas João Campos e Marco Feliciano. Entre os membros das protestantes históricas estão Jair Bolsonaro (batista) e Clarissa Garotinho (presbiteriana).
O sociólogo e escritor Paul Freston, professor catedrático em religião e política da Wilfrid Lauries University, do Canadá, explica que as igrejas pentecostais se diferenciam das protestantes históricas principalmente pela ênfase da crença nos dons do Espírito Santo, como “falar em línguas” e agir em curas e exorcismos. “Por ser uma forma mais entusiasmada de religiosidade, depende menos de um discurso racional, elaborado. Você pode não saber ler ou escrever, pode ser alguém que não ousaria fazer um discurso racional em público, mas sob influência do Espírito você fala. Por isso pode-se dizer que a igreja pentecostal também tem esse poder de inverter as hierarquias sociais”, explica o professor. E destaca: “Por ser mais próxima da cultura do espetáculo e menos litúrgica, também são as igrejas pentecostais que se dão melhor com as mídias”.

Nos gabinetes

“A Frente Parlamentar Evangélica [FPE] tem exercido um papel muito importante em contribuir com o processo legislativo porque ela priorizou algumas bandeiras que são relevantes para a sociedade brasileira como, por exemplo, a defesa da família tradicional”, diz João Campos, que recebeu a Públicaem seu gabinete de número 315 no anexo IV da Câmara, após muitos dias de negociação com seu assessor. “Outra bandeira nossa é a defesa da vida desde a concepção, os direitos do nascituro, a proibição do aborto, do infanticídio, os direitos da mulher também, mas principalmente os direitos do ente humano que está sendo gerado. Temos uma postura clara a favor da reforma política, sobre a reforma tributária e sobre a violência que tem inquietado a sociedade”, continua o deputado.
O segredo do sucesso? “A gente atua a partir desses temas, e isso faz com que a Frente seja ouvida no Parlamento. A Frente nem é a que congrega o maior número de parlamentares, mas é uma das mais ouvidas. Porque não é a quantidade, é a atuação dela”, diz com orgulho. Pergunto sobre sua trajetória política e religiosa, em que momento as duas se misturam. Ele me conta que aos 16 anos já era líder de jovens em sua igreja (Assembleia de Deus) e há quase 20 foi ordenado pastor. Também fez carreira na Polícia Civil de Goiânia. Começou como escrivão de polícia, se tornou delegado, participou de greves – “sempre fui muito ativo”, diz. Passou a atuar na classe, foi presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Brasil, até que “naturalmente” se candidatou a deputado federal. “Eu sempre exerci liderança na igreja e na segurança pública. E essas duas vertentes apoiaram minha candidatura e me elegeram”, resume Campos, 53 anos, atualmente no quarto mandato como deputado federal. Quando pergunto se a igreja tem sido um ambiente fértil para a formação de líderes políticos, ele desconversa: “A igreja tem ocupado um espaço e se colocado mais na política tendo ela própria como referência”.
Sua colega de bancada evangélica, Clarissa Garotinho (PR), é uma jovem deputada federal que tem política e religião no pedigree. A filha dos ex-governadores Anthony e Rosinha Garotinho é da Igreja Presbiteriana, como todos de sua família. E, como fez a mãe, todas as vezes que seu pai, Anthony Garotinho, mudou de partido, ela o acompanhou “mesmo a contragosto”, confessa. E não foram poucas vezes: o radialista de sucesso começou a carreira política no PT, depois foi para o PDT, para o PSB, PMDB e PR.
Clarissa fala do jogo da política com a naturalidade de quem viveu isso em casa desde pequena, mas faz questão de dizer que nunca foi pedir voto em igreja. “Visitei algumas igrejas quando me convidaram, mas não foi o foco da minha campanha.” Descreve o início de sua carreira política como a de líder estudantil que se tornou diretora da UNE e foi eleita vereadora – a contragosto do pai, sublinha. “Nessa época, eu tinha me formado em jornalismo e fiz estágio com a Xuxa no programa dela a convite da Marlene Matos. A Marlene me convidou para ir para um programa na rádio Globo, eu já era gerente comercial da empresa dos meus pais, e ele não queria que eu entrasse na política. Dizia que a vida dos políticos ficava muito exposta, que dava muita dor de cabeça. Comecei a campanha sozinha, eu e a juventude do partido. Pensava: ‘Meu pai foi governador, minha mãe foi governadora, eu não posso perder uma eleição de vereadora porque, se eu perder, eu vou estar comprometendo o nome deles”, conta.
De vereadora Clarissa passou a deputada estadual e em 2014 foi eleita deputada federal com a maior votação obtida entre as mulheres. Sobre sua atuação na bancada evangélica, ela diz que só participa das atividades quando acha necessário. “Quando houve algumas manifestações na parada gay que satirizaram a imagem de Cristo. Nesse ponto, a bancada reuniu inclusive católicos. Quando tem alguma causa que a gente entende que precisa se unir, eu participo das reuniões.”
Pergunto sua opinião sobre o aborto, e sua expressão se fecha: “Tem temas que para nós não são negociáveis. Eu sou contra o aborto”. Sem que eu pergunte, emenda: “Mas você quer saber do Cunha? Eu não apoiei o Eduardo Cunha para presidente da Câmara só porque ele era evangélico. Não basta ser evangélico e eu presbiteriana para eu votar se acho que a postura dele como político não é boa pra representar a Câmara e não é boa para o Brasil. Fui uma das poucas deputadas evangélicas que não votou nele. Fizeram reuniões com os membros da bancada pra apoiar, mas eu não participei. Não gosto do estilo dele de fazer política. Ele usa chantagem pra conseguir vantagens, é o chanteageador geral da República. O Eduardo é considerado um deputado muito temido aqui. Dizem que ele é vingativo, que tem um temperamento difícil. E ele ainda tem muito apoio aqui apesar dos escândalos”.

