08 janeiro 2016


A precisão musical e a contundência que traziam era equivalente a um novo "Navio Negreiro", de Castro Alves
Leonardo Lichote
Os versos pintam um quadro seco e duro como a base rítmica:
“No último Natal, Papai Noel escondeu um brinquedo
Prateado, brilhava no meio do mato
Um menininho de dez anos achou o presente
Era de ferro com doze balas no pente
O fim de ano foi melhor pra muita gente”

Na letra, o tempo todo, a miséria da periferia paulistana aparece contrastada com a alegria tranquila e abastada da classe média, retratada com termos pejorativos – playboys lavando carro, a vaca loura jogando suas armas de sedução atrás de um homem com dinheiro. O título idílico coroa, com ironia, a denúncia da desigualdade: “Fim de semana no parque”.
A música foi a primeira dos Racionais MCs a romper a barreira do gueto e chegar a rádios de pop-rock do país, na primeira metade dos anos 1990. Surgido no fim dos anos 1980, o grupo já tinha construído pelo menos mais um clássico no cenário do hip hop, “Homem na estrada”, saga trágica de um ex-presidiário “que se recuperou e quer viver em paz/ não olhar para trás/ dizer ao crime: nunca mais”. O ambiente que o cerca é desenhado em pinceladas certeiras: a lógica implacável da guerra do tráfico; a imprensa sensacionalista alimentada por essa lógica; a dinâmica da economia que torna as drogas um negócio rentável para a “diretoria” (ricos que contam os lucros longe da favela).
“Um mano meu tava ganhando um dinheiro,
Tinha comprado um carro, até rolex tinha
Foi fuzilado à queima roupa no colégio, abastecendo a playboyzada de farinha
Ficou famoso, virou notícia, rendeu dinheiro aos jornais, cartaz à policia
Vinte anos de idade, alcançou os primeiros lugares… superstar do Notícias Populares
Uma semana depois chegou o crack, gente rica por trás, diretoria
Aqui, periferia, miséria de sobra
Um salário por dia garante a mão-de-obra
A clientela tem grana e compra bem, tudo em casa, costa quente de sócio.”

Naquele Brasil pré-Plano Real, os Racionais MCs traziam em sua música, sem disfarces, o rancor de séculos de opressão racial – rancor personificado na figura sisuda de Mano Brown, sujeito avesso a entrevistas. Apesar de o cotidiano dos morros terem sido temas de inúmeros sambas antes, sempre havia o humor ou o lirismo para atenuar o desenho – enfim, nunca tanta crueza havia sido exposta na canção popular brasileira. A força da chegada daquele discurso (ponta de lança de uma geração do hip hop que vicejava em periferias de todos os cantos do Brasil) – com a qualidade literária (sim, de uso eficaz, criativo, potente da palavra), a precisão musical e a contundência que Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay traziam – era equivalente a um novo “Navio negreiro”, de Castro Alves. Se “Navio negreiro” tivesse sido escrito pelos escravos.
A emergência desse discurso já seria, por si só, algo grandioso. Mas há mais sob a aparente lógica sem tons de cinza dos Racionais MCs, que divide o mundo em preto/branco, certo/errado, mano/playboy. Há uma complexidade insuspeita na dicotomia seca que o grupo expõe – há um Brasil vivo ali, enfim. Há pistas disso já em “Fim de semana no parque”. A faixa tem a participação de Netinho, do grupo de pagode Negritude Jr. (com seu canto-sorriso, seu romantismo açucarado, em tudo oposto ao ideal dos Racionais MCs, de uso da música para conscientização do povo preto). Um dueto que ecoa o “homem cordial” de Sérgio Buarque de Holanda. A ideologia aparentemente monolítica, pétrea, dos rappers, ganha reentrâncias insuspeitas para que se encaixe um velho amigo – Netinho e Mano Brown se conheceram na adolescência. A lealdade da amizade sobreposta à lógica do discurso – Mano Brown também participa de “Gente da gente”, faixa de álbum homônimo dos pagodeiros – se não suaviza, pelo menos oferece novas camadas de compreensão para os Racionais MCs.
Na mesma faixa, há samples (fragmentos) de Jorge Ben Jor, extraídos das canções “Frases” e “Dumingaz”. A presença sempre solar do autor de “País tropical” – que, em letra e música, sempre escolheu ser contundente pelo caminho da alegria, diferentemente dos rappers do Capão Redondo – não está ali como ironia, deslocamento. Tudo é muito mais. Primeiramente, porque “Frases” traz exatamente como personagem um menino “que não é ninguém”, como o garoto de “Vamos passear no parque”. Em segundo lugar, porque Ben Jor é o ídolo maior de Brown e seus colegas de grupo. O carioca é convidado de honra do DVD 1000 trutas 1000 tretas, primeiro dos Racionais MCs, lançado em 2006.
A proximidade de Racionais MCs e Ben Jor emerge da mesma dinâmica que fez com que o líder do grupo incorporasse o nome de James Brown ao seu – tanto o mestre americano como o brasileiro carregam a afirmação positiva, explosiva, celebratória do poder negro, black power, na forma como dizem que black is beautiful, negro é lindo. Mais que isso, essa proximidade Racionais-Ben-Brown tem raízes históricas, na maneira como se desenhou a formação musical dos jovens de periferia brasileiros dos anos 1970. Os bailes (nas ruas) e as vitrolas (nas casas) eram alimentados pela black music americana de James Brown, Marvin Gaye e George Clinton ou pelo sambalanço de Ben Jor (então Jorge Ben), Bebeto, Luís Vagner.  Essa pré-história do hip hop nacional é mostrada pelo própria banda, num documentário dirigido por Mano Brown, extra do DVD 1000 trutas 1000 tretas. O ato de produzir o filme revela que a ambição educativa do grupo vai além de suas letras – há ali o desejo mesmo de desenhar a narrativa na qual os Racionais MCs se inserem na realidade brasileira, por identidade de classe, política, histórica.
Dessa forma, indiretamente, eles atacam a famosa teoria de “linha evolutiva” da música brasileira, lançada por Caetano Veloso – linha que vem do samba, passa pelo samba-canção, por João Gilberto, desemboca nos festivais, na Tropicália e segue se desdobrando até hoje. Ou, se não a contradizem, os Racionais pelo menos apresentam uma bifurcação bastante interessante, com um corte de classe. Marcelo D2 costumava dizer que na sua casa (de classe média baixa, suburbana) não se ouvia Chico e Caetano (em outras palavras, a geração dos festivais), e sim Bezerra da Silva e João Nogueira – sambistas então contemporâneos, que falavam da realidade daquele momento. A lógica é essa. As referências que formaram os Racionais ajudam a entender como eles se posicionam frente à tradição musical brasileira – e à americana, matriz do hip hop.
É ilustrativo o episódio de 2003, dos bastidores da participação dos Racionais MCs no programa “Ensaio”, de Fernando Faro – que documenta há décadas o caminhar da música brasileira. Como revelado em reportagem de Pedro Alexandre Sanches na Folha de S. Paulo, antes da gravação, Faro tentou identificá-los com a tradição dos sambas produzidos por compositores que retratavam a periferia que vivam – no caso, Wilson Baptista, autor de canções como “Mulato calado” (“A polícia procura o matador/ mas em Mangueira não existe delator”) e “Pedreiro Valdemar” (“Fez tanta casa e não tem casa pra morar/ Valdemar, que é mestre no ofício/ constrói um edifício e depois não pode entrar”). Sobre Baptista, eles dizem que não conhecem (“É samba-rock?”). O samba aparece quando Brown lembra que cantava “as músicas conhecidas da época, de Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Leci Brandão, Beth Carvalho”.
Ecoa neles aquilo que Caetano (novamente) chama de “vontade fela-da-puta de ser americano”, que identifica como desejo comum a Raul Seixas e aos rappers brasileiros (“Quando eu passei por aqui/ a minha luta foi exibir/ uma vontade fela-da-puta/ de ser americano/ e hoje olha os mano”, canta em “Rock’n’Raul”). Afinal, os códigos do hip hop brasileiro, do qual os Racionais MCs ajudaram a desenhar a cartilha (antes deles, pioneiros como Thaíde e DJ Hum) estão profundamente arraigados nos códigos do hip hop americano de grupos como Public Enemy e Run DMC. Como Tim Maia fizera anos antes ao traçar um soul brasileiro a partir de seu fascínio com a cultura americana e a música que os negros de lá produziam – o cantor é outra referência central para os Racionais MCs, e é da “fase Racional” de Tim Maia que vem o nome do grupo (e talvez parte do caráter quase religioso, evangelístico do discurso dos rappers, anti-álcool, antidrogas, com doses de misoginia).
A afirmação positiva do poder negro via Jorge Ben Jor e James Brown, a combatitividade dos rappers americanos (e seus antecedentes, como Malcolm X, referência para Mano Brown), a vontade fela-da-puta de Tim Maia, a realidade crua da periferia de São Paulo – exposta não por quem vê de fora, mas sim na primeira pessoa da voz do presidiário, de quem sofre violência policial, de quem tem o desejo do consumo alimentado pela propaganda e vetado pela falta de dinheiro, de quem sofre preconceito de classe e de cor ao circular pela cidade (nas canções do Racionais MCs, tanto quanto no funk ostentação, estão reveladas sementes dos chamados rolezinhos que eclodiram há alguns meses). As bases dos Racionais MCs que o país conheceu nos anos 1990 vêm dessa combinação. E aparece resolvida sem arestas, redonda, com sua força máxima, em Sobrevivendo no inferno, álbum de 1997 que, mesmo lançado de forma independente, ultrapassou a marca de um milhão de cópias vendidas (500 mil oficialmente).
As bases instrumentais do álbum são aparentemente simples, como se houvesse um cuidado para que elas não roubassem atenção das letras – a música está ali para potencializar as palavras, mais eficiência do que surpresa. A gravação de “Jorge da Capadócia”, música de Ben Jor baseada na oração a São Jorge que abre Sobrevivendo no inferno,  é um dos marcos mais bonitos, profundos e significativos da trajetória dos Racionais MCs, ao apontar com clareza raízes ao mesmo tempo em que anuncia novas possibilidades, em música e letra, para os Racionais MCs, para além das dicotomias.
Somente cinco anos depois eles lançariam o álbum seguinte, o duplo Nada como um dia após o outro dia. Ali, eles cantam de outro lugar. Não mais da periferia, mas do lugar de quem a conhece, mas saiu dela pelo trabalho. “Negro drama” dá mais uma volta no parafuso, quando Brown canta que seu “negro drama” segue mesmo quando ele está num carrão. E analisa, provocador, o fascínio da classe média com ele, sua entrada no circuito de popstar – e da própria adoção do hip hop como a grande música pop dos anos 2000, adorada por playboys de todas as latitudes do mundo.
“Inacreditável, mas seu filho me imita
[…] esse não é mais seu
ó, subiu
entrei pelo seu rádio
tomei
cê nem viu
nós é isso, aquilo
o que
cê não dizia

