08 março 2011


Por Diana C. em 05/03/2011 às 17h22

A capa da edição de março da revista "Época" chama atenção. A bandeira gay com a cor vermelha se derramando em referência ao sangue de milhares de homossexuais mortos por homofobia. A chamada, "Amor e Ódio aos gays", pega o gancho da atual festa que acontece no país. "No Carnaval, o Brasil aceita, imita e consagra os homossexuais. Por que, no resto do ano, há tanta violência?", questiona.

A reportagem, assinada por Katia Mello, Carlos Giffoni, Maurício Meireles, Martha Mendonça e Marcelo Rocha, faz um bom resumo dos recentes casos de homofobia ocorridos em São Paulo e no Rio de Janeiro. Entre eles, o de Alexandre Ivo, de 14 anos, assassinado brutalmente no dia 21 de julho do ano passado, por ser homossexual. Até o momento, os três suspeitos pela morte de Alexandre, descritos como skinheads, respondem pelo crime em liberdade.

Quanto a liberdade que gays e lésbicas adquirem no Carnaval, a reportagem conversou com Carlos Tufvesson, coordenador especial de Diversidade Sexual do município do Rio, que acaba de lançar a campanha "Rio: Carnaval sem preconceito".

"Muitos dos homens que saem de vestido e maquiagem nos blocos de Carnaval vão agredir homossexuais no resto do ano ou mesmo quando tirarem a fantasia", afirmou Tufvesson. Na mesma linha de pensamento seguem declarações de Maria do Rosário, atual secretária dos Direitos Humanos. "Esses ataques são crimes de ódio e não podem se consolidar como uma prática cotidiana. Isso é inaceitável", disse.

O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) e a senadora Marta Suplicy (PT - SP) também são citados como fortes apoiadores no Congresso para a aprovação da lei que torna crime a discriminação por orientação sexual, o PLC 122.

Apesar da boa intenção, é justamente na criminalização da homofobia que a matéria peca. Com uma discussão rasa sobre o projeto de lei, a reportagem termina com declarações de Ives Grandra Martins, jurista paulistano, que afirma ser desnecessária a criminalização da homofobia alegando que até piadas contra gays se tornariam crime. Augusto Nicodemus Gomes Lopes, presidente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, também é citado. "Ensinar e pregar contra a prática do homossexualismo não é homofobia", declarou o presidente em um manifesto que se espalhou na internet.

De modo geral, a reportagem da "Época" deve ser vista como positiva à comunidade LGBT. Afinal, aborda um crime que é visto por milhares de brasileiros como mais um ato de violência e não como um crime de ódio. Angélica Ivo, mãe do adolescente gay de 14 anos morto no Rio, é a prova de que nossa sociedade não tem conhecimento do mal que a homofobia causa aos homossexuais.

"Nunca tinha ouvido falar em crime de ódio, não sabia que alguém era capaz disso. Dói muito imaginar meu filho, uma criança, lutando três horas pela própria vida", conta Angélica. É por isso que o PLC 122/06 - que criminaliza a homofobia em território nacional - deve ser discutido com seriedade. Não se trata de uma lei que proíbe "piada contra gays" ou que "incita a homossexualidade", e sim um direito, assim como os dos negros, de ir e vir sem ser discriminado, agredido ou morto, por sua cor ou orientação sexual.


Por Ale Rocha


Pela primeira vez em alguns anos, o telespectador brasileiro presencia um romance gay pouco caricato em uma novela da Globo. Em “Ti-Ti-Ti”, o cabeleireiro Julinho Santana (André Arteche) e o empresário Thales (Armando Babaioof) vivem os encontros e desencontros do amor, retratado de forma tocante por Maria Adelaide Amaral, autora da nova versão da trama, exibida originalmente entre 1985 e 1986.

Porém, nem tudo é perfeito. Infelizmente, o casal apaixonado não aparece de mãos dadas ou abraçados. Um beijo está totalmente fora dos planos. Carícias tão comuns protagonizadas por casais heterossexuais são proibidas pela direção da Globo.

Enquanto cenas que insinuam sexo entre um homem e uma mulher são aceitas sem qualquer restrição pela emissora, um beijo entre dois homens, ou duas mulheres, é vetado. Em carta endereçada à Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), a emissora admitiu que censura o ato.

Em nome de Octávio Florisbal, diretor-geral da Globo, a carta assinada por Luis Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação, primeiro utiliza a classificação indicativa do Ministério da Justiça para se defender. “Esta não se limita a ser ‘indicativa’, uma vez que efetivamente proíbe a veiculação de programas que apresentem conteúdos considerados ’sensíveis’ fora das faixas horárias determinadas.”

