16 setembro 2012



A homofobia continua a ceifar vidas pelo Brasil afora. Isto porque gays de todos os tipos são inumeravelmente assassinados e pouco é feito para que a bestialidade de tais atos seja contida. Dessa vez, a mais nova vítima da brutalidade humana foi à travesti Lorena Layalla. Pernambucana, morava em Recife e era bem conhecida no rol das travestis tanto pela sua simpatia quanto pela sua incontestável beleza. Ela foi encontrada morta com dois tiros à queima roupa, nas bermas de uma estrada. Este crime chocou todos que a conheciam. Porém, para além do emocionalmente choque que a morte dela causou em todos aqueles que convivam com Lorena, deve-se pontuar que esta barbaridade só ratifica a selvageria da sociedade contra a camada LGBT.

Deste grupo todos sofrem preconceitos, desde o homossexual másculo ou feminilizado, até as lésbicas de perfis semelhantes. No entanto, quando o foco são as travestis, a potencialização dos atos homofóbicos são bem maiores e as razões que justificam isso, ou pelo menos tentam, não são tão difíceis de serem percebidas. O perfil transgressor da travesti, com seu corpo moldurado em hormônios e silicones, representa uma possível afronta ao ideário feminino. Por esta atitude, a priori, elas causam tanto estranhamento e repulsa nas pessoas e até mesmo entre muitos homossexuais que não conseguem, muitas vezes, manter uma relação amigável com elas.

Outro ponto importante nesta discussão é o incontestável caminho herdado por muitas travestis pela sociedade, o da prostituição. Isto porque elas não são, de fato e de direito, prostitutas, mas sim prostituídas por uma sociedade hipócrita que enclausura suas fantasias sexuais, procurando externá-las em prostíbulos, ruas, avenidas e pontos de comercialização sexual diversos, onde as travestis reinam servindo de objetos para saciar a vontade daqueles que não têm coragem de revelar os seus reais desejos. Acuadas, sem espaço nem respeito, poucas são aquelas que conseguem escapar dessa sina, conseguindo um espaço digno na sociedade. Lamentavelmente, o destino das travestis atuais, e daquelas que irão surgir, é o da prostituição arriscada, na qual elas são fatalmente agredidas e, quando não, assassinadas por clientes insatisfeitos ou por os ditos homofóbicos, pessoas geralmente conturbadas e sem uma identidade sexual formada, que preferem exterminar suas inseguranças ferindo o outrem.

Tudo isso é potencializado pela nossa frágil educação sexual. Desde cedo somos educados aos ditames relacionados ao gênero feminino e o masculino. Essa polarização da sexualidade humana acaba de certa forma engessando a mente de crianças e jovens que não aprendem desde cedo que há uma ampla gama de gêneros, os quais devem ser vistos, compreendidos e respeitados por todos. Por isso que as travestis não são, ainda, aceitas. Não se ensina nas escolas que elas são pessoas normais como às outras, bem como todos os outros que compõe o núcleo LGBT. Devido a essa lacuna, crianças se tornam jovens ariscos e fechados a uma discussão mais profunda sobre sexo, sexualidade e identidade de gênero, virando, possivelmente adultos homofóbicos que irão tratar com desdém, repulsa, ou pior, com violência os homossexuais.

O fim de Lorena é a prova viva disso. Por mais que ajam inúmeras especulações sobre o caso dela, na verdade, ela foi vítima da intolerância, da demasiada limitação que a nossa sociedade ainda tem sobre a homossexualidade, a qual é nutrida por gerações, ora por uma educação amplamente sexista disseminada pela religião, ora pela ausência de um plano educacional voltado para construção de um debate escolar de inclusão, no qual a temática gay seria discutida de forma natural, para que as crianças crescessem respeitando a pluralidade humana. Lorena foi um dos incontáveis casos que ocorrem pelo país e que, infelizmente sucumbem ao ostracismo da nossa legislação, a qual ainda não fez algo concreto para impedir que mais e mais “Lorenas” sejam mortas por aí e tenham seus crimes insolucionáveis.

Por causa desse descaso, mais assassinos homofóbicos, covardes e desumanos se proliferam pela sociedade, vivendo clandestinamente a glória de não serem pegos. Na verdade, esses predadores, para muitos, agem como exterminadores, como se a homossexualidade fosse uma praga que tivesse que ser contida. Aniquilando vidas de pessoas honestas, esses monstros contam com o despreparo das delegacias e de leis que criminalizem seus atos. Além da satisfação pública de pessoas que compartilham da ideia de que a homossexualidade é algo demoníaco e antinatural, portanto, passível de controle e “cura”, como se a sexualidade admitisse escolhas ou crenças controversas. Daí percebe-se que o que matou Lorena não foi simplesmente um “ser humano” que, de posse de uma arma, resolveu encurtar a história dessa travesti, mas sim da sociedade como um todo que finge aceitar a homossexualidade, quando na verdade ela pouco está preocupada com as questões vividas pela camada LGBT.

