14 maio 2018



Quando as sirenes dos presídios fazem ecoar no país seu sinal de alarme, é para todos nós e por todos nós.

Antes de tudo, um minuto de silêncio. Estamos assistindo, há algum tempo, o terrível espetáculo da torpeza e do horror. No palco não estão apenas os personagens psicopáticos na arte de sublimar a vida, como definiu Freud. A vida mesma se tornou tragédia e a morte está na cena cotidiana. Há muito ficaram para trás os limites do intolerável.
Para conseguirmos ver e perceber, ouvir e compreender a violência extrema nas prisões precisamos ter clareza de que os massacres não estão apenas mostrando e dizendo algo para nós, mas estão, sobretudo, falando algo de todos nós.
Os massacres nos dizem que somos impotentes. Ao reconhecermos essa verdade, antes mesmo de “enfrentar o problema”, podemos retomar a racionalidade que nos foi subtraída ao longo do tempo, voltando, por um momento que seja, ao abrigo silencioso da nossa herança humanista e aos valores que baseiam as atitudes que nos constituem como humanidade.
Primeiro de tudo, não tenhamos medo de ficar sem palavras. Quebrar o silêncio com palavras desprovidas de sentido e compromisso pode agravar ainda mais o prejuízo, que já é imenso.
A psicopedagoga argentina Alicia Fernández, no seu livro “A Atenção Aprisionada”, advertia que estar no silêncio não é o mesmo que estar em silêncio, muito menos se calar: “habitar o silêncio para não silenciar”.
Como referência, a grande e saudosa mestra evoca a inestimável beleza e perturbadora clareza de uma cena do filme "Rapsódia em Agosto", de Akira Kurosawa. É o encontro de duas amigas que haviam perdido seus maridos nos bombardeios de Nagasaki. Sentam-se, uma junto à outra, e compartilham um chá em silêncio. Os netos espiam o encontro pela janela e ao final, assombrados, perguntam para a avó o porquê de não falarem nada durante toda a visita. A avó explica que “só em silêncio podem comungar alguns sentimentos para os quais não há palavras”. Foi o que também ensinou - em ato - o Papa Francisco, com sua silente oração ao visitar Auschwitz, da memória cruel do campo de concentração nazista. Arte e fé se encontram e se tocam, na humildade do silêncio, produzindo fagulhas de esperança para nossas almas ensurdecidas pelo barulho de tantas guerras.
Janeiro de 2017 é quando soam todos os alarmes. Mas essa sangrenta rapsódia vem sendo escrita há muito tempo, e não é possível ouvi-la sem lembrar do abandono, descaso e negligência dos poderes públicos ao longo de todos esse anos. A recusa em nacionalizar o debate sobre segurança pública e em criar um sistema integrado e duradouro - como o da Saúde e o da Educação, apesar de suas falhas - tem persistido por muito tempo. E a causa de tamanha negligência, todos sabemos, é política e eleitoreira: tudo para não perder “popularidade”.
O diagnóstico já vem sendo feito há muito tempo por quem conhece o problema em profundidade, pessoas que agora, mesmo cumprindo o dever de apresentar suas contribuições na mídia, sequer estão sendo chamados pelo governo para ajudar a construir saídas viáveis. O governo parece ignorar a contribuição da sociedade diante de uma crise com esse contorno e proporção.
Não foram poucas as oportunidades em que a sociedade ajudou o Estado com ações, propostas e experiências valiosas, como a de Betinho e Dom Mauro Morelli no combate à fome, ou de Ana Maria Peliano e Ricardo Paes de Barros na elaboração de políticas voltadas para a superação da extrema pobreza. Foi com a participação de estudiosos e a contribuição da sociedade que governos e organismos internacionais encontraram caminhos para o tratamento do HIV/AIDS, que à época parecia não ter solução. Foi a partir do esforço integrador de grupo de renomados economistas que o país conseguiu sair de uma situação crônica de instabilidade econômica na década de 90. Da mesma forma, foi assim quando decidimos enfrentar as inaceitáveis taxas de desmatamento da Amazônia e pudemos contar com a colaboração dos governos estaduais, da comunidade científica e da sociedade, constituindo um plano de prevenção e controle que possibilitou a redução da derrubada de florestas em 80%, por cerca de dez anos consecutivos.
Existem muitos homens e mulheres comprometidos com causas e não com projetos de poder pelo poder. Quando chamados de forma honesta e sincera, nunca negam sua contribuição e suas valiosas ideias, mesmo que, eventualmente, de forma reservada. Pude ver isso durante as campanhas em que participei como candidata à Presidência da República.
Em 2010, sob a coordenação do antropólogo Luiz Eduardo Soares, fizemos um seminário para estabelecer os eixos programáticos de uma política integrada de segurança pública para o país, com a participação de especialistas e secretários de segurança, pessoas com conhecimento teórico e experiência prática nos governos de vários Estados e dos mais diferentes partidos políticos e orientações ideológicas.
Debates assim me motivam a recusar a polarização do embate político e insistir na ideia de que é possível governar com as melhores contribuições da sociedade e dos partidos.
Será que os massacres nos presídios em vários Estados não deixaram evidente que esse é um problema nacional que merece a máxima atenção de todos? Será que a perda de dezenas de vidas e as cenas sangrentas das execuções não são suficientes para silenciar a tagarelice política e nos fazer refletir com humildade?
O governo federal anunciou a intenção de criar uma comissão permanente de acompanhamento da crise nos presídios. Urge que ela saia da mera intenção e ganhe mandato para enfrentar os graves e inaceitáveis problemas da segurança pública do país. O governo precisa ter a humildade de admitir-se insuficiente, carente de ajuda e até desprovido de razão. Afinal, voltando a Freud e seu instigante texto Personagens Psicopáticos no Palco, quem não perde a razão em certas circunstâncias não tem nenhuma razão a perder.
A complexidade da situação atual exige um trabalho conjunto para consolidação de uma política criminal e prisional mais eficiente e comprometida com a dignidade humana. A segurança pública não pode ser tratada apenas como atribuição dos Estados. O governo federal precisa assumir responsabilidades por meio de uma política nacional de segurança pública, capaz de integrar Estados, órgãos do sistema de segurança e organizações da sociedade civil.
Hoje, o Brasil possui a quarta maior população carcerária do mundo, cerca de 622 mil presos (Infopen/dezembro 2014). No período de dez anos, de 2004 a 2014, a população prisional aumentou em 80% e o número de vagas nos presídios ficou estável, resultando num déficit de mais de 250 mil vagas. Roraima e Amazonas, dois dos Estados onde houveram massacres nas últimas semanas, têm as maiores taxas de ocupação no sistema prisional do país; não foi por acaso que neles surgiu o furo no tumor que revelou o apodrecimento do sistema.
Diagnósticos, alertas e propostas não faltaram ao longo de todos esses anos, em que as políticas públicas na área de segurança foram se decompondo. Aos governos faltou o básico: silêncio para ouvir e compromisso para agir.
Grandes fracassos, sejam eles políticos, econômicos, sociais ou todos ao mesmo tempo, como os que vivenciamos agora, nunca acontecem de uma hora para a outra. Resultam de um descaso prolongado e uma omissão amadurecida em sucessivos governos, em cumplicidade com parcelas privilegiadas da sociedade. Sua descontinuidade, entretanto, é possível e acontecerá se ouvirmos os sinais de alarme - depois de termos ignorado os sinais de alerta.
Precisamos aprender com o belo poema de John Donne que os sinos dobram por todos nós. Traduzindo para a cruel realidade de nossos dias, quando as sirenes dos presídios fazem ecoar no país seu sinal de alarme, é para todos nós e por todos nós.


Visto no: El País

01 maio 2018


Em tempos de feminismos, nossas feminilidades estão cada vez mais sendo representadas. Esse fenômeno positivíssimo já nos trouxe inúmeras conquistas sociais/culturais e até políticas. Estamos caminhando paulatinamente rumo a tão sonhada, mas ainda distante, igualdade de gênero. Dentre as muitas pautas, porém, há uma ainda longe de ser concretizada, a que diz respeito a sexualidade feminina. Somos mães solteiras, possuímos alguns cargos de liderança, temos certa independência financeira, contudo, quando o tema é a nossa sexualidade, ainda há muitos tabus. Aquelas que se atrevem a subverter o padrão “Bela, Recatada e do Lar”, são rapidamente hostilizadas e banidas da convivência em sociedade. São as putas, como dizem, mulheres que não se dão ao respeito, vivendo abertamente suas vidas sexuais, para o desagrado dos mais puritanos. Porém, sob quais perspectivas ser puta hoje diminui alguém, já que a definição dessa palavra reside na máxima de que há mulheres sexualmente ativas, enquanto outras estão aprisionadas em meras convenções?

