23 junho 2010


By Anderson Gomes
Correção Textual: Diogo Didier

O tema

O recorte temático a seguir construído para este espetáculo junino, apropriado da história viva da vida conhecida por vocês na fundamentação teórica, vai agora, filtrar em um Causo Nordestino um pouco dos desejos e sonhos intrínsecos ao homem, depositados na vontade de se manter vivo para amar e ser feliz.

Boa história!

Causos Nordestinos

A sabedoria popular é passada de geração para geração, contando os causos vividos pelo povo nordestino.

Os causos são situações reais que acontecem no dia a dia são estórias nascidas do imaginário popular, em que, os fatos mais inacreditáveis que você possa imaginar ganham vida! Completam um universo lúdico contribuindo para a preservação das raízes e crenças populares dessa nação nordestina.

“Por mais incríveis que pareçam essas estórias, pode acredita que são verdade”. É o que garante Zé poeta, autor de vários causos nordestinos em Pernambuco. E é a partir da imaginação dessa gente simples que palavras em versos enriquecem as mais variadas e fantásticas estórias, das quais até hoje não se sabe em que local começam ou terminam o limite entre a verdade e o voo para a imaginação dos causos.

Desse modo, apropriando-se da literatura de cordel e dos artistas cordelistas, os causos possuem um ritmo próprio, cheios de detalhes curiosos e engraçados para convidar os expectadores a acreditarem nos contos, traduzindo assim, os saberes com um toque de humor inteligente que serve a sociedade para informar, criticar ou apenas divertir.

A $orte:

O que diz o dicionário Aurélio para desvendar os significados da sorte: “substantivo feminino; uma força que determina ou regula tudo quando ocorre, e cuja causa se atribui ao acaso das circunstâncias ou da suporta predestinação; destino, fado, sina; felicidade; fortuna; dinheiro; casualidade; bilhete ou coisa premiada nestes boletos de loteria e sorteio.”

Já o povo... Bem, sair de casa sem ela nem pensar! Há quem não largue um trevo de 4 folhas, uma ferradura, um pé de coelho, a imagem do santinho(a) de sua graça, um crucifixo, um terço, uma camisa que te deu sorte naquele encontro, um vestido, uma bolsa na hora daquela entrevista de emprego, uma caneta para assinar um cheque ou o cartão de crédito. E assim “andar com a fé eu vou que a fé não costuma falhar” já dizia Gilberto Gil. Mas para os ciganos a verdadeira sorte está escrita entre as linhas da palma da mão. Foram eles que popularizaram pelo mundo a Quiromancia, tanto é que, quando se pensa em leitura das mãos, vem logo a imagem de uma cigana.

A arte de ler as mãos tem origem misteriosa. Acredita-se que desde o princípio da humanidade já se utilizava deste recurso para conhecer o futuro. No continente africano, berço de todas as civilizações mundiais, especificamente no Egito, os Faraós não travavam uma guerra sem antes consultar os magos e saber o que o destino reservava ao seu povo. Desta forma, na cultura de outra civilização também africana, as indianas ciganas aprendem com suas mães o oficio desta arte já na infância. Diz à tradição que as mulheres andem com outras mulheres da mesma família a procura de pessoas que queiram saber de seu futuro, ver ou ler a sua sorte.

Todos os detalhes das mãos possuem um significado particular, desde sua forma, sua cor e até mesmo sua temperatura. Quanto maior o número de informações contidas nas mãos das pessoas mais se conhece sobre ela, tanto da sua personalidade, quanto a sorte que o futuro as reserva. O que é observado: Formato das mãos que pode ser elementar, psíquica, quadrada entre outros; as linhas da cabeça, da vida, do coração; o volume dos montes (relevos) como o morte de Vênus que fica abaixo do dedo polegar ou o monte de Júpiter a baixo do dedo indicador etc. Além da técnica de adivinhação que parece simples se tivermos um manual, é fundamental possuir o dom, pois esse é exclusivo, não se repassa de mãe para filha. Algumas ciganas olham para uma pessoa e traduzem de imediato o que o destino as reserva – é mágico.

HOJE é meu dia de SORTE!

É um causo cigano que ,acreditem ,ocorreu no nordeste brasileiro. Retrata a pobre situação de um casal de namorados que vê seu sonho de casamento competir com a falta de dinheiro para se casarem. Mas como fazer para pagar tantos gastos com a festa e a cerimônia na igreja sem ter dinheiro? O amor sozinho pode salvar essa estória? Entretanto, no caminho deste sonho, viajando de lugar em lugar pelas estradas da vida a quem ganhou fama desvendando a sorte e lendo o destino para sobreviver – essa é a cultura cigana, uma tradição milenar dos povos nômades indianos espalhados pelo mundo e que, também estão presentes no nordeste brasileiro.

É um mistério... “Ouvir de longe o seu lamento menina, deixe me ler a sua sorte” falou a cigana. E quem nunca ouviu falar de uma cigana querendo adivinhar o futuro lendo a palma de sua mão? No entanto, diante deste duelo entre amor e destino, dinheiro e $orte, esse jovem casal ver nascer o seu dia de sorte a partir da magia cigana no horóscopo da vida, do qual, acreditam no seu sonho de felicidade e, não vão deixar a sorte passar por nada neste mundo.



CASAMENTO

A igreja e sua relação antiga com o dinheiro.
Ao entrarmos em uma igreja católica, a exemplo das que existem no centro do Recife e Olinda, de estilo arquitetônico barroco ou rococó, não nos contemos com a surpresa: É lindo o luxo! Altares banhados de folhas de ouro em todas as direções, restaurados recentemente ou em processo de licitação financiados pelo governo. A forma como foram estrategicamente construídas essas igrejas, nos intimida pela majestosa grandiosidade, deixando-nos sem qualquer reação, sem falar, no contexto cultural a que fomos educados a partir da “cultura cristã” que invalida qualquer comportamento. Já os trajes dos padres feitos com suntuoso requinte, como haveria de ser, afinal são representantes do poder divino sobre a terra. Um poder estético materializado na imagem das cerimônias e rituais, embora já aceitadas pelo poder do subconsciente espiritual.
Mais o que falar das cerimônias católicas?

Católicos, sendo ou não praticantes, podem casar-se na Igreja de acordo com o ritual Católico. No entanto, o padre tem o poder de recusar a celebração de um casamento, caso tenha razões para acreditar que os noivos não acreditem nos ideais católicos.

A cerimônia católica é, atualmente, dominante no Brasil. No catolicismo, considera-se o casamento um verdadeiro sacramento, reconhecido como uma graça de Deus. No momento, de todas as promessas da vida nova em comum, na saúde e na riqueza o que se deseja é ter uma vida feliz, já que, o sentimento que leva duas pessoas a se casarem pode ter diversas razões, mas normalmente fazem-no para dar visibilidade à sua relação afetiva, para buscar estabilidade econômica e social, para formar família, procriar e educar seus filhos.

