23 maio 2018



Exibido na abertura do festival, filme de Marcelo Caetano investiga os afetos em um Brasil profundo encravado entre a periferia e os bairros operários

A 12ª edição do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo teve início na quarta-feira 26 com a exibição de Corpo Elétrico, primeiro longa-metragem do diretor Marcelo Caetano.
O filme de abertura é um cartão de visitas para conhecer a produção contemporânea dos países da região, e também uma proposta de incursão sobre o que está acontecendo aqui ao lado, nos bairros vizinhos, na maioria das vezes sem o mesmo alarde de algumas produções nacionais que, também muitas vezes, produzem muito barulho e pouco estofo.
O filme é a chance de visitar não exatamente um Brasil profundo, mas distante.
No caso, acompanhar as relações desenvolvidas nas fábricas dos bairros operários de São Paulo por onde já não circulamos.
Caetano situa nos galpões do Bom Retiro a nova classe trabalhadora, que pisa quase sempre em fronteiras confusas entre a exploração e a semiescravidão, com direito a descanso cassado, negociado em condições desiguais enquanto os proprietários passam as férias na Europa e mandam marcar presença em eventos e desfiles onde os trabalhadores não circulam
O modelo de exploração, a alienação do trabalho, a carga horária abusiva de uma fábrica de confecções servem como pano de fundo, mas não parece ser este o interesse do diretor.
Em vez de um filme denúncia, ele propõe uma aproximação nos afetos produzidos nestes espaços, nestas cidades.
Uma delas é a diversidade, tão debatida (a distância) nos círculos ilustrados e ao mesmo tempo tão natural nos espaços onde não há outra opção se não o convívio – sobretudo quando passamos mais tempo com os colegas de trabalho do que com a família.
O que parece interessar ao diretor são as ações pautadas pelas relações de trabalho desenvolvidas fora do horário do expediente, como uma forma de conter o aniquilamento.
Em uma das cenas, após um plantão estendido para dar conta das demandas da fábrica (estamos às portas do Natal), os companheiros de trabalho caminham por uma rua deserta e mal iluminada da metrópole em direção a um bar, onde improvisam um festejo de fim de ano entre bebidas, batuques e música popular.
A câmera, movimentando-se para trás, acompanha os grupos de afinidade que se formam em torno dos assuntos.
Um dos personagens, evangélico, conta que vai se casar, mas não tem casa, dinheiro ou automóvel. Outro está construindo uma laje de três andares. Outro quer fumar maconha. Outro ensaia um flerte com uma colega. Outra fala do receio de voltar tarde para casa, onde mora com a mãe e a filha.
Outro, de Guiné-Bissau, tenta acompanhar e absorver a fala acelerada dos novos colegas de trabalho (como se expusesse uma hierarquia não formalizada, os bolivianos da fábrica não participam dos festejos).
Os grupos se montam e se desmontam em módulos temáticos, e quem circula por eles, como se tentasse participar de todos os assuntos, é um jovem negro e gay que tenta conciliar o trabalho na fábrica com as apresentações em casas noturnas na companhia da “família” – como chama as amigas croosdresser, uma delas cover da cantora Rihanna.
A menção à família deixa clara a proposta do diretor em investigar as formas de acolhimento numa cidade marcada pela exclusão.
O protagonista, Elias (Kelner Macêdo), também gay, é uma espécie de subchefe dos colegas, embora o status não lhe permita muito conforto além de uma quitinete onde a privada e o fogão são separados por uma porta sanfonada (e quebrada) do banheiro.
Dele sabemos, em um dos diálogos, que nasceu na Paraíba, um outro sonho feliz de cidade com vistas para o mar (também uma imagem explorada no filme) e que não tem contato com a família.
Os laços são reconstituídos e reinventados nessa rede entre colegas, amigos e possíveis amantes. Naquele ambiente, onde praticamente todos representam uma minoria ou grupo estigmatizado (por exemplo, os evangélicos e os estrangeiros), as possibilidades de convívio e acolhimento se multiplicam sem grandes fricções, apesar da tensão ensaiada.
A expectativa de explosão, aliás, diz mais sobre quem assiste do que sobre o que está em cena.
Eles se deslocam o tempo todo por uma cidade onde boa parte das pessoas prefere, por medo, se trancafiar. “Do centro para a periferia, da periferia para o centro. O mais importante para mim era mostrar os deslocamentos na cidade, esses corpos que dançam e transitam pelas ruas, as caminhadas na rua, os ônibus. Eu cresci vendo um cinema paulista muito preso nos apartamentos e nos estúdios. Ainda que ame filmar a cama, o quarto, a intimidade, acredito que os afetos precisem ganhar as ruas e meu filme é quase um manifesto dentro do cinema paulista nesse sentido”, diz o diretor Marcelo Caetano no texto de apresentação do filme.
É como se nessas brechas de rotina e trabalho massacrantes houvesse uma compensação em forma de liberdade, sem apego a rótulos e cartas de compromisso. É o presente contínuo vivido a todo vapor, sem que se saiba com quem vamos acordar na manhã seguinte.
A certa altura, o protagonista é questionado por um dos patrões como vê a sua vida dali a cinco anos. Aos 23, Elias diz não ser capaz de visualizar algo tão distante. E quem é capaz?
Eles se deslocam o tempo todo por uma cidade onde boa parte das pessoas prefere, por medo, se trancafiar. “Do centro para a periferia, da periferia para o centro. O mais importante para mim era mostrar os deslocamentos na cidade, esses corpos que dançam e transitam pelas ruas, as caminhadas na rua, os ônibus. Eu cresci vendo um cinema paulista muito preso nos apartamentos e nos estúdios. Ainda que ame filmar a cama, o quarto, a intimidade, acredito que os afetos precisem ganhar as ruas e meu filme é quase um manifesto dentro do cinema paulista nesse sentido”, diz o diretor Marcelo Caetano no texto de apresentação do filme.
É como se nessas brechas de rotina e trabalho massacrantes houvesse uma compensação em forma de liberdade, sem apego a rótulos e cartas de compromisso. É o presente contínuo vivido a todo vapor, sem que se saiba com quem vamos acordar na manhã seguinte.
A certa altura, o protagonista é questionado por um dos patrões como vê a sua vida dali a cinco anos. Aos 23, Elias diz não ser capaz de visualizar algo tão distante. E quem é capaz?


Visto na: Carta Capital

14 maio 2018



Nem sempre é possível amar-se em primeiríssimo lugar. Por mais alarde que se faça em torno da frase “é preciso amar a si mesmo”, geralmente são os outros que ocupam o pódio desse sentimento. A priori, não há nada de errado nisso. Penso que oferecer amor a quem nos rodeia cria um ciclo positivo cujo retorno costuma ser inevitável. O problema, porém, reside quando a doação desse afeto em demasia vai nos esgotando, retirando de nós a nossa essência, esvaziando nossas reservas emocionais. Isto porque, por mais ilimitado que seja o amor, isso não significa que ele seja infinito. Então, para suprir a demanda do outro, tornamo-nos escravos de uma forma de amar patológica, a qual é responsável muitas vezes por eliminar a nossa identidade. Logo, imperceptivelmente, traímos nossos ideais, fazemos coisas inimagináveis, nem sempre as mais sensatas, ignoramos os nossos limites, nos entregamos sem reciprocidade. E, o pior, abandonamos o pouco que havia guardado em nós para elaborar uma imagem pessoal idealizada, mas falsa, que costuma ruir tempos depois quando descobrimos que perdemos tempo não nos amando.