Tenho um apresso declarado pelas putas. Não me refiro as profissionais do sexo, as quais tenho um profundo respeito e admiração. Refiro-me as piriguetes, esse fenômeno sexual moderno, inconscientemente empoderado, quebrando tabus a respeito das relações sexuais. Possuem uma autonomia desmedida. Falam abertamente sobre suas preferências, recusando os eufemismos sexuais que só são proferidos para suavizar os ouvidos mais pudicos. Elas não se utilizam de enfeites na linguagem do prazer. Afinal, não há nada mais ordinário do que o sexo. Por isso, são de tomar a iniciativa. Determinadas, saem de casa sabendo o que querem, e geralmente conseguem. Seus alvos não são pré-determinados. Como franco atiradoras, miram nos primeiros presas que sucumbirem as suas seduções. São muitos. Variam de homens solteiros aos casados, muitas vezes até outras mulheres e, porque não, casais. Por serem livres de amarras morais, permitem uma gama infinita de possibilidades no sexo.

Daí serem vistas como putas, pois ficou consolidado que mulher precisa ser de um único parceiro, de preferência pela vida toda, atendendo aos seus anseios, depois da casa e, em seguida, dos filhos. Então, quando uma delas foge às regras, é depreciada como piriguete, como se este termo subclassificasse as mulheres decididas no rol das desprestigiosas. Palavra entoada de forma pejorativa pelas mais recatadas, que não entendem a ideologia por trás daquelas pessoas. As mais conservadoras, e os conservadores também, não enxergam para além da libertinagem aparente daquelas moças, como se isso anulasse o todo que há em suas existências. A piriguete é uma feminista por excelência. Sua militância está na sua personalidade indomável. Tudo nela é um convite à reflexão. Por mais despolitizadas que pareçam, não se enganem. Elas estão assumindo o controle de um terreno dominado há anos pelo masculino.

Há quem as veja como simples objetos de desejo. Mulheres fúteis voltadas a festas, bebedeiras e transas sem compromisso. Interesseiras, perigosas, destruidoras de lares, da moral e dos bons costumes. Tudo isso não deixa de ser verdade, mas nem por isso é um problema. Seus perfis de comportamento são o termômetro de uma mudança social, que não pode mais ser ignorada. Hoje, há muitas mulheres que nem se enquadram no molde piriguete, mas recebem este rótulo apenas por recusar o modelo Amélia de ser. São mulheres que questionam a obrigação do casamento até a morte; planejam a quantidade de filhos que querem ter, e se vão ter; não estão dispostas a largar uma carreira profissional bem sucedida em nome de um amor novelesco, do qual as leva para os afazeres domésticos e, sobretudo, não se contentam com um sexo programado, do tipo papai e mamãe, do qual o prazer costuma ser unilateral. Então, assumindo o controle de suas preferências, elas dizem não a isso e vão em busca da satisfação em várias áreas de suas vidas e, por isso, são vistas como putas, piriguetes.

O problema disso está na outra margem do rio. O termo “Mulher Direita” dita toda uma norma ancestral de como as mulheres devem ser apresentadas. É o tornar-se mulher, postulado intrigante defendido por Simone de Beauvoir, que se revela naquela máxima. Direita aqui será toda aquela que seguir um manual de comportamento: feminilidade, delicadeza, fragilidade, obediência, invisibilidade, discrição e, se possível, pureza. Mas a verdade é que elas, as “Mulheres Direitas” muitas vezes reproduzem essa postura mais regrada sem compreender por que estão desempenhando repetidas vezes aquele papel, quando em muitas delas há um anseio de insurgência. Entretanto, a pressão social é tão arraigada que muitas preferem maldizer as outras mais corajosas do que se aliar, ou pelo menos legitimar, suas existências. Por essa razão dificilmente a sororidade entra em cena nas relações femininas, porque se criou um embate entre direita e esquerda, respeitosa e desrespeitosa, valorizada e desvalorizada, sem um real aprofundamento dessas questões. Quem perde com isso? Invariavelmente todas as mulheres. Todas!

Ser puta é ter autonomia sobre o próprio corpo. Escolher com quem quer gozar, dividir o prazer a dois, a três, sem necessariamente está sob o julgo da vulgaridade. Ser puta ainda é ser mão solteira, assumindo a penosa tarefa de cuidar de casa, filhos e buscar o sustento. É também não querer ter uma vida materna. Significa não se apegar a ninguém depois de relacionamentos abusivos, dos quais as violências físicas/psicológicas definiam o que é ser mulher direita. Ser puta é descobrir o prazer por si só, permitir tocar-se, experienciar novas práticas na cama, sem se ancorar na presença de um macho para satisfazer certos desejos imediatos. É se permitir, experienciar, experimentar, nunca se privar. Ser puta/piriguete é ressignificar a moda. É abrir o guarda roupa e se sentir bem de short, calça, saia, vestido, independente do tamanho da peça. Na verdade, precisamos superar o valor atribuído ao nosso caráter baseado na extensão do que vestimos. Ser piriguete é olhar no espelho e se achar linda, mesmo que a moda/mundo nos diga o contrário. Significa excluir de nossas vidas aqueles homens babacas, que nos tratam como meras serviçais, tentando nos inferiorizar.

Percebi, portanto, que não me enquadro entre as “Mulheres Direitas.” Faço parte das ditas putas, então. Não sou casada, nem sei se pretendo ser. Não tenho filhos, tão pouco os quero. Tive vários relacionamentos. Não me privo de fazer sexo casual, se me der vontade. Na falta de alguém, desenrolo muito bem sozinha. Gosto de experimentar outras possibilidades na cama, sem enveredar pelos rótulos sexuais que só limitam o nosso prazer. Odeio afazeres domésticos. Trabalho fora, e muito, então, jamais trocaria minha independência financeira por causa de um príncipe encantado. Acredito em amores, no plural, assim como a vida, mas não nos “felizes para sempre”. Não sou mais virgem, mas se fosse isso não me daria qualquer vantagem perante as outras mulheres. Tenho a feminilidade que me cabe, sem excesso nem frescuras. Essa coisa de “sexo frágil” me cansa profundamente. Obedeço apenas as minhas vontades. Hoje, não me entrego a ninguém limitado, cheio de isso pode ou aquilo não pode. Sou dona do meu prazer, do meu corpo e faço dele o que bem entender, dentro do que considero seguro. Se isso é ser puta, piriguete, não me ofende em nada.

Ser puta não me diminui nesse sentido, apenas me liberta.


              
         
      Há monstros entre nós. Pessoas com as quais você convive diariamente e que escondem por trás da máscara de civilidade uma mente perversa. Sob o manto da impunidade, conversas imorais, pensamentos torpes e atos vergonhosos.