Ainda nesse contexto, a ostentação propagada no interior das Igrejas recai de forma intrínseca nos tributos pagos nas cerimônias religiosas, sobretudo nas uniões afetivas, ou seja, casamentos. Calma! Por hora não vem ai nenhuma critica aos dízimos, mas sim as taxas cobradas para a realização dessas cerimônias religiosas.

Os valores cobrados pela Igreja chamam a atenção devido aos altos preços cobrados para realizar as cerimônias de casamento. Em muitos casos, os noivos têm que desembolsar quantias exorbitantes de dinheiro para concretizar o sonho clássico de casar-se numa Igreja.



O CASAMENTO:

A seguir, vocês poderão conferi na integra o texto do casamento que propícia o inicio desta trama nordestina.
Boa sorte e bom espetáculo!


Texto e direção: Anderson Abreu

O dinheiro do Padre


1º ATO - PERSONAGENS:

Cordelista: Jimmy Glauber (Marcador da quadrilha).
Noivo: Gildo Alencar.
Noiva: Carmem Costa.
Cigana: Amélia Costa.
Cigana: Ellon Sant`Anna.
Padre: Eduardo Manoel.
Padeiro: Alan Santos.
Coronel: Murilo Caritas.
Capitão da Volante: Eduardo Andrade.
Sanfoneiro: Everson da Silva.
Prefeito: Ricardo Souza.
Cangaceiro: Luciano Barros.



CENA:


Cordelista: Vou contar um causo bem nordestino e peço sua atenção
Zé e Florzinha são dois apaixonados que falam ao coração
Têm um sonho... Na igreja querem se casar
Mais confesso são pobres e lisos, e dinheiro? Nem pensar!

Noiva- Ai de mim Zé.
Noivo- Danou-se... Oxente, onde foi que doeu?
Noiva-No meu coração... Vixe Maria, só em pensar que na igreja não iremos casar, me dá uma tristeza tão grande!
Noivo-Eita que a situação está preta estou sem nenhum tostão. Casar na igreja é negocio pra gente rica mulher.
Noiva- Meu Santo Antônio te diz uma coisa, ser pobre tudo bem, mais ser pobre todo dia, vou te contar viu! Quem me dera à sorte grande batesse a nossa porta.
Noivo-Hô aperreio danado. Já vem você falar em sorte!É luxo até ter sorte.
Noiva- sei-lá mais alguma coisa me diz que na noite de São João algo de bom vai nos acontecer.

Cordelista: Pra ter dinheiro é preciso contar com a sorte
Trevo de quatro folhas, Pé de coelho, Ferradura...
Danou-se é muita fé na vida de um pobre
Mais se é a sorte que eles querem encontrar
Chega à cidade uma caravana de Ciganos pra ajudar
E o sonho do casamento pode se realizar.


Noiva-Olhe Zé, nossa sorte vem vindo.
Cigana-Ouvi de longe o seu lamento menina, deixa-me ver a tua sorte.
Cigano-Mas antes o pagamento para ver tu destino.
Noivo- Oxe! Tu pensa que nós tá nadando em dinheiro, é?
Cigana-(Vendo a sua tristeza) Hombre… Deixa entrar desta vez, no cuesta nada atender a voz do coracion.
Cigano-É mismo!
Cigana-Muestra tu mano tchica!
Noiva- irmã…? Não tenho, sou sou filha única.
Cigano- Tu mano (palmas) mulher!
Noiva- Aaaaa… Aqui está.


(A noiva ao estender a mão pisa na casa da moeda, simbolo do horóscopo cigano.)


Todos: Gritos!!!
Cigana-Nossa! Vejo fortuna em sua mano.
Noivo e Noiva-Como assim???
Cigana- Você pissou na casa da moeda do nosso Horóscopo cigano e, isto quer dizer...
Noivo e Noiva - Quer dizer...???
Cigana-Que a sorte de vocês nascerá da moeda…Mas para isto acontecer, terá que correr a cidade e ganhar 7 moedas.
Todos-7 moedas!!!
Noivo- Esse povo não conhece o pobre mesmo! Nós não tem 1ª vai ter 7!
Cigana – Posso continuar?
Noiva-(Tapando a boca do noivo) Pode sim! (teatro mudo para responde que sim).
Cigana- Em la noite de São João, na luz do luar… Plante as moedas que ganhar no terreno da igreja e, lá somente lá nascerá o seu destinoooooo…
Noiva- Vamos Zé, você vai por ali e eu por aqui...Ui!


(Os noivos saem correndo de casa em casa pedindo aos 7 personagens as 7 moedas que salvarão o sonho do casamento)


Cordelista: E a jornada vai começar

As 7 moedas à de encontrar?
O tempo começa a correr
E com o Prefeito a 1ª moeda aparecer
O padeiro será que vai ajudar?
A 2 moeda com Florzinha está
A 3ª moeda Zé está pedindo o Coronel,
Que agradece levantando a mão pro céu
No Capitão da Polícia, sentido! Florzinha se instalou
Estende a mão e a 4 Moeda a conquistou
Zé vai ao Cangaceiro e fala em miúdo a sua aflição
Ele puxa a espingarda, mas é a 5ª moeda joga em sua mão
A 6ª moeda com um jeito bem gostoso de ganhar
Pede ao sanfoneiro pro seu sonho realizar
O tempo correm sem parar
E a 7 moeda com quem está?
Será que na igreja vão achar?
O Padre pergunta-lhe pelo casório com aflição
Le dá a última moeda para abençoar esta união
É hora então de comemorar
Pois da terra a magia cigana vem brotar
Uma Árvore de dinheiro nascerá
Em fim, um casamento pra comemorar!



(Com o plantar das 7 moedas doadas pelos personagens mais endieirados de uma cidade do interior, o casal de apaixonados ao plantarem as moedas vêem nascer uma Árvore de Dinheiro que, do qual a quadrilha são as suas cédulas. Assim, conseguirão para o casório)




|INTERVALO|



II ATO – PERSONAGENS

Padre: Eduardo Manoel.
Noivo: Gildo Alencar.
Noiva: Carmem Costa.
Cédulas de dinheiro de R$ 1,00 (Sorte): A quadrilha.
Cédulas de dinheiro de R$ 2,00 (Volante Masculina): Luiz Gomes.
Cédulas de dinheiro de R$ 2,00 (Volante Feminina): Gilvânia Fagundes.
Cédulas de dinheiro de R$ 50,00 (cangaceiros): Joel Francisco, Bruno Pereira, Luciano Barros, Franciele Silva, Almir Estefânio, Elizabeth Oliveira.
Cédulas de dinheiro de R$ 100,00 (Lampião): Ricardo Souza.
Cédulas de dinheiro de R$ 100,00 (Maria Bonita): Fernanda Alves.


CENA:


Padre - Estamos aqui para celebrar a casamento de uma casal que, sabe lá como ficaram ricos da noite pro dia!
Noivo- Essa história se eu lhe contasse seu padre....
Noiva-Juro que o senhor não ia acreditar!
Padre- Mesmo sem saber, eu os declaro marida e mulher até que o dinheiro, quero dizer... Até que a morte o separe.


(Os noivos põem as alianças e o padre discretamente puxa o noivo pelo o braço e lhe cobra o dinheiro para pagar os gastos com o casório).


