
23 junho 2010


By Anderson Gomes



Djavan - OCEANO
Assim
Que o dia amanheceu
Lá no mar alto da paixão
Dava pra ver o tempo ruir
Cadê você? Que solidão!
Esquecera de mim
Enfim
De tudo que há na terra
Não há nada em lugar nenhum
Que vá crescer sem voce chegar
Longe de ti tudo parou
Ninguém sabe o que eu sofri
Amar é um deserto
E seus temores
Vida que vai na sela
Dessas dores
Não sabe voltar
Me dá teu calor
Vem me fazer feliz
Porque eu te amo
Você deságua em mim
E eu oceano
Esqueço que amar
É quase uma dor
Só sei
Viver
Se for
Por você

CAZUZA & BEBEL: EU PRECISO DIZER QUE TE AMO
IVETE & MARCELO CAMELO: TEUS OLHOS
FERNANDA TAKAI &RODRIGO AMARANTE: O RITMO DA CHUVA
ZIZI & LUIZA POSSI: HAJA O QUE HOUVER
MARIA BETHÂNIA E NANA CAYMMI: SUSSUARANA
CAETANO & ROBERTO CARLOS: CHEGA DE SAUDADE
ANA CAROLINA & SEU JORGE: ISSO AÍ
GAL COSTA & HEBERT VIANA: LANTERNA DOS AFOGADOS
PARALAMAS DO SUCESSO & ZIZI POSSI: MEU ERRO
ANA CAROLINA & JORGE VERCILO: ABISMO
ANA CAROLINA & MARIA BETHÂNIA: EU QUE NÃO SEI QUASE NADA DO MAR
IVETE & MARIA BETHÂNIA: MUITO OBRIGADO AXÉ
MARISA MONTE & ROBERTO CARLOS
21 junho 2010

CUIDAR DO BRASIL
Cristovam Buarque
Um presidente precisa cuidar de seu país, não apenas administrá-lo. Uma nação, como uma cidade, é um ente frágil; um descuido durante um governo, e dezenas de anos serão necessários para consertar. Como uma criança que, não recebendo cuidados no momento certo, perde a vida ou perde-se na vida.
Administrar é enfrentar problemas fria e tecnicamente; cuidar é atender o próprio povo com respeito, ética e carinho, se possível antes de o problema acontecer.
Administrar a moeda é conseguir a estabilidade monetária; cuidar da moeda é manter o poder aquisitivo de todos os trabalhadores. O Plano Real conseguiu controlar a inflação, mas ao custo de desemprego e de redução nos salários. Administrou, mas não cuidou.
Administrar meninos de rua pode ser prendê-los nas Febens depois que eles cometem crimes; cuidar deles é garantir escola, saúde e apoio para que não sejam meninos de rua.
Administrar é enfrentar o problema; cuidar é não deixar que ele ocorra.
Administrar a agricultura é aumentar a produção; cuidar é acabar com a fome. O atual governo está enfrentando, tentando administrar - e mal - os sem-terra; cuidar deles seria resolver o problema da concentração na propriedade da terra, superar a injustiça de cinco séculos.
Administrar a economia é retomar o crescimento; cuidar dela é fazer com que produza para erradicar a pobreza, para aumentar a qualidade de vida e para ser ecologicamente sustentável.
Administrar a ecologia é cercar florestas e apagar os incêndios; cuidar é mudar o modelo econômico para incorporar a natureza como parte da riqueza da civilização.
Administrar a dívida pública é conseguir um saldo orçamentário para poder pagar aos bancos; cuidar dela é não esquecer as outras dívidas, com os sem-emprego, sem-teto e sem-terra. E cuidar para que o pagamento aos bancos não seja feito ao custo da educação, da saúde, do futuro.
Administrar é ter uma lei de responsabilidade fiscal; cuidar é acrescentar uma lei de responsabilidade social.
