13 agosto 2010



Os atos libidinosos envolvendo adultos e crianças têm se tornados corriqueiros nas manchetes jornalísticas. Vez ou outra surgi um novo caso de assedio, aliciação, estupro ou qualquer outra forma de abuso sexual atribuída a pessoas que, por alguma razão, sentem-se atraídas por menores de idade. Tanta frequência resultou na propagação de uma palavra que se tornou modismo, quando o assunto é perversão juvenil: pedofilia. Então, o que é a pedofilia? É uma doença? Segundo o site Wikipédia, “a pedofilia é classificada como uma desordem mental e de personalidade do adulto, e também como um desvio sexual, pela Organização Mundial de Saúde”. Mesmo com essas definições ainda é complexo para a sociedade entender a dimensão lasciva da mente de um pedófilo.

Com toda a divulgação que os meios midiáticos fazem a respeito da pedofilia, pouco ainda é sabido dessa “doença” psíquica que atinge uma parcela da população. Acredita-se que, só no Brasil, um terço da população apresente algum tipo de atração por crianças, estas na fase entre 6 a 12 anos de idade. Parece um dado pequeno, porém, em se tratando da grandiosidade do nosso país, isso pode se tornar um grande problema, pois, a liberdade sexual que aqui é difundida, contribui para acelerar o fenômeno da pedofilia.

A iniciação forçada à vida sexual, geralmente começa dentro de casa, pois, a maior parte dos atos pedófilos são cometidos por parentes ligados diretamente a criança. É aterrorizante para um jovem ser bulinado por um pai, tio, ou qualquer outra pessoa do seu seio familiar. Nesse sentido eu tive a oportunidade de conhecer um rapaz, que hoje já é um homem adulto, no qual me relatou a sua traumática infância, quando ele morava com sua mãe e seu padrasto. Não foi fácil convencê-lo a me contar detalhes do assedio que ele sofreu, mas, depois de muito diálogo ele se sentiu mais confortável para abrir seu coração.

Segundo ele, o seu padrasto tinha um desejo desenfreado por crianças, em especial ele. Eram toques em partes especificas do corpo, beijos calorosos e até masturbação por parte do padrasto. Ele, na época, tinha sete anos de idade e não compreendia toda aquela situação. Os assédios foram se tornando cada vez mais frequentes, até que um dia a sua mãe percebeu que ele estava com um comportamento estranho: calado, nervoso, arredio e resolveu levá-lo ao psicólogo. Lá toda a triste realidade do menino foi desmascarada. Atualmente, mesmo estando na fase adulta, ele carrega sequelas do período pelo qual foi vítima dos abusos cometidos pelo padrasto. Essa é apenas uma das muitas histórias vividas por milhares de crianças, não só no Brasil, mas no mundo.

O que chama atenção nos acusados é que são pessoas aparentemente normais. Esse é o grande obstáculo para diagnosticar o pedófilo. Qualquer pessoa que nos circunda pode guardar dentro de si um desejo por infantes e nós nem nos damos conta disso. Por essa razão é tão complicado aceitar ou enquadrar a pedofilia como uma doença. Para muitos, atentar contra a sexualidade de um ser em formação é simplesmente abominável. Eu comungo desse posicionamento, pois não consigo conceber que alguém em sã consciência sinta atração por indivíduos que nem chegaram à puberdade. No entanto, compartilho, em parte, da opinião da ciência quando esta conceitua a pedofilia como um desvio mental e de conduta, pois é isso que ela é.

No meio disso tudo, a sociedade conta com um agravante que se tornou a principal arma dos pedófilos: a internet. Devido à vasta liberdade que essa rede proporciona para os seus usuários é muito comum que surjam sites específicos para as pessoas que sentem atração por crianças. Nesse caso o que é lamentável é a falta de fiscalização, pois aliciar uma criança e/ou adolescente se tornou algo comum em sites e redes sociais.

Silenciosa mas mortal, propagada, mas pouco conhecida, a pedofilia se tornou o carro chefe para classificar as atitudes perversivas de adultos que, por alguma razão, sentem atração por seres que nem sequer entendem a própria sexualidade. Por isso penso que a única solução é redobrar os cuidados com as crianças e denunciar os acusados que cometem esse tipo de atrocidade, mesmo que ele seja parente da vítima. Não podemos deixar impune alguém que feri a individualidade de uma criança, na qual teve o seu corpo precocemente invadido.
Diga NÃO a Pedofilia!

06 agosto 2010



Um Texto Dissertativo/Argumentativo Tem que Ser...