Padre - Zé, como vê a nossa humilde igreja fez um lindo casório... Mas, cadê o dinheiro para pagar todos os gastos!!!
Noivo - Seu padre, olhe em sua volta, veja quanto dinheiro tem (tempo musicado para organizar o dinheiro). Tem nota de R$1,00, R$2,00, R$ 5,00, R$ 10,00 até de R$ 100,00 meu casamento esta pago!
Padre- (Pegando a nota de R$ 2,00) Êpa! Este dinheiro aqui é falso!!!
Cédulas de dinheiro de R$ 2,00 (mulher) – (chorando) O que foi que o senhor disse seu padre?
Cédulas de dinheiro de R$ 2,00 (homem) - Olhe seu padre, minha mulher tem valor!
Padre – (Gargalhada!)
Padre – (Apontando para as notas de R$ 1,00 da sorte) Este dinheiro... É uma mixaria!!!
Cédulas de dinheiro de R$ 1,00 (Sorte): Caem cenicamente.
Padre – (Pegando a cédula de R$ 100,00) Vejam esta aqui... Como está sujo!
Cédulas de dinheiro de R$ 100,00 (Maria Bonita) – Olhe cabra! Eu sou uma mulher de valor!!!
Cédulas de dinheiro de R$ 100,00 (Lampião) - E eu compro uma briga por você Maria.
Maria Bonita- Então, pago pra ver! Cambada! Vamos se organizar!!!


(Maria bonita chama o cangaço juntamente com todo o “exército” de R$1,00 para confrontar o padre)


Padre- Já entendi vocês estão tentando me enrolar... Isso aqui não passa de uma formação de Quadrilha!!! Se não pagarem o divida... (abre a lista dos gastos com a cerimônia)
Todos: Hoooo!!!
Padre: Cancelo o casamento!!!
Cédulas de dinheiro de R$ 100,00 e R$50,00 (Lampião e cangaceiros) - O que disse? Aqui não tem ladrão visse!
Noivo- Parem com isso. Eu sou um homem de palavra seu padre! Hoje é meu dia de sorte! E prometo que no final da festança eu pago o casório.
Todos: Viva!!!

Cordelista - E a festança...
Vai começar!
Com dinheiro ou sem dinheiro...
Vem com a Tradição festejar!


|INTERVALO|


3º ATO – PERSONAGENS:

Padre: Eduardo Manoel.
Noivo: Gildo Alencar.
Noiva: Carmem Costa.


CENA:


Padre: Então minhas filhas, é chegada à hora! Vim buscar a dinheiro do casamento!
Noivo: Leve seu padre, leve todo o dinheiro. Meu casamento esta pago!!!
Noiva: A nossa maior riqueza é o nosso amor!
Noivo: Pois quando agente ama, não se pensa em dinheiro... Só se quer amar!!!




FIM





By Anderson Gomes
Correção Textual: Diogo Didier

Fundamentação teórica

A fundamentação teoria que vocês irão conferir a seguir, assume aqui, apenas um caráter funcional de localizar geograficamente, politicamente, historicamente e cientificamente vocês leitores neste universo de significados e símbolos que, antecedem os desejos humanos, do qual, serão levantados no recorte para o tema mais à frente. A fundamentação não é o tema em si, mas a memória cognitiva que guia e dá razão para os desejos e ações que vocês irão conferir logo mais no recorte temático.
Boa leitura!

QUADRILHA JUNINA

Manifestação aristocrata originária das antigas danças populares das áreas rurais da Normandia e da Inglaterra. No Brasil a quadrilha chega com a corte Portuguesa e Francesa no período da colonização, vinda com os mestres franceses Milliet e Cavalier, traduz uma dança de salão da nobreza do século XVIII e XIX. Vestida de luxo e riqueza, essa mesma quadrilha se modernizou, agregando novos símbolos e conceitos para agora festeja São João Batista nos países católicos.

A data desta manifestação no Brasil possivelmente ocorreu em 1820, quando sua presença era notada em festas palacianas em várias comemorações. Os grupos da elite imperial procuravam acompanhar o gosto europeu em termos de moda, leitura, danças, e até comida, trouxeram também este costume para o continente que, se popularizou de tal forma até abandonar a pose burguesa sendo absorvida pelos clubes e salões populares. Na atualidade, esta séria brincadeira é compartilhada por jovens de todos os sexos e idades que, encontram na quadrilha um espaço de expressão por onde eles podem falar a sociedade àquilo que pensam do mundo e de si mesmos.
Conforme explica Roberto Benjamin,

a quadrilha, hoje associada ao casamento nem tão matuto assim vai se transformando em um folguedo de natureza complexa. O casamento é a representação onde os jovens debocham com muita liberdade e malícia da instituição do casamento, de problemas políticos, de ordem religiosa, do machismo, etc. Tal representação crítica acaba por reforçar os papéis sociais deste brinquedo e os valores da moral tradicional. (Benjamin.1995)

A quadrilha assume um papel inteiramente político nos anos 2000, pois hoje ela aborda temáticas que discutem a fome, o meio ambiente, a relação entre homem e sua religião, a orientação sexual, o mundo das drogas entre outros. Isso porque esses temas dialogam com a dança e com a festa do casamento derivada de uma cerimônia religiosa. A sociedade assume esse novo modelo de celebração quando, lotam os arraiais e as arquibancadas de clubes e ginásios á procura de assistir verdadeiros espetáculos juninos. Até neste ponto a quadrilha procurou se atualizar para não cair no senso comum da população.

O Antropologo e pesquisador Hugo Menezes diz que “O que chamamos de quadrilha tradicional é uma caricatura do homem rural e da vida no campo (...) em contraste com a vida da cidade.” A quadrilha matuta nunca existiu na realidade, ela é um produto da mídia para as massas, um modo de exibir o pobre para rir dele e reforçar o nosso sentimento de culpa. Em contra ponto, o homem do campo no período da colheita do milho vive um período de fartura, de muito dinheiro no bolso e, para comemorar essa “boa fase” veste a sua melhor roupa para cair na festança. O mesmo ocorre com as quadrilhas da atualidade, que sempre buscam elaborar a melhor roupa para se sentirem reis e rainhas da festa. Esses figurinos ainda remetem aos trajes da quadrilha na época da corte, agora transformados para a realidade econômica e/ou temática.

Na história das quadrilhas no Brasil, percebemos que foram inseridos no contexto sociocultural alguns personagens a essa festa. Figuras dramáticas que tem íntima relação com a região na qual está a quadrilha. No nordeste, a única presença obrigatória na atualidade é o casal de noivos e a figura religiosa para celebrar a cerimônia, a partir deles, desenvolve-se toda a festa do casamento. Os demais variam de quadrilha para quadrilha ou de tema para tema, como: Rei e Rainha do milho; Príncipe e Princesa do Milho; Sinhô e Sinha; Casal de Cangaceiros; Lampião e Maria Bonita; Bacamarteiros; Casal de Ciganos entre outros.