por Joel Pinheiro da Fonseca na Folha

            Estou falando daquilo que, a alguns, pareceriam delitos pequenos. Comentários que refletem racismo, machismo, homofobia e tantos outros ódios; piadas ofensivas; conversas pouco republicanas; grosserias sexuais; mentiras conjugais; expor crianças a conteúdo impróprio; sem falar nos atos de corrupção do dia a dia: parar em vaga de deficientes, furar fila. Nada disso tem lugar no século 21. E é por causa dessas condutas “pequenas” que o Brasil segue sendo o país da exploração e da corrupção, esta terra arrasada de miséria, injustiça e sofrimento. Contra isso, quem não se sente indignado é menos humano.
            Por muito tempo, toda essa massa de imoralidades ficou escondida do olhar público, convenientemente restrita à esfera privada, segura pela cumplicidade de poucos. Dentro dos museus, nas conversas de bar, em perfis pouco acessados nas redes sociais, em relações abusivas entre quatro paredes. Longe do conhecimento geral.
            Não dá mais. Chegou a hora de mudar isso. Tudo que é feito com expectativa de privacidade deve vir a público. A tecnologia já o permite.
            A fala ou ação que não se sustenta sob o olhar da sociedade democrática não é legítima.
Avanços inegáveis têm sido feitos. Câmeras e gravadores estão cada vez mais onipresentes. A cumplicidade está dando lugar ao espírito de denúncia pública. Nenhum patrão, nenhum namorado, nenhum colega, nenhum irmão está a salvo. Com um clique, o que se destinava a poucos se torna universal. Que nenhum quarto e nenhum gabinete esteja longe das câmeras e nenhuma conversa passe sem prints. Temos o direito de saber e o dever de agir.
            O povo é um juiz justo. Sabemos bem analisar o contexto, buscamos a correta compreensão de cada caso particular. Só não seremos indulgentes com canalhas. Saberemos distinguir entre deslizes ocasionais de sujeitos fundamentalmente bons e manifestações reveladoras de um caráter perverso. Em geral, é óbvio.
            Não existe piada ou comentário inocente. Todo ato é político. Até mesmo a arte; especialmente a arte. O mesmo vale para as relações humanas. Sob o olhar do coletivo, a complexidade individual desaparece; é nossa maior virtude. Nenhum opressor passará impune.
            O que fazer com esses monstros que nos rodeiam, uma vez que sejam descobertos? Infelizmente, o direito penal tem alcance limitado. Mas assassinar a reputação e arruinar a carreira é uma saída que depende apenas de nós. Essa é a nova regra do jogo. Afinal, você não ia querer trabalhar junto de alguém que defende a escravidão de negros ou a exploração sexual de crianças, não é mesmo?
            Não se trata de nada além disso.
            É uma pena que a tecnologia não nos permite ir mais longe e devassar aquele último reduto de tudo que é inconfessável: os recônditos secretos da mente. Esse dia chegará, um passo de cada vez. Até lá, a esfera da vida privada nos dará material suficiente.
            Não há mais espaço para sombras. Elas pertencem a um passado que não tem nada a nos ensinar. Não peçam compreensão; temos sido compreensivo há 500 anos. Fomos tolerantes em excesso com os pecados de nossos pais. Queremos apenas luz. Tudo será revelado e nada será perdoado. E daí, finalmente, a justiça reinará.
            Venha comigo. Não tenha medo. Você não tem nada a esconder, não é mesmo?


Ao ter contato pela primeira vez com os índios, Pero Vaz Caminha escreveu a carta abaixo:
"Andam nus, sem coberta alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou mostrar suas vergonhas; e nisso tem tanta inocência, como em mostrar o rosto. Até que um dia alguém viu maldade naqueles corpos nus, e os obrigaram a vestir suas vergonhas!
Triste é quem vê pecado em um corpo nu. Assim como quem tem tesão ao ver uma mãe amamentando. Onde está a mente que realmente é doente? Nossa mente já foi tão bombardeada de erotismo barato estampada nas capas de revistas ou mesmo nas tiras de jornais, que já não conseguimos ver pureza e beleza natural em um corpo nu.
É hora de despir a mente das impurezas... quem consegue?"
Contextualização: a arte faz perguntas, aponta respostas, dirime dúvidas, escancara as realidades e revira as verdades...; sobretudo, a arte mostra as imagens das feridas em carne aberta. Doa em quem doer; e se não for assim, não é cultura artística. A arte em troca das verdades não faz média com quem é de diplomacias veladas e democracias sigilosas; afinal, a arte não se prende ao que as sociedades "impõem como regras e procedimentos corretos". Ao contrário, são as regras e os procedimentos corretos impostos pelas sociedades que inspiram as artes.
Breve explanação sobre Ideias, Artes, Ideário e Sociedade:
Por Ideias, entende-se o que é formulado no campo imaginário, uma verve em forma de projeto espacial e muito provável, daquilo que se pretende executar. No meio social, um profissional que milita constantemente com essa teoria é o arquiteto, pois, primeiramente pensa a criação espacial, para em seguida, traçar a geometria do imaginado no papel. Como disse Einstein: "A mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará a seu tamanho original". O físico disse isso por que, pelo fato dos humanos terem a faculdade de pensar, ainda que não concretize, constantemente estão formulando ideias e alargando os horizontes racionais da mente, investindo na valorização do corpo e buscando, incessantemente, a elevação da alma.
A arte por sua vez, a grosso modo, é a maneira artística dos humanos expressarem suas emoções, sentimentos, história, beleza estética, a harmonia, a cultura e o equilíbrio da "peça" a partir das ideias. As artes são representadas pelas imagens, fotografias, signos e o objeto materializado, propriamente dito. A primeira lei do Direito pontua que as leis emanam do povo, em defesa do povo e para o povo. Analogamente, as artes emanam da sociedade, para uma profunda reflexão social sobre a mesma sociedade, a qual emanou a arte.
Em linhas gerais, ideário pode ser entendido como o conjunto de ideias e a implantação das mesmas, em forma de arte. Portanto, ideário é a arte finalizada e posta em prática. Por exemplo, uma exposição é o ideário do propositor, juntamente com o organizador e curador da obra artisticamente idealizada.
Basicamente, no reino animal, impossível é o vivente sobreviver isoladamente; motivo dos ocupantes de determinado espaço geográfico unirem-se gregariamente em grupos e bandos, formando as populações de espécies. No caso dos humanos, a população é formada pelo agrupamento de indivíduos, cuja "finalidade é usufruir socialmente do bem comum". Dotadas de discernimento, sabedoria e racionalidade, assim posto, as sociedades humanas são "organizações supostamente civilizadas" que se unem em prol do trabalho e uso do bem comum; e primando pela harmonia grupal, a igualdade e justiça é regida por um conjunto de leis e regras. Será mesmo que essa ideia é aplicável ao meio social brasileiro?
Sobre a exposição:
No início do ano o banco Santander Cultural garimpou várias obras de artistas renomados e após ordená-las em ideias artísticas, concretizou-as na Exposição Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira. Os trabalhos ficaram expostos aproximadamente um mês, quando uma enxurrada de reclamações e queixas nas redes sociais contra os temas, pôs fim ao projeto. Como as Ciências Humanas sofrem com o (pré)conceito interpretativo e cada pensante associa o que os olhos veem ao que é latente e oculto, os motivos das reclamações variaram de supostos ataques às crenças sagradas, ao incentivo à zoofilia, pedofilia e erotização de crianças.
Inicialmente, em defesa da arte e dos artistas, o banco emitiu uma nota, a qual referia-se ao evento, dizendo que a exposição é "justamente para nos fazer refletir sobre os desafios que devemos enfrentar em relação a questões de gênero, diversidade, violência entre outros". Por fim, o dinheiro falou mais alto e sob alegação que poderia haver uma retaliação por parte dos clientes e diante dos severos ataques impostos pelo povo, repercussão negativa causada e das tempestades de reclamações, o que poderia resultar em uma provável perda de investimentos e diminuição nas contas do banco, o Santander Cultural deu cabo à exposição que ficaria aberta ao público até 8 de outubro.
Os diversos olhares sobre o entrevero causado:
Segundo o curador que já fez duas bienais do Mercosul e nunca tinha visto algo parecido. As manifestações foram muito organizadas e se debruçaram sobre algumas obras muito específicas, que não dão a verdadeira dimensão da exposição. Esses grupos [de críticos] mostraram uma rapidez em distorcer o conteúdo, que não é ofensivo", disse Gaudêncio Fidelis ao jornal O Globo.
Já Antonio Grassi, ex-presidente da Fundação Nacional de Artes e atual diretor executivo do Inhotim, classificou a "A arte como o melhor lugar para debater. Eu vejo como preocupante esse tipo de movimento que impulsiona esse tipo de intransigência com o debate. Essas ideias de intolerância são incompatíveis com a arte. É uma censura", disse ao EL PAÍS.
O crítico de arte Moacir Dos Anjos, que já foi curador da Bienal de São Paulo, também criticou a decisão. "Rumo ao passado. E que vergonhosa a nota do Santander, querendo justificar, valendo-se de hipócrita retórica corporativa, o ato de censura que cometeu. Viva a diversidade!", escreveu no seu Facebook.
Para Kim Kataguiri, um dos líderes do MBL, - Movimento Brasil Livre - : "Isso é um boicote que deu certo, não uma censura", escreveu.
Como escritor deste, faço a seguinte pergunta sobre a justificativa de Kim: qual a diferença entre o AI, (Ato institucional) censura, cerceamento de linguagem e boicote? O leitor que interprete a pergunta e responda como, e o que quiser sobre a mesma.
Recorrendo ao conceito de que "sociedades são "organizações supostamente civilizadas" que se unem em prol do trabalho e uso do bem comum. Primando pela harmonia grupal, a igualdade e justiça é regida por um conjunto de leis e regras"; o viés é que se ainda necessitamos de exposições, como foi a criação artística proposta pelo banco, é porque não atingimos o estágio elementar do civilismo, não sabemos o que é cidadania e em troca do "os tempos mudaram", desprezamos o respeito mútuo, perdemos o senso de bom senso, dispensamos o discernimento de brasileiros construtivos e operantes para o todo; fato e virtudes que facultariam, inclusive, a arte do trabalho de retratar-nos através de uma exposição.
Bye, bye arte brasileira; bye, bye Brasil; porque o brasileiro de modo geral não merece o imenso e sublime país ofertado a ele gratuitamente e o pouco de ideias artísticas que ainda perduram em certas mentes lúcidas e esclarecedoras! Afinal de contas, pelos campos minados por onde uma população de serpentes peçonhentas se arrasta, ainda que tente desvencilhar do cordão, fuja como o diabo foge da cruz, a invisível sombra da hipocrisia segue milimetricamente o rastejar das víboras.
A conclusão do artigo, traduzida em um sub-artigo:
O dia que um povo arredio se rebelou contra a arte, se rebelou contra si; sobretudo, porque não há nada mais revelador dos costumes e atitudes de um povo, do que a arte. Mais: rebelou-se contra as verdades de um trabalho artístico sério e honesto, porém, no entanto, jamais tornarão a exposição e os artistas mentirosos.
Como povo é povo e dificilmente chegará ao ápice de ser uma nação, os prosélitos seguirão dividindo seus podres poderes, dividindo o país em segmentos raciais, políticos, econômicos, educacionais, feministas, machistas, religiosos, em opções sexuais, ...istas, egoístas, etc; e o pior, hipocritamente, silenciando a arte denunciadora; que pode muito bem ser limitada à faixa-etária do público espectador. Através da proposta de livre entendimento e expressão interpretativa, perde tempo conferindo uma exposição artística quem quer...ou, quem é de arte. Sobretudo, quer forma de arte mais pura, tenra e inocente, do que corpos nus sem ser molestados pela maldade dos olhos e mentes débeis numa praia de nudismo?
E diante de tantos rachas de sensibilidade; de tantos acontecimentos canhestros omitidos; de tantos melindres emotivos; diante de tantos querubins corruptos com duas pernas pulando com uma; de tantos clubes de troca de casais; de tanta divisão de poder; diante de tantas leis pacificadoras; de tantos egos gritados; de tanto falso moralismo; diante de tantos capôs de carros e gargalos de garrafas deflorados pela dança escandalosa do funk em praça pública; diante de tantos lençóis inflados nas camas dos programas de reality show às 20 horas. Se em nome do dinheiro e de gritos infundados do povo, tolheram a exposição, segue o escancaramento do não revelado... segue a catarse social que nas CNTP, dificilmente, se purificará.
Diante de tantos enquadramentos ao politicamente correto; diante de tantas famílias que, com a desculpa que "é melhor fazerem perto de nós, do que longe", liberam a casa e o quarto de casal para os filhos fazerem um auê, (o chamado bundalelê, que foi musicado e aplaudido com glória) fumar um baseado, - maconha, por baixo - e transar à luz dos raios de sol ardente do meio dia; pode-se afirmar que em sentido amplo e extensivo a "sociedade" brasileira é um grupo de sócios que trabalham e operam, para no fim, todos usufruírem do bem comum; que é a potência de recursos, chamada Brasil? Após 500 anos e mais uns rolos de fumaça na atmosfera, esse é o provinciano, ingênuo, (ana)crônico e realizável pensar dos nativos brasileiros?
P.S.: Invertendo o processo e dando razão às ideias e ao que o povo pensa, a arte é contra as "verdades dos bons pensadores sociais" e por manifestar-se assim, torna-se mentirosa. Não obstante, a arte é, antes de tudo, uma antítese caluniadora e por vezes, inverte os valores do exposto. Em nome da paz e para alegria geral, abaixo a arte esclarecedora de visões míopes, estrábicas e turvas!
Passou da hora de despir a mente das impurezas, exonerar a fuligem da hipocrisia dos óculos e extirpar a autocorrupção do coração...; mas como fez Cristo, quem se habilita em pôr a cara para bater? Mesmo porque, um tapinha artístico bem leve com luva de pelica, faz um tremendo estrago na cara...; óbvio que faz um tremendo estrago na cara de quem tem brio na cara!