Lorena nos deixou. Foi obrigada a nos deixar. Entretanto não há um vazio na sua partida, mas sim a busca por um preenchimento que deverá ser feito pela justiça, a qual precisa acordar, o quanto antes, para esse crime e tomar medidas drásticas para proteger as travestis, e os gays em geral, da fúria dessa sociedade encarcerada em tabus ancestrais sobre a própria sexualidade. As lágrimas de dor que escorrem dos rostos de amigos e familiares deverão ser compartilhadas por todos aqueles que se compadecerem com este crime, pois não foi à morte de um ser irracional, mas de um ser humano, que foi aniquilado pela intolerância de uma sociedade que está paulatinamente acostumada a banalizar a vida, sobretudo quando esta é de algum homossexual. Portanto, o fim de Lorena deve ser o início de uma luta contra o descaso, o desamor e, principalmente o desrespeito à individualidade humana e suas preferências. O que não se pode é deixar enterrar com ela a chance de encontrar maneiras de salvar tantos e tantos gays que sofrem ou poderão sofrer da mesma barbaridade que diminuiu a existência dessa travesti.

11 setembro 2012



Entreter o público com programas saudáveis deveria ser uma das principais metas das emissoras de televisão. No entanto, na busca incontrolável por altos índices de audiência, a mídia está cada vez menos preocupada com o nível da sua programação. Isto porque a bestialidade humana é explorada de forma exacerbada, com a exibição perigosa de cenas onde a selvageria entre as pessoas impera.

Algumas destas imagens são até “imperceptíveis” para os mais leigos que assistem a determinados programas, sem perceber a periculosidade do que está sendo transmitido para eles. Na verdade, utilizar a violência como ferramenta para atrair o público não é uma tática limitada ao homem moderno, porém, a forma como esse mecanismo vem sendo introduzido na vida da população requer uma apurada reflexão, uma vez que vivemos numa era regida pala banalização da vida e, consequentemente pela exaltação da violência.

Muito recentemente, um fenômeno esportivo vem tomando conta dos canais de televisão. As Artes Marciais Mistas, ou mais conhecida como MMA, é o tal esporte em destaque. Suas lutas são caracterizadas por golpes mistos, oriundos das várias modalidades marciais que essa luta pode contemplar. Ao assistir esses seres humanos em ação, digladiando-se como verdadeiras feras, logo vêm em mente às lutas realizadas nos coliseus romanos. Naquela época, era comum ter como entretenimento, combates entre homens que, animalesticamente lutavam entre si até a morte.

Esse espetáculo sangrento, no entanto, ganha na atualidade à versão moderna do MMA. Por enquanto, as mortes em combate nesse esporte não são tão corriqueiras como as dos romanos, mas a difusão desse tipo de luta nas emissoras televisivas é preocupante, visto que, numa sociedade violenta como a nossa, a potencialização de embates desse porte pode corroborar para a construção de mentes violentas, as quais não utilizarão da filosofia do MMA em suas vidas, mas sim os golpes, socos e ponta pés, como meio de defesa, ou pior, como ferramenta covarde de ataque.

No entanto, a mídia televisiva não se limita apenas em violentar os telespectadores com lutas desse tipo. Dentro da sua programação há outros shows dos quais a brutalidade predomina. Em novelas, filmes, seriados, por exemplo, há a difusão de cenas que muitas vezes não obedecem à classificação adequada para a faixa etária do público. Consequentemente, crianças e jovens entram cada vez mais cedo em contato com imagens que poderão distorcer a sua visão de mundo. São homens batendo em mulheres, ampliando a soberania masculina já engrandecida, negros sendo inferiorizados pela cor de sua pele, personagens socialmente estigmatizados, sem contar nas “calientes” cenas de sexo, que mais parecem uma cópula entre cães, apressando e estimulando a sexualidade desse grupo que ainda está em formação.

Dentro do âmbito pueril, destacam-se os desenhos animados que deveriam prezar por temáticas lúdicas, doces e contextualizadas com a idade dos baixinhos. Entretanto, o que se vê são animes cada vez mais brutais, os quais os personagens ensinam a machucar, a mentir, manipular, ofender e o pior a desrespeitar o ser humano. Com isso, nossas crianças crescem sabendo que a melhor forma de se defenderem do mundo é através da pancadaria, do ataque, esquecendo questões primordiais como a conversa e o diálogo. Por isso que cada vez mais encontramos crianças e jovens apáticos, arredios, sem controle, pois a falta de limites em casa, somada com a difusão errônea de conteúdos pela mídia, tem criado verdadeiras máquinas mortíferas mirins que, possivelmente irão praticar crimes mais graves, se algo não for feito agora para contê-los.

O que falar então dos telejornais, que mais parecem “realitys shows” de sangue, nos quais, estupros, assaltos, esquartejamentos, genocídios e uma gama imensa de carnificina passam quase que simultaneamente para os telespectadores, passivos e com fome de sangue. Não que a violência deixe de ser noticiada. É importante que a população seja informada sobre as barbaridades que são cometidas contra pessoas comuns, pois isto de alguma forma pode contribuir para que determinados crimes sejam solucionados. No entanto, espetacularizar a morte para trazer audiência, mostrando corpos ensanguentados, parentes desesperados, não parece ser uma conduta humana, mas a brutalização do homem ao desrespeitar a vida alheia, não se solidarizando com a dor do outro.