VIDA CIGANA

No caminho da vida cigana, vive um mundo de segredos e perseguições.
Os ciganos são povos nômades originários do norte da Índia e que hoje estão espalhados pelo mundo inteiro. As razões que os fizeram migrar do seu país de origem ainda é um mistério. Desembarcaram no Brasil a partir do século XVI e estão presentes em todo o território nacional, inclusive nos estados nordestinos. Pelo mundo carregam seus sonhos, seu modo de vida e sua cultura pouco compreendida. Mas como vivem o que fazem a língua que falam e quem são os ciganos?

O termo “cigano” é utilizado para segmentar o povo que se define como rom, sinti e calon que são castas que classificam o poder econômico (classe social) na Índia. O nomadismo, as roupas coloridas e bem acabadas além do costume de prever o destino deram destaque a este povo diante do restante da população. Eles têm língua própria apesar de se adaptarem a língua da região onde se situam, seguem leis específicas do grupo e não brigam por terra alguma, vivendo nas trilhas da própria liberdade. Porém existem muitas famílias ciganas que ocupam casas sem abandonarem suas tradições seculares. “cigano não gosta de muitos móveis e não me acostumo dentro de casa, durmo do lado de fora. Na rua me sinto mais segura”. Garante Quitéria Alves, 48 anos moradora de Juazeiro da Bahia.

A língua cigana (o romani) é uma língua da família indo – européia fazendo parte do grupo lingüístico neo-indiano. No entanto, eles assimilaram outros vocabulários pelos países por onde passaram.

Glossário cigano:


Calom – Cigano.
Calim – Cigana.
Prá – Irmão ou Irmã.
Runim – Mulher, Esposa.
Rom – Marido, Homem.
Paim – Água.
Chimbira – Cachaça.
Jurom – Brasileiro.
Jurim – Brasileira.
Jugulim – Feia.
Gulom – Açucar.
Bato – Pai.
Daí – Mãe.
Naca – Não.
Ua – Sim.
Quê – Casa.
Chucá – Bonito.
Baridei – Rico.

O medo, o preconceito, o mistério e a sedução sempre rondaram a trajetória dos ciganos. Esses estigmas passaram das ruas para a literatura de cronistas, viajantes e escritores que, em suas obras apresentam os ciganos como um povo ladrão, trapaceiro, sujo – não faltam atributos negativos.

O escritor Machado de Assis, no clássico Dom Casmurro, publicado em 1899 usa a expressão “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” para um personagem masculino definir os olhos da jovem Capitu. Já no livro Grande sertão: veredas, escrito por Guimarães Rosa em 1956 o jagunço Diadorim chama de “bruxa feiticeira” a personagem Ana Duzuza, “falada de ser filha de ciganos, e dona adivinhadora da boa ou má sorte da gente”. A mulher tinha revelado ao jagunço Riobaldo, sem autorização, os planos de Medeiros.

No entanto, nas artes plásticas, bem como na música, pincelaram os ciganos numa idéia romântica, de um povo livre, colorido dançado em volta de uma fogueira. Debret (1768-1848) autor de Viagem pitoresca e histórica ao Brasil, registrou mulheres ciganas ricas e sensuais, coloridas com joias emoldurando uma cena de comércio de escravos. Mais realista, o paulista Cândido Portinari (1903-1962) revela ciganos de traços marcantes em obras como o desenho cabeça de ciganos.

Comparados com os índios e com os negros, a minoria cigana foi pouco estudada, pois sempre houve uma espécie de invisibilidade em torno dos ciganos, como se estivessem fora da história, situados num tempo mítico, das carroças. Eles não foram por muito tempo vistos como estrangeiros ou portadores de identidade cultural diferenciada, sendo sempre marcados, sobre tudo, pela ausência de uma pátria, lei ou religião. Mas qual a razão para este grupo levar uma vida nômade? Segundo o antropólogo Frans Moonen,

a motivação econômica. No passado eles trabalhavam na colheita de batata, beterraba, cereja ou maçã, na Europa. Mudavam-se de um lugar para o outro em função disso. Ninguém fica o ano inteiro lendo mão numa cidade pequena. Nem vai vender cestos e colheres de pau por muito tempo no mesmo lugar. A atividade econômica deles é rotativa, exige mudanças constantes. Sem contar com a perseguição e expulsões promovidas pela cidade do qual residiam. (MOONEN.maio/2010)

Na Europa esta etnia foi também vitima do massacre do Holocausto para eliminar toda cultura diferente daquele continente. Onde, de acordo com a Fundação Anne Frank, da Alemanha, entre 200 mil a 500 mil ciganos de todas as partes da Europa foram levados para campos de concentração e assassinados por nazistas na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Um ato legal para a época, um crime incontestável para o mundo de hoje.

Quando avaliamos a cultura do diferente, somos reféns de nossa própria memória cultural, pois esta prática natural de avaliar o outro mediante padrões de certo e errado acarreta no estranhamento. O do outro tem o direito de ser diferente de nós e, é bom que seja para favorecer a troca, a evolução da espécie. Porém, ao analisarmos o outro esquecemos que nós também somos o outro da vida de alguém, e que, também somos vitimas desta avaliação. É intrínseco ao olhar do homem analisar o comportamento do outro com base em sua vida particular, no entanto, esta conduta etnocêntrica separa os povos ao invés de unir nações. Além disso, toda relação cultural não pode ser comparada umas com as outras, mas compreendida, pois não existe uma cultura superior ou inferior, todas têm uma razão intima para existir, não devendo ser controlada ou congelada por padrões social estabelecidos. O homem é um ser livre e sua cultura é a resposta que garante esta liberdade.

Em todos os povos, o comportamento cultural presente no mundo, ao entrar em contato com outra cultura, cria estratégias de resistências para preservar sua intima cultura, sua religião, seu modo de vida, seus direitos e sua essência biológica de existir. Na história viva, a vida cigana, bem como, outras culturas sofre diretamente influências para se adequarem a parâmetros comportamentais, principalmente modelos religiosos. O povo cigano foi e ainda é acusado de ser um povo feiticeiro, detentor de poderes sobrenaturais, de ladrões do destino, sendo sempre deixada a margem da sociedade para cair no esquecimento. E é a partir dessa comparação religiosa que nasce a visão preconceituosa e distorcida contra esse povo, formando uma opinião irresponsável para sociedade, do qual, muitos desses ideais foram e são guiados por leis católicas que condenam práticas ligadas ao sobrenatural, como a cartomancia e a leitura das mãos exercidas por eles. Registro de da memória cultural presente na formação cultural do povo brasileiro desde o período colonial.