Visto no: Obvious


Nutro há certo tempo um desconforto com obras focadas especificamente em espetacularizar o sexo, sobretudo quando a intenção explícita é usar este tema como subterfúgio para angariar mais leitores. Digo isso sem resvalar no pecado do conservadorismo, responsável por nos privar de muitas problematizações necessárias sobre questões urgentes como o prazer sexual. Pode soar ambivalente, mas não penso que o sexo não mereça ser o mote central de muitas obras literárias. Em absoluto, ele é um assunto demasiadamente improtelável frente aos borrões de cretinice impregnados em nossa cultura. Entretanto, para ganhar o status quo de relevância, é preciso ir as entranhas da nossa lascividade, vasculhar suas incoerências, revelar toda a hipocrisia acumulada e trazer à luz a nossa visceral vontade de gozar, esta fisiológica exigência do corpo sordidamente impedida de ser realizada, e discutida, como se deve. A Casa dos Budas Ditosos não apenas desvenda esses paradigmas, como também arruína todas as tentativas imperiosas de encaixotar o ato sexual dentro de uma forma binária, da qual fomos acostumados a ouvir o que pode ou não ser feito na cama, ou bem longe dela.

A Casa dos Budas Ditosos faz parte da coletânea Plenos Pecados, na qual cada obra enfoca a respeito de um dos pecados capitais. O da luxúria foi a incumbência dada a João Ubaldo Ribeiro. Entretanto, como bem sinaliza o autor antes de iniciar a narrativa, a história em questão lhe foi entregue no prédio onde trabalhava em um pacote contendo a transcrição datilografada de várias fitas, gravadas por uma misteriosa mulher intitulada apenas como CLB, nascida na Bahia e residente no Rio de Janeiro. A história é narrada por essa senhora de 68 anos contando em detalhes as suas inúmeras aventuras sexuais ao longo da vida. Todas verídicas, segundo ela. Porém, ao ler o livro, é impraticável por sobre seus relatos o artifício da dúvida, por se tratar de acontecimentos possíveis de serem realizados. Seu depoimento, porém, é, na mesma medida, delicioso e chocante, principalmente para aqueles mais puritanos no quesito sexo. Surpreende também a naturalidade como ela aborda subtemas sexuais ligados ao incesto, homossexualidade, bestialidade, intercâmbio sexual, pansexualidade, temáticas vistas com ojeriza pela maioria de nós, que apenas reproduzimos discursos vazios sem problematizá-los.

A linguagem chula da obra é o primeiro ponto que precisa ser mencionado. É um recurso comum em muitas outras ditas eróticas, geralmente para apropriar a narrativa ao que destina ser feito: ambientar uma atmosfera livre de pudores, quando na verdade, em muitos livros, serve apenas de mera artimanha linguística. Em A Casa dos Budas Ditosos não. Por ser uma obra de relatos, falar despudoradamente sobre sexo é inquisitivo, faz parte de tantas outras carências análogas. Trata-se de reproduzir as sentenças que mais representem os anseios de todas as experiências vividas pela narradora, as quais costumam vir encobertas em outras histórias sob o manto de eufemismos, construídos muitas vezes para agradar aos ouvidos. Aqui não é só proposital proferir um discurso lascivo, é crucial para se fazer ouvir, sobretudo quando aquele que diz foi/é emudecido historicamente de viver/praticar/sentir prazer. É a retórica da palavra em sua extensão mais política. Dá sentido ao que se lê, pois a intenção não é vulgarizar o enredo, mas justificá-lo através da verossimilhança do que está sendo contado. 

