28 março 2019



"É inegável o sucesso que o passinho dos malokas tem feito nas comunidades recifenses e se expandido para tantas outras do país. Em tese, o que sustenta a empolgação desses jovens emparedados parece a "novidade" de ter um grupo dançando sincronizadamente ao ritmo de algum hit musical do momento. Entretanto, quando visto de perto, não só percebemos a falta de inovação que há nesse fenômeno atual das periferias brasileiras, como resgatamos questões ligadas às incoerências sociais as quais insistimos em negar, mas que as expressões artísticas como esta são infalíveis em nos desmascarar.
Sim, antes de lançar um olhar avesso sobre a questão, é preciso aceitar o fato de que o brega se tornou expressão cultural pernambucana. Logo, o passinho dos malokas entra nesse bojo. Porém, se a expressividade é positiva ou negativa, isso dependerá da análise dos elementos em questão. A priori, não me deterei nestes pólos, mas em seu expoente: a sociedade. Como se sabe, o avanço do ultraconservadorismo no Brasil tem impedido discussões caras à população, sobretudo no que se refere aos dilemas da sexualidade humana. Há uma legião de bem feitores da moral e bons costumes repudiando projetos importantes no congresso ou fechando exposições de arte consideradas impróprias para o público infanto-juvenil.
Contudo, à revelia da censura, a cultura mainstream vêm há anos mostrando o quão ineficientes são as tentativas de imacular o povo, sobretudo os mais jovens, daquele assunto. Como disse antes, o passinho dos malokas não tem nada de novo. A ideia de padronizar-se para dançar na cadência de um estilo musical em ascensão é antigo. Temos como exemplo a Lambada nos anos 80 e suas saias rodadas; o axé music e sua sensualidade baiana, que ganhou destaque com grupos como o É o Tchan; chegando na virada do século com o boom do funk carioca. O passinho dos malokas tem muito em comum com todos estes estilos: trata-se de uma forma de expressão musical nascida nas periferias, por isso marginalizada, indiscutivelmente erotizada, com letras sem nenhum pudor e passos que exaltam o sexo descompromissado, objetificação feminina; além de símbolos ostentosos da periferia como roupas de marca, uso de drogas, armas e dinheiro fácil.
Ou seja, a mesma sociedade que se coloca contra o sexo precoce, gravidez na adolescência, uso de camisinha, vacinação contra HPV, discussão sobre sexo em casa e, sobretudo nas escolas, é a mesma que se rejubila com seus rebentos dando umbigadas e quicadas imitando claramente uma cópula sexual. Ocorre que, sem perceber, pregamos um discurso e hipocritamente toleramos outro. Então, a arte tende a se aproveitar dessas brechas para minar nossas incoerências, mesmo que se utilize de expressões artísticas pouco privilegiadas. E, assim, cada vez mais uniformizados, vamos nos perdendo no labirinto criado para nos afastar do fato de que só uma discussão sensata sobre a sexualidade humana impedirá meninos e meninas de serem sexualizados por uma sociedade a qual prefere erotizar seus jovens a ter que prepará-los saudavelmente para uma vida sexual plena.
O que incluiria uma educação menos conservadora e mais antenada ao que a juventude anseia. Enquanto isso, o passinho dos malokas ganha cada vez mais adeptos, os quais encontram nesse estilo a forma de manifestarem seus impulsos sociais mais primitivos. A arte, por sua vez, serve de catalisador para esse fenômeno, mesmo que navegue por águas turvas, até levar-nos à margem são e salvos. Seja como for, há muita transgressão em jogo, muita rebeldia e doses cavalares de hipocrisia.
Viva o nosso passinho!"


"É no icônico Asilo Arkham que os criminalmente insanos são internados, enquanto o Batman tenta arduamente livrar a cidade de Gotham City da bandidagem. Coringa é um desses criminosos, que frequentemente escapa daquele hospital psiquiátrico para aterrorizar àquela metrópole. Guardada as devidas proporções, Bolsonaro encarna bem esse vilão, pois, embora não tenha sido preso (ainda), mostra claramente não está de posse de todas as suas faculdades mentais. Enquanto isso, a sociedade tem servido de experimento para as suas lunáticas decisões, o que é passível de um estudo mais aprofundado.
Certa vez li que determinados estágios de loucura nem sempre são passíveis de internação. Há casos nos quais a mera observação do indivíduo é o suficiente para traçar mecanismos de tratamento eficazes. Entretanto, no caso de Bolsonaro internar não é suficiente, é preciso interditá-lo. O presidente eleito por um discurso enlouquecido pelas fale news não para de demonstrar sintomas claros da sua sandice, que por sinal tem se tornado coletiva. Após o tosco episódio do golden shower e da bajulação deslavada ao seu correlato Trump, agora o mentecapto regente do Brasil trata de permitir a comemoração de um dos episódios mais vergonhosos da história do país, o Golpe Militar que deu início a Ditadura no Brasil.
Para os desmemoriados, este período foi o responsável pela tortura, expulsão e morte de centenas de pessoas do Brasil, além de impor um regime ditatorial aos que aqui ficaram. Mesmo diante dessas verdades históricas, o insano presidente desta nação determina as "devidas comemorações" ao ano de 1964, ignorando as vítimas desse período ao passo que exalta seus algozes. Só uma mente delirante é capaz de tratar como natural acontecimentos desta estirpe. Na verdade, o desequilíbrio desse ser humano tem demonstrado que a loucura pode ser viral. Por causa dele há uma inegável perseguição a intelectualidade, às pesquisas científicas e todo o saber crítico que ouse confrontar os "sábios" do WhatsApp bem como os "pensadores" do Facebook.
Nestas plataformas, o discurso temerário é o único possível, pois reproduz os treslocados modos desse presidente que conseguiu a proeza de colocar a ignorância a frente da sabedoria. Nesta inversão de valores, as falácias presidenciais querem ressignificar positivamente um dos períodos mais nefastos da memória nacional. Com um eleitorado que sequer legitima as fontes históricas, e que está mais preocupado em militarizar as escolas (em nome de Deus, claro!) do que estruturá-las com a livre expressão do pensamento, esse desatino de Bolsonaro passará despercebido. Porém, para os poucos ainda sãos, não será tão simples impor uma lógica desvairada sobre a sociedade sem uma análise patológica das ações.
Em boa medida, precisamos fazer uma grande terapia de grupo com Brasil, transformando-o em um consultório a céu aberto para conseguir tratar o avanço da irracionalidade proporcionado da presidência às residências do país. Antes, é preciso encarar certas verdades: o Brasil é a transfiguração da Gotham City. Hordas e hordas de criminosos, corrupção, discrepância social e uma crescente onda de loucura. Temos até o nosso Coringa tão ou mais louco que o dos quadrinhos. Falta o nosso Batman, ou pelo menos um excelente psiquiatra para, se não internar, receitar algo para a perturbada mentalidade do nosso presidente e dos contaminados por ele."