Parece que há uma necessidade humana de presenciar seus iguais em confronto. Brigas, confusões, assaltos, mortes, nada mais causa arrepio nem temores em quem vê pela televisão esse tipo de violência. Pelo contrário, a sede de sangue, de ver o oponente sendo nocauteado, ou alguém sendo de alguma forma machucado, aguça a adrenalina de muitos que encontram nesse tipo de espetáculo, difundido em demasia pela mídia, a oportunidade de extravasar as pulsações humanas mais repugnantes e que socialmente escondemos de nós mesmos. Sabendo disso, a mídia aproveita para difundir programas dos quais a violência aparece de forma descarada ou subliminar. Seja como for, ela é introduzida em nossas vidas e os prejuízos disso são quase que imperceptíveis a olho nu.



Tema: Influência do meio sobre o homem.

            Na democracia ateniense, a camada privilegiada era os seus cidadãos, homens livres, nascidos em Atenas e maiores de idade. Esses indivíduos eram os que poderiam exercer funções politicas. Hoje em dia, no Brasil, observam-se características das civilizações clássicas. São escolhidos pelo povo os representantes para gerir a nação, de certa forma deixando o governo centrado em uma pequena parcela. Surgir-se, assim, um cenário propício para a disseminação da corrupção, que vem ao lado da politica brasileira desde muito tempo, constatando a influencia do meio sobre o homem.

            Mensalões, desvio de verbas públicas, pagamento de propinas, contas no exterior entre outros escândalos caracteriza o ambiente de trabalho dos representantes do país. Os governantes disputam para aumentar seus ganhos e manter seus privilégios. Distanciando-se dos eleitores, desconsideram a suas funções seja elas no poder legislativo, judiciário ou ate mesmo no executivo. Colaborando para a péssima imagem ao exercer seus cargos de forma insatisfatória.

            Segundo os meios midiáticos, em um cenário composto pela corrupção políticos que agem de maneira coerente são motivos de chacotas, denominados de demagogos ou de Dom Quixote por muitos adversários. Como o deputado federal José Antônio Reguffe (PDT-DF) que abdicou de uma serie de benefícios, como a retirada do 14ª e 15ª salários e alguns assessores desnecessários, tornando-se incômodo para vários colegas de trabalho.

            Contudo, no Brasil o ambiente político impõe a corrupção aos indivíduos que ocupam algum cargo no poder executivo, legislativo ou judiciário. E aqueles que agem de forma correta, exercem as funções para qual foram designados honestamente se tornam alvo de piadas. Tal problema caminha com a sociedade desde tempos passados, mas se atitudes coerentes fossem tomadas no decorre das diversas situações. Poderia o meio influenciar o homem a realizar boas obras e deixar de lado a impunidade e a corrupção?
     
Aluno: Vinicius Rodrigues
Professor: Diogo Didier




  • " Ainda que o problema da liberdade seja insolúvel, podemos sempre discorrer sobre ele, colocar-nos do lado da contingência ou da necessidade... Nossos temperamentos e nossos preconceitos nos facilitam uma opção que circunscreve e simplifica o problema sem resolvê-lo. Se nenhuma construção teórica consegue torná-lo perceptível a nós, fazer-nos experimentar sua realidade espessa e contraditória, uma intuição privilegiada instala-nos no coração mesmo da liberdade, a despeito de todos os argumentos inventados contra ela. E temos medo; temos medo da imensidão do possível, não estando preparados para uma revelação tão vasta e tão súbita, para esse bem perigoso ao qual aspiramos e ante o qual retrocedemos. Que vamos fazer, habituados às cadeias e às leis, frente a um infinito de iniciativas, a uma orgia de resoluções ? A sedução do arbitrário no apavora. Se podemos começar qualquer ato, se não há limites para a inspiração e para os caprichos, como evitar nossa perda na embriaguez de tanto poder ? 
  • A consciência, abalada por esta revelação, interroga-se e estremece. Quem, em um mundo em pode dispor de tudo, não foi vítima de vertigem? O assassino faz um uso ilimitado de sua liberdade e não pode resistir à ideia de seu poder. Está dentro das possibilidades de cada um de nós tirar a vida de outro. Se todos os que matamos em pensamento desaparecessem de verdade, a Terra não teria mais habitantes. Trazemos em nós um carrasco reticente, um criminoso irrealizado. E os que não têm audácia de confessar suas tendências homicidas, assassinam em sonhos, povoam de cadáveres seus pesadelos. Ante um tribunal absoluto, só os anjos seriam absolvidos. Pois nunca houve ser que não desejasse - ao menos inconscientemente - a morte de outro ser. Cada qual arrasta atrás de si um cemitério de amigos e inimigos; importa pouco que esse cemitério seja relegado aos abismos do coração ou projetado à superfície dos desejos.
  • A liberdade, concebida em suas implicações últimas, coloca a questão de nossa vida ou da dos outros; comporta a dupla possibilidade de salvar-nos ou de perder-nos. Mas só nos sentimos livres, só compreendemos nossas oportunidades e nossos perigos, em certos sobressaltos. E é a intermitência desses sobressaltos, sua raridade, que explica por que este mundo não passa de um matadouro medíocre e de um paraíso fictício. Dissertar sobre a liberdade não leva a nenhuma consequência, nem para bem nem para mal; mas só temos instantes para dar-nos conta de que tudo depende de nós.




