10 janeiro 2013



Faz mais ou menos um ano quando eu postei um texto intitulado “Eu não gosto de gay, Eu odeio gay”. Nele há uma discussão muito pertinente sobre a atmosfera dos homofóbicos e como estes brutamontes enxergam a homossexualidade. Desde quando foi publicado, este post recebeu alguns comentários anônimos de pessoas, na sua maioria contra a minha postagem, expondo xingamentos e ofensas diversas. Não tenho problema em ler críticas negativas, desde que construtivas, sobre meus textos, mas o que me chamou atenção foi o número de pessoas anônimas que comentaram este e outros tantos textos meus sobre assuntos ligados ou não à temática gay. Percebi que o anonimato tem criado comentaristas violentos, os quais utilizam da obscuridade para rechaçar posts da blogosfera que tratam de temas polêmicos. O que ficou claro, então, para mim é que isso é uma tática para silenciar aqueles que, como eu, ousam em tocar em certas discussões, consideradas como verdadeiras feridas para algumas pessoas.

Numa sociedade em busca de flashes e rodeada de holofotes é contraditório encontrar pessoas revestidas pelo manto do anonimato, de modo que o anônimo vem se tornando um sujeito emblemático, dividido em polos bem distintos. Antes, o indivíduo clássico que denunciava ladrões e assassinos e, consequentemente ajudava o poder público a prender tais malfeitores. Eles que eram verdadeiros justiceiros em benefício do povo, que através de ligações anônimas, contribuíam para uma sociedade mais segura. Hoje, porém, os anônimos são os difusores da violência seja na vida social ou cibernética. Ou seja, o anonimato agora é uma arma de insegurança usada por pessoas maledicentes que se aproveitam da própria invisibilidade para atacar qualquer pessoa, a qualquer hora e lugar. Entre esses ambientes, a internet se tornou terreno fértil para essas pragas, visto que a possibilidade de se expor no escuro dá a estes indivíduos a chance de propagar a violência contida no interior deles em forma de comentários.

Penso que isso acontece porque há uma grande diferença entre os anônimos e os não anônimos: a necessidade de aparecer. A diferença é que enquanto estes tem a coragem de expor suas ideias, gostos e opiniões, aqueles usam a omissão de suas faces para agredir, caluniar, chantagear e até ameaçar pessoas, através de comentários perniciosos sobre determinados temas. Então, utilizam do anonimato para externar suas frustrações, raivas e limitações, pois esperam como isso a visibilidade necessária para serem vistos e, quem sabe, copiados. Por isso que eu os acho extremamente periculosos, uma vez que seus discursos podem ser absorvidos por pessoas tão ignorantes quanto eles e, posteriormente disseminados por essa sociedade controlada às cegas pela violência.

Na verdade, são pessoas recalcadas e incapazes de se expor como adultos, preferindo se esconder, ao invés de encarar certos assuntos de frente, com maturidade e inteligência. Por isso é que esses covardes inomináveis continuam a omitir seus rostos, pois não tem a coragem necessária para enfrentar os conflitos dentro de si mesmos. Isto porque, muitos deles são vítimas das próprias palavras que usam. Ou seja, quando um anônimo se utiliza de argumentos embrutecidos contra homossexuais, negros, mulheres, nordestinos e tantos outros temas polêmicos que são tratados na internet, possivelmente eles fazem parte de um ou mais grupos desses, considerados minoritários por essa sociedade segregada da qual vivemos. Logo, se entrincheiram dentre de si e começam uma guerra contra o outro, que na verdade vive dentre deles mesmos.