Encaro essa fase, que se manifesta em qualquer período de nossas vidas, como um litígio pessoal não programado. É quando rompemos com nós mesmos em detrimento do outro, que não precisa ser necessariamente uma pessoa. Pode ser um trabalho, uma religião, uma conquista material, etc. Seja qual for a motivação, o resultado geralmente é o mesmo: desconstrução das nossas individualidades. Para atender as expectativas do outrem, cedemos aos seus mais variados caprichos. Em relacionamentos amorosos isso é mais corriqueiro. Fazemos diversas concessões em nome do amor, muitas indiscutivelmente egoístas apenas para manter o equilíbrio da relação. Por medo de confrontar o parceiro (a), optamos pela negociação, que é uma prática acertada, quando ambos estão dispostos a entrar em acordo para o bem de todos. Todavia, na intensidade das paixões, só uma das partes cede facilmente a certos desejos. Assim, do outro lado da moeda, haverá alguém boicotando-se em prol da manutenção da normalidade daquele relacionamento. Atitudes assim resvalam em desconciliação da pessoa consigo mesma, o que a longo prazo será pano de fundo para a dissolução daquilo que se achava que era amor.

Personalidades mal construídas também são mais susceptíveis a esse conflito interno. Não sou totalmente a favor da generalidade da qual somos todos influenciáveis, sobretudo no ramo sentimental, mesmo ciente de que há uma comercialização cada vez mais piegas do amor. Entretanto, acredito que há pessoas mais permissíveis ao autoboicote, levadas por discursos de cumplicidade e amor eterno que por si só já soam imaturos. São as ditas sonhadoras amorosas, aquelas criadas acreditando em amor para a vida toda, numa relação angelical em que há uma devoção à figura do outro em oposição à pessoal. Então, hipnotizados por essa busca pelos príncipes e princesas encantados, anulamos nossas particularidades para viver uma relação onírica, um faz de conta construído para elaborar uma pseudoideia de felicidade. Entre amigos acontece algo semelhante. Para nos enturmarmos, muitas vezes realizamos feitos que nos desagradam, mas precisam ser cumpridos como ritos de inclusão para pertencer a determinados grupos. Desse modo, cortamos qualquer vínculo conosco para estar inserido em meio a pessoas desinteressadas em nos conhecer por completo, ou simplesmente nos ter em suas vidas da forma que somos de verdade.

São essas pequenas coisas que nos fazem entrar em divórcio conosco: manter relacionamentos egoístas que nos cobram o máximo e nos oferecem menos que o mínimo. Insistir em namoros, noivados, casamentos, por mera formalidade imposta pelas palavras, mas desprovidos de companheirismo, conversa, entrega mútua. Amizades desonestas que se aliam a nós motivadas pelo o que podemos oferecer, não pelo que somos ou podemos ser em suas vidas, caso seja dado a nós a permissão de nos mostrar ao outro sem reservas, sem temer ser eliminado quando os nossos verdadeiros “eus” vêm à tona. Trabalhos excessivamente degradantes, ocupando nossas rotinas quase que integralmente com funções que não levam muitas vezes em conta as nossas potencialidades. Então, escravizados pela necessidade de ganhar amor, carinho, dinheiro e atenção, realizamos sem questionar os desejos do outro e engavetamos os nossos. Então, inobservantes, somos desquitados de papel passado de nós mesmos. Desatamos quaisquer nós que nos atavam firmemente ao que tínhamos de mais precioso à custa de viver para um outro, que nem sempre nos nota. Daí, nosso amor próprio, frágil por natureza, sucumbe diante à pressão exercida sobre nós para servir unicamente ao outro.

Semelhante a muitos, também já me privei de ser eu mesmo para poder atender as expectativas alheias. Deixei várias vezes de me amar, fazer as coisas que gosto, estar com as pessoas que me fazem bem, para corresponder aos anseios alheios. Não valeu a pena e me custou um preço altíssimo. Certas aparentes decisões nossas costumam ser irreparáveis. Hoje não permito que isso se repita. Mesmo ciente disso, sei que não estou/sou imune de me litigiar desse amor próprio recém adquirido num futuro próximo. Essa é a fragilidade da máxima “amar-se em primeiro lugar”, porque ela carrega em si toda uma significância egocêntrica em um mundo onde o outro é tão ou mais carente de amor do que nós mesmos. Talvez o mais apropriado fosse amar o ser humano que há em si e fazê-lo reluzir noutras pessoas. Servir-se de expoente para o outro. Caso sua luz emane positivamente em muitos, já que em todos é impossível, significa que há amor próprio suficiente para facultar ao desconhecido o direito de fazer parte da nossa vida e ser contagiado por esse sentimento e, na sorte, somá-lo com mais amor.

Para tanto, é preciso entender que amar-se significa reencontrar-se com aquele alguém perdido ou usurpado dentro de nós mesmos pelas inúmeras cobranças da vida. Ele está ai dentro, adormecido pelas tantas ocupações nos impelidas, mas sempre disposto a despertar do pungente sono eterno do qual foi sentenciado. Como somos pessoas distintas, cada um de nós vai unir-se a si próprio novamente quando a maturidade bater à porta, e ela baterá. Na verdade, já deve estar batendo agora, mas só a ouviremos quando o fracasso irromper nossos muros internos enfraquecendo nossas certezas, usadas como escudos para manter certas relações abusivas sob o rótulo de amor. Quando questionamos isso já é o primeiro sinal de que estamos acordando para uma vida mais autônoma, mas não menos perigosa. Amar-se plenamente, nesse sentido, é um risco a quem ousa fazer-se feliz, pois questiona a ideia de que não podemos ser/estar felizes com nós mesmos, sem a presença do outro. Ledo engano. Se o amor suga o pouco que somos, é mesquinho e irrevogavelmente unilateral, então precisa ser apartado de nós antes de nos perdermos por completo nele. Então, reconciliar-se consigo mesmo, além de urgente, é a forma mais altruísta que conheço de amar.


Mesa de bar é um espaço onde as maiores barbaridades humanas são ditas. Recentemente, numa dessas ocasiões, me deparei com três rapazes comentando, negativamente, é claro – sobre uma adolescente de 15 anos grávida de alguns meses. Sordidamente, as opiniões versavam sobre como ela era desejável antes da gravidez e de como ela ficaria “destruída” após o nascimento da criança. “Nunca mais será a mesma”, dizia um, enquanto os outros concordavam. Tentei contrargumentar, mas estava em menor número. Então, resolvi extrair daquele evento alguma reflexão. Na mente daqueles rapazes, estar na condição de mãe precoce não era o problema, mas sim o fato dela não mais despertar interesse sexual devido as modificações corpóreas visíveis. Um deles, com ar de soberba satisfação, afirmou categoricamente: “essa é a vantagem de ser homem.” Fiquei pensando nessa frase e descobri o quão profundo o machismo penetrou em nossas condutas cotidianas, ao ponto de masculinizarmos nossas opiniões, visões de mundo e comportamentos sexuais.

Mesmo discordando das regalias que gozo por ter nascido homem, sei que as possuo e, inevitavelmente, me beneficio delas no meu cotidiano. Talvez o que me diferencie de outros homens seja a consciência de que ter certos privilégios sexuais/sociais não me torna superior ao sexo oposto, embora, em sua maioria, muitos homens fazem o inverso disso, muitas vezes por osmose. Estar numa mesa de bar falando abertamente da atração por uma garota de 15 anos recém iniciada na vida do sexo, sem a censura do julgamento alheio, é, sem dúvidas, uma vantagem masculina. Isso não quer dizer que mulheres não o façam hoje, mas em menor número e sob risco de serem hostilizadas com bem mais rigor. Na verdade, as opiniões sexuais entre homens e mulheres ainda seguem a política da boa vizinhança: a eles é facultado o direito de falar como quiserem, expressar seus desejos e vontades, por mais que se aproximem de práticas assediadoras ou pedófilas. Já a elas, a sutileza nesse terreno deve ser a forma de expressão, sobretudo se há outras pessoas por perto desacostumadas a ouvir intimidades vindas de uma mulher.