Os governos, de formas diferentes, procuram administrar o país, mas não levam em conta que, por trás do conceito de país, há um mundo de gente, com nome, carteira profissional e de identidade, com um presente e um futuro.
No próximo mês, 5,6 mil novos prefeitos assumirão a administração de nossas cidades. Poucos estão pensando em assumir a responsabilidade de cuidar delas, com o carinho que seus habitantes precisam. Administrar bem a cidade é conseguir que as escolas abram nos dias e horas certas; cuidar das crianças é ter o nome de cada uma delas no gabinete do prefeito, tomar as medidas para que as escolas não apenas estejam abertas, mas as crianças contentes e aprendendo.
Quando lê no jornal que um menino foi atropelado no centro da cidade, ou morto em uma rua, o prefeito toma conhecimento de uma estatística. Quando chega em seu gabinete, encontra o nome dela e tem que "deletar" por causa da morte, sente a proximidade e a responsabilidade de um parente próximo. Ele muda da informação para o luto, da administração para o cuidado.
Um país pode mudar nas mãos de um presidente ou de 5,6 mil prefeitos. Ainda faltam dois anos para termos um novo governo nacional. Até lá, os novos prefeitos podem iniciar a grande mudança que o país precisa. Não importa o partido ou a ideologia, importam a emoção e a ética na relação com o povo. Importa a linguagem com a qual se relacionarão com seus povos: se vão apenas administrar a cidade - friamente - ou se, além, vão cuidar da grande família que os elegeu. Começando pelas crianças. No lugar de tê-las como simples números distantes que incomodam e exigem, importa tratá-las como próximas a serem cuidadas.
17 junho 2010

Cristovam Buarque
O Globo 12/02/2001
"Em nenhum outro país os ricos demonstraram mais ostentação que no Brasil. Apesar disso, os brasileiros ricos são pobres. São pobres porque compram sofisticados automóveis importados, com todos os exagerados equipamentos da modernidade, mas ficam horas engarrafados ao lado dos ônibus de subúrbio. E, às vezes, são assaltados, seqüestrados ou mortos nos sinais de trânsito. Presenteiam belos carros a seus filhos e não voltam a dormir tranqüilos enquanto eles não chegam em casa. Pagam fortunas para construir modernas mansões, desenhadas por arquitetos de renome, e são obrigados a escondê-las atrás de muralhas, como se vivessem nos tempos dos castelos medievais, dependendo de guardas que se revezam em turnos.
Os ricos brasileiros usufruem privadamente tudo o que a riqueza lhes oferece, mas vivem encalacrados na pobreza social. Na sexta-feira, saem de noite para jantar em restaurantes tão caros que os ricos da Europa não conseguiriam freqüentar, mas perdem o apetite diante da pobreza que ali por perto arregala os olhos pedindo um pouco de pão; ou são obrigados a restaurantes fechados, cercados e protegidos por policiais privados. Quando terminam de comer escondidos, são obrigados a tomar o carro à porta, trazido por um manobrista, sem o prazer de caminhar pela rua, ir a um cinema ou teatro, depois continuar até um bar para conversar sobre o que viram.
Mesmo assim, não é raro que o pobre rico seja assaltado antes de terminar o jantar, ou depois, na estrada a caminho de casa. Felizmente isso nem sempre acontece, mas certamente, a viagem é um susto durante todo o caminho. E, às vezes, o sobressalto continua, mesmo dentro de casa. Os ricos brasileiros são pobres de tanto medo. Por mais riquezas que acumulem no presente, são pobres na falta de segurança para usufruir o patrimônio no futuro. E vivem no susto permanente diante das incertezas em que os filhos crescerão. Os ricos brasileiros continuam pobres de tanto gastar dinheiro apenas para corrigir os desacertos criados pela desigualdade que suas riquezas provocam: em insegurança e ineficiência.