Ora, não há nada de sensível em um beijo. Ou, pelo contrário, ele é sensível por ser a pura demonstração de afeto e amor, seja entre um homem e uma mulher, entre dois homens ou entre duas mulheres apaixonadas. Se o Departamento de Justiça, Classificação, Títulos e Qualificação acatar reclamações dos telespectadores contra o beijo gay, será a institucionalização do preconceito.

Em seguida, a Globo diz não ser seu papel recomendar aos autores o beijo gay ou qualquer outra causa de interesse da sociedade, pois isso caracteriza condicionamento da liberdade criativa.

Concordo com a defesa da emissora. Não deve recomendar. Porém, ao mesmo tempo, é censura não permitir que os autores abordem esta e outras questões que ainda são tabus.

“Insensato Coração” possui diversos personagens gays. Quase todos, infelizmente, estão ligados às cenas cômicas, como se os gays fossem palhaços de circo, aceitos apenas para divertir com vocabulário e trejeitos exagerados. Para piorar, há um homofóbico assumido na trama, o esclarecido e idealista jornalista Kleber (Cássio Gabus Mendes). Ao descobrir que seu editor é gay, desabafa com a ex-mulher Daisy (Isabela Garcia). “Agora entrou um editor lá, que eu vou te contar. Uma bichinha, fica no telefone marcando encontro com o namorado na minha frente. E eu tenho que obedecer a esse sujeito.”

Infelizmente, o personagem preconceituoso deve ganhar a simpatia de parte expressiva da audiência. Isso não aconteceria se Gilberto Braga e outros autores saíssem da zona de conforto e enfrentassem os telespectadores.

Se a própria Globo admite na carta para a ABGLT que “a causa é a diversidade e o respeito às diferenças, e não propriamente a homossexualidade ou a heterossexualidade”, que dê liberdade aos autores para abordar o envolvimento entre pessoas do mesmo sexo por todos os ângulos.

Tenho consciência que retratar um romance gay tal qual são mostrados os envolvimentos heterossexuais causará estranheza em um primeiro momento. Contudo, já que é inegável a importância da televisão na formação cultural do brasileiro, pode ser um primeiro e importante passo para que a sociedade entenda que o afeto entre pessoas do mesmo sexo é normal. Uma enorme contribuição para que casos como as agressões gratuitas a homossexuais em grandes e pequenas cidades se tornem coisa do passado e que um direito fundamental da Constituição seja garantido: todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza.

Ale Rocha é jornalista, escritor e crítico de televisão. Autor de "Poltrona - O livro do maior blog brasileiro independente sobre TV".
Fonte: Yahoo!


Por Élio Farias

Sempre tive um pé atrás com a expressão “orgulho gay”. Assim sem preposição ela não diz bem ao que veio e abre, para mim, uma guerra de preconceitos. Orgulho de quê? De ser gay? Ou de ser assumidamente gay? Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E confesso que preferia quando as manifestações LGBT usavam o lema da “liberdade sexual” em suas paradas e afins. Era mais amplo, mais honesto, evidenciava melhor as reivindicações das diversas minorias sexuais. Agora temos as tais “paradas do orgulho gay” e o que mais vemos é aquele show de cores, música eletrônica, gente montada, fantasias, ousadia artística, brilho, alegria, gestinhos eróticos, músculos, corpos, beijos, humor... Devem ser as tais expressões de orgulho, não é? Depois volta todo mundo pra casa e vive a realidade nada colorida da vida. Então tá bom...

Infelizmente, a realidade de muitos gays envolve uma coleção de homofobias que não sabemos se foi ampliada ou amenizada com essas manifestações de orgulho. No Brasil, o número de homossexuais assassinados aumetou nos últimos anos, já superando a marca de 200 casos só em 2010. Suicídios, então, nem se fala. O Brasil disputa o recorde quase sempre, com mais de dois mil casos por ano... “I will survive?” Espero que sim, certo!?

Foi justamente por conta das consequencias das chacotas e da discriminação que o movimento LGBT resolveu adotar o tal “orgulho gay”, para tentar levantar a autoestima de quem sentia justamente vergonha da sua própria condição. Certamente a intenção foi boa, ninguém vai questionar isso. Mas precisamos confessar, essa iniciativa foi um verdadeiro tiro no pé!