seu filho quer ser preto
rá
que ironia”

De alguma forma, antecipam e documentam a ascensão social de toda uma geração de jovens da periferia – num movimento movido por ações governamentais da gestão lulista (Bolsa Família, ProUni) e pelo controle da inflação implementado por Itamar Franco/ Fernando Henrique uma década antes. A periferia era outra. O próprio amadurecimento fazia com que surgissem raps como “Jesus chorou”, uma ode à lágrima do guerreiro, de um lirismo duro, mas lirismo:
“Clara e salgada
cabe em um olho e pesa uma tonelada
tem sabor de mar
pode ser discreta
inquilina da dor
morada predileta
na calada ela vem
refém da vingança
irmã do desespero
rival da esperança”

A própria lista de samples do disco – que inclui Almir Guineto e Ray Davies Orchestra – aponta o desejo de explorar novas fronteiras. “12 de outubro”, outro exemplo, é uma fala de Brown sobre uma base de um solo de “violão brasileiro”. A complexidade latente em “Fim de semana no parque” começava a se tornar patente. Brown, que por anos se mostrou irredutível por sua posição quanto à Rede Globo, em entrevista no ano passado à Revista Fórum avaliava a conquista de espaço do povo dentro da emissora, via “autores mais jovens”: “Três governos de esquerda eleitos pelo povo, o Brasil pagou a dívida, a classe C tomando espaço e a Globo expondo isso na novela, todo mundo analisando, os autores são mais jovens e começaram a mudar a mente, as ideias começaram a ir pra tela e os movimentos ganhando força a partir das ideias, muita coisa junto”.
Ao mesmo tempo, o episódio do quebra-quebra na Virada Cultural de 2007, no confronto entre público e polícia durante um show do Racionais MCs – e o consequente discurso preconceituoso que nasceu daí para explicar a confusão, responsabilizando o grupo e seu público (“pretos e pobres de periferia” era a mensagem subliminar) – mostrou que tensões das quais eles falavam desde a sua fundação (e que eram filhas daquelas de “Navio negreiro”) ainda estavam vivas.
A última música lançada pelos Racionais MCs, “Mil faces de um homem leal”, tributo a Carlos Marighella (“Um cara de um valor inestimável, gigante para a história do Brasil e para a raça negra também”, disse Brown na ocasião do lançamento, em 2012), tem a agudeza que consagrou os rappers. Mas agora, ligada a um contexto político até então inédito para o grupo: a ditadura militar – e a dinâmica “direita x esquerda” que advém dela e que renasceu no debate político nacional, turbinado em blogs e redes sociais. Para onde vão os Racionais MCs? Para onde vai o Brasil e sua periferia, parece a pergunta certa.
Leonardo Lichote
é repórter e crítico musical no jornal O Globo