Eduardo Cunha 

Quando estive no Congresso, cada vez que Eduardo Cunha entrava em uma sala da Câmara dos Deputados era cercado por um séquito e não raramente aplaudido de pé, apesar dos escândalos, e não apenas os mais recentes. Cunha, que começou sua carreira como tesoureiro do comitê eleitoral de Collor, chegou à presidência da Telerj, de onde saiu em 1993 em um escândalo de superfaturamento, quando foi descoberto que havia assinado um aditivo de US$ 92 milhões a um contrato da Telerj com a fornecedora de equipamentos telefônicos NEC do Brasil (então controlada pelo empresário Roberto Marinho). Foi quando se aproximou do então deputado mais votado do Rio de Janeiro e dono da rádio evangélica Melodia, Francisco Silva. Por indicação de Silva, tornou-se presidente da Companhia Estadual de Habitação na gestão de Anthony Garotinho, da qual também foi afastado em meio a denúncias de irregularidades em contratos sem licitação e favorecimento a empresas fantasmas. A passagem pelo rádio, onde tinha boletins diários que acabavam com o bordão “O povo merece respeito”, tornou sua voz conhecida e se lançou a candidato a uma cadeira na Câmara dos Deputados nas eleições gerais de 2002, quando foi eleito com o apoio de Garotinho e 101.495 votos nas urnas. Em 2003, entrou no PMDB e foi eleito deputado federal e hoje cumpre seu quarto mandato consecutivo. Em 2014 foi o terceiro candidato mais votado do Rio de Janeiro, com 232.708 votos.
O sociólogo Paul Freston, que estuda as relações entre política e religião, pesquisou a biografia de Cunha e de seu mentor, Francisco Silva. “Ele começa politicamente pela mão do Francisco Silva, que já era uma pessoa estranha porque tinha uma identidade evangélica pessoal muito tênue. O que ele tinha era uma rádio evangélica. E basicamente usou a força da mídia para se lançar politicamente. Ele se dizia membro da Congregação Cristã, o que não fazia muito sentido porque é a igreja mais arredia, que não se envolve com política, com mídia, não paga pastor. E a própria Congregação fez uma declaração na época dizendo que desconhecia esse cidadão.”
O polêmico pastor, escritor e psicanalista Caio Fábio – fundador e ex-presidente da Associação Evangélica Brasileira (AEVB), líder e mentor da igreja Caminho da Graça – acrescenta outras informações ao perfil de Cunha: “Eu o conheço há 20 anos, desde que o pessoal o chamava de ‘Eduardinho’. Desde quando ele trabalhava para o deputado Francisco Silva. Esse indivíduo de crente não tinha nada. Francisco comprou a rádio Melodia, criou uma igreja radiofônica chamada Cristo em Casa que não congregava ninguém, não reunia ninguém, não tinha relacionamento com ninguém. Era tudo no rádio e você dava o dízimo para esse ente abstrato. O Eduardo era o assessor dessa figura. Ele teve função importante na loteria esportiva do Rio de Janeiro, em autarquias diversas até chegar ao governo Garotinho. Ele dá nó em pingo d’água. O mais inteligente deles é burro perto do Eduardo Cunha. Ele é um dos caras mais ardilosos, mais jogadores, mais sutis que eu já conheci”.
Recentemente, Cunha trocou a igreja Sara Nossa Terra, para qual foi levado por Silva, pela Assembleia de Deus. A primeira tinha pouco mais de 1 milhão de fiéis, enquanto sua igreja atual tem mais de 13 milhões de seguidores, segundo o IBGE. A ramificação da igreja escolhida por Cunha foi a Madureira, cujo presidente é o bispo Manoel Ferreira, acusado de coronelismo por membros de sua igreja por ter tornado seu cargo vitalício e denunciado por um pastor de sua igreja em uma matéria da revista IstoÉ por usar laranjas para abrir a Faculdade Evangélica de Brasília, dar golpe nos sócios e sonegar milhões em impostos (ele nega as acusações). Em agosto deste ano, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, acusou Eduardo Cunha de indicar a igreja do filho de Manoel, Samuel Ferreira, para receber parte da propina de ao menos US$ 5 milhões destinada a ele referente aos contratos para viabilizar a construção de dois navios-sonda usados pela Petrobras.
“Eu estou dizendo há 25 anos que Manoel Ferreira já se envolveu com tudo. É um gângster religioso. E curiosamente é para onde o Cunha foi”, acusa o pastor Caio Fábio. 

O começo de tudo

A igreja pentecostal começou a se envolver na política brasileira na década de 1960 através da Brasil para Cristo, que elegeu um deputado federal em 1961 e um estadual em 1966. Depois disso, porém, a igreja só voltaria a eleger candidatos na década de 1980, como explica Paul Freston: “A maior participação vem em 1986, no fim do regime militar, com a Assembleia Constituinte. A Assembleia de Deus é o motor disso inicialmente, e se organiza desde a cúpula para ter um candidato oficial em cada estado, um deputado. Eles se organizam e tentam apresentar esse candidato nas igrejas, falar pras pessoas votarem nele. É o que dá origem à bancada evangélica, é a primeira vez que se fala nisso. E a grande novidade é que a maioria é pentecostal”.
Os pentecostais deslancharam na política com a Igreja Universal do Reino de Deus, que criou um plano político mais estruturado dentro da instituição, segundo a autora da tese “Religião e política: ideologia e ação da ‘Bancada Evangélica’ na Câmara Federal”, Bruna Suruagy (leia a entrevista completa aqui). “No início da década de 1990, a Igreja Universal começou a atuar com um plano político estruturado”, explica. Em sua pesquisa, Bruna chegou ao seguinte desenho do plano político da Universal: “A cúpula da igreja, formada por um conselho de bispos da confiança de Edir Macedo, indica candidatos em um procedimento absolutamente verticalizado, sem a participação da comunidade. Os critérios para a escolha desses candidatos geralmente têm base em um certo recenseamento que se faz do número de eleitores em cada igreja ou em cada distrito. E cada templo, cada região, tem apenas dois candidatos que seriam o candidato federal e o estadual. Ela desenvolve uma racionalidade eleitoral a partir de uma distribuição geográfica dos candidatos e a partir de uma distribuição partidária dos candidatos. Isso mudou um pouco agora porque existe um partido que é da Universal, o PRB, que fica cada vez mais forte no Congresso”, explica, destacando também a importância da mídia religiosa como interface entre a igreja e a política.
A Pública fez contato com a assessoria de imprensa da Igreja Universal e obteve como resposta a que a instituição não se pronunciaria a respeito “porque não se envolve com política”. Ao insistir para obter a entrevista, a assessoria pediu que as perguntas ao bispo Edir Macedo fossem feitas por e-mail e não respondeu mais. Mesmo o site do PRB, que tem grande parte dos filiados ligados à Universal, incluindo o presidente do partido, Marcos Pereira, não deixa clara essa conexão entre o partido e a igreja. Mas, entrevistado pelo deputado federal Celso Russomanno ao vivo durante a festa de dez anos do PRB, no dia 25 de agosto, diante da plateia do auditório Nereu Ramos, Pereira revelou que sua carreira e o PRB caminharam de braços dados com Edir Macedo. Ele contou que é bispo da igreja desde 1999, foi vice-presidente da Rede Record de Televisão em 2003, ano em que também se tornou sócio da LM Consultoria Empresarial – holding que controla todos os negócios da Igreja Universal do Reino de Deus – e então se tornou presidente do PRB em 2011.