  • DESPROVIDO DE JUIZO DE VALOR: Você não pode expor sua opinião a respeito do tema que está sendo discutido. Mesmo que o texto, de alguma forma, peça o seu posicionamento, procure escrever de forma impessoal, pois isso lhe ajudará na construção dos seus argumentos. E lembre-se que, em se tratando de vestibular, a sua opinião não vale de absolutamente NADA!
  • PRODUZIDO SOB UMA ESTRUTURA ISOTÓPICA: em outras palavras, você deve respeitar a estrutura canônica dos textos dissertativos: introdução, desenvolvimento e conclusão. O não cumprimento desse corpus comprometerá o seu texto, bem como o entendimento deste. Respeite as margens, não faça o seu texto como uma poesia/poema, ou qualquer outro gênero literário, e não desperdice linhas, lembre-se que o seu concorrente não perderá uma linha sequer.
  • REGIDO POR COESÃO, COERÊNCIA E OBJETIVIDADE: Os textos dissertativos são conhecidos pela clareza com que são escritos. Para que isso ocorra é necessário que dois elementos estejam presentes na sua produção: a coesão e a coerência. Ambos constituem o elo de entendibilidade, crucial para que o leitor compreenda o encadeamento dos argumentos que serão apresentados no texto. Por isso, a ausência de uma dessas partes, indubitavelmente, prejudicará a compreensão intencional do texto.
  • RICOS EM DADOS E POLIFONIAS: Quando eu falo rico não quer dizer que você deva encher o texto de informações. Os dados, ou polifonias, servem unicamente para enriquecer o seu texto, pois demonstram que você detém conhecimentos paralelos e que consegue usá-los em correlação com seu texto. Com isso, os seus argumentos estarão fundamentados, não em sua opinião, mas sim na visão de outrem, que pode ser uma pessoa física ou uma entidade de renome.
  • PAUTADO PELA OPINIÃO DE UM GRUPO PENSANTE: Essa regra é importantíssima para quem está prestes a fazer o vestibular, pois, é muito comum o aluno se colocar no texto no momento da exposição dos argumentos. Dissertar é argumentar, mas isso não lhe dá o direito de utilizar mecanismos emotivos para tentar persuadir o leitor. Portanto, por mais polêmico que seja o tema, procure não se envolver emocionalmente com ele. Para que isso aconteça, procure respaldo na opinião de uma massa pensante, ou seja, a sociedade pela qual eu e você fazemos parte.
  • DOTADO DE OPERADORES ARGUMENTATIVOS: Esse recurso coesivo é crucial para a construção de qualquer texto, já que a sua presença estabelece uma melhor compreensão dos argumentos que serão apresentados. Além disso, você estará criando um elo coesivo/coerente entre todos os parágrafos e frases, não permitindo ao leitor margem de erros, no que se refere ao entendimento do texto.
  • BASEADO SOB UMA TESE UNIFORME: Isso, nada mais é do que o caminho pelo qual o seu texto será escrito. Você deverá delimitar o universo semântico do seu texto, para que as fugas temáticas não ocorram. Tente sempre centralizar o foco do seu tema para que a produção textual possa discorrer facilmente.
  • ENQUADRADO EM UM PERFIL TEMÁTICO: Geralmente, os textos de vestibular são baseados em temas sociais e filosóficos. Por isso, tenha cuidado quando for escrever seu texto, no que tange a centralização temática. Procure fazer uma interpretação detalhada do tema que será trabalhado, para evitar erros argumentativos na sua produção escrita. Para isso, seria fundamental fazer um rascunho da redação, antes de passá-la para o papel final.
  • IMPESSOAL: Você nunca, em hipótese alguma, poderá se dirigir ao leitor. Isto por que, os textos argumentativos não permitem que exista uma interação direta entre autor e interlocutor. A ideia desses textos é apresentar argumentos para persuadir o leitor sobre um determinado ponto de vista.
OBS: Se o vestibular solicitar a produção de uma carta argumentativa, o aluno estará livre para interagir com o leitor, que nesse caso seria o destinatário da carta.
  • INTITULADO: A criação do titulo da redação é um dos principais problemas do vestibulando. A dica que eu dou é fazer o título no final do texto. Depois que você escrever o rascunho do seu texto, responder todas as questões objetivas, preencher o gabarito, ai sim, você volta para refazer a redação e cria um titulo para ela. Muitos me perguntam se uma redação sem titulo perde muitos pontos. Eu sempre digo que não, mas o aluno que cria uma frase legal para intitular o seu texto é visto com outros olhos pelos corretores do vestibular.