Estamos consternados com o massacre numa escola pública em São Paulo, onde funcionários e alunos foram barbaramente assassinados. Enquanto as investigações não apuram as motivações para avassaladora violência, é preciso concatenar os pontos que antecedem essa tragédia. Numa sociedade que enaltece tudo o que é de fora, sobretudo dos nossos conterrâneos estadunidenses, não é surpresa importar também suas calamidades. O bullying é um desses estrangeirismos que, com os dilemas nacionais, ganhou outras conotações. Na rede ele já recebe o nome de cyberbullying, fazendo vítimas para além dos muros escolares. Graças a isso, em 2011 houve o massacre em Realengo.
Nessa mesma linha de apropriação, passamos a "flexibilizar" o porte de armas, numa reprodução macaqueada dos moldes Americanos de ser. Como se não fosse o bastante, temos a versão fajuta do Donald Trump na nossa presidência, um sujeito despreparado, tosco e irascível incitando o povo através do medo a acatar suas asneiras. Por causa dele e seu dedinho apontado, nossa sociedade abriu às portas para o ódio. Seu projeto de governo, uma paródia do Trump, prefere armar a população do que humanizá-la por meio de uma educação segura, não apenas do ponto de vista estrutural, mas sobretudo no que diz respeito a livre expressão do pensamento.
Do contrário, o governo perde tempo com projetos como Escola Sem Partido, querendo permitir que a família tenha a liberdade de educar seus filhos em casa, ou criando uma comissão para retirar as "ideologias" do Enem; a ter que encarar com maturidade e sabedoria os problemas ancestrais da educação brasileira. Além disso, a carnificina em Suzano deixa claro como as tragédias no Brasil passaram a ser corriqueiras devido a política de remediar em detrimento de práticas preventivas. Ao usar o porte de arma como estratégia de campanha, frente a uma sociedade notoriamente insegura, o governo não estava pensando em resolver em definitivo o problema da violência, mas em ganhar louros em cima dela. Funcionou. Elegeram aquele que impediria que infortúnios como o de Suzano acontecessem.
O problema é que a violência no Brasil está à revelia de qualquer "mito". O fato é que somos uma das nações mais violentas do mundo, onde se mata tanto quanto às guerras travadas entre os EUA e o Oriente Médio. Entretanto, seguimos reproduzindo um modelo social que não é nosso, o qual tem escancarado a sua ineficiência todos os dias. As mortes em Suzano evidenciam isso, mas não se encerram aí. O simulacro Americano à brasileira está também no avanço do conservadorismo religioso na política; na perseguição policial às pessoas negras resultando no extermínio da negritude do país; no assassinato e/ou exílio dos nossos militantes; na aversão aos imigrantes; na deturpação da imagem dos adversários políticos por meio das fake news; na destruição legal da natureza em prol do progresso econômico de uma parcela elitista da sociedade; e agora importamos também atentados a bala a escolas; estas que estão sendo bombardeadas de absurdos desde que o nosso "Trump" assumiu o poder.
É lamentável saber que tudo isso poderia ter sido evitado se não houvesse essa exaltação ao faroeste da presidência à população, nitidamente alienada pelo primeiro. Em meio ao choque da chacina em São Paulo, o Ministro do STF, José Antônio Dias Toffoli, disse uma frase um tanto quanto ingênua. Em suas palavras "Não podemos aceitar que o ódio entre em nossa sociedade." Porém, ele não apenas entrou como já fez morada. É preciso expulsá-lo por meio de um projeto político pedagógico voltado, antes de tudo, a civilização dos cidadãos brasileiros. Do contrário, seguiremos plagiando os EUA e assistindo pela televisão nosso futuro sendo literalmente fuzilado por um Brasil que está violentamente se americanizando."