"Não se iluda. Fugindo ou não dela, é a morte que dá sentido à vida. É diante da possibilidade do fim que criamos uma existência que valha a pena. Sem ela, deixaríamos tudo para um amanhã que nunca chegaria, presos a um presente tão repetitivo quanto infinito. Calar a morte é uma burrice, já que inútil, mas é principalmente a perda de uma grande oportunidade para viver uma vida mais viva...A morte não é o contrário da vida, é o contrário do nascimento"

Eliane Brum


Usted se me llevó la vida
Y el alma entera,
Y se ha clavado aquí en mis huesos
El dolor con esta angustia y esta pena.

Usted no sabe que se siente perder,
No sabe que se siente caer y caer
En un abismo profundo y sin fe.

Usted se me llevó la vida,
Y aquí me tiene,
Como una roca que el océano golpea,
Que ahí está, pero no siente.

Usted no sabe lo importante que fue,
No sabe que su ausencia fue un trago de hiel
Que se ha quedado clavado en mi piel.

Usted no sabe, lo que es el amor
Y el miedo que causa la desolación,
Usted no sabe, que daño causó,
Como ha destrozado a este corazón,
Que tan sólo palpitaba
Con el sonido de su voz,
Con el sonido de su voz.

Usted se me llevó la vida,
Todas mis ganas,
Y me ha dejado congelada la razón
Y viva la desesperanza.

Usted no sabe que se siente perder
No sabe que su adios fue morirme de sed,
Que desgarró en este cuerpo su ser.

Usted no sabe, lo que es el amor
Y el miedo que causa la desolación,
Usted no sabe, que daño causó,
Como ha destrozado a este corazón,
Que tan sólo palpitaba
Con el sonido de su voz,
Con el sonido de su voz.

Usted no sabe de verdad como se ama,
Usted no sabe como he sufrido yo,
Usted es fría,
Y su maldad me hiere el alma,
Usted llenó mi vida, toda de dolor...

Usted no sabe, lo que es el amor
Y el miedo que causa la desolación,
Usted no sabe, que daño causó,
Como ha destrozado a este corazón...




Tinha de ser em Tupã o cartório que lavrou a primeira escritura brasileira de um “casal de três”: um homem e duas mulheres. Tupã, bem antes de ser uma cidade do interior de São Paulo, era o deus do trovão dos guaranis. E nós, caras-pálidas,
 sabemos que os índios nunca se interessaram pela monogamia. Por que a maioria de nós sente uma necessidade visceral de regular o amor e de se apropriar do outro a qualquer custo?

O trio familiar – “triângulo” virou coisa antiga por sugerir traição – é do Rio de Janeiro e só foi para Tupã oficializar a união estável porque está ali uma tabeliã de cabeça aberta: a paulistana Cláudia do Nascimento Domingues. Ela faz doutorado na USP sobre “famílias poliafetivas”. Um nome pomposo que evita a armadilha da “poligamia” e confirma uma tendência: adaptar o Direito a uma realidade bem mais plural que o casamento tradicional.

A tabeliã Cláudia – que vive com um homem uma união estável e sem filhos – tem sido procurada nos últimos meses por vários tipos de famílias, ansiosas para registrar o “poliamor” em cartório, assegurar direitos e comemorar visibilidade social. Família de três mulheres. Família de dois homens e uma mulher. Família de quatro pessoas: dois homens que moram no Brasil e suas duas parceiras que viajam muito. “Esta última é uma relação estável de cinco anos, e todos os amigos sabem que se relacionam entre si. É uma união ampla, conjunta, múltipla”, diz Cláudia.

A série de adjetivos revela uma dificuldade natural: como classificar o mundo novo do amor sem amarras. Como revestir de respeito e legitimidade o que muitos chamariam pejorativamente de “suruba”. Numa sociedade estruturada na monogamia, onde casais prometem, no altar, no cartório ou na cama, fidelidade até que a morte os separe, como aceitar formatos de família tão, digamos, criativos?

Os casais de três ou quatro pessoas que têm buscado o cartório de Tupã fazem parecer careta a “relação aberta” da geração hippie. Até os casais gays, chamados de homoafetivos, começam a ter um ar conservador... caso exijam exclusividade no afeto. No próximo século, segundo Cláudia, cuja orientadora na USP é uma desembargadora do Rio Grande do Sul, Maria Berenice Dias, não olharemos o homo ou o heterossexual pela distinção de gêneros: “Será uma preferência, como quem gosta de vinho ou de cerveja”.

“Onde está escrito que família precisa ser de um tipo só?”, pergunta Cláudia. “Não estamos inventando nada, não é? Na verdade, estamos voltando ao passado, aos gregos, ou então imitando os índios.”

A televisão já ilustra de forma folclórica os “poliafetivos compulsivos”, aqueles homens que elas costumavam chamar de “galinhas”. É o caso de Cadinho, personagem de Alexandre Borges na novela Avenida Brasil, com suas três mulheres. Foram elas, cansadas de ser enganadas, que decidiram compartilhar Cadinho num contrato com regras, horários, direitos e deveres. Em sua tese de doutorado, Cláudia pretende incluir papos com o autor da novela, João Emanuel Carneiro, e também com Pedro Bial, por seu programa das quintas-feiras, Na moral.

Para oficializar a união estável do trio do Rio, as primeiras preocupações de Cláudia foram: algum deles é casado? Não. Algum tem impedimento legal para viver em conjunto? Não. “Marquei com o homem e as duas mulheres para entender seus motivos. Não queriam casar. Só queriam definir regras em contas conjuntas, compra de imóvel, herança. Parentes e amigos já os tratavam como família havia alguns anos. Lavramos a escritura no fim de março. Até onde sabemos, é a primeira do tipo no Brasil.”