Essas dicas não servirão de nada se o aluno não exercitar a sua escrita. Aliás, nenhuma regra redacional suprirá as deficiências textuais. Na minha concepção, apenas a leitura e a produção textual constante, poderão solucionar os problemas dos alunos envolvendo a produção dos textos dissertativos.

Espero sinceramente ter ajudado de alguma forma na introdução desses conceitos tão importantes para a produção textual.

BOA REDAÇÃO PARA TODOS!

(CLIQUE AQUI PARA TER MAIS DICAS)

05 agosto 2010

A mensagem da imagem acima é super pejorativa e preconceituosa. Não sabia que existia mais essa barreira contra a massa LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transex). Felizmente essa realidade pode começar a tomar um novo rumo, veja o que fala a matéria publicada pelo site abaixo e fique antenado sobre o andamento desse assunto:


Fonte: r7.com

Por cinco anos, o publicitário paulistano Marcelo (nome fictício), de 24 anos, doou sangue uma vez por semestre. Mas há um ano ele teve de abandonar a prática. Foi nesse tempo que Marcelo deixou de namorar mulheres e passou a se relacionar com homens.

– Eu poderia até mentir na hora de preencher o formulário, já que ninguém vai verificar isso. Mas essa não é uma atitude correta. É uma pena porque era algo que gostava de fazer e achava até divertido.

No Brasil, por normas do Ministério da Saúde e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), homens que fazem sexo com outros homens (grupo conhecido por HSH) são impedidos de doar sangue por um período de 12 meses após a última relação sexual. De acordo com o governo, não há restrições a gays doarem sangue, mas sim aos HSH (veja mais aqui).

Uma consulta pública sobre as novas regras para a doação terminou nesta segunda-feira (2). Para aumentar os estoques dos hemocentros, o ministério pretende incluir como possíveis doadores os jovens de 16 e 17 anos (mediante autorização dos pais) e os idosos entre 65 e 68 anos.

No entanto, existe uma série de proibições que o governo deve manter – e até ampliar –, como a que impede Marcelo de continuar indo aos hemocentros duas vezes por ano.

De acordo com o advogado Gustavo Bernardes, coordenador geral da organização Somos, os homens que estão na mesma situação de Marcelo devem levar essa “discriminação oficial” ao Ministério Público com o objetivo de questionar essa proibição.

- Isso é uma homofobia oficial. Em alguns Estados, o Ministério Público já entrou com ação contra a restrição. As pessoas precisam levar ao conhecimento do MP, porque [o veto] não se justifica mais do ponto de vista científico, e tem caráter moralista.

“Hoje, na primeira década do século 21 os homossexuais já não constituem grupo de risco na transmissão do HIV, vírus já tão difundido também entre heterossexuais.”

Comentário de internauta no sistema de consulta pública do governo (veja outras frases)

Para Gustavo Menezes, assessor jurídico do Cads (Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual, ligado à prefeitura de São Paulo) e coordenador do CCH (Centro de Combate à Homofobia), as pessoas que se sentirem lesadas podem questionar a constitucionalidade desse veto.

Esse é o mesmo caminho sugerido por Toni Reis, presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais).

- Qualquer pessoa que se sinta lesada ou prejudicada deve procurar seus direitos, seja junto ao Ministério Público, na Justiça ou qualquer outro órgão apropriado de defesa dos direitos.

A atitude de recorrer à Justiça, no entanto, terá mais efeito se for realizada por meio de ações coletivas, e não somente por ações isoladas. Essa é a opinião da advogada Patrícia Rios, do Grupo Pela Vidda do Rio de Janeiro e do de Niterói.

As questões coletivas, maiores, têm muito mais efeito que as ações individuais. Devemos tentar desconsiderar essa norma enquanto sociedade civil organizada. Temos que procurar o Ministério Público para desconstruir [esse veto] em conjunto. A constituição não permite discriminação em nenhuma forma.

Proibição contradiz políticas de combate ao preconceito

Marcelo diz que nunca teve uma relação homossexual sem camisinha, postura que não adotava de modo tão enfático quando se relacionava com mulheres.

– Eu tenho consciência de que o sexo anal traz mais riscos de infecção, então passei a me proteger mais do que antes. Com algumas mulheres eu cheguei a transar sem camisinha, dependendo da intimidade, mas com homens, não.

O publicitário conta que se sente injustiçado pelo fato de não poder mais doar sangue, apesar de, segundo ele, ter um comportamento sexual mais seguro do que a maior parte dos seus amigos heterossexuais.

É por atitudes como a de Marcelo que a epidemia da Aids mudou o perfil que apresentava nos anos 80 e deixou de afetar somente os homossexuais. Atualmente não existem mais grupos de risco na prevenção à doença, diz Bernardes.