Entretanto, no nordeste do brasileiro (não mais nômades) mora uma ampla população de calons ciganos, do qual, encontram-se na maioria de suas residências as paredes repletas de imagens de santos católicas organizados entre as fotos de família. Os santos mais comuns entre eles são Padre Cícero, Frei Damião, a virgem Maria e Jesus Cristo – sim, as maiorias dos ciganos no nordeste se consideram católicos, apesar de não freqüentarem igrejas. A explicação segundo Flávio Oliveira, Mestrando em Educação a UFRN, é que “os ciganos no mundo tendem a aceitar a religião dos países em que vivem durante muito tempo”. O IBGE demonstra que atualmente 85% dos brasileiros se declaram católicos no país. Esse número ainda é maior no nordeste.
A cultura cigana vem, de fato, perdendo espaço para as novas gerações, para a mídia e para as oportunidades tecnológicas a exemplo da internet. Hoje você pode consultar seu mapa astral, seu signo... Sua sorte diariamente de modo on-line em casa pela rede mundial de computadores.
Essa é uma cultura que a cada dia está sucumbindo às práticas do diferente, deixando-se ser absorvida para o esquecimento das suas tradições. Uma sorte que o destino lhes revela a cada dia. Os ciganos pertencem ao mundo, como eles mesmos dizem: “minha terra é o planeta, meu teto é o universo, minha religião é a liberdade”.





SORTE E DESTINO

O conceito em torno da sorte é um quase-sinônimo de destino, exibindo como principal diferença a divisão entre "boa sorte" e "má sorte". Quando se fala em destino, essa divisão inesiste, na qual aceita-se que a sorte pode ser controlada por forças sobrenaturais e divinas. No entanto, imaginar que existe sorte é supor que existe a possibilidade de alteração do destino. As forças que dão origem às várias situações em torno da sorte derivam de realidades ou imaginários.
A concepção de sorte é profundamente enraizada no imaginário popular, interferindo na conduta dos que nela acreditam, conforme a forma em questão. Em muitas culturas, imagina-se que a sorte possa ser obtida através de artifícios mágicos, como ferraduras de cavalo, trevos de quatro folhas, amuletos ou forças do além-vida. Culturas nômades como os ciganos utilizam-se de diversos métodos de leitura do futuro ou da sorte em troca de algum valor em dinheiro.

Para a ciência, não há meios de se provar que a sorte existe realmente, mas também ela não pode negar sua possibilidade. Uma pequena brecha entre a ciência e o imaginário surgiu novamente quando da descoberta de que a presença do observador interfere na energia quantica dos experimentos cientificos antes “controlados". Porém, apesar da possível contiguidade entre a sorte e a realidade subatômica, a ciência não teve a sorte de chegar ainda a nenhuma nova conclusão.

Tirar a sorte grande é conquistar aquilo que muito se sonha, sejá no amor, na vida profissional, na vida familiar, a casa própria, o emprego que você merece, em fim. A sorte sempre esta aliada a situações positivas da vida, o próprio ato de desejar “boa sorte” a um filho, um parente, um amigo na hora de fazer um vestibular ou participar de uma competição... Todos nós reforçamos seu sentido. As pessoas creem em um destino flutuante que pode ser alterado a qualquer momento.

Ganhar na loteria e mudar de vida para melhor, quem tal? Talvez sua projeção de sorte sejá outra e por que não? Se a sorte bater a sua porta estejá lá pronto para abrí-la imeditamente, toda via, a sorte não é puramente um produto do acaso ou do destino sem uma ação coordenada sua, é preciso ter iniciativa para materializar a “sorte” dos seus sonhos.

MAS... DINHEIRO É FELICIDADE?

O homem dorme e acorda todos os dias na eterna busca pela felicidade!
Falando assim, até parece que a felicidade se esconde de nós. Dá para entender que ela nunca quer chegar ou que vive fugindo do nosso caminho... Mas isso não é bem verdade. A felicidade esta em todas as coisas que sonhamos. Está aqui nos meus pensamentos e dedos quando escrevo e digito este texto para vocês, pois neste momento me sinto muito feliz em fazê-lo.

Nessa perspectiva a humanidade, historicamente em todas as civilizações, sempre depositou muito valor ao dinheiro, fez-se refém dos seus próprios sonhos e desejos, criando para si medos, tornando-se refém da vontade e da alegria de ter uma vida feliz apenas se o dinheiro estiver presente. No final das contas, o homem ainda se sente a grande vitima do brinquedinho que criou. Esta fatalidade ainda é mais agravante, quando variamos de cultura para cultura ou da oportunidade no campo da educação. Quanto à classificação social então... Quanta ironia! Qual o sentido do dinheiro mesmo? Já até esqueci.
O Brasil colônia é resultado desta grande exploração por riquezas, passado que afeta o presente e dificilmente se diluirá tão facilmente para as gerações futuras. O sonho de encontrar o Eldourado, a febre do ouro, diamantes, tesouros pedidos, pedras preciosas. A história da moeda brasileira não é dourada – tem a cor verde, amarela e vermelha do Pau Brasil, folha, flores e madeira carmim. Essa foi à primeira riqueza avistada no grito “terra a vista”. A coroa portuguesa logo tratou de monopolizar este bem natural transformando-o em comércio para lhes render muito dinheiro.

No caminho por desvendar outras especiarias da nova terra de Santa Cruz, a agricultura viu brotar a Cana de Açúcar, fato que, lhe rendeu grande lucro por um determinado período, no entanto, à volta a caça ao tesouro recomeça com sucesso. Moedas de Ouro, Prata e Bronze foram cunhadas no país, dividindo o cenário nacional com o papel moeda (cédulas) até os dias atuais.
Esta nação foi explorada de todas as maneiras possíveis, tanto nas riquezas naturais, mas principalmente refém de si mesma, refém do sonho, da cobiça herdada dos portugueses em não saber o que o amanhã lhe reserva, deixando que a sorte tome conta do futuro.





Djavan - OCEANO


Assim
Que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão
Dava pra ver o tempo ruir
Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim

Enfim
De tudo que há na terra
Não há nada em lugar nenhum
Que vá crescer sem voce chegar
Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri

Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor

Vem me fazer feliz
Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano
Esqueço que amar
É quase uma dor
Só sei
Viver
Se for
Por você




CAZUZA & BEBEL: EU PRECISO DIZER QUE TE AMO



IVETE & MARCELO CAMELO: TEUS OLHOS



FERNANDA TAKAI &RODRIGO AMARANTE: O RITMO DA CHUVA



ZIZI & LUIZA POSSI: HAJA O QUE HOUVER



MARIA BETHÂNIA E NANA CAYMMI: SUSSUARANA



CAETANO & ROBERTO CARLOS: CHEGA DE SAUDADE



ANA CAROLINA & SEU JORGE: ISSO AÍ



GAL COSTA & HEBERT VIANA: LANTERNA DOS AFOGADOS



PARALAMAS DO SUCESSO & ZIZI POSSI: MEU ERRO



ANA CAROLINA & JORGE VERCILO: ABISMO



ANA CAROLINA & MARIA BETHÂNIA: EU QUE NÃO SEI QUASE NADA DO MAR



IVETE & MARIA BETHÂNIA: MUITO OBRIGADO AXÉ



MARISA MONTE & ROBERTO CARLOS

21 junho 2010



CUIDAR DO BRASIL

Cristovam Buarque

Os governantes jamais usam o verbo cuidar (do país, do estado ou do município), sempre dizem administrar. Essa divergência na linguagem faz a diferença na maneira como a coisa pública é tratada. Ninguém diz administrar a família. Pode-se até administrar a casa, mas da família, cuida-se.

