02 outubro 2011


As duas mortes do Toni
Por João Negrão, especial para o Maria Frô
26/09/2011
Quarta-feira, 21 de setembro de 2011, 19 horas, em Jackson, capital do estado da Geórgia, Estados Unidos, Troy Davis, um negro de 42 anos, recebeu a dose letal que o levaria à morte. Condenado por assassinato, Troy Davis deitou-se na maca para receber as injeções repetindo a mesma frase de 22 anos antes, quando foi preso e condenado: “Sou inocente”.
Quinta-feira, 22 de setembro de 2011, por volta das 23 horas, em Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso, Brasil, Tony Bernardo da Silva, um negro de 27 anos, africano de Guiné-Bissau, estudante de Economia da Universidade Federal, recebeu um pontapé na traquéia e morreu. O golpe culmina uma sessão de socos e pontapés desferidos por dois policiais e um empresário que duraria em torno de 15 minutos.
Impossível não traçar um paralelo entre as duas mortes.
A primeira foi uma condenação legal, nos moldes da justiça norte-americana, que todos conhecemos, empenhada a condenar negros, ainda que, como é o caso de Troy, haja evidências de inocência. Inclusive depoimento de outro preso assumindo a autoria do crime atribuído a ele. Em vão: Troy não recebeu perdão, não teve a clemência do governador da Geórgia e muito menos direito a recurso na Suprema Corte, dado às evidências de sua inocência.
Difícil não imaginar que se trata de mais um caso de racismo como os que pontuam a crueldade do sistema jurídico e a sociedade racista dos Estados Unidos, especialmente nos estados sulistas como a Geórgia.
Como é difícil não suspeitar que o caso do Toni foi uma expressão pura e cabal de racismo.
Uma condenação prévia: um negro que adentra a uma pizzaria freqüentada por rapagões e moçoilas de classe média alta de Cuiabá, num bairro idem, embora predominantemente de repúblicas estudantis (o Boa Esperança fica ao lado do campus da UFMT) é um bandido. E ainda mais se este negro acidentalmente esbarra na namorada de um desses fregueses.
Afinal, aquele não é um lugar para negros. Pior ainda. Que atrevimento! Um negro que deveria estar na senzala não pode adentrar a uma casa grande dos pequenos burgueses e tocar a mulher branca do sinhozinho.
Então, eis seu crime. E está decretada a pena de morte. Não se sabe se os policiais e o empresário (sinhozinho) estavam armados. Se estivessem teriam desferido vários tiros? Tenho dúvida. Não sei se não preferiram mesmo usar como instrumentos de execução os socos e pontapés. Afinal, esta na moda uma das marcas da intolerância: matar a porradas negros, homossexuais e todos que esses “bad boys” não toleram por serem diferentes deles, supostamente bem nascidos, bem nutridos e crentes da impunidade. E com um ingrediente macabro: eles se divertem. E não raras vezes filmam e jogam em suas redes sociais.
Seguindo o mesmo “modelito” que a imprensa em geral aplica a esses casos, todos ciosos a dar voz e vez aos assassinos da elite, tentam desqualificar o morto. Versões diversas surgem por todos lados dando conta que ele tinha passagens pela polícia, era drogado, perdeu a vaga no convênio da UFMT e outras informações nefastas. Como sempre trabalham com meias-verdades, com deturpações dos fatos e a omissão de outros.
Essas versões são disseminadas por advogados e familiares dos assassinos, que encontram voz em veículos de comunicação que, deliberadamente ou não, as propagam sem questionar o contexto da vida do Toni e os depoimentos de amigos, colegas e ex-namorada, todos, unanimemente, testemunhando sua conduta passível e respeitadora.
É compreensível que os advogados e familiares tomem tal atitude. Mas não justifica a postura dos representantes da Universidade Federal de Mato Grosso, que qualificaram o Toni como um indivíduo de má conduta.
O setor da UFMT responsável pelo convênio entre o governo brasileiro e os governos dos países africanos de língua portuguesa, que permitem jovens daqueles países estudarem no Brasil, sempre foi omisso e racista com esses estudantes. Poderia desfilar aqui uma série de descasos, dificuldades criadas e declarações preconceituosas. Não é o caso agora.
Por enquanto fica o registro de que o Toni sempre buscou desesperadamente lutar contra o vício do crack e encontrou pouco apoio na UFMT. Seus amigos se mobilizaram, igualmente seus colegas e professores. Mas a instituição se agarrou na burocracia. Por ele não conseguir mais freqüentar as aulas, o desligaram do convênio, pura e simplesmente. E ficou por isso. Contudo não pouparam declarações cruéis, insensíveis e até irresponsáveis na imprensa.
Esta é a mesma instituição que ignora que drogas como o crack estão se proliferando dentro e na periferia do campus da UFMT do Boa Esperança. Foi ali mesmo que o Toni se viciou. Nas imediações da república em que ele morava, assim como nos corredores da UFMT, a droga e traficantes transitam livremente. Que providência a instituição tem tomado acerca disso? Prefere tapar os olhos e ajudar a condenar seus jovens alunos.
Foi-se o tempo em que o romantismo e a rebeldia de fumar um baseado faziam parte do cotidiano universitário. Agora o ambiente universitário é um dos mercados de drogas pesadas, assim como seu entorno. E a tragédia do crack, a pior delas, bate à porta de todos nós. Meus amigos e colegas, muitos deles vivendo esse drama familiar, sabem do que estou dizendo. Acompanhei esses dramas quando morava ainda em Cuiabá.
Eu mesmo o vivo bem de perto. Tenho um irmão que vive a perambular pelas ruas de Goiânia se consumindo pelo crack. Gilmar, um dos sete filhos adotivos de minha mãe, era um rapaz trabalhador desde criança. Estudou, casou, formou família. Suas três filhas e esposa não agüentaram viver aquela tragédia e o abandonaram. Desde então passou a viver nas cracolândias do bairro Vila Nova, na capital de Goiás.
Minha mãe, já com seus 74 anos e morando agora em Goiânia, acompanha seu infortúnio e, dentro de suas limitações, nos mobiliza a todos para tentar salvá-lo.
O Toni tentou sobreviver. Poucos meses antes de voltar para Brasília, o recebi na minha casa, a qual ele freqüentava com os demais estudantes guineenses. Minha mulher era amiga dele, chegaram de Guiné-Bissau juntos. Ele para curso Economia e ela, Publicidade. Éramos capazes de deixar nossa casa aberta para ele, junto com meus filhos. O Toni não era um bandido. Repito: era uma pessoa amável e respeitadora.