Não se resolve um extremo - a vergonha - forçando exatamente o seu oposto - o orgulho. Ainda mais quando se trata de uma característica que não depende de nossa vontade - a orientação sexual. Podemos sentir orgulho por aquilo que optamos ser, por aquilo que conquistamos na vida, por aquilo que possuimos, mas que podemos deixar de possuir. Nossa orientação sexual não entra nessa jogada. Ela é natural, está lá independente do que a gente faça, independente da nossa vontade, independente da reação que tenhamos ao descobrí-la. Ela é um fato e, até onde se saiba, ninguém pode ser responsabilizado negativamente ou positivamente por sua existência. Então, não há motivo para ter orgulho, assim como não há motivo para ter vergonha.

Se o tal “orgulho gay” quer dizer o mesmo que “orgulho de ser homossexual”, além de não fazer sentido, tal expressão pode depor contra a inteligência e as intenções do movimento LGBT. Por conceito, orgulho é um sentimento de satisfação por uma capacidade adquirida ou realização de um feito, em contraposição ao seu oposto, considerado ruim, vergonhoso ou negativo. Por exemplo, podemos ter orgulho de sermos honestos, porque a desonestidade seria uma vergonha. Podemos ter orgulho de passar num concurso ou vestibular, pois ser reprovado seria algo ruim. Podemos ter orgulho de nossos pais, porque, se fossem diferentes, talvez não tivéssemos tanta admiração. Por fim, será que podemos ostentar um orgulho de sermos homossexuais? Deixando subtender que seria vergonhoso ser... hetero !? Eis aí a evidência de um preconceito... justamente de quem intenciona combatê-lo.

Na minha opinião, a maior imbecilidade de qualquer manifestação em defesa dos homossexuais é criar ou incentivar uma rivalidade do tipo Gays X Heteros. De uma vez por todas, precisamos enfiar na nossa cabeça: nem todo heterossexual é homofóbico e nem todo homofóbico é heterossexual! Não se pode combater o preconceito com mais preconceitos. Quem paga na mesma moeda sofre do mesmo mal. Essa postura só cria uma guerra inútil de pessoas que mal sabem por quem estão brigando.

Por outro lado, se o “orgulho gay” pretende dizer “orgulho de ser assumidamente homossexual” ou “orgulho de afirmar ou viver sua sexualidade sem culpa”, isso sim pode fazer algum sentido positivo. Nesse caso, o orgulho não seria pela sexualidade em si (que é algo natural), mas pela forma como lidamos com ela, pela maneira como decidimos vivê-la. O contrário desse orgulho não seria a heterossexualidade, mas sim a omissão, a mentira, a própria vergonha de algo que deve ser natural. Mas se as paradas querem justamente evidenciar isso ao afirmar seu “orgulho gay”, pecam no exagero e na confusão que fazem entre “orientação sexual”, “identidade de gênero” e “papel social de gênero”. Aliás, vale a pergunta: o termo “gay” se refere apenas à orientação homossexual ou é algo mais amplo, que envolve outros aspectos do comportamento? Caso envolva, acho bom o movimento começar a clarear melhor o termo, pois podem existir muitos homossexuais que não são gays e nem sabem disso...

Se o “orgulho gay” visava elevar a abalada autoestima dos homossexuais, trazendo um sentimento de dignidade pessoal, creio que não funcionou para todos. Afinal, contra o sentimento de vergonha, quais seriam as formas de mostrar que a vida homossexual pode ser digna de orgulho? Usando adereços, fantasias e maquiagens que escondem os cidadãos atrás de personagens? Enfiando uma sunga na bunda e requebrando músculos ao som do hit eletrônico do momento? Forçando abraços e beijos canibalescos no meio da avenida para atiçar os infelizes conservadores de plantão? Pode até ser... Mas isso nem de longe representa a realidade dos homossexuais e tampouco evidencia as importantes reivindicações por direitos. Duvido que essas expressões contribuam com qualquer evolução na conquista da igualdade. Esse tipo de manifestação se chama “carnaval” ou no máximo “festa”, evento típico de quem tem ou inventa motivos para comemorar. Infelizmente não é para mim...

Tenho saudade da coragem, da honestidade e da responsabilidade das manifestações pela causa LGBT das décadas de sessenta e setenta, anos que eu nem vivi. Ficou registrado na história. Aqueles gays, lésbicas, bi e heteros defendiam a liberdade e não apenas o brio do orgulho, coisa de quem se acha melhor que os outros. Precisamos retomar esse foco para não perder a razão e dar continuidade às conquistas que eles iniciaram. Essa sim é uma postura digna de orgulho, a defesa da igualdade de direitos! Algo bem diferente da simplória exposição fantasiosa e caricata das nossas diferenças. Espero sinceramente que aqueles dignos manifestantes não tenham perdido suas vidas em vão!