Apesar de pioneira, essa escritura é mais aceitável porque todos estão de acordo. E quando uma pessoa casada tenta registrar no cartório uma família paralela, sem conhecimento do cônjuge, para garantir os direitos do(a) amante? “É uma questão para a Justiça decidir”, diz Cláudia. Se a pessoa não se divorciou, pode até estar separada, mas, por ter uma união civil reconhecida, não pode legalmente registrar em contrato público uma família paralela. Mesmo que a relação, correta ou não, seja de amor. “Quando o Direito não oferece alternativa, as pessoas sempre dão um jeito. Fazem um contrato privado.”

Um dos casais que procuraram a tabeliã planeja driblar a lei. Eles são casados oficialmente, mas há uma terceira pessoa aceita pelos dois. Pretendem então se divorciar para, depois, constituir uma “família poliafetiva”. Tortuoso, não? Pois isso se chama realidade.
São exceções, mas, quem sabe, moram no apartamento ao lado do seu. E, caso encarem com honestidade o “poliamor”, quem somos nós – alguns nos engalfinhando por casos extraconjugais passageiros ou longos – para julgar o que é certo e errado na expressão do afeto e do desejo?

Ruth de Aquino


Sei muito bem que a língua, como coisa viva que é, só muda quando mudam as pessoas, as relações entre elas e a forma como lidam com o mundo. Poucas expressões humanas são tão avessas a imposições por decreto como a língua. Tão indomável que até mesmo nós, mais vezes do que gostaríamos, acabamos deixando escapar palavras que faríamos de tudo para recolher no segundo seguinte. E talvez mais vezes ainda pretendêssemos usar determinado sujeito, verbo, substantivo ou adjetivo e usamos outro bem diferente, que revela muito mais de nossas intenções e sentimentos do que desejaríamos. Afinal, a psicanálise foi construída com os tijolos de nossos atos falhos. Exerço, porém, um pequeno ato quixotesco no meu uso pessoal da língua: esforço-me para jamais usar a palavra “doutor” antes do nome de um médico ou de um advogado.  

Travo minha pequena batalha com a consciência de que a língua nada tem de inocente. Se usamos as palavras para embates profundos no campo das ideias, é também na própria escolha delas, no corpo das palavras em si, que se expressam relações de poder, de abuso e de submissão. Cada vocábulo de um idioma carrega uma teia de sentidos que vai se alterando ao longo da História, alterando-se no próprio fazer-se do homem na História. E, no meu modo de ver o mundo, “doutor” é uma praga persistente que fala muito sobre o Brasil. Como toda palavra, algumas mais do que outras, “doutor” desvela muito do que somos – e é preciso estranhá-lo para conseguirmos escutar o que diz. 

Assim, minha recusa ao “doutor” é um ato político. Um ato de resistência cotidiana, exercido de forma solitária na esperança de que um dia os bons dicionários digam algo assim, ao final das várias acepções do verbete “doutor”: “arcaísmo: no passado, era usado pelos mais pobres para tratar os mais ricos e também para marcar a superioridade de médicos e advogados, mas, com a queda da desigualdade socioeconômica e a ampliação dos direitos do cidadão, essa acepção caiu em desuso”.  

Em minhas aspirações, o sentido da palavra perderia sua força não por proibição, o que seria nada além de um ato tão inútil como arbitrário, na qual às vezes resvalam alguns legisladores, mas porque o Brasil mudou. A língua, obviamente, só muda quando muda a complexa realidade que ela expressa. Só muda quando mudamos nós. 

Historicamente, o “doutor” se entranhou na sociedade brasileira como uma forma de tratar os superiores na hierarquia socioeconômica – e também como expressão de racismo. Ou como a forma de os mais pobres tratarem os mais ricos, de os que não puderam estudar tratarem os que puderam, dos que nunca tiveram privilégios tratarem aqueles que sempre os tiveram. O “doutor” não se estabeleceu na língua portuguesa como uma palavra inocente, mas como um fosso, ao expressar no idioma uma diferença vivida na concretude do cotidiano que deveria ter nos envergonhado desde sempre.  
Lembro-me de, em 1999, entrevistar Adail José da Silva, um carregador de malas do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, para a coluna semanal de reportagem que eu mantinha aos sábados no jornal Zero Hora, intitulada “A Vida Que Ninguém Vê”. Um trecho de nosso diálogo foi este: 

- E como os fregueses o chamam?
- Os doutor me chamam assim, ó: “Ô, negão!” Eu acho até que é carinhoso.
- O senhor chama eles de doutor?

- Pra mim todo mundo é doutor. Pisou no aeroporto é doutor. É ó, doutor, como vai, doutor, é pra já, doutor....
- É esse o segredo do serviço?

- Tem que ter humildade. Não adianta ser arrogante. Porque, se eu fosse um cara importante, não ia tá carregando a mala dos outros, né? Sou pé de chinelo. Então, tenho que me botar no meu lugar.