Visto na: Cult

Quem chorou por Vitor, o bebê indígena assassinado com uma lâmina enfiada no pescoço?
Um menino de dois anos foi assassinado. Um homem afagou seu rosto. E enfiou uma lâmina no seu pescoço. O bebê era um índio do povo Kaingang. Seu nome era Vitor Pinto. Sua família, como outras da aldeia onde ele vivia, havia chegado à cidade para vender artesanato pouco antes do Natal. Ficariam até o Carnaval. Abrigavam-se na estação rodoviária de Imbituba, no litoral de Santa Catarina. Era lá que sua mãe o alimentava quando um homem perfurou sua garganta. Era meio-dia de 30 de dezembro. O ano de 2015 estava bem perto do fim.
E o Brasil não parou para chorar o assassinato de uma criança de dois anos. Os sinos não dobraram por Vitor.
Sua morte sequer virou destaque na imprensa nacional. Se fosse meu filho, ou de qualquer mulher branca de classe média, assassinado nessas circunstâncias, haveria manchetes, haveria especialistas analisando a violência, haveria choro e haveria solidariedade. E talvez houvesse até velas e flores no chão da estação rodoviária, como nas vítimas de terrorismo em Paris. Mas Vitor era um índio. Um bebê, mas indígena. Pequeno, mas indígena. Vítima, mas indígena. Assassinado, mas indígena. Perfurado, mas indígena. Esse “mas” é o assassino oculto. Esse “mas” é serial killer.
A fotografia que ilustrou as poucas notícias sobre a morte do curumim mostra o chão de cascalho e concreto da estação rodoviária. Um par de sandálias havaianas azul, com motivos infantis. Uma garrafa pet, uma estrelinha de brinquedo, daquelas de fazer molde na areia, uma tampa de plástico do que parece ser um baldinho de criança, uma pequena embalagem em formato de tubo, um pano florido amontoado junto à parede, talvez um lençol. É apresentada como “local do crime” ou como “os pertences do menino”.
Essa foto é um documento histórico. Tanto pelo que nela está quanto pelo que nela não está. Nela permanece o descartável, os objetos de plástico e de pet, os chinelos restados. Nela não está aquele que foi apagado da vida. A ausência é o elemento principal do retrato.
Os indígenas só podem existir no Brasil como gravura. Apreciados como ilustração de um passado superado, os primeiros habitantes dessa terra, com sua nudez e seus cocares, uma coisa bonita para se pendurar em algumas paredes ou estampar aqueles livros que decoram mesas de centro. Os indígenas têm lugar se estiverem empalhados, ainda que em quadros. No presente, sua persistência em existir é considerada inconveniente, de mau gosto. Há vários projetos tramitando no Congresso para escancarar suas terras para a exploração e o “progresso”. Há muitos territórios indígenas devidamente reconhecidos que o governo de Dilma Rousseff (PT) não homologa porque neles quer construir grandes obras ou porque teme ferir os interesses do agronegócio. Há uma Fundação Nacional do Índio (Funai) em progressivo desmonte, tão fragilizada que com frequência se revela também indecente. No passado, os índios são. No presente, não podem ser.
Como diz o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, os indígenas são especialistas em fim de mundo, já que o mundo deles acabou em 1500. Tiveram, porém, o desplante de sobreviver ao apocalipse promovido pelos deuses europeus. Ainda que centenas de milhares tenham sido exterminados, sobreviveram à extinção total. E porque sobreviveram continuam sendo mortos. Quando não se consegue matá-los, a estratégia é convertê-los em pobres nas periferias das cidades. Quando se tornam pobres urbanos, chamam-nos de “índios falsos”. Ou “paraguaios”, em mais um preconceito com o país vizinho. No passado, os índios são alegoria. “Olha, meu filho, como eram valentes os primeiros habitantes desta terra.” No presente, são “entraves ao desenvolvimento”. “Olha, meu filho, como são feios, sujos e preguiçosos esses índios fajutos.” Os índios precisam ser falsos porque suas terras são verdadeiras – e ricas.
Se Vitor era um entrave, esse entrave foi removido. Por isso essa foto é um documento histórico. Se houvesse alguma honestidade, é ela que deveria estar nas paredes.
Parece não bastar que Vitor, um bebê de dois anos, passasse semanas no chão de uma rodoviária porque a violência contra seu povo foi tanta e por tantos séculos e ainda hoje continua que seus pais, Sônia e Arcelino, precisam deixar a aldeia para vender artesanato. A preços baixos, porque desvalorizados são os artesãos. É importante perceber o nível de desamparo que leva alguém a considerar rodoviária um lugar seguro e acolhedor. Terminais rodoviários são locais de passagem, e a família de Vitor, assim como a de outros indígenas, abriga-se lá porque há movimento. Rodoviária é lugar de ninguém. E por isso nela costumam caber os mendigos, os meninos de rua, os bêbados, as putas, os loucos, os párias. E os índios. Ou cabiam. E já não cabem mais.
Rodoviárias são espaços de circulação de estranhos, e por serem “os outros”, os estrangeiros nativos, os indígenas acreditam que neste não lugar têm chance de escapar da expulsão. Mas seguidamente são expulsos. Parte da população dos municípios em que os indígenas aparecem com seu artesanato acha que a rodoviária é boa demais pra índio. Ou pra “bugre”, como são chamados em algumas regiões do sul do país. “A rodoviária é o cartão postal da cidade, período que tem tanta gente viajando, chegando. Que imagem vão levar da cidade?”, justificou um comerciante de São Miguel do Oeste, também em Santa Catarina, para justificar a expulsão dos indígenas do local antes do Natal.
Vitor já não estraga nenhum cartão postal. Dele não há nem mesmo um rosto. A foto de sua ausência não comoverá milhões pelo planeta como aconteceu com o menino sírio trazido pelas ondas do mar. A morte dos curumins não muda nenhuma política.
Antes que me acusem de precipitação, exagero ou injustiça, é preciso dizer: os “cidadãos de bem” não querem que crianças indígenas tenham seus pescoços perfurados. De jeito nenhum. Apenas que elas fiquem longe da vista. Em outro lugar em que não contaminem, sujem ou enfeiem. Mas também não nas suas terras, se estas forem ricas em minérios, férteis pra soja ou boa pra gado pastar. Aí também é abuso. Desapareçam, apenas. Mas matar, não, matar é maldade.
2015 foi o ano em que esse discurso deu ao Brasil o bicampeonato. O deputado estadual Fernando Furtado, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), foi reconhecido como “Racista do Ano” pela organização Survival International por seu pronunciamento antológico, ao se manifestar numa audiência pública: “Lá em Brasília, o Arnaldo viu os índios tudo de camisetinha, tudo arrumadinho, com flechinha, tudo um bando de viadinho, que tinha uns três que eram viado, que eu tenho certeza, viado. Eu não sabia que tinha índio viado, fui saber naquele dia em Brasília… Tudo viado. Então é desse jeito que tá, como é que índio já consegue ser viado, boiola, e não consegue trabalhar e produzir? Negativo!”.
O parlamentar se referia aos Awá-Guajá, considerados um dos povos mais vulneráveis do planeta. A conquista de Fernando Furtado, porém, não é inédita. Outro parlamentar, Luis Carlos Heinze, este deputado federal pelo Partido Progressista (PP) do Rio Grande do Sul, já tinha subido ao pódio em 2014, com a seguinte declaração: “O governo… está aninhado com quilombolas, índios, gays e lésbicas, tudo o que não presta”. Tudo indica que o Brasil é quase imbatível para o tricampeonato. Fala-se tanto em país polarizado, mas a premiação prova que os indígenas são um raro ponto de unanimidade entre certa direita e certa esquerda dessa grande nação.
Vitor, o bebê assassinado, vivia na aldeia Condá, no município de Chapecó, no oeste de Santa Catarina. Os crimes cometidos pelo Estado contra o povo Kaingang da região sul do Brasil estão registrados no Relatório Figueiredo, um documento histórico que se acreditava perdido e que foi descoberto no final de 2012. O relatório, datado de 1968, documentou o tratamento dado aos povos indígenas pelo extinto Serviço de Proteção aos Índios (SPI). No total, o procurador Jáder Figueiredo Correia dedicou 7.000 páginas para contar o que sua equipe viu e ouviu. Quem quiser compreender por que Vitor se abrigava no chão da rodoviária de Imbituba em vez de passar os meses de verão seguro, saudável e feliz na sua aldeia, tem uma rica fonte de informações no documento disponível na internet. Vai descobrir, entre outras atrocidades, como antepassados de Vitor chegaram a ser torturados e a viver em condições análogas à escravidão para que suas terras fossem desmatadas e exploradas pelos não índios, em pleno século 20. É possível que alguns destes “empreendedores” sejam avós daqueles que hoje acham que indígenas como Vitor sujam o cartão postal de suas cidades.
Depois do assassinato do bebê, a Polícia Militar prendeu o suspeito de sempre. Um rapaz pobre, em liberdade provisória, com “uma pequena quantidade de maconha e cocaína na mochila”. Como não havia nenhum indício contra ele, foi liberado. Em seguida, foi preso outro jovem, hoje considerado o principal suspeito. A polícia procurava alguém bastante genérico: com mochila e boné e tipo físico semelhante ao que aparece num vídeo gravado por uma câmera de segurança. A suspeita de policiais militares é de que o assassino estaria “incomodado com a presença dos indígenas no local”. A Polícia Civil mencionou como possíveis motivações “preconceito”, “surto” e “problemas psicológicos”. Em nota, o CIMI afirmou: “O Conselho Indigenista Missionário manifesta preocupação com o clima de intolerância que se propaga, na região sul do país, contra os povos indígenas. Um racismo – às vezes velado, às vezes explícito – é difundido através de meios de comunicação de massa e em redes sociais”.
Quem de fato assassinou Vitor talvez seja investigado, julgado, condenado e punido, o que já é uma raridade em mortes de indígenas no Brasil, marcadas pela impunidade. Mas é preciso fazer perguntas mais complicadas. Quem armou essa mão? Que encruzilhada histórica permitiu que Vitor fosse o bebê escolhido pelo assassino, independentemente de sua sanidade ou insanidade – e não o meu filho ou o seu? Onde estamos nós nesta foto em que estamos sem estar?
Tem se dito que 2015, um ano de crise no Brasil e horror em todas as partes, é o ano que não terminou. 2016 seria apenas um looping. Faz sentido. Na véspera deste Natal, Antônio Isídio Pereira da Silva, líder rural e ambientalista no Maranhão, foi encontrado morto. Era mais um assassinato anunciado. Há um ano foi arquivado o pedido de inclusão do agricultor no programa federal de proteção aos defensores de direitos humanos. Ele se preparava para denunciar mais um desmatamento ilegal numa região com graves conflitos de terra quando foi assassinado. Também no Natal, cinco jovens denunciaram policiais militares do Rio por tortura e roubo. Segundo seu relato, eles voltavam em três motos de uma festa quando foram detidos por PMs da Unidade de Polícia Pacificadora de Coroa, Fallet e Fogueteiro. Além de torturas com faca quente, isqueiro e socos, um deles teria sido obrigado a fazer sexo oral no amigo. Em São Paulo, levou apenas dois dias para ocorrer a primeira chacina de 2016, com quatro mortos na periferia de Guarulhos. Suspeita-se de vingança pela morte de um PM dias antes na região.
Começamos como acabamos. Nada, portanto, nem começou nem acabou. Quem continua morrendo de assassinato no Brasil, em sua maioria, são os negros, os pobres e os índios. O genocídio segue diante da indiferença, quando não aplauso, do que se chama de sociedade brasileira. Começamos 2016 como acabamos 2015. Obscenos. Os fogos do Ano-Novo já fracassam no artifício. Estamos nus. E nossa imagem é horrenda. Ela suja de sangue o pequeno corpo de Vitor por quem tão poucos choraram.
Dizem que 2015 é o ano que não acaba. Ou que 2013 é que não chega ao fim.
Para os indígenas é muito mais brutal: o ano de 1500 ainda não terminou.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas. Site: desacontecimentos.com Email:elianebrum.coluna@gmail.com Twitter:@brumelianebrum