Tudo isso se dá pela ausência de um diálogo transversal sobre o sexo e suas variáveis, cujo pano de fundo fosse estimular todos os envolvidos no ato sexual a se empoderar e não se submeter ao que é visto como o mais forte. Não há fortes ou fracos no ato sexual. O sexo não deveria ser posto como um duelo, mas como uma dança da qual o compasso bem ensaiado leva à perfeição. Quando não se faz isso, cria-se realmente um embate, em que geralmente elas levam a pior. Não é por acaso, por exemplo, que a masturbação masculina é incentivada desde cedo, enquanto o inverso não ocorre. A ideia é fortalecer apenas uma das partes do prazer humano, como se as meninas não fossem capazes de encontrar suas próprias zonas erógenas, cabendo aos rapazes a responsabilidade nessa tarefa. Por essa razão, há tantas mulheres casadas insatisfeitas sexualmente, pois não foram educadas a sentir prazer nem tão pouco iniciar corretamente a vida sexual. Frustradas, servem de meros receptáculos do prazer alheio, sem se autoconhecer, ou pior, sobrepujadas as vantagens masculinas.

Deste terreno movediço, onde só elas costumam afundar, os homens saem na frente. A estética é outro benefício de nascer com pênis. A mesma vaidade que nos é cobrada é cem vezes menor do que às mulheres. Elas precisam estar em constante vigilância nesse sentido. Da maquiagem, ao salto alto, do peso à vestimenta, tudo é criteriosamente exigido delas para serem aceitas, sobretudo sexualmente. A nós homens, mesmo com a popularização da metrossexualidade, o perfil clássico de macho higienicamente bem cuidado já basta. Por essa razão, muitas se escravizam em dietas, academias, cirurgias plásticas, para atender a esses anseios masculinos. Como toda retórica, o machismo se apropria dessas convenções para sedimentar ainda mais as suas bases sexistas na sociedade, a qual ao invés de discordar passa a legitimar o discurso de que homens são superiores às mulheres, o que resvala em diversas outras práticas.

As vantagens, nesse sentido, são muitas. Homens não menstruam, nem engravidam, tão pouco são impostos a tomar anticoncepcionais. Costumam ser orientados sexualmente mais cedo e com mais liberdade. Descobrem o prazer de infinitas formas, muitas vezes sem sofrer qualquer julgamento ou repreensão da sociedade. No mercado de trabalho, ainda são maioria nos cargos de liderança e recebem mais que elas, mesmo assumindo funções idênticas. Muitos não estão nem ai para a aparência, mas apontam ferozmente as mulheres mais “desleixadas”. Foram educados a pagar as contas, a ser a última voz dentro de casa. A ser macho, viril e outros clichês do gênero. É um checklist vantajoso, quando visto de longe com os olhos do passado. Hoje, porém, só traz desvantagens. Homem não pode chorar, ser sensível, vaidoso, sem receber a alcunha de gay. São péssimos amantes na cama, mas avessos ao diálogo quando são chamados atenção por suas parceiras. Muitos são irresponsáveis com as tarefas paternas, da concepção à gestação. Se acham autossuficientes financeiramente e não admitem ganhar menos que a companheira. Assumir as tarefas de casa? Jamais!

Diante disso, a única vantagem de ser homem que vejo é a fragilidade de um gênero, que precisa usar a força do preconceito do passado para subjugar o outro através da violência física, simbólica e ideológica, mas, no final, esse mesmo “ser homem” é, de fato, o sexo mais frágil de todos. Regrado a muitos nãos, tornou-se escravo da própria ideologia em que foi construído. Vive numa eterna contradição, buscando manter vivo seus paradigmas ancestrais de comportamento em detrimento as exigências da modernidade, a qual tem usado a militância, a politização de certos temas, sua bandeira para se questionar determinadas condutas. Então, ilhado em suas verdades falaciosas, muitos se bifurcam em seus ideais: ou se rebelam completamente ao modelo patriarcal replicado pela sociedade e trazem à tona um novo perfil de homem, repaginado, mais aberto às discussões, sobretudo feministas, dispostos a entender a zona de privilégio em que foram criados e trabalhar para equalizar a questão. Ou faz como a maioria, reluta ferozmente contra essas mudanças, inadmitindo que há algo errado em ser um “homem à moda antiga”, com seus dizeres e práticas machistas mais aborígenes.

Portanto, depois de anos de imposição sobre os papeis exercidos por homens e mulheres, agora a ideia é relativizar esse modelo “Macho Alpha x Fêmea Gama”. Nada mais justo diante dos levantes feministas voltados a problematizar o que sempre foi visto como natural. Como todos os preconceitos arraigados na sociedade, o machismo tem raízes bem profundas, entranhadas em nossa cultura. Não basta podar seus galhos ou arrancar suas ramas, é preciso exterminar as sementes e esterilizar o solo fértil de ignorância onde ele costuma germinar. Para isso, urge educação sexual clara, plural e urgente para meninos e meninas, e não esse emaranhando de conotações distorcidas sobre a prática sexual voltada a privilegiar apenas um gênero da questão. Essa pudicícia antológica é uma das responsáveis por masculinizar nossa visão sobre os comportamentos humanos, criando seres superiores e inferiores, quando, na prática, todos saem perdendo. A meta, então, seria desconstruir o machismo e suas variantes, dando a homens a mulheres a autonomia sobre suas visões sexuais sem o julgo alheio. Isso impediria coisas mínimas como papos sexistas em meses de bar, a outras mais graves protagonizadas em casa, no trabalho, na rua, etc. Todos sairiam ganhando.