- Todos nós corremos risco de nos infectarmos. A Aids está disseminada em toda a população.

Prova disso é que, no Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que, há mais de uma década, são identificados mais casos de Aids entre os homens heterossexuais do que entre os homossexuais e bissexuais juntos (veja o gráfico no r7).

Diante da mudança no perfil da doença, Patrícia afirma que proibir os gays de doar sangue é um retrocesso, já que terão que continuar lidando com o estigma da Aids.

- Estamos retornando e reafirmando preconceitos históricos.

No entanto, mesmo com essa alteração epidemiológica, a Aids continua sendo uma doença com maior prevalência entre os HSH.

Pesquisa realizada pelo Departamento de DST/Aids em dez cidades brasileiras mostrou que a prevalência do HIV nesse grupo (entre os homens com mais de 18 anos) foi estimada em 10,5%. Já na população masculina em geral, de 15 a 49 anos, a estimativa é de 0,8%.

Revisão da norma

Durante a Conferência Internacional da ONU sobre Aids, realizada no mês de julho em Viena (Áustria), um dos maiores pesquisadores sobre o assunto no mundo, o canadense Mark Wainberg, criticou o fato de, em 2010, vários países ainda manterem o veto baseado em conceitos do início da década de 80.

Para o médico infectologista Esper Kallás, da USP (Universidade de São Paulo), isso indica que a regra deveria ser revista e que cada caso seja avaliado individualmente. A vulnerabilidade de um indivíduo à doença é definida por fatores como o número de parceiros sexuais, o uso de preservativos e histórico de infecções por outras DSTs, diz o especialista.

– Você tem casos de casais gays que são estáveis e têm um risco de exposição muito baixa ao vírus, enquanto heterossexuais adotam comportamentos de risco e correm um risco altíssimo. Por isso, uma regra horizontal que proíbe todos os homens que fazem sexo com outros homens de doar sangue deveria ser revista. A análise deve ser individual.

“O artigo não é discriminatório. É técnico e baseado em evidências científicas.”

Comentário de internauta no sistema de consulta pública do governo (veja outras frases)


Apesar disso, a ABHH (Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia) apoia a atitude do ministério de manter a proibição nas novas regras sobre o assunto. O hematologista João Carlos Pina Saraiva, diretor de comunicação da associação, diz que os dados sobre a doença ainda não permitem acabar com a proibição.

– Nós ainda não temos dados epidemiológicos consistentes que neguem a proibição. Essa instrução não tem cunho preconceituoso e é uma opção que tem de ser respeitada. O que todos pretendemos é preservar a qualidade do sangue, o que passa por analisar as evidências. Não podemos fugir delas.

Se a regra for mantida, Gustavo Menezes, do Cads, espera que os motivos da proibição fiquem bem claros para a sociedade.

- Se ela for mantida, é preciso saber o porquê, quais as razões que a justificam. Que os gestores de saúde se manifestem, porque não dá mais pra ficar na suposição.

04 agosto 2010




Canto de Oxum
Maria Bethânia
Composição: Toquinho e Vinicius de Moraes

Quando eu morrer
voltarei para buscar os instantes
que não vivi junto do mar

Nhem-nhem-nhem
Nhem-nhem ô xorodô
Nhem-nhem-nhem
Nhem-nhem ô xorodô
É o mar, é o mar
Fé-fé xorodô
Oxum era rainha,
Na mão direita tinha
O seu espelho onde vivia á se mirar
Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá.
Onde ela vive?
Onde ela mora?
Nas águas,
Na loca de pedra,
Num palácio encantado,
No fundo do mar.
O que ela gosta?
O que ela adora?
Perfume,
Flor, espelho e pente
Toda sorte de presente
Pra ela se enfeitar.
Como se saúda a Rainha do Mar?
Como se saúda a Rainha do Mar?
Alodê, Odofiaba,
Minha-mãe, Mãe-d'água,
Odoyá!
Qual é seu dia,
Nossa Senhora?
É dia dois de fevereiro
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.
O que ela canta?
Por que ela chora?
Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar.
Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Pescador e marinheiro
que escuta a sereia cantar.
É com povo que é praieiro que Dona Iemanjá
quer se casar.



Existem experiências na vida que são únicas, inesquecíveis. Momentos pelos quais nunca esqueceremos. Algo assim aconteceu comigo ao assistir, pela primeira vez, um culto da cultura afro-brasileira, em outras palavras, o candomblé. Sempre fui fascinado pela diversidade cultural do povo africano, desde os costumes, ritmos, crenças, cores, músicas e danças. Esta última faz parte da minha vida há tempos, pois, para quem não sabe, eu sou bailarino e atualmente faço ballet clássico. No entanto, quando eu comecei a dar os primeiros passos no mundo da dança, foram os ritmos africanos que me seduziram.