"Apesar de conhecer a simbologia que o termo "sexo frágil" carrega ao longo da história, nunca pensei que ele poderia portar outra conotação para além daquela que inferiorizou as mulheres por tanto tempo. Essa é uma das novidades dos tempos nefastos de agora, a capacidade inventiva de atribuir conceitos piores ao que já era ruim. Isto porque, em plena comemoração do dia Internacional da Mulher, o sexo continua sendo frágil, não apenas o delas, mas o de todos. Nunca se fragilizou tanto este assunto quanto no modelo inquisitorial que governa o Brasil de hoje.
Saímos da seara do tabu e estamos rapidamente adentrando às cercanias da proibição. A presidência censura qualquer tentativa salutar de discutir questões ligadas a sexo, sexualidade, gênero e identidade, demonizando estes temas nos lares brasileiros onde pouco se problematiza tais pautas. Setores ultraconservadores religiosos aproveitam a deixa presidencial para coagir a sociedade leiga a tratar com mais recato àqueles pontos, ignorando eixos transversais de cunho científico comprovadamente estudados. Na fogueira de vaidades em torno disso, quem está sendo levado às chamas são os jovens.
Já nas escolas, temáticas ligadas a feminismo e machismo são vistas como ideologias, não como problemáticas emergenciais para minar as inúmeras violências sexistas que assolam o país. O "Kit gay" é inventado para causar mais polêmica entre os ignorantes, alavancando a escalada do conservadorismo na política. Além disso, tratar de DSTs e gravidezes indesejadas também é um risco, já que os jovens não podem ter acesso a conteúdos didáticos que mostrem como por uma camisinha e quais são as partes que compõem uma vagina; na recente remoção da Caderneta Saúde do Adolescente.
Enquanto de um lado o governo tenta inutilmente enfraquecer o debate sexual, na outra margem do rio a cultura mainstream segue sexualizando a juventude por meio da mídia, da moda e da música. Meninas são retalhadas em bundas e peitos para atender aos anseios machistas da sociedade que corporifica seus corpos, mas não as ensina devidamente sobre prevenção e a autonomia do prazer sexual. Assim como elas, os meninos também são incitados a iniciar precocemente na vida do sexo sem quaisquer responsabilidades com o próprio corpo e o do outrem. Ou seja, impedir que a juventude tenha contato com o sexo é praticamente impossível.
Nossa sociedade cheira a sexo. O erotismo é a mercadoria mais barata do mercado. Logo, não seria mais lógico atribuir valor a esse produto para que os mais jovens entendessem a importância que há por trás do ato sexual? Ao contrário da censura, que é inútil na era da internet, por que não tratar com mais naturalidade a questão, esvaindo do discurso a visão pecaminosa que resiste em torno do sexo? Será mesmo que evitar mostrar pênis e vaginas na adolescência, bem como suas funcionalidades, é o caminho mais acertado para construir uma vida sexual plena? Quais são os reais temores governamentais por trás dessa perseguição ao orgasmo?
Antes, é preciso lembrar que sexo é conhecimento de si mesmo e do outro. Decerto, as pessoas que têm uma vida sexual bem resolvida tratam com mais naturalidade as variações em torno deste campo. Porém, quando fragilizado sexualmente, o indivíduo entra na paranóia hipócrita que resume o coito a dois à procriação, numa visão medieval sobre o prazer humano. Aí vem preconceito, céu, inferno, pode, não pode, etc, etc, etc. É raso, é tosco, é ineficaz. Logo, neste dia Internacional da Mulher, para além das merecidas homenagens, vamos fortalecer nosso sexo, exaltar todas as sexualidades, legitimar as identidades sexuais, extirpando mais essa visão pejorativa sobre o "sexo frágil." Se for para fragilizar, que façamos isso com a política. Lá está a parte denotativamente mal resolvida do país. O sexo frágil está na presidência."


"Dizer que uma escola de samba sambou na cara da sociedade é um trocadilho que merece ter seu pleonasmo perdoado. A transgressão na linguagem aqui está a serviço de algo maior. A Estação Primeira de Mangueira trouxe para a avenida um enredo certeiro: "A História que a História não Conta", do carnavalesco Leandro Vieira. Numa época de apagamento e deturpação dos registros históricos - como ocorreu com o "incêndio" ao Museu Nacional e os ecos ignorantes em torno da volta à Ditadura Militar - é magnífico exaltar através do carnaval a verdadeira história do Brasil.
Dessa vez, a perspectiva era dar voz aos historicamente emudecidos: índios, negros e pobres. As maiores minorias do país ganharam a merecida representatividade frente a esse governo escatológico (o twitter está aí de testemunha), que tenta minar a arte, cultura e a educação do seu fazer crítico e reflexivo. Inclusive, antes do sambódromo sambar na face do preconceito, as ruas já traziam sua insatisfação ao atual governo branco, elitista e agrário, por meio dos blocos que bradavam: "Bolsonaro é o CARALHO!". Na avenida do samba, tão eficiente quanto às ruas, a Mangueira trouxe fundamentação à crítica dos poucos pensantes que ainda restam na nação.
O carnavalesco consultou escassas fontes históricas para trazer ao sambódromo o Brasil que muitos de nós desconhece e que a direita ultraconservadora luta para que seja esquecido. Para além do "Agro é tec, Agro é pop, Agro é tudo", a mangueira começa seu desfile dizendo que a nação é dos índios, e que a intervenção europeia deturpou a imagem desses brasileiros ao ponto de acharmos natural o seu massacre de outrora e de agora. Para contar a história negra, ícones emblemáticos como O Navio Negreiro, Dandara e o quilombo de Zumbi dos Palmares foram enaltecidos. A pobreza desfila decorrente de todo o legado deixado pela exclusão dos indígenas e da negritude, renegando-os aos guetos e a morte iminente.
Mulheres incríveis também foram citadas como Zuzu Angel e Marielle Franco. Aliás, na comissão de frente, a Mangueira já trazia o tom do lacre que estava por vir, ao retratar a pequenez dos pseudos heróis nacionais frente a agigantada história indígena e negra no Brasil, tão pouco difundidas. A faixa escrito "PRESENTE" em letras garrafais não se tratava apenas de uma menção a Marielle. Era um aviso aos ditadores de plantão que subliminarmente devia ser lida como: "ESTAMOS AQUI!". E estamos mesmo! Nossa posição na corda não está mais no lado mais fraco, e a Estação Primeira confirma isso ao desconstruir as mentiras sobre o povo que construiu o Brasil.
De salto quinze, a Mangueira recria a bandeira nacional trazendo as palavras de ordem mais emergenciais do momento: Índios, Negros e Pobres nas cores verde e rosa, já que o verde, amarelo, azul e branco não representam nossa pátria como um todo. Foram tantos pisões na avenida do samba que o espectador mais atento ficou facilmente sem fôlego. Foi um desfile, antes de tudo, corajoso nesta era de covardia e dissonância nos discursos. Uma prova de que a arte pode, e deve, ser um instrumento contra a tirania do preconceito, bem como o avanço da irreflexão na sociedade.
Porém, mais que isso, um recado as sandices políticas que tentam apagar a história de uma nação marcada pela intolerância. A Mangueira pisoteou a cara de muitos destes canalhas que se apossaram do poder e querem reescrever a história através do medo. Que outras escolas de samba, mídias televisivas, artistas em geral, aproveitem esse embalo e façam artes engajadas em denunciar as mentiras que nos ensinaram como verdades. Sambar na cara da sociedade apenas no carnaval é insuficiente. Precisamos sambar também o ano todo. A Mangueira fez a sua parte, falta você."