A forma como Adail via o mundo e o seu lugar no mundo – a partir da forma como os outros viam tanto ele quanto seu lugar no mundo – contam-nos séculos de História do Brasil. Penso, porém, que temos avançado nas últimas décadas – e especialmente nessa última. O “doutor” usado pelo porteiro para tratar o condômino, pela empregada doméstica para tratar o patrão, pelo engraxate para tratar o cliente, pelo negro para tratar o branco não desapareceu – mas pelo menos está arrefecendo. 

Se alguém, especialmente nas grandes cidades, chamar hoje o outro de “doutor”, é legítimo desconfiar de que o interlocutor está brincando ou ironizando, porque parte das pessoas já tem noção da camada de ridículo que a forma de tratamento adquiriu ao longo dos anos. Essa mudança, é importante assinalar, reflete também a mudança de um país no qual o presidente mais popular da história recente é chamado pelo nome/apelido. Essa contribuição – mais sutil, mais subjetiva, mais simbólica – que se dá explicitamente pelo nome, contida na eleição de Lula, ainda merece um olhar mais atento, independentemente das críticas que se possa fazer ao ex-presidente e seu legado. 

Se o “doutor” genérico, usado para tratar os mais ricos, está perdendo seu prazo de validade, o “doutor” que anuncia médicos e advogados parece se manter tão vigoroso e atual quanto sempre. Por quê? Com tantas mudanças na sociedade brasileira, refletidas também no cinema e na literatura, não era de se esperar um declínio também deste doutor? 

Ao pesquisar o uso do “doutor” para escrever esta coluna, deparei-me com artigos de advogados defendendo que, pelo menos com relação à sua própria categoria, o uso do “doutor” seguia legítimo e referendado na lei e na tradição. O principal argumento apresentado para defender essa tese estaria num alvará régio no qual D. Maria, de Portugal, mais conhecida como “a louca”, teria outorgado o título de “doutor” aos advogados. Mais tarde, em 1827, o título de “doutor” teria sido assegurado aos bacharéis de Direito por um decreto de Dom Pedro I, ao criar os primeiros cursos de Ciências Jurídicas e Sociais no Brasil. Como o decreto imperial jamais teria sido revogado, ser “doutor” seria parte do “direito” dos advogados. E o título teria sido “naturalmente” estendido para os médicos em décadas posteriores. 

Há, porém, controvérsias. Em consulta à própria fonte, o artigo 9 do decreto de D. Pedro I diz o seguinte: “Os que frequentarem os cinco anos de qualquer dos Cursos, com aprovação, conseguirão o grau de Bacharéis formados. Haverá também o grau de Doutor, que será conferido àqueles que se habilitarem com os requisitos que se especificarem nos Estatutos, que devem formar-se, e só os que o obtiverem, poderão ser escolhidos para Lentes”. Tomei a liberdade de atualizar a ortografia, mas o texto original pode ser conferido aqui. “Lente” seria o equivalente hoje à livre-docente. 
Mesmo que Dom Pedro I tivesse concedido a bacharéis de Direito o título de “doutor”, o que me causa espanto é o mesmo que, para alguns membros do Direito, garantiria a legitimidade do título: como é que um decreto do Império sobreviveria não só à própria queda do próprio, mas também a tudo o que veio depois? 

O fato é que o título de “doutor”, com ou sem decreto imperial, permanece em vigor na vida do país. Existe não por decreto, mas enraizado na vida vivida, o que torna tudo mais sério. A resposta para a atualidade do “doutor” pode estar na evidência de que, se a sociedade brasileira mudou bastante, também mudou pouco. A resposta pode ser encontrada na enorme desigualdade que persiste até hoje. E na forma como essas relações desiguais moldam a vida cotidiana. 

É no dia a dia das delegacias de polícia, dos corredores do Fórum, dos pequenos julgamentos que o “doutor” se impõe com todo o seu poder sobre o cidadão “comum”. Como repórter, assisti à humilhação e ao desamparo tanto das vítimas quanto dos suspeitos mais pobres à mercê desses doutores, no qual o título era uma expressão importante da desigualdade no acesso à lei. No início, ficava estarrecida com o tratamento usado por delegados, advogados, promotores e juízes, falando de si e entre si como “doutor fulano” e “doutor beltrano”. Será que não percebem o quanto se tornam patéticos ao fazer isso?, pensava. Aos poucos, percebi a minha ingenuidade. O “doutor”, nesses espaços, tinha uma função fundamental: a de garantir o reconhecimento entre os pares e assegurar a submissão daqueles que precisavam da Justiça e rapidamente compreendiam que a Justiça ali era encarnada e, mais do que isso, era pessoal, no amplo sentido do termo. 

No caso dos médicos, a atualidade e a persistência do título de “doutor” precisam ser compreendidas no contexto de uma sociedade patologizada, na qual as pessoas se definem em grande parte por seu diagnóstico ou por suas patologias. Hoje, são os médicos que dizem o que cada um de nós é: depressivo, hiperativo, bipolar, obeso, anoréxico, bulímico, cardíaco, impotente, etc. Do mesmo modo, numa época histórica em que juventude e potência se tornaram valores – e é o corpo que expressa ambas – faz todo sentido que o poder médico seja enorme. É o médico, como manipulador das drogas legais e das intervenções cirúrgicas, que supostamente pode ampliar tanto potência quanto juventude. E, de novo supostamente, deter o controle sobre a longevidade e a morte. A ponto de alguns profissionais terem começado a defender que a velhice é uma “doença” que poderá ser eliminada com o avanço tecnológico.  