A própria literatura definida como erótica enclausurou durante muito tempo a maneira de se dizer o ato sexual entre os preciosismos metafóricos ou a enxurrada de escrotices pseudolibertárias. Faltava uma discussão sexual assim, voluptuosa, destemida e acessível, que se for capaz de nos assustar, como vai, é porque empreende toda uma significância imbuída de verdades inconversáveis a muitos de nós. Esta limitação pudica que se elaborou em torno da fala do sexo, em suas múltiplas variantes, é uma forma celibatária, careta, que nos aprisiona de avançar nesse quesito. A Casa dos Budas Ditosos quer que avancemos nessa questão. Seus relatos suscitam incomodo por retirar de nossas gargantas anseios inconfessáveis de nossas zonas erógenas mais remotas. Então, é preciso naturalizar nosso prazer, sem ruborizar a face diante de certas práticas sexuais ou dissimular suas existências. É de tanto fazermos isso que o sexo foi encapsulado aos guetos: motéis, sexy shops, saunas, clubs, recategorizando uma prática natural dentro do que é visto como desnaturezas humanas, como se quem infligisse as regras estivesse cometendo um ato ilícito. 

Inegavelmente, é o peso imposto pela moral que nos impede de burlar este cenário antiquado sobre o sexo. Nem mesmo a arte, esta instância de liberdades ilimitadas, escapou dessa censura. Por isso que, em termos de acessibilidade, obras mais idealizadas sobre o sexo chegam mais facilmente ao grande público, porque o sexo palpável, aquele animalesco contido em cada um de nós, não chega ao patamar de protagonismo. O que é vendido é a fantasia da fantasia sexual, o ato higienizado, por vezes teatralizado, entre um casal que finge quebrar todos os protocolos na cama, utilizando-se de apetrechos, uma música de fundo, lingeries refinadas, caras e bocas ensaiadas de tesão, mas, na verdade, são meros fantoches estrelando uma cópula tão sem graça quanto aquela que levou Adão a comer do fruto proibido. 50 Tons de Cinza é o fiel representante desse modelo sexual de quinta. Em A Casa dos Budas Ditosos tais penduricalhos, como são enfatizados no livro, são inúteis justamente por nos tolher de viver enlouquecidamente ou breves instantes de tesão que nos forem possíveis, apenas para manter um script démodé numa ocasião da qual não requer roteiros.

O livro também é um convite ao prazer. O leitor dificilmente não passará por breves momentos de excitação ao ler os relatos daquela senhora. São tão minuciosos em suas descrições que passamos a fazer parte daquela narrativa, como um adepto de voyeurismo inexperiente, dividido entre a mera contemplação e a monstruosa vontade de reproduzir aquilo que leu. Independentemente de suas preferências sexuais, em várias partes da obra você sentirá seu desejo posto à prova, em cenas onde práticas bissexuais, homossexuais, incestuosas, promíscuas e até alusões a sexo com animais, atordoem o que você imaginava estar consolidado. Esse é um dos grandes lances desse livro, sacudir as certezas impostas em nós sobre as nossas exclusividades sexuais, como se preferir certas práticas anulassem outras tantas possibilidades prazerosas, que nem por isso maculariam o todo de nossas predileções. É um convite a clandestinidade, mas sem necessariamente incutir o rótulo de criminoso. Apenas pessoas aventureiras dispostas a se permitir deleitar-se, ignorando o julgo da moral.

Por mais proibições que se criem em torno do sexo, nada é capaz de domar a natureza humana nesse sentido. É este instinto natural de copular que nos aproxima da face animalesca, justamente aquela tolhida por tantas e tantas instâncias culturais voltadas a higienizar nosso prazer. Porém, a bem da verdade, todas as tentativas se mostraram falhas, incapazes de reverter esse anseio humano pelo prazer sexual. O que ocorre é elaborar perfis humanos fracassados em suas práticas sexuais, frustrados em casulos de moralidade incapazes de proteger quem quer que seja. Seres indefesos em suas teorias regulatórias sobre como o sexo deve ser realizado, desperdiçando tempo com censuras incontestavelmente inúteis. Então, politicamente, este livro é um convite à luxúria trancafiada, porém, nunca eternamente aprisionada, em cada um de nós, não como pecado capital, dentro da áurea negativa que se criou, mas como prática humana emergencial, a qual eliminaria por completo diversos preconceitos sexuais que aglomeram as nossas vidas de limitações, restritas ao campo da tese, não da prática.

Mais que provocativo, A Casa dos Budas Ditosos é uma pequena amostra de uma vida sexual levada ao limite, ao passo que do outro lado - talvez escandalizados pelos relatos indiscutivelmente perturbadores aos olhos mais puritanos de quem foi educado a fazer o sexo equacional papai e/mais mamãe - há leitores malogrados em suas vidinhas sexuais insossas; ora desejosos de protagonizar aquelas páginas, ora demonizando-as hipocritamente. Há também aqueles representados pela narrativa. Faço parte sutilmente desse time. Mesmo me considerando na vanguarda desse tema, cheguei a subestimar a obra antes de lê-la em completude. Atitudes arbitrárias como essas são típicas de quem se vê a frente do sexo, quando nesse território, somos todos amadores. Quem dita as regras é o prazer. O Que há são participantes um pouco mais permissivos que outros. Autodidatas, talvez, mas sempre inexperientes. Seja qual for o perfil do leitor, a obra é um tratado educacional sobre sexo sem necessariamente se prestar a este serviço. Nos causa sensações diversas, mas nenhuma inverdade há naquelas histórias, por mais inventadas que fossem. Apenas as nossas vaidades, limitações e carências em sofreguidão, clamando para serem saciadas.