Modelo brasileiro

Ainda segundo a pesquisadora Bruna Suruagy, a Universal se tornou um modelo para outras igrejas brasileiras justamente porque a cada novo mandato havia um aumento significativo dos parlamentares. “A Assembleia de Deus, que hoje tem a maioria dos deputados, não funcionava assim”, diz. Ela explica que isso não significa que o funcionamento institucional das duas denominações seja o mesmo. “A Assembleia é uma igreja com muitas dissidências e muitas divisões internas, por isso não é possível estabelecer hierarquicamente os candidatos oficiais. As igrejas têm fortes lideranças regionais e uma fragilidade do ponto de vista nacional. A sede não tem tanta força e, por isso, eles criam prévias eleitorais. As pessoas se apresentam voluntariamente ou são levadas pela própria igreja, e ainda há a ideia de que alguns são indicados por Deus porque mobilizam grandes multidões, ou contagiam, como dizia Freud, o que também termina sendo um critério. Então tem uma lista, depois uma pré-seleção que passa por um conselho de pastores – isso em cada ministério, porque a Assembleia é uma igreja que tem várias subdivisões internas. É interessante que os que pretendem se candidatar assinam um documento se comprometendo a apoiar o candidato oficial caso ele não seja escolhido, para evitar candidaturas independentes e para manter a fidelidade que se tem na Universal.”
O sistema de escolha de candidatos é confirmado pelo pastor Caio Fábio, enquanto conversamos no belo jardim de sua casa, em Brasília. “A maioria dos políticos que temos hoje foi produzida em berço pentecostal. Portanto, eles nascem do único poder que habita esse ambiente que é o do carisma pessoal. E esse carisma não tem absolutamente nada a ver com inteligência, instrução ou cultura. Por carisma entende-se a capacidade de comunicação popular intensa, tanto mais poderosa quanto menos escrupulosa seja. São em geral pastores, bispos e apóstolos. A Universal é um caso à parte, assim como as igrejas neopentecostais, que são igrejas pós-macedianas, porque o projeto político lá é totalitário, vem do Macedo a determinação de quem é e quem não é”, critica. “As igrejas reformadas [também conhecidas como protestantes históricas] são democrático-representativas. A cada cinco anos no máximo, tem uma eleição de pastores. As episcopais [pentecostais] são mais por sucessão, indicação do bispo. E, se os demais acolherem, eles são afirmados. Nas pentecostais, os pastores vão colocando seus filhos na linha sucessória na igreja e na política. Aconteceu assim com Malafaia, por exemplo. O pai dele era pastor e o filho também é. Os protestantes históricos são mais silenciosos, mas não quer dizer que não sejam homofóbicos, por exemplo. O Bolsonaro frequenta uma igreja batista e é… O Bolsonaro.”
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Freston, por sua vez, não vê influência do modelo americano, como os chamados cinturões bíblicos, na política brasileira. Para ele, o crescimento da bancada evangélica tem mais a ver com nosso modelo político. “Quando a imprensa e os acadêmicos começaram a notar a presença dos pentecostais na política, houve algumas interpretações sobre ser cópia dos Estados Unidos, que já tinha a direita cristã, e a ideia de que isso estava surgindo no Brasil, incentivado por esse modelo. Mas eu sempre achei que correspondia muito mais às peculiaridades do sistema eleitoral brasileiro. Porque você tem o crescimento pentecostal em muitos países do mundo, na América Latina toda, em muitos lugares na África, em alguns lugares da Ásia. Mas só no Brasil você tem esses fenômenos de bancadas nos Congressos. Essa aproximação com a direita é mais recente e tem a ver com essa nova direita, que não tem medo de se chamar de direita”, diz o sociólogo.
Outra característica de nosso sistema eleitoral, a de representação proporcional com listas abertas, favorece os candidatos carismáticos, os “puxadores de voto”, que passam a ser cobiçados pelos partidos. “Eles dizem ‘vamos por o pastor candidato que ele traz mais 2 ou 3 mil votos para a gente’. Mas esse cara traz 60 mil votos e se elege sozinho! Esse sistema favorece a eleição desses pentecostais. E muitos países que tem crescimento pentecostal não têm isso. No Chile, por exemplo, onde o pentecostalismo também cresceu muito, você quase não teve políticos evangélicos porque é outro sistema eleitoral. Aqui os líderes pentecostais souberam maximizar suas possibilidades dentro desse sistema.”

E o que querem os políticos evangélicos?

Mais do que os temas morais como aborto, violência, drogas e sexualidade, são os interesses institucionais que unem a bancada evangélica segundo os pesquisadores. “A conquista de dividendos para as igrejas como a manutenção de isenção fiscal, a manutenção das leis de radiodifusão, a obtenção de espaços para a construção de templos e a transformação de eventos evangélicos em culturais para obtenção de verbas públicas estão nesse páreo”, explica Bruna Suruagy. Paul Freston dá um exemplo: “Na época da Constituinte, teve a questão do mandato do Sarney, do quinto ano. Para conseguir esse quinto ano, ele comprou muita gente no Congresso. A moeda de troca para muitos pentecostais era uma rádio, coisas ligadas à mídia”.
Um estudo realizado pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em 2009 mostrou que de 20 redes de televisão que transmitiam conteúdo religioso, 11 eram evangélicas e 9 católicas. Apenas a Igreja Universal controla mais de 20 emissoras de televisão, 40 de rádio, além de gravadoras, editoras e a segunda maior rede de televisão do país – a Rede Record.
Larissa Preuss, autora da tese de doutorado “As telerreligiões no telespaço público: o programa Vitória em Cristo e a estratégia de mesclar evangelização e preparação política”, destaca a enxurrada de pastores eletrônicos na televisão brasileira nas décadas de 1980 e 1990. “O RR Soares é o mais antigo, está no ar desde o fim dos anos 70, e o Silas Malafaia entra em 1982. Ele é quem fala mais explicitamente sobre política na televisão, apesar da maior articulação política ser da Universal”, lembra.
A pesquisadora conta que estudou os programas de Malafaia de 2014 para entender a relação de seus discursos com as eleições. “Ele assume que existe uma briga política e deixa claro que quer influenciar e por isso não se candidata. Ele fala diretamente ao público, mas também fala muito aos líderes religiosos, tanto que Malafaia dá cursos de formação de pastores em locais como a Escola de Líderes da Associação Vitória em Cristo (Eslavec) e está construindo um império, hierarquizando igrejas dentro da Assembleia de Deus, que não tem essa cultura. O Malafaia se coloca no lugar do profeta, que é aquela autoridade que unge o rei e denuncia o sacerdote, e isso é muito forte. Ele incentiva os líderes a influenciar seus fiéis para que Deus possa agir na política.”
A hipótese de Larissa é que os pastores midiáticos migram para a política justamente para garantir as concessões de radiodifusão. “Porque as outorgas são ratificadas ou podem ser abolidas pelo Congresso. Então é uma retroalimentação: eles estão na televisão, influenciam a eleição de certos candidatos que vão garantir sua permanência na televisão. A informação hoje é poder. A imagem é uma moeda valiosa. E os evangélicos estão na política como nunca. Basta dizer que o tema da última Marcha para Jesus foi ‘faxina ética’”. 