Não questiono a liberdade de expressão que cada ser humano possui no momento de expor suas visões de mundo, as quais delineiam nossas opiniões sobre inúmeros assuntos, mas acrescento que essa “liberdade” deve ser literal, ao ponto daquele que opinou, negativa ou positivamente sobre um dado tema, seja honesto o suficiente para mostrar sua face para o outro que está sendo atingido. Essa apresentação é necessária para que a outra parte tenha o direito de defesa, o qual é furtado por esses anônimos que adentram em sites, blogs, e tantos outros veículos por onde a opinião pode ser emitida, sem a hombridade de se mostrarem por completo. E a defesa da qual falo diz respeito à contra argumentação sadia entre o emissor do post e o comentarista, visto que a maioria dos anônimos são ignorantes, fundamentalistas e de vocabulário esdruxulamente vulgar, elementos que afetam o discurso desses indivíduos, os quais escrevem como se estivessem aplicando uma sentença.

Por mais “anônimos” que possam parecer esses comentaristas, suas identidades são facilmente descobertas através de algo que o anonimato ainda não foi capaz de esconder, os sentimentos. Pelos comentários, podemos traçar seus perfis como os de pessoas covardes, acostumadas a viverem nas sombras de si mesmas e das próprias limitações. Indivíduos egoístas que, por alguma ou várias razões, não se abrem para compreender a complexidade do outro, suas similaridades e diferenças. E, por fim, seres frustrados com a vida, com a própria vida, com o mundo e as escolhas que fizeram dele, frustração esta que obscurece o olhar e negrita à mente o direito de pensar. Talvez isso seja o reflexo de pessoas carentes de afeição e, sobretudo de respeito pelo outro, o qual é o único capaz de moldar uma película humanitária nesses “humanos” que se esquecem da sua condição humana em alguns momentos, agindo como verdadeiros aborígenes, ou pior, igualando-se aos animais irracionais.

Portanto, covardia, egoísmo e frustração são, a priori, os sentimentos negativos que podem ser detectados nesses invasores que nada de construtivo expõem para alimentar certos debates. Pelo contrário, só mostram o quão atrasada é a mente humana quando se trata de discutir de forma lúcida determinadas questões de ordem humanística e social. Enquanto isso, somos obrigados a conviver com essa sociedade anônima, a qual atua nas sombras e encontra nelas a válvula propulsora para exteriorizar a violência. Acontece que a bestialidade expressada por esses indivíduos não se limita apenas às palavras. Na verdade, elas são apenas o resumo de algo maior que vive dentro dessas pessoas sem identidade, a educação. Sem ela, acaba-se formando seres deselegantes, desumanos e lamentavelmente desinformados e essa carência de informação desemboca em algo muito conhecido e, infelizmente difundido por nós chamado de preconceito. 



Olhei; parei e pensei
Pensei que era uma puta
Se era, realmente, ainda não sei
Mas, podia ser uma prostituta

Aquela matuta
Sem perspectiva de vida
Trabalhando na madruga
Pra ganhar o pão e s sobrevivência permitida

Mal do capitalismo
Submeter vidas ao escravismo
E, pra manter determinados padrões
Mulheres vendem o corpo a patrões

Perverso capitalismo
Todos só pensam em ser bem sucedidos
E, muitos vendem corpo, alma e coração esquecendo a emoção
O corpo virou produto e o sexo diversão

Não era puta
Nem prostituta
Também, não era matuta
Estava apenas na labuta dessa vida prostituta
Que nos obriga a fazer, coisas absurdas.


Filemon Souza



Ser gay é ser corajoso. Ser gay é ser forte. Ser gay é também ter caráter. Ser gay é ser de verdade o que é. Ser gay acima de tudo é ser homem! Homem macho não é aquele que pega todas as minas. Nem aquele que bate em todo mundo. Ser homem é ser de verdade, amar de verdade e viver a verdade. Não é porque o sujeito é gay que ele quer ser mulher. Ser gay é amar independente do sexo. Alguém ouviu dizer que coração tem sexo? Ele não tem. Existe muito gay mais macho do que uns caras por aí que pagam de fodões.


 
Publicado na UOL

Tenho dado bonecas de pano de presente para filhos de alguns amigos. Há algumas lojas que vendem brancas, negras, indígenas, asiáticas.
 