Sempre tive uma intensa atração pelas batidas dos instrumentos que compõe a sonoridade desse povo. Por causa disso, sempre respeitei o legado artístico dessa cultura, mesmo não sendo crédulo dos seus dogmas religiosos. Ainda assim, resolvi passar a minha experiência para o papel, no intuito de desmistificar alguns mitos que circundam as tradições da religiosidade africana.

Como se sabe, com a chegada forçada dos negros trazidos da África, muito da cultura desse povo veio acompanhado. Esse grande roubo histórico resultou na sedimentação da pluralidade cultural, na qual o Brasil foi construído. Dentre tantos costumes agregados, a religião pode ser considerada como uma das mais marcantes aquisições deixadas pelos africanos em nossa terra. Com um jeito diferente de celebração, o candomblé, como é conhecido, caracteriza-se por cultuar os elementos da natureza, personificados nas figuras de divindades, ou orixás, que representam o mar, os rios, a floresta, o ar...

É claro que o choque entre o candomblé e a nossa cultura católica foi inevitável. O nosso país, de maioria cristã, olhava e olha de forma pejorativa para esses cultos, associando-os ao satanismo, ou como algo ligado a forças malignas. Esse pensamento limitado se perpetuou até os dias de hoje, pois, ainda há essa concepção errônea das celebrações africanas. Muitos preferem criticar a conhecer a fundo os preceitos propagados pelo candomblé que na sua essência só prega coisas positivas, para aqueles que o seguem.

Bem, voltando a minha experiência, eu fui visitar uma celebração dessa religião e fiquei impressionado com o que vi. Muitas cores, danças, risos, pessoas fazendo pedidos, ou agradecendo pelas graças alcançadas. Não presenciei nada demoníaco ou sobrenatural, apenas pessoas que, por acreditarem na magia do candomblé, recebiam no corpo as suas divindades, das quais são filhos. Evidentemente que esse tipo de manifestação causa certo estranhamento, sobretudo em nós que carregamos um discurso cristão tão arraigado.

Confesso que não entendi muita coisa da cerimônia que assisti. Mesmo acompanhado do meu amigo, que é adepto do candomblé, eu não consegui captar toda a essência daquele momento. Muitas vezes fui levado pelas toadas e pelos giros, deixando muita coisa passar pelas minhas vistas. Todavia, o que eu conseguir assimilar foi suficiente para desconstruir a minha visão limitada dos cultos afros. Lembro que quando acabou eu estava tão feliz, tão renovado. Cheguei a conversar com algumas pessoas que ali estavam e percebi que elas eram tão normais quantos quaisquer outras, e que tinham um extremo respeito pela vida do próximo, pela natureza e por tudo o que é bom.

Não podemos classificar como bom ou ruim algo que desconhecemos. Desse principio parte a intolerância que, lamentavelmente, anda lado a lado com a ignorância. Por isso, sugiro que assistam um culto afro, para desconstruir a nossa visão pseudo-moralista-religiosa, no intuito de entender e desmistificar alguns conceitos errôneos propagados em nossa sociedade. Claro que você não pode ir a qualquer centro de candomblé, pois, infelizmente existem pessoas que se dizem ligadas as tradições africanas, quando na verdade, são indivíduos que desvirtuam os ensinamentos culturais trazidos no sangue dos negros que aqui chegaram.

Vá a um local de renome e que tenha uma tradição. Conheça o que é o candomblé; o que ele pretende; quais são os seus ensinamentos; suas músicas, ritos e danças. Tenho certeza que, se você não mudar de opinião, pelo menos saíra de lá com uma visão menos discriminatória dessa religião que, como outras que formaram o Brasil, só pregam o bem, o amor e a paz entre Deus, o homem e a natureza.

SE VOCÊ AINDA TEM DÚVIDAS SOBRE O CANDOMBLÉ, OS VÍDEOS ABAIXAM ESCLARECEM ISSO PARA VOCÊ. APROVEITE!







Marina Colasanti


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)


Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna.


O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

02 agosto 2010



Todo mundo já tá cansado de ouvir coisas negativas a respeito da educação pública do Brasil. São escolas sem professores, sem material didático, com estrutura precária e uma infinidade de problemas que assolam essa rede de ensino. Entretanto, ouvir falar não basta, é necessário estar no cotidiano das crianças que estudam nessas instituições, para entender um pouco da realidade vivida por elas. E, é essa experiência da qual eu tentarei narrar para vocês, pois estou ensinando numa escola pública próxima da minha residência e estou perplexo com a realidade dos jovens que dependem do colégio para ter um futuro mais promissor.