Municipal

E não é só em âmbito federal que a bancada evangélica tem se fortalecido. O número de projetos de leis temáticos também tem crescido entre os vereadores e deputados estaduais evangélicos, que recentemente também barraram a discussão de gênero em planos municipais de educação em várias cidades, incluindo a capital paulista. E não é só isso. A pastora e deputada estadual Liziane Bayer, do PSB do Rio Grande do Sul, protocolou em abril o PL 124/2015, que prevê o ensino do criacionismo nas escolas públicas e privadas do estado. Liziane, cujo slogan de campanha foi “compromisso com a fé, a família e a vida”, conta que começou a se interessar por política e a conversar sobre o assunto no grupo de mulheres de sua igreja. Ela diz que sabe que o projeto é polêmico, mas defende o ensino do criacionismo para dar uma opção aos alunos. “Eu acho o comunismo ruim, mas ele é ensinado nas escolas. O criacionismo pode ser visto da mesma forma, mas, até pra que tu digas que não é correto, tem que saber”, opina.
Em Cuiabá, o vereador Marcrean dos Santos (PRTB) criou um projeto que virou lei para feriado evangélico na cidade (Lei n° 5.940/15); em Itapema (SC), o vereador Mouzatt Barreto (DEM) também criou um PL para obrigar a leitura da Bíblia nas aulas de história das escolas públicas e particulares; em São Paulo, o vereador Carlos Apolinário, que em 2011 conseguiu que a Câmara aprovasse o “Dia do Orgulho Heterossexual”, vetado pelo então prefeito Gilberto Kassab, apresentou um projeto de lei para criar banheiros públicos em restaurantes, shoppings, cinemas e em casas noturnas para gays, lésbicas, bissexuais e transexuais e chegou a declarar que “não é possível minha mãe entrar em um banheiro e encontrar um homem vestido de mulher”.
Em Manaus, a vereadora Pastora Luciana (PP),  que prefere ser chamada de pastora – “vereadora é só uma promessa, pastora é pra eternidade” –, é autora de três projetos temáticos: O PL 125/15, que visa autorizar por lei manifestações religiosas como palestras e pregações nos terminais de ônibus da capital com o uso de caixas de som; o 075/15, que propõe a instituição de uma capelania na Guarda Civil Metropolitana, e o PL da Cristofobia, que prevê multas para quem tiver “atitudes discriminatórias em face da religião cristã, palavras e práticas agressivas contra a figura de Jesus Cristo, ameaças, estereótipos pejorativos, induzir ou incitar a discriminação contra a Bíblia Sagrada”. Mas o projeto de lei mais bizarro é do vereador de Santa Bárbara do Oeste Carlos Fontes (PSD). O PL 29/2015 proíbe a implantação de microchips em seres humanos, comparando-os à marca da besta prevista no livro de Apocalipse (veja a entrevista em vídeo que gravamos com o vereador).
“Se a presença de um evangélico na política melhorasse a política, humanizasse a política, as igrejas seriam édens, oásis, paraísos de bondade humana, altruísmo, inclusão, tolerância, misericórdia, de amor de verdade, equidade, solidariedade. Mas, enquanto o diabo continuar a existir pra eles da forma como existe, eles podem continuar roubando porque o diabo pagará a conta das acusações. Em nome de Deus, a canalhice é santificada”, conclui Caio Fábio.
Fonte: Andrea Dip
Colaborou Guilherme Peters
Matéria originalmente postada em Agência Pública 

“Eu quero casar com você, quero acordar do seu lado, quero brigar com você. Quero mandar você calar a boca mesmo sabendo que você não vai calar, e te calar beijando você. Quero provar todos os dias que eu te amo. Quero te fazer feliz, assim como você me faz. Quero fazer amor com você ouvindo você suspirar, falando meu nome. Quero que você não precise de mais ninguém, só de mim. Quero morrer de cansaço ao correr atrás de você, depois de uma guerra de travesseiros. Quero dormir com você naquele sofá apertado depois de assistir o seu filme preferido. Quero morrer de rir ao ouvir você me contando uma piada, por mais sem graça que seja. Quero te acordar com vários beijos. Quero dizer que te amo. Eu apenas quero te fazer feliz, como ninguém nunca fez. Quando desliguei o telefone pra lá das 04:00 horas da manhã, eu disse que sonharia com você, apenas pela certeza de que sua imagem linda, clara, fascinante, jamais sairia da minha cabeça… Ao me deitar eu estava pensando em ti, eu não sei se é sonho, eu não sei mesmo o que acontece, mas eu te sinto sempre, até enquanto durmo, sinto seu toque, sua voz, seu sorriso. Sinto e vejo tudo, meu misto de sonho e realidade, por que demorou tanto pra chegar? Eu guardei um sonho bom pra ti, essa noite toda, foi perfeita, eu estive com você, da forma mais incrível, toquei seu coração, te dei o meu, e recebi o seu. Ao amanhecer sua imagem continuava nítida em minha mente, meio sonolenta acabei despertando pelo vibrar do celular, e era você. E tem sido você, e vai continuar sendo você. Por tanto tempo eu quis, e então você chegou. E entenda que eu não quero mais o travesseiro como companhia… É você que eu quero abraçar a noite inteira. Sentir seu carinho durante o sono, olhar para você enquanto estiver dormindo. Dar beijos no seu rosto só para te despertar. E de manhã, te dar um pelo “bom dia” para ficarmos o resto do dia nublado, deitados. Eu quero que você se sinta a pessoa mais feliz do mundo, a única capaz de ser pra mim um sonho em noite de insônia. Mas eu sempre soube que mesmo distante você estaria aqui pertinho. Você pode não conseguir segurar minha mão pra me livrar da queda, mas estará na minha memoria me fazendo esquecer a dor. E eu tô aqui, sabe? Pra conversar, brigar, rir, fazer loucuras. Não precisa me contar o que aconteceu ou porque você tá mal. Só me deixa tentar colocar um sorriso no seu rosto. Confesso que encontrei meu motivo pra sorrir. Encontrei alguém que eu queira dividir a minha cama, meu amor e minha vida. Encontrei alguém que aguentasse meu coração enjoativamente doce, e que suportasse meu humor incrivelmente amargo. Alguém que me vesse cair sem que eu gritasse e me desse a mão sem eu pedir. Alguém que me abracasse mesmo longe e me beijasse de cabeça baixa. Alguém que queira meu amor, mas que tenha minha amizade. Alguém que roube minha confiança e leve meu coração de brinde. Alguém que eu queira dormir de mãos dadas e acordar do lado. Alguém pra ser criança como eu, pra disputar quem aguenta ficar mais tempo sem ligar. Alguém que tenha teu tempo todo meu e minha vida toda dele. Alguém que deixe o mundo pra me dar um beijo. Alguém que encontrasse o que procurou a vida toda, aqui dentro de mim. Alguém pra eu contar meu dia e alguém pra falar “te amo”. Alguém pra ser meu, de um jeito bem clichê. Alguém pra eu viver aquilo tudo que eu julgava besteira e que hoje é tudo que eu tenho. Eu quero você. Digo, repito, falo outras mil vezes. De trás para frente, de frente para trás. De canto, de lado, da maneira que for. Eu quero você. Que tenha clichê, ciúmes, malicia, sacanagem, egoísmo, afeto, loucuras, falhas, erros, acertos, perdões, beijos, abraços, pegação, sexo, amor, transa, filme juntinho, dormir de conchinha, mãos dadas, que tenha todas as coisas do mundo, mas que seja apenas entre eu e você. Acho que dá pra perceber o quanto você me faz feliz, não é? Acho que já notaram que você é o amor da minha vida, e que é com você que eu quero passar minha vida toda. Tá tão na cara que eu sou completamente louca por você, completamente fascinada pelos seus olhos. E sim, isso tudo é verdade. Porque não há mais ninguém nesse mundo que eu ame mais que você, não há outra pessoa nesse mundo que eu queira estar junto, a não ser você. Não quero mais nada nem mais ninguém. Antes de lhe conhecer eu sempre quis alguém assim, como você. Alguém que fosse tudo de lindo que você é. Alguém que tivesse tudo de mágico que você possui. E eu ganhei um presente: você. De um modo incomum, de um jeito estranho, mas real. É que parece que quanto mais eu escrevo sobre nós, mais eu preciso escrever. O que você faz comigo hein? Como você consegue me deixar assim? Não, eu nunca me senti assim. Não desse jeito. E eu não vou deixar você ir, nunca. E muito menos irei embora também. Não quero que você me largue. Não quero te largar. Não quero ter motivos pra ir embora, pra te deixar falando sozinho, pra bater o telefone na sua cara… Eu fiz isso com todos os outros. É, só que dessa vez eu queria muito que fosse diferente. Dessa vez, com você, eu quero que dê certo. Você é o meu porto seguro. Porque eu sei que vai estar aqui por mim. Sempre me espera. Sempre me acalma. Não leva tudo o que eu digo a sério e me perdoa se eu erro. Você está aqui, até quando eu não mereço ou não espero. Eu não sei exatamente o porquê você sempre volta, mas eu gostei de todas as vezes que você voltou. Acho que o “pra sempre” é o tempo ideal pra curtirmos nosso amor. Eu sou tão feliz em dizer como a vida é maravilhosa, já que você está comigo. E pra te falar ainda mais a verdade, eu acho mesmo que você foi o príncipe que eu esperei a vida inteira. Porque eu te juro, de todas as coisas do mundo, eu só queria olhar pra você. Eu escolheria você. Se me dessem um último pedido, eu escolheria você. Mas eu amo você. Só queria terminar dizendo isso. Eu amo você. De verdade.”
— Tati Bernardi.   
Para Eliane Brum, quem melhora o meu olhar.