Naquela tarde fria de julho e Cuiabá melancólica devido à carência de seu sol escaldante, o Toni chegou desesperado. Primeiro pediu dinheiro emprestado. Depois, muito envergonhado, chorou no nosso colo. Pediu ajuda, implorou para que afastássemos aquela sua vontade incontrolável de querer consumir a droga. Então começamos a mobilizar os amigos, colegas e seus professores. Ele necessitava de tratamento para poder concluir os estudos e voltar para o seu país.
Dois meses depois voltei para Brasília. Mas acompanhamos daqui a vida do Toni. Ficamos sabendo que ele havia ido para o tratamento. Depois fomos informados que havia vendido tudo que tinha e foi obrigado a entregar toda a sua bolsa de estudos para os traficantes. Quando perdeu a bolsa, foi para a rua mendigar. Foi num desses momentos que entrou na pizzaria naquela noite do dia 22 de setembro.
O Toni é filho de uma família de classe média alta em Guiné-Bissau. Seu pai é agrônomo e possui uma pequena fazenda. Idealista, sempre quis que os filhos tivessem boa formação para ajudarem no desenvolvimento do país. Tem irmãos que estudam ou estudaram na França, Inglaterra e Portugal. Parte da família fez carreira nas forças armadas, onde um tio seu é um dos comandantes.
Certa vez o Toni foi flagrado pela polícia em Cuiabá carregando um botijão de gás que ganhou de um dos colegas, pois o seu ele havia vendido para comprar crack. A polícia o abordou, o levou preso, apesar de afirmar que o objeto era dele. Passou o dia inteiro na delegacia, jogado numa sala e só saiu de lá depois que acionou a Polícia Federal, jurisdição da qual estão os estudantes africanos.
Aqui abro um parêntese. Não foram poucas as vezes que a UFMT acionou a Polícia Federal para perseguir os estudantes africanos que, por um motivo ou outro, não estavam freqüentando aulas ou haviam formado e ainda estavam no Brasil tentando pós-graduações ou empregos.
Setores da imprensa de Cuiabá, motivados por advogados e familiares dos assassinos, utilizam este caso do botijão, entre outros sem gravidade, para propagar que o Toni tinha passagens pela polícia. Como se a tal “passagem” fosse uma sentença de morte.
Antes de continuar, peço licença para contar duas histórias:
Em 1980, um rapaz que faria 20 anos dali a poucas semanas, cursava Agrimensura na antiga Escola Técnica Federal de Goiás e fazia estágio numa cidade a 20 quilômetros de Goiânia. Numa tarde, como fazia todos os dias, entrou às 17 horas no ônibus que o levaria de volta para casa, quando dois policiais o abordaram, algemaram, jogaram no camburão e levaram para a delegacia. Lavraram um boletim e mal ouviram a versão do rapaz. Em seguida, para fazê-lo confessar que havia feito um assalto, os policiais deram-lhe tapas nos ouvidos, murros, beliscões no nariz, nas orelhas, cascudos e ameaçaram quebrar seus dedos com um alicate e queimá-lo com cigarros.
As sevícias duram até que um dos policiais sugeriu ao delegado que o rapaz fosse levado para que a vítima identificasse o assaltante. Àquela altura a cidade inteira já sabia da prisão. Ao chegar à casa da senhora assaltada, de onde foram levados um televisor, aparelho de som e uma bicicleta do filho, o carro da polícia encontrou uma multidão que queria linchar o “bandido”. Os policiais com dificuldade abriram um corredor para a mulher chegar até o carro. Quando ela olhou pelo pára-brisa foi logo dizendo: “Não, não é este. O ladrão é branco!”.
Em 2004, um homem de 44 anos foi abordado pela polícia próximo à sua casa. Estranhou o fato de os policiais o obrigarem a ficar ao lado da viatura, longe do seu carro. Então um dos policiais faz uma rápida revista e aparece com um revolver e um pacote do que seriam drogas. Imediatamente o homem protesta, denuncia a “plantação” e só não vai preso porque estava com a identificação de secretário-adjunto de Comunicação Social do governo de Mato Grosso e ameaçou denunciar os policiais, que imediatamente fugiram do local.
O homem e o rapaz de 24 anos antes é a mesma pessoa: eu. Poderia aqui contar outras várias histórias de arbitrariedades e prisões às quais fui submetido. Por ser negro, tido como ladrão, drogado e traficante, tive passagens pela polícia. Infelizmente aquela piadinha infame que de vez em quando ouvimos por aí é de fato uma máxima entre policiais: “Preto parado é suspeito, correndo é ladrão”.
Quantas passagens pela polícia justificam uma morte?
Mereceria eu morrer por ter cometido o crime de ter nascido negro?
Mereceria eu morrer pelo crime de provocar aos policiais a sanha assassina de quem ainda nos vê como escravos, como sub-raça, como seres desprezíveis?
Mereceria eu morrer porque há cinco séculos retiraram meus antepassados da África, jogaram num navio negreiro, atravessaram o Atlântico, os leiloaram, os submeteram a ferro e fogo, os jogaram nos canaviais, minas e fazendas, os subjugaram nas senzalas, colocaram no pelourinho, humilharam, sugaram seus sangues e suores, para depois, com a abolição, os jogarem as ruas como se fossem animais, sem direito a dignidade?
Deveria eu morrer por ser filho de Clarice Laura e José Orozimbo, neto de José e Regina e de Josefa e Pedro Alves, por sua vez netos e filhos de escravos?
Este é meu crime?
Por favor, se é este o meu crime, então que me matem! Mas me matem apenas uma vez. Não façam como estão fazendo com o Toni.
Depois de ser trucidado pelos “bad boys da intolerância”, Toni corre o risco de ser massacrado, pisoteado, sangrando até a última gota da sua dignidade.
PS: O corpo do Toni ainda está no IML de Cuiabá aguardando resultados de exames pedidos pelo delegado que acompanha o caso e a chegada da família para liberá-lo.
Dona Cecília, mãe dele, me informou que um de suas irmãs, que é arquiteta na França, deve vir ao Brasil.
A Embaixada de Guiné-Bissau em Brasília também está acompanhando o caso e prestando apoio à família.
O governo brasileiro, por meio do Itamaraty, já se manifestou, repudiando o crime e pedindo desculpas à família e aos guineenses.
Amigos e compatriotas do Toni estão se mobilizando em Cuiabá e aqui em Brasília, denunciando o assassinato e pedido para que seja tipificado como motivado por racismo.