Lembro-me como se fosse hoje. Ainda pequena, vi um filme sobre o tão falado "Bullying", após isso a professora nos propôs uma discussão sobre tal. Naquele momento todos entenderam o que era o bullying, ou pelo menos fingiram... As cenas impactantes me extasiaram, nunca pensei que alguém fosse capaz de humilhar o próximo ao ponto de a única solução para o "bulinado" ser a morte. Aquilo doeu. Aquilo ainda dói. Mas, tudo bem, eu "esqueci", as crianças esqueceram, até porque o ser humano não tende a tomar a dor do próximo para si. Tempos depois parei para refletir: será que já sofri bullying? Agora, pergunte a si mesmo, "Será que já sofri bullying?" Talvez você pense que não, talvez você nunca tenha sofrido, ou talvez você seja como eu, a qual achava que não, mas aí é que está o problema, quem sofre/sofreu bullying normalmente não assume para si que está passando por tal ou que já passou.
O bullying é uma agressão intencional, de maneira repetitiva, podendo ser de forma física ou verbal, por um ou mais alunos contra um ou mais colegas. Ele tem domínio em âmbitos escolares, porém alcançou outras vertentes, como a internet., trazendo o chamado cyberbullying. Antes de fazer meu relato sobre as agressões que sofri na escola, preciso abordar sobre o que passei na infância. Quando criança meus parentes falavam sobre duas coisas de mim: Cabelo e corpo. Falavam bem? Negativo. Meus cabelos eram volumosos, cacheados, motivo para riso. Riso? Exatamente! Toda cacheada já ouviu "Teu cabelo parece uma juba de leão" ou "Que cabelo de fubá". Aquilo me entristecia, me adoecia. Chorava e chorava muito para desembaraçar o cabelo, enquanto isso eles riam e achavam divertido. Era doloroso, eu até evitava, só por medo de sentir aquilo novamente. Enfim, agora sobre o corpo. Ah, meu corpo... Bem, sempre fui muito magra, para algumas pessoas é ótimo, hoje ainda escuto "Queria ser assim magrinha, comer e não engordar", pois bem, eu afirmo: não é tão maravilhoso. Isso gerou inúmeras brigas entre mim e minha mãe. Ela me contou que chorava para eu comer, pois não aguentava mais ouvir as pessoas falarem da minha magreza exacerbada. Imaginem uma criança magra, com cabelos batendo na polpa do bumbum e super cheios, agora imaginem compara-la a uma vassoura invertida, isso mesmo. Não é engraçado para mim, nunca foi.
Meus colegas faziam piadas desse tempo, além de falarem que falo demais. Aos 10 anos dei o primeiro alisamento químico no cabelo, o objetivo era ser aceita, era me livrar daquele fardo que me trazia angustia, pois finalmente eu teria "cabelo bom". Passei também a tomar remédio para engordar, aliás, o corpo perfeito também precisava ser alcançado. Mas, não consegui engordar e aos poucos a química caiu, o dinheiro se foi, permaneci magra e pior ainda sem cachos, com o cabelo estragado. O que fazia? Molhava e prendia, era lei. Não me sentia bonita, longe disso. Então, o que fazer para alcançar harmonia comigo mesma? Estudar! Eu pensava "Se não posso ser bonita, ao menos posso ser inteligente".
 Pra que fiz isso? Fui vítima mais uma vez, apelidos como "Nerd" "Quatro olhos" "Metida", foram selados em minha testa. Era como no filme "A letra escarlate", a "adultera" tinha que usar uma enorme letra pendurada em seu pescoço para que todos soubessem quem ela supostamente era, e dessa forma, seria julgada, excomungada; eu não tive que usar nenhuma letra no pescoço, mas pior que isso, era como se não fosse apenas uma letra, mas algo que fizesse com que as pessoas chegassem em mim e me odiassem, falassem apelidos, piadas e no fim acabassem comigo.
O tempo passou e me acostumei. Chorava sempre, mas tinha que lidar com isso. Até que um outro episódio me aconteceu. Passei a sofrer bullying, mas não era o de costume dos alunos, foi de uma professora. Certo dia interferi em sua aula, e como resposta ganhei um belo fora, seguido de desprezo, raiva e apelidos. Aquilo me matou. Eu convivi com as gracinhas por meses, tentava dizer a mim mesma "Calma, não é bullying, isso é coisa da minha cabeça, aliás, a errada sou eu mesma por ser diferente". Tentei falar para minha mãe, mas algo me prendeu, eu tinha medo do que a professora fosse fazer se soubesse que abri a boca. E assim permaneci na famosa "Lei do Silêncio", que me consumia, me desgastava. O tempo passava devagar em sua aula e era um tormento, sofri dessa forma até o fim do ano... E assim acabou a suposta infância.
            Ensino médio, anos de grandes decisões, o vestibular bate na porta. Mudei de escola. Medo me cercou. Como as pessoas lidariam comigo? Sofreria bullying novamente? Mas, eu tinha que ir, era a minha única opção. Fui para escola pública, primeira vez na vida. Era a única de origem de escola privada, obviamente, nossas bases eram diferentes, culpa minha? Não, do governo que não investe em educação. Pois bem, deixemos isso de lado. Continuando, logo me destaquei, estudava muito, tinha medo do vestibular e ademais era bom ser boa em algo. Até que os comentários começaram, como "Essa menina fala demais" "Cala a boca, para de responder" "Aff, eu odeio ouvir sua voz". Tudo bem até aí, me calei, me retraí. Chorei. Era vítima de novo.
Certo dia, fizemos uma dinâmica, a qual deveríamos escrever algo sobre alguém, bom ou ruim, sem se identificar. Recebi papéis da quantidade da turma, algo positivo? Não, é claro que não! Meu cabelo foi ridicularizado; fui taxada de palito, vassoura, graveto, até "Etiópia" (fazendo referência as crianças da África); minha maquiagem era motivo de risos, e o engraçado eu só usava para ser aceita; metida, esnobe, sabe tudo, já eram tão comuns que se tornaram quase uns elogios... Quis sair da escola, chorei, fiquei depressiva, minha mãe não entendia, aliás, eu não conseguia falar. Depois de muito esforço fui para a escola, aos poucos, me enturmei com uma pessoa, duas, mas sempre me retraía. Hoje, noto como eu fui forte, pois consegui lidar mais uma vez com o terrível monstro que me assombrava. Segui. Poderia ter sido pior? Com certeza, mas busquei forças e aprendi a me aceitar. Tenho cabelo cacheado, sou magra e falo muito. É o meu físico, é o meu jeito, é quem eu sou. Hoje, tenho plena ciência de que o que passei era bullying, não acho que ninguém, repito NINGUÉM deva passar, é lastimável. Ainda tenho feridas não cicatrizadas, e isso me afeta. Isso tem um fim? Ou o bullying é um vírus, no qual a única cura é a morte?




Você acha que o conhece?

Se tem uma coisa que me cansa é quando eu digo que sou uma advogada paulistana e a pessoa automaticamente conclui que eu ganho rios de dinheiro, voto no Alckmin e uso conjuntinho de blazer e saia-lápis. Não, essa não sou eu. Mesmo.
Ou quando alguém diz que eu sou blogueira, e os outros já presumem que eu sou magra, ultra saudável, ando sempre bem vestida, com calça esquisita e salto fino. Não, outra vez, não sou eu.
É chato quando tiram conclusões precipitadas sobre a gente e, ao invés de podermos mostrar quem somos, temos que perder tempo demonstrando quem não somos, comprovando o que não fazemos, esclarecendo do que não gostamos.
Pois é. Essa é a história diária dos meus tantos amigos gays.
“Que legal, você tem um amigo gay? Ele deve ter dar vários conselhos sobre moda, arrumar seu cabelo, te ensinar coreografias, dançar descamisado até o dia amanhecer, ir com você às compras, te ligar te chamando de gaaaaaata.”
Então. Na verdade não.
Eu até tenho um amigo gay que entende muito de moda. Mas tenho outro que só entende de terno. Outro que se veste que nem o Agostinho Carrara. Outro que não tá nem aí pra moda, tem um jeans velho e olhe lá.
Eu, de fato, tenho um amigo gay que é cabeleireiro. E tenho outro que é um super advogado. Outro que trabalha em plataforma de petróleo. Outro que tá sem emprego, na luta, com várias contas atrasadas.
Eu tenho um amigo gay que me ensinou a coreografia do Show das Poderosas. Outro que me apresentou uma banda dinamarquesa fantástica. Outro que toca bateria numa banda de rock. Outro que mal consegue bater palma no ritmo certo no “parabéns pra você”.
Eu tenho um amigo gay que me leva para as melhores baladas, das quais nunca voltamos antes das 8 da manhã. Outro que só gosta de sair pra correr no parque. Outro que me chama para ir assistir jogo da Champions no bar. Outro que só me encontra depois da missa. Outro que nunca sai porque está estudando que nem louco pra concurso público.
Eu até tenho um amigo gay com quem gosto de ir ao shopping. Mas tenho outro que é a melhor companhia para hamburger cheio de bacon e milk shake. E outro que é ótima companhia para ir na Leroy Merlin porque entende tudo de obra. Outro com quem adoro abrir uma garrafa de vinho e conversar sobre filosofia.
Eu tenho um amigo gay que me liga e fala “gaaaaaaaaaata vamos pra balada?”. Mas que às vezes me liga e fala “Rú, vem almoçar aqui, minha mãe fez bacalhau”. E me liga e diz “to ferrado no trabalho, não vou ter fim de semana”. E me ligou e disse “minha avó morreu, vem pra cá por favor”.
Às vezes dá vontade de dizer: meu amigo gay? Meu amigo gay é uma pessoa sobre a qual você só sabe duas coisas- que é meu amigo e que é gay. Para saber o resto, o jeito, o gosto musical, o tom de voz, a profissão, você precisa conhecê-lo. Te garanto que ele não cabe em nenhum molde que você tenha na cabeça.
Com amigas lésbicas é pior ainda. “E você não acha que ela quer te pegar? E ela calça 42? E ela fala grosso? Tem cabelo curtinho com gel?”. Caceta. Não, ela não quer me pegar, nem me atacar durante a noite. Ela é minha amiga e eu sou amiga dela. Ela calça 36. Tem uma que fala grosso, outra parece uma gralha. Uma de cabelo joãzinho, outra que gasta mil reais no cabeleireiro fazendo luzes.
Será possível que nessa altura do campeonato ainda precisamos explicar que“gay” não é um tipo de pessoa, mas uma característica de uma pessoa como qualquer outra? Que eles não pertencem a uma espécie à parte? Que eles não cabem numa forma padrão, com personalidades, atitudes e discursos pré-definidos?
Complicado…
E no dia em que me perguntaram “mas por que você tem tanto amigo gay?” eu só consegui responder “ah, sei lá”.
Mas, pensando melhor, eu não tenho muito amigo gay. Eu tenho, graças a Deus, muitos amigos. Dentre eles, tem hétero, tem gay, tem jogador de poker, fã do NX zero, hippie de estrada, testemunha de Jeová. Tem muita gente. Muita gente amada, do jeito que é. E é isso que importa.
Meu amigo gay é super gente fina. Você vai gostar de conhecê-lo. Mas, por favor, não se esqueça: você ainda não o conhece.