Nudez
Nosso modo de ver mudou desde a invenção das imagens técnicas. Lembremos do tempo do olho nu, quando se contemplava o céu como um mistério, comparado aos dias atuais em que a astronomia avança na alta tecnologia dos telescópios que nos dão as imagens inimagináveis de planetas distantes. Comparemos nossa forma de ver quando alguma parte exposta do corpo do outro se tornava escândalo tendo em vista que hoje em dia as superfícies nuas dos corpos se tornam mercadorias banais. Lembremos dos corpos dos indígenas, cuja nudez foi tão invejada, a ponto de ser odiada e destruída…
Pensemos no avanço dos procedimentos visual-tecnológicos nos dias de hoje e entenderemos a nudez em seu grau máximo: o feto visto dentro da barriga da mulher grávida.
Nossa nudez atual não tem mais muito a ver com a antiga nudez. Estamos nus por uma simples operação tecnológica que muda por completo o que experimentamos como “Visão” e como “Nudez”.
E, apesar de tanta tecnologia que nos faria pensar que estamos livres da superstição, ainda estamos na época do olho gordo. Para muitos isso pode parecer uma contradição. Mas a hipótese mais interessante nos propõe pensar se as tecnologias não especializaram essa nossa “capacidade” arcaica…

Uma erótica política, uma política tanática
Nosso olho é órgão erótico. Em outras palavras, é um órgão do desejo. E o desejo – em tudo parecido com a popular “curiosidade” – nos faz buscar a nudez. A nudez era para os antigos filósofos, uma manifestação da “verdade”, um des-velamento, que tinha a ver com abrir os olhos para ver melhor, além, mais longe. Na época das ciências e tecnologias, a verdade se tornou um conceito frio, ela é um efeito da investigação que se contenta com o resultado imediato – e literal – da técnica. Parece até que a técnica, em vez de nos ajudar a ver, e a pensar, nos impede, ou nos livra de ver, e de pensar…
A visão – o ato de ver – é a manifestação de um desejo de ir além de si. Isso quer dizer que a visão não é vazia, mas carregada de uma dúvida. Por isso, ela encantou os filósofos desde o começo. Ora, quem nunca abriu uma bonequinha russa para ver aquela outra que ela tem por dentro de si? O desejo é como uma bonequinha russa que no seu vazio carrega outra bonequinha russa. Isso explica a relação entre desejo e olhar: quando vejo, desejo a bonequinha russa que esta dentro da bonequinha russa. O desejo gosta da surpresa, realiza-se na novidade, e quando se acostuma a ela, quer mais.
Se é verdade que o desejo é desejo do outro, isso só pode querer dizer que o desejo do outro está sempre além do outro. É o que eu espero nele, mas além dele. Por isso, quando amo, amo o desejo do outro, o desejo que o outro tem por outros, por outras coisas, até o desejo que o outro possa ter por algo que sou “eu mesmo”. E há algo de espantoso, de surpresa nisso. No campo do desejo trocamos desejos de desejos. Oferecemos desejos, oferecemos o desejar em geral. A vida das relações humanas é feita disso, desse desejar incessante. De um movimento erótico que é, em si mesmo, um movimento alegre, que tem mais a ver com a potência da alegria da qual falava Spinoza, do que com a armadilha do sexo com que toda uma cultura confundiu a simples alegria de viver (na qual o sexo é apenas parte e não pode ser o todo) que define o que estou chamando aqui de “erótica”. E podemos falar de uma erótica da vida em geral. E essa erótica é sempre política, porque tem a ver com o que fazemos uns com os outros. Uma tanática política é todo um momento de impotência como o que vivemos hoje.
Por isso, talvez não haja nada mais triste do que a ausência de desejo. O desejo é a nossa potência, o que nos faz ir além do que somos e, desse modo, nos permite estar em nós. Assim: somos essa tensão que não se contém em si e por isso mesmo permanece contraditoriamente inteira enquanto está em falta.

Escher, provavelmente.
Escher, possivelmente.

Administração da inveja como um meio para a burrice.
 
Mas já não vivemos tempos eróticos. Vivemos tempos “tanáticos”. Lembro aqui da oposição clássica entre Eros e Tanatos (vida e morte) que faz parte do pensamento psicanalítico e que tem tudo a ver com a oposição spinoziana entre alegria e tristeza, entre potência e impotência.

O momento “tanatológico”, esse contrário desejo de morte, ou desejo de tristeza, ou impotência para a alegria, que vivemos agora, tem tudo a ver com a impotência das impotências caracterizada pela inveja. Talvez possamos entender como chegamos a este estado de fascistização da sociedade e da mentalidade entendendo o elo nefasto entre a produção social da burrice – não como ignorância filosófica, aberta e generosa, como é sempre bom deixar claro, mas como ignorância prepotente, fechada e autoritária – e a administração da inveja como um meio para a burrice.
Em nossa época poderíamos dizer que a publicidade e a televisão administram o desejo, nos fazendo comprar, votar e crer. Mas justamente comprar o que não precisamos, votar em quem não nos representa, crer no que não cremos, nos deve fazer pensar em uma estranha forma de viver esse “desejo”.
Se nosso desejo está administrado, é bem provável que ele tenha se tornado alienado. E desse modo, impotente. E assim como a inteligência impotente chama-se burrice, o desejo impotente chama-se inveja.
Ora, entre a inteligência e o desejo há uma correspondência. Do mesmo modo entre a burrice e a inveja. A burrice é alcançada por tentativas frustradas do desejo de conhecer. Diante de respostas ou de estímulos negativos à nossa inteligência como capacidade de investigar o mundo, o outro, a sociedade, como busca por entender, como desejo de nudez, somos “tapados”; nossos olhos que desejariam ver mais longe, ampliar sua visão de mundo, são tapados, encobertos, enceguecidos, nublados, com véus finos até muros cimentados, até o cimento da morte que é a “burrice máxima” em termos cognitivos e políticos. Que o poder atual se valha dela, é uma questão também administrativa.
Podemos, por isso, dizer que a televisão e a publicidade (às quais a experiência política e religiosa estão atreladas ao nível das instituições), administram, na verdade, a inveja.
Inveja é desejo impotente, é desejo cancelado, mutilado. Assim como a burrice é uma mutilação cognitiva e moral, a inveja é uma categoria que precisa ser vista de um ponto de vista moral e cognitivo. Ela é, assim, como a burrice, produzida e manipulada.
A nossa dificuldade de aprender certas coisas vem da produção da burrice por meio da inveja. Todo indivíduo inteligente é desejante. Todo indivíduo cognitivamente impotente é invejoso.