A era do pós-gênero?


Cynara Menezes21 de setembro de 2011 às 15:45h
Relatos de quem recusa as definições tradicionais de homem-mulher, hétero-homo...
O cartunista Laerte Coutinho, de 60 anos, que em 2009 decidiu passar a se vestir como mulher, usar brincos e pintar as unhas de vermelho, está dentro do banheiro masculino quando entra um velhinho. Ao se deparar com a figura de cabelos grisalhos lisos num corte chanel, saia e salto alto, em pé diante do mictório, o homem estaca. “Não se preocupe, o senhor não está no banheiro errado”, diz Laerte. E o idoso, resignado: “É, eu estou é na idade errada”.
Laerte já foi chamado de crossdresser, denominação utilizada para o homem que gosta de, ocasionalmente, usar roupas femininas como fetiche. Talvez o crossdresser mais famoso da história tenha sido o cineasta norte-americano Ed Wood, que vez por outra vestia trajes de mulher. Sentia que lhe acalmavam o espírito. Wood, encarnado no cinema pelo ator Johnny Depp no filme homônimo de Tim Burton, em 1994, era casado e, ao que tudo indica, heterossexual. Só que o cartunista acha que não é crossdresser como Wood porque não tem mais em seu armário roupas de homem. Nem uma só cueca, nada. “Foi a primeira gaveta que esvaziei”, conta.
Por outro lado, as travestis, brinca Laerte, ficariam indignadas se ele dissesse ser uma, por não ter a -exuberância que se espera delas. Drag queen ele não é, porque não se veste como mulher para fazer performances. Usa vestidos e saias todo o tempo, para desenhar, pagar contas no banco ou ir até a esquina. Transexual também não, porque não tem interesse em fazer cirurgia de mudança de sexo e nem está insatisfeito com o próprio corpo “biológico”. Bissexual, sim, com certeza. “Nomenclaturas não me interessam. A busca por uma nomenclatura é uma tentativa de enquadramento. Sou uma pessoa transgênera e gosto do termo ‘pós-gênero’”, explica o cartunista.
O fato é que não existe atualmente uma palavra para “enquadrar” Laerte. Tampouco há resposta definitiva para a questão: quantos gêneros existem na realidade? Só homem e mulher parecem não ser mais suficientes. Desde a quinta-feira 15, os australianos terão em seus passaportes a possibilidade de optar, além dos sexos “masculino” e “feminino”, por um gênero “indeterminado”. Cabem aí todas as possibilidades de definição de Laerte, ou qualquer outra que aparecer. A própria sigla LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) já é utilizada por alguns grupos como LGBTIQ – adicionada de “intersex” e “questioning” (“em dúvida” ou “explorando possibilidades”).
Com a mudança no passaporte, a Austrália na prática estende para todos os cidadãos o direito conquistado na Justiça em março do ano passado por Norrie May-Welby. Norrie, que nasceu homem, havia feito cirurgia de sexo para se tornar mulher, mas não se adaptou à nova condição. Recorreu à Justiça e se tornou a primeira pessoa do mundo a ser reconhecida como “genderless”, ou sem gênero específico. Após a decisão, Norrie May-Welby declarou: “Os conceitos de homem e mulher não cabem em mim, não são a realidade e, se aplicados a mim, são fictícios”. O sobrenome de Norrie, aliás, é um trocadilho com “may well be”, que em inglês significa “pode bem ser”.
Leda e os Cisnes, atribuído a Da Vinci
Para chegar à decisão, dois médicos o examinaram e concordaram que Norrie é psicológica e fisicamente andrógino. May-Welby comemorou a libertação da “gaiola do gênero” e sua história detonou uma discussão no país sobre a criação de direitos específicos para as pessoas sem gênero. Um problema prático é justamente a identificação em documentos oficiais. Para um homem transexual que fez a cirurgia de mudança de sexo, é possível em vários países mudar também os documentos. Mas o que fazer com os que não desejam ser identificados por gênero algum? “O caso de Norrie evidenciou a existência de pessoas que não desejam ter um sexo específico”, disse em dezembro John Hatzistergos, procurador-geral de New South Wales, o estado mais populoso da Austrália.