Depois de ler, e de me chocar, tardiamente com a morte do menino Vitor Pinto, índio assassinado no Sul do Brasil na antevéspera do réveillon, fui teletransportado para minha adolescência. É que naquela época, mais precisamente em 1997, houve outro crime bárbaro envolvendo índio. Lembrei-me do líder indígena brasileiro da etnia pataxó-hã-hã-hãe, Galdino Jesus dos Santos, que foi queimado vivo por um grupo de jovens de Brasília. O crime teve uma justa repercussão nacional e, se não me engano, os acusados foram presos, mesmo que por pouco tempo.
Eis que anos mais tarde o pequeno Vitor Pinto de apenas 2 anos foi covardemente assassinado. Diferentemente, porém, do seu semelhante anterior, Vitor não teve a mesma visibilidade midiática. Mesmo com o Boom das redes sociais, pouco se falou do assassinato desse garoto. Será mais um dado catalogado entre tantas outras mortes ocorridas em 2015. Mais que isso, Vitor será esquecido, como todos aqueles que são mortos por nascerem e se tornarem minorias no Brasil. Sim, esse pequeno indiozinho foi sentenciado pelo preconceito, que não só o matou mas vem matando toda a sua descendência desde 1500.
Esse ceifamento é fruto de diversos descasos culturais, os quais semeiam na sociedade a falsa crença da superioridade desta sobre outras raças. Acreditando nisso, o homem branco sente-se no direito de burlar legislações e invadir propriedades indígenas sob o falso julgo do "progresso"; demoniza a religiosidade desses povos com práticas catequéticas impulsionadas por uma fé mercantilista, que se propaga pelo país angariando (forçando) novos "fiéis"; desrespeita a integridade física desses indivíduos com práticas escravistas e de exploração sexual, como se estivéssemos, ainda, no controverso período do achamento do Brasil; e, sobretudo, desvalorizam a cultura, o legado e toda a herança histórica desses habitantes renegando-os a subsistência.
Além de todo esse maltratamento, os índios continuam sendo mortos como em séculos atrás. O que não mudou foi o senso de impunidade, a obscenidade que corrompe os poderes públicos nacionais que agem passivamente diante de atrocidades como a que acometeu a existência do pequeno Vitor. Digo isso, porque muitos dirão que a morte desse menino não tem motivações preconceituosas, mas que é fruto da violência urbana banalizada e naturalizada no país. Este é o perigo do reducionismo: não enxergar a profundidade das coisas, limitando-as a fatalidade. Muito embora seja verídico que a violência seja uma constância na sociedade, por que ela só encurta a vida das minorias? Simplesmente porque elas não existem.
A invisibilidade matou Vitor Pinto. Como matou também Eduardo de Jesus, garoto assassinado com um tiro de fuzil na cabeça por um policial no Complexo do Alemão, favela do Rio de Janeiro. Outro crime absurdo foi o do estudante Rafael Melo, de 14 anos, morto a paulada e pedradas no Espírito Santo, pelo próprio tio do garoto que não aceitava o jeito afeminado da vítima. Índios, negros, pobres, gays, mulheres, dentre outros grupos minoritários, tiveram seu momento de destaque em 2015, quando foram noticiados longa ou rapidamente pelas mídias nacionais por serem vítimas da opressão, do desrespeito e do desamparo, social e legal, que rege esse Brasil de desiguais.
Desses clichês, resgata-se outro em forma de questionamento: e se fosse o inverso? E se um índio tivesse matado uma criança branca, como a sociedade reagiria? Temo em pensar nas respostas para tais questões, pois sem usar de tais artifícios os indígenas já são massacrados, imagina se estes revidassem? Aliás, se todas as minorias usassem da violência física para reivindicar seus direitos, nosso país superaria facilmente os campos de concentração nazistas, pois o que não falta por aqui é preconceito e preconceituosos para serem combatidos. Entretanto, se violência resolvesse muita coisa, nossos ex-presidiários seriam fortes candidatos ao Papado.
O enfrentamento da injustiça perpassava o choque. A nação ficava de boca aberta quando um crime bárbaro se tornava manchete midiática. Hoje as reações variam, porém há uma naturalização da criminalidade, como se esta já fizesse parte do todo diário da existência humana. A violência até pode listar entre as características humanas, mas o crime é um fenômeno social e deve ser combatido. Por isso, quando garotos são assassinados frequentemente dentro desse sistema significa dizer que a sociedade está na linha tênue do não retorno. Não retornar implica pensar que estamos caminhando para a barbárie suprema, aquela da qual o espetáculo maior será matar, não viver.
Infelizmente, isso já vem ocorrendo na prática. São cadáveres que protagonizam no palco da intolerância o seu pior papel: o de corpos baleados, cortados, perfurados, usados como marionetes por aqueles que lavam sua ignorância com sangue e saem impunes prontos para ceifar novas vidas, daqueles que só passam a existir depois de mortos, embora que por pouco tempo. Foi isso que aconteceu com o pequeno índio Vitor Pinto e que acontece constantemente com todos aqueles que são assassinados por nascerem e estarem em berços ou em posições desprivilegiadas social e moralmente.
A morte de Vitor Pinto, como a de todos os outros anônimos brevemente notáveis de 2015, deixa claro a necessidade de se rever o abismo que há entre os aceitos e os não aceitos. Como pensar em um 2016 melhor depois de saber que na virada do ano um garoto, que poderia ser meu filho, não estará entre nós para crescer e lutar pelos seus direitos? Em que panorama se encontra a sociedade atual para não ir as ruas alardear solidariamente em prol desse garoto, evitando que a sua morte tenha sido em vão? Qual o papel da rede social, em meio a esse mundo cibernético, em promover uma discussão que não polemize, mas que problematize as razões que levam alguém a tirar a vida do outrem baseado apenas em estigmas?