Se os heróis do mestre Cazuza morreram de overdose, os heróis da galerinha de hoje vão ao “Encontro”, com Fátima Bernardes
“No meu tempo era melhor!”. Quantas vezes você falou ou ouviu alguém falar isso? Vocês são saudosistas chatos? Essa possibilidade não pode ser descartada, mas talvez a resposta seja “não”. Talvez seus tempos, em alguns aspectos, tenham sido melhores mesmo. Como isso pode ser medido? É possível mensurar algo que, em princípio, é basicamente opinião subjetiva? Um parâmetro interessante, embora discutível, é medir esse valor por meio dos ídolos de cada era.
Se forem esses os termos, claro, não vai faltar quem defenda que Ronaldo é melhor que Neymar, que Romário é melhor que Ronaldo, que Zico é melhor que Romário, que Pelé é melhor que Zico e que Sócrates é melhor que todos. Mas a questão não é tão simples. No caso desses atletas a excelência, ou mesmo o gênio, é evidente em todos. Não serão estatísticas ou jogadas gravadas em vídeo que definirão opiniões, mas apenas o gosto pessoal pelo estilo ou personalidade de cada jogador. O problema surge quando toda uma geração de ídolos é inapelavelmente medíocre.
Os medíocres sempre existiram em todas as atividades humanas, seja nos esportes, na política, nas religiões, nas ciências, na guerra ou na cultura. Estamos acostumados com eles. Em muitos casos são inofensivos ou mesmo necessários. A ameaça se revela quando se tornam dominantes, como é o caso no cenário cultural brasileiro. Podemos observá-lo em vloggers, blogueiros, socialites, literatos e cineastas, entre outros. Mas onde esse fenômeno se torna mais evidente é na música popular. Tenho certeza de que você já se pegou assistindo a um desses programas de auditório dominicais, durante a apresentação do cantor ou cantora do momento, e pensou: “ei, eu consigo fazer melhor” ou mesmo “ei, no boteco aqui perto de casa já vi fazerem melhor”. O que pode parecer despeito em um primeiro momento (afinal, você só está deitado preguiçosamente no sofá e não apresentando sua “arte” na telinha mágica para milhões de espectadores), talvez seja a mais pura e cristalina percepção da verdade. O rei está nu. Salvo se você realmente for um cantor de bar; nesse caso é despeito mesmo, e é você quem precisa se vestir.
Em todo caso, observem os campeões de audiência da atualidade. Nem preciso citar nomes (para não ser processado nem datar esse artigo). Repare que eles não são particularmente bonitos, nem particularmente inteligentes, nem particularmente articulados, nem particularmente talentosos, nem particularmente nada. São pessoas absolutamente comuns. Nos tempos áureos de Hollywood se costumava dizer que, por baixo do glamour e da maquiagem, estrelas como Marilyn Monroe ou James Dean só queriam ser pessoas comuns, mas não conseguiam porque eram monstros de talento ou carisma. O caso aqui é o inverso: nem o glamour cafona nem os quilos de maquiagem escondem que são pessoas medíocres.
Entendo que a palavra “medíocre” é forte. Uma palavra que choca, agride a sensibilidade dos mais ensaboados. Parece que estou ofendendo, diminuindo ou desqualificando a pessoa. Longe disso. O termo “medíocre” costuma ser mal usado e ainda mais mal interpretado. Eu o utilizo em seu sentido original: medíocre significa mediano. Nem ruim, nem bom. Nem quente, nem frio. Morno. Em relação aos “artistas” do tal programa dominical, esse é o melhor diagnóstico. É o famoso caso do “antes se era famoso por ser especial, agora se é especial por ser famoso”. Até o Troféu Imprensa, que sempre foi uma piada, já teve dias melhores. Éramos felizes, e não sabíamos, na época em que Fábio Júnior era eleito o melhor cantor do ano e ganhava sua simpática imitação de Oscar. Essa sensação apocalíptica é reforçada quando vemos que muitos dos ídolos atuais dançam diante de milhares de fãs em seus shows, mas se saem mal na Dança dos Famosos, onde se exige um mínimo de disciplina e técnica (e ainda ganham nota 9,5). Como explicar esse paradoxo?
Tenho uma teoria: a culpa é da internet. Sim, eu sei, a culpa de tudo é da internet. Sei que muitos ingênuos acham que o ser humano não pisou na Lua por culpa da internet, sei que outros tantos acham que os Illuminati dominam o mundo por culpa da internet, sei que milhões acreditam que o seriado Chaves é coisa do capeta por culpa da internet, sei de tudo isso. Não é disso que se trata.
O fato é que a internet popularizou o acesso à informação, à desinformação, à pornografia, à possibilidade de dar opiniões e a muitas outras coisas, mas popularizou, sobretudo, a sensação de que “qualquer um pode chegar lá”. A internet é o punk do século 21. O movimento punk defendeu que só era preciso saber tocar três acordes para se montar uma banda, que o importante era ter atitude. Isso é absolutamente verdadeiro e positivo, e abriu um oceano de possibilidades de iniciativas, mas no caso dos atuais “ídolos populares”, criou um lamentável efeito colateral.
A internet sempre foi ao mesmo tempo uma aliada e um estorvo para as grandes corporações de mídia. Atualmente, mais um estorvo. E não nos enganemos: ninguém fica famoso, mas famoso mesmo, não um simples “conhecidinho”, se não estiver de algum modo atrelado a uma dessas empresas. Fama é como dinheiro na Bolsa de Valores. Se você investir pouco esse pouco pode não virar nada ou aumentar um pouco, se investir muito os riscos e os lucros são potencialmente gigantescos. Por isso se procura minimizar os riscos. Grandes empresários artísticos só apostam no certo, jamais no duvidoso. Para isso testam o mercado e chegam a fórmulas. Essa é a essência do pop. Reúna um conjunto de elementos que comprovadamente agradam o público-alvo de determinado gênero musical e invente um “artista” para incorporar esse estilo criado em laboratório. Você nunca se perguntou por que cantores absolutamente desconhecidos de repente se tornam celebridades e ganham disco de ouro numa época em que quase não se vendem discos? O pop desconhece o elemento humano, o pop é uma grife. Tanto faz se é fulano, sicrano ou beltrano, o que importa são o investimento e o retorno.
Existe o pop do sertanejo, o pop do rock, o pop do samba, o pop do rap, o pop do funk, o pop do heavy metal, o pop do gospel, o pop do erudito e até o pop do pop (um abraço para os meninos do KLB!). Na prática, o pop não é o gênero, mas a versão pasteurizada do gênero. Essas fórmulas milimetricamente pensadas para agradar grandes fatias do mercado são o que se apresenta nos programas de auditório dominicais. Não podem ter nada que lembre “atitude”, para não correr o risco de desagradar potenciais consumidores. O discurso politicamente correto precisa estar na ponta da língua, ainda que a aparência venda um tipo de rebeldia domesticada. Exatamente por isso os atuais sertanejos universitários se vestem como roqueiros limpinhos, enquanto os verdadeiros roqueiros limpinhos fazem discurso contra as drogas e as cantoras deixaram de ser fêmeas alfa carismáticas para se transformarem em meninas fofinhas do tipo “essa é para casar”. E todos fazem coração com as mãos. É a consagração da estética “teletubbie” apregoada pelo grande profeta do apocalipse, Lobão. Assim, entre galãs sem virilidade, periguetes carolas, groupies virgens, safadões com discurso família e coisas do tipo, vai-se levando a vida e o fluxo de caixa não para. Na dúvida, pegue um livro de colorir, um Danoninho, que vale por um bifinho, e um Yakult, com milhões de lactobacilos vivos. Afinal, alguém precisa ter vida nesse mundo de homens-massa.
Sim, ser medíocre é preciso, viver não é preciso. Sem passar a santa sensação de mediocridade não se gera a identificação com a plateia. Acabou-se o tempo em que o grande público se contentava em ficar abismado com as metamorfoses e a dança de Michael Jackson, com a voz e a erudição de boteco de Renato Russo ou a pinta de galã de fotonovela de Paulo Ricardo. São coisas muito distantes. O internauta precisa se sentir capaz de ser e de fazer o que seu ídolo faz para ficar à vontade para consumir, sem ser consumido pela inveja. Tudo deve estar a um tutorial de distância. No máximo.
Os fãs dos ídolos medíocres, quando pararem de xingar muito no twitter, podem até conseguir se defender com o extraordinário e inédito argumento de que “gosto não se discute”. Mas, como provou o crítico Carlos Augusto Silva, gosto se discute sim, o que não se discute é preferência. O indivíduo é livre para preferir sorvete Kibon a Häagen-Dazs, mas ao fazer isso, automaticamente assina um atestado de mau gosto.
Os intelectuais ligados à UFE (Universidade Federal do Esquenta), pesquisadores altamente reconhecidos por seus esforços acadêmicos em agradar a galera do Piscinão de Ramos e de Caldas Novas, podem argumentar cientificamente que se trata apenas de uma questão de geração. Cada geração possui suas referências e todas são igualmente válidas, não podendo ser quantificadas nem qualificadas, exceto se envolver alguma música, peça ou livro de nosso querido Chico Buarque (te amamos, Chico, diga não às drogas!). Acho essa explicação, no mínimo, condescendente.
Não sou ingênuo a ponto de achar que “no meu tempo” havia pureza. Sei muito bem que o show sempre foi business, mas também me parece que houve tempos em que até o lixo era mais bem produzido e podia ser reciclado. Por exemplo: na época do Rock Brasil da década de 1980 o zeitgest era o mesmo para todos, mas havia uma nítida hierarquia estética entre as bandas. Pode-se dizer que Titãs e Legião Urbana estavam no topo e Plebe Rude e Capital Inicial gozavam de certa respeitabilidade, mas ninguém levava a sério Kid Vinil e Os Heróis do Brasil, João Penca e Seus Miquinhos Amestrados, Rádio Táxi, Placa Luminosa ou Absyntho. O que não impedia ninguém de se divertir com as aventuras do Ursinho Blau Blau.
O ponto é que existia certo senso de individualidade e de proporções, ainda que diluídas no imaginário coletivo. Atualmente, todas as duplas de sertanejo universitário parecem iguais, ainda mais do que os exércitos de pagodeiros da década de 1990. Ali pelo menos alguns vocalistas possuíam personalidade, destacando-se dos clones que sacolejavam atrás deles. Taí o Anderson do Molejão, que não me deixa mentir (Molejo é melhor que Beatles? Não vi Beatles, mas vi Molejo? Assunto para outro artigo.). Não é por acaso que depois de décadas sendo espinafrados pela crítica especializada, hoje Zezé di Camargo e Luciano (“Dois filhos de Francisco” é ótimo!), É o Tchan e Sidney Magal tenham se tornado “clássicos” de final de festa. Se o valor estético da música é questionável, a “atitude” fez com que permanecessem na memória afetiva. Atualmente, tentar ser original é considerado pedantismo. “Tá querendo aparecer”, diriam. Mas o objetivo de todo artista não é justamente aparecer?
Acho interessante quando perguntam para um desses fãs o que mais gostam em seu ídolo medíocre e a resposta é: “ele é uma pessoa humilde”. Também acontece muito com participantes de reality shows: “vou votar em fulano porque é o mais humilde”. Como assim? Então devo admirar uma pessoa por ela ser humilde? Se for assim, talvez seja mais fácil admirar o empacotador da lojinha da esquina, um sujeito superlegal e humilde, fica até mais fácil para pedir autógrafos, ele está sempre por ali. Um artista, para pelo menos tentar ser artista, precisa ter um mínimo de orgulho criador. Em alguns casos esse pode até ser o combustível para sua criatividade. O inverso nunca é verdadeiro – ou alguém já ouviu falar de humildade criadora? Se algum indignado intelectual da UFE se lembrou da “humildade científica” que Umberto Eco defendeu em “Como se faz uma tese”, sugiro que o releia, pois trata-se de outra coisa.
Mas, como diria o poderoso chefão Michael Corleone, são apenas negócios. É possível até vislumbrar que um ou outro desses ídolos medíocres seja mais talentoso e pretensioso do que sugere a imagem que desejam vender. Policiam-se para parecerem menores do que são. Se não é uma opção artística honesta, é uma opção comercial compreensível. A vida é dura e a fama só dura quinze minutos, já dizia Andy Warhol. É preciso aproveitar o momento, para no futuro não aparecer todo botocado pedindo ajuda nesses programas de terça à tarde para donas de casa. Artista assombrado por seus fantasmas internos é coisa de gente que morreu com vinte anos, de tuberculose, no século 19; ou de overdose entre as décadas de 1950 e 1990. Se os heróis do mestre Cazuza morreram de overdose, os heróis da galerinha de hoje vão ao “Encontro”, com Fátima Bernardes.
Felizmente, se a internet trouxe a doença, ela também tem a cura. Em pequenas doses. Também é na internet que se encontram verdadeiros oásis de criatividade. Não só em música, mas também em literatura, artes, humor, quadrinhos, audiovisual, crítica e em muitas outras áreas. Só é preciso ter paciência para procurar. Esses criadores virtuais ganham cada vez mais notoriedade, e os limites são potencialmente infinitos. Afinal, sabemos o que é a internet hoje, mas não sabemos o que será amanhã. Não há mesmo muito o que fazer para melhorar esse cenário cultural, fora continuar apostando na tática de guerrilha via internet. Seja como for, não parece ser um negócio tão ruim, considerando que o programa “Ídolos” não criou nenhum ídolo, o programa “Super Star” não criou nenhuma superestrela e o “The Voice Brasil” tem a Claudinha Bagunceira no júri.