Um presidente precisa cuidar de seu país, não apenas administrá-lo. Uma nação, como uma cidade, é um ente frágil; um descuido durante um governo, e dezenas de anos serão necessários para consertar. Como uma criança que, não recebendo cuidados no momento certo, perde a vida ou perde-se na vida.

Administrar é enfrentar problemas fria e tecnicamente; cuidar é atender o próprio povo com respeito, ética e carinho, se possível antes de o problema acontecer.

Administrar a moeda é conseguir a estabilidade monetária; cuidar da moeda é manter o poder aquisitivo de todos os trabalhadores. O Plano Real conseguiu controlar a inflação, mas ao custo de desemprego e de redução nos salários. Administrou, mas não cuidou.

Administrar meninos de rua pode ser prendê-los nas Febens depois que eles cometem crimes; cuidar deles é garantir escola, saúde e apoio para que não sejam meninos de rua.

Administrar é enfrentar o problema; cuidar é não deixar que ele ocorra.

Administrar a agricultura é aumentar a produção; cuidar é acabar com a fome. O atual governo está enfrentando, tentando administrar - e mal - os sem-terra; cuidar deles seria resolver o problema da concentração na propriedade da terra, superar a injustiça de cinco séculos.

Administrar a economia é retomar o crescimento; cuidar dela é fazer com que produza para erradicar a pobreza, para aumentar a qualidade de vida e para ser ecologicamente sustentável.

Administrar a ecologia é cercar florestas e apagar os incêndios; cuidar é mudar o modelo econômico para incorporar a natureza como parte da riqueza da civilização.

Administrar a dívida pública é conseguir um saldo orçamentário para poder pagar aos bancos; cuidar dela é não esquecer as outras dívidas, com os sem-emprego, sem-teto e sem-terra. E cuidar para que o pagamento aos bancos não seja feito ao custo da educação, da saúde, do futuro.

Administrar é ter uma lei de responsabilidade fiscal; cuidar é acrescentar uma lei de responsabilidade social.

Os governos, de formas diferentes, procuram administrar o país, mas não levam em conta que, por trás do conceito de país, há um mundo de gente, com nome, carteira profissional e de identidade, com um presente e um futuro.

No próximo mês, 5,6 mil novos prefeitos assumirão a administração de nossas cidades. Poucos estão pensando em assumir a responsabilidade de cuidar delas, com o carinho que seus habitantes precisam. Administrar bem a cidade é conseguir que as escolas abram nos dias e horas certas; cuidar das crianças é ter o nome de cada uma delas no gabinete do prefeito, tomar as medidas para que as escolas não apenas estejam abertas, mas as crianças contentes e aprendendo.

Quando lê no jornal que um menino foi atropelado no centro da cidade, ou morto em uma rua, o prefeito toma conhecimento de uma estatística. Quando chega em seu gabinete, encontra o nome dela e tem que "deletar" por causa da morte, sente a proximidade e a responsabilidade de um parente próximo. Ele muda da informação para o luto, da administração para o cuidado.

Um país pode mudar nas mãos de um presidente ou de 5,6 mil prefeitos. Ainda faltam dois anos para termos um novo governo nacional. Até lá, os novos prefeitos podem iniciar a grande mudança que o país precisa. Não importa o partido ou a ideologia, importam a emoção e a ética na relação com o povo. Importa a linguagem com a qual se relacionarão com seus povos: se vão apenas administrar a cidade - friamente - ou se, além, vão cuidar da grande família que os elegeu. Começando pelas crianças. No lugar de tê-las como simples números distantes que incomodam e exigem, importa tratá-las como próximas a serem cuidadas.

17 junho 2010



Os que não comem e os que não dormem

Cristovam Buarque
O Globo 12/02/2001

"Em nenhum outro país os ricos demonstraram mais ostentação que no Brasil. Apesar disso, os brasileiros ricos são pobres. São pobres porque compram sofisticados automóveis importados, com todos os exagerados equipamentos da modernidade, mas ficam horas engarrafados ao lado dos ônibus de subúrbio. E, às vezes, são assaltados, seqüestrados ou mortos nos sinais de trânsito. Presenteiam belos carros a seus filhos e não voltam a dormir tranqüilos enquanto eles não chegam em casa. Pagam fortunas para construir modernas mansões, desenhadas por arquitetos de renome, e são obrigados a escondê-las atrás de muralhas, como se vivessem nos tempos dos castelos medievais, dependendo de guardas que se revezam em turnos.

Os ricos brasileiros usufruem privadamente tudo o que a riqueza lhes oferece, mas vivem encalacrados na pobreza social. Na sexta-feira, saem de noite para jantar em restaurantes tão caros que os ricos da Europa não conseguiriam freqüentar, mas perdem o apetite diante da pobreza que ali por perto arregala os olhos pedindo um pouco de pão; ou são obrigados a restaurantes fechados, cercados e protegidos por policiais privados. Quando terminam de comer escondidos, são obrigados a tomar o carro à porta, trazido por um manobrista, sem o prazer de caminhar pela rua, ir a um cinema ou teatro, depois continuar até um bar para conversar sobre o que viram.

Mesmo assim, não é raro que o pobre rico seja assaltado antes de terminar o jantar, ou depois, na estrada a caminho de casa. Felizmente isso nem sempre acontece, mas certamente, a viagem é um susto durante todo o caminho. E, às vezes, o sobressalto continua, mesmo dentro de casa. Os ricos brasileiros são pobres de tanto medo. Por mais riquezas que acumulem no presente, são pobres na falta de segurança para usufruir o patrimônio no futuro. E vivem no susto permanente diante das incertezas em que os filhos crescerão. Os ricos brasileiros continuam pobres de tanto gastar dinheiro apenas para corrigir os desacertos criados pela desigualdade que suas riquezas provocam: em insegurança e ineficiência.

No lugar de usufruir tudo aquilo com que gastam, uma parte considerável do dinheiro nada adquire, serve apenas para evitar perdas. Por causa da pobreza ao redor, os brasileiros ricos vivem um paradoxo: para ficarem mais ricos têm de perder dinheiro, gastando cada vez mais apenas para se proteger da realidade hostil e ineficiente.

Quando viajam ao exterior, os ricos sabem que no hotel onde se hospedarão serão vistos como assassinos de crianças na Candelária, destruidores da Floresta Amazônica, usurpadores da maior concentração de renda do planeta, portadores de malária, de dengue e de verminoses. São ricos empobrecidos pela vergonha que sentem ao serem vistos pelos olhos estrangeiros.