Em meio a tais reflexões, cansa saber que ao final desse texto, eu terei que lamentar a morte de mais um indivíduo, que igual a mim, não escolheu ser que é, apenas é. E ser no Brasil significa morrer. Hoje foi o índio, amanhã pode ser o negro, a mulher, o gay, o deficiente, a prostituta, o pai de santo... e assim a vida segue entre corpos, cadáveres, caixões e cinismo daqueles que conhecem as razões de tanta carnificina, possuem as armas para combatê-las, mas não o fazem. Enquanto isso, eu lamento por sua morte, Vitor, como lamento a de todos os outros que são levados precocemente pelo preconceito. Espero profundamente que sua partida não tenha sido em vão, todavia não posso te garantir otimismo nessas palavras. As únicas garantias que te dou são: você não será o último e de que não deixaremos de lutar pelos nossos.
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A fotografia de casamento dificilmente sai do lugar comum. Mas antes de criticar os fotógrafos da área é bom ter em mente que isso acontece mais pelo medo de arriscar do casal do que da vontade de inovar artistas da área.
Esse compilado de 25 fotos premiadas pela Junebug Weddings serve de inspiração para casais, fotógrafos e como uma chance de rever novas ideias para que o momento especial tenha um registro à altura. Acima, foto de Gabe McClintock.