Importência
Quando sentimos inveja nos sentimos “burros”, mas ocultamos isso. Há uma estranha realização nisso. A contraditória realização que nos traz toda irrealização. Somos despreparados para o desejo do outro porque somos despreparados para o outro. Somos preparados para o desejo do outro pelo rosto espelhado do outro. Desde pequenos temos que ser olhados e convidados à linguagem pelo outro. Mas podemos ser mal recebidos, o outro pode se apresentar a nós como uma promessa não cumprida. Então nos tornamos fechados para ele.
Então nos contentamos com o mero ver o rosto do outro como um outro e não como um espelho. Eu invejo aquilo que eu nego como espelho.
Não se trata no ver da “inveja” de uma contemplação do rosto do outro (da sua identidade, do seu modo de vida). Aliás, a contemplação é da ordem do pensamento aberto, filosófico, meditativo. Ela requer uma postura diante do espelho que sempre experimentamos diante de qualquer pessoa que nos olha ou que poderia nos olhar. Pensar é ter a noção da distância com esse rosto. é perceber a diferença. A inveja não possui essa chance de pensamento. Falta-lhe espelho, logo falta distância ou tudo parece distância, o que dá no mesmo.
O olho do invejoso está morto para o outro, parado, destrói no ato mesmo de ver. Ele vê o outro como um morto. E destrói por sua impotência. Destrói porque a impotência em si mesma é destrutiva, já é desejo destruído antes de ter nascido. Onde algo deveria existir, onde algo deveria nascer, onde algo novo poderia surgir, é antes devorado pela força da pura impotência. Fingindo-se de morto, ele se dá ares de “importência”, um misto de importância com impotência, que mascara a dor de não poder ser nada senão alguém que queria ser o outro que ele julga estar melhor do que ele, completo, total.
Assim diante das vitrines, das televisões, das telas dos celulares, nos tornamos “importentes”. Então compramos, votamos, e praticamos outras aberrações da crença.
É na etimologia da palavra que está guardada a sua verdade histórica. Invidia, mais que falta – a falta do seio da mãe que amamenta o irmão nas Confissões de Agostinho – põe em jogo algo como um excesso de ver. Esse excesso de ver que não deixa espaço para a dúvida, essa “gordura” de quem devora tudo, sem deixar espaço vazio para a digestão que é o pensamento reflexivo – o ruminar de que falava Nietzsche – é a forma básica da inveja.
Uma cultura em que a inveja se tornou o afeto regulador da vida só pode dar em fascismo.

Invidia ou uma visão de merda: sinais para pensar mais
Santo Agostinho nos dá de uma vez a fórmula do ver e da inveja: “video, sed non invideo”, se vejo, mas não in-vejo é porque vejo na medida dos meus olhos, porque meu olhar não é mais que a visão que contempla. Não invejar é o desafio. Por que a inveja implica querer tomar o lugar do outro. Ver é externo à coisa. Ver é tátil, tangencia àquilo com que se relaciona. O simplesmente ver define que há olhos abertos ao outro em busca de informação, reflexão, pensamento. A inveja não se contenta com o contemplar, ela quer mais, ela quer devorar com o olho.
A mistura da função do olho com a função da boca, essa “fome do olho” (sobre a qual falei em meu Olho de Vidro) é uma fome insaciável. Ela é a própria inveja. No caso das tecnologias visuais que nos atacam com obsessão na viciante cultura do espetáculo (nos termos da sociedade fissurada), define a inveja como uma espécie de fome louca em relação à qual temos aquele efeito de “larica” que nos faz querer mais sem poder usufruir do prazer de comer, porque a fome artificial, produzida por um droga, devorou todo prazer.
O olhar que caracteriza a inveja como uma função não é só análogo à boca, mas também ao furo anal. Ela tem relação com o ato de reter aquilo que não quer perder. Lembro do meu “olho de vidro”, a metáfora para a televisão como prótese de conhecimento. Assim o “olho de vidro” que é a televisão (esse aparelho pedagógico da inveja) é, como no sonho do Homem dos ratos de Freud, aquilo que se põe no lugar dos olhos. O homem dos ratos via excrementos no lugar dos olhos da filha de Freud. Segundo Freud, o estrume no lugar dos olhos da garota mostrava o desejo do homem dos ratos. Ele se casava por dinheiro muito mais do que por seus “belos olhos”. O fato de que ele visse os olhos com estrume informa-nos que ele fantasiava esses olhos como ânus (lembremos de Bataille e sua “História do olho”). A fantasia necessariamente informa de um desejo, mas além do desejo anal, e do erotismo anal sobre o qual podemos hipotetizar, muito mais o que surge é a passagem entre uma coisa e outra: “vir para fora do reto pode ser representada pela noção oposta de mover-se para dentro do reto (…) e vice-versa”. Em resumo, nesse registro, a inveja seria uma visão de merda.
O estrume é ele mesmo a prótese, como o dinheiro é prótese, substituto ideal – e por isso universal – de objetos e coisas em geral que, diante dele se tornam meras mercadorias. A inveja é este olhar que retém fezes como um orifício anal, como um cofrinho retém moedas.
Aquilo que não se quer perder deve ser devotado aos olhos. A cultura visual é uma cultura da retenção, do medo à perda, da evitação do luto das coisas que senso vistas, são guardadas como coisas mortas. A inveja é, assim, espécie e olhar que não deixa de ver por medo de perder o visto. Invejoso que sou, agarro com meu olho, como com meus olhos. Retenho a minha merda, um mundo que transformei em merda. Um mundo de mercadorias. Mau uso do órgão criativo que é o ânus…
A inveja primeiro é pensada como uma cobiça, como anseio em obter pelo ver, em possuir pelo ato de ver, possuir aquilo que o ânus, ele mesmo oco, possui. A inveja é o olhar transformado em pura intencionalidade, não um olhar que tangencia a coisa, mas ontologicamente a devora para dentro de si e a vomita. Olho devorador e bulímico. A inveja é, assim, não apenas, um olhar que penetra, que invade, mas que, invadindo, elimina tomando para si aquilo que quer negar no instante mesmo de seu gesto secreto.
O olhar que devora as coisas é devorado pela tecnologia que dele apreende o modo de ser e o reproduz devolvendo-o na forma de uma prótese que imita o corpo a que deve servir. Foi a natureza do olho que se modificou no processo, ele mesmo invejoso da própria tecnologia. O orgânico olho humano foi devorado no ato de ser informado pelas tecnologias, elas mesmas informadas por teorias que derivam de um gesto: de um olhar. Não apenas o olho devora, mas ele mesmo é o resultado de uma evisceração. Como se o olho que imita o olho tecnologicamente tivesse sido reimplantado no corpo humano. O olho humano não é mais puro olho.
Olho devorador, somos todos convidados à glutonaria ótica própria do tempo do visual sintetizado na publicidade como forma de vida. É ela hoje o sistema que nos convida à inveja programada diariamente para nos impedir de contemplar e de, assim, desejar verdadeiramente.
A política de hoje tem tudo a ver com isso.
Melhorar o nosso olhar é o que nos cabe antes que tenhamos devorado uns aos outros pelos olhos e aniquilado nossa chance política.
Vista na: Cult