Visto na: Revista Bula

Sou um dos muitos conectados às redes sociais. Tenho Facebook, WhatsApp, Blogger, Instagram, que é meu atual vício. Apenas o Twitter não me fisgou. Como todo o usuário, faço das minhas redes o que bem entender, embora, no meu caso hoje seja mais uma ferramenta de trabalho. Sob esse prisma, procuro manter relações distintas para cada um desses veículos, privando-me de certas exposições em uns e me revelando em doses homeopáticas em outros. Mesmo sendo assíduo nesses novos veículos de comunicação, nem sempre é possível estar 100% conectado frente às demandas diárias. Quem consegue fazer isso em equilíbrio com as exigências da vida, parabéns, mas não é o meu caso. Acredito que muitas pessoas sejam como eu, se dividindo entre os mundos real e virtual. Porém, essa justificativa parece não ser o suficiente. Fui há poucos dias excluído de um grupo de “amigos” no zap, sob a alegação da falta de interação. Então, resolvi escrever como essa experiência me fez refletir sobre as imposições comunicativas na rede e a rapidez como somos descartáveis quando não aderimos as suas normas. 

O mundo moderno tem pressa e as redes sociais personificam o cronômetro dessa realidade. Logo, não basta ter um perfil nelas, é preciso postar continuamente. Ao acordar, dar bom dia, atualizar o status, publicar nos stories, curtir os perfis alheios, comentar, compartilhar se for preciso, repetir esse processo várias vezes ao longo do dia, e esperar o retorno dos seguidores. Todo esse ritual é divertido, não nego. É o que garante o estrondoso sucesso dessas novas ferramentas: permitir ao usuário o sentimento de pertença em meio a um mundo de infinitas possibilidades. Por isso é tão convidativo, porque oferta a todos a chance de ser mais um protagonista no terreno virtual. O problema é que, com isso, impõem-se uma obrigatoriedade ao entretenimento. Então, sem percebermos, da mesma medida que somos cobrados a estar conectados, fazemos o mesmo com o outro, que nem sempre compactua com a nossa rotina de vida. Internautas menos presentes são os mais prejudicados nesse sentido. Para estes, a rede não aceita ficar em segundo plano, por mais que a vida real necessite de atenção, as mídias sociais exigem nossa total exclusividade. 

Faço parte desse grupo. Divido o meu tempo entre trabalho, família, amigos e o lazer, que inclui ler, escrever, dançar e postar nas minhas redes sociais. Mesmo estando em último, estar na rede sempre se faz presente de uma forma ou de outra. Em meio a isso, tento, do meu jeito, estar atualizado nesse sentido, mas, confesso, que não consigo fazer isso com tamanha eficiência como antes. Recebo muitas mensagens e sinto uma preguiça capital em respondê-las de imediato. Grupos no zap, dos quais o falatório geralmente é infrutífero, eu me reservo o direito de pertencer a poucos, só os estritamente necessários. Morro de tédio em ficar horas e horas no bate papo em uma dessas redes, mais enchendo linguiça do que interagindo propriamente dito. Talvez essa minha impaciência se deva não apenas a minha realidade de vida, mas também ao meu perfil como usuário. Todavia, isso não deveria ser relevante para me excluir do contato nessa atmosfera. Me senti como um dos muitos “Hater’s”, que mancham de ódio à rede, quando vi que fui excluído daquele grupo apenas por não me comunicar com frequência. 

De fato, tamanha impaciência se deu após a popularização dos aplicativos de mensagens rápidas. Neles é preciso visualizar o que foi digitado e, instantaneamente, respondê-las. Deixar alguém no “vácuo”, como se diz, é visto como desrespeitoso. Esquecer, então, é um sacrilégio. Não posso falar sobre todas as ocasiões em que essa “falha” na comunicação ocorre, mas a mais costumeira delas trata-se justamente quando uma das partes não pode atender aquele chamado, ainda mais se forem vários ao mesmo tempo, pela simples razão de estar ocupado. Tal status costuma ser ignorado. Esse imediatismo na interação é imensamente prejudicial por não respeitar o tempo que cada pessoa possui para se manifestar na rede, independente do grau dela de conhecimento e/ou entendimento dessas novas tecnologias. Estipula um ritmo cibernético de interação não compartilhado por todos e que nem sempre resvala numa comunicação qualitativa, apenas distribuição de postagens prolixas e, muitas vezes, desnecessárias. Decerto, é uma forma egoísta de se comunicar, em um espaço onde, teoricamente, é a liberdade interativa a base das relações. 