Como o próprio nome já diz, as escolas públicas atendem as pessoas que não dispõem de recursos financeiros para pagar uma particular. Essas sedes educacionais estão geralmente localizadas nas partes mais pobres do país, ou seja, nas periferias. Com isso, o aluno já nasce com o primeiro desafio: sobreviver no ambiente onde mora que, muitas vezes, é cercado pela violência, desemprego, miséria e outros tantos problemas que acometem a massa mais desprovida da população. O outro desafio dele é encontrar uma saída que o leve para um caminho mais seguro e que dê as ferramentas necessárias para transformar a sua realidade. Aí entra a escola.

Nesse quesito, lamentavelmente, as escolas públicas não estão desempenhando muito bem o seu papel. Dentre as causas que me levam a afirmar isso está à própria escola como irradiadora de conhecimento. Essa instituição se entregou a números estatísticos que tentam falsear os erros cometidos por ela no que se refere à educação. Isto porque, constantemente é divulgada alguma noticia dizendo que o Brasil está diminuindo os seus índices de analfabetismo, que a educação cresce a todo o momento, entre outros dados que tentam mascarar a verdadeira realidade educacional do país.

Na verdade, o que eu vejo na escola na qual leciono é bem diferente. São crianças entre 9 e 12 anos de idade que ainda estão na alfabetização e que, a maioria, não sabe nem ler. Esse problema toma maiores proporções quando a idade dos jovens vai aumentando. Entre 13 e 18 anos de idade é fácil detectar a deficiência de aprendizagem no que se refere a matérias básicas como português e matemática. Os alunos não conseguem responder os cálculos mais simples, nem tão pouco são capazes de interpretar um texto, pois apresentam uma grande deficiência na leitura. E onde está a escola que não percebe essas falhas no ensino?

A resposta é simples, não está. A escola é omissa em vários aspectos. O primeiro, na minha visão, é a falta de acompanhamento da realidade do aluno fora dos seus muros. O segundo ponto é a falta de cobranças, por parte do colégio para com os pais desses alunos. Deve haver uma interação conjunta entre esses dois pilares, pais e escola, tão importantes para a formação da criança, para que os problemas educacionais sejam atenuados. E o terceiro ponto é o governo que prefere mascarar a realidade da escola, do que encara-la de frente, no intuito de encontrar uma solução imediata para solucionar as mazelas do ensino.

Lá onde eu dou aula, ocorre isso e um pouco mais. A direção não está nem um pouco preocupada com o desempenho dos alunos. O quadro docente é composto por poucos professores formados, pois a maioria é estagiário, ou seja, pessoas inexperientes que assumem uma sala de aula sem ter um real preparo. Em meio a isso, ainda tem a família das crianças que, geralmente não tem a devida estrutura para guiar o curso desses problemas para um caminho mais seguro. O resultado não poderia ser pior para o aluno: repetência, notas baixas e aprovações errôneas para séries mais avançadas.

No meio disso tudo só existe uma vitima, o aluno. Ele não tem culpa se a escola é omissa, se o governo não desempenha bem o seu papel, nem tão pouco se os seus pais não conseguem orientá-lo corretamente. Ele fica nesse fogo cruzado, sendo usado como marionete de um lado para outro, aguardando passivamente que ocorra alguma melhora. Enquanto isso não acontece, a sociedade prefere acreditar que a educação está melhorando e que o Brasil está se igualando aos países de primeiro mundo, dos quais erradicaram a quase zero os índices de analfabetismo. Ledo engano. A realidade é bem diferente e está longe de ser solucionada.

Por isso, acredito que não existe uma fórmula mágica para resolver os reais problemas educacionais do Brasil. Não adianta investir milhões e milhões sem acompanhar o aprendizado dessas crianças no seu dia-a-dia. Não adianta encher as manchetes jornalísticas com números mentirosos, para tentar ludibriar a sociedade. O que a educação precisa é de mãos firmes e competentes que tomem as rédeas do ensino e o guiem para o caminho da verdade, do aprendizado. Enquanto isso não acontece, vivemos a ilusão de que a educação do país está melhorando. Tolice! Sugiro a você uma visitinha a uma escola pública, para perceber o quão verídicas são as minhas palavras.