A precisão musical e a contundência que traziam era equivalente a um novo "Navio Negreiro", de Castro Alves
Leonardo Lichote
Os versos pintam um quadro seco e duro como a base rítmica:
“No último Natal, Papai Noel escondeu um brinquedo
Prateado, brilhava no meio do mato
Um menininho de dez anos achou o presente
Era de ferro com doze balas no pente
O fim de ano foi melhor pra muita gente”

Na letra, o tempo todo, a miséria da periferia paulistana aparece contrastada com a alegria tranquila e abastada da classe média, retratada com termos pejorativos – playboys lavando carro, a vaca loura jogando suas armas de sedução atrás de um homem com dinheiro. O título idílico coroa, com ironia, a denúncia da desigualdade: “Fim de semana no parque”.
A música foi a primeira dos Racionais MCs a romper a barreira do gueto e chegar a rádios de pop-rock do país, na primeira metade dos anos 1990. Surgido no fim dos anos 1980, o grupo já tinha construído pelo menos mais um clássico no cenário do hip hop, “Homem na estrada”, saga trágica de um ex-presidiário “que se recuperou e quer viver em paz/ não olhar para trás/ dizer ao crime: nunca mais”. O ambiente que o cerca é desenhado em pinceladas certeiras: a lógica implacável da guerra do tráfico; a imprensa sensacionalista alimentada por essa lógica; a dinâmica da economia que torna as drogas um negócio rentável para a “diretoria” (ricos que contam os lucros longe da favela).
“Um mano meu tava ganhando um dinheiro,
Tinha comprado um carro, até rolex tinha
Foi fuzilado à queima roupa no colégio, abastecendo a playboyzada de farinha
Ficou famoso, virou notícia, rendeu dinheiro aos jornais, cartaz à policia
Vinte anos de idade, alcançou os primeiros lugares… superstar do Notícias Populares
Uma semana depois chegou o crack, gente rica por trás, diretoria
Aqui, periferia, miséria de sobra
Um salário por dia garante a mão-de-obra
A clientela tem grana e compra bem, tudo em casa, costa quente de sócio.”