Nascida mulher, a filósofa espanhola Beatriz Preciado, autora do livro Manifiesto Contrasexual, uma provocação intelectual que pretende subverter os conceitos de gênero e sexo é, ela própria, um ser híbrido que recusa qualquer definição. Preciado não se considera nem homem nem mulher nem homossexual nem transexual. Perguntada pelo jornal catalão La Vanguardia sobre seu gênero, Beatriz respondeu: “Esta pergunta reflete uma ansiosa obsessão ocidental, a de querer reduzir a verdade do sexo a um binômio. Dedico minha vida a dinamitar esse binômio. Afirmo a multiplicidade infinita do sexo”. Segundo a filósofa, a sexualidade humana é como os idiomas: pode-se aprender vários.
Há psicólogos que concordam com Beatriz ao defender que uma coisa é o gênero e outra, completamente distinta, a atração sexual. Isso é o que torna possíveis os inúmeros casos relatados de indivíduos que fizeram cirurgia de mudança de sexo para se tornarem não heterossexuais, mas homossexuais. Explico: um homem, por exemplo, que se torna mulher não para ter relações com homens, como se poderia imaginar, mas com mulheres. Ou seja, que troca de sexo para ser gay.
Aconteceu recentemente na Itália: Alessandro Bernaroli, de 40 anos, submeteu-se a uma mudança de sexo e tornou-se Alessandra em 2009, mas ele e a esposa não tinham a intenção de se separar, queriam permanecer juntos. O mais incrível é que acabaram alvos de um divórcio à revelia pela Justiça italiana, baseado no fato de o país não permitir legalmente casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Alessandra está recorrendo no tribunal de última instância e pode ir à Corte Europeia de Direitos Humanos se o seu direito de permanecer casada não for reconhecido.
Na Itália, ao virar Alessandra, Alessandro foi obrigado a se separar da mulher
Há três anos, então aos 81, a escritora Jan Morris, que deixara de ser James através de uma cirurgia em 1972, decidiu casar novamente com sua companheira de toda a vida, Elizabeth Tuckniss. Eles tiveram cinco filhos juntos e nunca se separaram de fato, mesmo após a cirurgia. Por exigências legais, porém, haviam se divorciado logo depois de James se tornar Jan. James Morris, o primeiro jornalista a anunciar a conquista do Everest, diz, em seus relatos autobiográficos, que se transformou em Jan, mas nunca se sentiu homossexual, e sim “erroneamente equipado”. Achava que deveria ter nascido mulher e fez a cirurgia para corrigir o equívoco divino – o que não significava que quisesse abrir mão do amor de Elizabeth.
“Esses casos comprovam que gênero e atração sexual podem ser coisas
Na Austrália, a família sem gênero
separadas. É muito complicado, há pessoas que nunca se conformam em ser enquadradas em um gênero”, diz o psicólogo Anthony Bogaert, professor do Departamento de Ciências Sanitárias da Brock- University, no Canadá. “Gênero é uma construção complexa. Ser macho ou fêmea, assumir papéis mais femininos ou mais masculinos, não vai necessariamente indicar que tipo de pessoa atrairá sexualmente um indivíduo. Homens com características mais -femininas, por exemplo, ou até transexuais, não necessariamente tenderão a se relacionar com pessoas do mesmo sexo.”
Apesar das diferenças que estabelece entre gênero e orientação sexual, Bogaert considera discutíveis experiências como a do casal canadense Kattie Witterick e David Stocker, que, revelou-se ao mundo em maio, pretende manter o sexo de seu bebê, chamado apenas de Storm (tempestade), como um segredo de família. Isso significa que Storm crescerá sem gênero definido. Acossada por críticas de psicólogos, a mãe justificou-se dizendo ter tomado a decisão por causa da pressão sofrida por Jazz, seu filho mais velho, um garoto que gosta de usar tranças e sempre vestiu roupas de menina, para que “agisse como menino”.
Caso parecido aconteceu há dois anos na Suécia com o bebê “Pop”, gênero não revelado, que aos 2 anos podia escolher se queria usar vestidos femininos ou roupas de garoto. “Nós queremos que Pop cresça o mais livremente possível, queremos evitar que seja forçado/a a assumir um gênero específico ditado pelo exterior”, explicou a mãe da criança. “É cruel trazer uma criança ao mundo com uma estampa azul ou cor-de-rosa pregada na testa.”
Uma pré-escola na Suécia, a Egalia, baniu os termos “ele ou ela” para se referir aos pequenos alunos, que não são tratados como “meninos” ou “meninas”, mas como “amiguinhos”. Na brinquedoteca, a cozinha, com suas panelas e outros utensílios, supostamente “de predileção” nata das meninas, fica ao lado das peças de Lego e brinquedos de montar, normalmente “preferidos” pelos meninos, para que as crianças não tenham “barreiras mentais” e se sintam livres para escolher entre as duas brincadeiras. O sistema é chamado de “educação neutra em gênero”, mas já há quem tenha apelidado a ideia de “loucura dos gêneros”.