Diante do estranhamento dos pais (“Ah, mas ele é menino!”), tento explicar que brincar de boneca e de casinha deveria ser algo incentivado a ambos os sexos.
 
Formaríamos homens mais conscientes e menos violentos se eles entendessem, desde cedo, que cuidar de bebês, cozinhar, limpar a casa não são tarefas atreladas a um gênero, mas algo de responsabilidade do casal. Não há nada mais anacrônico do que tomar como natural que o homem deve sair para caçar e a mulher ficar cuidando da tenda no clã. Em alguns países, após um período inicial de licença maternidade básica, o casal escolhe quem continua fora do trabalho para cuidar do pimpolho. Podem decidir, por exemplo, que ele ficará em casa e ela irá para a labuta.
 
Enquanto isso, damos armas e espadas de brinquedo para os meninos. Dia desses, vi um par de pequeninas luvas de boxe expostas em uma loja – para lutadores de seis anos. Evoluímos como sociedade, mas continuamos fomentando a agressividade entre eles como se fosse algo bom. A indústria de brinquedos, com raras exceções, trabalha com essa dualidade “meninas precisam aprender a cuidar da casa e ficar bonitas para os meninos” e “meninos precisam aprender a governar o mundo”. Quem quer romper com isso encara certa dificuldade para encontrar produtos.
 
O filho de um amiga ganhou de presente um kit de panelinhas, prato e talheres de brinquedo. Ele adora. Mas foi duro encontrar um modelo que não tivesse estampas com desenhos de meninas. Isso sem contar as caixas, que trazem garotas brincando de cozinha, como se o produto não pudesse ser utilizado por garotos também. Isso sem falar dessa imbecilidade de que rosa é cor de menina e azul de menino. Quando alguém começa a defender esse maniqueísmo pobre, dá uma preguiça…
 
Brinquedos não deveriam trazer distinção de gênero. Ou como diz uma imagem que estava correndo o Facebook: “Como saber que um brinquedo é para menino ou para menina?” E faz uma pergunta: “Vibra?” Se a resposta for sim, não é para crianças. Se a resposta for não, vale para ambos os sexos.
 
O homem é programado, desde pequeno, para que seja agressivo. Raramente a ele é dado o direito que considere normal oferecer carinho e afeto para outro ser em público. Ou cuidar de bebês e da casa. Manifestar sentimentos é coisa de mina. Ou, pior, é coisa de “bicha”. De quem está fora do seu papel. Papel que é reafirmado diariamente: dos comerciais de produtos de limpeza em que só aparecem mulheres sorrindo diante do novo desentupidor de privadas até a escolha de determinados entrevistados por nós jornalistas, que também dividimos o mundo entre coisas de homem e de mulher. “Ah, mas o mundo é assim, japa.” Não, não é assim. Nós que não deixamos ele ser diferente.
 
Homens que trabalham no Brasil gastam 9,5 horas semanais com afazeres domésticos, enquanto que as mulheres que trabalham dedicam 22 horas semanais para o mesmo fim. Os dados são da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Com isso, apesar da jornada semanal média das mulheres no mercado ser inferior a dos homens (36 contra 43,4 horas, em termos apenas da produção econômica), a jornada média semanal das mulheres alcança 58 horas e ultrapassa em mais de cinco horas a dos homens – 52,9 horas – somando com a jornada doméstica. Ou 20 horas a mais por mês. Ou dez dias por ano.
 
A análise mostra também que 90,7% das mulheres que estão no mercado de trabalho realizam atividades domésticas. Enquanto isso, entre nós homens, esse número cai para 49,7%. Porque brincar de casinha é coisa de menina.
 
Trabalho doméstico não é considerado trabalho por nossa sociedade, mas sim obrigação, muitas vezes relacionado a um gênero, que tem o dever de cuidar da casa. Às vezes, o casal trabalha fora e, nesse caso, terceiriza-se o serviço doméstico para outra mulher, seja ela babá, faxineira ou cozinheira. Sem, é claro, garantir a elas todos os direitos trabalhistas porque, até o Congresso Nacional aprovar nova lei, são cidadãs de segunda classe. E, diante da possibilidade de pagar direitos trabalhistas a quem faz o trabalho doméstico, a classe média pira.
 