Por Marcelo Hailer em 02/03/2011 às 18h29

Em 6 de fevereiro de 2000, o adestrador Edson Néris, 35, caminhava com Dario Neto, 34, de mãos dadas pela Praça da República, no Centro de São Paulo. O gesto foi suficiente para despertar a ira de um grupo de cerca de 30 pessoas, cujos integrantes mais tarde seriam identificados como skinheads. O grupo espancou Edson Néris até a morte. Dario Neto levou alguns chutes, mas conseguiu escapar.

Dos vinte acusados, apenas dois foram condenados a 21 anos de prisão. Porém, onze anos depois, todos estão em liberdade. À época, o caso foi tratado com forte simbolismo e os casos de intolerância contra homossexuais não estariam mais restritos ao submundo das notícias. Desde então, políticas públicas voltadas para amenizar esse tipo de crime foram colocadas em prática: em 2001, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), sancionou a lei estadual anti-homofobia 10.948, que pune administrativamente atos homofóbicos na cidade.

Em 2004, logo que assumiu a Prefeitura de São Paulo, José Serra (PSDB) criou a Coordenadoria de Assuntos da Diversidade Sexual (Cads), que virou referência para outras cidades no país.

Mas quando se pensava que o clima era de tolerância, eis que acontece a agressão contra o professor de filosofia Ali, que foi espancado na Consolação, também na capital paulista, em fevereiro de 2007. Os grupos organizados da sociedade civil realizaram manifestação na Vieira de Carvalho, que contou inclusive com a participação da Polícia Militar, pois, na época da agressão, PMs teriam se recusado a ajudar, alegando que estavam fora de sua jurisdição.

No meio desse cenário, a ex-deputada federal Iara Bernardi (PT-SP) apresentava o PLC 122/2006, que iniciaria uma verdadeira guerra santa com os parlamentares ligados às bancadas religiosas. O movimento gay ganharia dois inimigos públicos: os senadores Marcelo Crivella (PRB-RJ) e Magno Malta (PR-ES). O argumento de que a lei seria uma "mordaça gay" foi espalhado pelos quatro cantos do Brasil. Com a aprovação da lei na Câmara dos Deputados e sua posterior chegada ao Senado, a questão da homofobia, enfim, começaria a ganhar holofotes na mídia.

Com a relatoria da ex-senadora Fátima Cleide (PT-RO), o PLC 122 iniciaria sua via crucis pelas comissões do Senado, mas Malta e Crivella conseguiram enterrar a criminalização da homofobia. No começo deste ano, o projeto de lei chegou a ser arquivado por conta de regimento do Senado. Agora, ganhou vida nova com a senadora Marta Suplicy (PT-SP), que desarquivou o projeto e assumiu a sua relatoria.

Paralelamente a todas essas ações, o Brasil mais uma vez ficaria paralisado frente a outro crime de intolerância: o assassinato de Alexandre Ivo, 14, em São Gonçalo (RJ). O caso está na Justiça. Um dos acusados tem ligação com teorias supremacistas e, além de tudo, a família encara a árdua missão de desmentir histórias a respeito de Alexandre, que teimam em querer grudar a pecha de que ele "vivia solto e andava com más companhias", com se isso justificasse o crime.

Quatro meses após o assassinato de Alexandre, mais uma vez a homofobia saltaria aos olhos graças às câmeras de vigilância da Avenida Paulista, que filmaram três jovens sendo agredidos gratuitamente com lâmpadas fluorescentes porque aparentavam ser homossexuais.

Da morte de Edson Néris até hoje, mais de uma década se passou. Não é possível dizer se a homofobia aumentou ou diminuiu. Não existem números oficiais para indicar essa estimativa. O que é possível constatar é que, desde o assassinato de Edson Néris, a homofobia começou a ocupar, gradualmente, espaços significativos na mídia.

A Parada Gay de São Paulo também ajudou a tematizar as marchas com a questão da homofobia; as ações governamentais cresceram e trouxeram visibilidade. Hoje, a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, afirma a todo momento que a prioridade de seu mandato é combater a homofobia. Ela também já sinalizou sua vontade de abrir os arquivos da ditadura.