O ator Leo Moreira e a espanhola Beatriz (acima) rejeitam o binômio
Foto: Gustavo Lourenção
Pesquisadora do Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da Unicamp, a antropóloga Regina Facchini vê, no entanto, alguns aspectos positivos em não se enfatizarem gêneros e fortalecer estigmas na educação de crianças. “Em termos individuais, acho impossível criar uma criança sem gênero. Mas intervir no social, na escola, e não no sujeito, pode ser interessante.” A pesquisadora lembra que, no Brasil, os parâmetros curriculares aconselham fazer o possível para não estabelecer diferenças entre gêneros. Até mesmo em coisas pequenas, mas que denotam estereótipo, como, por exemplo, dar para os garotos a função “masculina” de carregar coisas pesadas.
“Existem discussões candentes hoje em dia. Os banheiros das escolas atendem os alunos transexuais? Agora, a identidade de gênero existe. Desde o momento que a criança botou a cabeça para fora, ela vai sendo construída, a partir das expectativas criadas em torno dela pelos pais, pela sociedade. Essa é uma realidade”, diz a antropóloga. “Sem dúvida, quanto menos a escola enfatizasse gêneros, menos seria traumático para algumas crianças. Assim como também seria positivo ensinar que existem várias formas de masculino e feminino que devem ser respeitadas. O que existe na maior parte dos lugares é o oposto disso.”
Até os 7 anos, o paulista Leo Moreira Sá, caçula de nove irmãos, brincava com os amigos no quintal, todos meninos, usando um short sem camiseta. No dia que ele conta ser o mais chocante de sua vida, a mãe vestiu-o com o uniforme da escola, uma sainha com blusa. Ele reclamou: “Mas isso é roupa de menina”. Ela olhou-o profundamente nos olhos e pronunciou a frase que o marcaria dali por diante: “Você É uma menina”.
Foram anos de rebeldia, bullying e inadaptação escolar até que Leo, então Lou Moreira, entrou para as Ciências Sociais da USP e descobriu na literatura algumas respostas para suas dúvidas. Ainda assim, continuava a se sentir inadaptada. Entrou para um grupo ativista de lésbicas, mas não se sentia bem aceita por ser considerada “masculina demais”. O melhor momento para ela então foi a atuação, nos anos 1980, como baterista da banda de punk-rock As Mercenárias, look andrógino, cabelo descolorido curtíssimo e ar desafiador.
Em 1995, Lou era casada com uma garota quando viu na rua a travesti Gabriella Bionda, a Gabi. “Pensei: ‘que mulher linda’”, conta. Gabi olhou para ela e falou: “Que ‘viadinho’ bonitinho”. Foi o início da relação surpreendente entre a lésbica e o travesti, que duraria nove anos e tornaria a dupla figurinha carimbada na noite paulistana. O curioso é que houve um período que Gabi “montava” Lou para que esta parecesse mais feminina, mas, nos últimos anos, ela vem se transformando em Leo. Aos 53 anos, planeja, inclusive, fazer a cirurgia de retirada dos seios e, futuramente, de mudança de sexo.
Não que tenha decidido se pretende se relacionar amorosamente com homem, mulher ou outro gênero. “No momento, não estou me relacionando com ninguém, estou pensando só na cirurgia”, diz Leo, para quem Gabi ainda é o amor de sua vida. “A Gabi é minha alma gêmea, meu espelho invertido. Estar com aquela mulher com corpo de homem quebrou certos limites da minha sexualidade. Na cama, éramos o casal mais versátil que se possa imaginar. Hoje, desfruto de um leque muito amplo de possibilidades. Nada está fechado.”
Leo, que toma hormônios, criou barba e possui uma aparência exterior masculina, rejeita assumir a identidade de homem. Não gosta do termo “transexual”, mas prefere se nomear assim, à falta de outro. “Adoraria não precisar assumir gênero algum”, admite o ator, que integra o grupo de teatro dos Sátyros, em São Paulo, cujas montagens costumam incluir transexuais e travestis no elenco. “Vivi à margem durante muitos anos. Agora, ao contrário, essa sensação de não pertencimento ao mundo me faz feliz, sinto-me um ser humano integral, completo. Vou operar para fazer um ajuste, para me sentir mais cômodo com meu próprio corpo. Mas assumir um gênero, para quê?”