Na verdade, a maior pobreza dos ricos brasileiros está na incapacidade de verem a riqueza que há nos pobres. Foi esta pobreza de visão que impediu os ricos brasileiros de perceberem, cem anos atrás, a riqueza que havia nos braços dos escravos libertos se lhes fosse dado direito de trabalhar a imensa quantidade de terra ociosa de que o país dispunha. Se tivesse percebido essa riqueza e libertado a terra junto com os escravos, os ricos brasileiros teriam abolido a pobreza que os acompanha ao longo de mais de um século. Se os latifúndios tivessem sido colocados à disposição dos braços dos ex-escravos, a riqueza criada teria chegado aos ricos de hoje, que viveriam em cidades sem o peso da imigração descontrolada e com uma população sem miséria. A pobreza de visão dos ricos impediu também de verem a riqueza que há na cabeça de um povo educado. Ao longo de toda a nossa história, os nossos ricos abandonaram a educação do povo, desviaram os recursos para criar a riqueza que seria só deles, e ficaram pobres: contratam trabalhadores com baixa produtividade, investem em modernos equipamentos e não encontram quem os saiba manejar, vivem rodeados de compatriotas que não sabem ler o mundo ao redor, não sabem mudar o mundo, não sabem construir um novo país que beneficie a todos. Muito mais ricos seriam os ricos se vivessem em uma sociedade onde todos fossem educados.

Para poderem usar os seus caros automóveis, os ricos construíram viadutos com dinheiro de colocar água e esgoto nas cidades, achando que, ao comprar água mineral, se protegiam das doenças dos pobres. Esqueceram-se de que precisam desses pobres e não podem contar com eles todos os dias e com toda saúde, porque eles (os pobres) vivem sem água e sem esgoto. Montam modernos hospitais, mas tem dificuldades em evitar infecções porque os pobres trazem de casa os germes que os contaminam. Com a pobreza de achar que poderiam ficar ricos sozinhos, construíram um país doente e vivem no meio da doença.

Há um grave quadro de pobreza entre os ricos brasileiros. E esta pobreza é tão grave que a maior parte deles não percebe. Por isso a pobreza de espírito tem sido o maior inspirador das decisões governamentais das pobres ricas elites brasileiras. Se percebessem a riqueza potencial que há nos braços e nos cérebros dos pobres, os ricos brasileiros poderiam reorientar o modelo de desenvolvimento em direção aos interesses de nossas massas populares. Liberariam a terra para os trabalhadores rurais, realizariam um programa de construção de casas e implantação de redes de água e esgoto, contratariam centenas de milhares de professores e colocariam o povo para produzir para o próprio povo.

Esta seria uma decisão que enriqueceria o Brasil inteiro - os pobres que sairiam da pobreza e os ricos que sairiam da vergonha, da insegurança e da insensatez. Mas isso é esperar demais. Os ricos são tão pobres que não percebem a triste pobreza em que usufruem suas malditas riquezas".


ORGULHO DA VERGONHA

Cristovam Buarque
Correio Braziliense, Opinião, de 07/02/2001

A Organização Internacional do Trabalho divulgou na semana passada um relatório onde mostra que, em pleno século XXI, o Brasil ainda apresenta um quadro vergonhoso de trabalho infantil. Mas a ênfase dada por muitos analistas é de que esse número (7,7 milhões, em 1998) representa uma redução de 20% no número de crianças trabalhando em relação a 1992. Nesse ritmo, levaríamos trinta anos para erradicar o trabalho infantil. Mais tempo do que se passou entre os decretos da Lei do Ventre Livre e da Lei Áurea. E há quem comemore o avanço.

O que esse comportamento mostra é um desvio moral da elite brasileira: considerar estar cumprindo seu papel com as massas pobres do país, sempre que um passo qualquer é dado a favor dos mais pobres. Foi assim durante a escravidão.

Em 1871, quando o Brasil era um dos únicos países a tolerar, usar e explorar a escravidão, a aristocracia brasileira passou a se orgulhar diante do mundo pelo fato de ter uma lei que declarava livre o filho de um escravo. Sem fazer alarde de que a liberdade só viria depois que ele fizesse 21 anos, sob a condição de que trabalhasse como escravo até então e desde que nenhum de seus familiares tentasse fugir durante todo aquele longo período. Esse é o humanismo da elite brasileira * como passou a ser conhecido : *só para inglês ver*.

Em 1885, mais uma lei humanista declarou livres os escravos que tivessem mais de 60 anos. Quando já não tinham mais força para trabalhar, depois de décadas submetidos à exploração de quando não tinham como se manter, os donos dos escravos, humanitariamente, mandavam-nos para longe, tiravam-nos da lista dos que comiam as sobras da produção das fazendas.

É surpreendente que a Lei dos Sexagenários tenha vindo quando a própria escravidão já tinha sido abolida, em caráter unilateral, no Ceará. O mesmo Ceará onde hoje existe uma placa, na frente do aeroporto, dizendo que se orgulha de ter 93% de suas crianças matriculadas em escolas, no lugar de dizer que sente vergonha por ter 7% fora da escola.

Essa é a história moral da elite brasileira, que agora se repete no caso do trabalho infantil. Negar que algo está melhorando é pouco inteligente, mas vangloriar-se diante do que falta fazer é muito indecente. Todo governo tem direito de dizer o que fez, mas tem a obrigação de pedir desculpas pelo que ainda falta fazer, mesmo que tenha feito muito e a falta não seja sua culpa.

O problema do trabalho infantil no século XXI, como o da escravidão no século XIX, não pode ser tratado como assunto de estatísticas, de avanços paulatinos. Tem que ser tratado como assunto da ética, com a necessidade de gestos radicais e imediatos. E eles são possíveis do ponto de vista técnico. Difíceis do ponto de vista moral e mesmo emocional, porque a elite brasileira não sofre com a situação daquelas crianças * no máximo se preocupa com a imagem que passa para o resto do mundo. E age sempre de maneira incompleta, apenas para *enganar os ingleses*.

A escravidão só foi abolida 44 anos depois de os ingleses, também por interesses econômicos, tomarem medidas para dificultar o tráfico internacional de escravos. Cada gesto era tímido e visava *enganar os ingleses*. Mesmo o radical gesto da princesa Isabel carregou a hipocrisia e a timidez de libertar os escravos do trabalho sem lhes dar terras para trabalhar.

Agora, o Brasil desperta para o trabalho infantil depois de tantas denúncias e críticas internacionais contra a forma como nosso país trata nossas crianças. É mais um gesto de defesa de imagem do que de construção da alma do Brasil. É como se o errado não fosse ter crianças trabalhando, mas parecer para o mundo que o trabalho infantil existe. E, como há mais de cem anos, nos defendemos outra vez dizendo que as coisas estão melhorando.

A seguir o ritmo da redução entre 1992 e 1998, teremos acabado o trabalho infantil daqui a trinta anos, em 2031. Quase duas vezes mais tempo do que o decorrido entre a lei do Ventre Livre e a da Abolição. Ou seja, o Brasil piorou a marca da velocidade ao tentar *enganar os ingleses*, ficou mais insensível e mais cínico. Antes eliminava lentamente a escravidão, para no final libertar os escravos sem dar-lhes a terra que precisavam para sobreviver, agora eliminam calmamente o trabalho infantil sem garantir a escola de qualidade que as crianças precisarão para sobreviver no mundo moderno. Eliminar o trabalho infantil sem dar escola às crianças é o mesmo que abolir a escravidão sem dar terra aos escravos. Não basta.