Em meio a isso, adicionar e rejeitar têm suas funções distorcidas. Há internautas que adicionam, sem culpa ou medo, qualquer desconhecido em suas redes sociais, enquanto há outros que rejeitam vizinhos e parentes próximos, para evitar certas intimidades. Não julgo quem possui essas condutas. Cada um sabe, ou deveria saber, o que fazer com as suas páginas virtuais. Entretanto, mesmo após aceito, o indivíduo recém chegado precisa fazer valer a sua chance, materializando-se de alguma forma na rede, caso contrário será banido dela como se não preenchesse os pré-requisitos para estar ali. Acredito que não é por ai. Evidentemente que, a partir do momento que fazemos parte de um núcleo virtual, precisamos nos fazer presente, de preferência com perfis ativos. Mas, ser ativo, neste sentido, não quer dizer viver inteiramente na vida virtual apenas para atender aos anseios de internautas que, provavelmente, possuem mais tempo livre para isso do que outros. Da mesma maneira, não devemos apontar como erro o inverso, desde que, é claro, não seja algo vicioso beirando a total dependência. 

Diante disso, não me sinto nem um pouco culpado em ter sido excluído de um grupo de “amigos” onde me fazia presente apenas quando era possível. Nenhum deles foi desavisado sobre a minha rotina na hora de me incluir. Também não os culpo pela minha retirada. Isso faz parte do roteiro prescrito para quem quer pertencer ativa/assiduamente na rede, mesmo que, para isso, prive momentos preciosos no mundo real. A minha crítica parte dessa silenciosa prática e que resvala em tantas brigas virtuais, términos de relacionamentos, desencontros e desenganos, oriundos apenas da falta de compreensão para com o outro. Também é fruto da rapidez como fomos lançados à rede sem sermos educados a proceder o minimamente tolerantes possível nelas. Por isso, o discurso de ódio ganha força, porque não só não se tolera a livre expressão do pensamento, quanto não se permite não existir na rede. Surge, então, o emergencialíssimo linguístico nas mensagens, que não podem esperar para serem lidas, respondidas, curtidas e compartilhadas. É uma pena. A comunicação poderia ser mais divertida e eficiente nessas plataformas sem todas essas obrigatoriedades. Pois, por mais pressa que tenha a rede, a vida tem muito mais.


"... Aquela, que por um momento de humanidade, sonhou com a justiça, lutou por liberdade e ousou ir mais alto do que permitia sua cor". (Anielli - Poeta, Volta Redonda)
           
            A vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, juntamente com o motorista Anderson Gomes, fora barbaramente assassinada com extensos nove tiros, quatro dos quais, cirurgicamente projetados em sua cabeça. Isso definitivamente não é detalhe! Como não é filigrana contar que Marielle era mãe, jovem, pobre, negra, militante dos direitos humanos e socialista.
            Seu assassinato deve ser melhor compreendido e interpretado; já é questão latente e nevrálgica do tamanho do Brasil e evidentemente, não é fruto somente da ação de um indivíduo ou grupo de indivíduos; bem mais complicado, o monstro que levou sua vida é antes, um tempo que sintetiza contemporaneamente a guerra aberta e escancarada entre as classes sociais e que, como bem atestamos, segue firme, profunda, teimosa e em definitivo, sem prazo de encerramento. Aliás, poucas as vezes um crime se apresentou com carga simbólica tão densamente presente.
            Quem matou Marielle? Eu digo que foi o tempo! Isso mesmo... O tempo! Não me refiro a esse tempo cronológico, esse tempo que se mede, que se conta, 'de relógio'. Nada disso! É o tempo como tendência, como movimento e que não está flutuando, flanando caótico, boiando sobre as existências humanas mas que, ao contrário, se apresenta, se revela íntegro sobre as coisas materiais e imateriais. Esse tempo está nas ideias, nos discursos e na estética; nas artes, em suas produções e na política; em discursos raivosos, de pleno ódio e nas relações que o poder estabelece, sobretudo, para com os menores e desassistidos.
É tempo integralmente espraiado sobre o Estado e seu funcionamento, suas prioridades, opções e formas de acontecimento. Marielle está e vai continuar no tempo; neste tempo que produz contradições, conflitos e em suas consequências absolutamente imprevisíveis.
            Fui claro? Não, claro que não... É que não é possível ser claro com algo tão doloroso, tão profundamente dramático e sofrível. É possível a dor, sua expressão e, quem sabe, algum dialogo a respeito. Particularmente, estou arrasado, acho-me um caco humano, "um pote até aqui de mágoas" como canta o poeta; uma chaga aberta e que sangra. Vou falar dessa dor...
            Haverá algum sentido na morte de Marielle se, e somente se, for politizada; não poderia ser diferente; é que é assassinato político; é acontecimento abertamente político; como são políticos os cortes sistematizados de verbas para a saúde, educação, moradia e assistência social; como, da mesma forma, é determinação política a matança fabril de cinquenta mil garotos negros ao ano nas cidades do Brasil; o genocídio de mais de quarenta mil mulheres pela bala, fome, estupro ou desamparo puro e simples.
            O drama é que Marielle não vai parar de morrer... Sua segunda morte, que já está se dando, acontece pelo conceito; se entendermos, vejam bem, que sua execução fora apenas a "violência" do Rio de Janeiro a estaremos eliminando pela segunda vez. Por obséquio, não sejamos tão ingênuos assim... Essa moça não fora morta pela "violência"; não digam isso... É tudo o que os donos do poder querem ouvir; é a narrativa dos sonhos porque os isenta, inocenta e legitima para continuarem em sua marcha por poder e mais poder.
Aliás, o discurso fácil e em drágeas da violência é apenas a recepção do prédio; é preciso entrar, tomar o elevador e ir para o andar mais alto para, de lá, ver a paisagem, contemplar o "deserto do real" milimetricamente concebido e construído para engolir Marielle e que está me devorando e devorando a cada um de nós.
            Retomo a ideia de tempo porque fora justamente esse tempo feito, alimentado e potencializado que conferiu condição, sentimento, afeto e política para que essa jovem liderança fosse executada de maneira tão vil e covarde. E o tempo não é como a gravitação universal que nos traz o dia ou a noite; é produzido, manufaturado; é, por sinal, objeto de disputas e está carregado de intencionalidades; os vencedores lhe impõe valor, sentido, dinâmica e forma de atuação.
            E é essa trágica e específica lógica que assassinou Marielle! E a sinistra pedagogia da sua morte me tocou profundamente! Justo na cabeça! Gostaria de pensar sobre isso! É que a cabeça de um ser humano é a convergência da luz, é o vértice ótimo onde ideias são formadas a partir de conceitos, sensibilidades, aprendizados, percepções e experiências pessoais. É ali que reside o pensamento, o instrumental fundamental para o debate, a exposição, a contradita, a defesa daquilo que é certo, adequado e justo.
            E logo ela, uma mulher de ideias, palavras, intervenções e defensora de políticas para os que mais precisam... É o tempo que levou e não levou Marielle. Que a matou e que jamais irá conseguir matá-la!
Agora Marielle Franco vai ser semeada em todo esse país de sangue para darmos forma para um tempo de justiça, belezas e poesias.