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Foto de Dan O'Day
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Foto de Matt Lien

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Visto no: Ideia Fixa

A fogueira de Simone de Beauvoir a partir da questão do ENEM mostrou que a burrice se tornou um problema estrutural do Brasil. Se não for enfrentada, não há chance. Hordas e hordas de burros que ocupam espaços institucionais, burros que ocupam bancadas de TV, burros pagos por dinheiro público, burros pagos por dinheiro privado, burros em lugares privilegiados, atacaram a filósofa francesa porque o Exame Nacional de Ensino Médio colocou na prova um trecho de uma de suas obras, O Segundo Sexo, começando pela frase célebre: “Uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. Bastou para os burros levantarem as orelhas e relincharem sua ignorância em volumes constrangedores. Debater com seriedade a burrice nacional é mais urgente do que discutir a crise econômica e o baixo crescimento do país. A burrice está na raiz da crise política mais ampla. A burrice corrompe a vida, a privada e a pública. Dia após dia.
Recapitulando alguns espasmos do mais recente surto de burrice. O verbete de Simone de Beauvoir (1908-1986) na Wikipedia, conforme mostrou uma reportagem da BBC, foi invadido para tachar a escritora de “pedófila” e “nazista”. A Câmara de Vereadores de Campinas, no estado de São Paulo, aprovou uma “moção de repúdio” à filósofa. O deputado Marco Feliciano (PSC-SP), da Bancada da Bíblia, descobriu na frase “uma escolha adrede, ardilosa e discrepante do que se tem decidido sobre o que se deve ensinar aos nossos jovens”. Em sua página no Facebook, o promotor de justiça do município paulista de Sorocaba, Jorge Alberto de Oliveira Marum,chamou Beauvoir de “baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila”. Como o tema da redação do ENEM era “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, houve gente que estudou em colégios caros afirmando que este era um tema de esquerda, e portanto um sinal inequívoco de uma conspiração ideológica por parte do governo federal. Como sugeriu o crítico de cinema Inácio Araújo em seu blog, se defender que a mulher tenha o direito de andar sem ser perturbada, agredida e chutada é tema de esquerda, isso só pode significar que a direita vai muito mal.
Está cada vez mais difícil fazer humor no Brasil. Como nada do que foi relatado acima é piada, somos submetidos cotidianamente a uma experiência de perversão. Também não tem sido fácil escrever quando não se é humorista, por que o que se pode dizer, seriamente, diante de uma moção de repúdio à Simone de Beauvoir? Mas é preciso tratar com seriedade, porque talvez não exista nada mais sério do que a boçalidade que atravessa o país. Torna-se urgente, prioritário, fazer um esforço coletivo e enfrentar a burrice com o único instrumento capaz de derrotá-la: o pensamento.
Esta é a potência e a generosidade de um livro lançado pela filósofa Marcia Tiburi, escritora e professora universitária. O título vai direto ao ponto, afinal os tempos são graves demais para papinhos de salão: Como conversar com um fascista – reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro (Record). Nas 194 páginas, Marcia enfrenta as várias faces do cotidiano atual com profundidade, mas de forma acessível a quem não está familiarizado com os conceitos. Faz o mais difícil: escrever simples sem simplificar. É um livro que se pretende para todos, e não para os seus pares. Quem acompanha a trajetória da filósofa conhece a sua coragem. E este é um livro de coragem, já que é tão difícil quanto arriscado escrever sobre o que está em movimento, sem a proteção assegurada pelo distanciamento histórico. Poucos são os intelectuais que se arriscam a sair do conforto de seus feudos para enfrentar o debate público com suas dúvidas. E por isso aqueles que se arriscam de forma honesta, sem ficar arrotando suas certezas e suas credenciais, ou usando-as para massacrar aqueles que já são massacrados, são tão preciosos.
“Eu queria saber por que dialogar é impossível”, conta Marcia Tiburi, sobre a pergunta que a moveu nessa busca. Para enfrentar a ausência do pensamento, a filósofa propõe a resistência pelo diálogo. Este é um esforço de cada um –e de todos. Arriscar-se a deixar o “isolamento em comunidade”, a forma atual da vida social e política, para confrontar o que ela chama de “consumismo da linguagem”. Compreender o confronto atual como um confronto entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, machistas e feministas é, segundo ela, uma redução. O confronto atual seria mais profundo e também mais dramático: entre os que pensam e os que não pensam.
O exercício que faço, deste parágrafo em diante, é buscar compreender a fogueira em que Simone de Beauvoir foi jogada nos últimos dias, entre outros fatos recentes, a partir das ideias deste livro. Para começar, a seriedade do episódio do ENEM pode ser demonstrada neste trecho tão agudo: “Se levarmos em conta que falar qualquer coisa está muito fácil, que falamos em excesso e falamos coisas desnecessárias, um novo consumismo emerge entre nós, o consumismo da linguagem. O problema é que ele produz, como qualquer consumismo, muito lixo. E o problema de qualquer lixo é que ele não retorna à natureza como se nada tivesse acontecido. Ele altera profundamente nossas vidas em um sentido físico e mental. O que se come, o que se vê, o que se ouve, numa palavra, o que se introjeta, vira corpo, se torna existência”.
Vale perguntar. Num país em que a preocupação com a educação é uma flatulência, em que a não educação é a regra, para onde vai o lixo e que tipo de impacto ele produz na tessitura do cotidiano, nos corações e mentes de quem o consome? O que acontece com a fogueira de Simone de Beauvoir num contexto em que aqueles que a jogaram no fogo possivelmente sequer a leram? Que restos dos discursos vazios sobre a filósofa permanecerão na memória de uma população que não tem seus livros na estante e que tipo de eco produzirão?
Como dimensionar a gravidade de um vereador eleito, pago com dinheiro público para legislar e, portanto, para decidir destinos coletivos, dizer que a escolha da frase de Simone de Beauvoir para uma prova do ENEM é algo “demoníaco”, como afirmou Campos Filho (DEM)? E como enfrentá-la com a seriedade necessária?
Com a palavra, o autor da “moção de repúdio”: “Foram buscar lá Simone de Beauvoir, lá pro ano de mil trocentos e pôco.... (...) A grande maioria é favorável à lei da natureza. Homem é homem. Mulher é mulher. (...) Cuidado com essa pulsão, essa pulsão pode levar à cadeia. O senhor pode passar na frente do caixa eletrônico e ter uma pulsão de vontade de roubar e vai preso. Pode ter uma pulsão de vontade de estuprar e vai preso. Então, tomem cuidado com essa pulsão, ah, hoje de manhã sou menina, agora à noite eu sou homem....”.