Cynara Menezes

Cynara Menezes é jornalista. Atuou no extinto "Jornal da Bahia", em Salvador, onde morava. Em 1989, de Brasília, atuava para diversos órgãos da imprensa. Morou dois anos na Espanha e outros dez em São Paulo, quando colaborou para a "Folha de S. Paulo", "Estadão", "Veja" e para a revista "VIP". Está de volta a Brasília há dois anos e meio, de onde escreve para a CartaCapital.

07 setembro 2011


Desfrutar dos elementos oferecidos pelo meio ambiente sempre fez parte da luta pela sobrevivência da raça humana. Antes, a interferência do homem não causava tantos danos, visto que os recursos que ele extraia eram suficientes para a manutenção da sua vida na terra. No entanto, hoje, a utilização demasiada da natureza tem causado sérios danos ao planeta, deixando toda população mundial em estado de alerta. Esse clima de atenção também acabou criando alguns conflitos entre aqueles que acreditam que o caos pelo qual a terra está prestes a passar é unicamente resultado da ação do homem e aqueles que preferem ignorar as previsões dos ambientalistas. Enquanto o impasse não se resolve, florestas são desmatadas, rios são assoreados e o ar fica cada vez mais poluído. Tudo isso cria uma aura insalubre para aqueles que buscam o equilíbrio necessário para viver bem.

O progresso pode ser visto como o principal antagonista do atual estado climático da terra. Isto porque, ele tem condicionado o homem a explorar indiscriminadamente os recursos que a natureza pode oferecer. Tal constatação se configura na ideia de mundo globalizado, do qual as pessoas acabam aderindo a um modelo de consumismo sem primar por um ambiente livre de poluentes, estes provenientes das próprias práticas individuais. Esse padrão de vida, que só visa o ter, está esgotando as já escassas reservas que o meio ambiente dispunha. São cada vez mais árvores sendo derrubadas, tanto para extração quanto para a ampliação de terras plantáveis; rios sendo desviados, muitas vezes esquecendo que tal interferência pode alterar para sempre a vida naquela região; e fábricas expelindo resíduos tóxicos na atmosfera, aumentando a já grande ferida do aquecimento global.


Tudo isso gerou um desequilíbrio, do qual o planeta está mostrando os primeiros sinais de desaprovação das ações cometidas pelo homem. Chuvas prolongadas, causando inundações e deslizamento de terra; secas intensas, retirando o sustento de quem depende da água para conseguir o sustento; vendavais, furacões, o mar avançando sobre as faixas territoriais, isso e muito mais são reflexos da fúria da natureza, alertando que algo não está indo bem. Nesse palco de destruição, qualquer cético mudaria de opinião, mas parece que a humanidade parece ignorar os estudos feitos por ambientalistas sobre as transformações climáticas ocorridas nos últimos anos. Constantemente estes profissionais exibem para o mundo o resultando de vários estudos que comprovam, que se nada for feito agora, o planeta não conseguirá regenerar-se.

Toda essa preocupação, aqui no Brasil, não poderia passar despercebido, pois devido a nossa biodiversidade, o mundo se volta para as riquezas existentes nela, sobretudo na Amazônia. Se as previsões para o aquecimento global forem mesmo verdadeiras, nossas matas serão como o berçário da vida no planeta. No entanto, a sociedade brasileira não tem feito muito coisa para manter a salvo toda a riqueza. A começar pelos nossos governantes que deveriam garantir a proteção integral da fauna e flora existente por aqui, mas, muitas vezes, são coniventes com a destruição do nosso ecossistema. 


Do outro lado dessa realidade está a população. Estes também não fazem a sua parte para garantir a perpetuação de tudo o que a natureza demorou centenas de anos para construir por aqui. Pelo contrário, vítimas também do consumismo pregado pela globalização, as pessoas por aqui sujam as ruas, causando graves inundações na época das chuvas, poluem áreas crucias para a manutenção da vida como os mares, mangues e rios, constroem casas em locais desapropriados, obrigando animais a se deslocarem da sua morada. Também caçam predatoriamente animais em extinção, alterando o ciclo natural da vida na natureza e, além de tudo isso, não primam por uma educação que tenha como base a sustentabilidade.