01 agosto 2010



Uma Voz No Vento...
Leila Pinheiro
Composição: Marcus Vianna

Uma voz no vento
Chama azul do dia
Doce perfume, canção
Uma voz no tempo
Resiste na noite
E as lágrimas fogem de ti
Uma voz no vento
Uma voz me chama
Brisa de amor, doce coração
Uma voz no tempo
Carinho na alma
E as lágrimas fogem de ti

Se quem chegou, partiu
Se quem virá, já foi
Só pra quem fica os dias são todos iguais
Mil sonhos pra enterrar
Ventos e vendavais
Corpo e alma afetam
Se os anos pesam demais no coração

E as lágrimas fogem de ti
E lágrimas fogem de mim
E um rio se forma de nós.



Visto no blog: Michel Chaves (Nem comento)


Lady Gaga é o mais recente ídolo pop da cena internacional. Entenda-se por ídolo pop um indivíduo que encanta as massas com a habilidade artística de que é capaz sendo seu autor ou o mero representante de uma estética inventada por publicitários e estrategistas de produtos culturais. Nesse sentido, todo ídolo pop age como o flautista de Hamelin conduzindo por certo efeito de hipnose uma quantidade sempre impressionante de pessoas. Ele é também um guia estético e moral das massas. A propósito, entenda-se por massa um grupo de indivíduos que, ao se encontrar com outros, perde justamente a individualidade, tornando-se sujeito de sua própria dessubjetivação. Em outras palavras, ele é hipnotizado como se estranhamente desejasse sê-lo. A Indústria Cultural depende desse mecanismo, por meio do qual oferece ao indivíduo a oportunidade de se perder com a sensação de que está ganhando. O ídolo pop é a humana mercadoria que permite o gozo pelo logro que o espectador logrado aplica a si mesmo.

Lady Gaga certamente veio para nos lograr. Mas, como disse Walter Benjamin sobre livros (e também putas), muitas vezes a mercadoria vale muito mais do que o dinheirinho que pagamos por ela.

O paradoxal desejo das massas Antes de mais nada, é preciso ver que Lady Gaga, a despeito da qualidade boa ou má de si mesma e do que ela produz, vem a nós com números impressionantes. Se na internet seus vídeos são vistos por milhões de pessoas (certamente, quando você ler este artigo, os números serão ainda maiores) é porque ela mesma sabe – ou o diretor e roteirista de seus belos videoclipes nos quais a quantidade aparece, seja na nota de dólar com o rosto de Gaga como no vídeo de “Paparazzi”, seja em “Bad Romance” nos índices na cena dos computadores – que se trata em sua obra da questão da quantidade, mais do que da qualidade. A Indústria Cultural sempre tem na quantidade uma questão mais importante do que a qualidade, mas, se Lady Gaga sabe disso e não o esconde, é porque elevou o cinismo a discurso, mas, ao mesmo tempo, lança-nos uma ironia capaz de fazer pensar.

A questão da quantidade adquire um contorno subjetivo na mentalidade dos indivíduos aniquilados no todo. Assim, uma característica expositiva da condição das massas de nosso tempo é o próprio “desejo de ser massa”. Trata-se da ânsia de adesão ao todo que se disfarça no desejo de saber o que todo mundo sabe, ver o que todo mundo vê. Complicado falar de desejo das massas, quando a “massa” remonta à possibilidade de se deixar moldar pela ação exterior justamente por ausência de desejo. Podemos, no entanto, entendê-lo usando uma imagem gasta como a da ovelha a participar do rebanho. Um modo de ter lugar desaparecendo mimeticamente no todo. Nesse sentido, o desejo de ser massa é o mesmo que nos coloca na situação de fazer parte da audiência fazendo com que liguemos a televisão no programa mais visto, que queiramos ver o filme com a maior bilheteria, que, caso cheguemos a desejar um livro, seja da lista dos mais vendidos. Fazer parte da audiência é a garantia de que em algum momento estaremos juntos, que faremos parte de uma comunidade mesmo que ela seja apenas “espectro”. A angústia da solidão, da separação e da própria individuação desaparece por um passe de mágica da imagem do ídolo pop.

Uma estética pop para o pós-feminismo? A obra da jovem Lady Gaga não é objeto descartável como a maioria das mercadorias promovidas no contexto da indústria e do mercado cultural. Se nos detivermos em sua música, em sua dança ou em sua imagem isoladamente, não entenderemos o todo da mercadoria. Portanto, é preciso estar atento à performance que ela realiza. A apreciação disto que devemos hoje chamar de obra-produto ou produto-obra deve começar por aí, tendo em vista que, acima de tudo, Lady Gaga é uma performer que agrega em seus vídeos diversas formas artísticas que vão da música ao cinema, passando pela dança e chegando a uma relação curiosa com um aspecto inusitado da produção contemporânea nas artes visuais. Lady Gaga tange em seus vídeos mais famosos questões que estão presentes na obra de artistas contemporâneas que podemos chamar de vanguardistas por falta de expressão melhor, tais como Cindy Sherman, Daniela Edburg e Chantal Michel. No Brasil, Karine Alexandrino, Paola Rettore ou o pernambucano Bruno Vilella praticam a mesma suave ironia até o mais cáustico deboche com trabalhos sobre mulheres mortas.