A disputa é no campo do simbólico e, portanto, fundamental. Todos nós, homens, somos inimigos até que sejamos devidamente educados para o contrário. E os brinquedos que escolhemos para nossos filhos fazem parte dessa longa caminhada a fim de garantir um mínimo de decência para com o sexo oposto.
 
Abaixo, vídeo de uma sensacional campanha do governo do Equador contra o machismo que traduz em imagens o que quero dizer:

Sempre que se fala em cultura de estupro, vem homens dizer que de jeito nenhum, isso não existe, é paranoia de feminista. Eu digo que cultura de estupro é quando temos uma sociedade que tolera e até incentiva o estupro, e que está sempre pronta pra culpar a vítima. Costumo dar alguns exemplos. Tipo: se você foi vítima de estupro e estiver procurando ajuda, será mais fácil encontrar na internet vídeos pornôs com simulações de estupro, mostrando estupro como algo excitante, do que instruções tratando de delegacias e exames de corpo de delito. 

Cultura de estupro écomediante dizer que homem que estupra mulher feia não merece cadeia, merece um abraço, e metade da população rir e, diante dos protestos da outra metade, xingar quem se indignou com o chiste de mal amada, mocreia, sapatão, “nem pra ser estuprada vc serve”. Cultura de estupro é vender camisa (e muita gente comprar pra usar) com “fórmula do amor”, que equivale a embebedar a mulher para conseguir sexo sem resistência. Cultura de estupro é um programa de TV fazer rirem cima de um problema que acomete milhares de mulheres por dia (bolinações dentro de meios de transporte coletivo). Cultura de estupro é anúncio de preservativo brincar que sexo sem consentimento queima mais calorias. 

Cultura de estupro é o comercial da Nova Schin estar passando na TV há meses sem que se veja qualquer problema. Não viu o comercial? Eu explico: um grupo de amigos, só homens e brancos, bebem na praia, quando um deles, ao observar mulheres, pergunta pros outros: “Já pensou se a gente fosse invisível?”. Corte pra latinhas de cerveja flutuando, representando que a fantasia virou realidade. E o que os homens invisíveis estão fazendo? Passando a mão na bunda de mulheres no mar. Sacaneando um cara que joga frescobol. Tocando o terror na praia. 

Até que entram num vestiário feminino. A câmera não mostra tudo, só as latinhas abrindo a porta, e mulheres correndo pra fora, aterrorizadas. O mais perverso é que, mesmo no “clima de humor” do comercial, a expressão no rosto das mulheres é de pavor. Na maior parte das vezes, quando homens fazem piadas de estupro, atenuam a violência fingindo que a vítima está gostando (esta também é uma mensagem perversa, claro). Aqui nem tentam isso. As mulheres saem correndo dos homens invisíveis com medo mesmo.

Publicitário é um bicho arrogante e egocêntrico (eu fui redatora publicitária em outra encarnação). Mas uma de suas funções é estar antenado com o mundo, saber o que acontece, conhecer outros produtos culturais. Daí eu imagino que os publicitários saibam que, desde 2009, as leis brasileiras deixaram de considerar estupro apenas quando há penetração vaginal. Hoje temos uma das leis mais abrangentes do mundo, e passar a mão também pode ser visto como estupro. Ou seja: o que os homens invisíveis do comercial da Nova Schin fazem, pela lei, é estupro. E eles morrem de rir disso. Se fosse com eles, seria engraçado? 