No lugar de usufruir tudo aquilo com que gastam, uma parte considerável do dinheiro nada adquire, serve apenas para evitar perdas. Por causa da pobreza ao redor, os brasileiros ricos vivem um paradoxo: para ficarem mais ricos têm de perder dinheiro, gastando cada vez mais apenas para se proteger da realidade hostil e ineficiente.
Quando viajam ao exterior, os ricos sabem que no hotel onde se hospedarão serão vistos como assassinos de crianças na Candelária, destruidores da Floresta Amazônica, usurpadores da maior concentração de renda do planeta, portadores de malária, de dengue e de verminoses. São ricos empobrecidos pela vergonha que sentem ao serem vistos pelos olhos estrangeiros.
Na verdade, a maior pobreza dos ricos brasileiros está na incapacidade de verem a riqueza que há nos pobres. Foi esta pobreza de visão que impediu os ricos brasileiros de perceberem, cem anos atrás, a riqueza que havia nos braços dos escravos libertos se lhes fosse dado direito de trabalhar a imensa quantidade de terra ociosa de que o país dispunha. Se tivesse percebido essa riqueza e libertado a terra junto com os escravos, os ricos brasileiros teriam abolido a pobreza que os acompanha ao longo de mais de um século. Se os latifúndios tivessem sido colocados à disposição dos braços dos ex-escravos, a riqueza criada teria chegado aos ricos de hoje, que viveriam em cidades sem o peso da imigração descontrolada e com uma população sem miséria. A pobreza de visão dos ricos impediu também de verem a riqueza que há na cabeça de um povo educado. Ao longo de toda a nossa história, os nossos ricos abandonaram a educação do povo, desviaram os recursos para criar a riqueza que seria só deles, e ficaram pobres: contratam trabalhadores com baixa produtividade, investem em modernos equipamentos e não encontram quem os saiba manejar, vivem rodeados de compatriotas que não sabem ler o mundo ao redor, não sabem mudar o mundo, não sabem construir um novo país que beneficie a todos. Muito mais ricos seriam os ricos se vivessem em uma sociedade onde todos fossem educados.
Para poderem usar os seus caros automóveis, os ricos construíram viadutos com dinheiro de colocar água e esgoto nas cidades, achando que, ao comprar água mineral, se protegiam das doenças dos pobres. Esqueceram-se de que precisam desses pobres e não podem contar com eles todos os dias e com toda saúde, porque eles (os pobres) vivem sem água e sem esgoto. Montam modernos hospitais, mas tem dificuldades em evitar infecções porque os pobres trazem de casa os germes que os contaminam. Com a pobreza de achar que poderiam ficar ricos sozinhos, construíram um país doente e vivem no meio da doença.
Há um grave quadro de pobreza entre os ricos brasileiros. E esta pobreza é tão grave que a maior parte deles não percebe. Por isso a pobreza de espírito tem sido o maior inspirador das decisões governamentais das pobres ricas elites brasileiras. Se percebessem a riqueza potencial que há nos braços e nos cérebros dos pobres, os ricos brasileiros poderiam reorientar o modelo de desenvolvimento em direção aos interesses de nossas massas populares. Liberariam a terra para os trabalhadores rurais, realizariam um programa de construção de casas e implantação de redes de água e esgoto, contratariam centenas de milhares de professores e colocariam o povo para produzir para o próprio povo.
Esta seria uma decisão que enriqueceria o Brasil inteiro - os pobres que sairiam da pobreza e os ricos que sairiam da vergonha, da insegurança e da insensatez. Mas isso é esperar demais. Os ricos são tão pobres que não percebem a triste pobreza em que usufruem suas malditas riquezas".

Cristovam Buarque
Correio Braziliense, Opinião, de 07/02/2001
A Organização Internacional do Trabalho divulgou na semana passada um relatório onde mostra que, em pleno século XXI, o Brasil ainda apresenta um quadro vergonhoso de trabalho infantil. Mas a ênfase dada por muitos analistas é de que esse número (7,7 milhões, em 1998) representa uma redução de 20% no número de crianças trabalhando em relação a 1992. Nesse ritmo, levaríamos trinta anos para erradicar o trabalho infantil. Mais tempo do que se passou entre os decretos da Lei do Ventre Livre e da Lei Áurea. E há quem comemore o avanço.