"Numa das lendas medievais mais difundidas do planeta, o rei Arthur consagra-se perante os outros cavaleiros ao ser capaz de retirar uma espada de uma rocha, transformando-se no rei da Bretanha. Questões ligadas a honra, virtude e respeito norteiam esta narrativa literária-histórica, permeada de ritos celtas e interferências cristãs à época. Fora do mito cavalheiresco, pouco restou de honradez, empatia e respeito no desvirtuoso reinado de ódio que impera no Brasil. Pelo contrário, hoje os nossos combatentes são sadicamente ofendidos por um discurso doentio que vem polarizando o país entre militares e "comunistas".
Sem haver espaço para mediação e diálogo, assistimos aterrorizados o ataque desumano a morte do pequeno Arthur, neto do ex-presidente do Brasil, Lula. Ao atacarem covardemente a morte desse inocente, percebemos, (ou pelo menos deveríamos), entender o agravamento da barbárie que tem assolado a sociedade. Não há mais espaço para condolências, pêsames, ou qualquer tentativa de enlutar, se a vítima for do lado "inimigo". Nem a morte de uma criança cessa a fúria da intolerância. Lembro-me que quando o atual presidente da república levou uma facada num comício, eu fui um dos poucos que viu o lado humano daquela situação, mesmo tendo profundas reservas com o dito cujo.
Isto porque, quando há ações que acometem o nosso corpo debilitando-nos, é preciso dar uma trégua no embate político para que aquele indivíduo possa se restabelecer para continuar na luta. Claro, quando há o mínimo de caráter envolvido na questão. Porém, no país dos dedos engatilhados em forma de arma caso o adversário esteja desarmado, ferido ou morto é preciso assegurar a sua derrota com mais crueldade; atitudes que vão desde comentários animalescos exaltando a brutalidade, a não percepção do quão selvagem se tornou esta nação. Não nos compadecemos com as dores alheias faz tempo, mas agora avançamos para algo bem mais atroz: estamos nos regojizando com as tragédias alheias, que podem ser nossas, e são. É inegável que tamanha apatia é oriunda das marcas históricas que nos feriram neste Brasil de violências mil.
Contudo, o revanchismo que tem se criado, sobretudo dentro das redes sociais, não perdoa mais ninguém. Às vezes tenho a impressão que muitas pessoas pararam de pensar e vivem vegetando no universo. São zumbis programados para levar outras pessoas a morte. Qualquer tentativa de reflexão é mimimi; questionar transformou-se em defesa de bandidos; problematizar é coisa de comunista; os direitos humanos só servem para proteger marginais... E nesta neura a espada que poderia ser alçada para salvar o Brasil do caos iminente vai sendo enfiada cada vez mais goela abaixo. A hostilidade em torno da morte de Arthur é uma prova disso, mas não se encerra aí.
Esta na perseguição aos direitos indígenas; na deturpação da imagem das feministas; no silenciamento e extermínio dos militantes (vide Jean Wyllys e Marielle Franco); na censura implantada nas escolas; no impedimento das discussões de gênero e sexualidade; na exaltação de setores ultraconservadores religiosos em detrimento da laicidade do país; na manipulação pública através do medo. Tudo isso despertou o que há de odioso em nós: o desamor. Com a legitimação do atual governo, veremos mais episódios dantescos ganharem ares de normalidade e muitos assistirão reticentes a escalada do horror. Eu, todavia, faço parte do lado oposto.
Enquanto houver discernimento, estarei no campo de batalha com os outros muitos cavaleiros, erguendo a minha espada em prol dos meus, que ainda são negligenciados por uma política inegavelmente omissa. Estarei com Arthur, Marielle e Jean. Mesmo que o fronte de batalha sofra perdas, outros muitos cavaleiros (e não soldados), sairão em defesa da quase extinta democracia nacional. Ao nosso Arthur brasileiro, minhas desculpas em nome da vergonhosa e inescrupulosa mentalidade do país de hoje. Descanse em paz e emane inocência de onde estiver para abrandar os corações dessa nação obscurecida de mentiras e falsas promessas. E saiba, Arthur, em sua homenagem, e de todos que penam para existir nesta pátria, vamos tirar esta espada fincada no Brasil."