O vereador nem sequer sabe em que século Simone de Beauvoir nasceu, viveu e produziu pensamento – “miltrocentos e pôco”. Nem sequer tentou compreender o que a frase citada no ENEM significa. Não é engraçado. É a ruína causando mais ruína. O que interessa é fazer barulho, porque o barulho encobre o vazio de ideias. O que importa é perverter a palavra, usando o que sequer tentou entender para enclausurar o pensamento e reafirmar a certeza em nome de uma suposta “lei da natureza” que jamais existiu. A perversão do fascista é a de acusar o outro de manipulação ideológica quando é ele o manipulador. É acusar o outro de impor um pensamento quando é ele que empreende todo os esforços para barrar qualquer pensamento. É impedir o diálogo denunciando o outro pelo ato que ele próprio cometeu. É nessa repetição de boçalidades que seguem os discursos de outros vereadores, invocando clichês bíblicos, lembrando de Sodoma e Gomorra e Adão e Eva, abusando de Deus.
Para perverter a realidade, o fascista conta com o consumismo da linguagem. Trata-se, como aponta Marcia Tiburi, de um vazio repleto de falas prontas. Não é um vazio silencioso, espaço aberto para buscar o outro, o inusitado, o surpreendente. Mas sim um vazio barulhento, abarrotado de clichês, de frases repetidas e repetitivas, usadas para se proteger do pensamento. Os lugares-comuns, neste caso específico a constante invocação de Deus e de leis bíblicas, são usados como um escudo contra a reflexão. Todo o esforço é empreendido para não existir qualquer chance de pensamento, ainda que um bem pequenino.
Neste vazio, a filósofa acredita que os meios tecnológicos e a mídia desempenham um papel crucial. Repete-se o que é dito na TV, no rádio. Fala-se, muito, sem pensar no que se diz. No gesto do mero “compartilhar” sem ler, tão fácil quanto comprar com um clique pela internet, foge-se do pensamento analítico e crítico, trocando-o pelo vazio consumista da linguagem e da ação repetitiva. É assim que a burrice se multiplica em cliques, propagando-se em rede. O título deste artigo é esperançoso, mas não corresponde à realidade: a burrice não tem limites, ela sempre pode atingir patamares ainda mais extremos.
Episódios semelhantes à “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir ocorriam esporadicamente em rincões afastados, e logo eram ridicularizados. Hoje, acontecem na Câmara de Vereadores de uma das maiores e mais ricas cidades do estado de São Paulo, no sudeste do Brasil, uma cidade que abriga várias universidades, entre elas a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), uma das mais respeitadas do país. E cadê os intelectuais? Rindo dos burros nas cantinas universitárias? Será? Não era de se esperar mais iniciativas de busca do diálogo, de criação de oportunidades para explicar quem é Simone de Beauvoir e refletir sobre sua obra, ou mesmo a ocupação da Câmara, para produzir reação e movimento que permitisse o conhecimento e combatesse a ignorância?
Talvez o polêmico livro Submisssão (Alfaguara), do francês Michel Houellebecq, possa ter alguma ressonância maior por aqui. Nele, só para lembrar, o protagonista é um acadêmico desencantado que se depara com a vitória de um partido islâmico nas eleições da França. Depois de assistir ao desenrolar dos acontecimentos pela TV, já que não se sente motivado a participar de nenhum debate que não seja sobre a sua própria tese acadêmica (ou nem mesmo sobre ela), se choca com o resultado eleitoral. É o protagonista que não protagoniza –ou só protagoniza por omissão (ou submissão). Aos poucos, os novos donos do poder lhe acenam não só com a manutenção dos privilégios, mas com uma considerável ampliação dos privilégios. E ele, afinal, conclui que aderir pode não ser tão ruim assim.
Os burros estão por toda parte e muitos deles estudaram nas melhores escolas e, o pior, muitos ensinam nas melhores escolas. A “moção de repúdio” à Simone de Beauvoir foi aprovada pela Câmara de Campinas por 25 votos a cinco. Assim, os burros são a maioria. É preciso enfrentá-los com pensamento, fazer a resistência pelo diálogo. Ou, como diz Marcia Tiburi: “Sem pensamento não há diálogo possível nem emancipação em nível algum. Se não houver limites para a idiotice, resta isolar-se e estocar alimentos”.
O promotor e professor universitário que reduziu Simone de Beauvoir a “uma baranga”, ao comentar a questão do ENEM em sua página no Facebook, fez o seguinte comentário: “Exame Nacional-Socialista da Doutrinação Sub-Marxista. Aprendam jovens: mulher não nasce mulher, nasce uma baranga francesa que não toma banho, não usa sutiã e não se depila. Só depois é pervertida pelo capitalismo opressor e se torna mulher que toma banho, usa sutiã e se depila”. Depois da repercussão negativa, o que incluiu uma nota de repúdio por parte da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Jorge Alberto de Oliveira Marum apagou os posts e defendeu-se, em outra postagem, alegando que pretendia ter sido irônico: “Ironia, para quem não sabe, é uma figura de linguagem que consiste em afirmar o contrário do que se pensa”. Interprete-se.
“Distorcer é poder” é o título de um dos capítulos do livro em que a filósofa enfrenta a prática amplamente difundida de esvaziar as palavras pela distorção. Como transformar a vítima em culpada, como se faz rotineiramente com as mulheres no falso debate do aborto, por exemplo, ou no tratamento do estupro. Ou distorcer para que aquele que detém os privilégios pareça ser o que têm seus direitos ameaçados: o branco, por exemplo, quando se apresenta como prejudicado pelo sistema de cotas raciais que busca reparar injustiças históricas cometidas contra os negros, ocultando assim que sempre foi o privilegiado; ou quando se invoca um suposto “orgulho heterossexual” na tentativa de mascarar a violência contra os homossexuais, alegando que querem privilégios, quando todos sabem que a heterossexualidade jamais foi contestada ou atacada, nem em sua expressão nem em seus direitos. E também é por essa conversão que os manifestantes de junho de 2013 foram tachados de “vândalos” por parte da mídia e, hoje, uma lei em discussão no Congresso ameaça converter quem protesta em “terrorista”.
A própria “democracia” pode ser vista a partir da prática da distorção, já que há aquela, mais difundida, que é vendida pelo mercado. “De um lado, há uma democracia que deve parecer como realizada, contra outra democracia, que está na ordem do desejo e do sonho e que não teria preço”. O capitalismo sequestra a democracia também como palavra, que passa a ser consumida, junto com outras: felicidade, ética, liberdade, oportunidade, mérito. Palavras que a filósofa chama de “mágicas”, invocadas a serviço do ocultamento da opressão. “Antidemocrático, o capitalismo precisaria ocultar sua única democracia verdadeira: a partilha da miséria e, hoje em dia, cada vez mais, a matabilidade”, afirma Marcia Tiburi.