O que esse comportamento mostra é um desvio moral da elite brasileira: considerar estar cumprindo seu papel com as massas pobres do país, sempre que um passo qualquer é dado a favor dos mais pobres. Foi assim durante a escravidão.
Em 1871, quando o Brasil era um dos únicos países a tolerar, usar e explorar a escravidão, a aristocracia brasileira passou a se orgulhar diante do mundo pelo fato de ter uma lei que declarava livre o filho de um escravo. Sem fazer alarde de que a liberdade só viria depois que ele fizesse 21 anos, sob a condição de que trabalhasse como escravo até então e desde que nenhum de seus familiares tentasse fugir durante todo aquele longo período. Esse é o humanismo da elite brasileira * como passou a ser conhecido : *só para inglês ver*.
Em 1885, mais uma lei humanista declarou livres os escravos que tivessem mais de 60 anos. Quando já não tinham mais força para trabalhar, depois de décadas submetidos à exploração de quando não tinham como se manter, os donos dos escravos, humanitariamente, mandavam-nos para longe, tiravam-nos da lista dos que comiam as sobras da produção das fazendas.
É surpreendente que a Lei dos Sexagenários tenha vindo quando a própria escravidão já tinha sido abolida, em caráter unilateral, no Ceará. O mesmo Ceará onde hoje existe uma placa, na frente do aeroporto, dizendo que se orgulha de ter 93% de suas crianças matriculadas em escolas, no lugar de dizer que sente vergonha por ter 7% fora da escola.
Essa é a história moral da elite brasileira, que agora se repete no caso do trabalho infantil. Negar que algo está melhorando é pouco inteligente, mas vangloriar-se diante do que falta fazer é muito indecente. Todo governo tem direito de dizer o que fez, mas tem a obrigação de pedir desculpas pelo que ainda falta fazer, mesmo que tenha feito muito e a falta não seja sua culpa.
O problema do trabalho infantil no século XXI, como o da escravidão no século XIX, não pode ser tratado como assunto de estatísticas, de avanços paulatinos. Tem que ser tratado como assunto da ética, com a necessidade de gestos radicais e imediatos. E eles são possíveis do ponto de vista técnico. Difíceis do ponto de vista moral e mesmo emocional, porque a elite brasileira não sofre com a situação daquelas crianças * no máximo se preocupa com a imagem que passa para o resto do mundo. E age sempre de maneira incompleta, apenas para *enganar os ingleses*.
A escravidão só foi abolida 44 anos depois de os ingleses, também por interesses econômicos, tomarem medidas para dificultar o tráfico internacional de escravos. Cada gesto era tímido e visava *enganar os ingleses*. Mesmo o radical gesto da princesa Isabel carregou a hipocrisia e a timidez de libertar os escravos do trabalho sem lhes dar terras para trabalhar.
Agora, o Brasil desperta para o trabalho infantil depois de tantas denúncias e críticas internacionais contra a forma como nosso país trata nossas crianças. É mais um gesto de defesa de imagem do que de construção da alma do Brasil. É como se o errado não fosse ter crianças trabalhando, mas parecer para o mundo que o trabalho infantil existe. E, como há mais de cem anos, nos defendemos outra vez dizendo que as coisas estão melhorando.
A seguir o ritmo da redução entre 1992 e 1998, teremos acabado o trabalho infantil daqui a trinta anos, em 2031. Quase duas vezes mais tempo do que o decorrido entre a lei do Ventre Livre e a da Abolição. Ou seja, o Brasil piorou a marca da velocidade ao tentar *enganar os ingleses*, ficou mais insensível e mais cínico. Antes eliminava lentamente a escravidão, para no final libertar os escravos sem dar-lhes a terra que precisavam para sobreviver, agora eliminam calmamente o trabalho infantil sem garantir a escola de qualidade que as crianças precisarão para sobreviver no mundo moderno. Eliminar o trabalho infantil sem dar escola às crianças é o mesmo que abolir a escravidão sem dar terra aos escravos. Não basta.