Cantei o Hino Nacional e o de Pernambuco durante todo o meu período de alfabetização. Apesar de repetitivo e pouco problematizado, era divertido cumprir esse ritual na infância. Mesmo inconsciente disso, a cerimônia de hastear a bandeira e bradar os versos brasileiros guardava em si uma esperança patriótica, um sopro de possibilidades para um futuro sempre incerto. O presente chegou e com ele a atrofia mental, fruto de um dos golpes de estado mais bem sucedidos da história desse país.
Nesta mudança brusca de governo, que resvalou na mutação da mentalidade social, os símbolos identitários nacionais estão sendo "resgatados" a serviço da alienação populacional. Além dos eventos futebolísticos, que impõem um pseudo nacionalismo, a política quer usar das mesmas artimanhas para impor seu regime disfarçado de verde e amarelo. A intenção de sugerir que escolas cantem o hino do país, perfilando professores e alunos, mesmo que não tenha declarado a obrigatoriedade do ato, mostra os interesses escusos de um projeto de governo incoerente, despreparado e antipatriótico.
Isto deixa nítido a incongruência do projeto "Escola sem Partido", o desconhecimento da pluralidade e livre expressão do pensamento das escolas bem como da formação educacional e o rompimento das alianças democráticas, o que é imprescindível para se fundamentar as bases patrícias de uma nação. Para compor o festival de chorume proferido por esse "novo" governo, a "sugestão" do Ministro da Educação ainda pedia para que, após cantar o hino, as escolas mencionassem o slogan presidencial: "Deus acima de tudo, Brasil acima de todos." Onde fica a liberdade de credo prevista na Constituição? De que Brasil a assertiva anterior está se referindo? 
É ultrajante, uma afronta a mínima inteligência que se pretende ser humana. É um achincalhe a criticidade, cada vez mais perseguida e deturpada para ignorância que ganhou posse em nosso país. Mais uma vez a escola volta a ser o alvo desses calhordas. Não é à toa. Numa sociedade cega, iletrada, ludibriada pelas redes sociais e abandonada há anos pelo governo, resta desestruturá-la também pelo pensamento para ter o controle absoluto da pátria. Com o aval de outros muitos imbecis, o plano de conversão tem dado passos largos. Porém, haverá resistência. Não será tão simples encobrir estratagemas políticos daqueles que não foram fisgados pelo discurso de barbárie travestido de pacificador.
Então, apesar de não levada a sério pelos políticos, não pensem que a educação está abandonada por completo. Há muitos profissionais, pais, e alunos comprometidos com um ensino vanguardista, e que não caem facilmente nessas artimanhas. A escola precisa continuar tendo a autonomia para realizar suas atividades pedagógicas, sobretudo aquelas que contemplem o país como um todo: respeitando sua pluralidade de raças, crenças, sexualidades, opiniões, posições políticas, respeito aos Direitos Humanos e, sobretudo, valorização do saber crítico.
Antes de injetar um slogan político nas manhãs escolares, é preciso investir mais em educação; ampliar os valores míseros pagos aos professores; construir escolas de qualidade; acompanhar, de fato, o aprendizado desse aluno, colocando a educação no epicentro da política nacional. Após ultrapassar essas etapas, precisamos ressignificar nosso nacionalismo para que todos se sintam parte dessa nação. Até lá qualquer "sugestão" patriótica soará contraproducente.

05 dezembro 2018



Não sou religioso, tampouco ateu, agnóstico ou deísta. Faço parte daquele grupo que crer em algo, mas que foge de categorias religiosas. Costumo me autointitular de preguiçoso da fé, pois, mesmo simpatizando com várias práticas sagradas, acho cansativo ter que criar morada em uma única vertente religiosa frente a pluralidade em que estamos inseridos. Porém, caso meu posicionamento acerca disso muda-se, acredito que seria um religioso atuante, defensor dos oprimidos e acusador dos canastrões que usam o sagrado para benefício próprio. Lutaria firmemente para que a minha crença fosse legitimada, desde que a do meu colega tivesse a mesma prerrogativa. Levaria os preceitos que escolhi seguir não apenas como meras regras, mas como filosofia de vida e faria de tudo para aplicá-las a minha rotina. Então, fazer o bem seria meu norte, não apenas partindo da minha óptica pessoal do que seria benevolência, mas, sobretudo, pelo olhar e necessidades alheias. Nem por isso assumiria a estirpe do religioso modelo. Mas, faria de tudo para que a religião que escolhi caísse bem em mim, tornando-me referência para outras pessoas.

No entanto, faço a seguinte pergunta a você leitor, independentemente de ser ou não religioso, de ter ou não uma fé, ter uma religião lhe cairia bem? Antes de formular sua resposta, preciso dizer porque cheguei até tal indagação. Em tempos de tremenda intolerância, desrespeito e desumanidade como os atuais, a inserção em algum espaço sagrado parece ser o mais apropriado para conter a sanha autodestrutiva que nos forma. De fato, a religião, seja ela qual for, nos permite reconectarmos com aquilo que há de mais precioso para a existência nesse plano, o amor ao próximo. Em seus discursos, o fazer o bem é uma máxima presente em vários segmentos sacralizados, defendido como uma das poucas formas de se alcançar o elo com o divino. O problema é que não basta decorar versos, ir assiduamente a igrejas/templos/santuários, seguir dogmas à risca, quando a tarefa primeva de muitas crenças é ignorada, o amar. Vejo que muitos convertidos desconhecem a aplicabilidade dessa palavra, revelando o quão frágil é apenas ser de uma religião X ou Y sem vivenciá-la de fato.