O tema da mulher morta torna-se quase um lugar-comum na arte contemporânea, como foi no século 19. Naquele tempo, ele representava o impulso próprio do romantismo que via na mulher falecida e inválida um ideal agora retomado de modo irônico por diversas artistas contemporâneas. Lady Gaga vai, no entanto, muito além dessas artistas em termos de coragem feminista. Enquanto elas zombam das mulheres estereotipadas que morrem como Ofélias por um homem, Lady Gaga, de modo mais surpreendente e corajoso do que importantes artistas cultas, dá um passo adiante.

No vídeo de “Paparazzi” fica exposto o amor-ódio que um homem nutre por uma mulher, a invalidez à qual ela é temporariamente condenada por sua violência e, por fim, uma vingança inesperada com o assassinato desse mesmo homem. “Incitação à violência”, pensarão as mentes mais simples; “feminismo como ódio aos homens”, dirá a irreflexão sexista acomodada, quando na verdade se trata de uma irônica inversão no cerne mesmo do jogo simbólico que separa mulheres e homens. Se em “Paparazzi” o deboche beira o perverso autorizado psicanaliticamente (a mulher sai da posição deprimida ou melancólica e aprende a gozar com seu algoz, que ela transforma em vítima), em “Bad Romance”, “o vídeo mais visto de todos os tempos”, mulheres de branco – como noivas dançantes – surgem de dentro de esquifes futuristas para curar uma louca que chora querendo ter um “mau romance” com um homem. Um contraponto é criado no vídeo entre a imagem do rosto da própria Gaga levissimamente maquiado, demarcando o caráter angelical de sua personagem, em contraposição ao caráter doentio da personagem da mesma Gaga de cabelos arrepiados e olhos esbugalhados. Entre eles a bailarina sensual junto de suas companheiras faz o elogio do corpo que é obrigado a se erotizar diante de um grupo de homens.

A noiva é queimada. Sobre a cama, no fim, a noiva como um robô um pouco avariado, mas ainda viva, contempla o noivo cadáver. A ironia é o elogio do amor-paixão, do amor-doença e morte ao qual foi reduzido o amor romântico pela estética pop da ninfa pós-feminista. O feminismo só tem a agradecer.

Em “Telephone”, a estética eleita é a da lésbica e da pin-up. Ambas criminosas. A primeira por ser uma forma de vida feminina que dispensa os homens, a segunda por ameaçá-los com uma estética da captura (a mulher-imagem-de-papel, a mulher “cromo”, a mulher-desenho-animado que configura o conceito do “broto”, do “pitéu”). No mesmo vídeo o personagem de Gaga compartilha com Beyoncé uma cumplicidade incomum entre mulheres.

Esse sinal é dado no meio do vídeo, quando Beyoncé vai resgatar Gaga na prisão e ambas mordem um pedaço de pão, que logo é lançado fora como algo desprezível. A comida mostra-se aí como o objeto do crime. O vídeo é mais que um elogio ao assassinato do mau romance, ou da vingança contra o evidente amor bandido de quem a personagem de Beyoncé quer se vingar. Trata-se de uma profanação da comida pelo veneno que nela é depositado. O amor bandido é morto pela comida, uma arma simbólica muito poderosa associada à imagem da mulher-mãe, da mulher-doação, dedicada a alimentar seu homem na antipolítica ordem doméstica.

O palco é a lanchonete de beira de estrada como em Assassinos por Natureza, de Oliver Stone. O assassinato é o objetivo do serviço das duas moças perversas que, no fim do vídeo, dançam vestidas com as cores da bandeira norte-americana – meio Mulher Maravilha – diante dos cadáveres de suas vítimas, já que, além do amor bandido, todos morreram. Cinismo? Sem dúvida, mas como paradoxal autodenúncia.

Mas o maior crime de Gaga, aquilo que fará com que tantos a odeiem, não será, no entanto, o feminismo sem-vergonha que ela pratica como uma brincadeira em que o crime é justamente o que compensa? E, como ídolo pop, não poderá soar aos mais conservadores como um modo de rebelar as massas de mulheres subjugadas pela perversa autorização ao gozo, doa a quem doer?