O Brasil precisa ser radical nos assuntos de ética. Não basta colocar juiz na cadeia e cassar senador, para ser ético o Brasil precisa também colocar as crianças na escola e cassar a má qualidade da educação. Isso é possível, mas primeiro exige o sentimento da necessidade, o horror diante do atraso que demonstramos por conviver com essa forma contemporânea de escravid ão, a vontade de usar os recursos dos quais já dispomos para atingir estes objetivos e a competência para saber fazê-lo.

Tudo isso pode nos chegar, mas o primeiro passo é deixar de se vangloriar com o pouco feito e olhar o muito por fazer. Felizmente a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, no lugar de chamar a imprensa para dizer que o Império já tinha avançado muito ao libertar os escravos que ainda não tinham nascido e aqueles que já estavam perto da morte.

Parece que, na ética e no cinismo, a elite brasileira regrediu tanto quanto cresceu economicamente. E, por isso, ainda se desculpa do horror social, dizendo que o Brasil não cresceu suficientemente na economia. Aliás, a mesma desculpa dos escravistas para justificar o adiamento no fim da escravidão.





O MUNDO PARA TODOS

Cristovam Buarque
O Globo, Opinião, 23/10/2000

Durante debate recente, nos Estados Unidos, fui questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha.

De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da Humanidade.

Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.

Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um pais. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.

Durante o encontro em que recebi a pergunta, as Nações Unidas reuniam o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu disse que Nova York, como sede das Nações Unidas, deveria ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza especifica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o pais onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia.

Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.





Português falado no Brasil é talvez o mais rico e o mais imoral dos idiomas no que se refere à definição de infância


Os esquimós têm diversos nomes para indicar a neve. Para eles, cada tipo de neve é uma coisa diferente de outro tipo. Para os povos da floresta, cada mato tem um nome específico. Os habitantes dos desertos têm nomes diferentes para dizer “areia”, conforme as características específicas que ela apresenta. Para conviver com seu meio ambiente, cada povo desenvolve sua cultura com palavras distintas para diferenciar as sutilezas do seu mundo. Quanto mais palavras distinguindo as coisas que as rodeiam, mais rica é a cultura de uma população.

Os brasileiros urbanos desenvolveram sua cultura criando nomes especiais para diferenciar o que, para outros povos, seria apenas uma criança.

Para poder circular com segurança nas ruas de suas cidades, os brasileiros do começo de século 21 têm maneiras diferentes para dizer “criança”. Não se trata dos sinônimos de antigamente para indicar a mesma coisa, como “menino”, “guri”, “pirralho”. Agora, cada nome indica uma sutil diferença no tipo de criança. O português falado no Brasil é certamente o mais rico e o mais imoral dos idiomas do mundo atual no que se refere à definição de criança. É um rico vocabulário que mostra a degradação moral de uma sociedade que trata suas crianças como se não fossem apenas crianças.

Menino-de-rua significa aquele que fica na rua em lugar de estar na escola, em casa, brincando ou estudando, mas tem uma casa para onde ir - diferenciado sutilmente dos meninos-de-rua, aqueles que não apenas estão na rua, mas moram nela, sem uma casa para onde voltar. Ao vê-los, um habitante das nossas cidades os distingue das demais crianças que ali estão apenas passeando.

Flanelinha é aquele que, nos estacionamentos ou nas esquinas, dribla os carros dos ricos com um frasco de água em uma mão e um pedaço de pano na outra, na tarefa de convencer o motorista a dar-lhe uma esmola em troca da rápida limpeza no vidro do veículo. São diferentes dos esquineiros, que tentam vender algum produto ou apenas pedem esmolas aos passageiros dos carros parados nos engarrafamentos. Ou dos meninos-de-água-na-boca, milhares de pobres crianças que carregam uma pequena caixa com chocolates, tentando vendê-los mas sem o direito de sentir o gosto do que carregam para outros.

Sutis diferenças

Prostituta-infantil já seria um genérico maldito para uma cultura que sentisse vergonha da realidade que retrata. Como se não bastasse, ainda tem suas sutis diferenças. Pode ser bezerrinha, ninfeta-de-praia, nina-da-noite, menino ou menina-de-programa ou michê, conforme o local onde faz ponto ou gosto sexual do freguês que atende. E tem a palavra menina-paraguai, para indicar crianças que se prostituem por apenas um real e noventa e nove centavos, o mesmo preço das bugigangas que a globalização trouxe de contrabando, quase sempre daquele país. Ou menina-boneca, de tão jovem que é quando começa a se prostituir, ou porque seu primeiro pagamento é para comprar a primeira boneca que nunca ganhou de presente.

Delinqüente, infrator, avião, pivete, trombadinha, menor, pixote: sete palavras para o conjunto da relação de nossas crianças com o crime. Cada qual com sua maldita sutileza, conforme o artigo do código penal que cabe, a maneira como aborda suas vítimas, o crime ao qual se dedica…

Podem também, no lugar de crianças, serem boys, engraxates, meninos-do-lixo, recicladores-infantis, de acordo com o trabalho que cada uma delas faz.

Ainda tem filhos-da-safra, para indicar crianças deixadas para trás por pais que emigram todos os anos em busca de trabalho nos lugares onde há empregos por bóias-fria, nome que indica também a riqueza cultural do sutil vocabulário da realidade social brasileira. Ou os pagãos-civis, vivendo sem registro que lhes indique a cidadania de suas curtas passagens pelo mundo, em um país que lhes nega não apenas o nome de criança, mas também a existência legal.

Criança-triste

Como resumo de todos estes tristes verbetes, há também criança-triste: não se refere à tristeza que nasce de um brinquedo quebrado, de uma palmada ou reprimenda recebida, ou mesmo da perda de um ente querido. No Brasil há um tipo de criança que não apenas fica ou está triste, mas nasce e vive triste - seu primeiro choro mais parece um lamento pelo futuro que ainda não prevê do que um respiro no novo ar em que vai viver, quando pela primeira vez o recebe em seus diminutos pulmões.

Criança-triste, substantivo e não adjetivo, como um estado permanente de vida: esta talvez seja a maior das vergonhas do vocabulário da realidade social brasileira. Assim como a maior vergonha da realidade política é a falta de tristeza no coração de nossas autoridades diante da tristeza das crianças brasileiras, com as sutis diversidades refletidas no vocabulário que indica os nomes da criança.

A sociedade brasileira, em sua maldita apartação, foi obrigada a criar palavras que distinguem cada criança conforme sua classe, sua função, sua casta, seu crime. A cultura brasileira, medida pela riqueza de seu vocabulário, enriqueceu perversamente ao aumentar as palavras que indicam criança. Um dia, esta cultura vai se enriquecer criando nomes para os presidentes, governadores, prefeitos, políticos em geral que não sofrem, não ficam tristes, não percebem a vergonhosa tragédia de nosso vocabulário.

Quem sabe não será preciso que um dia chegue ao governo uma das crianças-tristes de hoje, para que o Brasil torne arcaicas as palavras que hoje enriquecem o triste vocabulário brasileiro e construa um dicionário onde criança… seja apenas criança.

Cristovam Buarque