Utilizar os recursos provenientes da natureza sem agredi-la é, portanto, um dos principais desafios do homem moderno. Outro desafio é o de conscientizar a sociedade sobre a importância de preservar o ecossistema, fazendo dele um local, não apenas de extração de recursos, mas também como um manancial da vida, onde futuras gerações poderão desfrutá-lo e manter essa riqueza a salvo, garantindo assim a sua eternalidade. Para isso, a cultura do consumismo, das queimadas, da caça ilegal e tudo o que pode ferir direta ou indiretamente o meio ambiente deve ter sua ação contida, antes que o planeta terra feneça, pois diferente da fênix mitológica, o nosso lar não surgirá das cinzas novamente.

Relembro a casa com varanda
Muitas flores na janela
Minha mãe lá dentro dela
Me dizia num sorriso
Mas na lágrima um aviso
Pra que eu tivesse cuidado
Na partida pro futuro
Eu ainda era puro
Mas num beijo disse adeus.

Minha casa era modesta mas
eu estava seguro
Não tinha medo de nada
Não tinha medo de escuro
Não temia trovoada
Meus irmãos à minha volta
E meu pai sempre de volta
Trazia o suor no rosto
Nenhum dinheiro no bolso
Mas trazia esperança.

Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Por isso eu venho aqui.

Relembro bem a festa, o apito
E na multidão um grito
O sangue no linho branco
A paz de quem carregava
Em seus braços quem chorava
E no céu ainda olhava
E encontrava esperança
De um dia tão distante
Pelo menos por instantes
encontrar a paz sonhada.

Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Por isso eu venho aqui.

Eu venho aqui me deito e falo
Pra você que só escuta
Não entende a minha luta
Afinal, de que me queixo
São problemas superados
Mas o meu passado vive
Em tudo que eu faço agora
Ele está no meu presente
Mas eu apenas desabafo
Confusões da minha mente.

Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam.

Recebi, comprovei e estou repassando e peço:

É DE IMPORTÂNCIA E INTERESSE PÚBLICO!!!É longo mais vale a pena...

COLEGAS PROFESSORES



Envio este e-mail com a esperança de chegar ao conhecimento de todos os professores, políticos, senadores, deputados, vereadores, presidente da republica, pais, alunos, enfim de todo o Brasil, a realidade da nossa Educação: O discurso Hipócrita sobre a valorização da educação, DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO, OS PROFESSORES.

Meu nome é Líbna Naftali Lucena Ferreira, sou professora de Artes Visuais da rede de ensino municipal de Monteiro, cidade localizada na microrregião do Cariri Ocidental da Paraíba, à 300 KM da capital João Pessoa. Pois bem, estou passando por grandes dificuldades, além de constrangimentos, com risco de ser exonerada do cargo de PROFESSORA, agora o motivo é risonho, absurdo: simplesmente pelo fato de ter passado no mestrado em artes visuais na UFPB e requer uma licença para cursar o mestrado. Meu Deus, eu pensei que seria uma satisfação para sistema educacional do município ter no quadro de professores uma mestranda, pelo contrario estão me obrigando a voltar para sala de aula, me atende mal, o discurso deles é que eu não tenho direito, além de dizer na minha cara que não é de interesse público.

Fui na minha inocência falar com a Prefeita do município, depois de dá entrada em muitos requerimentos solicitando a licença e ser todos indeferidos, esta que ganhou o prêmio de melhor prefeito da região Norte/Nordeste, ela falou que não era de interesse da prefeitura e sim meu, pois só iria enriquecer o meu currículo, depois disso eu fiquei sem palavras, só agradeci atenção e sair.
Na minha persistência novamente depois de muitas idas lá, fui falar com a secretaria de Educação, e mais uma vez fiquei abismada com o discurso tão fajuta dos gestores sobre a Educação. A secretaria de EDUCAÇÃO falou: Líbna você está fazendo mestrado em quê? eu Respondi em Artes Visuais, minha área de atuação. E Ela disse: Você sabe que agente dá prioridade para as disciplinas essenciais. Eu disse: disciplinas essenciais!? Ela disse: Sim, Português, Matemática. É para não acreditar, não é mesmo? Mas foi exatamente isto que ela falou, uma secretaria de educação com preconceito com todas as outras disciplinas e principalmente com a minha Artes, lógico que eu repliquei: Secretaria, Artes é uma área de conhecimento, obrigatória em todas as fases do ensino básico de acordo com a LDB 9.394/96, mas neste momento ela exaltou-se, e para evitar mais um constrangimento, cale-me. Novamente, oriento-me fazer um novo requerimento, acho que o 10º, e disse não é mais comigo, agora vai ficar a critério do Secretario da Administração e do judiciário, segui suas orientações. Além disso, ela ainda falou que primeiro pensa no melhor para os alunos depois os professores, pensei comigo mesmo: uma professora qualificada, especializada não será bom para os alunos?