Mesmo que os publicitários não conheçam a lei, eles definitivamente conhecem O Homem Sem Sombra, filme de 2000 do Paul Verhoeven. Nesse thriller, Kevin Bacon faz um cientista que descobre a fórmula da invisibilidade, e a testa nele mesmo. Ele vai ficando cada vez mais obcecado com esse poder, até que decide estuprar uma vizinha que ele espia pela janela. A cena é terrível (você podevê-la aqui, e aqui a continuação, com o comentário do diretor explicando que tiveram que suavizar o estupro), mas mais chocante ainda é o número de comentaristas no YouTube fazendo piadinhas (“ela vai ter um filho invisível?”) e afirmando que, na pele do cientista, fariam exatamente a mesma coisa -– estuprariam mulheres.

E eles não estão brincando. Não tenho tempo para encontrar todas as pesquisas que já li mostrando que, se estupro não fosse crime, muitos homens estuprariam. Margo Paine fez um estudo com universitários americanos, e os números, publicados emBody Wars, não são bonitos. 30%  dos entrevistados responderam que estuprariam se não houvesse consequências legais. 8% revelaram já ter estuprado ou ter tentado estuprar. 83% concordaram com a expressão “Algumas mulheres parecem que estão pedindo para ser estupradas”. Diante de resultados assim, você ainda quer manter sua certeza de que apenas psicopatas estupram? De que não vivemos numa cultura de estupro?

Um dos problemas é que boaparte dos homens não faz ideia do que seja estupro. Estupro, pra eles, é só o que acontece num beco escuro à noite entre um psicopata e uma mulher que, pelas roupas, “estava pedindo”. E tem que haver muita violência física para que esses mesmos homens encarem aquilo como estupro. Para esses cidadãos, não passa a ideia de que estupro é pura e simplesmente sexo sem consentimento. Nesse mesmo estudo de Paine, quando a palavra estupro foi substituída por “sexo forçado”, 54% dos entrevistados disseram que “forçariam sexo”. Quer dizer... Muitos homens não veem forçar sexo como estupro! Assim como a Prudence não vê sexo sem consentimento como estupro. Assim como a Nova Schin não vê agarrar mulheres nuas como estupro.

É exatamente isso que a cultura de estupro faz com a sociedade: ensina que mulher faz charminho, que quando ela diz não ela no fundo está dizendo sim, que é totalmente normal pruma mulher, que obviamente nem gosta de sexo, “vender caro seu passe”, fingindo refutar o macho incontrolável para assim se valorizar. E que homens são eternos brincalhões, boys will be boys.

Acho que nunca publiquei um só post sobre estupro sem que viesse algum sujeito dizer que aquilo é besteira, que somos paranoicas, que não deveríamos dar importância pra aquilo, que deveríamos estar falando da corrupção do governo ou salvando criancinhas na África. Ou sem que viesse algum cara dizer que o caso narrado simplesmente não aconteceu, que a mulher está mentindo, que aquilo não é estupro de jeito nenhum, que as mulheres gostam, que imagina se aquela propaganda faz apologia do estupro!, que nós é que não temos senso de humor. O que eu leio em todas essas frases é apenas um recado vindo de homens: “Não quero saber de assuntos de mulheres, mas quero continuar podendo rir deles”. 

Que tal trocar o disco? Que tal assumir sua responsabilidade nesta cultura de estupro? Temos basicamente dois times: um que luta pelo fim do estupro e pela liberdade das mulheres; outro que luta para manter o privilégio de encarar estupro como piadinha e manter as mulheres com medo. Em que time estão os publicitários e a mídia em geral? Em que time vocêestá?

Visto no blog: Escreva Lola Escreva

01 janeiro 2013



Acabei de ler um texto lindíssimo de Cecília Meireles sobre como é simples ser feliz e dele tirei algumas conclusões. Por mais que a felicidade plena não exista, eu posso afirmar que sou feliz por diversas razões.

A primeira, tenho uma mãe INDESCRITÍVEL que fez, faz e sempre fará tudo por mim. A presença dela é a bússola que me guia e me livra das inúmeras tormentas dessa vida tortuosa, cheia de caminhos e pessoas perigosas. Sem seu amor, eu simplesmente não existiria. Amo-a demais!