*Economista, cientista político, doutorando na USP e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG)


Visto no: Brasil 247


Que a pedofilia encontra no Brasil um terreno fértil com muitos seguidores, isso é sabido. Imaginem o que seria desta nossa sociedade patriarcal e machista sem as revistas masculinas que transformam moças de 18 anos em meninas de 12?
Afinal de contas, se tem peito e bunda, se tem corpo de mulher, está pronta para o sexo, não é mesmo? E se está pronta para o sexo, por que não ganhar uns trocados para ajudar no orçamento familiar?
Ao julgar o caso de um homem acusado de estuprar três meninas de 12 anos, a Terceira Seção do Superior Tribunal de Justiça considerou que ele não cometeu crime porque as meninas já eram prostitutas. “As vítimas (…) já estavam longe de serem inocentes, ingênuas, inconscientes e desinformadas a respeito do sexo. Embora imoral e reprovável a conduta praticada pelo réu, não restaram configurados os tipos penais pelos quais foi denunciado”, afirmava o acórdão.
O STJ levou em conta para a sua decisão o artigo 224 do Código Penal que, na época do ocorrido, considerava que o crime deveria ser cometido mediante violência – presumível, a bem da verdade, quando se tratava de pessoas com menos de 14 anos. O artigo foi alterado há três anos, deixando mais claro que violência não se faz mais necessária para configurar o crime.
Ari Pargendler, presidente do STJ, afirmou à Agência Brasil, nesta quinta (29), que o tribunal poderá revisar a decisão tomada pela Terceira Seção da Corte. O pedido para tanto poderá partir do Poder Executivo, como informou a ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário.
Essa discussão não é sobre o direito da mulher ao seu corpo (que deveria ser inquestionável e protegido contra qualquer tipo de idiotice), mas de defender que crianças e adolescentes não sejam abocanhados pelo mercado do sexo. Não estou discutindo o sexo dos adolescentes, mas sim o seu uso comercial. Muito menos a legalidade da prostituição (e enquanto se discutia isso, mulheres que trabalhavam pesado a vida inteira sofreram na velhice, desamparadas e desassistidas). Estamos falando de meninas de 12 anos que podem até não ter sido empurradas para essa condição por pressão familiar, mas sofreram influência externa sobre sua sexualidade – da TV, dos amigos, de vizinhos, de ofertas irrecusáveis de bens materiais ou dinheiro, que atiçaram desejos ou fantasias sobre si mesmas e o mundo.
Por isso, a decisão de entrar no mercado de sexo antes de determinada idade não é individual e não pode ser. O Estado e a sociedade vão tutelar essa criança até que ela tenha maturidade para tanto. E quando isso ocorre? A idade de 14 anos para estupro presumível em caso de relações sexuais é um referencial. Bem como o trabalho a partir dos 14 (no caso de aprendiz) também o é. Mas é um referencial imporante. É uma marca que garante um certo número de anos para os mais jovens se desenvolverem, sendo protegidos, antes de cair na selva. Nos separa, portanto, da barbárie de ter que lutar pela sobrevivência desde cedo.
É claro que o tipo de pessoa que enxerga apenas a parte externa ignora um processo de formação interna da jovem ou do jovem, que é irremediavelmente prejudicado quando ele é despido de sua dignidade.
Nunca vou esquecer a patética intervenção do nobre vereador paulistano Agnaldo Timóteo a favor da exploração sexual juvenil há cinco anos. Em um discurso na Câmara, ele disse que o visitante que vem ao país atrás de sexo não pode ser considerado criminoso. “Ninguém nega a beleza da mulher brasileira. Hoje as meninas de 16 anos botam silicone, ficam popozudas, põem uma saia curta e provocam. Aí vem o cara, se encanta, vai ao motel, transa e vai preso? Ninguém foi lá à força. A moça tem consciência do que faz”, declarou. “O cara (turista) não sabe por que ela está lá. Ele não é criminoso, tem bom gosto.” Para Timóteo, há “demagogia e frescura”.
E isso porque o Estatuto da Criança e do Adolescente proíbe a exploração sexual comercial de adolescentes até 18 anos.
Seguindo a linha de raciocínio, poderíamos legalizar uma série de situações em que há um descompasso entre a lei e a realidade. Deixaríamos de ter, em um passe de mágica, a prostituição infanto-juvenil, o trabalho escravo, o tráfico de seres humanos, fora preconceitos de raça, credo e classe. É só jogar por terra conquistas sociais obtidas na base do sangue e suor de gerações.
Em bom português, o que se propõe é o seguinte: já que o Estado e a sociedade são incompetentes para garantir que seus filhos e filhas dediquem sua infância aos estudos e ao desenvolvimento pessoal, vamos aceitar isso e legalizar o trabalho de crianças de 12 anos, incluindo aí a prostituição infantil. Por que o trabalho forma o cidadão.  ”O trabalho liberta”, como diria a frase na porta do campo de concentração de Auschwitz.
Em 2009, o STJ também havia afirmado que não há exploração sexual contra uma criança ou adolescente quando o cliente é ocasional. A corte manteve decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul que rejeitou acusação de exploração sexual de menores por entender que cliente ou usuário de serviço oferecido por prostituta não se enquadra em crimes contra o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Dois réus contrataram serviços sexuais de três garotas de programa que estavam em um ponto de ônibus, mediante o pagamento de R$ 80 para duas adolescentes e R$ 60 para uma outra. O programa foi realizado em um motel. O TJMS absolveu os réus do crime de exploração sexual de menores por considerar que as adolescentes já eram prostitutas. E ressaltou que haveria responsabilidade grave caso fossem eles quem tivesse iniciado as atividades de prostituição das vítimas.
Alguns vão dizer que é uma questão técnica, de interpretação – como se o conhecimento da realidade e a subjetividade não influenciassem nessas decisões. Enfim, pimenta nos olhos das filhas dos outros é refresco.
Passando o município maranhense de Estreito, cruzando-se a ponte sobre o rio Tocantins e entrando no estado homônimo, há um posto de combustível. Entre bombas de combustível e caminhões estacionados, meninas baixinhas oferecem programas. Entram na boléia por menos de R$ 30, deixando a inocência do lado de fora.
Prostituição infantil não é novidade. E nem é vinculada apenas a uma classe social: há denúncias e mais denúncias de políticos e empresários que alugam barcos e hotéis para consumir as crianças que compraram. Ou festas regadas a uísque nas grandes cidades. Mas é ruim quando a gente se depara com isso. Ver meninas que deveriam estar estudando para uma prova de sexta série vender seus corpos e encararem isso como parte da vida dá um misto de raiva e sensação de impotência.
Anos atrás, não muito longe dali, no Pará, me apontaram bordéis onde se podia encontrar por um preço barato “putas com idade de vaca velha”. Ou seja, 12 anos.
“Ah, mas tem menina que gosta.”
E, por trás desta justificativa, muito homem que gosta ainda mais.
Visto no: Blog do Sakamoto