Para os mais incrédulos, basta um olhar um pouco mais atento nos grandes círculos comunicativos de hoje, as redes sociais, para ver o manto da hipocrisia cair. Nelas, discursos contrários a qualquer ação benfazeja são facilmente encontrados em perfis de indivíduos crédulos, tementes a Deus, muitos em posição de destaques em várias religiões e assíduos em suas práticas dogmáticas. Por estar constantemente inserido nesta atmosfera, cansei de ver esses “religiosos” pregando o ódio, incitando a violência, desrespeitando minorias, muitas vezes usando, inapropriadamente, o nome de Deus ou distorcendo Suas palavras para benefício próprio. Evidentemente que tal prática remonta vários períodos da história da religiosidade humana, porém, na atualidade, há um misto de cinismo e dissimulação que muito me preocupam, não apenas por afetar o Estado democrático de direito (que de laico guarda apenas a ideologia), mas por deturpar algo tão sublime que é o exercício da fé, tão caro em momento de desespero como o atual.

Claro que boa parte dessas pessoas fazia, e faz isso inconscientes do que professam, porque há um discurso forte de manada por trás da retórica beligerante da qual se utilizam. Basta saber que o Brasil vive um impressionante crescimento de pessoas que se autointitulam religiosas. Vejo isso, a priori, como um avanço, na medida em que sabemos que a prática religiosa conserva em si muitas bases humanizantes do respeito e tolerância, sobretudo na nossa sociedade majoritariamente Cristã. Entretanto, contrariando todas as expectativas sagradas, a enxurrada de novos religiosos não tem primado pela qualidade. Hipnotizados por uma retórica salvadora, alienam-se facilmente por meio de discursos teatralizados de líderes controversos, que se utilizam da ignorância social para deturpar os preceitos mais primários da religiosidade. Não à toa, no último período eleitoral muitos representantes religiosos utilizaram seu poder para determinar quem os fiéis deveriam ou não votar. Minha vizinha, por exemplo, de deputado a presidente da república, votou cegamente nas “indicações” do seu pastor.

Esses novos religiosos não se sustentam em suas crenças, pois suas bases não foram construídas a partir de epifanias, tão pouco ouve qualquer chamamento dos céus que fizessem ecoar algo em seus corações, tão ensurdecidos pela lábia dos falsos profetas atuais. O convite partiu ora da dor de se viver imergido numa sociedade onde o medo cria uma áurea de pânico nublando qualquer chance de reflexão, ora de um enredo elaborado por grandes instituições religiosas, que imersas na vida contemporânea, seduzem os mais influenciáveis a adentrar as suas portas desprovidos de qualquer amor pelo próximo. A ideia é enxertar templos, enriquecer líderes religiosos, distorcer a palavra divina e/ou impô-la as demais pessoas, tratando-as como hereges, caso ousem questionar a soberania do deus fotoshopado adorado por esses zumbis. Tudo isso tem surtido efeito. Temos mais canais religiosos na TV aberta do que sobre educação e cultura, a bancada religiosa (leia-se, Cristã) avança confortavelmente na política ditando o que quer e os ícones religiosos passaram a ser mais idolatrados do que o próprio Jesus Cristo.

Devido a estas interferências, os novos convertidos são avessos ao respeito, se mostram intolerantes com outras práticas religiosas que diferem da sua, se julgam no direito de se por como referência para penalizar o coleguinha, quando muitas vezes tem o histórico tão imundo quando o dele. São adúlteros, charlatões, mentirosos, indiscutivelmente corruptos, mas usam destas falhas em seus discursos acusativos para sustentar a alcunha de bom samaritano aos olhos do povo. Muitos são extremamente preconceituosos e fazem questão de deixar isso bem claro, seja na vida pública real ou virtual, hasteando uma bandeira clara de repúdio às minorias ou grupos que fujam do seu falho tradicionalismo. Apáticos, poucos se preocupam com as tragédias cotidianas, não atuam para minorizar o sofrimento das pessoas, mesmo que seja de forma singela legitimando suas lutas. Usam inescrupulosamente o histórico de fé para macular a laicidade do Estado, criando projetos e/ou impedindo que pautas caras a sociedade sigam em frente, porque vão de encontro ao seu sagrado. São muitas vezes egoístas, possuem crise de superioridade e transformam a fé, que é tão pura, em ferramenta de manipulação. Então, alienados, lotam instituições religiosas mas se esvaziam enquanto humanidade.

Assim, caso o leitor não tenha chegado a uma resposta a minha indagação, deixo aqui a minha: acredito que a religião não nos cai bem quando não assumimos a responsabilidade pelo sacrossanto serviço de fazer o bem. Quando não entendemos que somos uma extensão de nossas crenças e que, por isso, precisamos levar adiante o que há de mais puro para contrapor o desamor que nos circunda. A religião não nos cai bem quando adentramos nela de forma leviana, apenas para escapar momentaneamente de nossos temores, ou para agradar a terceiros. Quando somos desonestos em nossas ações cotidianas, propositadamente alienados e simpatizantes da desinformação. Ainda quando fingimos ignorar os erros de nossos irmãos de fé e não denunciamos as suas indulgências. A religião não nos serve se usamos ela meramente para benefício próprio apropriando-se da mídia, da política, não para disseminar o amor, o respeito e a tolerância, mas para impor nossos dogmas e punir quem não compartilha de tais preceitos. Se for usada como mecanismo de superioridade também não serve. Tão pouco é válida se o foco for apenas encher templos, ganhar espaço na TV e enaltecer líderes religiosos. Acima de tudo, a religião não nos cairá bem se o bem não passar a ser nossa filosofia de vida.