Quando se invade o verbete de Simone de Beauvoir na Wikipedia é também disso que se trata: distorcer e replicar até virar “verdade”. Aliena-se os fatos de seu contexto histórico para produzir rótulos. Assim, após o ENEM, a filósofa foi tachada de “pedófila” e de “nazista”. Ambas as afirmações já foram retiradas da página pelo responsável, avisando que a manteria fechada até “que o furor acabasse e as pessoas perdessem o interesse em danificar o artigo”. Entre as dezenas de distorções do verbete, segundo a matéria da BBC, um usuário disse que a filósofa havia escrito um "livro de estupro". Outro informou que Beauvoir era uma "antifeminista". Um terceiro disse ainda que ela era "muito conhecida por seu comodismo e pela luta na justiça por uma lei que proibia o trabalho das mulheres fora de casa”.
As distorções servem à reprodutibilidade da burrice. Ao converter a filósofa no que é interpretado como o mais monstruoso – “pedófila” e “nazista” – o objetivo é tornar impossível refletir sobre o que ela escreveu: “uma mulher não nasce mulher, torna-se mulher”. A ampla distorção das palavras serve, de novo, ao vazio do pensamento. Pede-se aos burros que a repliquem à exaustão em cliques histéricos. A linguagem, como escreve Marcia Tiburi, tem sido rebaixada à distribuição da violência – também pelos meios de comunicação e pelas redes sociais. “Vivemos no império da canalhice, onde a burrice, tanto como categoria cognitiva quanto moral, venceu”, afirma. “Ela se transformou no todo do poder.”
Aderir é viver. Esta parece ser a frase deste momento de orgulho da ignorância e exaltação da burrice. Aqui, a pergunta se impõe: “se a linguagem nos tornou seres políticos, a destruição da linguagem nos tornará o quê?”.
Na semana passada, foi divulgado na página da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República um estudo que reuniu pesquisadores de diversas instituições, apresentado como o mais completo já feito no Brasil sobre os efeitos da mudança climática. Refletir seriamente sobre a mudança climática é urgente, mas há muito menos pensamento e ação do que o momento exigiria, apesar de estarmos às vésperas da Conferência do Clima em Paris. Assim, a divulgação de um estudo com as conclusões a que se chegoupoderia ser uma oportunidade excelente para promover participação e diálogo. Mas, entre as tantas previsões que apontaram para um possível drama climático daqui a 25 anos, em 2040 – doenças, calor extremo, falta d’água e de energia etc –, uma foi destacada por diferentes veículos da imprensa: a possível perda de uma área imobiliária avaliada em R$ 109 bilhões no Rio de Janeiro, devido à elevação do nível do mar causada pelo aquecimento global.
Não as perdas humanas, não a corrosão da vida, não o aniquilamento dos mais pobres e dos mais frágeis. Não. O que se destaca é aquilo que se monetariza, é a perda do patrimônio material, no caso imobiliário. O que merece título é o cifrão. O episódio evoca um dos capítulos mais interessantes de Como conversar com um fascista: “O capitalismo é a redução da vida ao plano econômico. (...) O pensamento está minado pela lógica do ‘rendimento’. Viver torna-se uma questão apenas econômica. A economia torna-se uma forma de vida administrada com regras próprias, tais como o consumo, o endividamento, a segurança pela qual se pode pagar. Tudo isso é sistêmico e, ao mesmo tempo, algo histérico. (...) As palavras funcionam como estigmas ou como dogmas que sustentam ideias orientadoras de práticas”. Se a ordem do discurso capitalista é basicamente teológica, é porque ele funciona como uma religião no âmbito das escrituras e das pregações (em geral no púlpito tecnológico da televisão)”. Se depois de tanto calarmos sobre a mudança climática, falarmos dela a partir da lógica monetária, estamos todos (mais) perdidos.
Mas é em outro episódio destes últimos dias que a perversão do Brasil atual se revelou em toda a sua monstruosidade: a Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro concluiu em inquérito que o policial que matou um menino de dez anos agiu em “legítima defesa”. Eduardo de Jesus brincava na porta da sua casa, numa das favelas do Complexo do Alemão, quando teve a cabeça atingida por um tiro de fuzil. Sua mãe encontrou parte do seu cérebro na sala. O inquérito isentou de qualquer responsabilidade os policiais envolvidos, por estarem supostamente em confronto com narcotraficantes. Eles teriam apenas “errado” o tiro.
Eduardo estava a cinco metros do policial que o matou. Terezinha de Jesus, a mãe do menino, afirma que não havia tiroteio naquele dia. “Eu parti para cima do policial. Gritei que tinha matado meu filho e ele me respondeu, com seu fuzil na minha cabeça, que igual que tinha matado ele poderia também me matar, porque o menino era filho de bandido. Nunca vou esquecer aquilo. Posso estar em qualquer lugar do mundo, que nunca esquecerei a cara daquele policial”. Ao ser informada por jornalistas que a polícia concluiu que seu filho foi morto em legítima defesa, Terezinha disse que sentia vontade “de quebrar tudo”.
Quando a perversão supera tal limite é porque estamos quase no ponto de não retorno. “Não acabaremos com o ódio pregando o amor”, diz Marcia Tiburi. “Mas agindo em nome de um diálogo que não apenas mostre que o ódio é impotente, mas que o torne impotente.”
Em Como conversar com um fascista, a filósofa defende a necessidade de começar a tentar falar de outro modo. O diálogo não como salvação, mas como experimento, como ativismo filosófico para enfrentar a antipolítica. A política, lembra a autora, “é laço amoroso entre pessoas que podem falar e se escutar não porque sejam iguais, mas porque deixaram de lado suas carapaças de ódio e quebraram o muro de cimento onde suas subjetividades estão enterradas”.
Num país de antipolítica e antieducação generalizada como o Brasil é preciso se mover. É urgente aprender a conversar com um fascista, mesmo que pareça impossível. Expor ao outro aquele que não suporta a diferença. Revelar suas contradições e confrontá-lo pelo diálogo é um ato de resistência. Enfrentar a burrice com a única arma que ela teme: o pensamento.
É isso ou não vai adiantar nem estocar alimentos.

Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficçãoColuna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas.

Visto no: El País



Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.
Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.

Waly Dias Salomão (Jequié, Bahia, 1943 - Rio de Janeiro 2003). Foi poeta e letrista de música. Conhecido por sua efervescência natural, imprimiu forte marca na cultura brasileira em diversas áreas. Waly é autor grandes canções da música popular brasileira, com especial devoção para Vapor Barato, em parceria com Jards Macalé. Waly trabalhou no Ministério da Cultura com Gilbeto Gil. Queria que o livro fosse incluido na cesta básica. Com o livro Algaravias, ganhou o Prêmio Jabuti em 1997. Amigo de Hélio Oiticica, Torquato Neto e outros, foi militante nos anos 70 e poeta "marginal".