Visto no: Estadão


Viver é correr. Acordar, comer, sair, estudar, trabalhar, namorar, casar, comprar, vender, ganhar, perder, voltar, construir, viajar, dançar, nascer, morrer. São tantos movimentos autômatos em que nos apressamos para cumprir as tarefas diárias que, quando menos imaginamos, estamos a 100km/h ou mais. Não sou diferente de muitos outras pessoas, as quais precisam disparar a todo vapor assim que o dia lentamente nos desperta com o seus primeiros raios solares. Até pouco tempo, corria automobilisticamente atrás de realizações pessoais/profissionais consideradas por mim urgentes. Como bom velocista, consegui chegar ao pódio desejado, e uma vez lá, acreditava está tudo consolidado. Esse é um dos enganos de quem sai em disparada em tudo, pensar que ninguém irá ultrapassá-lo. Então, confiante ao excesso, deixa-se relaxar, é quando percebe que foi substituído e tenta, em vão, tomar a linha de chegada em primeiro, mas continua entre os últimos colocados. Para quem passou por isso, assim como eu, apresento a vida a 60km/h.

Meu irmão foi a pessoa que me apresentou esse velocímetro. Para mim, que tinha uma vida hiperativa, para bem e para mal, não me pareceu ser o mais acertado. Como eu poderia diminuir o ritmo da minha vida, se ainda havia uma infinidade de pendências a serem cumpridas? Foi quando ele explicou, com o seu jeito meio naturalmente filósofo/prolixo de ser, que eu não estaria abandonando meus ideais, apenas dando uma outra cadência a minha vida. Para alguns pode soar um tempo medíocre frente à celeridade diária da qual somos cobrados. 60km/h não parece muito, quase nada na verdade, diante de tantas coisas que precisamos e somos obrigados a realizar/ter/conquistar/cumprir ao longo do dia. Mas a reflexão em questão não está em desacelerar nossos anseios, e sim criar uma cronologia constante em torno deles, antes durante e, sobretudo depois de conquistá-los. Trata-se de revisitar a história da lebre e a tartaruga, interpelando a fragilidade de nossa autoconfiança, tão facilmente derrotável, ao passo que potencializamos nossa resiliência, foco, metas pessoais, mesmo a longos passos/prazos.

A discussão é antiga, por vezes clichê, até que nos vemos como protagonistas dela. Isto porque, o mundo moderno, a tecnologia, as mídias sociais, a moda, a sociedade em geral, nos coloca numa corrida da qual o limite de velocidade é ilimitado. Correr, nesse sentido, rima com ter. É preciso ter estudo, para conseguir um trabalho e ganhar dinheiro, para comprar o celular mais atualizado, postar fotos incríveis na rede, posar com os looks que estão em tendência, cuidar do corpo e da estética, possuir um carro, casa, relacionamento estável, ter filhos, ser adepto de alguma religião, de preferência cristã, conciliar tudo isso com o que é vendido na mídia e ainda ter tempo para amizades, projetos pessoais, alguma diversão, e retornar ao início. É um circuito fechado imenso e humanamente impossível de ser realizado em perfeição de A a Z. Então, para pertencer a este ciclo, saímos em desabalada carreira para atender as expectativas, que muitas vezes não são inteiramente nossas, mas de uma engrenagem maior, responsável por nos aprisionar pelo resto de nossas vidas atrás de metas cada vez mais irrealizáveis. Então, vem a estafa e o corpo sucumbe. Voltamos à estaca zero.

Nessas ocasiões, o natural é desejar retomar a rapidez de antes, mas o corpo não suporta. Não possui o mesmo vigor de outrora. Logo, o fracasso passa a ditar o compasso dos nossos dias e temos a sensação de estarmos à marcha ré dos demais. E estamos. Numa sociedade regida pela competitividade, quem vacila fica invariavelmente para trás. Não há solidariedade para os fracos. Eles são renegados ao esquecimento quando não demonstram mais ser capazes de contribuir para os mecanismos vigentes. Para estes indivíduos, o sentimento destinado é o de penar, uma lamentável homenagem a quem um dia teve certo destaque na sociedade, mas se deixou levar pela vaidade, pelo orgulho, características pretensiosas de quem acredita ser invencível, insuperável. Quando, na verdade, por mais rápido que sejamos, sempre estaremos distantes de nos realizar por completo. Tamanha limitação pode ser menos dolorosa quando assumimos o volante de nossas vidas moderadamente, deixando a posição de velocistas e assumindo a de maratonistas.

É nessas horas que devemos marcar 60km/h em tudo. Trabalhar nossos eixos físico/mental/emocional para suportar as demandas diárias. Controlar nossos impulsos, rejeitar os empurrões alheios e tentar traçar um movimento contínuo que respeite nossas habilidades e limitações. De início não é uma tarefa fácil. Ainda estou em fase de testes, readequando o meu corpo a essa nova quilometragem. Às vezes, tenho vontade de sair desembestado atrás do que quero, porém, recordo como correr demais foi nocivo a minha saúde, e no final, pouco me proporcionou, a não ser a reflexão destas palavras. O que já é de grande valia. Correr é positivo quando estamos no controle dessa velocidade. Do contrário, desperdiçamos tempo, energia, dinheiro, e não chegamos a lugar algum. Manter um ritmo saudável de nossas vidas, portanto, significa garantir que boa parte de nossas metas serão cumpridas no tempo exato para acontecer, que para alguns pode parecer uma eternidade, por isso buscam sempre o excesso, todavia, para os mais resilientes, será no momento que tiver que ser. Estar a 60km/h é um ato auspicioso.

Claro que em alguns momentos é preciso dar certo impulso a nossa caminhada. O fato de perder certa posição não quer dizer que ela não possa ser retomada. Para quem chegou, em algum estágio da vida, a regressar em suas conquistas, pode retomar a engrenagem de uma maneira diferente, mas regrada, e ainda sim, focada no que se quer. Se serve de conselho, deixem os apressados seguirem na frente. Muitos deles apenas correm sem direção, acreditando estarem indo longe dos seus concorrentes, quando na verdade estão se distanciando ainda mais daquilo que almejavam fazer/realizar. Ignore os apelos das lebres ao seu redor gritando para você ir mais rápido em tudo, muitas vezes desrespeitando seu corpo. Quando estamos numa progressão, percebemos a evolução de nossas metas, por mais que os outros não as vejam da mesma forma que nós. Essa é a graça da coisa, surpreender essas pessoas, derrubar suas expectativas, e mostrar que é possível chegar muito longe em passos medianos. Então, 60km/h é o ideal para se chegar aonde se quer, sem infringir nenhuma regra pessoal ou social. Até porque, da largada ao pódio, há muito chão pela frente. Então, é correr caminhando.



Em tempos de divulgação dos resultados dos estudantes brasileiros no ENEM, há uma verdadeira polvorosa acerca do ranking de notas nas instituições de ensino, na mídia e nas famílias que têm filhos em idade de prestar o exame. Isso é perfeitamente compreensível, já que tal avalição traz à tona questões que dizem respeito à qualidade do ensino básico no país. No seio das famílias, por seu turno, o desempenho dos filhos na prova será determinante para o ingresso dos jovens na universidade.

Nesse ínterim, alguns cursinhos preparatórios aproveitam para fazer as suas publicidades, associando, naturalmente, os desempenhos dos candidatos aos seus nomes para angariar, no ano seguinte, mais e mais matrículas. Apinham-se, assim, em salas de aula de todas as disciplinas, um número exorbitante de alunos esperançosos de que aquele professor lhes aponte o caminho para a tão sonhada aprovação no vestibular. Não há, entrentanto, milagres nesse terreno, ainda que alguns docentes empresários de cursinho de redação propaguem essa ideia.

Há poucos dias, eu ouvi um jovem rapaz que está matriculado em um  cursinho de redação que vem ganhando muita notoriedade na cidade do Recife dizer que ele foi orientado a atribuir citações a autores aleatoreamente, mesmo que aquela pessoa nunca tenha dito aquilo, pois os corretores da redação não vão pesquisar se a fonte é mesmo correta.  Dados de pequisas também podem ser inventados e associados aos institutos porque o corretor não vai checar a veracidade da informação. Ao ouvir tal relato, não pude deixar de observar no rosto do jovem aquela velha alegria que se estampa na cara de tantos brasileiros quando o assunto é pegar atalhos, é tirar vantagem de algo, é ser, em algum momento, protagonista do famigerado “jeitinho brasileiro”. Como dira um jogador da seleção brasileira da década de 70 que, à epoca, protagonizou o que ficou posteriormente conhecido como a lei de Gerson, “(…) gosto de levar vantagem em tudo, certo? Leve vantagem você também.”