O Brasil precisa ser radical nos assuntos de ética. Não basta colocar juiz na cadeia e cassar senador, para ser ético o Brasil precisa também colocar as crianças na escola e cassar a má qualidade da educação. Isso é possível, mas primeiro exige o sentimento da necessidade, o horror diante do atraso que demonstramos por conviver com essa forma contemporânea de escravid ão, a vontade de usar os recursos dos quais já dispomos para atingir estes objetivos e a competência para saber fazê-lo.
Tudo isso pode nos chegar, mas o primeiro passo é deixar de se vangloriar com o pouco feito e olhar o muito por fazer. Felizmente a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, no lugar de chamar a imprensa para dizer que o Império já tinha avançado muito ao libertar os escravos que ainda não tinham nascido e aqueles que já estavam perto da morte.
Parece que, na ética e no cinismo, a elite brasileira regrediu tanto quanto cresceu economicamente. E, por isso, ainda se desculpa do horror social, dizendo que o Brasil não cresceu suficientemente na economia. Aliás, a mesma desculpa dos escravistas para justificar o adiamento no fim da escravidão.

Cristovam Buarque
O Globo, Opinião, 23/10/2000
Durante debate recente, nos Estados Unidos, fui questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto de partida para uma resposta minha.
De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso. Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio da Humanidade.
Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação.
Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França. Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de um proprietário ou de um pais. Não faz muito, um milionário japonês, decidiu enterrar com ele um quadro de um grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado.
Durante o encontro em que recebi a pergunta, as Nações Unidas reuniam o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu disse que Nova York, como sede das Nações Unidas, deveria ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, cada cidade, com sua beleza especifica, sua história do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro.
Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos seus debates, os atuais candidatos à presidência dos EUA têm defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o pais onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia.
Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam estudar; que morram quando deveriam viver. Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só nossa.
Português falado no Brasil é talvez o mais rico e o mais imoral dos idiomas no que se refere à definição de infância
Os esquimós têm diversos nomes para indicar a neve. Para eles, cada tipo de neve é uma coisa diferente de outro tipo. Para os povos da floresta, cada mato tem um nome específico. Os habitantes dos desertos têm nomes diferentes para dizer “areia”, conforme as características específicas que ela apresenta. Para conviver com seu meio ambiente, cada povo desenvolve sua cultura com palavras distintas para diferenciar as sutilezas do seu mundo. Quanto mais palavras distinguindo as coisas que as rodeiam, mais rica é a cultura de uma população.
Os brasileiros urbanos desenvolveram sua cultura criando nomes especiais para diferenciar o que, para outros povos, seria apenas uma criança.
Para poder circular com segurança nas ruas de suas cidades, os brasileiros do começo de século 21 têm maneiras diferentes para dizer “criança”. Não se trata dos sinônimos de antigamente para indicar a mesma coisa, como “menino”, “guri”, “pirralho”. Agora, cada nome indica uma sutil diferença no tipo de criança. O português falado no Brasil é certamente o mais rico e o mais imoral dos idiomas do mundo atual no que se refere à definição de criança. É um rico vocabulário que mostra a degradação moral de uma sociedade que trata suas crianças como se não fossem apenas crianças.
Menino-de-rua significa aquele que fica na rua em lugar de estar na escola, em casa, brincando ou estudando, mas tem uma casa para onde ir - diferenciado sutilmente dos meninos-de-rua, aqueles que não apenas estão na rua, mas moram nela, sem uma casa para onde voltar. Ao vê-los, um habitante das nossas cidades os distingue das demais crianças que ali estão apenas passeando.