A segunda é o meu MARAVILHOSO irmão Diego Didier, que apesar de alguns embates, ele sempre está do meu lado, torcendo por mim e querendo o melhor para a minha vida. Na verdade, mesmo sendo mais novo, a sabedoria dele me surpreende e me faz refletir sobre algumas bobagens que acabo fazendo mesmo inconscientemente.

A terceira coisa são meus queridos amigos, colegas e alunos que se fazem presente na minha vida durante todo o ano, seja na vida íntima, na sala de aula ou fora dela, seja nos momentos mais alegres ou nos mais tristes. A verdade é que sem o carinho e a energia de vocês eu simplesmente não existiria

Tenho também a profissão que escolhi para a vida toda. Adoro ensinar e a cada conquista dos meus alunos, percebo que estou no caminho certo, deixando uma singela semente nas mentes dessas pessoinhas que vão germinar e deixar seus frutos positivos pelo mundo afora.

Mas, acima de tudo isso, eu tenho um Deus que está sempre comigo, guiando meus passos e iluminando o meu caminho. Sem Ele nada seria. Não falo desse Deus intolerante propagado por muitas igrejas, mas do que se apresenta nos momentos mais simples do meu dia, energizando a minha existência e me dando a oportunidade de respirar mais um dia, de contemplar a natureza e as pessoas que nela vivem.

Alguns podem se perguntar agora, o porquê desse desabafo. Simples, eu percebi que não preciso de muita coisa para ser e estar feliz. Percebi que a vida tem me dado tudo o que eu preciso no seu devido tempo. Tenho uma família linda, apesar dos problemas, tenho amigos presentes, alunos carinhosos e gentis, uma profissão linda e, sobretudo amor e respeito pelo próximo. 

Tudo isso só me faz desejar que 2013 seja extraordinariamente incrível para todos e que todos descubram as felicidades que estão nas coisas mais simples da vida. 2013 está chegando e não precisamos sonhar com coisas inalcançáveis, mas apenas estabelecer metas e deixar que a energia vital de cada um, com um pouco de talento, faça o resto do trabalho.

E eu não sei vocês, mas 2013 definitivamente será o meu ano de ser, estar e permanecer ainda mais feliz, pois, se Deus quiser, eu concretizarei todos os sonhos dos quais almejo. Espero e torço o mesmo para todos aqueles que estejam positivamente pensando e torcendo por um mundo melhor, mas humano, onde o respeito e a tolerância sejam os ingredientes da fórmula do amor.

E lembrem-se: SER FELIZ É SER LIVRE!

Bjoxxxxxxx no coração!

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade




Nas grandes cidades, pessoas que não têm onde morar são contraditoriamente chamadas de “moradores” de rua. É um eufemismo que acoberta o quadro da injustiça social típica das sociedades em fase de capitalismo selvagem, aquele no qual a eliminação do outro é a regra. Que tantos e cada vez mais vivam nas ruas é uma prova de que o famoso instinto gregário do ser humano se esfacela, ou assume formas cada vez mais enganadoras porquanto mais voláteis em uma sociedade que é, ao mesmo tempo, de massas e de indivíduos que não têm a menor noção do que significa o outro.

O aumento das relações virtuais em detrimento das relações “atuais” é a própria perversão das massas marcadas pela anulação física individual em nome de um eu abstrato, sustentado apenas como imagem, como avatar. E que tem como correspondente um outro reduzido à sua mera abstração. Há, certamente, exceções para a regra da distância com que o eu mede o outro.

Dizem as pesquisas que o número de pessoas vivendo sem teto cresceu nos últimos anos por causa do desemprego. E são milhares. Motivos além do desemprego podem confundir quanto ao sentido (e o sem sentido) da complexa experiência vivida por essas pessoas. Afinal, pode-se encontrar entre os que vivem nas ruas até mesmo quem não se sente em situação de injustiça social.