Crianças eufóricas se reúnem para a colheita que aguardaram por um ano. Acordam cedinho para mergulhar nos aromas e cores do cacau. Frutos coloridos e ovalados se oferecem pendurados ao deleite dos olhos e ao alcance dos adultos. Do que eles colhem, elas carregam o que podem, abrem sem cerimônia e se lambuzam até não aguentar mais. Essa Páscoa feliz, comemorada anualmente no supermercado mais próximo, tem um preço que não está embutido nos valores dos ovos que a simbolizam: o trabalho infantil em lavouras de cacau africanas. A reportagem da SUPER visitou fazendas na Costa do Marfim e em Gana – países que exportam 65% de todo o cacau consumido no mundo – para conhecer o plantio e acompanhar o trabalho de ONGs que combatem o trabalho escravo infantil – fruto muitas vezes de tráfico de pessoas – nas roças em que nasce o chocolate.
Que trazem pra mim?
Já passa das 19h e os últimos raios alaranjados de sol começam a sumir por trás da floresta. O clima, que poucas horas antes era insuportavelmente abafado, aos poucos vai ficando agradável, e uma brisa começa a soprar timidamente. A copa das árvores é alta e a estrada de terra vermelha rasga a selva.
Pelas beiradas do caminho, trabalhadores caminham após mais um dia duro. Misturados aos adultos, crianças e adolescentes carregam facões que às vezes medem metade de suas alturas. Alguns deles, além do facão, carregam pesadas bacias na cabeça, carregadas de mamão, mandioca, couve ou água – tudo para consumo familiar. Quase todos estão descalços. A escola mais próxima fica a 10 km do vilarejo em que vivem. Trabalho? Só na agricultura mesmo. Além dos cultivos tradicionais de subsistência de cada família, um produto em especial é o grande empregador da região: o cacau.
Estamos na fronteira entre a Costa do Marfim e Gana, na costa oeste da África. A Costa do Marfim é o maior produtor e exportador mundial de cacau, seguido da vizinha Gana. De todas as amêndoas de cacau que saem daqui, calcula-se que 90% sejam cultivadas por agricultores de subsistência, como os que acabamos de descrever.
“Somos os maiores produtores de cacau, mas nós, os camponeses, sofremos muito. Somos os mais pobres do nosso país. O dinheiro que ganhamos com o trabalho não é suficiente, não dá para sustentar as famílias”, desabafa um trabalhador de fazenda de cacau em Gana que prefere não se identificar. A combinação entre pobreza, falta de escolas e recursos naturais valorizados internacionalmente resulta em uma aberração enfrentada por muitos países em desenvolvimento: o trabalho infantil.
Que trabalho eles têm?
Visto de dentro, um típico cultivo de cacau é tão vistoso e as sombras das árvores tão agradáveis que é fácil se distrair e acabar se perdendo. Seguindo os passos dos guias locais, aos poucos ouvem-se os ruídos das lâminas dos facões. Ao redor de uma pequena montanha de cacau maduro, quatro adultos quebram com destreza os frutos e depositam as amêndoas em uma bacia à parte. Ao redor dela, três meninos e uma menina, todos com menos de 10 anos, separam as amêndoas da polpa. Vira e mexe, uma ou outra criança pega o facão para terminar de cortar um fruto ou para brincar nos intervalos. Em outros cultivos, pré-adolescentes, já mais “responsáveis” na hierarquia de produção, manuseiam os facões o tempo todo, arriscando decepar partes do corpo junto com os frutos. Há quem defenda que a melhor maneira de quebrar o cacau maduro seja com um pedaço de pau, para evitar os acidentes com lâmina. Mas o costume local segue afiado.
Esse trabalho arriscado e precoce já é tradição familiar. “As crianças precisam trabalhar desde cedo para ajudar a família”, explica um ativista local que pede para não ter seu nome citado. O trabalho de crianças em várias regiões da África – sobretudo em atividades agrícolas – é visto com naturalidade, assim como em algumas regiões do Brasil. De acordo com a cultura de muitas etnias da África subsaariana, aprender o ofício do pai e da mãe, assim como cooperar com as tarefas domésticas, faz parte do cotidiano das crianças. “Não podemos confundir trabalho infantil com o fato de alguns filhos ajudarem os pais nas tarefas em casa. Nesse caso, é importante também que os pais respeitem os horários escolares para que os filhos não percam as aulas nem sejam colocados em situações de risco, usando facões, por exemplo”, argumenta Willy Kyeremeh, agrônomo que trabalha no setor de cacau em Ashanti, uma das maiores regiões produtoras de Gana.
O cenário, porém, é mais complexo. O trabalho infantil nas lavouras de cacau se divide em três tipos: o de auxílio na agricultura familiar, como continuidade do ofício dos pais; o trabalho fora de casa – com o consentimento dos pais – em troca de dinheiro para a família; e o trabalho clandestino, associado ao tráfico de pessoas. Em outras palavras, escravidão.
No sul da Costa do Marfim, é comum a presença de pessoas com aparência diferente dos ganeses e marfinenses. Eles têm a pele mais escura, olhos amendoados e traços árabes típicos de países como Mali e Burkina Faso. Embora Gana e Costa do Marfim enfrentem sérios problemas sociais e econômicos, a situação é ainda pior em alguns países vizinhos. Mali, por exemplo, é o 17º país mais pobre da África. Burkina Faso não fica muito atrás nesse quesito. Não à toa, desses países vêm a maior parte das crianças e adolescentes traficados para lavouras de cacau.
“Pela nossa experiência trabalhando aqui na região, existem relatos de que crianças traficadas são ‘alugadas’ por um valor que varia entre US$ 280 e US$ 380 por ano, e que muitas vezes são os próprios familiares que as entregam”, explica um funcionário da ONG Creer (sigla francesa para “Centro de Reinserção e de Educação para as Crianças de Rua”) que não quer ser identificado.
A Interpol realizou duas operações de combate ao trabalho infantil na Costa do Marfim, em 2014 e 2015. Na primeira, 76 crianças entre 5 e 16 anos foram resgatadas do trabalho escravo. Na segunda, o número dobrou: 150 reouveram sua liberdade. Segundo um estudo desenvolvido pela Universidade Tulane (EUA), mais de 1 milhão de crianças e adolescentes trabalhavam em plantações de cacau na Costa do Marfim em 2014. O número de menores envolvidos nas lavouras cresceu 46% entre 2009 e 2014.
“O governo local está trabalhando, tentando lidar com esse problema, mas os recursos são escassos e as empresas que lucram com o comércio de chocolate pouco se importam. Elas ganham milhões vendendo chocolate pelo mundo, mas não implementam uma medida sequer para amenizar o problema”, diz Chloe Grant, fundadora e presidente da Creer.
Fora da gaiola
Em uma região tão pobre, com total ausência de serviços públicos decentes, a Creer trabalha para amenizar o sofrimento de algumas crianças. Criada em 2010, a ONG funciona em uma humilde casa em Abengourou – cidade marfinesa a 30 km da fronteira com Gana. Na casa, apenas uma funcionária cuida das três crianças abrigadas pela ONG no momento. Seus nomes serão mantidos em sigilo, porém pode-se dizer que todas elas sofreram maus-tratos ou eram obrigadas a trabalhar. O menino mais velho, de 8 anos, é sério e fica dentro da casa. Ele tem a perna direita enfaixada, resultado de uma queimadura que sofreu como punição. Por isso, fugiu para viver na rua, até ser encontrado e acolhido pela Creer. A menina, um pouco mais nova, é tímida, mal consegue falar e passa o tempo se balançando num pneu pendurado na árvore do quintal. O caçulinha do trio, de 5 anos, talvez seja novo demais para entender a situação. É o mais animado e corre para lá e para cá com seus carrinhos de brinquedo.
“Trabalhamos muito para alertar os agricultores. Vamos para a floresta para educá-los, explicar como funcionam as leis. No entanto, existe uma demanda pelo trabalho das crianças nas fazendas, porque o preço do cacau está muito baixo. Por isso, acho pouco provável que a situação mude em um futuro próximo”, conclui Chloe.
Resta como esperança alguns oásis de educação, capazes de modificar a condição das crianças de maneira imediata. Em um dos muitos vilarejos visitados pela reportagem da SUPER – um dos poucos com escola –, um professor alto, magro e simpático se aproxima para contar sobre sua experiência com os alunos. “Desde que a escola começou a funcionar aqui em Ashanti, conseguimos manter as crianças afastadas do trabalho. Todas as comunidades da região deveriam ter uma escola. Antes, sem educação, as crianças estavam fadadas a seguir os passos dos pais. Agora, com a escola, a maioria diz que não quer trabalhar com cacau. Eles querem estudar para ser professores, médicos, advogados. E mesmo os que ainda pretendem se envolver com o cultivo do cacau no futuro sabem que existem outras oportunidades nesse mercado”, explica Dominique Sasu, com brilho nos olhos cor de chocolate.


Visto na: Superinteressante