Mas, a novela não terminou recebi um telefonema da secretaria da administração para comparecer na secretaria, ao chegar recebi o despacho da solicitação da licença INDEFERIDO, não era mais novidade para mim, e em conversa com o secretario ele comunicou que não tinha direito a licença e não podia passar por cima da lei, ainda falou que não era de interesse público, eu o questionei e ele explicou que o ministério publico não entende a contratação de uma pessoa para substituir enquanto faço o meu mestrado por 2 anos, e ainda falou que a solução é contratar um advogado, e enquanto não se resolve eu devo permanecer em sala de aula, pois na ausência de 30 dias posso ser exonerada por motivo de abandono de cargo.

Agora eu me pergunto, como vou permanecer em sala de aula se estou a 300 km de Monteiro, fazendo o mestrado? Será que realmente vou perder meu emprego? Isto é o discurso medíocre, hipócrita da valorização do profissional da educação.

Desde o momento que comuniquei que tinha passado na seleção do mestrado, não tive um incentivo sequer, um apoio, felicitação, por parte da administração: educação, administração, ao contrario só muitos não, barreiras, impasses, e constrangimentos, de chegar em casa arrasada.

Espero que todo o Brasil tenha conhecimento deste ABSURDO, que está acontecendo em MONTEIRO/ PARAÍBA, um município que está lutando para conquistar o selo UNICEF, que tem como slogan a cidade da ARTE E CULTURA, que contradição, não acha? Discriminando a disciplina Artes, com o discurso de não ser essencial. Logo sabendo que o UNICEF valoriza tanto a educação e principalmente a Arte. Será que realmente o município de Monteiro irá conquistar o selo UNICEF?

FICA O AQUI O MEU REPÚDIO, E A MINHA INDIGNAÇÃO. DIVULGUEM POR FAVOR Líbna Naftali Arte/ Educadora - Mestranda em Artes Visuais UFPB


Visto no Observador Político

A polêmica é certa quando o assunto é o projeto de lei que “criminaliza a homofobia“. Mas basta ir além do papo superficial para ver que há muitos detalhes que são pouco debatidos, em especial pela grande mídia. E a Internet tem um papel fundamental para facilitar a qualquer pessoa o aprofundamento dessa discussão,que envolve uma demanda social pelo respeito a um direito fundamental.

Comecemos pela Constituição, que literalmente diz ser dever da República do Brasil “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Está no inciso IV do art. 3º. E quem se arriscar na leitura do Código Penal verá que matar alguém por motivo fútil eleva a pena mínima e a máxima para o crime de homicídio. Está lá no art. 121, § 2º.

Assim, quem navega pode descobrir que o Projeto de Lei da Câmara nº 122/2006 (original PL 5003/2001) não exatamente “criminaliza” a homofobia: o objetivo na verdade é proibir expressamente o que já não é aceito pela lei. Sendo bem preciso, o que o projeto pretende é incluir essa e outras formas de preconceito entre aquelas que a lei 7.716/89 já veda com todas as letras. O art. 8º desta lei, por exemplo, prevê reclusão de um a três anos para quem recusar o atendimento a alguém em um restaurante ou bar por conta da raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. O mesmo passaria a valer para a homofobia.

E aí é possível ir além disso. Quem se dispuser a usar a Internet para ler o PLC 122/06 vai entender que a proposta vai muito além da homofobia. O texto fala expressamente em “preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”. Ou seja, todos aqueles que sentem pena dos heterossexuais, como o jurista Ives Gandra Martins, podem ficar tranquilos que o projeto também pensou neles. E nesses termos o projeto também pune eventuais machismos que prejudiquem as mulheres no ambiente de trabalho. Ou quem impeça um transsexual de usar o elevador social.

Mas nenhuma dessas nuances você vai descobrir com uma atitude passiva diante dos debates. A imprensa profissional não vai abrir mão do apelido do projeto de lei. Dizer que ele “criminaliza a homofobia” dá peso para a manchete e facilita a linguagem do telejornal que as pessoas vêem na sala de jantar. A tendência será uma tematização binária, contra ou a favor, em um preto e branco que ignora os tons de cinza, ou melhor, o leque de cores que tonaliza essa temática.

E há outras perspectivas que só uma postura ativa, curiosa, investigativa e dedicada pode revelar. Uma delas é a crítica de que dificilmente o direito penal poderá promover o fim do preconceito. Basta lembrar que, pela já citada que a lei 7.716/89, preconceito de raça é expressamente previsto como crime específico desde 1989. É necessário desenvolver políticas públicas mais trabalhosas que a mera ameaça de cadeia.

Outra perspectiva, que está no título desse post, é a de que não faz muito sentido brigar pelo “direito” de quem tem preconceito. A liberdade de expressão, como garantia, precisa ser levada a sério. Sem isso, surge essa visão míope de quem defende haver um direito a ofender outras pessoas, um direito a machucar verbalmente outros seres humanos maldizendo. Se o levarmos a sério, é inclusive possível fazer um humor de altíssima qualidade.

Muito disso você pode encontrar facilmente no verbete da Wikipédia sobre Homofobia, valendo a pena experimentar as versões em outras línguas, como espanhol. Mas mesmo os sites da Câmara e do Senado trazem informações muito ricas. A Internet está aí pra você. E você, está aí pra Internet?