A população das ruas das grandes cidades é composta de habitantes (ou desabitantes) provisórios ou não, que estão ali por motivos diversos. Muitas vezes são afetivos. Não é raro encontrar ricas histórias de vida entre as pessoas sem morada, desde aquele que renunciou à vida burguesa por considerá-la insuportável, até quem por meio de inesperadas leituras filosóficas criou um significado para o ato de “habitar” a transitoriedade, ou seja, “desabitar” instransitivamente e estar assim, na mera existência.

Que não habitar uma casa possa significar uma experiência existencial é, no entanto, apenas a exceção que confirma a regra da contemporânea injustiça social a cuja base racional e afetiva tantos entregam as forças. Renunciar, desistir, jogar a toalha, permitir-se a impotência como o Bartleby, de Melville, ou o fracasso, como um dia afirmou J. L. Borges, pode ser o único modo de viver em um mundo marcado pela melancolia e pelo sem sentido em termos políticos, estéticos e metafísicos.

O cenário social contemporâneo é o espaço e o tempo dessa possibilidade de fracasso que diz respeito à potencialidade mais profunda de nossos tempos. É a forma mais terrível do mal, a da banalização que se estabelece na vida humana como força lógica. Como um “deixar acontecer” ao qual damos o nome de “abandono”, esse ato de exílio, de ostracismo, de curiosa rejeição sem ação. A mendicância das pessoas é apenas a verdade íntima do capitalismo como mendicância da própria política deixada a esmo em nome de antipolíticos interesses pessoais. A mendicância é a imagem social das escolas, dos hospitais públicos, do salário mínimo…

Democracia de teto e paredes

“Moradores de rua” são a figura mais perfeita do abandono que está no imo da devoração capitalista. Convive-se com eles nos bairros elegantes das cidades grandes como se fossem um estorvo ou, para quem pensa de um modo mais humanitário, como um problema social a ser resolvido filantropicamente. Alguns moram em lugares específicos, têm sua “própria” esquina, carregam objetos de uso aonde quer que vão, outros perambulam a esmo desaparecendo da vista de quem tem onde morar. São meras fantasmagorias aos olhos de quem não é capaz de supor sua alteridade. Esmagados pela contradição de morar onde não mora ninguém, não têm o direito de ser alguém. Partilham o deslugar. E, no entanto, praticam o mesmo que os outros dentro de suas casas: dormem, comem, fazem sexo. A condição humana é o que se divide por paredes ou na ausência delas. A democracia torna-se uma questão de nudez e exposição da vida íntima.

Ninguém “mora na rua”; antes, quem está na rua não mora. Quem está fora dos básicos direitos constitucionais está excluído da sociedade. E muito mais além da Constituição, está excluído pelo próprio status com que é medido. O status de “morador de rua” é apenas um modo de incluir os excluídos na ordem do discurso acobertadora do fascismo prático de cada dia oculto sob o véu da autista sensibilidade burguesa. Se o princípio de autoconservação a qualquer custo é a base da ação de indivíduos unidos na massa, está imediatamente perdida a dimensão do outro sem a qual não podemos dizer que haja ética ou política. Mesmo sob o status de morador de rua, o mendigo da nossa esquina é a prova do fracasso de todos os sistemas. Se as estatísticas não mudarem comprovando que a tendência da exceção pode ser a regra, talvez a democracia de teto e paredes não sirva mais a ninguém em breve. Só que às avessas.

Visto na: Revista Cult


Estou sem tempo para errar...
Sem tempo para o que me deixam...
Sem momento para pensar...
Sem disposição para parar...
Sem olhos para sentir...
Sem coração para ver...
Sem intuição para dizer...
Porque eu não tenho tempo... tempo de errar...
Eu simplesmente não tenho tempo de errar todos os erros do mundo...
Existem vários outros erros que eu gostaria de errar...
Existem vários outro muitos erros...
Erros regressos... não...
Nada de justificar...
Nada de nada interessa...
Nada de enganos e devaneios...
Tudo de mim!