Pois bem, em tempos em que a corrupção corroi mais e mais a máquina pública, em que os escândalos envolvendo políticos de todos os níveis se tornaram corriqueiros, em que nós, cidadãos comuns, estamos, a cada dia, perdendo a capacidade de nos indignar com isso, é mesmo muito lamentável perceber como se pode alimentar em sala de aula (e de forma tão escancarada) a falta de ética. Faz-se isso quando se se ensina a alunos que, desde que eles atinjam os seus objetivos, o jeitinho brasileiro vale sim. Vale mentir. Vale burlar. Vale ser desonesto, desde que ele passe, desde que tais professores angariem mais e mais estudantes por meio das estratégias de marketing e fiquem riquíssimos. Afinal, não se trata de algo tão sério, não é mesmo? Trata-se apenas de uma pequena mentira. Trata-se da porção de desonestidade que nos cabe neste latifúndio.

E há conselhos que remetem à formação inicial desses docentes de fazer arrepiar os cabelos de quem leva a educação a sério, dados por profissionais que não investem em sua formação continuada e estão completamente alheios ao que as contemporâneas pesquisas dizem ser relevante ensinar. Conselhos que põem em xeque a competência de muitos desses professores. Esses, que dizem respeito à formação de base, são até de certa forma aceitáveis, pois sabemos que não são poucos os problemas que precisamos enfrentar para que muitos licenciandos recebam uma formação adequada em determinadas instituições de formação docente brasileiras. Mas para o outro conselho não há perdão, não há desculpas e cabe aos pais ficarem a atentos a esses sinais, para que não estejam pagando caro para que profissionais desse tipo desconstruam o que foi edificado durante anos não apenas em seus lares, mas também junto àqueles professores das escolas que, de fato, contibuem para a formação desses alunos e que, muitas vezes, sequer são mencionados na hora da colheita dos louros.


*Doutora em Letras pela UFPE e professora do departamento de letras da mesma Universidade

Visto no: Diário de Pernambuco


Eu sei que a decisão que eu tomei foi totalmente desqualificada e imoral. Quem diabos é para tirar a própria vida? Mas eu posso dizer uma coisa: Pra que serve o livre arbítrio? A vida é minha, a essência é minha. Respeitem.

As pessoas passam a vida inteira julgando tudo que veem. Jogam palavras que não voltam, olhares que machucam, rejeitam, maltratam, usam. Isso dói, tá legal? O ser humano vai guardando isso dentro de si até formar uma grande bola prestes a explodir. Você pode ver uma pessoa sorrindo, parecendo feliz, mas não se engane, sempre há coisas além. Por isso somos cegos. Nunca vemos além.

Aquela menina sentada de cabeça baixa tá precisando de ajuda. Mas o que as pessoas fazem? “Fulana está na bad”. Que sociedade maldita. Como se tristeza fosse algo irrelevante, que não precisa de atenção. Idiotas. Quando é tarde eles se perguntam o que tinha de errado. Pais que não veem seus filhos se cortando, se drogando, se destruindo. Escolas que não veem o bullying debaixo do seu nariz. Pais que estrupam os filhos, mães que humilham, irmãos que rejeitam. Malditos. Malditos.

Tudo isso acima faz a mente humana enlouquecer, sabia? Ela definha, fica angustiada e cheia de coisas inexplicáveis, pensamentos perigosos. Você vê no jornal aquele jovem que matou inúmeros estudantes e julga. Já parou pra pensar o que levou ele fazer aquilo? Será que não foi a hipocrisia e idiotice da sociedade? Essa sociedade que nos coloca em um lugar durante anos, em total humilhação e depois quer escolher um futuro pra nós. Ninguém nunca vê. Até que é tarde.

Eu não queria morrer. Eu penso que tenho um futuro pela frente. Eu sei que tenho.
Tenho mais amigos para fazer, mais músicas para escutar, mais pessoas para namorar, mais shows para ir. Tanta coisa. Mas sabe o que eu e outras milhões de pessoas pensam sobre isso? “Eu não tenho força de vontade para continuar. Eu não sou forte, eu não consigo seguir em frente sem derrubar mais uma lagrima”. Sejam mais gentis, por favor. Amem mais, ajudem mais, veem mais, peguem na mão de pessoas que estão se afogando. Dê sua mão. Dê um sorriso.

Eu tenho inúmeros motivos para ter feito o que fiz. Meu próprio pai me abusou e foi por isso que eu morri por dentro. Eu fui morrendo durante dois anos. Fui vendo minha morte sem poder fazer nada a respeito. Quantos cortes eu não fiz? Eu até apelei a drogas, o que não resultou em nada. Meu pai iniciou a destruição. Minha mãe me tirou minha rotina e passou a assistir tudo em total inconsciência. Eu sei que ela via, mas quem disse que ela percebia? Ela era uma mãe tão atenciosa, o que aconteceu? Porque ela ficou tão alheia? Porque ela demonstra amar mais a meu irmão? Porque ela não me ama? Porque ela não me abraca e me beija assim como ela faz com meu irmão?

Porque ela me humilha por causa de um erro tão pequeno? Porque ela não pergunta como foi meu dia na escola? Porque ela não quer saber o motivo de eu estar tanto tempo trancada no quarto? Porque ela não pergunta o motivo de eu usar tanta blusa de manga comprida? Ela ta deixando eu morrer sem fazer nada. E eu não quero as lágrimas de meus pais. Eu sentiria nojo delas. Eu sentiria nojo porque eu passei a odiar meu pai e odiar minha nova mãe. Porque eu ainda amo aquela mãe que me abraçava e me beijava. É como se ela não me amasse mais porque fui usada pelo meu pai, como se ela sentisse nojo de mim.
Sim, ela sabe do abuso, mas jogou pra debaixo do tapete. Assim como aquela maldita escola em que eu passei os piores momentos da minha vida. Eu já tentei suicídio outras vezes. E isso e é horrível, porque eu já sei a sensação. Pensar em suicídio é uma coisa, mas planejar e ir no ponto é outra. Dá aquele aperto no peito, aquela sensação de frio na barriga. “O que acontecerá depois disso?” Eu não acredito em deus, eu creio que depois disso não há nada. Mas enfim, fazer isso é difícil. Eu sou muito covarde. Eu irei deixar muita coisa no mundo e o mundo ira perder muita coisa. Eu sou diferente. Eu sou uma daquelas pessoas que os outros precisam.
            
               Às vezes acho que sou hipócrita porque eu vejo pessoas depressivas e vou ajudar, dar conselhos,  tirar a pessoa daquela situação. Mas eu não faço isso comigo. Porque não dá mais. Droga, eu queria tanto ficar aqui. Porque ninguém me ajudou antes? Ontem vi pessoas dizendo que a série 13 reasons why influência jovens a se suicidarem. Mas eu não acho isso. Eu Estava planejando tirar minha vida a meses e essa serie só fez eu parar e pensar: Estou prestes a fazer algo muito idiota”. Sim, eu tinha desistido de tirsr minha vida por causa de uma série, mas depois algo mudou. Eu voltei com a decisão.

               Então eu digo: Eu não me matei porque uma serie me influenciou, não pensem isso. Eu me matei porque eu não aguentava mais existir assim. Eu ja estava morta, o que mais eu serviria nesse mundo? Uma garota totalmente sem essência, sem nada por dentro. Já imaginou um oceano no meio da tempestade? O céu escuro? É assim dentro de mim. Mas tudo silencioso. Tudo muito destruído e silencioso. Tudo muito angustiante e doloroso.

É difícil acordar de manhã e pensar: “Mais um dia em que irei ter lembranças más” “Mais um dia ao lado de pessoas que não me amam, que me odeiam””Mais um dia sentindo uma imensa vontade de chorar em todos os momentos” “Mais um dia desejando morrer” Então eu quero pedir que sejam mais tolerantes. Depressão não e é frescura. Não neguem ajuda a aqueles que estão angustiados, no fundo do poço. E quando forem se lembrar de mim, pensem em uma Thalia verdadeira. Aquela feliz que vocês viam era total mentira.

Adeus
Thalia Mendes Meireles.”