O “doutor” médico e o “doutor” advogado, juiz, promotor, delegado têm cada um suas causas e particularidades na história das mentalidades e dos costumes. Em comum, o doutor médico e o doutor advogado, juiz, promotor, delegado têm algo significativo: a autoridade sobre os corpos. Um pela lei, o outro pela medicina, eles normatizam a vida de todos os outros. Não apenas como representantes de um poder que pertence à instituição e não a eles, mas que a transcende para encarnar na própria pessoa que usa o título.  

Se olharmos a partir das relações de mercado e de consumo, a medicina e o direito são os únicos espaços em que o cliente, ao entrar pela porta do escritório ou do consultório, em geral já está automaticamente numa posição de submissão. Em ambos os casos, o cliente não tem razão, nem sabe o que é melhor para ele. Seja como vítima de uma violação da lei ou como autor de uma violação da lei, o cliente é sujeito passivo diante do advogado, promotor, juiz, delegado. E, como “paciente” diante do médico, como abordei na coluna anterior, deixa de ser pessoa para tornar-se objeto de intervenção. 

Num país no qual o acesso à Justiça e o acesso à Saúde são deficientes, como o Brasil, é previsível que tanto o título de “doutor” permaneça atual e vigoroso quanto o que ele representa também como viés de classe. Apesar dos avanços e da própria Constituição, tanto o acesso à Justiça quanto o acesso à Saúde permanecem, na prática, como privilégios dos mais ricos. As fragilidades do SUS, de um lado, e o número insuficiente de defensores públicos de outro são expressões dessa desigualdade. Quando o direito de acesso tanto a um quanto a outro não é assegurado, a situação de desamparo se estabelece, assim como a subordinação do cidadão àquele que pode garantir – ou retirar – tanto um quanto outro no cotidiano. Sem contar que a cidadania ainda é um conceito mais teórico do que concreto na vida brasileira. 

Infelizmente, a maioria dos “doutores” médicos e dos “doutores” advogados, juízes, promotores, delegados etc estimulam e até exigem o título no dia a dia. E talvez o exemplo público mais contundente seja o do juiz de Niterói (RJ) que, em 2004, entrou na Justiça para exigir que os empregados do condomínio onde vivia o chamassem de “doutor”. Como consta nos autos, diante da sua exigência, o zelador retrucava: “Fala sério....” Não conheço em profundidade os fatos que motivaram as desavenças no condomínio – mas é muito significativo que, como solução, o juiz tenha buscado a Justiça para exigir um tratamento que começava a lhe faltar no território da vida cotidiana. 

É importante reconhecer que há uma pequena parcela de médicos e advogados, juízes, promotores, delegados etc que tem se esforçado para eliminar essa distorção. Estes tratam de avisar logo que devem ser chamados pelo nome. Ou por senhor ou senhora, caso o interlocutor prefira a formalidade – ou o contexto a exija. Sabem que essa mudança tem grande força simbólica na luta por um país mais igualitário e pela ampliação da cidadania e dos direitos. A estes, meu respeito.  

Resta ainda o “doutor” como título acadêmico, conquistado por aqueles que fizeram doutorado nas mais diversas áreas. No Brasil, em geral isso significa, entre o mestrado e o doutorado, cerca de seis anos de estudo além da graduação. Para se doutorar, é preciso escrever uma tese e defendê-la diante de uma banca. Neste caso, o título é – ou deveria ser – resultado de muito estudo e da produção de conhecimento em sua área de atuação. É também requisito para uma carreira acadêmica bem sucedida – e, em muitas universidades, uma exigência para se candidatar ao cargo de professor.

Em geral, o título só é citado nas comunicações por escrito no âmbito acadêmico e nos órgãos de financiamento de pesquisas, no currículo e na publicação de artigos em revistas científicas e/ou especializadas. Em geral, nenhum destes doutores é assim chamado na vida cotidiana, seja na sala de aula ou na padaria. E, pelo menos os que eu conheço, caso o fossem, oscilariam entre o completo constrangimento e um riso descontrolado. Não são estes, com certeza, os doutores que alimentam também na expressão simbólica a abissal desigualdade da sociedade brasileira.

Estou bem longe de esgotar o assunto aqui nesta coluna. Faço apenas uma provocação para que, pelo menos, comecemos a estranhar o que parece soar tão natural, eterno e imutável – mas é resultado do processo histórico e de nossa atuação nele. Estranhar é o verbo que precede o gesto de mudança. Infelizmente, suspeito de que “doutor fulano” e “doutor beltrano” terão ainda uma longa vida entre nós. Quando partirem desta para o nunca mais, será demasiado tarde. Porque já é demasiado tarde – sempre foi. 

Eliane Brum 

26 agosto 2012



Com a chegada do mês de outubro, um novo cenário surge no Brasil. Carreatas, bandeiras, panfletos e uma infinidade de enfeites adornam as manifestações políticas nos quatro cantos do país. Essa espetacularização não é à toa. Na verdade, ela é criada propositadamente para chamar a atenção dos eleitores, seja para que este tenha mais opções na hora de escolher seu candidato, seja para ludibriá-lo com um festival panfletário do qual o desperdício, a poluição sonora e visual, bem como outros elementos desse período, sirvam de instrumentos a favor dos políticos. De fato, tudo isso se configura como a carnavalização da democracia, a qual os candidatos, muitas vezes, não estão preocupados com os problemas vividos pelo povo, mas sim com a quantidade de votos que poderão angariar para si e, assim, conquistar o cobiçado cargo público.