Se a ideia é produzir mais e mais crédulos e ampliar a noção do sagrado em nossa sociedade, há algo de errado no cerne desta construção. É inegável que a religião não tem caído bem em muitas pessoas presas a verdades frágeis sobre certo e errado. Faltam a estes indivíduos a complexa tarefa de reaprender a amar. Apenas o amor rege o universo. Eu acredito nisso, como também creio que é possível ter uma postura humanizada dentro ou fora do seio religioso. O problema é que, antes, esperávamos muito daqueles que se inseriam nas religiões ao ponto de sufocá-los com cobranças que nem sempre poderiam ser cumpridas. Hoje, porém, há uma avalanche de pessoas que se consideram religiosas apenas em titulação e pouco estão preocupadas em se responsabilizar por essa mudança de comportamento. Ser religioso é ser também um agente social. Então, não há nada de errado ter milhares de indivíduos se convertendo a religiões diversas, desde que todas tenham seu espaço assegurado na sociedade e que seus fiéis sejam incansavelmente orientados a levar o que há de melhor em seus preceitos para as demais pessoas; sobretudo aquelas que não desejam ter qualquer vínculo religioso ou têm horror em se encaixotar em uma delas e se tornar mais um desses novos zumbis.

Quero ser teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te, sem medida,
e ficar na tua vida
da maneira mais discreta
que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade.
Sem jamais te sufocar.
Sem falar quando for hora de
calar,e sem calar, quando
for hora de falar.
Nem ausente nem presente por
demais,simplesmente,
calmamente, ser-te paz...
É bonito ser amigo.
Mas, confesso,
é tão difícil aprender!
E por isso
eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto
de lembranças!
Dá-me tempo
de acertar nossas distancias!

Fernando Pessoa

A prova do ENEM foi uma afronta ao conservadorismo. Mostrou que a escola é o lugar da subversão, da não aceitação do conservadorismo, do pluralismo de ideias, da abertura para o novo.
Contra o agronegócio, a prova trouxe a agroecologia, bem diferente da propaganda da Globo que diz que o agro é tec e pop. Contra o binarismo biológico do sexo, a prova joga na cara duas autoras lésbicas: Angélica Freitas, de "o útero é do tamanho de um punho", e Natalia Polesso, de "Amora". Além disso, o vocabulário do mundo gay, vindo diretamente do iorubá, expõe que estamos negros, mulheres e gays no mesmo barco da transgressão por ousarmos ser o que somos. Contra o racismo, a prova traz uma questão que, mais do verificar a função da linguagem, expõe os estereótipos e solicita empoderamento. Por que motivo uma questão mostra a produção de Stela do Patrocínio? Uma negra louca e lindamente poeta a gritar "Eu sobrevivi do nada, do nada...". Por que motivo uma questão traz um poema da "literatura negra" que diz "às vezes sou o policial que me suspeito e o porteiro não me deixando entrar em mim mesmo"? Por quê, me digam? Contra o machismo, inclusive instituído pela leitura errônea dos textos sagrados, a prova fez os alunos se depararem com um anúncio de denúncia ao assédio e uma propaganda publicitária da década de 40 que vendia um tônico para mulheres considerando-as de natureza doentia e frágil.
Para coroar, a redação exigia que os candidatos reconhecessem que a internet tem seus mecanismos de manipulação dos usuários, tais como as farms de likes e as fake news compradas. Ah, e não passou despercebida a questão que mostra que esse negócio de brasileiro cordial é uma balela, porque as redes sociais são, na verdade, antissociais, disseminadoras de intolerância e ódio. Contra os idiotas que vociferam contra os direitos humanos, a prova esfrega uma questão que fala da Declaração Universal dos Direitos Humanos e indica seu estudo desde os primeiros anos escolares. Sim, escola deve ensinar o aluno a valorizar os seus direitos e os direitos do outro.
Essa prova foi contra toda a onda conservadora que nos abateu, contra a horda de eleitores que decidiram votar no homem que quase nem gente é e que representa o que de pior somos. Essa prova é para que os bolsominions saibam que não será fácil calar a voz dos educadores.
Enfim, esse foi uma prova que os subversivos, perseguidos e vistos como aberrações devem ter respondido com um sorriso de orelha a orelha, que é o mesmo que sambar na cara da sociedade hipócrita, machista, misógina, racista e cretina. durmam com essa e aguardem a luta, porque nosso nome é LEGIÃO DE SUBVERSIVOS.


Provocar o leitor a pensar a respeito do que se lê é uma árdua tarefa enfrentada por muitos escritores ao longo da história. Em um plano geral, nem sempre certas ideias, por mais inovadoras que sejam, conseguem ser bem efetuadas no papel levando ao outrem uma reflexão acurada, profunda e acessível da gênese do pensamento daquele que escreve. Felizmente, a literatura universal possui alguns gênios responsáveis por ultrapassar esses limites impostos pelo fazer artístico, ao passo que suscita em nós os mais provocativos pensares acerca das nossas incongruentes existências. Nelas, luxúria e castidade, vaidade e moralidade, libertinagem e conservadorismo, compõem as muitas hipocrisias que insistimos em nutrir para viver em sociedade. O Retrato de Dorian Gray não só revisita esses polos, como também desnuda suas incoerências em uma época onde o belo sobrepõe tudo, algo resgatado e deveras enaltecido na atualidade.  