Flanelinha é aquele que, nos estacionamentos ou nas esquinas, dribla os carros dos ricos com um frasco de água em uma mão e um pedaço de pano na outra, na tarefa de convencer o motorista a dar-lhe uma esmola em troca da rápida limpeza no vidro do veículo. São diferentes dos esquineiros, que tentam vender algum produto ou apenas pedem esmolas aos passageiros dos carros parados nos engarrafamentos. Ou dos meninos-de-água-na-boca, milhares de pobres crianças que carregam uma pequena caixa com chocolates, tentando vendê-los mas sem o direito de sentir o gosto do que carregam para outros.
Sutis diferenças
Prostituta-infantil já seria um genérico maldito para uma cultura que sentisse vergonha da realidade que retrata. Como se não bastasse, ainda tem suas sutis diferenças. Pode ser bezerrinha, ninfeta-de-praia, nina-da-noite, menino ou menina-de-programa ou michê, conforme o local onde faz ponto ou gosto sexual do freguês que atende. E tem a palavra menina-paraguai, para indicar crianças que se prostituem por apenas um real e noventa e nove centavos, o mesmo preço das bugigangas que a globalização trouxe de contrabando, quase sempre daquele país. Ou menina-boneca, de tão jovem que é quando começa a se prostituir, ou porque seu primeiro pagamento é para comprar a primeira boneca que nunca ganhou de presente.
Delinqüente, infrator, avião, pivete, trombadinha, menor, pixote: sete palavras para o conjunto da relação de nossas crianças com o crime. Cada qual com sua maldita sutileza, conforme o artigo do código penal que cabe, a maneira como aborda suas vítimas, o crime ao qual se dedica…
Podem também, no lugar de crianças, serem boys, engraxates, meninos-do-lixo, recicladores-infantis, de acordo com o trabalho que cada uma delas faz.
Ainda tem filhos-da-safra, para indicar crianças deixadas para trás por pais que emigram todos os anos em busca de trabalho nos lugares onde há empregos por bóias-fria, nome que indica também a riqueza cultural do sutil vocabulário da realidade social brasileira. Ou os pagãos-civis, vivendo sem registro que lhes indique a cidadania de suas curtas passagens pelo mundo, em um país que lhes nega não apenas o nome de criança, mas também a existência legal.
Criança-triste
Como resumo de todos estes tristes verbetes, há também criança-triste: não se refere à tristeza que nasce de um brinquedo quebrado, de uma palmada ou reprimenda recebida, ou mesmo da perda de um ente querido. No Brasil há um tipo de criança que não apenas fica ou está triste, mas nasce e vive triste - seu primeiro choro mais parece um lamento pelo futuro que ainda não prevê do que um respiro no novo ar em que vai viver, quando pela primeira vez o recebe em seus diminutos pulmões.
Criança-triste, substantivo e não adjetivo, como um estado permanente de vida: esta talvez seja a maior das vergonhas do vocabulário da realidade social brasileira. Assim como a maior vergonha da realidade política é a falta de tristeza no coração de nossas autoridades diante da tristeza das crianças brasileiras, com as sutis diversidades refletidas no vocabulário que indica os nomes da criança.
A sociedade brasileira, em sua maldita apartação, foi obrigada a criar palavras que distinguem cada criança conforme sua classe, sua função, sua casta, seu crime. A cultura brasileira, medida pela riqueza de seu vocabulário, enriqueceu perversamente ao aumentar as palavras que indicam criança. Um dia, esta cultura vai se enriquecer criando nomes para os presidentes, governadores, prefeitos, políticos em geral que não sofrem, não ficam tristes, não percebem a vergonhosa tragédia de nosso vocabulário.
Quem sabe não será preciso que um dia chegue ao governo uma das crianças-tristes de hoje, para que o Brasil torne arcaicas as palavras que hoje enriquecem o triste vocabulário brasileiro e construa um dicionário onde criança… seja apenas criança.