Expostos como verdadeiras celebridades pelos meios midiáticos, os candidatos surgem nas suas megalomaníacas campanhas, similares aos destaques dos carros alegóricos que desfilam nas escolas de samba, enquanto o povo, infeliz e lamentavelmente, vem em alas de adoração, alienando-se. Numa acepção mais histórica, percebe-se que essa manobra de desviar os olhares críticos da população, para as questões políticas, não é algo novo. A política de pão e circo, por exemplo, praticada no império Romano, é análoga às práticas vistas hoje no Brasil. O resultado disso é a quase que completa alienação popular, da qual resulta na escolha equivocada de certos políticos descomprometidos com as causas daqueles que neles votaram.

Tal conduta é facilmente exemplificada, não só com as promessas clichês feitas pelos futuros regentes do país, mas também pela desesperada construção de obras que aparecem, como que num passe de mágica, nesse período. São escolas construídas e/ou reformadas, postos de saúde e hospitais novos, estradas reformadas, saneamento básico sendo solucionado, e uma lista enorme de outros problemas que são “sanados” neste período. Nesse momento, é pertinente questionar onde estavam esses mesmos candidatos que não viram que todos esses problemas esperavam uma solução muito antes do período eleitoral. Não há resposta, porém, que possa justificar esse descaso, mas há uma palavra que pode englobar a atitude deles: descompromisso.

Não há, ou talvez nunca houve, na história do país pessoas realmente comprometidas em fazer uma mudança significativa para o povo. O que há na verdade são discursos paliativos usados para afagar as dores da população a qual sofre com a desumana desigualdade social de um país rico, mas que não tem as suas riquezas igualmente divididas nas mãos de todos. Para provar isso não é necessário se basear nas constantes pesquisas nacionais e internacionais que são feitas para comparar o andamento da qualidade de vida dos brasileiros. Basta apenas um breve passeio nos grandes centros urbanos do país para deflagrar tal discrepância. Crianças sem escolas públicas de qualidade; hospitais superlotados e sem condições estruturais para atender a população carente; ruas sujas, ora pela falta de civilidade do povo, no que tange a carência educacional, ora por falta de lixeiros e pessoal para manter a higienização ambiental; sem contar a segurança pública que também não é das melhores.

Tudo isso serve de palco para que políticos mal intencionados se tornem estrelas no período eleitoral, quando na verdade, eles deveriam buscar holofotes durante todos os anos em que estivessem nos seus respectivos cargos. E, paradoxalmente a essa realidade, estão uma minoria elitizada que desfruta das regalias que o dinheiro pode comprar. Dentre estas pessoas estão os próprios políticos que “conquistaram” seus cargos, utilizando-se de promessas vãs e, em alguns casos, indo além da mera apropriação da confiança pública, pois, uma vez eleitos, alguns deles usurpa também o dinheiro do próprio eleitorado, postura já conhecida e esperada pelos brasileiros. Deste comportamento surge a corrupção, fenômeno que não é novo e que, lamentavelmente corrobora para denegrir a imagem da política brasileira dentro e fora do seu território.

A festa continua, diriam aqueles mais conformados. A copa do mundo está chegando e com certeza muitos problemas do país serão esquecidos nesse momento, bem como muitos candidatos desonestos garantirão seu espaço no rol da massa já corrupta que vaga pelo país. Porém, isto não tem muita importância para alguns, já que a meta do Brasil é trazer a taça de ouro e conquistar mais um título mundial. O que ninguém percebe, ou prefere não ver, é que eventos deste porte, estimulados e divulgados pelos chefões do poder público, é uma ferramenta de alienação usada para desfocalizar o que ainda existe de crítico no pensamento do povo. Ou seja, enquanto a população torce por jogadores semianalfabetos e milionários, esquece em votar devidamente nos políticos que mudarão a sua realidade e de muitas pessoas pobres que, sem direito a uma educação digna e, consequentemente sem a menor chance de mudança, vagam pela sociedade em busca da própria sobrevivência, pois existir não é mais possível.

A cada novo discurso proferido, a cada papel entregue, comícios e carreatas, parece que uma nova chama se acende no íntimo social. Mesmo desacreditado com a postura política do país, a qual durante décadas teve, e ainda tem, a corrupção como válvula propulsora, a população busca nas alegóricas manifestações políticas o fio de esperança para que as mazelas que os assolam sejam, de uma vez por todas, sanadas. Para que isso aconteça é importante que os próprios políticos se desnudem dos enfeites que encobrem suas verdadeiras identidades e se mostrem para o povo, não como entidades celestes que irão salvar a pátria repentinamente, mas sim como humanos comprometidos com os problemas sociais e dispostos a resolvê-los sem pretensões subliminares. E o povo, neste sentido, deve amadurecer, deixando de esperar por um herói sebastianista, não se deixando levar pela pirotecnia que o período eleitoral insiste em proporcionar. Talvez, assim, alguns dos inúmeros males que assolam o povo possam ser paulatinamente solucionados.