Escrito pelo Irlandês Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray foi publicado pela primeira vez em 1890. Devido ao seu conteúdo considerado como impróprio à época, o livro sofreu diversas sanções para que se adequasse as exigências editoriais antes de ser veiculado ao grande público. Dentre elas, as passagens homoafetivas foram as mais atingidas pela censura do período. Em boa medida isso estava ligado à conduta pessoal do escritor, que viveu abertamente uma relação homossexual que resultou anos depois em sua ruína. Porém, isso não retirou a maestria da obra, que mesmo eufemizada em certas passagens, conservou seu caráter original de enfretamento às incoerências de uma sociedade vitoriana. Ambientada numa Inglaterra do final do século XIX, a obra conta a história de Dorian Gray, que ao ter um quadro pintado a sua semelhança, escraviza sua imagem nele, criando uma representação animalesca de si mesmo.

A escolha do retrato não poderia ser mais pertinente. Não há arte capaz de reter tão fidedignamente a realidade do que as pinturas. Nem mesmo o advento tecnológico consegue tanta verossimilhança que muitos quadros clássicos da humanidade. As pinceladas do pintor captam as silhuetas invisíveis ao mundo real convidando o espectador a (re)olhar com mais minúcia determinados modelos. Assim como um artesão, breves instantes de vida se imortalizam nas mãos ágeis e delicadas de quem é capaz de aprisionar o tempo através das cores. Na obra quem encarna esse papel é o personagem Basil Hallward, o qual, encantado com a beleza do jovem Dorian Gray resolve fazer um quadro deste, cujo trabalho seria o mais importante da sua vida. Tanto empenho surge da imensa beleza emanada pelo rapagão, um verdadeiro Apolo do seu tempo, humanizado entre os meros mortais para deixar claro a mediocridade de suas existências. A princípio constrangido e incomodado com a bajulação de Hallward, Gray mostra-se alheio aos elogiosos comentários do pintor sobre sua beleza.

É quando lorde Henry Wolton entra em cena. Sua participação engrandece o romance. Em boa medida, suas colocações mordazes, seu humor leviano e a contumaz valorização da beleza como suprassumo da juventude corrompem a mente do jovem Gray fazendo-o reencontrar nele mesmo a valorização pessoal através da eternidade de sua aparência. Wolton representa também os anseios do próprio Wilde. É uma clara personificação do escritor frente à filosofia defendida por ele que apenas as coisas belas merecem ser valorizadas. Trata-se do Esteticismo, corrente defendida por Wilde na qual as belezas, por mais efêmeras e frágeis, são as únicas que importam. Tais ideais são sobrecarregados nas falas de Wolton levando-o a influenciar Dorian Gray. Hedonismo, e maledicência criam uma retórica inebriante acerca da relevância extrema que a beleza tem na vida daquele rapaz.

Sendo a juventude vulnerável por excelência, Dorian Gray se deixa levar pela capciosa interferência de Henry Wolton e passa a entender o sentido de sua existência a partir daquilo que há mais de precioso nela: a sua beleza e juventude. No afã da hipervalorização imagética, Basil resolve produzir um retrato do belo rapaz. O resultado final é mágico. Dorian ver-se pintado no auge de suas potencialidades físicas e, hipnotizado pelo que vê – assim como Narciso o fez em seu lago na antiguidade-, sente que suas feições serão deterioradas pelo tempo, enquanto aquele retrato permanecerá idêntico ao momento que foi pintado, guardando para todo o sempre o instante vivaz em que o belo e o novo – o que há de mais precioso para ser louvado, segundo o já mudado Dorian – estarão imaculados naquela imagem. Então, ensandecido pelo triste fim que sua perene existência mortal lhe reserva, ele invoca dentro de sua alma o desejo de permanecer infinitamente como aquele retrato, ao passo que o quadro carregaria as desgraças impostas pelo tempo.  

Ao se condenar a tal moldura, diversas implicações psicológicas emanam na vida de Dorian Gray. Entretanto, é preciso ler a obra para absorver as mudanças sofridas por este personagem susceptível a influências externas, mimado, por vezes irascível, mas tão atemporal. A autoflagelação de Gray irrompe o tempo. Hoje, a busca incessante pela beleza física tem feito com que diversos indivíduos entreguem suas almas, muitas vezes literalmente, para conquistar as definições perfeitas. Não à toa a beleza abra portas, sobretudo se for padronizada a partir do espectro eurocêntrico do qual foi moldada a cultura ocidental. O belo sobrepõe tudo, ultrapassa a emoção e extrapola a razão levando muitos indivíduos aos mais absurdos gestos para adquiri-lo. Tamanha supervalorização saiu das artes plásticas e ganhou notoriedade em outros veículos como o cinema, a mídia televisiva e hoje a internet.

O Retrato de Dorian Gray não apenas questiona a nossa devoção fanática pela perfeição corpórea como desmascara certas atitudes animalescas realizadas por nós para pertencer a tais ideias de beleza; tão fugidios em sua essência. É uma excelente obra. Curta, de linguagem simples, atemporal, provocativa, que nos faz refletir sobre como exaltamos inutilmente a beleza em detrimento de outras potencialidades caras à existência. Leitura imperdível para quem pretende entender os efeitos dos discursos hipnóticos usados por grandes nomes da sociedade para angariar milhares de seguidores ávidos por pertencimento através daquilo que é visto, e aceitável, como belo. Além das implicações reflexivas que inevitavelmente emergirão da obra, O Retrato de Dorian Gray é uma deliciosa leitura, mesclada com doses calculadas de humor, sarcasmos, aforismos, frases de efeito, filosofias, tudo isso sem pesar a mente do leitor com metáforas desnecessárias e por vezes incompreensíveis. O livro é tão belo na linguagem quanto em essência, por isso se imortalizou entre nós e figurará por muito tempo nessa era de Selfie onde o Retrato de Dorian Gray passou a ser digitalizado.