Naquele Brasil pré-Plano Real, os Racionais MCs traziam em sua música, sem disfarces, o rancor de séculos de opressão racial – rancor personificado na figura sisuda de Mano Brown, sujeito avesso a entrevistas. Apesar de o cotidiano dos morros terem sido temas de inúmeros sambas antes, sempre havia o humor ou o lirismo para atenuar o desenho – enfim, nunca tanta crueza havia sido exposta na canção popular brasileira. A força da chegada daquele discurso (ponta de lança de uma geração do hip hop que vicejava em periferias de todos os cantos do Brasil) – com a qualidade literária (sim, de uso eficaz, criativo, potente da palavra), a precisão musical e a contundência que Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay traziam – era equivalente a um novo “Navio negreiro”, de Castro Alves. Se “Navio negreiro” tivesse sido escrito pelos escravos.
A emergência desse discurso já seria, por si só, algo grandioso. Mas há mais sob a aparente lógica sem tons de cinza dos Racionais MCs, que divide o mundo em preto/branco, certo/errado, mano/playboy. Há uma complexidade insuspeita na dicotomia seca que o grupo expõe – há um Brasil vivo ali, enfim. Há pistas disso já em “Fim de semana no parque”. A faixa tem a participação de Netinho, do grupo de pagode Negritude Jr. (com seu canto-sorriso, seu romantismo açucarado, em tudo oposto ao ideal dos Racionais MCs, de uso da música para conscientização do povo preto). Um dueto que ecoa o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda. A ideologia aparentemente monolítica, pétrea, dos rappers, ganha reentrâncias insuspeitas para que se encaixe um velho amigo – Netinho e Mano Brown se conheceram na adolescência. A lealdade da amizade sobreposta à lógica do discurso – Mano Brown também participa de “Gente da gente”, faixa de álbum homônimo dos pagodeiros – se não suaviza, pelo menos oferece novas camadas de compreensão para os Racionais MCs.
Na mesma faixa, há samples (fragmentos) de Jorge Ben Jor, extraídos das canções “Frases” e “Dumingaz”. A presença sempre solar do autor de “País tropical” – que, em letra e música, sempre escolheu ser contundente pelo caminho da alegria, diferentemente dos rappers do Capão Redondo – não está ali como ironia, deslocamento. Tudo é muito mais. Primeiramente, porque “Frases” traz exatamente como personagem um menino “que não é ninguém”, como o garoto de “Vamos passear no parque”. Em segundo lugar, porque Ben Jor é o ídolo maior de Brown e seus colegas de grupo. O carioca é convidado de honra do DVD 1000 trutas 1000 tretas, primeiro dos Racionais MCs, lançado em 2006.
A proximidade de Racionais MCs e Ben Jor emerge da mesma dinâmica que fez com que o líder do grupo incorporasse o nome de James Brown ao seu – tanto o mestre americano como o brasileiro carregam a afirmação positiva, explosiva, celebratória do poder negro, black power, na forma como dizem que black is beautiful, negro é lindo. Mais que isso, essa proximidade Racionais-Ben-Brown tem raízes históricas, na maneira como se desenhou a formação musical dos jovens de periferia brasileiros dos anos 1970. Os bailes (nas ruas) e as vitrolas (nas casas) eram alimentados pela black music americana de James Brown, Marvin Gaye e George Clinton ou pelo sambalanço de Ben Jor (então Jorge Ben), Bebeto, Luís Vagner.  Essa pré-história do hip hop nacional é mostrada pelo própria banda, num documentário dirigido por Mano Brown, extra do DVD 1000 trutas 1000 tretas. O ato de produzir o filme revela que a ambição educativa do grupo vai além de suas letras – há ali o desejo mesmo de desenhar a narrativa na qual os Racionais MCs se inserem na realidade brasileira, por identidade de classe, política, histórica.
Dessa forma, indiretamente, eles atacam a famosa teoria de “linha evolutiva” da música brasileira, lançada por Caetano Veloso – linha que vem do samba, passa pelo samba-canção, por João Gilberto, desemboca nos festivais, na Tropicália e segue se desdobrando até hoje. Ou, se não a contradizem, os Racionais pelo menos apresentam uma bifurcação bastante interessante, com um corte de classe. Marcelo D2 costumava dizer que na sua casa (de classe média baixa, suburbana) não se ouvia Chico e Caetano (em outras palavras, a geração dos festivais), e sim Bezerra da Silva e João Nogueira – sambistas então contemporâneos, que falavam da realidade daquele momento. A lógica é essa. As referências que formaram os Racionais ajudam a entender como eles se posicionam frente à tradição musical brasileira – e à americana, matriz do hip hop.
É ilustrativo o episódio de 2003, dos bastidores da participação dos Racionais MCs no programa “Ensaio”, de Fernando Faro – que documenta há décadas o caminhar da música brasileira. Como revelado em reportagem de Pedro Alexandre Sanches na Folha de S. Paulo, antes da gravação, Faro tentou identificá-los com a tradição dos sambas produzidos por compositores que retratavam a periferia que vivam – no caso, Wilson Baptista, autor de canções como “Mulato calado” (“A polícia procura o matador/ mas em Mangueira não existe delator”) e “Pedreiro Valdemar” (“Fez tanta casa e não tem casa pra morar/ Valdemar, que é mestre no ofício/ constrói um edifício e depois não pode entrar”). Sobre Baptista, eles dizem que não conhecem (“É samba-rock?”). O samba aparece quando Brown lembra que cantava “as músicas conhecidas da época, de Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Leci Brandão, Beth Carvalho”.
Ecoa neles aquilo que Caetano (novamente) chama de “vontade fela-da-puta de ser americano”, que identifica como desejo comum a Raul Seixas e aos rappers brasileiros (“Quando eu passei por aqui/ a minha luta foi exibir/ uma vontade fela-da-puta/ de ser americano/ e hoje olha os mano”, canta em “Rock’n’Raul”). Afinal, os códigos do hip hop brasileiro, do qual os Racionais MCs ajudaram a desenhar a cartilha (antes deles, pioneiros como Thaíde e DJ Hum) estão profundamente arraigados nos códigos do hip hop americano de grupos como Public Enemy e Run DMC. Como Tim Maia fizera anos antes ao traçar um soul brasileiro a partir de seu fascínio com a cultura americana e a música que os negros de lá produziam – o cantor é outra referência central para os Racionais MCs, e é da “fase Racional” de Tim Maia que vem o nome do grupo (e talvez parte do caráter quase religioso, evangelístico do discurso dos rappers, anti-álcool, antidrogas, com doses de misoginia).
A afirmação positiva do poder negro via Jorge Ben Jor e James Brown, a combatitividade dos rappers americanos (e seus antecedentes, como Malcolm X, referência para Mano Brown), a vontade fela-da-puta de Tim Maia, a realidade crua da periferia de São Paulo – exposta não por quem vê de fora, mas sim na primeira pessoa da voz do presidiário, de quem sofre violência policial, de quem tem o desejo do consumo alimentado pela propaganda e vetado pela falta de dinheiro, de quem sofre preconceito de classe e de cor ao circular pela cidade (nas canções do Racionais MCs, tanto quanto no funk ostentação, estão reveladas sementes dos chamados rolezinhos que eclodiram há alguns meses). As bases dos Racionais MCs que o país conheceu nos anos 1990 vêm dessa combinação. E aparece resolvida sem arestas, redonda, com sua força máxima, em Sobrevivendo no inferno, álbum de 1997 que, mesmo lançado de forma independente, ultrapassou a marca de um milhão de cópias vendidas (500 mil oficialmente).
As bases instrumentais do álbum são aparentemente simples, como se houvesse um cuidado para que elas não roubassem atenção das letras – a música está ali para potencializar as palavras, mais eficiência do que surpresa. A gravação de “Jorge da Capadócia”, música de Ben Jor baseada na oração a São Jorge que abre Sobrevivendo no inferno,  é um dos marcos mais bonitos, profundos e significativos da trajetória dos Racionais MCs, ao apontar com clareza raízes ao mesmo tempo em que anuncia novas possibilidades, em música e letra, para os Racionais MCs, para além das dicotomias.
Somente cinco anos depois eles lançariam o álbum seguinte, o duplo Nada como um dia após o outro dia. Ali, eles cantam de outro lugar. Não mais da periferia, mas do lugar de quem a conhece, mas saiu dela pelo trabalho. “Negro drama” dá mais uma volta no parafuso, quando Brown canta que seu “negro drama” segue mesmo quando ele está num carrão. E analisa, provocador, o fascínio da classe média com ele, sua entrada no circuito de popstar – e da própria adoção do hip hop como a grande música pop dos anos 2000, adorada por playboys de todas as latitudes do mundo.
“Inacreditável, mas seu filho me imita
[…] esse não é mais seu
ó, subiu
entrei pelo seu rádio
tomei
cê nem viu
nós é isso, aquilo
o que
cê não dizia

seu filho quer ser preto
rá
que ironia”

De alguma forma, antecipam e documentam a ascensão social de toda uma geração de jovens da periferia – num movimento movido por ações governamentais da gestão lulista (Bolsa Família, ProUni) e pelo controle da inflação implementado por Itamar Franco/ Fernando Henrique uma década antes. A periferia era outra. O próprio amadurecimento fazia com que surgissem raps como “Jesus chorou”, uma ode à lágrima do guerreiro, de um lirismo duro, mas lirismo:
“Clara e salgada
cabe em um olho e pesa uma tonelada
tem sabor de mar
pode ser discreta
inquilina da dor
morada predileta
na calada ela vem
refém da vingança
irmã do desespero
rival da esperança”

A própria lista de samples do disco – que inclui Almir Guineto e Ray Davies Orchestra – aponta o desejo de explorar novas fronteiras. “12 de outubro”, outro exemplo, é uma fala de Brown sobre uma base de um solo de “violão brasileiro”. A complexidade latente em “Fim de semana no parque” começava a se tornar patente. Brown, que por anos se mostrou irredutível por sua posição quanto à Rede Globo, em entrevista no ano passado à Revista Fórum avaliava a conquista de espaço do povo dentro da emissora, via “autores mais jovens”: “Três governos de esquerda eleitos pelo povo, o Brasil pagou a dívida, a classe C tomando espaço e a Globo expondo isso na novela, todo mundo analisando, os autores são mais jovens e começaram a mudar a mente, as ideias começaram a ir pra tela e os movimentos ganhando força a partir das ideias, muita coisa junto”.
Ao mesmo tempo, o episódio do quebra-quebra na Virada Cultural de 2007, no confronto entre público e polícia durante um show do Racionais MCs – e o consequente discurso preconceituoso que nasceu daí para explicar a confusão, responsabilizando o grupo e seu público (“pretos e pobres de periferia” era a mensagem subliminar) – mostrou que tensões das quais eles falavam desde a sua fundação (e que eram filhas daquelas de “Navio negreiro”) ainda estavam vivas.
A última música lançada pelos Racionais MCs, “Mil faces de um homem leal”, tributo a Carlos Marighella (“Um cara de um valor inestimável, gigante para a história do Brasil e para a raça negra também”, disse Brown na ocasião do lançamento, em 2012), tem a agudeza que consagrou os rappers. Mas agora, ligada a um contexto político até então inédito para o grupo: a ditadura militar – e a dinâmica “direita x esquerda” que advém dela e que renasceu no debate político nacional, turbinado em blogs e redes sociais. Para onde vão os Racionais MCs? Para onde vai o Brasil e sua periferia, parece a pergunta certa.
Leonardo Lichote
é repórter e crítico musical no jornal O Globo

Visto na: Cult